Á UMA DAMA ESQUIVA
Filena, eu que mal vos fiz,
Que sempre a matar-me andaes,
Uma vez quando me olhaes,
Outra quando me fugis?
Vi-vos e logo vos quiz
Tão inseparavelmente,
Que nem a vista o presente,
Nem menos sabe dizer-me
Entre o ver-vos e o render-me
Qual foi primeiro accidente.
Vós sois tão esquiva e tal,
Que outras coisas não sabendo,
Da vossa esquivança entendo
Que meu amor vos faz mal:
Não cabe em meu natural
Fugir de quem me maltracta,
E si me sahir tão barata
A vingança de adorar-vos,
Quero querer-vos e amar-vos,
Porque fiqueis mais ingrata.
Não sinto esta pena atroz
Que me fazeis padecer,
Antes folgo de morrer,
Vendo que morro por vós:
E si com passo veloz
Presinto a morte chegar,
Não sinto o ver-me acabar,
Sinto a gloria que vos cresce,
Que uma ingrata não merece
A gloria de me matar.
Vivam vossas esquivanças
E vossa crueldade viva,
Que a sem razão de uma esquiva
Acredita as esperanças.
Tudo tem certas mudanças,
Tambem se muda o rigor;
E si amor me dá valor
Para soffrer-vos e amar-vos,
Claro está que hão de mudar-vos
Firmezas do meu amor.
DANDO UMA QUEDA
Á VISTA DE UMA DAMA QUE SE ENTENDE SER A CELEBRADA BABÚ.
Filena, o ter eu cahido
Nenhum susto me tem dado,
Porque a vossos pés prostrado
Me julgo então mais subido:
Direis que fiquei sentido,
Mas sabei que não sentira,
Inda que me não subira
A cahir onde cahi,
Si como no chão me vi,
Com vosco em terra me vira.
Porém que isso me succeda,
Por mais quédas que inda dê,
Não creio, pois vejo que
Não tenho com vosco quéda.
Vossa crueza me veda
Este bem que eu tanto abraço:
Quem viu similhante passo,
Que encontre meu desvario,
Filena, em vosso desvio
A minha quéda embaraço.
Confesso que então cahido
Fiz tenção de me sangrar,
Mas não me quiz mais picar,
Porque assaz fiquei corrido.
Não andei pouco advertido,
Fallo como quem vos ama;
Porque eu sei, formosa dama,
Que por mais que me sangrasse,
Livre estou de que chegasse
A vêr-me por vós na cama.
E com toda essa desgraça
Por satisfeito me dera
Si com cahir merecêra
Siquer cahir-vos em graça:
Mas porque, Filena, faça
D’esta quéda estimação,
Inda sobeja razão,
Si a quéda motivo é
De prostar-me a vosso pé
Para beijar-vos a mão.
Dizeis que quereis tomar,
Para dar, vosso conselho:
Quereis conselho de velho?
Nunca o tomeis para o dar:
Os olhos se hão de fechar
Para o dar, e abrir da mão,
Com razão ou sem razão,
Que os negocios que se tractam,
Com conselhos que dilatam,
Nunca se conseguirão.
Si conselhos não tomaes,
Quando alvedrios rendeis,
Como conselhos quereis,
Quando alvedrios pagaes?
Sem conselho me mataes,
E daes-me a vida em conselho?
Este estylo é já tão velho
Na eschola da tyrannia,
Que da mais tyranna harpia
Podereis vós ser espelho.
JULGA
O P. COM SUBTILEZA TODA A CULPA DE ACONTECIMENTOS INIQUOS NO TEMPO ABSTRACTO. ENTENDE-SE SER ESTA OBRA SATYRA AO GOVERNADOR ANTONIO DE SOUSA DE MENEZES, POR ALCUNHA O BRAÇO DE PRATA
Tempo, que tudo trasfegas,
Fazendo aos pelludos calvos,
E pelos tornar mais alvos
Até os bigodes lhe esfregas:
Todas as caras congregas,
E á cada uma pões mudas;
Tudo acabas, nada ajudas:
Ao rico pões em pobreza,
Ao pobre dando riqueza,
Só para mim te não mudas.
Tu tens dado em malquerer-me,
Pois vejo que dá em faltar-te
Tempo só para mudar-te,
Si é para favorecer-me:
Por conservar-me e manter-me
No meu infeliz estado,
Até em mudar-te has faltado,
E estás tão constante agora,
Que para minha melhora
De mudanças te has mudado.
Tu que esmaltas e prateias
Tanta guedelha dourada,
E tanta face encarnada
Descoras, turbas e affeias:
Que sejas pincel não creias,
Si não dias já passados,
Mas si esmaltes prateados
Branqueam tantos cabellos,
Como branqueando pellos,
Não me branqueias cruzados?
