Á GENTE DA BAHIA
Não sei para que é nascer
Neste Brazil impestado
Um homem branco e honrado
Sem outra raça.
Terra tão grosseira e crassa,
Que a ninguem se tem respeito,
Salvo si mostra algum geito
De ser mulato.
Aqui o cão arranha ao gato,
Não por ser mais valentão,
Sinão porque sempre a um cão
Outros acodem.
Os brancos aqui não podem
Mais que soffrer e calar,
E si um negro vão matar
Chovem despezas.
Não lhe valem as defezas
Do atrevimento de um cão,
Porque acorda a Relação
Sempre faminta.
Logo a fazenda e a quinta
Vão com tudo o mais á praça,
Onde se vendem de graça,
Ou de fiado.
Que aguardas, homem honrado,
Vendo tantas sem razões,
Que não vais para as nações
Da Barbaria?
Porque lá se te faria
Com essa barbaridade
Mais razão e mais verdade
Do que aqui fazem.
Por que esperas? que te engrazem
E exgotem os cabedaes
Os que têm por naturaes,
Sendo extrangeiros?
Ao cheiro dos teus dinheiros
Vem c’um cabedal tão fraco,
Que tudo cabe num sacco
Que anda ás costas.
Os pés são duas lagostas,
De andar montes, passar vaus,
E as mãos são dous .... ....
Já bem ardidos.
Sendo dous annos corridos,
Na loja estão recostados
Mais doces e afidalgados
Que os mesmos Godos.
A mim me faltam apodos
Para apodar estes taes,
Maganos de tres canaes,
Té a ponta.
Ha outros de peior conta,
Que entre estes e entre aquelles
Vêm cheios de pez, e elles
Atraz do hombro.
De nada d’isto me assombro,
Pois os bota aqui o Senhor
Outros de marca maior,
Gualde e tostada.
Perguntae á gente honrada
Porque causa se desterra?
Diz que tem quem lá na terra
Lhe queime o sangue.
Vem viver ao pé de um mangue,
E já vos veda um mangal,
Porque tem mais cabedal
Que Porto Rico.
Si algum vem de agudo bico,
Lá vão prende-lo ao sertão,
E ei-lo bugio em grilhão
Entre galfarros.
A terra é para os bizarros,
Que vêm da sua terrinha
Com mais gorda camizinha
Que um traquete.
Que me dizeis do clerguete
Que mandaram degradado
Por dar o oleo sagrado
Á sua ..?
E a velhaca dissoluta,
Déxtra em todo o artificio,
Fez co’oleo um maleficio
Ao mesmo zote.
Folgo de ver tão asnote
O que com risinho nos labios
Anda zombando dos sabios
E entendidos.
E porque são applaudidos
De outros da sua facção,
Se fazem co’a descripção
Como com terra.
E dizendo ferra ferra,
Quando vão a pôr o pé
Conhecem que em boa fé
São uns asninhos.
Porque com quatro ditinhos,
De conceitos estudados,
Não podem ser graduados
Em as sciencias.
Então suas negligencias
As vão conhecendo alli,
Porque de si para si
Ninguem se engana.
Mas em vindo outra semana,
Já cahem no peccado velho,
E presumem dar conselho
A um Catão.
Aqui frizava o Frizão
Que foi o heresiarca
Porque os mais da sua alparca
O aprenderam.
As mulatas me esqueceram,
A quem com veneração
Darei o meu beliscão
Pelo amoroso.
Geralmente é mui custoso
O conchego das mulatas,
Que se foram mais baratas
Não ha mais Flandes.
As que presumem de grandes
Porque têm casa e são forras,
Têm, e chamam de cachorras
Ás mais do trato.
Angelinha do Sapato
Valeria um pipo de ouro,
Porém tem o ... ...
Muito abaixo.
Traz o amigo cabisbaixo
Com muitas aleivosias,
Sendo que ás Ave-Marias
Lhe fecha a porta.
Mas isso em fim que lhe importa,
Si ao fechar o põe na rua,
E sobre a ver ficar nua
Ainda a veste.
Fica dentro quem a investe,
E o de fóra suspirando
Lhe grita de quando em quando:
Ora isso basta.
Ha gente de tão má casta,
E de tão vil catadura,
Que até esta ...
Bebe e vérte.
Todos a Agrella converte,
Porque si com tão ruim ....
A alma ha de ser dissoluta,
Antes mui sancta.
Quem encontra ossada tanta,
Dos beijos de uma caveira
Vai fugindo de carreira,
E a Deus busca.
Em uma cova se offusca,
Como eu estou offuscado,
Chorando o magro peccado
Que fiz com ella.
É mui similhante a Agrella
Á Mingota do Negreiros,
Que me mammou os dinheiros,
E poz-se á orça.
A Manga, com ser de alcorça,
Dá-se a um pardo vaganau,
Que a Cunha do mesmo pau
Melhor atocha.
A Marianna da Rocha,
Por outro nome a Pellica,
A nenhum homem já dedica
A sua prata.
Não ha no Brazil mulata,
Que valha um recado só,
Mas Joanna Picaró
O Brazil todo.
Si em gostos não me accommodo,
Ao mais não haja disputa,
Cada um gabe a sua ...,
E haja socego.
Porque eu calo o meu emprego,
E o fiz adivinhação,
Com que tal veneração
Se lhe devia.
Fica-te embora, Bahia,
Que eu me vou por esse mundo,
Cortando pelo mar fundo
Numa barquinha.
Porque inda que és patria minha,
Sou segundo Scipião,
Que com dobrada razão
A minha idéa
Te diz: Non possidebis ossa mea.
OBSERVAÇÕES
CRITICAS SOBRE VARIAS MATERIAS POR OCCASIÃO DO COMETA APPARECIDO EM 1680
Que esteja dando o francez
Camoezas ao romano,
Castanhas ao castelhano,
E ginjas ao portuguez?
