Á BENTO PEREIRA
ROMANCE
Amigo Bento Pereira,
Que em todo o nosso Brazil
Sois homem de muitas prendas,
Tendo tão pouco quatrim.
Assim agradára eu
A quatro villões ruins,
A quem nesta terra enfado,
Como me agradais a mim.
Vós sois um homem honrado
De generosa raiz,
Nobre com ventosidade,
Honrado com retintins.
Sois galan com artificio,
Aceiado com ardil,
Só vós sois homem honrado,
Os de mais homens gentis.
Todo o mundo vos quer bem,
Porque tendes, e é assim,
Cara de ter mil amigos.
Mil amigos? mais de mil.
Sois muito leal com todos,
Cousa que não se usa aqui,
Por isso sois mal servido
De quantos sabem servir.
Empeçou-vos a fortuna,
Que a fortuna é villão ruim,
Para os seus sempre a chegar-se,
E de vós sempre a fugir.
Agradais-me dentro d’alma,
Que como eu tambem cahi,
E os similhantes se amam,
Por similhante vos quiz.
Tende-me em conta de amigo,
E tereis sempre de mim
Excessos de par em par,
Finezas de mil em mil.
AOS CAVALLEIROS
QUE CORRERAM NA FESTA DAS VIRGENS NO ANNO DE 1685, PRIMEIRO DO GOVERNO DO MARQUEZ DAS MINAS
Clori, nas Festas passadas,
Que ás virgens são off’recidas,
Houve quadrilhas corridas
Parentas de envergonhadas:
Porém estas realçadas
Vi neste anno derradeiro;
Pois na esphera do Terreiro
Apparecia um Brandão,
Que correndo exhalação,
Acabava cavalleiro.
Com estas apparições
De cometas tão luzidos
Nos Mirões espavoridos
Eram tudo admirações:
Em maximas conjuncções
De ouro, de prata e mil côres,
Notei que os festejadores
Faziam com graças summas,
No ar um jardim de plumas,
E na terra um mar de flôres.
Sua Excellencia[3] assistia,
O Conde[4] e toda a nobreza,
E os padres por natureza
Lhes faziam companhia:
Estava sereno o dia,
A esphera toda anilada,
A agua do mar estanhada,
Brando o vento e lisongeiro;
E com tudo no Terreiro
Houve grande carneirada.
[3] Marquez das Minas.
[4] Conde do Prado.
Emfim, que a festa passada
Tão cheia de cavalleiros
Si a fizessem de barbeiros
Não seria mais sangrada:
Alli vi dar cutilada,
Que todo o ventre dissipa
Do bruto que a participa,
E eu disse pasmado e absorto
Que a Catana era do Porto,
Por rilhar sempre na tripa.
Logo na primeira entrada
Houve jogo de manilha,
Que para isso a quadrilha
Pelo Lindo era pintada:
Quem lhe dava uma encontrada,
E quem na ponta a levava,
Tudo então nos agradava,
Pois conforme ouvi julgar
Alli entre dar e levar
Pouca vantagem se dava.
Cada qual sem mais tardança
Á dama, a quem mais se applica,
Levou na ponta da ...
O que ganhou pela lança.
Até o padre Hortalança,
Digo, o conego Gonçalo,
Se logrou d’este regalo:
E eu só na baralha ingrata
Não vi manilha de prata,
Que na de ouro já não fallo.
Ao Marinho generoso
O dia franco e escasso
Concedeu-lhe o galanaço,
Recatando-lhe o ditoso;
E visto que por airoso
É o Adonis da quadrilha,
Zundú se lhe rende e humilha,
Dando-lhe, porque o conforte,
No cravo a primeira sorte
E a segunda na manilha.
Barreto alheio de susto,
Que não implica ha mostrado
Nem ao forte o asseado,
Nem ao galante o robusto;
Luzimento á pouco custo,
Bom ar sem affectação,
Foi julgado em conclusão
Que a destreza o não desvela,
Pois sem cuidado na sella
Cahia no caprazão.
