MARINICOLAS

Marinicolas todos os dias

O vejo na sege passar por aqui,

Cavalheiro de tão lindas partes,

Como, verbi gratia, Londres e Pariz.

Mais fidalgo que as mesmas estrellas,

Que as doze do dia viu sempre luzir,

Que seu pae por não sei que desastre

Tudo o que comia vinha pelo giz.

Peneirando-lhe os seus avelorios,

É tal a farinha do nympho gentil,

Que por machos é sangue Tudesco,

Porém pelas femeas humor meretriz.

Um avô, que rodou esta côrte

Num coche de quatro de um Dom Beleaniz,

Sôbre mulas foi tão attractivo,

Que as Senhoras todas trouxe atraz de si.

Foi um grande verdugo de bestas,

Pois co’um azorrague e dois borzeguins,

Ao compás dos maus passos que davam

Lhes ia cantando o lá, sol, fá, mi.

Marinicolas era muchacho

Tão gran’ rabaceiro de escumas de rins,

Que jámais para as toucas olhava,

Por achar nas calças melhor fraldelim.

Sendo já sumilher de cortina

De um xastre de barbas, saiu d’aprendiz

Dado só ás lições de canudo,

Rapante de especie de .. viril.

Cabrestilhos tecendo em arames,

Tão pouco lucrava no patrio paiz,

Que se foi dando velas ao vento

Ao reino dos Servos, não mais que a servir.

Lá me dizem que fez carambola

Com certo Cupido, que fôra d’aqui

Empurrado por uma Sodoma,

No anno de tantos em cima de mil.

Por signal que no sitio nefando

Lhe poz a ramella do olho servil

Um travesso, porque de cadeira

A seus .. servisse aquelle ambar gris.

Mordeduras de perro raivoso

Có o pello se curam do mesmo mastim,

E aos mordidos do rabo não póde

O sumo do rabo de cura servir.

Tanto em fim semeou pela terra,

Que havendo colhido bastante quatrim,

Resolvendo a ser Perotangas

Cruzou o Salobre, partiu o Zenith.

Avistando este nosso hemispherio,

Calou pela barra em um bergantim,

Poz em terra os maiores joanetes

Que viram meus olhos desde que nasci.

Pretendendo com recancanilhas

Roubar as guaritas de um salto subtil,

Embolçava com alma de gato,

A risco de sape, dinheiro de miz.

Sinão quando na horta do Duque

Andando de ronda um certo malsim,

Estumando-lhe um cão pechelingue

O demo do gato botou o seitil.

Marinicolas vendo-se entonces

De todo expurgado sem maravedi,

Alugava rapazes ao povo,

Por ter de caminho de quem se servir.

Exercendo-os em jogos de mãos

Tão lestos os tinha o destro arlequim,

Que si não lhes tirára a peçonha

Ganhára com elles dois mil potosis.

A tendeiro se poz de.....

E na taboleta mandou esculpir

Dois cachopos, e a lettra dizia:

Os ordenhadores se alquilam aqui.

Tem por mestre do terço......

Um pagem de lança, que Marcos se diz,

Que si em casa anda ao rabo d’elle,

O traz pela rua ao rabo de si.

Uma tarde em que o perro celeste

Do sol acossado se poz a latir,

Marinicola estava com Marcos

Limpando-lhe os moncos de certo nariz.

Mas sentindo ruido na porta,

Aonde batia um Gorra civil,

Um e outro se poz em fugida,

Temiendo los dientes de algun javali.

Era pois o baeta travesso:

Si um pouco de antes aportára alli,

Como sabe latim o baeta,

Pudiera cogerlos en un má latin.

Ao depois dando d’elle uma força

As alcoviteiras do nosso confim,

Lhe valeu no sagrado da egreja

O nó indissoluvel de um rico mongil.

Empossado da simples consorte

Cresceu de maneira naquelles chapins,

Que inda hoje dá graças infindas

Aos falsos informes de quis, quid e quid.

Não obstante pagar de vazio

O sancto hymeneu um picaro vil,

Se regala á ufa do sogro,

Comendo e bebendo como mochachim.

