VERDADES
Ouve, ó amigo João,
Esta verdade que canto,
Si a verdade causa espanto
Esta causa admiração:
É certo, sem remissão,
E contra isto não ha nada,
Que a outra verdade usada
Com rebuços, mais enganos,
É verdade de maganos,
Mas esta é de gente honrada.
Domingos e dias sanctos
Nos manda a egreja guardar,
Nos mais dias trabalhar:
As mulheres trazem mantos:
Os doutos estão nos cantos,
Os ignorantes na praça,
Os cachorros vão á caça,
Os gatos furtam as ceias,
Os barbeiros rasgam veias
E as padeiras fazem massa.
Os homens fazem a guerra,
E as mulheres fazem renda,
Os tolos não têm emenda,
Os capos cavam a terra:
O bezerro sem mãe berra
Batem bandeiras alferes,
Os pobres buscam haveres,
Os peixes nadam no mar,
As purgas fazem purgar,
E os franciscanos colhéres.
Os cavallos comem herva,
Os despidos andam nús,
Come o Gentio cajús,
Os Tapuyas são caterva:
Não dorme de noite a cerva,
Os macacos fazem momos,
Os escripturarios tomos,
Os namorados passeiam,
As fragonas zombeteiam,
E as limas todas têm gomos.
Todos os ferrões têm ponta,
A agua do mar é salgada,
O hóspede logo enfada,
Todo o algarismo é conta:
A nau sem vela não monta,
O badalo dá no sino,
Chorar muito é desatino,
Muito comer enche a pança,
Bum-bum é agua em criança
E ter em pé, pino-pino.
Os caranguejos têm pernas,
Tocado o tambor faz bulha,
O arrelá desempulha,
O navio tem cavernas;
O fogo accende as lucernas
Os ... fedem á ..,
Quem degenera não herda,
O carvão todo é de lenha,
É só de lã a estamenha,
E a cabelleira tem cerda.
As hervas são todas folhas,
As larangeiras dão fructas,
Mulheres damas são .. ..,
Uma talha são dez polhas:
As botijas levam rolhas,
Toda a neve é branca e fria,
A irmãa de mãe é tia,
É o bronze todo duro,
Onde não ha luz, é escuro,
Quando não é noite é dia.
O sol e o fogo são quentes,
A chuva aonde cae molha,
Quem não tem vista não olha,
Ossos na boca são dentes:
É affronta dizer—mentes!
É ave grande a gallinha,
O cabello cae com tinha,
Quem é rouco tem catarrho,
Carregado canta o carro,
Mulher de rei é rainha.
Não ha barba sem cabello,
A arêa toda é de grãos,
Toca-se a harpa com as mãos,
É animal o camello:
Nenhuma calva tem pello,
Os ovos saem pelo ..
É marisco o sururú,
Todo o feijão é legume,
Coze-se o comer ao lume,
É abobora o gerumú.
Todo o unguento é mézinha
Não tem banha o bacalhau,
Papas ralas é mingau,
Trigo moido é farinha:
Couza alheia não é minha,
Não ha escada sem degraus,
Os picaros são maraus,
Tem aduellas a pipa,
Umbigo é ponto de tripa,
Sempre é loio o rei de paus.
Primeiro foi frango o gallo,
Palangana é prato fundo,
É redondo todo o mundo,
As luvas não fazem callo:
Tem quatro pés o cavallo,
Nunca mija o papagaio,
O chouriço grande é paio,
Não sabe ler a guariba,
Quem tem carcunda tem giba,
Antes de junho está maio.
Todo o chapeu é sombreiro,
As arvores são de pau,
Tudo o que não presta é mau,
E faz a barba o barbeiro:
O.. detraz é trazeiro,
É nervo a penna de pato,
Filho de parda, é mulato,
Mulheres todas são femeas,
Duas em um ventre são gemeas,
No pé se calça o sapato.
Toda a cousa negra é preta,
Papel é de trapos velhos,
Olhos do. são besbelhos,
Bordão de velho é moleta:
O mascarado é careta,
Tabaco é fumo pizado,
Peixe de moquem é assado,
O pirão duro é taipeiro,
Mareta em mar é carneiro,
Rapadura é mel coalhado.
Quem não tem juizo é tolo,
Quem morre fica sem vida,
Perna delgada é comprida,
Reposto de jogo é bôlo:
Negro ladino é creoulo,
Sebo de vacca é gordura,
Figado e bofes forçura,
Manteiga é nata de leite,
É oleo todo o azeite,
E todo o vigario é cura.
