CHEGANDO O MARQUEZ DAS MINAS
A GOVERNAR O ESTADO COM O CONDE DO PRADO SEU FILHO, TRACTOU LOGO DE ALLIVAR OS MAGNATES DA BAHIA, CHAMANDO-OS DO DESTERRO EM QUE PADECIAM, AMEDRONTADOS DO SEU ANTECESSOR PELA MORTE QUE OUTROS DERAM AO ALCAIDE MÓR FRANCISCO TELLES, E POR ACÇÃO DE GRAÇAS LHE FEZ O SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEIRA RAVASCO ESTA DECIMA, QUE O POETA GLOZOU COM OS PRIMORES COSTUMADOS METAPHORICAMENTE
DECIMA
De flores e pedras finas
Floresce e enriquece o Estado,
Floresce sim pelo Prado,
E enriquece pelas Minas[7]:
As aves que peregrinas
Aos montes se retiraram,
Nesta manhã já cantaram
Com tão doce melodia,
Que a noite se tornou dia
Porque as penas se acabaram.
[7] Refere-se ao conde do Prado e ao marquez das Minas.
GLOZA
Já da primavera entrou
A alegre serenidade,
Com que toda a tempestade
Do triste inverno acabou:
Já Saturno declinou
Nas operações malignas:
Com influencias benignas
Jupiter predominante
Nos promette anno abundante
De flores e pedras finas.
Si d’estes aspectos taes
Bem se calcula a figura,
Teremos grande fartura,
Não ha de haver fome mais:
Mostras temos e signaes
De um tempo muito abastado:
Porque bem considerado
D’elle tem o proprio effeito,
Já vemos que a seu respeito
Floresce e enriquece o Estado.
Para ser enriquecido
Este Estado e florescente,
Temos a causa patente
No planeta referido:
Não se equivoque o sentido
No effeito aqui declarado,
Porque sendo bem notado,
O Estado (como parece)
Si pelo mais não floresce
Floresce sim pelo Prado.
Pelo Prado flôr á flôr
Se vai a terra esmaltando,
Com que o clima está mostrando
Temperamento melhor:
Do luminar superior
Por taes influencias dignas,
Sendo as pedras o boninas
Da terra unicos primores,
Pois se esmalta pelas flores
E enriquece pelas Minas.
Na terra já se experimentam
Virações tão temperadas,
Que as aves exterminadas
Tornar aos ninhos intentam:
Já não sentem, não lamentam
Tempestuosas ruinas;
Pois com salvas matutinas
Se mostram tão prasenteiras,
Que mais parecem caseiras
As aves que peregrinas.
Sua peregrinação
Influxo foi de Saturno,
Planeta sempre nocturno,
E muito importuno então:
Todas nessa conjuncção
Si os doces ninhos deixaram,
E tanto se receiaram
Do nocivo temporal,
Que escolhendo o menor mal
Aos montes se retiraram.
Porém tanto que sentiram
Haver no tempo mudança
Sem receio e sem tardança
Aos ninhos se reduziram:
Outros ares advertiram,
Outra clemencia notaram,
Com que alegres publicaram
Dos astros os movimentos,
E com festivos accentos
Nesta manhã já cantaram.
Cantaram para mostrar
Com repetidas cadencias
Singulares excellencias
De um planeta singular:
Tal doçura no cantar
Não se ouviu nesta Bahia,
Ouvindo-se na harmonia
Modulações tão suaves,
Que nunca cantaram aves
Com tão doce melodia.
Cada qual com voz sonora
Nos mottetes que cantaram,
Por mil modos explicaram
De todo o Estado a melhora:
Cada instante e cada hora
A musica mais se ouvia,
No Prado resplandecia
Por modo maravilhoso
Um lustre tão luminoso,
Que a noite se tornou dia.
Entre as aves modulantes,
Que este nosso paiz tem,
Todas cantaram o bem
De que são participantes:
Dos males que foram antes
Todas tambem se queixaram;
Assim que todas mostraram
Com alegrias notorias
Que começaram as glorias
Porque as penas se acabaram.
A UNS CLERIGOS
QUE INDO AO EXAME DO CANTOCHÃO PARA ORDENS SACRAS NA PRESENÇA DO ARCEBISPO D. JOÃO FRANCO DE OLIVEIRA, DESAFINARAM PERTURBADOS
Senhor, os padres d’aqui
Por b quadro e por b mol
Cantam bem re mi fa sol,
Cantam mal la sol, fa mi:
A razão que eu nisto ouvi,
E tenho para vos dar,
É que como ao ordenar
Fazem tanto por luzir,
Cantam bem para subir,
Cantam mal para baixar.
Porém como cantariam
Os pobres perante vós?
Tão bem cantariam sós,
Quão mal onde vos ouviam:
Quando o fa bordão erguiam
Cada um parece que berra,
E si um dissona, outro erra,
Mui justo me pareceu,
Que sempre á vista do céu
Fica abatido o que é terra.
Os padres cantaram mal,
Como estava presupposto,
E inda assim vos deram gosto,
Que eu no riso vi o signal:
Foi-se logo cada qual
Direito ás suas pousadas,
Á estudar nas taboadas
Da musica os sete signos,
Não por cantar a Deus hymnos,
Mas por vos dar badaladas.
Vós com voz tão doce e grata
Enleastes meus sentidos,
Que ficaram meus ouvidos
Engastados nessa prata:
Tanto o povo se desata
Ouvindo os vossos esp’ritos,
Que com laudatorios gritos
Dou em fé que uma donzella
Disse, qual outra Marcella,
O Cantico Benedictus.