IV

O nome de Gregorio de Mattos basta para que faça despertar logo no espirito de muitas pessoas as engraçadas anecdotas que de sua vida ainda hoje correm, vindas vagamente de geração em geração, accrescentando-se-lhes ou diminuindo, como é natural, uns pontinhos de mais ou de menos. Vejamos, por exemplo, tres das mais curiosas que vogam, contadas de modos inteiramente diversos.

O bispo do Pará d. fr. João de S. José Queiroz, nas suas Memorias, publicadas em 1868 pelo sñr. C. Castello Branco, narra:

«Fez Gregorio de Mattos, em Pernambuco, uma satyra universal ao clero e religiões. Escapou-lhe um clerigo, por lhe não occorrer e viver fóra da cidade. Foi este simples sacerdote procurar o poeta e agradecer-lhe muito o não o metter na satyra. Perguntou-lhe o Mattos o nome e onde assistia. E depois accrescentou: «Reparou Vm. na obra, num multitudo cavallorum que lá vém?»—Sim senhor, disse o clerigo. «Pois alli está Vm. mettido,» concluiu o mordaz poeta.»

O seu biographo, Pereira Rebello, porém, dando conta d’esta passagem, diz:

«... Nem havia lisonja que desmentisse as durezas d’aquelle engano, o que se prova com esta decima:

A nossa Sé da Bahia,

Com ser um mappa de festas,

É um presepe de bestas,

Si não fôr estrebaria;

Varias bestas cada dia

Vejo que o sino congrega:

Caveira mula gallega,

Deão burrinha bastarda,

Pereira rossim de albarda,

Que tudo da Sé carrega.

«Pareceu a certo conego que não ia incluido nesta decima, onde o seu nome se não mostrava, e promptamente lhe veiu agradecer com palavras humildes; mas o poeta lhe respondeu: Não, sñr. padre, lá vai nas bestas.»

Agora passemos á segunda, que diz respeito aos ultimos momentos do desditoso satyrico. D. fr. João de S. José refere que o poeta.

«...Morreu como impio, sem embargo de o exhortarem padres muito doutos, chegando o bispo de Pernambuco a ir pessoalmente dispo-lo. Recebeu o prelado, dando-lhe as costas e virando-se para a parede. Instado por aquelle benigno pastor que se animasse e pedisse perdão a Deus, voltou-se, e vendo-lhe na mão um crucificado com os olhos coberbertos de sangue, proferiu tão impia como jocosamente o sabido quarteto:

Quando meus olhos mortaes

Ponho nos vossos divinos

Cuido que vejo os meninos

De Gregorio de Moraes.

«Os meninos de Gregorio de Moraes, seus visinhos, traziam os olhos inflammados. Intempestiva e indecente allusão! E assim morreu.»

A este trecho accrescenta o sñr. C. Castello Branco:

«Escreve Innocencio Francisco da Silva que o poeta morrêra com «grandes mostras de contricção e arrependimento, si é verdade o que affirmam os seus biographos.» Não nos edifica o arrependimento de Gregorio de Mattos, si fechou a vida com a copla celebrada pelo bispo do Pará. A meu ver, a impia memoria do mordente brazileiro explica o silencio do abbade de Sever, justamente arguido pelo citado bibliophilo.»

Mas é d’este outro modo accusada pelo biographo Rebello a morte do nosso Mattos:

«Uma rigorosa febre lhe attenuou os dias, de sorte que, desenganados os piedosos pernambucanos de remir-lhe a vida, chamaram o vigário do Corpo Sancto, Francisco da Fonseca Rego, pessoa que suppunham de mais auctoridade, para que o dispuzesse a morrer como catholico. Mas como este parocho era na opinião do poeta mal recebido, sem poder disfarçar nesta hora o genio livre, soltou algumas palavras, que puzeram as chimeras do vulgo em suspeitas, de que nasceu um rumor menos decoroso á sua consciencia; o qual chegando aos ouvidos do illustrissimo prelado d. frei Francisco de Lima, logo desde uma legua de caminho se arrojou como bom pastor a tomar em seus hombros a ovelha que suppunha desgarrada, e não foi assim, porque não só o achou disposto a morrer como verdadeiro christão, mas em signal de que lhe servira o entendimento no maior conflicto, viu em uma folha de papel escripto com caracteres tremulos o grande soneto que offerecemos:

