V
A litteratura do Brazil no seculo do seu descobrimento é apenas representada pelo pernambucano Bento Teixeira Pinto, auctor de um poemeto intitulado Prosopopéa, o qual foi impresso em 1601 e reimpresso em 1872 pela Bibliotheca Nacional, á esforços do illustrado sñr. dr. Ramiz Galvão. No seculo immediato, o XVII, entrou então o Brazil a desenvolver-se, e, como era natural, não poucos homens de talento, nascidos no torrão americano, começaram a cultivar as lettras e sciencias em todos os seus ramos.
D’entre os mais notaveis poetas, para só fallar d’elles, destacam-se: Gregorio de Mattos, que já era muito apreciado e applaudido em Portugal; Eusebio de Mattos, Bernardo Vieira Ravasco, Manuel Botelho de Oliveira, Domingos Barbosa, Gonçalo Soares da Franca, Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, naturaes da Bahia; Salvador de Mesquita, Martinho de Mesquita e João Mendes da Silva, do Rio de Janeiro. Os poetas bahianos são, em honra da verdade, os que representam toda a litteratura brazileira durante o XVII seculo: de poucos d’elles porém existem livros impressos em separado, mas das composições de quasi todos subsistem algumas amostras.
De todos estes cantores d’aquelle seculo o mais conhecido e reputado foi incontestavelmente Gregorio de Mattos; corriam de mão em mão as suas numerosas obras, e eram por todos repetidas de bocca em bocca, «desde o palacio á choupana, desde a floresta á cidade.»
Ninguem ha, pois, que cultive as lettras no Brazil, que não encontre logo occupando nellas um logar proeminente o nosso Gregorio de Mattos, pelo seu estro gigantesco, pela originalidade das suas producções satyricas, pelos seus rasgos admiraveis. O seu nome, apezar de decorridos quasi dois seculos depois da sua morte, é ainda hoje apregoado como um dos mais valentes cooperadores das litteraturas de dois povos e da lingua portugueza fallada no Brazil. Movido por estes dois pontos de vista decidi-me a publicar as suas obras. Si todas as suas producções são realmente de verdadeiro merito, não o saberei eu dizer; e, quando por ventura não n’o tenham, fica explicada a razão por que encetei a publicação de escriptos de um auctor que fazia timbre em criticar, não a todos nem a tudo, como geralmente se diz, mas áquelles que se deslisavam dos seus deveres, ou que o provocavam com motejos e escriptos pregados pelas praças, e aquillo que julgava no seu esclarecido entendimento andar fóra da razão e da justiça. Moralisar os viciosos, ridicularisar certos usos e costumes desregrados, retratar ao vivo certos personagens, era o fim principal do poeta.
Como disse, até então poucas producções do notavel poeta lograram ver a luz da publicidade; agora, porém, vamos ter uma collecção, ainda que incompleta, das poesias de Gregorio de Mattos, o Bocca do Inferno, nome pelo qual era mais conhecido no seu tempo, pela vehemencia e mordacidade das suas engraçadas satyras, que produziam um effeito extraordinario no espirito dos seus conterraneos, e não menos produzirão ainda hoje com a sua vulgarisação pela imprensa.
Como é sabido, notava-se nos tempos coloniaes o desgoverno do Brazil; tractava então cada um de seguir a sua conveniencia, gemesse quem gemesse, e com o apparecimento das satyras do nosso poeta notou-se que de algum modo moderaram os viciosos os seus desregrados costumes: d’ahi veiu a dizer o grande padre Antonio Vieira que maior fructo faziam as satyras de Mattos que as missões de Vieira, de onde se infere que não foram poucos os serviços prestados pelo vate bahiano ao então nascente Brazil, concorrendo com a sua veia satyrica para o saneamento moral da patria. Já de Eusebio de Mattos, irmão do poeta, havia affirmado o mesmo padre Vieira «que Deus se apostára em o fazer em tudo grande, e não fôra mais por não querer.»
Gregorio de Mattos, apezar de ter feito da sua vida um verdadeiro romance, cheio de peripecias singulares, de inimitaveis rasgos e de desvarios e desregramentos, fustigou os vicios e expoz ao ridiculo as vaidades e desconcertos do seculo em que viveu e poetou, entresachando as suas satyras de um tiroteio de chistes e descripções picantes, que as tornavam muito lidas e faziam com que gyrassem em cópias manuscriptas, ás centenas, pelas mãos dos curiosos.
Um dos maiores senões das satyras que não versam sobre a critica dos vicios e a censura dos costumes em geral, é devido a ignorar-se mais tarde quasi tudo o que nellas se diz, o que realmente faz com que percam muito do seu sal e valor.