Sem a lingua não se falla,
Quem não come morre á fome,
A empinge toda come,
O surrão de couro é mala:
Palalá é... rala,
O tatú tem casca dura,
O salgado faz secura,
Arroz sem casca é pilado,
As sôpas são pão molhado,
O ferrolho é fechadura.
Os bancos servem de assento,
Leicenço tem carnegão,
Homem de villa é villão,
As pennas voam com vento:
O adro da egreja é bento,
A camisa é roupa branca,
Pau que fecha a porta é tranca,
Tem ventas todo o nariz,
Toda a batata é raiz,
A cara feia é carranca.
A farinha do Brazil
Primeiro foi mandioca,
Milho estalado é pipoca,
O gato todo é subtil:
Tres barris e um barril
Enchem todos uma pipa,
Não se faz casa sem ripa,
Ou vara com seu sipó,
Quem não tem ninguem é só,
Todo o bom cavallo esquipa.
Sempre é boa a espada nova,
Mas a velha é saramago,
Homem que gagueja é gago,
Toda a banana é pacova:
Quem morreu vai para a cova,
Olho do .. é mataco:
Agua de flor do sovaco
Deu sempre vida a um morto,
O que tem um olho é torto,
Guariba não é macaco.
Solimão e rozalgar
Matam, porque são veneno,
Grande doutor foi Galeno,
O fazer curso é purgar:
Fallar por solfa é cantar,
Na botica ha trementina,
Criança femea é menina,
.... ..... ..
Mascarado é papa-angú,
Oleo de pinha é resina.
Tabaco pobre é macaya.
Ave sem penna é morcego,
Toda a agua do Mondego
Desemboca pela praia:
Quem é mulher veste saia,
Os homens vestem calções,
Têm os negros seus bordões,
E cinco palmos a vara,
Tantas arrobas de tara
Tem cada um dos caixões.
Aguardente é geribita,
...dura é .....,
A ...... é pismam
E todo o listão é fita:
A colera logo irrita,
Ganhamú é caranguejo,
Não é sancto São Serejo,
Mas no ceu moram os sanctos;
Todas as casas têm cantos,
Do leite se faz o queijo.
Nos trunfos ha basto e sota,
Dará cartas quem foi mão,
A mulher tem seu pampam,
Pelo pé se calça a bota:
Quem não tem voto não vota,
O que deu cartas é pé,
O escrivão porta por fé,
Obra grosseira é do Porto,
Todo o defuncto está morto,
Vaza e mais enche a maré.
Almorreimas é quentura,
As redes têm seus cadilhos,
Zebedeu foi pae de filhos,
Quem morreu, já não tem cura:
........................
.......................
Jogo de trez é a espadilha,
Ao de dous lhe chamam zanga,
Camisa tem sua manga,
Não ha navio sem quilha.
Faz pasteis o pasteleiro,
Toda a virgem é donzella,
No Brazil ha já cannella,
Todo o frade é redoleiro.
Bate no ferro o ferreiro
E o marido na mulher,
Porque um e mais outro quer,
E gostam da tal asneira,
E não ha mister peneira
Quem farinha não tiver
Todas as côres são tintas,
Duro pau é supipira,
Quem é manso não tem ira,
Do zengá se fazem cintas:
Portugal tem ricas quintas,
E cada uma tem seu dono,
O que quer dormir tem somno,
O que dorme está dormindo,
O que veio tem já vindo
E toda a solfa tem tono.
Ha pelo entrudo filhozes,
Não ha carne na quaresma,
É todo o fedelho—lesma,
No poder os reis são crozes:
Quem tem dente come nozes,
O que quebra está quebrando,
Quem come está manducando,
O que corre vai correndo,
O que bebe está bebendo
E quem joga está jogando.
Dico vere veritates,
Crede mihi, vou fallando,
E quanto mais for andando,
Magis dicam asnitates:
No Recife ha mil mascates
Sobreposse mercadores,
Geme quem padece dores,
É o ... todo vento,
Freiras moram no convento,
E quem quer tem seus amores.
As madrinhas são comadres,
Chocolate tem cacau
Passa dez não é pacau,
Clerigos todos são padres:
É cego não ver por grades,
O limão todo é azedo,
O que tem pavor tem medo,
É boa a mulher que ....,
Não é boa a ... mole,
A pedra grande é penedo.
Quem tem boca vai a Roma,
Quem tem sangue faz chouriços,
As abelhas têm cortiços,
A zabelê sua coma:
O ruim assucar é broma,
A canada tem quartilho,
Não tem pé a mão de milho,
Coruja não é canario,
Livro velho é calendario,
O maná não é quintilho.