Com chamar-se prudente com todos,

Que muitos babosos o têm para si,

Elle certo é o meu desenfado,

Que um tolo prudente dá muito que rir.

É dotado de um entendimento

Tão vivo e esperto, que fôra um Beliz,

Si lhe houvera o juizo illustrado

Um dedo de grego, outro de latim.

Entre gabos o triste idiota

Tão pago se mostra dos seus gorgotis,

Que nascendo sendeiro de gemma,

Quer á fina força metter-se a rossim.

Deu agora em famoso arbitrista,

E quer por arbitrios o triste malsim

Que o vejamos subir á Excellencia,

Como diz que vimos Montalvão subir.

Sendo pois o alterar a moeda

O assopro, o arbitrio, o ponto e o ardil,

De justiça, a meu ver, se lhe devem

As honras que teve Ferraz e Soliz.

Dêm com elle no alto da forca,

Adonde o fidalgo terá para si

Que é o mais estirado de quantos

Beberam no Douro, mijaram no Rim.

Si o intento é bater-se moeda,

Correrem-lhe gages e ser mandarim,

Porque andando a moeda na forja

Se ri de Cuama, de Sena e de Ophir?

Sempre foi da moeda privado,

Mas vendo-se agora Senhor e Juiz,

Condemnando em portaes a moeda,

Abriu ás unhadas portas para si.

Muito mais lhe rendeu cada palmo

D’aquella portada que dois potosis;

Muito mais lhe valeu cada pedra

Que vale un ochavo de Valladolid.

Pés de puas com topes de seda,

Cabellos de cabra com pós de marfim,

Pés e puas de riso motivo,

Cabellos e topes motivo de rir.

Uma tia, que abaixo do muro

Lacões esquarteja, me dizem que diz:

Sua Alteza sem ir meu sobrinho

A nada responde de não ou de sim.

Pois a prima da rua do Saco

Tambem se reputa de todos alli,

Que a furaram como velador

Para o garavato de certo candil.

Outras tias me dizem que foram

Tão fortes gallegas, e tão varonis,

Que sobre ellas foi muito mais gente

Do que sobre Hespanha em tempo do Cid.

Catharina conigibus era

Uma das avôas da parte viril,

D’onde vem conixarem-se todas

As conigibundas do tal genesis.

Despachou-se com habito e tença

Por grandes serviços, que fez ao Sofi,

Em matar nos fieis Portuguezes

De puro enfadonho tres ou quatro mil.

E porque de mechanica tanta

Não foi dispensado, tenho para mim

Que em usar da mechanica falsa

Se soube livrar da mechanica vil.

É possível que calce tão alto

A baixa vileza de um sujo escarpim,

Para o qual não é a agua bastante

Da grossa corrente do Gualdaquibir?

Marinicolas é finalmente

Sugeito de prendas de tanto matiz,

Que está hoje batendo moeda,

Sendo ainda hontem um vilão ruim.

AO BRAÇO FORTE
ESTANDO PRÊSO POR ORDEM DO GOVERNADOR BRAÇO DE PRATA

ROMANCE

Prêso entre quatro paredes

Me tem Sua Senhoria,

Por regatão de despachos,

Por fundidor de mentiras.

Dizem que eu era um velhaco,

E mentem por vida minha,

Que o velhaco era o Governo,

E eu a velhacaria.

Quem dissera, quem pensára,

Quem cuidára, e quem diria,

Que um braço de prata velha,

Pouca prata, e muita liga;

Tanto mais que o braço forte

Fosse forte, que poria

Um Cabo de calabouço,

E um soldado de golilha?

Porém eu de que me espanto,

Si nesta terra maldicta

Póde uma ovelha de prata

Mais que dez onças de alquima?

Quem me chama de ladrão

Erra o trinco á minha vida;

Fui assassino de furtos,

Mandavam-me, obedecia.

Despachavam-me a furtar,

E eu furtava, e abrangia:

Serão boas testemunhas

Inventarios e partilhas.

E eu era o ninho de guincho,

Que sustentava e mantinha

Co’o suor das minhas unhas

Mais de dez aves rapinas.