E que estejam todos trez
Em uma scisma quieta
Reconhecendo esta treta
Tanto á vista, sem a ver?
Tudo será; mas a ser,
Effeitos são do cometa.
Que esteja o inglez mui quedo,
E o hollandez muito ufano,
Portugal cheio de engano,
Castella cheia de medo:
E que o turco viva ledo,
Vendo a Europa inquieta?
E que cada qual se metta
Em uma cova a tremer?
Tudo será, mas a ser,
Effeitos são do cometa.
Que esteja o francez zombando,
E a India padecendo,
Italia olhando e comendo,
Portugal rindo e chorando?
E que os esteja enganando
Quem sagaz os inquieta
Sem que nada lhe prometta?
Será; mas com mais razão,
Segundo a minha opinião,
Effeitos são do cometa.
Que esteja Angola de graça,
O Mazagão cahe, não cahe,
O Brazil feito Cambray,
Quando Hollanda feita caça?
E que jogue o =passa passa=
Comnosco o turco mahometa,
E que assim nos accommetta?
Será, pois é tão ladino;
Porém, segundo imagino,
Effeitos são do cometa.
Que venham os Franchinotes,
Com engano surrateiro,
A levar-nos o dinheiro
Por troca de assobiotes?
Que as patacas em pipotes
Nos levem á fiveleta,
Não sei si nisto me metta:
Porém sem metter-me em rodas,
Digo que estas cousas todas
Effeitos são do cometa.
Que venham homens extranhos
Ás direitas, e ás esquerdas,
Trazer-nos as suas perdas,
E levar os nossos ganhos:
E que sejamos tammanhos
Ignorantes, que nos metta
Sem debuxos a gazeta?
Será, que tudo é peior;
Mas porém seja o que for,
Effeitos são do cometa.
Que havendo tantas maldades,
Como experimentado temos,
Tantas novidades vemos,
Não havendo novidades?
E que estejam as cidades
Todas postas em dieta
Mau é; porém por directa
Permissão do mesmo Deus,
Si não são peccados meus,
Effeitos são do cometa.
Que se vejam, sem razão,
No extremo em que hoje se veem,
Um tostão feito um vintem,
E uma pataca um tostão?
E que estas mudanças vão
Fabricadas á curveta,
Sem que a ventura prometta
Nunca nenhuma melhora?
Será, que pois o céu chora,
Effeitos são do cometa.
Que o Reino em um estaleiro
Esteja, e nesta occasião
Haja pão, não haja pão,
Haja, não haja dinheiro:
E que se tome em Aveiro
Todo o ouro e prata invecta
Por certa via secreta?
Eu não sei como isto é:
Porém já que assim se vê,
Effeitos são do cometa.
Que haja no mundo quem tenha
Guizados para comer,
E traças para os haver,
Não tendo lume nem lenha:
E que sem renda mantenha
Carro, carroça, carreta,
E sem ter aonde os metta,
Dentro em si tanto accommode:
Póde ser, porém si póde,
Effeitos são do cometa.
Que andem os officiaes
Como fidalgos vestidos,
E que sejam presumidos
Os humildes como os mais:
E que não possam os taes
Cavalgar sem a maleta,
E que esteja tão quieta
A cidade e o povo mudo:
Será, mas sendo assim tudo,
Effeitos são do cometa.
Que se vejam por prazeres,
Sem repararem nas fomes,
As mulheres feitas homes,
E os homens feitos mulheres:
E que estejam os Misteres
Enfronhados na baeta,
Sem ouvirem a trombeta
Do povo, que é um clarim:
Será, porém sendo assim,
Effeitos são do cometa.
Que vista, quem rendas tem,
Galas vistosas por traça,
Supposto que bem mal faça,
Inda que mal fará bem:
Mas que as vista quem não tem
Mais que uma pobre saieta,
Que lhe vem pelo estafeta,
Por milagre nunca visto:
Será, mas sendo assim isto,
Effeitos são do cometa.
Que não veja o que ha de ver
Mal no bem, e bem no mal,
E se metta cada qual
No que se não ha de metter:
Que queira cada um ser
Capitão sem ter gineta,
Sendo ignorante propheta,
Sem ver quem foi, e quem é:
Será, mas pois si não vê,
Effeitos são do cometa.
Que o pobre e o rico namore,
E que com esta porfia,
O pobre alegre se ria
E o rico triste se chore:
E que o presumido more
Em palacio sem boleta,
E por não ter que lhe metta,
O tenha cheio de vento:
Póde ser; mas ao intento
Effeitos são do cometa.
Que ande o mundo como anda,
E que ao som do seu desvelo
Uns bailem ao saltarello,
E outros á sarabanda:
E que estando tudo á banda
Sendo eu um pobre poeta,
Que nestas cousas me metta
Sem ter licença de Apollo:
Será; porém si sou tolo,
Effeitos são do cometa.
A FOME
QUE HOUVE NA BAHIA NO ANNO DE 1691
Toda a cidade derrota
Esta fome universal,
E uns dão a culpa total
Á Camara, outros á frota;
A frota tudo abarrota
Dentro dos escotilhões,
A carne, o peixe, os feijões;
E si a Camara olha e ri,
Porque anda farta até aqui,
É cousa que me não toca:
Ponto em boca.
Si dizem que o marinheiro
Nos precede a toda a lei,
Porque é serviço do rei,
Concedo que está primeiro:
Mas tenho por mais inteiro
O Conselho que reparte,
Com egual mão e egual arte,
Por todos jantar e ceia;
Mas frota com tripa cheia,
E povo com pança ôca,
Ponto em boca.
A fome me tem já mudo,
Que é muda a boca esfaimada,
Mas si a frota não traz nada,
Porque razão leva tudo?