Si corres tão apressado,
Como paraste commigo?
Corre outra vez, inimigo,
Que o teu curro é meu sangrado:
Corre para vir mudado,
Não pares por mal de um triste;
Porque si pobre me viste,
Paraste ha tantas Auroras,
Si de tão infaustas horas,
O teu relogio consiste?
O certo é, que és um caco,
Um ladrão da mocidade,
Por isso nessa cidade
Corre um tempo tão velhaco:
Farinha, assucar, tabaco
No teu tempo não se alcança;
E por tua intemperança
Te culpa o Brazil inteiro;
Porque sempre és o primeiro
Movel de qualquer mudança.
Não ha já quem te supporte,
E quem armado te vê
De fouce e relogio, crê
Que és o precursor da morte:
Vens adeante de sorte
E com tão fino artificio
Que á morte forras o officio;
Pois ao tempo de morrer,
Não tendo já que fazer,
Perde a morte o exercicio.
Si o tempo consta de dias,
Que revolve o céu opaco,
Como tu, tempo velhaco,
Constas de velhacarias?
Não temes que as carestias,
Que de ti se hão de escrever,
Te darão á aborrecer
Tanto ás futuras edades,
Que ouvindo as tuas maldades
A cara te hão de trocer.
Si porque penas me dês,
Páras cruel e inhumano,
O céu sancto e soberano
Te fará mover os pés:
Esse azul movel que vês
Te fará ser tão corrente,
Que não parando entre a gente
Preveja a Bahia inteira
Que has de correr a carreira
Com pregão de delinquente.
Á LUIZ CESAR DE MENEZES
GOVERNADOR DE ANGOLA, PEDINDO-LHE DE CARCONDA CERTO FAVOR OU DESPACHO POR TITULOS DE COMEDIAS
Meu príncipe, d’esta vez
Espero que o plectro obre,
Ainda que para um pobre
Tudo succede al revéz:
O que tão raro me fez,
Levante-me hoje de raso,
Que é já meu timbre em tal caso
Querer por solo querer,
Porfiar hasta vencer
Los empenos de un acaso.
Tanta tragedia e inopia
Tenho em Angola soffrido,
Que em mim se vê el parecido
Del mentir de la Ethiopia:
De tal retrato e tal cópia
Foi causa um general zêlo,
Mas por divino modelo
Quem tanto me fez cahir,
Tanto me viu resurgir:
Lo que juizios del cielo!
Senhor: favores tão grandes
Nunca os poderei pagar:
Mas eu hei de vos mandar
Un valiente Negro en Flandes:
Ao senhor Vasco Fernandes,
A quem por fé tanto adoro,
Por quien a Cruz Sancta imploro,
Que lhe dê Sancta Cruz Neto,
Tambem mandar-lhe prometto
Un esclavo en grilhos de oro.
Dois negros são não pequenos,
Que offereço de antemão;
E posto que só dois são
Pocos bastan, si son buenos:
A El-rei, quando não dê menos,
Ao menos o servirei
Com muita amigavel lei,
E prometto desde aqui
Que tenha em Carconda em mi
El maior Amigo El-rei.
REDARGUE
O P. A DOUTRINA OU MAXIMA DO BEM VIVER QUE MUITOS POLITICOS SEGUEM DE INVOLVER-SE NA CONFUSÃO DE HOMENS PERDIDOS E NESCIOS, PARA PASSAR COM MENOS INCOMMODO ESTA HUMANA VIDA
Que nescio que eu era então
Quando cuidava o não era!
Mas o tempo, a edade, a era
Puderam mais que a razão:
Fiei-me na discrição,
E perdi-me, em que me pez,
E agora dando ao travez,
Vem no cabo á conhecer
Que o tempo veiu a fazer
O que a razão nunca fez.
O tempo me tem mostrado
Que, por me não conformar
Com o tempo e com logar,
Estou de todo arruinado:
Na politica de estado
Nunca houve principios certos,
E posto que homens expertos
Alguns documentos deram,
Tudo o que nisto escreveram
São contingentes acertos.
Muitos por vias erradas
Têm acertos mui perfeitos,
Muitos por meios direitos
Não dão sem erro as passadas:
Cousas tão disparatadas
Obra-as a sorte importuna,
Que de indignos é columna.
E si me ha de ser preciso
Lograr fortuna sem sizo,
Eu renuncio á fortuna.