Muito Euzebio se desvella
Em correr mais que ninguem,
E por correr sempre bem
Nunca se assentou na sella;
Como ha de assentar-se nella,
Si correr só pretendia?
Tão propriamente o fazia
Que porque estar e correr
Não podem junctos caber,
Não se assentava, corria.
O valeroso Moniz
Em gala, cavallo e arreio
Quanto ganhou pelo asseio,
O perdeu pelo infeliz;
O que eu vi e a terra diz
É que de muito adestrado
Andou tão avantajado,
Que a voz do povo levou:
Com que desde então ficou
O povo mudo e pasmado.
Outro Moniz valentão
O fez tão perfeitamente,
Que sendo em sangue parente,
Era na destreza irmão:
Pelo forte em conclusão
Deixou de si tal memoria,
Para sua e nossa gloria;
Mas deixando aos mais em calma,
Fez pouco em levar a palma
Quem é filho da Victoria.
Do Bolatim a cavallo
Dizia o povo gostoso
Que era da festa o gracioso,
E eu digo, que era o badalo,
Quem chegou á pondera-lo
Correndo sobre a rocina,
Revirar a culatrina,
Pernil aberto para o ar,
A que o póde acommodar
Mais que a um sino que se empina.
Ao Araujo famoso
No principio da carreira
Resveiou-lhe a dianteira
O cavallo de furioso;
Cego, arrojado e fogoso
Entre uns Baetas metteu-se,
Quem sentado estava ergueu-se,
Porém o baixel violento,
Como ia arrazado em vento
Deu nuns bancos e perdeu-se.
Cahido o moço infeliz
Houve grita e alarido,
Sendo que cabe o entendido
Em tudo o que se lhe diz;
Ergueu-se em menos de um triz,
E pondo-se na vereda
Correu com cara tão leda,
Que causou admiração
Em todos, porque já então
Tinha elle com todos queda.
Um sobrinho do Frizão
Ao cheiro acudiu dos patos,
Porque é em publicos actos
Muito ouzado um patifão;
Prezea a redea a um arpão,
Nos estribos dous arpeus,
Puz eu os olhos nos céus,
E disse que bem podiam
Louvar a Deus os que viam
A cavallo um louva-Deus.
Uma aguilhada por lança
Trabalhava á meio trote,
Qual servo de dom Quixote,
A quem chamam Sancho Pança;
Na cara infame confiança,
Na sella infame perneta,
E com tramoia secreta
Eia sôbre o seu jumento
Pelo arreio e nascimento
Á bastarda e á gineta.
Elle andou tão desastrado,
Que para dar-lhe sentido,
O cavallo era o corrido
E elle o desavergonhado;
Estava o Frizão pasmado
De gosto babando o freio,
Por ser de razão alheio
Vêr-se com tão pouco abalo
Não no centeio o cavallo,
Mas no cavallo o centeio.
A este filho universal,
Com tres paes e tres padrastos,
Todo vestido de emplastos
Se emprestado o mesmo val;
Se seguia um sigarral,
De quem tomaram modelos
Para a corcova os camellos
Cuja perna dobradiça
Sempre a memoria me atiça
Da rua dos Cotovellos.
No menino Ascanio fallo,
Que o pae Eneas a murro,
Devendo de o pôr num burro,
O mandou pôr a cavallo;
Este menino ia ao gallo,
E encontrou-se co’a galhofa,
Onde servira de mofa
Os dias, que alli gastára,
Si um braço lhe não quebrára,
E mandaram numa alcofa.
Lá vem o Chico ás carreiras,
Dando esporadas crueis;
Numa sella de alambeis,
Vestido de bananeiras;
Nas laranjadas primeiras
Teve tão adversa estrella
Que foi cahir na esparrella,
Não como rôla em verdade,
Porque queda foi de frade,
Pois logo agarrou da sella.
Ás festas não deu desmaio
Nenhum d’estes entremezes,
Que não ha ouro sem fezes,
Nem comedia sem lacaio:
Qualquer correu como um raio,
E fez sua obrigação,
Excepto o boi do sertão,
Sendo que alguem lhe cubiça
O resistir á justiça,
E dar co’ a forca no chão.