Que o povo por ser sisudo
Largue o ouro, largue a prata
A uma frota patarata,
Que entrando com véla cheia,
O lastro, que traz de areia,
Por lastro de assucar troca:
Ponto em boca.
Si quando vem para cá
Nenhum frete vem ganhar,
Quando para lá tornar
O mesmo não ganhará:
Quem o assucar lhe dá
Perde a caixa e paga o frete,
Porque o anno não promette
No negocio que o perder:
O frete por se dever
A caixa porque se choca.
Ponto em boca.
Elle tanto em seu abrigo,
E o povo todo faminto,
Elle chora, e eu não minto,
Si chorando vo-lo digo:
Tem-me cortado o embigo
Este nosso General,
Por isso de tanto mal
Lhe não ponho alguma culpa;
Mas si merece desculpa
O respeito, a que provoca,
Ponto em boca.
Com justiça pois me tórno
Á Camara nó Senhora,
Que pois me trespassa agora,
Agora leve o retorno.
Praza a Deus que o caldo morno,
Que a mim me fazem cear
Da má vacca do jantar,
Por falta do bom pescado,
Lhes seja em cristéis lançado;
Mas si a saude lhes toca,
Ponto em boca.
RETRATO
DO GOVERNADOR ANTONIO LUIS DA CAMARA COUTINHO
Vá de retrato
Por consoantes;
Que eu sou Timantes
De um nariz de tocano côr de pato.
Pelo cabello
Começa a obra,
Que o tempo sobra
Para pintar a giba do camello.
Causa-me engulho
O pêllo untado,
Que de molhado,
Parece que sae sempre de mergulho.
Não pinto as faltas
Dos olhos baios,
Que versos raios
Nunca ferem sinão em coisas altas.
Mas a fachada
Da sobrancelha
Se me assimelha
A uma negra vassoura esparramada.
Nariz de embono
Com tal sacada,
Que entra na escada
Duas horas primeiro que seu dono.
Nariz que falia
Longe do rosto,
Pois na Sé posto
Na Praça manda pôr a guarda em ala.
Membro de olfactos,
Mas tão quadrado
Que um rei coroado
O póde ter por copa de cem pratos.
Tão temerario
É o tal nariz,
Que por um triz
Não ficou cantareira de um armario.
Você perdôe,
Nariz nefando,
Que eu vou cortando
E inda fica nariz em que se assôe.
Ao pé da altura
Do naso oiteiro
Tem o sendeiro
O que boca nasceu e é rasgadura.
Na gargantona,
Membro do gosto,
Está composto
O orgão mui subtil da voz fanhona.
Vamos á giba:
Porém que intento,
Si não sou vento
Para poder subir lá tanto arriba?
Sempre eu insisto
Que no horizonte
D’esse alto monte
Foi tentar o diabo a Jesu-Christo.
Chamam-lhe auctores,
Por fallar fresco,
Dorsum burlesco,
No qual fabricaverunt peccatores.
Havendo apostas
Si é home’ ou féra,
Se assentou que era
Um caracol que traz a casa ás costas.
De grande arriba
Tanto se entona,
Que já blazona
Que engeitou ser canastra por ser giba.
Oh pico alçado!
Quem lá subira,
Para que vira
Si és Etna abrazador, si Alpe nevado.
Cousa pintada,
Sempre uma cousa,
Pois d’onde pousa
Sempre o vêm de bastão, sempre de espada.
Dos Sanctos Passos
Na bruta cinta
Uma cruz pinta;
A espada o pau da cruz, e elle os braços.
Vamos voltando
Para a dianteira,
Que na trazeira
O lhe vejo açoitado por nefando.
Si bem se infere
Outro fracaso,
Porque em tal caso
Só se açoita quem toma o miserere.
Pois que seria,
Si eu vi vergões?
Serão chupões
Que o bruxo do Ferreira lhe daria?
E a entezadeira
Do gram ...,
Que em sujo trapo
Se alimpa nos fundilhos do Ferreira.
Seguem-se as pernas,
Sigam-se embora,
Porque eu por ora
Não me quero embarcar em taes cavernas.
Si bem assento
Nos meus miolos,
Que são dois rôlos
De tabaco já podre e fedorento.
Os pés são figas
Á mór grandeza,
Por cuja empreza
Tomaram tanto pé tantas cantigas.
Velha coitada,
Cuja figura
Na architectura
Da pôpa da nau nova está entalhada.
Boa viagem,
Senhor Tocano,
Que para o anno
Vos espera a Bahia entre a bagagem.
MILAGRES DO BRAZIL
AO PADRE LOURENÇO RIBEIRO, HOMEM PARDO QUE FOI VIGARIO DA FREGUEZIA DE PASSÉ
Lourenço Ribeiro, clerigo e prégador, natural da Bahia, e, segundo se rosnava, mulato, dava-se muito a compor trovas, que cantava nas sociedades ao som da cythara: este homem teve a indiscrição de mofar e desdenhar publicamente dos versos de Gregorio de Mattos. Chegou isto aos ouvidos do poeta, que offendido da fatuidade do cabrito, resolveu logo tirar a desforra, o que fez na seguinte satyra, á qual deu o titulo acima.
Um branco muito encolhido,
Um mulato muito ousado,
Um branco todo coitado,
Um canaz todo atrevido;
O saber muito abatido,
A ignorancia e ignorante
Muito ufana e mui farfante,
Sem pena ou contradicção:
Milagres do Brazil são.
Que um cão revestido em padre.
Por culpa da Sancta Sé,
Seja tão ousado que
Contra um branco honrado ladre;
E que ésta ousadia quadre
Ao bispo, ao governador,
Ao cortezão, ao senhor,
Tendo naus e maranhão:
Milagres do Brazil são.
Si este tal podengo asneiro
O pae o esvanece já,
A mãe lhe lembro que está
Roendo em um tamoeiro:
Que importa um branco cueiro,
Si o .. é tão denegrido;
Mas si no mixto sentido
Se lhe esconde a negridão,
Milagres do Brazil são.