Para ter por mim bons fados
Escuso discretos meios,
Que ha muitos burros sem freios
E bem afortunados:
Logo os que andara bem livrados,
Não é propria diligencia,
É o ceu e sua influencia,
São forças do fado puras,
Que põem mentidas figuras
No theatro da prudencia.
De diques de agua cercaram
Esta nossa cidadella,
Todos se molharam nella,
E todos tontos ficaram:
Eu, á quem os céus livraram
D’esta agua, fonte da asnia,
Fiquei são da fantasia
Por meu mal, pois nestes tratos
Entre tantos insensatos
Por sisudo eu só perdia.
Vinham tontos em manada,
Um simples, outro doudete,
Este me dava um moquete,
Aquell’outro uma punhada:
Tá: que sou pessoa honrada,
E um homem de entendimento,
Qual honrado ou qual talento?
Foram-me pondo num trapo,
Vi-me tornado um farrapo,
Porque um tolo fará cento.
Considerei logo então
Os baldões que padecia,
Vagarosamente um dia,
Com toda a circumspecção:
Assentei por conclusão
Ser duro de os correger,
E livrar do seu poder,
Dizendo com grande magua:
Si me não molho nesta agua,
Mal posso entre estes viver.
Eia: estamos na Bahia,
Onde agrada a adulação,
Onde a verdade é baldão,
E a virtude hypocrisia:
Sigamos esta harmonia
De tão fatua consonancia,
E inda que seja ignorancia
Seguir erros conhecidos,
Sejam-me a mim permittidos
Si em ser besta está a ganancia.
Alto pois com planta presta
Me vou ao Dique botar,
E ou me hei de nelle afogar,
Ou tambem hei de ser besta:
Do bico do pé até a testa
Lavei as carnes e os ossos:
Ei-los vêm com alvoroços
Todos para mim correndo,
Ei-los me abraçam dizendo:
«Agora sim que é dos nossos.»
Dei por besta em mais valer,
Um me serve, outro me presta,
Não sou eu de todo besta,
Pois tractei de o parecer:
Assim vim á merecer
Favores e applausos tantos
Pelos meus nescios encantos,
Que emfim e por derradeiro
Fui gallo do seu poleiro
E lhes dava os dias sanctos.
Já sou na terra bem visto,
Louvado e engrandecido,
Já passei de aborrecido
Ao auge de ser bemquisto:
Já entre os grandes me alisto,
E amigos são quantos topo:
Estou fabula de Esopo,
Vendo fallar animaes,
E fallando eu que elles mais,
Bebemos todos num copo.
Seja pois a conclusão,
Que eu me puz aqui a escrever
O que devia fazer,
Mas que tal faça, isso não:
Decrete a Divina mão,
Influam malignos fados,
Seja eu entre os desgraçados
Exemplo da desventura,
Não culpem minha cordura,
Que eu sei que são meus peccados.
DESCREVE
O RICO FEITIO DE UM CELEBRE GREGORIO DE NEGREIROS EM QUE VARIAS VEZES FALLA, MOÇO COM QUEM GRACEJAVA COM DIVERTIMENTO NAQUELLE SITIO
ROMANCE
Eu vos retrato Gregorio,
Desde a cabeça á tamanca,
Co’ um pincel esfarrapado
Numa pobrissima tabua.
Tão pobre é nossa gadelha,
Que nem de lendias é farta,
E inda que cheia de aneis,
São aneis de piassaba.
Vossa cara é tão estreita,
Tão faminta e apertada,
Que dá inveja aos Buçacos,
E que entender ás Thebaidas.
Tende dois dedos de testa
Porque da frente á fachada
Quiz Deus e a vossa miseria
Que não chegue á pollegada.
Os olhos dois ermitães,
Que em uma lobrega estancia
Sempre fazem penitencia
Nas grutas da vossa cara.
Dois arcos quizeram ser
As sobrancelhas, mas para
Os dois arcos se acabarem
Até de pello houve falta.
Vosso pae vos amassou,
Porém com miseria tanta,
Que tremeu a natureza
Que algum membro vos faltára.
Deu-vos tão curto o nariz,
Que parece uma migalha,
E no tempo dos defluxos
Para assoar-vos não basta.
Vós devieis de ser feito
No tempo em que a lua se acha
Pobrissima já de luz,
Correndo á minguante quarta.
Pareceis homem meminho,
Como o meminho da palma,
O mais pequeno na rua,
E o mais pobresinho em casa.
Vamos aos vossos vestidos,
E peguemos na casaca,
Com tento, porque sem tento
A leva qualquer palavra.
Anda tão rota, senhor,
Que tenho por coisa clara
Que no Tribunal da Rota
De Roma está sentenciada.