O lindo Eusebio da Costa,
Escrivão das Onze mil,
Por assombrar o Brazil,
Fez tudo de sobre a posta;
C’os passados deu á costa,
E excedeu á toda a lei,
E assim eu sempre direi
Hoje, em toda a occasião,
Que o ser por casta Reimão,
Lhe vem por ter mão de Rei.
Á CAVALLARIA
DA FESTA DAS VIRGENS NO TEMPO DO GOVERNO DE D. JOÃO DE ALENCASTRE, SENDO JUIZ GONÇALO RAVASCO CAVALCANTE DE ALBUQUERQUE
Foi das Onze mil donzellas
Juiz o juiz mais nobre
De quantos no Brazil cobre
O manto azul das estrellas:
Nesta festa sem cautellas
Gastou com liberal mão;
E para mais devoção
Usar de escrivão não quiz,
Sendo o primeiro juiz
Que serviu sem escrivão.
Bem mostra que de Bernardo
Tem herdado o natural,
Além de ser principal
O seu amigo galhardo:
Applausos grandes aguardo,
E de Camena melhor,
Que publiquem seu primor,
Que a minha Thalia nova
Hoje admirações approva
Por mais heroico louvor
Seis dias de cavalleiros
Houve com bastante graça,
Foram bons e maus á Praça
Em ginetes e sendeiros:
Tambem houve aventureiros
Premios e mantenedor,
Touros que foi o melhor:
Porém sem ferocidade,
Que os touros nesta cidade
Não são de muito furor
E pois eu chronista sou
D’esta gran festividade,
Tenho de fallar verdade
E dizer o que passou:
Agaste-se quem andou
Mal, que á mim se me não dá;
Sem saber não fôra lá;
E si lhe der isto espanto,
Quando eu fizer outro tanto
Tambem de mim fallará.
Bem sei que é culpa fatal,
E contra a razão sossobra
Dizer mal de quem bem obra,
E bem de quem obra mal:
Mas nesta festa cabal
Com meu fraco entendimento,
Aos cavalleiros intento
Julgar sem odio nenhum,
Applaudindo á cada um
Conforme o merecimento.
Nestes dias festivaes
Com summa gala e grandeza,
Assistiu toda a nobreza
Dos homens mais principaes,
Ministros, officiaes
De guerra e damas mui bellas,
Que em palanques e janellas
Mostravam com arrebol,
Que estando alli posto o sol,[5]
Bem podiam ser estrellas.
[5] Refere-se ao governador.
Posto o sol alli se via,
Porém com notavel gosto,
Quando vi que era o sol posto
Mais o Terreiro luzia:
Dois soes[6] postos na Bahia
Vi com differença atroz
Um Saturno que se poz,
Outro posto na janella
Sol de luz mais clara e bella,
Que hoje nasce para nós.
[6] Allude aos dois governadores d. J. de Aloncastre e Camara Coutinho, que se achavam presentes.
Desterrando sombras mil
De um sol que causou desmaios,
Nasce com benignos raios
Este sol para o Brazil:
Oh quem tivera a subtil
De Apollo lyra discreta,
Da fama a aguda trombeta,
Para que pudesse ousado,
Sem temor, nem perturbado
Descrever este planeta.
Mas é fraco o meu engenho
Para de um sol sem desmaios
Querer ventilar os raios
Quando olhos de aguia não tenho:
E si a tão sublime empenho,
Onde o mais sabio delira,
Meu pensamento subira,
Logo d’essa esphera clara
Como Phaetonte rodára,
Ou como Icaro cahira.
Quando o planeta maior
Á vista humana se expõe,
É que a seus raios se oppõe
Atrevido algum vapor:
E si neste sol melhor
Nenhuns eclypses se vêm,
Não se atreverá ninguem
Sem ter de nescio desmaios
Querer contemplar os raios
Esclarecidos que tem.