É o memento lembrança
Das almas do outro mundo,
A panella tem seu fundo,
E quem herdou teve herança:
É zombar estar de chança,
Muitos filhos tem Antonio
Nunes, do seu matrimonio,
Que dos outros não sabemos;
Aposto que já entendemos
Em que é purga o antimonio.
Os sapatos levam sola,
A carne de boi é vacca,
A ... em criança é caca,
É redonda toda a bola:
Passarinho na gaiola
Está prezo na cadeia,
O gatinho bravo meia,
São frades os franciscanos,
O homem velho já tem annos,
A formosa não é feia.
Quem vai só—vai solitario,
Quem tem fome excusa môlho,
O ... tem no meio ôlho,
Tem a mulher ordinario:
Chama-se a pessa Calvario;
Cidades tem Portugal,
Ouro é o que ouro val,
Pratos de côr tem rabique,
Não se faz renda sem pique,
Todo o salgado tem sal.
Peccados mortaes são septe,
E dez são os mandamentos,
Septe são os Sacramentos,
O estojo tem canivete:
Os frades com seu topete
Não pagam luguel de cazas,
Os anjinhos levam azas,
Cães de fila todos mordem,
Sacramento sexto é ordem,
Ganhou o que fez mais vazas.
Estas pois e outras verdades,
Amigo, que aqui vos digo,
São as de que sou amigo;
.........................
O mais são só asnidades
D’esses que dizem rodeios,
Porque só por estes meios
Se falla bem portuguez;
Tudo o mais é ser francez,
E trazer na boca freios.
JUSTIÇA
QUE FAZ O P. NA HONRA HYPOCRITA PELOS ESTRAGOS QUE ANDA FAZENDO NA VERDADEIRA HONRA
Uma cidade tão nobre[2],
Uma gente tão honrada,
Veja-se um dia louvada
Desde o mais rico ao mais pobre:
Cada pessoa o seu cobre;
Mas si o diabo me atiça,
Que indo a fazer-lhes justiça,
Algum saia a justiçar,
Não me poderão negar
Que por direito e por lei
Esta é a justiça que manda El-Rei.
[2] Lisboa.
O fidalgo de solar
Se dá por envergonhado
De um tostão pedir prestado
Para o ventre sustentar:
Diz que antes o quer furtar,
Por manter a negra honra,
Que passar pela deshonra
De que lh’o neguem talvez:
Mas si o vires nas galés
Com honras de vice-rei,
Esta é a justiça que manda El-Rei.
A donzella embiocada,
Mal trajada, peior comida,
Antes quer na sua vida
Ter saia que ser honrada:
É publica amancebada
Por manter a negra honrinha,
E si lh’o chama a visinha,
E lh’o ouve a clerizia,
Dão com ella na enxovia,
E paga a pena da lei:
Esta é a justiça que manda El-Rei.
A casada com adorno,
E o marido mal vestido,
Crêde que este tal marido
Pentêa monho de ...
Si disser pelo contorno
Que si soffre a frei Thomaz,
Por manter a honrinha o faz;
Esperae pela pancada,
Que com carocha pintada
De Angola ha de ser vis-rei:
Esta é a justiça que manda El-Rei.
Os lettrados peralvilhos,
Citando o mesmo doutor
A favor do réu e auctor,
Comem de ambos os carrilhos:
Si se diz pelos corrilhos
Sua prevaricação,
A desculpa que vos dão
É a honra de seus parentes;
E entonces os requerentes
Fogem d’esta infame grei:
Esta é a justiça que manda El-Rei.
O clerigo julgador,
Que’as causas julga sem pejo,
Não reparando que eu vejo
Que erra a lei e erra o doutor:
Quando vem do monsenhor
A sentença revogada,
Por saber que foi comprada
Pelo gimbo ou pelo abraço,
Responde o padre madraço:
Minha honra é minha lei;
Esta é a justiça que manda El-Rei.
O mercador avarento
Quando a sua conta extende,
No que compra e no que vende
Tira duzentos por cento:
Não é elle tão jumento
Que não saiba que em Lisboa
Se lhe ha de dar na gamboa;
Mas comido já o dinheiro,
Diz que a honra está primeiro,
E que honrado a toda a lei.
Esta é a justiça que manda El-Rei.
A viuva auctorisada,
Que não possue vintem,
Porque o marido de bem
Deixou a casa empenhada:
Alli entra a fradalhada,
Qual formiga em correição,
Dizendo que á casa vão
Manter a honra da casa;
Si a vires arder em brasa,
Que ardeu a honra entendei.
Esta é a justiça que manda El-Rei.