A vossa grande pobreza
Para perpetua lembrança
Dedico á de Manuel Trapo,
Que foi no mundo affamada.
Á HENRIQUE DA CUNHA
CHEGANDO DO SITIO DA ITAPEMA Á CAJAHYBA
ROMANCE
Senhor Henrique da Cunha,
Vós que sois lá na Itapema
Conhecido pelo brio,
Graça, garbo, e gentileza:
Vós que aonde quer que estais
Todo o mundo se vos chega
A escutar a muita graça,
Que vos chove á bocca cheia:
Vós que partindo de casa,
Ou seja ao remo, ou á vela,
Bem que venhais sem velame,
Vindes fiado na verga:
E apenas tendes chegado
A esta Cajahyba amena,
Logo São Francisco o sabe,
Logo Apollonia se enfeita:
Logo chovem os recados,
Logo a canôa se apresta,
Logo vai, e logo encalha,
Logo a toma, volta e chega:
Logo vós a conduzis
Para a Casa das galhetas,
Onde o melado se adoça,
Onde a garapa se azeda:
Entra ella, e vós tambem,
Assenta-se, e vós com ella
E assentada lhe brindais
Á saude das parentas.
Vós: mas baste tanto vós,
Si bem que a Musa burlesca
Anda tão desentoada,
Que em vez de cantar, vozea.
Ás vossas palavras vamos,
Vamos ás vossas promessas,
Que com serem infinitas,
Não são mais que as minhas queixas.
Promettestes-me, ha dois annos,
De fazer-me aquella entrega
Da viuva de Naim,
Que hoje é gloria da Itapema.
Não me mandastes comboy,
Necessaria diligencia,
Para um triste que não sabe
Nem caminho, nem carreira.
Tão penoso desde então
Fiquei com tamanha perda,
Que ou a pena ha de acabar-me,
Ou ha de acabar-se a pena.
Mas inda fio e confio
Na Senhora Dona Tecla
Que nas dez varas de hollanda
Hei de amortalhar a peça.
Disse amortalhar, mal disse,
Melhor resurgir dissera,
Que em capello tal resurge
A mais defuncta potencia.
Vós me tirastes o ganho:
Sois meu amigo, paciencia;
Por isso diz o rifão
Que o maior amigo apega.
Só vós soubestes logra-la,
Que sois com summa destreza
Grande jogador de gorra,
Pela branca e pela negra.
Jogais a negra e a branca,
E tudo na eschola mesma,
Bem haja escrava e senhora,
Que uma de outra se não zela.
Esta é a queixa passada,
Porém a presente queixa
É que a todos os amigos
Mandastes mimos da Terra.
A uns peças de piassabas,
A outros fizeste a peça,
E eu já essa peça tomára,
Por ter de vós uma prenda.
Enviar-me alguma cousa,
Mais que seja um pau de lenha,
Terei um pau para os caens,
Que é o que ha na nossa terra.
Lembre-vos vosso compadre,
Que o tal Duarte de Almeida
Co’ a obra parou, emquanto
A piassaba não chega.
Mandae-me uma melancia,
Que ainda que é fruita velha,
Não importa o ser passada,
Como de presente venha.
Mandae-me um par de tipoyas,
Das que se fazem na Terra,
A dois cruzados cada uma,
Que eu mandarei a moeda.
Mandae-m’as sem zombaria,
Que eu vo-las peço de veras,
Porque não peço de graça
Quanto a dinheiro se venda.
Mandae-me boas novas vossas,
E em que vos sirva e obedeça,
Que como vosso captivo
Irei por mar e por terra.
Mandae-me novas da mãe,
Das filhas muitas novellas,
Pois em faze-las excedem
Cervantes e outros poetas.
E perdoae disparates
De quem tanto vos venera,
Que por em tudo imitar-vos
Vos quer seguir na pespega.
PEDINDO-SE
A SOLTURA DE UM MULATO Á SEU SENHOR
Não estamos nos Ilheos,
Que é terra de meus peccados,
Mas estamos melhorados
Aqui na Madre de Deus:
E si aquelles tabaréus
Por vossa mesma verdade
Dão tão geral liberdade
Aos delinquentes da terra,
Vós c’o peccador que erra
Como usaes tal crueldade?
Um castigo tão tyranno,
Uma prisão tão severa,
Satisfaria a uma fera,
E eu cuidei que ereis humano:
Ha pouco menos de um anno
Que está esse peccador
Purgando com grande dor,
E com trabalho infinito,
Á principio o seu delicto,
E agora o de seu senhor.
E si na festividade
D’aquelle martyr frechado
Se dá á todo o culpado
Remissão e liberdade,
De Deus na Natividade,
Á que já de agora assisto,
Muito mais logar tem isto,
E com tanta mais razão
Quanto vai por medição
De São Sebastião á Christo.