O povo era quem comprava,

O General quem vendia,

E eu triste era o corrector

De tão torpes mercancias.

Vim depois a aborrecer,

Que sempre no mundo fica

Aborrecido o traidor,

E a traição muito bemquista.

Plantar o ladrão de fóra

Quando a ladroice fica,

Será limpeza de mãos,

Mas de mãos mui pouco limpas.

Elles guardaram o seu

Dinheiro, assucar, farinhas,

E até a mim me embolsaram

Nesta hedionda enxovia.

Si foi bem feito, ou mal feito,

O sabe toda a Bahia;

Mas si á traição me fizeram,

Com elles a traição fica.

Eu sou sempre o Braço forte,

E nesta prisão me anima

Que si é casa de peccados,

Os meus foram ninharias.

Todo este mundo é prisão,

Todo penas e agonias,

Até o dinheiro está prêso

Em um sacco que o opprima.

A pipa é prisão do vinho;

E da agua fugitiva,

Sendo tão livre e ligeira,

É prisão qualquer quartinha.

Os muros de pedra e cal

São prisão de qualquer villa,

Da alma é prisão o corpo,

Do corpo é qualquer almilha.

A casca é prisão da fructa,

Da rosa é prisão a espinha,

O mar é prisão da terra,

A terra é prisão das minas.

Do ar é carcere um odre,

Do fogo é qualquer pedrinha,

E até de um céu outro céu

É uma prisão crystallina.

Na formosura e donaire

De uma muchacha divina

Está presa a liberdade,

E na paz a valentia.

Pois si todos estão presos,

Que me cansa ou me fadiga,

Vendo-me em casa de El-Rei,

Juncto a Sua Senhoria?

Chovam prisões sobre mim,

Pois foi tal minha mofina,

Que a quem dei cadêas de ouro,

De ferro m’as gratifica.

Á D. JOÃO DE ALENCASTRE
QUE VINDO DO GOVERNO DE ANGOLA POR ESCALA A BAHIA, E ESTANDO NELLA HOSPEDE DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA COUTINHO, SEU CUNHADO, EM CUJO DESAGRADO SE ACHAVA O P., SE QUEIXOU DE QUE ESTE O NÃO HOUVESSE VISITADO, PEDINDO-LHE QUE AO MENOS LHE FIZESSE UMA SATYRA POR OBSEQUIO

A quem não dá aos fieis,

Perdão se lhe ha de outorgar,

E eu hoje vo-lo hei de dar,

Pedindo me perdoeis:

Dou-vos o que mais quereis,

E o que pedis por favor,

Que quando chega um senhor

A pedir por não mandar,

Mal lhe podia eu faltar

Co’ uma satyra em louvor.

Não fui beijar-vos a mão,

E dar-vos a bem chegada,

Porque nessa alta morada

Nunca tive introducção:

Até agora a indignação

Não quiz tão altivo tracto,

Mas hoje é quasi distracto,

Porque em todo o mundo inteiro

De fidalgo e de escudeiro

São brincos de cão com gato.

Os fidalgos e os senhores

Fartos de jurisdicção

Fazem tudo e tudo dão

Á amigos e servidores:

Os que jogam de maiores

Por sangue, e não por poder,

Fazem jogo de entreter,

Porque o sangue desegual

Sempre bota ao natural,

E o mando bota a perder.

Perdoae a digressão,

Porque esta preluxidade

É boa luz da verdade

E excusa satyra então:

Quando se offereça occasião,

Meu senhor, de que vos veja

(Na egreja ou na rua seja)

Hei de prender-vos os pés,

E estai certo, que essa vez

Vos não valerá a Egreja.

Estou na minha quintinha,

Que é chacara soberana,

Ora comendo a banana,

Jogando ora a laranginha:

Nem vizinho, nem vizinha

Tenho, porque sempre cança,

Quem tudo vê e nada alcança,

E na cidade são raros

Os olhos, que não são claros,

Si olhos são de vizinhança.

Mas inda que desterrado

Me tem o fado e a sorte

Por um Juiz de má morte,

De quem não tenho appellado:

É hoje, que sois chegado,

Senhor, o tempo em que appelle,

Fazei, que el-rei o desvele

Pagar o serviço meu,

Pois é bizarro, e só eu

Não vim muito pago d’elle.