Prega o perro frandulario,
E como a licença o cega,
Cuida que em pulpito prega,
E ladra em um campanario:
Vão ouvi-lo de ordinario
Tios e tias do Congo,
E si, suando o mondongo,
Elles só o gabo lhe dão,
Milagres do Brazil são.
Que ha de prégar o cachorro,
Sendo uma vil creatura,
Que não sabe de escriptura
Mais que aquella que o pôz forro?
Quem lhe dá ajuda e soccorro
São quatro sermões antigos,
Que lhe vão dando os amigos;
E si amigos tem um cão,
Milagres do Brazil são.
Um cão é o timbre maior
Da ordem predicatoria,
Mas não acho em toda a historia
Que um cão fosse prégador,
Si nunca falta um senhor,
Que lhe alcance esta licença
De Lourenço por Lourença,
Que as pardas tudo farão,
Milagres do Brazil são.
Té em versos quer dar pennada,
E porque o genio desbroche,
Como é cão, a troche moche
Mette a unha e dá dentada:
O perro não sabe nada,
E si com pouca vergonha
Tudo abate, porque sonha
Que sabe alguma questão,
Milagres do Brazil são.
Do perro affirmam doutores
Que fez uma apologia
Ao Mestre da theologia,
Outra ao Sol dos prégadores:
Si da lua aos resplendores
Late um cão a noite inteira,
E ella, seguindo a carreira,
Luz com mais ostentação,
Milagres do Brazil são.
Que vos direi do mulato,
Que vos não tenha já dicto,
Si será amanhãa delicto
Fallar d’elle sem recato?
Não faltará um mentecapto,
Que como villão de encerro
Sinta que dêm no seu perro,
E se ponha como um cão:
Milagres do Brazil são.
Imaginais que o insensato
Do canzarrão falla tanto
Porque sabe tanto ou quanto?
Não, sinão por ser mulato;
Ter sangue de carrapato,
Seu estoraque de Congo,
Cheirar-lhe a roupa a mondongo,
É cifra de perfeição:
Milagres do Brazil são.
A UM HOMEM HUMILDE
QUE SE METTEU A FIDALGO
Cançado de ver pregar
Cultissimas prophecias,
Quero das cultinarias
Hoje o habito enforcar:
De que serve o rebentar
Por quem de mim não tem magua?
Verdades direi como agua,
Porque todos entendaes,
Os ladinos o os boçaes,
A Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?
O fallar de intercadencia,
Entre silencio e palavra,
Crer que a testa se vos abra,
E encaixar-vos que é prudencia:
Alerta, homens de sciencia,
Que quer o Xisgaraviz
Que aquillo que vos não diz,
Por lh’o impedir a rudeza,
Avalieis madureza,
Sendo ignorancia traidora.
Entendeis-me agora?
Si notais ao mentecapto
A compra de Conselheiro,
O que nos custa dinheiro,
Isso nos sae mais barato:
E si na meza do trato
Da bolsa, ou da Companhia,
Virdes levar senhoria
Mechanicos deputados;
Crede que nos seus cruzados
Sangue esclarecido mora.
Entendeis-me agora?
Si hoje vos falla de perna
Quem não podia hontem ter
Ramo, de quem descender,
Mais que o da sua taverna;
Tende paciencia interna,
Pois foi sempre Dom dinheiro
Poderoso cavalheiro,
Que com poderes reaes
Faz eguaes aos deseguaes,
E conde ao villão cada hora.
Entendeis-me agora?
Si na comedia ou sainete,
Virdes que um Dom fidalgote
Lhe dá no seu camarote
A chicara do sorvete;
Havei dó do coitadete,
Pois numa chicara só
Seu dinheiro bebe em pó,
Que o senhor, cousa é sabida,
Lhe dá a chupar a bebida,
Para chupa-lo noutra hora.
Entendeis-me agora?
Não reputeis por favor,
Nem tenhais por maravilha
Vê-lo jogar a espadilha
Co’o marquez, co’o grão senhor;
Porque como é perdedor
E mofino adredemente,
E faz um sangue excellente
A qualquer dos ganhadores,
Qualquer d’aquelles senhores
Por fidalgo egual o afóra.
Entendeis-me agora?
A UMA BRIGA
QUE TEVE CERTO VIGARIO COM UM OURIVES POR CAUSA DE UMA MULATA
Naquelle grande motim,
Onde acudiu tanta gente,
A titulo de valente
Tambem veiu o Valentim:
Puxou pelo seu faim,
E tirando-lhe a barriga,
Você si quer que lh’o diga,
Disse ao ourives da prata,
Na obra d’esta mulata
Mette muita falsa liga.
Briga, briga.
É homem tão desalmado,
Que por lhe a prata faltar,
E estar sempre a trabalhar
Bate no vaso sagrado?
Não vê que está excommungado
Porque com tanta fadiga
A peça da egreja abriga
Numa casa excommungada,
Com censura reservada,
Pela qual Deus o castiga?
Briga, briga.
Porque com modos violentos
A um vigario tão capaz,
Sôbre os quatro que já traz,
.. lhe põe quatrocentos?
Deixe-se d’esses intentos,
E reponha a rapariga,
Pois a repô-la se obriga
Quando affirma que a possue;
E si ésta razão não conclue,
Vai ésta ponta á barriga.
Briga, briga.
Senhor ourives, você
Não é ourives de prata?
Pois que era essa mulata,
Que cobre ou tambaca é?
Restitua a moça, que
É peça da egreja antiga;
Restitua a rapariga,
Que se vingará o vigario
Talvez no confessionario,
Ou talvez na desobriga:
Briga, briga.