Nós os abaixo assignados
Pedimos com humildade,
Ou fundados na piedade,
Ou na amizade fiados,
Que d’esses grilhões malvados
Por seu duro e infame tracto,
Solteis o prêzo malato,
Porque tem bons fiadores
Nestes vossos servidores,
De que ha de ser bom mulato.
Á ANTONIA
MOÇA PARDA DE PERNAMIRIM CHAMADA VULGARMENTE CATONA
Que pouco sabe de amor
Quem viu, formosa Catona,
Que ha nessa celeste zona
Astro ou luminar maior.
Tambem a violeta é flor,
E mais é negra a violeta,
E si bem póde um poeta
Uma flor negra estimar,
Tambem eu posso adorar
Nos céus um pardo planeta.
Catona é moça luzida,
Que á pouco custo se asseia,
Entende-se como feia,
Mas é formosa entendida:
Escuza-se commedida,
E ajusta-se envergonhada,
Não é tão desapegada
Que negue á uma alma esperança,
Porque emquanto a não alcança,
Não morra desesperada.
Piza airoso e compassado,
Sabe-se airosa mover,
Calça que é folgar de ver,
E mais anda a pé folgado:
Conversa bem sem cuidado,
Ri sizuda na occasião,
Escuta com attenção,
Responde com seu desdem,
E inda assim responde bem,
E bemquista a sem razão.
É parda de tal talento,
Que a mais branca e a mais bella,
Podéra trocar com ella
A côr pelo entendimento
A um prodigio, um portento;
E si vos espanta ver,
Que adrêde me ando a perder;
Dá-me por desculpa amor,
Que é femea trajada em flor,
E sol mentido em mulher.
Á MESMA CATONA
DESPEDINDO-SE O AUCTOR DE PERNAMIRIM PARA A VILLA DE S. FRANCISCO
Não vos pude merecer,
Pois vos não pude agradar,
Mas eu hei de me vingar,
Catona, em mais vos querer;
Vós sempre á me aborrecer
Com odio mortal e atroz,
E eu a seguir-vos veloz,
Si sois veremos emfim
Mais firme em fugir-me a mim,
Que eu em seguir-vos á vós.
Quizera vos persuadir,
Porque vos saibaes haver,
Que sou mais firme em querer,
Que vós ligeira em fugir:
Eu não hei de desistir
D’esta minha pretenção,
Quer vós o approveis, quer não,
Porque vêr me importaria
Si talvez faz a porfia
O que não fez a razão.
Mil vezes o tempo faz
O que á razão não conveio,
Metterei pois tempo em meio,
Porque elle nos metta em paz:
Vós estaes muito tenaz
Em dar-me um e outro não,
E eu, levado da affeição,
Espero tempo melhor,
Onde o que não obra amor
Vença o tempo, obre a razão.
Catona, a minha esperança
Me dá por conselho são,
Que espere, porque o rifão
Diz que quem espera alcança:
Tudo tem certa mudança,
O bem males ameaça,
O mal para bem se passa,
Que como a fortuna joga,
O braço que hoje me affoga,
Talvez amanhã me abraça.
Á ANNICA
UMA MULATA DA CAJAHYBA
Annica, o que me quereis,
Que tanto me enfeitiçaes,
Uma vez quando cantaes,
E outra quando appareceis?
Si por matar-me o fazeis,
Fazei esse crime atroz
De matar-me sós por sós,
Para que eu tenha o soccorro,
Que vendo que por vós morro,
Viva de morrer por vós.
Matar-me eu o soffrerei,
Mas soffrei tambem chegar-me,
Que ter asco de matar-me
Jámais o consentirei:
Fugir e matar não sei,
Anna, como o conseguis?
Mas si a minha sorte o quiz
E vós, Anna, o intentaes,
Não podeis matar-me mais
Do que quando me fugis.
Chegae e matar-me já:
Não chegando estou já morto;
Coisa que se me tem absorto,
Matar-me quem não me dá:
Chegae, Anna, para cá,
Para dar-me essa ferida,
Porque fugir de corrida
E matar-me d’essa sorte,
Si o vejo na minha morte,
O não vi na minha vida.
Não sei que pós foram estes
Que na alma me derramastes?
Não sei com que me matastes?
Não sei o que me fizestes?
Sei que aqui me apparecestes,
E vendo-vos com antolhos,
Topei com tantos abrolhos
Na vossa dura conquista,
Que me tirastes a vista
E me quebrastes os olhos.