A JOÃO GONÇALVES DA CAMARA COUTINHO
FILHO DO DITO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA, TOMANDO POSSE DE UMA COMPANHIA DE INFANTES EM DIA DE S. JOÃO BAPTISTA, ASSISTINDO-LHE DE SARGENTO SEU TIO DOM JOÃO DE ALENCASTRE

No culto que a terra dava,

Equivocava-se a vista,

Si celebrava ao Baptista,

Si a Coutinho celebrava:

Um e outro João estava

Arrojando a sua planta

Tanto applauso e festa tanta;

Mas viu-se, que ao mesmo dia

Em que o Baptista cahia,

O Coutinho se levanta.

Viu-se que um João Baptista

Na terça feira cahira,

E que o outro João subira

A imperar nesta Conquista:

Mas não se enganou a vista

Por desacerto ou desgraça,

Antes com divina traça

Se notou e se advertiu,

Que si um com graça cahiu,

Outro nos cahiu em graça.

Brava occurrencia se achou

No Martyrologio então,

O dia era de um João,

E outro João lh’o levou:

Toda a cidade assentou

Por razão e por carinho,

Ser mais acerto e alinho

Preferir entre dous grandes

Como um Silva a um Fernandes,

A um Baptista um Coutinho.

Mais concurrencias se deram

Porque pasmasse a Bahia,

Dous num dia ha cada dia,

Mas tres nunca concorreram:

Tres de um nome então vieram,

E qual mais para applaudido;

E assim confuso o sentido,

Ficou, com tão nova traça,

Restaurada a nossa Praça

E o Kalendario aturdido.

Si de um só João no dia

Se abalára a Christandade,

Por tres de tal qualidade

Quem se não abalaria?

Tudo quanto então se via,

Se via com grande abalo,

Um mar de fogo a cavallo,

A pé um Etna de flores,

E por ver tantos primores

O céu dava tanto estalo.

A ver o grande Lencastro

Quem não fez do aperto graça?

Si sahiu o Sol á Praça

Fazer Praça á tanto astro?

O bronze pois e alabastro,

Por solemnisar a gloria,

Consentiram que esta historia

Fique, por mais segurança,

Nos archivos da lembrança,

Nos volumes da memoria.

A PEDRO ALVRES DA NEIVA
QUANDO EMBARCOU PARA PORTUGAL

ROMANCE

Adeus, amigo Pedro Alvres,

Que vos partistes d’aqui

Para geral desconsolo

D’este povo do Brazil.

Partiste-vos, e oxalá

Que então vos vira eu partir,

Que sempre um quarto tomára

A libra por dous seitis.

Puzera o quarto em salmoura

E no fumeiro o pernil,

O pé não, porque me dizem

Que vos fede o escarpim.

Guardára o quarto de sorte,

Que se vos podera unir

Na surreição dos auzentes

Quando tornasseis aqui.

Mas vós não fostes partido,

Mente quem tal cousa diz;

Antes fostes muito inteiro,

E sem se vos dar de mim.

Saudades não as levastes,

Deixaste-las isso sim,

Porque de todo este povo

Ereis o folgar e rir.

Desenfado dos rapazes,

Das moças o perrixil,

O burro da vossa casa,

E da cidade o rossim.

Lá ides por esses mares,

Que são vidraças do anil,

Semeando de asnidades

Toda a vargem zaphir.

O piloto e a companha

Apostarei que já diz

Que vai muito arrependido

De ires no seu camarim.

O homem se vê e deseja,

E desesperado emfim,

Acceita que a nau se perca,

Por vos ver fóra de si.

Deseja ver-vos luctando

Sôbre o elemento subtil,

Onde um tubarão vos parta,

Vos morda um darimdarim.

Deseja que os peixes todos

Tomem accôrdo entre si

De vos darem nos seus buchos

Sepultura portatil.

Sente que em amanhecendo

A fina força ha de ouvir

Os bons dias de uma bocca,

Cujo bafo é tão ruim.