O Adonis da manhãa,
O Cupido em todo o dia,
Que anda correndo a coxia
Com recadinhos á irmãa,
E si lhe cortam a lãa
Diz que anda naquelle andar
Pela honra conservar
Bem tractado e bem vestido;
Eu o verei tão despido,
Que até as costas lhe verei.
Esta é a justiça que manda El-Rei.
Si vires um dom abbade
Sôbre o pulpito cioso,
Não lhe chameis religioso,
Chamae-lhe embora de frade:
E si o tal Paternidade
Rouba as rendas do convento,
Para acudir ao sustento
Da ..., como da peita
Com que livra de suspeita
Do Geral, do Vice-Rei,
Esta é a justiça que manda El-Rei.
DIALOGO
ENTRE O DEMONIO E A ALMA
Cantavam naquelle tempo os chulos da Bahia certas cantigas por uma toada triste que rematava, dizendo: «Banguê, que será de ti?» Mas outros mais piedosos reduziam a mesma canção ao Divino finalizando assim: «Meu Deus, que será de mim?» E o P. entre o temporal e o eterno de uma o outra chularia introduziu uma alma christãa resistindo ás tentações do demonio com a glosa de ambos os extremos:
Meu Deus, que será de mim?
Banguê, que será de ti?
Alma—Si o descuido do futuro
E a lembrança do presente
É em mim tão continente,
Como do mundo murmuro?
Será porque não procuro
Temer do principio o fim?
Será porque sigo assim
Cegamente o meu peccado?
Mas si me vir condemnado,
Meu Deus, que será de mim?
Dem.—Si não segues meus enganos
E meus deleites não segues,
Temo que nunca socegues
No florido de teus annos:
Vê como vivem ufanos
Os descuidados de si:
Canta, baila, folga e ri;
Porque os que não se alegraram,
Dous infernos militaram:
Banguê, que será de ti?
Alma—Si para o céu me creastes,
Meu Deus, á imagem vossa,
Como é possivel que possa
Fugir-vos, pois me buscastes?
E si para mim tractastes
O melhor remedio e fim;
Eu, como ingrato Caim,
D’este bem tão esquecido,
Tendo-vos tão offendido,
Meu Deus, que será de mim?
Dem.—Todo o cantar allivia
E todo o folgar alegra,
Toda a branca, parda e negra
Tem sua hora de folia:
Só tu na melancolia
Tens allivio? Canta aqui
E torna a cantar alli,
Que d’esse modo o practicam
Os que alegres prognosticam
Banguê, que será de ti?
Alma—Eu para vós—offensor,
Vós para mim—derretido?
Eu—de vós tão esquecido,
E vós de mim—Redemptor?
Ai como sinto, Senhor,
De tão mau principio o fim,
Si me não valeis assim,
Como áquelle que na cruz
Feristes com vossa luz?
Meu Deus, que será de mim?
Dem.—Como assim na flor dos annos
Colhes o fructo amargoso?
Não vês que todo o penoso
É causa de muitos damnos?
Deixa, deixa desenganos,
Segue os deleites, que aqui
Te offereço, porque alli
Os mais que cantando vão,
Dizem na triste canção:
Banguê, que será de ti?
Alma—Quem vos offendeu, Senhor?
Uma creatura vossa?
Como é possivel que eu possa
Offender meu Creador?
Triste de mim peccador,
Si a gloria que daes sem fim,
Perdida num Serafim
Se perder em mim tambem?
Si eu perder tamanho bem,
Meu Deus, que será de mim?
Dem.—Si a tua culpa merece
Do teu Deus toda a esquivança,
Folga no mundo e descança
Que o arrepender aborrece:
Si o peccado te entristece,
Como já em outros vi,
Te prometto desde aqui
Que os mais da tua facção
E tu no inferno dirão:
Banguê, que será de ti?
CONTRA
OS INGRATOS MURMURADORES DO BEM QUE ACTUALMENTE RECEBEM DA MÃE UNIVERSAL, QUE OS AFFAGA, SE QUEIXA A BAHIA, CONFESSANDO-SE DAS CULPAS, QUE LHE DÃO, PELOS PRECEITOS DO DECALOGO
ROMANCE
Já que me põem a tormento
Murmuradores noviços,
Carregando sobre mim
Suas culpas e delictos;
Por credito do meu nome,
E não por temer castigo,
Confessar quero os peccados
Que faço, e que patrocino.
E si alguem tiver a mal
Descobrir este sigillo,
Não me infame que eu serei
Pedra em poço, ou seixo em rio.
Sabei, céu, sabei estrellas,
Escutae, flores e lirios,
Montes, serras, peixes, aves,
Lua, sol, mortos e vivos,
Que não ha nem póde haver,
Desde o Sul ao Norte frio,
Cidade com mais maldades,
Nem provincia com mais vicios,
Do que sou eu, porque em mim
Recopilados e unidos
Estão junctos quantos têm
Mundos e reinos distinctos.