Á UMA MULATA
DE PERNAMIRIM CHAMADA LUZIA
Parti o bolo, Luzia,
Que a mim mesmo me acommoda:
Não deis a fatia toda,
Dae-me parte da fatia:
Quem pede como eu pedia,
Pede tudo o que lhe importa
E acceita o que se lhe corta,
E quem dá com manha e arte
Seus dados sempre reparte,
Si tem mais pobres á porta.
Não é bem que tudo eu cobre,
E é bem que um pouco me deis;
Dae-me um pouco e alegrar-me-heis:
Com pouco se alegra o pobre;
Não deis coisa que me sóbre,
Dai-me siquer um bocado;
Mas o que vos persuado
Que deis com manha e com arte,
Dando vós e de tal parte,
Sempre será grande o dado.
Si á todos cinco sentidos
Não tendes coisa que dar,
Dae ao de vêr e apalpar,
Os dois sejam preferidos:
Não deis que ouvir aos ouvidos,
Mas dae aos olhos que vêr
E ao tacto em que se entreter;
Deitemos á bom partir
Os dois sentidos a rir
E os demais a padecer
As mãos folgam de apalpar,
Os olhos folgam de vêr,
Os dois logrem seu prazer,
Os tres sintam seu pezar:
Que depois que isto lograr,
Virá o mais por seu pé,
Que inda que ninguem me dê,
Nem eu o tome á ninguem,
Morrerá vosso desdem
Ás forças de minha fé.
A ANTONIA
MOÇA PARDA, CHAMADA A MARIMBONDA, QUE MORAVA NA RUA DA POEIRA, E A VIU O P. NO CAMPO DA PALMA DEBAIXO DE UMA URUPEMBA EM CASA DE UMA AMIGA. ALLUDE AO REMEDIO SYMPATHICO DE SE QUEIMAR A CASA DOS MARIMBONDOS, PARA SE EXTINGUIR LOGO A DÓR DAS SUAS PICADAS
Fui hoje ao Campo da Palma,
Onde com subito estrondo
Me investiu um marimbondo,
Que me picou dentro da alma:
Era já passada a calma,
E eu me sentia encalmado,
Corrido e injuriado,
Porque sendo obrigação
Metter-lhe eu o meu ferrão,
Eu fui o que vim picado.
Fiz por fecha-lo na mão,
Mas o marimbondo azedo
Me picava em qualquer dedo
E escapava por então:
Desesperada funcção
Foi esta, pois me fui pondo
Tão abolhado em redondo
Por cara, peito e vasios,
Que estou com febres e frios
Morrendo do marimbondo.
Dizem que a vingança está
Em lhe saber eu da casa,
Porque deixando-lh’a em braza,
Um fogo outro abrandará:
Mas temo não arderá,
Por mais que toda uma matta
Lhe applique com mão ingrata,
Porque o que eu lhe hei de pôr
Ha de ser fogo de amor,
Que inda que abraza, não mata.
Nesta afflicção tão penosa
D’onde me virá o soccorro?
Morrerei, pois por quem morro,
Morro uma morte formosa:
Esta dôr tão tormentosa
Me levará de maneira,
Que, ou ella queira ou não queira,
Em chegando á sua rua,
Si acaso se mostrar crua,
Tudo irá numa poeira.
SAUDOSO
DE PERNAMIRIM, E POR OCCASIÃO DE HAVER VISTO NA VILLA DE S. FRANCISCO, ONDE ESTAVA, UM MOLEQUE CHAMADO MOÇORONGO, ESCREVE A UM AMIGO D’AQUELLE SITIO
ROMANCE
Veiu aqui o Moçorongo
Tão occulto e escondido,
Que não sei si o tenha a elle,
Si a vós por meu inimigo.
Chegou terça feira á tarde,
Metteu-se em casa de Chico,
Passou a tarde e a noite,
E o peior é que dormindo.
Porque havia de dormir
O Moçorongo maldicto,
Sabendo que estava eu
Desvelado e affligido?
Amanheceu quarta feira,
Chegou o nosso Arcebispo,
Gastou-se toda a manhã
Com visitas e visitos.
Deu meio dia, e fui eu
Para casa dos amigos
Esfaimado como um cão,
E como um lobo faminto.
Quando o cão do Moçorongo
Sahiu do seu escondrijo,
E sem lhe occorrer o encontro
Deu de focinhos commigo.
Alegrei-me, e enfadei-me,
Que ha casos em que é preciso
Que se mostre ao mesmo tempo
Alegre um peito e mofino.
Amofinou-me a traição
Com que elle esteve escondido,
E alegrei-me de encontrar
Com gente d’esse districto.