Pequei senhor; mas não, porque hei peccado,

Da vossa alia piedade me despido:

Antes quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Si basta a vos irar tanto peccado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:

Que a mesma culpa, que vos ha offendido,

Vos tem para o perdão lisongeado.

Si uma ovelha perdida, já cobrada,

Gloria tal o prazer tão repentino

Vos deu, como affirmais na Sacra Historia,

Eu sou, senhor, ovelha desgarrada:

Cobrae-a; e não queirais, Pastor Divino,

Perder na vossa ovelha a vossa gloria.

«Assistiu-lhe o piedoso bispo até o ultimo valle, e logo seu corpo foi levado por homens principaes ao Hospicio de Nossa Senhora da Penha dos Capuchinhos Francezes, o dia em que chegavam as novas da restauração do famoso Palmar a Pernambuco, que havia de ser o sexto da victoria, pois tanto gasta um caminheiro apressado de um logar a outro.»

A terceira é a seguinte, que occorre na Bibliotheca Bahiana de João Nepomuceno da Silva, vol. 2.ᵒ (1863), tractando-se de Gregorio de Mattos:

«A promptidão com que o poeta achava pensamento, rima e sal para a satyra, é o que mais o tornou distincto. Umas mulheres suas visinhas, accommettidas inopinadamente de umas visitas á noite, recorreram ao poeta no emprestimo de umas grandes e bojudas porcelanas chamadas palanganas: servidas, não mais cuidaram em restitui-las. Passado algum tempo chegaram ellas em uma noite á janella para ver um enterro que pela rua passava, ao tempo que o poeta tambem chegava á d’elle. Surprehendidas, disfarçaram, pedindo uma dillação ao poeta, que fizesse uma satyra ao enterro, e então foi esta a satyra que de prompto lhe surgiu:

Dizem que as almas que vão

Á este mundo não vem,

E as minhas palanganas

Fizeram-se almas também?»

Um enthusiasta de Gregorio de Mattos, porém, nas linhas publicadas no Cruzeiro de 7 de Abril de 1881, conta a mesma anedocta de modo differente.

«Mandára o poeta uma bandeja rica com doces a uma familia de suas relações. Acharam graça em guardar a bandeja e o presente. Passaram-se tempos e o poeta nada reclamou. Um dia passou-lhe pela porta, e apanhando-os na gelosia, disse-lhes:

As almas do outro mundo

Dizem que vão e não vem,

E a minha bandejinha

Será alma tambem?»

Conta-se outra anedocta curiosa passada na cidade da Bahia entre o coronel Sebastião da Rocha Pitta, auctor da conhecida Historia da America Portugueza, e o poeta.

Rocha Pitta era então alferes de infantaria e estava de guarda em Palacio. Acconteceu passar por ali o nosso poeta, e chegou-se a elle o depois historiador brazileiro e lhe disse: Senhor doutor, estou com uma obra entre mãos e para acaba-la, quero que V. M.ᶜᵉ me dê um consoante a esta palavra ==para mim==. Ao que promptamente respondeu Gregorio de Mattos ==Capim==. Rocha Pitta tornou-se então inimigo de Gregorio de Mattos. O auctor da America Portuguesa tambem era poeta e parece que quando ouviu a rima pedida proferida em tom serio e grave pelo espirituoso satyrico, ficou assim meio duvidoso. Provavelmente o proprio Gregorio de Mattos foi quem andou narrando o caso, e d’aqui procedeu todo o odio de Rocha Pitta.