Sente que não empregando

Nem um só maravedí

Em queijos frescos, a elles

Vos trezande o chambaril.

Mas vós heis de ir a Lisboa

Apezar de villão ruim,

E el-rei vos ha de fazer,

Com mil mercês, honras mil.

Os cavalheiros da côrte,

Trazendo-vos juncto a si,

Vos hão de dar como uns doidos

Piparotes no nariz.

E como vós sois doente

De fidalgos phrenesis,

Por ficar afidalgado

Toda a mofa heis de rustir.

O que trazeis de vestidos,

Uns assim, outros assim,

Sereis o moda dos modas,

E o modelo dos Torins.

A conta d’isto me lembro,

Quando em Marapé vos vi

Vestido de pimentão,

Com fundos de flor de liz.

Em verdade vos affirmo

Que então vos suppuz e cri

Surrada tapeçaria,

Tisnado guadamecim.

O que dizeis de mentiras,

Quando tomardes aqui,

Amizades de um visconde,

Favores de um conde vis.

Valído de um tal ministro,

Cabido de um tal juiz,

E até do mesmo Cabido

Leiguissimo mandarim.

El-rei me fez mil favores,

Mil favores, mais de mil,

Bem fez com que eu lá ficasse,

Mas não o pude servir.

Quem casou, como eu casei,

Com mulher tão senhoril,

É captivo de um ferreiro,

Não me posso dividir

De el-rei é a minha cabeça,

Porém o corpo gentil

Todo é de minha mulher,

Não tem remedio, hei de me ir.

Achou-me razão el-rei,

E na hora de partir,

Pondo-me a mão na cabeça,

Medisse: Perico, adi.

Ide-vos Perico embora,

Ide-vos para o Brazil,

Que quem vos tirou da côrte

Não vos tirará d’aqui.

E pondo em seu peito a mão,

Eu que a fineza entendi

Chorei por agradece-la

Lagrimas de mil em mil.

Botei pelo paço fóra,

Metti-me no bergantim,

Cheguei a bordo, embarquei-me,

Levámos ferro, e parti.

Os cavalleiros da côrte

Choraram tanto por mim,

Como por uma commenda

De Sanctiago ou de Aviz.

Hontem avistámos terra,

E quando na barra vi

Coqueiros e bananeiras,

Disse comigo: Brazil!

NO BOQUEIRÃO
DE S. ANTONIO DO CARMO, DENTRO DE UMA PEÇA DE ARTILHARIA DESCAVALGADA ESTEVE MUITOS DIAS UMA COBRA SURUCUCÚ ASSALTANDO AOS QUE PASSAVAM COM MORTE DE VARIAS PESSOAS, SENDO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GONÇALVES DA CAMARA (É ESTE O ASSUMPTO DA POESIA QUE SE LÊ EM SEGUIDA)

ROMANCE

Acabou-se esta cidade,

Senhor, já não é Bahia.

Já não ha temor de Deus,

Nem d’El-Rei, nem da Justiça.

Lembra-me que ha poucos annos,

Inda não ha muitos dias,

Que para qualquer funcção

De um crime a prisão se urdia.

Iam por esse sertão

Ao centro da Jacobina

Prender algum matador,

Inda que fosse á espadilha.

Mas hoje dentro na praça,

Nas barbas da infantaria,

Nas bochechas das Granachas,

Com polé e forca á vista:

Que esteja um surucucú

Com soberana ousadia

Feito Parca da cidade,

Cortando os fios ás vidas!

Com tantas mortes ás costas,

E que não haja uma rifa

De paus, que ao tal matador

Lhe sacuda o basto em cima.

É mui barbaro rigor

O d’esta cobra atrevida,

Que esteja na estrada posta

Fazendo assaltos á vista.

Onde está Gaspar Soares,

Que não vai á espora fita

No lazão lançar-lhe a garra,

E mette-la na enxovia?

Si está no matto emboscada,

No seu mocambo mettida,

Mandem-lhe um terço ligeiro

De infantes de Henrique Dias.

Si dizem que está na peça,

Dem-lhe fogo á colubrina,

Já que faz peças tão caras,

Custe-lhe esta peça a vida.