Perguntei logo por vós,
Por Ignacio e Antonico,
Por Luzia e por Catona,
E mais gente d’esse sitio.
Todos estão com saude,
Me disse o crioulo esquivo,
Um tanto triste da cara,
Pouco alegre do focinho.
Mas eu fiz-lhe muita festa,
Assim por ser seu amigo,
Como por ser cousa vossa,
E neste pasto nascido.
Perguntei si me escreveras,
Zombou d’isso, e deu-me um trinco
Zombou com cara risonha,
Trincou com dedo tangido.
D’isto formo a minha queixa,
D’isto fico mui sentido,
Pois sei que tendes papel,
Tinteiro, penna e juizo.
Mais andar lá nos veremos,
E vereis que de sentido
Vos hei de estrugir a vozes,
E me hei de espojar a gritos.
Meus recados a Luzia,
E que estou já de caminho,
Porque só ella me farta,
E á fome aqui me entizico.
ESCREVE
TAMBEM QUEIXOSO A SEU AMIGO IGNACIO, MORADOR EM PERNAMIRIM, EM QUEM FALLA NO ROMANCE ANTECEDENTE.
ROMANCE
Senhor Ignacio, é possivel
Que quizestes desdizer
D’aquella boa opinião
Que eu tinha na vossa fé?
É possivel que um amigo,
De que tanto confiei,
Nem por escripto me falla,
Nem em pessoa me vê?
É possivel que uma ausencia
Tanta potestade tem,
Que ao vivo morto reputa
No que toca ao bem querer?
Si isto em vós a ausencia faz,
Como em meu peito o não fez?
Não sois vós o meu ausente,
Que em meu peito viveis?
O certo é, meu amigo,
Disse amigo, mas errei,
Que não sois amigo já,
Sois o meu socio talvez.
Fostes socio nos caminhos
D’aquella terra infiel,
Onde Luzia traidora,
E Catona descortez,
Me privaram dos sentidos,
E me deixaram crueis
O corpo uma chaga viva
A golpes de seus desdens.
Mas eu me não queixo d’ellas,
Que de nenhuma mulher,
Má ou boa, ha de queixar-se
Homem que juizo tem.
Queixo-mo de vosso tio,
Que se foi por me empecer
Esta terceira jornada
Para acabar o entremez.
Praza a Deus que ache Simoa,
A quem amante foi ver,
Como ha de achar Antonica
Farta de xesmininez.
D’aquella Antonica fallo,
Que pôz no negro poder
Das Quitas, para que a guardem,
E a guardarem ao revez.
Que a Silvestre a entregaram,
O qual, como vós sabeis,
Apezar dos dias sanctos
Lhe deu tanto que fazer.
Mas pois em Pernamirim,
E em suas cousas toquei,
Neste mesmo assumpto quero
Me façais uma mercê.
Dizei-me si está o Antonio
Recolhido a seu vergel,
Onde era geral Adão
Das Evas que Deus lhe deu.
E si acaso tiver vindo,
Vos peço que lhe mandeis
Este romance fechado
Em um molhado papel.
Porque no molhado veja
O chôro com que lancei
Estes versinhos tão tristes
Por amar e querer bem,
A elle, que me fugiu
D’esta casa, ha mais de um mez,
E á Catona que o imita
No esquivo e no infiel.
E com isto, e outro tanto
Que me fica por dizer,
Adeus, até que tenhais
Quem vos traga a meu vergel.
Á ANTONIO DE ANDRADE
SENDO DESPENSEIRO DA MISERICORDIA
Senhor Antonio de Andrade,
Não sei si vos gabe mais
As franquezas naturaes,
Ou si a christã charidade:
Toda esta nossa Irmandade,
Que á pasmos emmudeceis,
Vendo as obras que fazeis,
Não sabe decidir não
Si egualaes o amor de irmão,
Ou si de pae o excedeis.
Ou, senhor, vós sois parente
De toda esta enfermaria,
Ou vos vem por recta via
Ser pae de todo o doente:
Quem vos vê tão diligente,
Tão caritativo e tão
Inclinado á compaixão,
Dirá de absorto e pasmado,
Que entretanto mal curado,
Só vós fostes homem são.
Aquella mesma piedade,
A que vos move um doente,
Vos mostra evidentemente
Homem são na qualidade:
De qualquer enfermidade
São aphorismos não vãos,
Que enfermarão mil irmãos:
Mas si o contrario se alude
Somente a vossa saude
Foi contagio de mil sãos.
Quem não sarou d’esta vez
Fica muito temeroso,
Que lhe ha de ser mui penoso
Acabar-se-vos o mez:
Ninguem jámais isto fez,
Nem é coisa contingente
O ficar toda esta gente
Com perigo tão atroz,
Que se acabe o mez á vós
Para mal de outro doente.
