Á UMA MOÇA POR NOME BARBARA
ROMANCE
Babú, como ha de ser isto?
Eu me sinto já acabar,
E estou tão intercadente,
Que não chego té amanha.
Morro da vossa belleza,
E si ella me ha de matar,
Como eu creio que me mata,
Formosa morte será.
Mas seja formosa ou feia,
Si o Deão me ha de enterrar,
Por mais formosa que seja,
Sempre caveira será.
Todos já aqui desconfiam,
Tudo é já desconfiar,
Da minha vida os doutores,
E eu de vosso natural.
Desconfio de que abrande
Vosso rigor pertinaz;
E a minha vida sem cura
Sem duvida acabará;
Porque si estaes incuravel,
E tão sem remedio está
O achaque de não querer-me,
E o mal de querer-me mal:
Que esperança posso eu ter,
Ou que remedio ha capaz,
Si vós sois a minha vida,
E morreis por me matar?
Amor é união das almas
Em conformidade tal,
Que porque estaes sem remedio,
Por contagio me mataes.
Curai-vos de mal querer-me,
E do fastio em que estaes
A minha triste figura,
Que ao demo enfastiará.
Comei, e seja o bocado,
Que com gosto se vos dá,
Porque em vós convalescendo,
Hei de eu também melhorar.
Assim sararemos ambos,
Porque si vós me enfermaes
Pelo contagio, o remedio
Por sympathia será.
Vós, Babú, viraes-me as costas,
Pois eu faço outro por tal:
Estou ás portas da morte,
A falla me falta já.
Quero fazer testamento,
Mas já não posso fallar,
Que vós por costume antigo
Sempre a falla me quitaes.
Mas testarei por acenos,
Que tudo em direito ha,
E si por louco o não posso,
Posso por louco em amar.
Todos meus bens, si os tivera,
Os deixára a vós não mais;
Mas deixo-vos para outrem,
Que é o mais que posso deixar
Si hei de deixar-vos a vós
Quantos bens no mundo ha,
Em vos deixar a vós mesma,
Arto herdada assim ficaes.
Em suffragios da minha alma
Não gasteis o cabedal,
Que aos vossos rigores feita
Penas não ha de extranhar.
Mas si por minhas virtudes,
E si por vos jejuar,
E si por tantas novenas,
Que á vossa imagem fiz já,
Vos mereço algum perdão
Dos peccados que fiz cá,
Assim em vos perseguir,
Como em vos desagradar:
Com as mãos postas vos peço
Que no vosso universal
Juizo mandeis minha alma
Ao vosso Céu descançar
Não a mandeis ao Inferno,
Que arto inferno passou cá:
Adeus, e apertae-me a mão,
Que eu me vou a enterrar.
SATYRISA
ALLEGORICAMENTE A VARIOS LADRÕES DA REPUBLICA
ROMANCE
Hontem, Nise, á prima noite
Vi sôbre o vosso telhado,
Assentados em cabido,
Cinco ou seis formosos gatos.
Estava a noite mui clara,
Fazia um luar galhardo,
E porque tudo vos diga,
Estava eu em vós cuidando.
O presidente ou deão,
Na cumieira assentado,
Era um gato macilento,
Barbirruço e carichato.
Os demais em boa ordem,
Pela cumieira abaixo,
Lavandeiros de si mesmos,
Lavavam punhos e rabos.
Tão profundo era o silencio,
Que não se ouvia um miau,
E o deão interrompeu
Dando um mio acatarrado.
Tossiu, tossiu, e não pôde
Articular um miau,
Que de puro penitente
Traz sempre o peito cerrado.
Eis que um gatinho Reinol,
Muito estitico e mui magro,
Relambido de feições,
E de tono afalcetado,
Quiz por primeiro fallar,
E fallára em todo o caso,
Si outro gato casquiduro
Lhe não sahira aos embargos.
«Eu sou gato de um meirinho,
Disse, que pelos telhados
Vim fugindo a todo o trote
Do poder de um saibam quantos.
Com que venho a concluir
Que servindo a taes dous amos,
Hei de fallar por primeiro,
Porque sou gato de gatos.
Falle, disse o Presidente,
Pois lhe toca por anciano,
E elle tomando-lhe a venia
Foi o seu conto contando.
Em casa d’este escrivão
Me criei com tal regalo,
Que os demais gatos de casa
Eram commigo uns bichanos.
Mas cresci e aborreci,
Porque se cumprisse o adagio
Que official de teu officio
Teu inimigo declarado.
Foi-me tomando tal odio
Porque foi vendo e notando,
Que era eu capaz de dar-lhe
Até no officio um gatazio.
Topou-me em uns entreforros,
E tirando-me porraços,
Eu lhe miava os narizes,
Quando elle me enchia os quartos.
Fugi, como tenho dito,
E me acolhi ao sagrado
De uma vara de justiça,
Que é valhacouto de gatos.
Sahe meu amo aos prendimentos,
E eu fico em casa encerrado
Por caçador de balcões,
Onde jejuo o trespasso.
Porque em casa de um meirinho,
Nas suas arcas e armarios,
É quaresma toda a vida,
E temporas todo o anno.
Não posso comer ratinhos,
Porque cuido, e não me engano,
Que de meu amo são todos
Ou parentes ou paisanos.