Vão quatro ou seis artilheiros

Cavalgar-lhe a artilharia,

Porque em sendo noite dá

Fogo a toda cousa viva.

Fira com balas hervadas,

A que não ha medicina,

Porque as traz sempre na bocca

Com venenosa saliva.

O caso é monstruosidade,

Porém não é maravilha,

Que haja cobras e lagartos

Entre tanta sevandija.

Só digo que é boa peça,

Porque na peça escondida,

Vella na peça de noite,

Dorme na peça de dia.

Á BRITES
UMA PARDA DAMA, VULGARMENTE CHAMADA BETICA, PEDINDO-LHE CEM MIL RÉIS

ROMANCE

Betica, a bom matto vens

Com teu dá cá, com teu toma,

O diabo te enganou,

Não póde ser outra cousa.

Viste-me acaso com geito

De commissario de frotas,

Que faz roupa de Francezes

Dos brocados de Lisboa?

Sou eu acaso o Masullo,

Que do que tem de outras contas

Dá sem conta em cada um anno

Cem mil cruzados á Rola?

Sou matachim por ventura,

Que vim ante-hontem da Angola,

Que dos escravos alheios

Faço mercancia propria?

Menina, eu bato moeda?

Eu sou um pobre idiota,

Que para um tostão ganhar

Estudo uma noite toda.

Cem mil réis me vens pedir?

A mim cem mil réis, demonia?

Si eu algum dia os vi junctos,

Deus m’os dê e tu m’os comas.

Si eu nascêra Genovez,

Ou fôra Viz-Rei de Goa

Vinte e quatro de Sevilha,

Ou quarent’oito de Roma:

Dera-te, minha Betica,

Pela graça com que tomas,

Mais ouro que vinte minas,

Mais seda que trinta frotas.

Mas um pobre estudantão,

Que vive á pura tramoia,

E sendo leigo se finge

Cleriguissimo corona:

Que póde, Betica, dar-te

Sinão que versos, nem prosas?

Eu não dou sinão conselhos,

Si m’os paga quem m’os toma.

Si me ha de custar tão caro

Erguer-te uma vez a roupa,

Com outra antes de barrete,

Do que comtigo de gorra.

Para que sendo tão rica

Pedes como pobretona,

Si esses teus dentes de prata

Estorvam dar-se-te esmola?

Que mais cabedal deseja,

Si és tão rica de perolas,

Que com varios chistes pedes

Todo um dia a mesma cousa?

Tu pedindo, e eu negando,

Que cousa mais preciosa,

Que val mais do que desejas,

E a ti nada te consola.

Cem mil réis de uma só vez!

Pois, pobreta, á outra porta:

Deus te favoreça, irmã,

Não ha trocado, perdoa.

Não ha real em palacio:

Ando baldo; perdi a bolsa,

Que são os modos com que

Se despede uma pidona.

Á ANNICA
OUTRA SIMILHANTE PARDA PEDINDO-LHE UM CRUZADO PARA PAGAR UNS SAPATOS

ROMANCE

Um cruzado pede o homem,

Annica, pelos sapatos,

Mas eu ponho isso á viola

Na postura do cruzado.

Diz que são de sete pontos,

Mas como eu tanjo rasgado,

Nem nesses pontos me metto

Nem me tiro d’esses trastos:

Inda assim si eu não soubera

O como tens trastejado

Na banza dos meus sentidos,

Pondo-me a viola em cacos:

O cruzado pagaria,

Já que fui tão desgraçado,

Que boli co’ a escaravelha,

E toquei sôbre o buraco.

Porém como já conheço

Que o teu instrumento é baixo,

E são tão falsas as cordas,

Que quebram a cada passo:

Não te rasgo, nem ponteio,

Não te ato, nem desato,

Que pelo tom que me tanges,

Pelo mesmo tom te danço.

Busca outros temperilhos,

Que eu já estou destemperado,

E estou na quinta do Pegas

Minhas cousas cachimbando.

Si tens o cruzado, Annica,

Manda tirar os sapatos,

E sinão lembre-te o tempo,

Que andaste de pé rapado.