AO CAPITÃO
JOÃO RODRIGUES DOS REIS, HOMEM GENEROSO E ALENTADO, GRANDE AMIGO DO P.
Meu capitão dos Infantes,
Que por vossas boas artes,
Sois homem de muitas partes,
Nascendo só em Abrantes:
Por vossos ditos galantes,
Discretos e cortezãos,
E por largueza de mãos
Á todos nos pareceis
Não sómente João dos Reis,
Si não o rei dos Joãos.
O principe, que de juro
Senhorêa os corações,
Como lá disse Camões,
Que sois vós o conjecturo:
Tanto nisto me asseguro,
Que em ver como procedeis,
Presumo que descendeis
De algum principe de França,
D’onde tendes por herança
Esse appellido dos Reis.
A boa arte de reinar
Em um coração rendido,
A não serdes vós nascido,
Não se pudera imitar:
Vós não podeis ensinar
Com paridades e apodos
Os bons meios e os bons modos,
Com que todo o mundo embaça,
Porque sempre estaes de graça,
Por fazer-nos graça á todos.
O generoso da mão,
O coração varonil,
Onde vos cabe o Brazil,
E sobeja coração:
Com pobres a compaixão,
Com ricos o liberal,
Na amizade tão leal,
Na palavra tão massiço,
Para mim tudo é feitiço,
Sendo tudo natural.
DESPEDE-SE
O P. DA BAHIA QUANDO FOI DEGRADADO PARA ANGOLA
Adeus, praia; adeus, cidade,
E agora me deverás,
Velhaca, dar eu a Deus
A quem devo ao demo dar.
Quero agora que me devas
Dar-te a Deus, como quem cahe,
Sendo que estás tão cahida,
Que nem Deus te quererá:
Adeus, povo; adeus, Bahia,
Digo canalha infernal,
E não fallo na nobreza,
Tabula era que se não dá.
Porque o nobre emfim é nobre,
Quem honra tem, honra dá,
Picaros dão picardias,
E ainda lhes fica que dar
E tu, cidade, és tão vil,
Que o que em ti quizer campar
Não tem mais do que metter-se
A magano, e campará.
Seja ladrão descoberto,
E qual aguia imperial
Tenha na unha o rapante,
E na vista o prespicaz.
A uns compre, a outros venda,
Que eu lhe seguro o medrar,
Seja velhaco notorio,
E tramoeiro fatal.
Compre tudo e pague nada,
Deva aqui, deva acolá,
Perca o pejo e a vergonha,
E si casar case mal.
Porfiar em ser fidalgo,
Que com tanto se achará:
Si tiver mulher formosa,
Gabe-a por esses poiaes;
De virtuosa talvez,
E de entendida outro tal;
Introduza-se ao burlesco
Nas casas onde se achar.
Que ha donzellas de belisco,
E aos punhos se gastára,
Tracte-lhes um galanteio,
E um....., que é o principal.
Arrime-se a um poderoso,
Que lhe alimente o gargaz,
Que ha pagadores na terra
Tão duros como no mar
A estes faça alguns mandados
A titulo de agradar,
E conserve o affectuoso
Confessando desegual.
Intime-lhe a fidalguia,
Que eu creio que lh’o crerá,
E que fique ella por ella
Quando lhe ouvir outro tal.
Vá visitar os amigos
No engenho de cada qual,
E comendo-os por um pé
Nunca tire o pé de lá.
Que os Brazileiros são bestas,
E estarão a trabalhar
Toda a vida, por manterem
Maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
Tenha cuidado em guardar,
Que aqui honram os mofinos,
E mofam dos liberaes.
No Brazil a fidalguia
No bom sangue nunca está,
Nem no bom procedimento:
Pois logo em que póde estar?
Consiste em muito dinheiro,
E consiste em o guardar,
Cada um a guardar bem,
Para ter que gastar mal.
Consiste em da-lo a maganos
Que o saibam lisongear,
Dizendo que é descendente
Da casa de Villa Real.
Si guardar o seu dinheiro,
Onde quizer casará,
Que os sogros não querem homens,
Querem caixas de guardar.
Não coma o genro, nem vista,
Que esse é genro universal,
Todos o querem por genro,
Genro de todos será.
Oh! assolada veja eu
Cidade tão suja e tal,
Avesso de todo o mundo,
Só direita em se entortar.
Terra, que não se parece
Neste mappa universal
Com outra; e ou são ruins todas,
Ou ella sómente é má.
FIM DO TOMO PRIMEIRO