Á mulata ja lhe pêja
De trocar odre por odre,
Porque o leigo é membro podre,
E o padre é membro da egreja:
Sempre esta telha gotteja,
Sempre dá grão esta espiga:
E a obra da rapariga
Quer desfazer esta troca,
E deixando a vossa toca,
Quer fazer co’o padre liga:
Briga, briga.
Largue-lhe a mulata, e seja
Logo logo a bom partido,
Que como tem delinquido,
Si quer recolher á egreja:
Porque todo o mundo veja
Que quando a carne inimiga
Tenta a uma rapariga,
Quer no cabo, quer no rabo,
A egreja vence o diabo
Como outra qualquer estriga:
Briga, briga.
A PRISÃO DE DUAS MULATAS
POR UMA QUERELLA QUE D’ELLAS DEU O CELEBRE CAPITÃO DOMINGOS CARDOZO, DE ALCUNHA O MANGARÁ, PELO FURTO DE UM PAPAGAIO
CLAUSULAS
A quem não causa desmaio
Esta querella recente,
As mulatas na corrente
Em falta do papagaio?
Eu de verdade não caio
Nesta justiça em rigor:
Ora este tal prendedor
Quem seria, ou quem será?
Mangará.
Diz que em tudo tinha graça
A Jandaya, abrindo a boca,
Dizendo o seu toca toca,
Meu papagaio, quem passa?
Mangará, que vai á caça.
Porém na presente perda
Passará a beber ...,
Que não faltará quem vá.
Mangará.
As mulatas no seu mal
Vão disfarçando a paixão,
Pois lhe deu dura prisão
O papagaio real.
Diz que para Portugal
Lindamente dava o pé;
Mas uma articula que
O contrario provará.
Mangará.
Provará que elle gostára,
E que não satisfizera,
E muitas cousas dissera
Si o papagaio fallára:
Que o capitão intentára
Pagar-lhe em bens de raiz,
Pois sendo mangará quiz
Transfigurar-se em cará.
Mangará.
Pondo-se o pleito em julgado,
Dar testimunhas procura.
Com o primo Rapadura,
E um compadre seu Melado:
Mas ha de ficar borrado,
Como o tal primo ficou,
Quando a mulata o purgou
Naquelle triste araçá.
Mangará.
Na gaiola ou passarada,
Onde as duas pobres vejo,
A primeira entrou sem pejo,
Mas a segunda pejada:
Arrebentou de embuchada
Um presozinho pequeno,
Que creado com veneno
Damno jámais lhe fará.
Mangará.
Todo o povo, que isto vê,
Pergunta em seu desabono,
Não ao papagaio, ao dono,
Que casta de passaro é:
Eu por lhe fazer mercê
Dou definição cabal:
Um contrafeito asnaval,
Empenhado em Pirajá.
Mangará.
EPIGRAMMA
SOBRE VARIOS ASSUMPTOS
Sahiu a satyra má,
E empurraram-m’a os perversos,
Porque em quanto a fazer versos
Só eu tenho geito cá:
Noutras obras de talento
Só eu sou o asneirão;
Mas sendo satyra, então
Só eu tenho entendimento.
Acabou-se a Sé, e envolto
Na obra o Sete-caveiras
Enfermou de. .....,
E fez muito verso solto:
Tu, que o poeta motejas,
Sabe que andou acertado
Que pôr na obra o louvado
É costume das egrejas.
Correm-se muitos carneiros
Na festa das Onze mil,
E eu com notavel ardil
Não vou ver os cavalleiros:
Não os vou ver, não se espantem,
Que algum testimunho temo,
Sou velho, pelo que gemo,
Não quero que m’o levantem.
Querem-me aqui todos mal,
E eu quero mal a todos,
Elles e eu por nossos modos
Nos pagamos tal por tal:
E querendo eu mal a quantos
Me têm odio tão vehemente,
O meu odio é mais valente,
Pois sou só, e elles tantos.
Algum amigo que tenho,
Si é que tenho algum amigo,
Me aconselha que o que digo
O cale com todo o empenho:
Este me diz, diz-me este outro
Que me não fie d’aquelle;
Que farei, si me diz d’elle
Que me não fie aquelle outro?
O Prelado com bons modos
Visitou toda a cidade.
É cortezão na verdade,
Pois nos visitou a todos;
Visitou-se a pura escripta
O povo e seus comarcãos,
E os réus de mui cortezãos
Hão de pagar a visita.
A cidade me provoca
Com virtudes tão commuas,
Ha tantas cruzes nas ruas,
Quantas eu faço na boca:
Os diabos a seu centro
Foi cada um por seu cabo,
Nas ruas não ha um diabo,
Ha-os de portas a dentro.
As damas de toda côr,
Como tão pobre me veem,
As mais lástima me têm,
As menos me têm amor:
O que me têm admirado
É fecharem-me o poleiro
Logo acabado o dinheiro:
Deviam ter-m’o contado.
DESCREVE
O P. RACIONAL E VERDADEIRAMENTE QUEIXOSO OS EXTRAVAGANTES MEIOS COM QUE OS EXTRANHOS DOMINAM INDIGNAMENTE SOBRE OS NATURAES NA SUA PATRIA
ROMANCE
Senhora Dona Bahia,
Nobre e opulenta cidade,
Madrasta dos naturaes,
E dos extrangeiros madre.
Dizei-me por vida vossa
Em que fundais o dictame
De exaltar os que aqui vêm,
E abater os que aqui nascem.
Si o fazeis pelo interesse
De que os extranhos vos gabem,
Isso os paisanos fariam
Com conhecidas vantagens.
E supposto que os louvores
Em bocca propria não valem,
Si tem força essa sentença,
Mór força terá a verdade.
O certo é, patria minha,
Que foste terra de alarves,
E inda os resabios vos duram
D’esse tempo e d’essa edade.
Haverá duzentos annos,
Nem tantos podem contar-se,
Que ereis uma pobre aldêa,
Hoje sois rica cidade.