Tenho Turcos, tenho Persas,
Homens de nação impios,
Mogores, Armenios, Gregos,
Infieis e outros gentios.
Tenho ousados Mermidonios,
Tenho Judeus, tenho Assyrios,
E de quantas seitas ha
Muito tenho, e muito abrigo.
E sinão digam aquelles
Presados de vingativos,
Que sanctidade têm mais
Que um Turco e que um Mohabito!
Digam idolatras falsos,
Que estou vendo de continuo
Adorarem ao dinheiro,
Gula, ambição e amoricos!
Quantos com capa christãa
Professam o judaismo,
Mostrando hypocritamente
Devoção á Lei de Christo!
Quantos com pelle de ovelha
São lobos enfurecidos,
Ladrões, falsos, aleivosos,
Embusteiros e assassinos!
Estes por seu mau viver,
Sempre pessimo e nocivo,
São os que me accusam damnos,
E põem labéos inauditos.
Mas o que mais me atormenta
É ver que os contemplativos,
Sabendo a minha innocencia,
Dão a seu mentir ouvidos.
Até os mesmos culpados
Têm tomado por capricho,
Para mais me difamarem
Pôrem pela praça escriptos,
Onde escrevem sem vergonha,
Não só brancos, mas mestiços,
Que para os bons sou inferno,
E para os mais paraizo.
Oh velhacos insolentes,
Ingratos, mal procedidos!
Si eu sou essa que dizeis,
Porque não largais meu sitio?
Porque habitais em tal terra,
Podendo em melhor abrigo?
Eu pego em vós? eu vos rogo?
Respondei: dizei, maldictos?
Mandei acaso chamar-vos,
Ou por carta, ou por aviso?
Não viestes para aqui
Por vosso livre alvedrio?
A todos não dei entrada,
Tractando-vos como a filhos?
Que razão tendes agora
De difamar-me atrevidos?
Meus males de quem procedem?
Não é de vós? claro é isso:
Que eu não faço mal a nada
Por ser terra e matto arisco.
Si me lançais má semente
Como quereis fructo limpo?
Lançae-a boa, e vereis
Si vos dou cachos optimos.
Eu me lembro que algum tempo,
Isto foi no meu principio,
A semente que me davam
Era boa e de bom trigo.
Por cuja causa meus campos
Produziam pomos lindos,
De que ainda se conservam
Alguns remotos indicios.
Mas depois que vós viestes
Carregados, como ouriços,
De sementes invejosas
E legumes de maus vicios;
Logo declinei comvosco,
E tal volta tenho tido,
Que o que produzia rozas
Hoje só produz espinhos.
Mas para que se conheça
Si fallo verdade ou minto,
E quanto os vossos enganos
Têm difamado meu brio:
Confessar quero de plano
O que encubro por servir-vos,
E saiba quem me moteja
Os premios que ganho nisso.
Já que fui tão pouco attenta,
Que a luz da razão e o sizo
Não só quiz cegar por gosto,
Mas ser do mundo ludibrio.
Vós me ensinastes a ser
Das inconstancias archivo,
Pois nem as pedras que gero
Guardam fé aos edificios.
Por vosso respeito dei
Campo franco e grande auxilio
Para que se quebrantassem
Os mandamentos divinos.
Cada um por suas obras
Verá contra quem me explico,
Sem andar excogitando
Para quem se aponta o tiro.
PRECEITO I
Que de quilombos que tenho.
Com mestres superlativos,
Nos quaes se ensina de noite
Os calundús e feitiços!
Com devoção os frequentam
Mil sujeitos femininos,
E tambem muitos barbados,
Que se prezam de Narcisos.
Ventura dizem que buscam
(Não se viu maior delirio!)
Eu que os ouço e vejo, calo
Por não poder diverti-los.
O que sei é que em taes danças
Satanaz anda mettido,
E que só tal padre mestre
Póde ensinar taes delirios.
Não ha mulher desprezada,
Galan desfavorecido,
Que deixe de ir ao quilombo
Dançar o seu bocadinho.
E gastam bellas patacas
Com os mestres da Cachimbo,
Que são todos jubilados
Em depennar taes patinhos.
E quando vão confessar-se,
Encobrem aos padres isto,
Porque o tem por passatempo,
Por costume ou por estylo.
Em cumprir as penitencias
Rebeldes são e remissos,
E muito peior si as taes
São de jejuns ou cilicios.