Quando da esteril mulher
Nasceu o maior do mundo
Admirações e profundo
Pasmo veiu a gente a ter:
E si com João nascer
Houve tanta admiração,
Á Bahia outro João,
Sol de claro nascimento
Nasce com merecimento
Para a mesma suspensão.
E como não pasmarei
Eu, e este povo tambem,
De ter por General, quem
Sceptro merece de rei?
Pois a ventura e a lei
Divina dispoz, senhor,
O seres Governador,
Com tudo sabemos nós,
Que um foi de vossos avós
De Pedro progenitor.
D’aquelle em tudo primeiro
João era nada segundo
Sois, e bem conhece o mundo,
Descendente verdadeiro:
Tambem da Casa de Aveiro
Muita nobreza alcançaes:
Alencastre vos chamaes,
De Duarte Inglez potente
Clarissimo descendente:
Silva sois, não digo mais.
Com branca e encarnada pluma
Galan vestido de verde,
Que inda a esperança não perde
Do Neto da clara espuma:
Capitão de graça summa
André Cavallo sahiu:
Logo o povo se sentiu;
Porque de incidente novo
Os olhos levou do povo
Quando no Terreiro o viu.
Num branco bruto corria
Mais ligeiro do que o vento,
Tanto que c’o pensamento
Correr parelhas podia:
Veloz desapparecia
Das pernas ao leve abalo,
E não podia julga-lo
O povo que alli se achava,
Si era vento que levava
Pelos ares o Cavallo.
Poz André com bizarria
Todas as lanças mui bem,
E inda assim não faltou quem
Murmurasse todavia.
Soube elle da zombaria,
Que se fez e presentiu
Quem fôra o que alli se riu,
E no outro dia com brio
Um cartel de desafio
Fixou, mas ninguem sahiu.
No cartel que poz, mostrava
Que a qualquer que se julgassem
Tres lanças que se tirassem,
Mil cruzados offertava:
O delinquente acceitava
O desafio esta vez,
Porém que sem interêz
Com gosto perder queria
Nesta contenda e porfia
Não só mil cruzados, tres.
Pede licença ao senhor,
Que no nome a graça traz;
Mas elle como sagaz
O aconselha com primor:
Diz-lhe que fôra melhor
Esta contenda escuzar;
Porém o mancebo alvar,
Fiado em ser cavalleiro
E fiado em ter dinheiro,
Não quiz o pacto acceitar.
Porque se não vence não;
Dizia o moço magnata,
Nem por ouro, nem por prata
O seu sangue de Aragão;
E vendo o senhor dom João
Que si a licença negava
A André Cavallo ultrajava,
Pois podiam presumir,
Si ao Campo o não vissem ir,
Que o dinheiro lhe faltava.
Lhe disse que não só tres
Si corressem mil cruzados,
Si não que depositados
Tinha André Cavallo dez:
Mas o moço Aragonez
Vendo esta resolução,
Por temer a perdição,
A que punha o seu dinheiro,
Toma conselho primeiro
Co’o reverendo Frizão.
O padre, que sem estudo
As leis entende civis,
E com manhosos ardis
Obra mal e entende tudo;
Lhe diria mui sizudo
Com aspecto venerando,
Rindo-se de quando em quando,
Que assim seus enganos lavra:
«Não se lhe dê da palavra,
Diga que estava zombando.»
Assim foi que o desafio
Veiu a parar em burrada,
Que a palavra não val nada,
Si na occasião falta o brio:
E para que com desvio
Não fossem mais inimigos,
Evitando alguns perigos,
Em boa paz os chamou
O General e tractou
De que ficassem amigos.
Depois das pazes, emfim
Lhes pediu que cavalgassem,
E um par de lanças tirassem
Cada qual em seu rossim:
Elle lhe disse que sim,
E de improviso avisou
Ao irmão que não tardou
Com trazer-lhe bons arreios,
Cavallos, sellas e freios,
E com elles se embarcou.