Então vos pizavam Indios,
E vos habitavam Cafres,
Hoje chispais fidalguias,
E arrojais personagens.
A essas personagens vamos,
Sôbre ellas será o debate,
E Deus queira que o vencer-vos
Para envergonhar-vos baste.
Sae um pobrete de Christo
De Portugal ou de Algarve,
Cheio de drogas alheias
Para d’ahi tirar gages.
O tal foi sóta tendeiro
De um christão novo em tal parte,
Que por aquelles serviços
O despachou a embarcar-se.
Fez-lhe uma carregação
Entre amigos e compadres,
E ei-lo commissario feito
De linhas, lonas, beirames.
Entra pela barra dentro,
Dá fundo, e logo a entonar-se
Começa a bordo da nau
Co’um vestidinho flammante.
Salta em terra, toma casas,
Arma a botica dos trastes,
Em casa come balêa,
Na rua antoja manjares.
Vendendo gato por lebre,
Antes que quatro annos passem
Já tem tantos mil cruzados,
Conforme affirmam pasguates.
Começam a olhar para elle
Os paes, que já querem dar-lhe
Filha e dote, porque querem
Homem que coma e não gaste.
Que esse mal ha nos mazombos:
Têm tão pouca habilidade,
Que o seu dinheiro despendem
Para haver de sustentar-se.
Casa-se o meu matachim,
Põe duas negras e um pagem,
Uma rede com dous Minas,
Chapéu de sol, casas grandes.
Entra logo nos pelouros,
E sae do primeiro lance
Vereador da Bahia,
Que é notavel dignidade.
Já temos o canastreiro,
Que inda fede aos seus beirames,
Metamórphosis da Terra,
Transformado em homem grande:
E eis-aqui a personagem.
Vem outro do mesmo lote,
Tão pobre e tão miseravel,
Vende os retalhos, e tira
Commissão com coiro e carne.
Co’o principal se levanta,
E tudo emprega no Iguape,
Que um engenho e tres fazendas
O tem feito um homem grande.
E eis aqui a personagem.
De entre a chusma e a canalha
Da maritima bagagem,
Fica ás vezes um christão,
Que apenas benzer-se sabe.
Fica em terra resoluto
A entrar na ordem mercante,
Troca por covado e vara
Timão, balestilha e mares.
Arma-lhe a tenda um ricaço,
Que a terra chama magnate,
Com pacto de parceria,
Que em Direito é sociedade.
Com isto o marinheiraz
Do primeiro jacto ou lance
Bota fóra o .. breado,
As mãos assimilha em guantes.
Vende o cabedal alheio
E dá com elle em levante,
Vai e vem, e ao dar das contas
Diminue, e não reparte.
Prende aqui, prende acolá,
Nunca falta um bom compadre,
Que ou entretenha o credor,
Ou faça esperar o alcaide.
Passa um anno, e outro anno,
Esperando que elle pague,
Que uns lhe dão para que ajuncte,
E outros para que engane.
Nunca paga, e sempre come,
E quer o triste mascate,
Que em fazer a sua estrella
O tenham por homem grande.
O que elle fez foi furtar,
Que isso faz qualquer birbante,
Tudo o mais lhe fez a terra,
Sempre propicia aos infames:
E eis aqui a personagem.
Vem um clerigo idiota,
Desmaiado como um gualde,
Os vicios com seu bioco,
Com seu rebuço as maldades.
Mais sancto do que Mafoma
Na crença dos seus Arabes,
Lettrado como um matullo
E velhaco como um frade.
Hontem simples sacerdote,
Hoje uma gran’dignidade,
Hontem selvagem notorio,
Hoje encoberto ignorante.
A tal beato fingido
É força que o povo acclame,
E os do governo se obriguem,
Pois edifica a cidade.
Chovem uns e chovem outros
Co’os officios e os logares,
E o beato tudo apanha
Por sua muita humildade.
Cresce em dinheiro e em respeito,
Vai remettendo as fundagens,
Compra toda a sua terra,
Com que fica um homem grande:
E eis aqui a personagem.
Vêm outros lotes de requiem,
Que indo a tomar o caracter,
Todo o Reino inteiro cruzam
Sobre a chança viandante.
De uma provincia para outra
Como dromedarios partem,
Caminham como camellos,
E comem como selvagens.
Mariolas de missal,
Lacaios missa-cantantes,
Sacerdotes ao burlesco,
Ao serio ganhões de altares.
Chega um d’estes, e toma amo,
Que as capellas dos magnates
São rendas que Deus creou
Para estes Orate fratres.
Fazem-lhe certo ordinario,
Que é dinheiro na verdade
Que o Papa reserva sempre
Das cêas e dos jantares.
Não se gasta, antes se embolsa,
Porque o reverendo padre
É do sancto neque demus
Meritissimo confrade.
Com este cabedal juncto
Já se resolve a embarcar-se,
Vai para a sua terrinha
Com fumos de ser abbade:
E eis aqui a personagem.
Vêem isto os filhos da terra
E entre tanta iniquidade,
São taes que nem inda tomam
Licença para queixar-se.
Sempre vêem, e sempre callam,
Até que Deus lhes depare
Quem lhes faça de justiça
Esta satyra á cidade.
Tão queimada e destruida
Te vejas, torpe cidade,
Como Sodoma e Gomorra,
Duas cidades infames.
Que eu zombe dos teus visinhos,
Sejam pequenos ou grandes,
Gozos, que por natureza
Nunca mordem, sempre latem.
Porque espero entre os Paulistas
Na Divina Magestade,
Que a ti São Marçal te queime,
E a mim São Paulo me guarde.
RETRATO
DO GOVERNADOR ANTONIO DE SOUSA DE MENEZES CHAMADO O BRAÇO DE PRATA
SYLVA
Oh! não te espantes não, dom Antonia,
Que se atreva a Bahia
Com expremida voz, com plectro esguio,
Cantar ao mundo teu rico feitio,
Porque é já velho em poetas elegantes
O cahir em torpezas similhantes.