A muitos ouço gemer
Com pezar muito excessivo,
Não pelo horror do peccado,
Mas sim por não consegui-lo.
PRECEITO II
No que toca aos juramentos
De mim para mim me admiro,
Por ver a facilidade
Com que os vão dar a juizo,
Ou porque ganham dinheiro,
Por vingança, ou pelo amigo,
E sempre juram conformes
Sem discreparem do artigo.
Dizem que fallam verdade,
Mas eu, pelo que imagino,
Nenhum creio que a conhece,
Nem sabe seus aphorismos.
Até nos confessionarios
Se justificam mentindo
Com pretextos enganosos
E com rodeios fingidos.
Tambem aquelles a quem
Dão cargos, e dão officios,
Supponho que juram falso,
Por consequencias que hei visto.
Promettem guardar direito,
Mas nenhum segue este fio,
E por seus rodeios tortos
São confusos labyrinthos.
Honras, vidas e fazendas
Vejo perder de continuo,
Por terem como em viveiro
Estes falsarios mettidos.
PRECEITO III
Pois no que toca a guardar
Dias sanctos e domingos,
Ninguem vejo em mim que os guarde,
Si tem em que ganhar gimbo.
Nem aos míseros escravos
Dão taes dias de vazio,
Porque nas leis do interesse
É preceito prohibido.
Quem os vê ir para o templo
Com as contas e os livrinhos
De devoção, julgará
Que vão por ver a Deus Trino;
Porém tudo é mero engano,
Porque si alguns escolhidos
Ouvem missa é perturbados
D’esses, que vão por ser vistos.
E para que não pareça
Aos que escutam o que digo
Que ha mentira no que fallo,
Com a verdade me explico:
Entra um d’estes pela egreja,
Sabe Deus com que sentido,
E faz um signal da cruz
Contrario ao do catechismo.
Logo se põe de joelhos,
Não como servo rendido,
Mas em fórma de bésteiro,
C’um pé no chão, outro erguido.
Para os altares não olha,
Nem para os Sanctos no nicho,
Mas para quantas pessoas
Vão entrando e vão saindo.
Gastam nisso o mais do tempo,
E o que resta, divertidos
Se põem em conversação
Com os que estão mais propinquos.
Não contam vidas de Sanctos,
Nem exemplos do Divino,
Mas sim muita patarata
Do que não ha, nem tem sido.
Pois si ha sermão, nunca o ouvem,
Porque ou se põem de improviso
A cuchilar como negros,
Ou se vão escapulindo.
As tardes passam nos jogos,
Ou no campo divertidos
Em murmurar dos governos,
Dando leis e dando arbitrios.
As mulheres são peiores,
Porque si lhes faltam brincos,
Manga avola, broche, troco,
Ou saia de labyrintho:
Não querem ir para a egreja,
Seja o dia mais festivo,
Mas em tendo estas alfaias,
Saltam mais do que cabritos.
E si no Carmo repica,
Ei-las lá vão rebolindo,
O mesmo para São Bento,
Ou Collegio, ou São Francisco.
Quem as vir muito devotas,
Julgará, sincero e liso,
Que vão na missa e sermão
A louvar a Deus com hymnos.
Não quero dizer que vão
Por dizer mal dos maridos,
Dos amantes, ou talvez
Cair em erros indignos.
Debaixo do parentesco,
Que fingem pelo appellido,
Mandando-lhes com dinheiro
Muitos e custosos mimos.
PRECEITO IV
Vejo que morrem de fome
Os paes d’aquelles e os tios,
Ou porque os veem lavradores,
Ou porque tractam de officios.
Pois que direi dos respeitos
Com que os taes meus mancebinhos
Tractam esses paes depois
Que deixam de ser meninos?
Digam-no quantos o veem,
Que eu não quero repeti-lo,
A seu tempo direi como
Criam estes morgadinhos.
Si algum em seu testamento
Cerrado ou nuncupativo,
A algum parente encarrega
Sua alma ou legados pios:
Tracta logo de enterra-lo
Com demonstrações de amigo,
Mas passando o requiescat,
Tudo se mette no olvido.
Da fazenda tomam posse,
Até do menor caquinho,
Mas para cumprir as deixas
Adoece de fastio.
E d’esta omissão não fazem
Escrupulo pequenino,
Nem se lhes dá que o defuncto
Arda ou pene em fogo activo.
E quando chega a apertal-os
O Tribunal dos residuos,
Ou mostram quitações falsas,
Ou movem pleitos renhidos.
Contados são os que dão
A seus escravos ensino,
E muitos nem de comer,
Sem lhe perdoar o serviço.