E andavas mais bem segura,

Que isto de pizar em saltos

É susto para quem piza,

E a quem paga é sobresalto.

Quem te curte o cordavão

Porque não te dá sapatos?

Mas eu que te rôo o osso

É que hei de pagar o pato?

Que diria quem te visse

No meu dinheiro pizando?

Diria que quem t’o deu

Ou era besta, ou cavallo.

Pois porque não digam isso,

Leve-me a mim São Fernando,

Si os der, e si tu os calçares,

Leve-te, Annica, o diabo.

De mais, que estou de caminho,

E seria mui grande asno

Estar para dar a sola,

E a ti deixar-te os sapatos.

Agora si eu cá tornar,

Trarei pelles de veado

Para dar-te umas chinelas

Duraveis, que é mais barato.

Fica-te na paz de Deus,

Saudades até quando,

Vem-te despedir de mim,

Porque de hoje a oito parto.

A UMAS MOÇAS
QUE COSTUMAVAM IR A UMA ROÇA

ROMANCE

Vamos cada dia á roça,

Si é que vai a camarada,

Que ri e folga á franceza,

E pinta á italiana.

Vamos, e fiquemos lá

Um dia ou uma semana,

Que emquanto as gaitas se tocam

Sabe a roça como gaitas.

Vamos á roça inda que

Nos fique em tantas jornadas

Cada meia sem palmilha,

E sem sola cada alparca.

Vá Mané, e vá Marcella,

Vá toda a nossa prosapia,

Excepto a que por casar

Não põe pé fóra de casa.

Case e tão casada fique,

Que nem para fazer caca

Jamais o marido a deixe,

Nem se lhe tire da ilharga.

Case, e depois de casar-se

Tanto gema, e tanto paira,

Que caia em meio das dores

Na razão das minhas pragas.

Case, e tanto se arrependa,

Como faz toda a que casa,

Que nem para descasar-se

A via da egreja saiba.

E nós vamos para a roça

Co’nosso feixe de gaitas,

Até ver-me descasada,

Para me rir de quem casa.

Á MULATA JOANNA GAFEIRA
ESTANDO QUEIXOSA DO POETA A HAVER SATYRISADO

ROMANCE

Não posso cobrar-lhes medo,

Joanna, a vossos focinhos,

Que como sois tão formosa,

Cede á verdade o fingido.

Tanta olhadura a travez,

Tanto focinho torcido,

Tanto pescoço empinado,

Tanto esguelhado beicinho,

São modos tão extrangeiros,

Alheios e peregrinos

Das perfeições naturaes

Do vosso rosto divino,

Que jámais podem fazer

No meu peito amante e fino

Retroceder as tenções,

Nem arribar os designios.

Sempre caminhando ávante,

Nunca deixando o caminho,

Ando atraz de ver si posso

Chegar a vosso captivo.

Si me ferraes esta cara

Co’um favorzinho de riso,

Me hei de rir de farto então

Do mundo e seus regosijos.

Hei de pôr-me a rir então

De sorte que a riso fito

Me hão de ter em todo o orbe

Por Democrito dos risos.

Olharei para a Beleta,

E me rirei dos meninos,

Que andam sempre a belisca-la

Qual mono com seus bugios.

Olharei para Apollonia,

E de a ver entre os corrilhos

De tanta canastra honrada,

Que é a nobreza do sitio.

Rirei de ver cada um

Ir-se d’aqui despedido,

Entonces mais carregado,

Porque entonces mais vazio.

A elles pelas estradas

Suspirando pelo sitio,

A ella pelos oiteiros

Zombando de taes suspiros.

A elles tomando o tolle

Para o sertão fugitivos,

Tanto fugindo dos amos,

Como da conta fugindo.

A ella por capoeiras

Estreando co’ os meninos

A baetinha dos pobres,

A serafina dos ricos.

Para a Ursula olharei,

E rirei de a ver no Sitio

Parafuzando pivetes

Pela tarracha do embigo.

Rirei de ver os amantes,

Rirei de ver os queridos,

Que tendo-se por ditosos,

São em seus gostos mofinos.

E só feliz eu serei,

Si lógro os vossos carinhos,

E me impingis nesta cara

Da vossa bocca um beijinho.