Da pulga acho que Ovidio tem já escripto,
Luciano do mosquito,
Das rans Homero, e d’estes não desprézo,
Que escreveram materia de mais pezo
Do que eu, que canto cousa mais delgada,
Mais chata, mais subtil, mais esmagada.
Quando desembarcaste da fragata,
Meu Dom Braço de prata,
Cuidei que a esta cidade, tonta e fatua,
Mandava a Inquisição alguma estatua,
Vendo tão expremido salvajola,
Visão de palha sobre um mariola.
O rosto de azarcão afogueado,
E em partes mal untado,
Tão cheio o corpazil de godilhões,
Que o tive por um sacco de melões,
Vi-te o braço pendente da garganta,
E nunca prata vi com liga tanta!
O bigode fanado posto ao ferro
Está alli num desterro,
E cada pello em solidão tão rara,
Que parece ermitão da tua cara;
De cabelleira tal affirmam cegos
Que a mandaste comprar no Arco dos pregos.
Olhos ... .. ... sempre á porta,
Me têm esta alma absorta,
Principalmente vendo-lhe as vidraças
Nos grosseiros caixilhos das couraças;
Cangalhas que formaram luminosas
Em dois arcos de pipa duas ventosas.
De muito cego, e não de malquerer,
A ninguem pódes ver,
Tão cego és que não vês teu prejuizo,
Sendo cousa que se olha com o juizo;
Tu és mais cego do que eu, que te susurro,
Que em te olhando não vejo mais que um burro.
Chato o nariz, de cócaras sempre posto,
Te corre todo o rosto
De gatinhas buscando algum jazigo,
Aonde o desconheçam por embigo,
Té que se esconde d’onde mal o vejo,
Por fugir ao fedor do teu bocejo.
Faz-lhe tal visinhança a tua bocca
Que com razão não pouca
O nariz se recolhe para o centro,
Mudado para os baixos lá de dentro,
Surge outra vez, e vendo a baforada,
Lhe fica alli a ponta um dia engastada.
Pernas e pés defendem a tua cara
Velhaca, e quem cuidára,
Tomando-te a medida das cavernas,
Se movesse tal corpo com taes pernas?
Cuidei que eras rossim das Alpujarras,
E já frizão te digo pelas garras.
Um cazaquim trazias sobre o coiro,
Qual odre, a quem o toiro
Uma e outra cornada deu traidora,
E lhe deitou de todo o vento fóra;
Tal vinha o teu vestido de enrugado,
Que o tive por um odre esfuracado.
O que te vir ser todo rabadilha
Dirá que te perfilha
Uma quaresma, chato percevejo,
Por arenque de fumo ou por badejo;
Sem carne e osso, quem ha ahi que creia
Sinão que és descendente de lampreia?
Livre-te Deus de um sapateiro ou xastre,
Que te temo um desastre;
E é que por sovéla ou por agulha
Armem sobre levar-te alguma bulha,
Porque, depositando-te a justiça,
Será num agulheiro ou em cortiça.
Na esquerda mão trazias a bengala,
E, ou por força ou por gala,
No sovaco por vezes a mettias,
Só por fazer infindas cortezias,
Tirando ao povo, quando te destapas,
Entonces o chapéu, agora as capas.
Fundia-se a cidade em carcajadas,
Vendo as duas entradas
Que fizeste do mar a Sancto Ignacio,
E depois do Collegio a teu palacio,
O rabo erguido em cortezias mudas,
Como quem pelo .. tomava ajudas.
Ao teu palacio te acolheste, e logo
Casa armaste de jogo,
Ordenando as merendas por tal geito,
Que a cada jogador se dá um confeito:
Dos tafues um confeito era um boccado,
Sendo tu pela cara o enforcado.
Depois déste em fazer tanta parvoice,
Que ainda que o povo risse
A principio, cresceu depois a tanto
Que chegou a chorar com triste pranto:
Chora-se nú de um roubador de falso,
E vendo-te eu de riso me descalço.
Chinga-te o negro, o branco te pragueja,
E a ti nada te aleja;
E por teu sem-sabor e pouca graça
És fabula do lar, riso da praça,
Té que a bala, que o braço te levára,
Venha segunda vez levar-te a cara!
AO CONFESSOR
DO ARCEBISPO D. FREI JOÃO DA MADRE DE DEUS
Eu, que me não sei calar,
Mas antes tenho por mingua,
Não purgar-se qualquer lingua,
A risco de arrebentar:
Vos quero, amigo, contar
(Pois sois o meu secretario)
Um successo extraordinario,
Um caso tremendo e atroz:
Porém fique aqui entre nós.
Do confessor jesuita,
Que ao ladrão do confessado
Não só absolve o peccado,
Mas os fructos lhe alcovita:
Do precursor da visita,
Que na vanguarda marchando,
Vai pedindo e vai tirando,
O demo ha de ser algoz:
Porém fique aqui entre nós.
O ladronaço em rigor
Não tem para que dizer
Furtos, que antes de os fazer
Já os sabe o confessor:
Cala-os, para ouvir melhor,
Pois, com officio alternado,
Confessor e confessado
Alli se barbeam sós:
Porém fique aqui entre nós.
Aqui o ladrão se consente
Sem castigo e com escusa,
Porque do mesmo se accusa
O confessor delinquente:
Ambos alternadamente,
Um a outro e outro a um,
O peccado, que é commum,
Confessa em commua voz:
Porém fique aqui entre nós.
Um e outro, á mór cautela,
Vem a ser neste incidente
Confessor e penitente;
Porém fique ella por ella.
O demo em tanta mazella
Diz: faço, porque façais;
Absolvo, porque absolvais;
Pacto inopinado poz:
Porém fique aqui entre nós.