Oh quantas e quantos ha
De bigode fernandino,
Que até de noite ás escravas
Pedem salarios indignos!
Pois no modo de criar
Aos filhos, parecem simios,
Causa porque os não respeitam
Depois que se veem crescidos.
Criam-nos com liberdade
Nos jogos, como nos vicios,
Persuadindo-lhes que saibam
Tanger guitarra e machinho.
As mães por sua imprudencia
São das filhas desperdicio,
Por não haver refestella,
Onde as não levem comsigo.
E como os meus ares são
Muito coados e finos,
Si não ha grande recato
Têm as donzellas perigo.
Ou as quebranta de amores
O ar de algum recadinho,
Ou pelo frio da barra
Sahem co’ o ventre crescido.
Então vendo-se opiladas,
Si não é do sancto vinclo,
Para livrarem do achaque
Buscam certos abortivos.
Cada dia o estou vendo,
E com ser isto sabido,
Contadas são as que deixam
De amar estes precipicios.
Com o dedo a todas mostro
Quanto indica o vaticinio,
E si não querem guarda-lo.
Não culpem meu domicilio.
PRECEITO V
Vamos ao quinto preceito,
Sancto Antonio vá commigo,
E me depare algum meio
Para livrar do seu risco.
Porque, supposto que sejam
Quietos, mansos e benignos
Quantos pizam meus oiteiros,
Montes, valles, e sombrios:
Póde succeder que esteja
Algum aspide escondido
Entre as flores, como diz
Aquelle proverbio antigo.
Faltar não quero à verdade,
Nem dar ao mentir ouvidos,
O de Cezar dê-se a Cezar,
O de Deus à Jesu-Christo.
Não tenho brigas, nem mortes,
Pendencias, nem arruidos,
Tudo é paz, tranquillidade,
Cortejo com regosijo.
Era dourada parece,
Mas não é como eu a pinto,
Porque debaixo d’este ouro
Tem as fezes escondido.
Que importa não dar aos corpos
Golpes, catanadas, tiros,
E que só sirvam de ornato
Espadas e cotós limpos?
Que importa que não se enforquem
Nem ladrões, nem assassinos,
Falsarios e maldizentes,
E outros a este tonilho;
Si debaixo d’esta paz,
D’este amor falso e fingido,
Ha fezes tão venenosas
Que o ouro é chumbo mofino?
É o amor um mortal odio,
Sendo todo o incentivo
A cobiça do dinheiro
Ou a inveja dos officios.
Todos peccam no desejo
De querer ver seus patricios,
Ou da pobreza arrastados,
Ou do credito abatidos.
E sem outra causa mais
Se dão a dextra e sinistra,
Pela honra e pela fama
Golpes crueis e infinitos.
Nem ao sagrado perdoam,
Seja rei ou seja bispo,
Ou sacerdote ou donzella
Mettida no seu retiro.
A todos em fim dão golpes
De enredos e mexericos,
Tão crueis e tão nefandos,
Que os despedaçam em cisco.
Pelas mãos nada: porque
Não sabem obrar no quinto;
Mas pelas linguas não ha
Leões mais enfurecidos.
E d’estes valentes fracos
Nasce todo o meu martyrio,
Digam todos os que me ouvem
Si fallo verdade ou minto.
PRECEITO VI
Entremos pelos devotos
Do nefando rei Cupido,
Que tambem ésta semente
Não deixa logar vazio.
Não posso dizer quaes são
Por seu numero infinito,
Mas só digo que são mais
Do que as formigas que crio.
Seja solteiro ou casado,
É questão, é já sabido,
Não estar sem ter borracha,
Seja de bom ou mau vinho.
Em chegando a embebedar-se
De sorte perde os sentidos,
Que deixa a mulher em couros,
E traz os filhos famintos.
Mas a sua concubina
Ha de andar como um palmito,
Para cujo effeito empenham
As botas com seus atilhos.
Ellas, por não se occuparem
Com costuras, nem com bilros,
Antes de chegar aos doze
Vendem o signo de Virgo.
Ouço dizer vulgarmente
(Não sei si é certo este dicto)
Que fazem pouco reparo
Em ser caro ou baratinho.
O que sei é que em magotes
De duas, trez, quatro e cinco,
As vejo todas as noites
Sair de seus encondrijos.
E como ha tal abundancia
D’esta fruita no meu sitio,
Para ver si ha quem a compre
Dão pelas ruas mil gyros.
E é para sentir o quanto
Se dá Deus por offendido,
Não só por este peccado,
Mas pelos seus conjunctivos;
Como são cantigas torpes,
Bailes e toques lascivos,
Venturas e fervedouros,
Pau de forca e pucarinhos:
Quero entregar ao silencio
Outros excessos maldictos,
Como do pae Cazumbá,
Ambrosio e outros pretinhos.
