AO PADRE DAMASO DA SILVA
ROMANCE
Damaso, aquelle madraço,
Que em pés, mãos e mais miudos,
Pode bem dar seis e az
Ao maior Frizão de Hamburgo:
Cuja bocca é mentideira,
Onde acode todo o vulgo,
A escutar lá sobre a tarde
As mentiras como punhos:
Mentideiro frequentado
De quantos Senhores burros
Perdem o nome de limpos,
Pela amizade de um sujo:
Cuja lingua é Relação,
Onde acham os mais puros
Para accusar um fiscal,
Para cortar um verdugo.
Zote muito parecido
Aos vicios todos do mundo,
Pois nunca os alheios corta
Sem dar no seu proprio escudo.
Sancto Antonio de baeta,
Que em toda a parte do mundo
Os casos, que succederam,
Viu e foi presente a tudo.
O padre papa-jantares,
Hospede tão importuno,
Que para todo o banquete
Traz sempre de trote o buxo.
Professo da Providencia,
Que sem logar bazaruco
Para passar todo um anno
Nem dous vintens faz de custo.
Que os amigos o sustentam,
E lhe dão como de juro
O jantar, quando lhes cabe
A cada qual por seu turno.
E essa vez que tem dinheiro,
Que é de sete em sete lustros,
Tres vintens com um tostão,
Ou dois tostões quando muito:
Com um vintem de bananas,
E de farinha dois punhos,
Para passar dia e meio,
Tem certo o pão e o conducto.
Lisonjeiro sem recato,
Adulador sem rebuço,
Que por papar um jantar
De um sacristão faz um Nuncio,
De um tambor um general,
Um branco de um mameluco,
De uma sanzala um palacio,
E um galeão de um pantufo.
E em passando a occasião,
Tendo já repleto o buxo,
Desanda cu’a taramella,
E a todos despe de tudo.
Outro Satyro de Esopo,
Que co’o mesmo bafo astuto
Esfriava o caldo quente,
E aquentava o frio punho.
O Zote que tudo sabe,
O grande jurisconsulto
Dos litigios fedorentos
D’esta cidade monturo.
O Bartolo de improviso,
O subitaneo Lycurgo,
Que anoitece um sabe nada
E amanhece um sabe tudo.
O lettrado gratis dato,
E o que com saber infuso
Quer ser legista sem mestre,
Canonista sem estudo.
O graduado de douto
Na Academia dos burros,
Que é brava Universidade
Para doutorar brunduzios.
Magano sem repugnancia,
Desaforado sem susto,
Intromettido sem risco,
E sem desar abelhudo.
Fraquissimo pelas mãos,
E valentão pelo vulto,
No corpo um grande de Hespanha,
No sangue escoria do mundo.
Este tal, de quem falamos,
Como tem grandes impulsos
De ser baptiza-crianças
Para ser soca-defunctos;
E a Magestade de El-Rei
Tem já com mil esconjuros
Ordenado que o não collem,
Nem a uma egreja de junco:
Elle por manter desejos
Foi-se ao adro devoluto
Da Senhora do Loreto,
Onde está parocho intruso.
Ouvir é um grande prazer,
E ver é um gosto summo,
Quando diz: os meus Freguezes—,
Sem temor de um abrenuncio.
Item é um gosto grande,
Nas manhãs em que madrugo,
Vê-lo repicar o sino
Para congregar o vulgo.
E como ninguem acode,
Se fica o triste mazullo
Em solitaria estação
Dizendo missa aos defunctos.
Quando o Frizão considero,
O menos que d’elle cuido
É ser parocho boneco,
Feito de trapos immundos.
Isto sois, minha Bahia,
Isto passa em vosso burgo,
Toda sois, burgo rural,
Cidade nobre até os muros.