Não se dá a este ladrão
Penitencia em caso algum;
E sómente em um jejum
Se tira a consolação:
Elle estará como um cão
De levar a bofetada;
Mas na cara ladrilhada
Emenda o pejo não poz:
Porém fique aqui entre nós.
Mechanica disciplina
Vem a impor por derradeiro
O confessor marceneiro
Ao peccador carapina:
E como qualquer se inclina
A furtar e mais furtar,
Se conjura a escavacar
As bolças co’ um par de enxós:
Porém fique aqui entre nós.
O tal confessor me abysma,
Que revele, e não se offenda,
Que um frade sagrado venda
O sagrado oleo da Chrisma.
Por dinheiro a gente chrisma,
E por cera, havendo queixa,
Que nem a da orelha deixa
Onde chrismando a mão poz:
Porém fique aqui entre nós.
Que em toda a franciscania
Não achasse um mau ladrão,
Que lhe ouvisse a confissão,
Mais que um padre da Apanhia!
Nisto, amigo, ha sympathia;
E é que lhe veiu a pêllo
Que um vá atando no orello
O que o outro mette no coz:
Porém fique aqui entre nós.
Que tanta culpa mortal
Se absolva? eu perco o tino;
Pois absolve um theatino
Peccados de pedra e cal:
Quem em vida monacal
Quer dar á filha um debate
Condemnando em dote ou date,
Vem a dar-lhe o pão e a noz:
Porém fique aqui entre nós.
As freiras com sanctas sêdes
Saem condemnadas em pedra,
Quando o ladronaço medra,
Roubando pedra e paredes.
Vós, amigo, que isto vêdes,
Deveis a Deus graças dar
Por nos fazer secular,
E não zote de albernoz:
Porém fique aqui entre nós.
EM 1686 DIMINUIRAM
AQUELLE VALOR A QUE SE HAVIA ERGUIDO A MOEDA QUANDO O P. ESTAVA NA CÔRTE, ONDE ENTÃO COM SEU ALTO JUIZO SENTIU MAL DO ARBITRISTA QUE ASSIM O ACONSELHÁRA A EL-REI, COMO SE ENTENDE NAQUELLES VERSOS CONTRA ELLE FEITOS:
Sendo pois o alterar da moeda
O assopro, o arbitrio, o ponto e ardil,
De justiça a meu ver se lhe devem
As honras que teve Ferraz e Soliz.
E agora com experiencia dos malos que padocia a Republica nestas alterações so jacta de o haver extranhado então, julgando estos malos por incentivo de outros maiores.
Tractam de diminuir
O dinheiro a meu pezar,
Que para a cousa baixar
O melhor meio é subir:
Quem via tão alto ir,
Como eu vi ir a moeda,
Lhe prognosticou a queda,
Como eu lh’a prognostiquei:
Dizem que o mandou El-Rei,
Quer creais, quer não creiais,
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
Mandam a força do fado,
Por ser justo que o dinheiro
Baixe a seu valor primeiro
Depois de tão levantado:
O que se vir sublimado
Por ter mais quatro mangabas,
Hão de peza-lo ás oitavas,
E por leve hão de engeita-lo:
E si com todo este abalo
Por descontentes vos dais,
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
As pessoas de quem rezo
Hão de ser como o ferrollho:
Val pouco tomado a olho,
Val menos tomado a pezo.
Os que prézo, e que desprézo,
Todos serão de uma casta,
E só moços de canasta,
Entre veras e entre chanças
Com pezos e com balanças
Vão á justiça os mais:
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
Porque como em Maranhão
Mandam novelos á praça,
Assim vós por esta traça
Mandareis o algodão:
Haverá permutação,
Como ao principio das gentes,
E todos os contrahentes
Trocarão droga por droga,
Pão por sal, lenha por soga,
Vinhas por cannaviaes:
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
Virá a frota para o anno,
E que leve vos agouro,
Si não tudo a pezo de ouro,
A pezo tudo de engano:
Não é o valor deshumano,
Que a cada oitava se dá,
Da prata, que corre cá,
Pelo meu fraco conceito;
Mas o cobrar fiel direito,
E obliquo quando pagais:
Não vos espanteis, que inda lá vem mais.
Bem merece esta cidade
Esta afflicção, que a assalta,
Pois os dinheiros exalta
Sem real auctoridade:
Eu si hei de fallar verdade,
O aggressor do delicto
Devia ser só afflicto:
Mas si estão tão descançados,
Talvez que sejam chamados
Nesta frota que esperais:
Não vos espanteis, que ainda lá vem mais.
RETRATO
DO PADRE DAMASO DA SILVA
Pois me enfada o teu feitio,
Quero, Frizão, neste dia
Retratar-te em quatro versos
Ás maravi, maravi, maravilhas.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.
A cara é um fardo de arroz,
Que, por larga e por comprida,
É ração de um elephante
Vindo da India.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.
A bocca desempedrada
É a ponte de Coimbra,
Onde não entram nem sahem
Mais que mentiras.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.
Não é a lingua de vacca
Pelo maldizente e maldicta,
Mas pelo muito que corta
De tiririca.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.
No corpazil torreão
A natureza prevista
Formou a fresta da bocca
Para guarita.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.
Quizera as mãos comparar-lhe
Ás do gigante Golias,
Si as do gigante não foram
Tão pequeninas.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.
Os ossos de cada pé
Encher podem de reliquias
Para toda a christandade
As sacristias.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.
É grande Conimbricense
Sem jámais pôr pé em Coimbra,
E sendo ignorante sabe
Mais que gallinha.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.
Como na lei de Mafoma
Não se argumenta, e se briga,
Elle, que nada argumenta,
Tudo porfia.
Ouçam e olhem,
Venham, venham, verão
O Frizão da Bahia,
Que está retratado
Ás maravi, maravi, maravilhas.