Porque os ratinhos do Douro
São grandissimos velhacos:
Em Portugal são ratinhos,
E cá no Brazil são gatos.
Eu sou gato virtuoso,
Que a puro jejum sou magro:
Não como por não ter que,
Não furto por não ter quando.
E como sobra isto hoje
Para me terem por sancto,
Venho a pedir que me ponham
No calendario dos gatos.»
Acabada esta parlanda,
Muito ethico de espinhaço
Sôbre as moletas das pernas
Se levantou outro gato,
Dizendo: ha annos que sirvo
Na casa de um boticario,
Que a recipe de pancadas
Me tem os bofes purgados.
Queixa-se que lhe comi
Um boião de unguento branco,
E lhe bebi nessa noite
Um cangirão de rhuibarbo.
Diz bem, porque assim passou,
Mas eu fiquei tão passado,
Como de tal solutivo
Dirá qualquer matasanos.
Fiquei de humores exangue,
Tão escorrido e exhausto,
Que não sou gato de humor,
Porque nem bom, nem máu gato.
Supplico ao Senhor Cabido
Que de um homem tão malvado
Me vingue com ter saude,
Por não gastar-lhe os emplastos.»
Apenas este acabou,
Quando se ergueu outro gato,
E entoando o jube domine,
Disse humilde e mesurado:
«Meu amo é um alfaiate
Gerado sobre um telhado
Na maior força do inverno,
Alcoviteiro dos gatos.
É pardo rajado em preto,
Ou preto embutido em pardo,
Malhado ou já malhadiço
Do tempo em que fôra escravo:
Tão caçador das ourellas,
Tão murador dos retalhos,
Que com onças de retroz
Brinca qual gato com rato.
E porque com fio e meio
Joguei o sapateado,
Houve de haver por tão pouco
Uma de todo’ os diabos.
Estrugiu-me a puros gritos
E plantou-me no pedrado,
Que elle pelo cato é cão,
E eu fiquei gato por cabo.
Que de verdades dissera,
A estar menos indignado!
Que para fallar de um cão
É mui suspeitoso um gato.
Pelo menos quando eu corto,
Nunca dobro a téla em quatro,
Por dar um córte a seu dono
E outro a mim pelo trabalho.
Nem menos peço dinheiro
Para retroz, e o não gasto,
Porque o gavetão do cisco
Me dá o retroz necessario.
Não sizo covado e meio
Por dar um collete ao diabo,
Nem vendo de téla fina
Retalhinhos de tres palmos.
Tudo emfim se ha de saber
No universal cadafalso,
Que no tribunal de Deus
Não se estylam Secretarios.
Requeiro a vossas mercês
Que me ponham com outro amo,
Porque com este hei de estar
Sempre como cão com gato.»
«Á vista d’este alfaiate,
Disse o Cabido espantado,
«Somos nós gatos mirins,
Que inda agora engatinhamos.
O gato tome amo novo
Em qualquer convento honrado,
Seja fundador Barbonio,
Ou Sacristão mór do Carmo.»
A proposito do que
Se foi erguendo outro gato,
E amortalhado de mãos
Armou os hombros em arco.
E dizendo o jube domine,
Se poz em terra prostrado,
E eu disse logo: «me matem,
Si não é dos Franciscanos.»
«Sou gato de refeitorio,
Disse, ha tres ou quatro annos
Pagem do refeitoreiro,
Do despenseiro criado.
Fui custodio da cozinha,
E dei má conta do cargo,
Porque sizando rações
Fui guardião de tassalhos.
Era eu em outro tempo
Mui gordo e mui anafado,
Porque os da esmola então vinham
Despejar em casa os saccos.
Mas hoje que já da rua
Vêm os bolsos despejados,
Veiu a ser o refeitorio
Uma Thebaida de gatos.
Não póde o pão das esmolas
Manter tantos remendados,
Que em lhe manter as amigas
Sendo infinitas, faz arto.
Dei com isto em tizicar-me
E esburgar-se-me o espinhaço,
Não tanto já de faminto,
Quanto de escandalisado.
Não posso viver entre homens,
Que, si remendam uns pannos,
É mais por nos enganar
Que porque lhes dure o anno.
E hoje que na Casa Nova
Gastam tantos mil cruzados,
São gatos de maior dura,
Pois de pedra e cal são gatos.»
Palavras não eram ditas,
Quando zunindo e silvando
Sentiram pelas orelhas
Um chuveiro de bastardos.
E logo atraz d’isso o tiro
De um bacamarte atacado,
Que disparou de um quintal
Um malfazejo soldado.
Descompoz-se-lhe a audiencia,
E cada qual por seu cabo
Pela campanha dos ares
Foram de telha em telhado.
E depois que legua e meia
Tinha cada qual andado,
Parando olharam atraz
Attonitos e assustados.
E vendo-se desunidos,
Confusos, desarranchados,
Usaram da contra senha,
Miáu aqui, alli miáu.
E depois que se ajunctaram,
Disse um gato castelhano:
«Cada qual a sua cabana,
Que hoje de boa escapámos.»
Choviscou naquelle instante,
E safaram-se de um salto,
Porque sempre de agua fria
Ha mêdo o gato escaldado.