Num dia dos derradeiros
Ao Terreiro os dous chegaram,
E ambos se separaram
Logo dos mais cavalleiros:
Cuidam que são os primeiros
Fidalgos que a terra tem;
E nescios não antevem
Que diz o povo, e não erra,
Que são Fidalgos da Terra,
E outros na Terra ha tambem.
Empinou-se-lhes a Ruça,
E de quatro companheiros,
Sem mais outros cavalleiros,
Fizeram a escaramuça:
O General se debruça,
Para mette-los bem nella,
Na janella com cautela;
Porém usou de revoltas,
Porque mettendo-os nas voltas,
Mandou fechar a janella.
A escaramuça acabada
Fizeram a cortezia,
E todo o povo seria
Vendo a janella fechada:
Nas voltas não viram nada;
Que com notavel trabalho
No ay hombre cuerdo á cavallo;
Porém depois que acabaram,
E o General não acharam,
Ficaram de vinha d’alho.
Com rostos descoloridos,
Desesperados agora
Iam por dentro e por fóra
Da propria côr dos vestidos:
Os que são desvanecidos
E, sem prudencia e razão,
Presumem mais do que são,
Emendem seus pensamentos,
Que para seus desalentos
É vivo o senhor d. João.
Não presumam porque tem,
Que são mais que os pobres, nobres,
Pois ha muitos homens pobres
Mui bem nascidos tambem:
Ao pequeno não convém
Por pequeno desprezar,
Que si este quizer fallar,
Achar póde algum defeito,
Que nenhum ha tão perfeito
Em quem se não possa achar.
Seguia-se um cavalleiro
Ao famoso André Cavallo,
Que levou sem intervallo
De cada golpe um carneiro:
Tambem foi aventureiro
De um premio, mas com defeito
Dava ao corpo um grande geito,
E ficou passado e absorto
De que fosse ao premio torto
E o premio a outro direito.
Ao famoso Braz Rabello
Razão é de mestre o apode,
Pois dar dias sanctos póde
Nesta arte ao que fôr mais bello;
E si com louco desvelo,
Do que digo algum se abraza,
Attenda á razão que é raza,
E verá se faz espantos
Que dar possa os dias sanctos
Quem tem Domingas de Casa.
Nas lanças que poz mui bem
Teve de premios ganança,
E certo que pela lança
Não o ha de vencer ninguem:
Dos cavalleiros que tem
Modernos hoje a Bahia
Leva Braz a primazia,
Porque não ha nesta Praça
Quem se ponha com mais graça,
Fortaleza e bizarria.
Tambem aquella fatal
Emulação de Mavorte,
Para os inimigos forte,
Para os amigos leal;
Applauso merece egual;
Pois nesta cavallaria
Si aos mestres não excedia
Por mais antigos nesta arte,
Aos modernos nesta parte
Elle leva a primazia.
Tambem no Machado fallo,
Que é razão por elle accuda,
Pois sempre ao Cavallo ajuda,
Mas não o ajuda o Cavallo:
Inda assim posso louva-lo
Dando-lhe varios apodos,
Porque conheço em seus modos,
E mui bem posso affirmar
Que nisto de cavalgar
Leva vantagens á todos.
Em mau cavallo corria,
Mas um premio mereceu:
Veja-se quem o perdeu
Que cavalleiro seria?
Aposto que alguem diria,
Vendo que ás carreiras passa
Sem fortaleza, nem graça,
Que o moço com seu sendeiro
É nos fumos cavalleiro,
Porém não cá para a Praça.
Outro cavalleiro airoso
Andou na festividade,
E vi na velocidade
Com que corre ser Velloso;
Por cavalleiro famoso
O povo o acclamou de novo,
E eu só admirando o louvo,
E acho discrição calar,
Porque é escusado fallar
Quando por mim falla o povo.
O Ricardo valeroso
Andou bem, porém sem sorte,
Porque tem pouco de forte,
Si bem tem muito de airoso:
Perdeu pouco venturoso,
Mas sem nenhum sentimento,
Um premio que Braz attento
Ganhou; porque não se atreva
Á aquillo que tambem leva
Com as palavras o vento.