Tende-me na vossa graça,

E a queixa se torne em riso,

A malquerença em amor,

E o desfavor em carinho.

Á DAMAZIA
OUTRA MULATA QUE CHAMAVA SEU UM VESTIDO QUE TRAZIA DE SUA SENHORA

ROMANCE

Muito mentes, mulatinha!

Valha-te Deus por Damazia,

Não sei quem, sendo tu escura,

Te ensina a mentir ás claras.

Tal vestido, e com tal pressa!

Não vi mais ligeira saia:

Mas como a seda é ligeira,

Foi a mentira apressada.

Tal vestido não é teu,

Nem tu tens, Damazia, cara

Para ganhar um vestido,

Que custa tantas patacas.

Tu ganhas dous, tres tostões

Por duas ou tres topadas,

Não chegam as galaduras

Para deitar uma gala.

Nem para os feitios chegam

Os troquinhos que tu ganhas,

Pois não vale o teu feitio

Mais que até meia pataca.

De soldado até sargento,

Ou até cabo de esquadra,

Não passa o teu roçagante,

Não te chega a triste alçada.

Estes que te podem dar

Mais que uma vara de cassa,

Uma cinta de baeta

E saia de persiana;

Collete de chamalote,

E de vara e meia a fralda,

Que fazem oito mil réis,

Que é valor da pobre farda.

Todos sabem que o vestido,

Que em verdes campos se esmalta,

É verdura de algum besta,

Que em tua senhora pasta.

Mas o que é d’ella teu é,

Que é outra que tal jangada,

E talvez por t’o emprestar

Se ficaria ella em fraldas.

Apostemos que não vestes

Outra vez a verde saia!

E nem de a vestires mais

Te ficam as esperanças.

Ora toma o meu conselho,

E vive desenganada,

Que emquanto fores faceira

Não has de ganhar pataca.

Á UMA DAMA
POR NOME IGNACIA PAREDES

ROMANCE

Quiz ir a festa da Cruz

Ignacia, e faltou-lhe a rede,

Como que foi força ficar

Paredes entre paredes.

Outros dizem que uma amiga

Lhe pediu o manto adrede,

Pela ter emparedada

Todo o dia, em que lhe peze.

Não sei a verdade d’isto,

Sei que eu paguei a patente,

Tendo um dia de trabalho,

Porque de festa lh’o désse.

A saber que estava em casa,

Visitara-a como sempre,

E fizera o que costumam

Casados in facie Ecclesiæ.

Fôra-me pôr á janella,

Porque o calor me refresque,

Fallára co’as Guapas sujas,

Que são limpas guapamente.

Marianna se agastára,

Que tudo escuta e attende,

Por isso diz o adagio:

Manso, que ouvem as paredes.

Sabendo d’este ciume

Foram as Guapas contentes,

Que inda que mulheres feias,

São feias, porém mulheres.

Ignacia se socegára,

Que é moça mansa e alegre,

E com dous mimos se põe,

Sendo Ignacia, uma clemente.

Da sua amiga me queixo,

Que cão de horta me parece,

Pois em todo o dia nunca

Comeu, nem deixou comer-me.

Com Ignacia já não quero

Lançar mais barro á parede,

Que de mui sêcca receio

Que alli meu barro não pegue.

Uma mãe com duas filhas

Na verdade é pouca gente,

Para que eu possa cantar

Prêso entre quatro paredes.

Tres só não fazem prisão,

Porque um triangulo breve,

Que um sino Salmão figura,

Mais enfeitiça que prende.

Mas a parede de Ignacia,

Com ser uma tão sómente,

Como é tão forte e tão rija,

Bastou só para prender-me.

Perdi o ganho essa tarde,

E cuido que para sempre,

Quem m’a pegou uma vez,

Não quero que outra me pegue.

Da Sancta Cruz era a festa,

E a maldicta da Paredes,

Com cruz e sem cruz receio

Me faça calvarios sempre.

Eu perdi moça que agrade,

Ella velho que aconselhe,

Ambos ficámos perdidos,

Quem o vê que o remedeie.