Com os quaes estas formosas
Vão fazer infames brincos,
Governados por aquelles
Que as trazem num cabrestilho.
PRECEITO VII
Já pelo septimo entrando
Sem alterar o tonilho,
Digo que quantos o tocam
Sempre o tiveram por critico.
Eu sou a que mais padeço
De seus effeitos malignos,
Porque todos meus desdouros
Pelo septimo tem vindo.
Não fallo, como lá dizem,
Ao ar, ou libere dicto,
Pois diz o mundo loquaz
Que encubro mil latrocinios.
Si é verdade, eu o não sei,
Pois acho implicancias nisto,
Porque o furtar tem dous verbos,
Um furor, outro surripio.
Eu não vejo cortar bolsas,
Nem sair pelos caminhos,
Como fazem nas mais partes,
Salvo alguns negros fugidos.
Vejo que a forca ou picota
Paga os altos de vazio,
E que o carrasco não ganha
Nem dous réis para cominhos.
Vejo que nos tribunaes
Ha vigilantes ministros,
E si houvera em mim tal gente,
Andára a soga em continuo.
Porém si d’isto não ha,
Com que razão ou motivo
Dizem por ahi que sou
Um covil de latrocinios?
Será por verem que em mim
É venerado e querido
Sancto Unhate, irmão de Caco,
Porque faz muitos prodigios?
Sem questão deve de ser,
Porque este Unhate maldicto
Faz uns milagres que eu mesma
Não sei como tenho tino.
Póde haver maior milagre
(Ouça bem quem tem ouvidos)
Do que chegar um Reinol,
Por Lisboa, ou pelo Minho;
Ou degradado por crimes,
Ou por moço ao pae fugido,
Ou por não ter que comer
No logar onde é nascido:
E saltando no meu caes,
Descalso, roto e despido,
Sem trazer mais cabedal
Que piolhos e assobios;
Apenas se offerece a Unhate
De guardar seu compromisso,
Tomando com devoção
Sua regra e seu bentinho,
Quando umas casas aluga
De preço e valor subido,
E se põe em tempo breve
Com dinheiro, e com navios!
Póde haver maior portento,
Nem milagre encarecido,
Como de ver um mazombo
D’estes cá do meu pavio;
Que sem ter eira, nem beira,
Engenho ou juro sabido,
Tem amiga e joga largo,
Veste sedas, põe polvilhos:
D’onde lhe vem isto tudo?
Cahe do céu?—tal não affirmo:
Ou Sancto Unhate lh’o dá,
Ou do Calvario é prodigio.
Consultem agora os sabios,
Que de mim fazem corrilhos,
Si estou illesa da culpa,
Que me dão sobre este artigo.
Mas não quero repetir
A dor e o pezar que sinto,
Por dar mais um passo ávante
Para o oitavo supplicio.
PRECEITO VIII
As culpas que me dão nelle,
São que em tudo quanto digo
Do verdadeiro me aparto
Com animo fementido.
Muito mais é do que fallo,
Mas é grande barbarismo
Quer erem que pague a albarda
O que commette o burrinho.
Si por minha desventura
Estou cheia de preceitos,
Como querem que haja em mim
Fé, verdade, ou fallar liso?
Si, como atraz declarei,
Se puzera cobro nisto,
Apparecêra a verdade
Cruzando os braços comigo.
Mas como dos tribunaes
Proveito nenhum se ha visto,
A mentira está na terra,
A verdade vai fugindo.
O certo é que os mais d’elles
Têm por gala e por capricho,
Não abrir a boca nunca
Sem mentir de ficto a ficto.
Deixar quero as pataratas,
E tornando a meu caminho,
Quem quizer mentir o faça,
Que me não toca impedi-lo.
PRECEITO IX E X
Do nono não digo nada,
Porque para mim é vidro,
E quem o quizer tocar
Vá com o olho sobre aviso.
Eu bem sei que tambem trazem
O meu credito perdido,
Mas valha sem sêllo ex causa,
Ou lh’os ponham seus maridos.
Confesso que tenho culpas,
Porém humilde confio,
Mais que em riquezas do mundo,
Da virtude num raminho.
Graças a Deus que cheguei
A coroar meus delictos
Com o decimo preceito
No qual tenho delinquido.
Desejo que todos amem,
Seja pobre ou seja rico,
E se contentem com a sorte
Que têm e estão possuindo.
Quero finalmente que
Todos quantos têm ouvido,
Pelas obras que fizerem
Vão para o céu direitinhos.