Para o tempo em que correm ainda quentes são de effeito immenso, porque todo o mundo conhece as baldas do criticado e a exacção do satyrico, não lhe escapando as menores circumstancias, que entretanto mais tarde se tornam inteiramente extranhas. D’ahi nascia a avidez com que as satyras de Mattos eram lidas, relidas ás vezes, ante um num eroso auditorio e copiadas com sofreguidão no tempo. O proprio governador da Bahia d. João de Alencastro, a quem se deve o desterro de Mattos, tinha um livro especial em que com esmerada lettra mandava registar as producções do nosso poeta, com mais cuidado e correcção talvez do que as suas mesmas cartas de officio para a côrte: quando porém a musa satyrica lhe entrou por casa sem pedir licença, foi o poeta traçoeiramente prêso e por ordem sua desterrado!
Mas Gregorio de Mattos não foi só poeta satyrico: ha composições suas notaveis e distinctas, não só por terem sahido fóra do seu habito de compor, como porque tractam de tornar salientes as virtudes e merito de algumas pessoas e dignidades da sua patria: d’aqui se conclue que reconhecia elle a virtude, onde quer que a achasse, e que si não era virtuoso, tinha probidade e honra, e a não serem exactas as suas palavras, é certo que elle não exaltaria meritos, si realmente os não encontrasse, pois, como se sabe, o poeta não perdia vaza, e folgava de ter occasião de jogar a sua setta vehemente e ferina contra esta ou aquella pessoa, logo que o merecesse, fosse grande ou pequeno, branco ou preto.
D’aqui vem o dizer-se que Gregorio de Mattos estragava a sua musa delicada com assumptos pouco dignos de um poeta; porque depois que acabava de retratar fielmente um governador e capitão-general, um vice-rei, uma alta dignidade ecclesiastica, descia a photographar a largos traços pessoas inteiramente obscuras e collocadas muito baixo na escala social.
Accresce ainda que ha poesias de Gregorio de Mattos sobre objectos differentes, repassadas do mais fino e delicado lyrismo, e algumas de assumptos religiosos, que certo não são as suas menos estimaveis obras, e bastavam ellas para dar-lhe logar honroso no grande festim da poesia nacional. Tudo isto o que prova? Que a sua musa não tendia só para o comico e satyrico. Na sua alma palpitava fortemente um coração de poeta, e ante as scenas magestosas da natureza, ante a virtude, ante o merito, ante a boa christandade, o seu alevantado espirito não podia de certo ficar calado. Elle era poeta e tinha os olhos fitos no céu e o coração aberto na terra!
As obras de Gregorio de Mattos não são só reservadas aos homens de lettras, como se póde suppor. São destinadas não sómente aos que se dedicam ao cultivo da mais elevada litteratura, como ao povo, para quem em particular escrevia o famoso satyrico. Gregorio de Mattos fazia timbre de ser conhecido e applaudido das turbas populares, tanto que se aprazia em viver entre musicos e folgazões quando estava na Bahia. Escrevia para o povo, mas as suas composições agradavam ao homem mais douto, sabendo assim o poeta a um só tempo deleitar a todos. Por isso muitas das suas poesias não parecem escriptas ha tão longos annos, pela jovialidade que apresentam, pelo enredo de seus dramas, pela agudeza dos seus dictos, pela vivacidade das suas côres.
Gregorio de Mattos foi, como se sabe, o primeiro que introduziu na poesia portugueza o verso decasyllabo, que por isso ainda hoje é conhecido nos tractados de poetica sob o nome de verso gregoriano, ainda que o nosso poeta não fosse verdadeiramente o seu inventor, pois havia muito tempo que d’elle usavam os italianos, de quem Gregorio de Mattos o tomou, não deixando com isso de fazer um bom serviço ao mechanismo da poesia portugueza. Marinicolas—é a producção caracteristica dos versos decasyllabos, á que me refiro, famosa satyra que tanto celebrisou o notavel satyrico brazileiro.
Conhecido como deve ser o nosso Mattos, tornar-se-ha elle tão popular, como o fôra no seu tempo, não só em todo o Brazil, onde a sua fama chegou a todos os seus recantos, como em Portugal. Gregorio de Mattos pertence á litteratura de dois povos. Costa e Silva chamou-o Rabelais portuguez; antes, porém, já o sñr. J. Norberto o chamára o Juvenal brazileiro.
As obras de Gregorio de Mattos foram sempre muito apreciadas dos curiosos e amadores da boa poesia; pena é, porém, que o poeta descaia ás vezes em phrases e termos poucos decorosos, que não podem passar pelos olhos de todos e são obrigados a ficar ineditos. Posto que as suas composições fossem escriptas ha dois seculos, muitas d’ellas são e serão incontestavelmente de todos os tempos, pelo interesse geral que offerecem todas.
Os seus criticos são accordes em affirmar que a sua linguagem é rica, especialmente em termos e locuções populares e familiares, fluente, correcta e quasi sempre harmoniosa, e que as suas pinturas são vivas, profundos e penetrantes os seus golpes satyricos, e inexhaurivel a sua graça. Gregorio de Mattos é pois um poeta classico e dos mais auctorisados na linguagem portugueza.
Thomaz Pinto Brandão, o celebre poeta portuguez que «vivendo de alegrar a gente, morreu de fome», como elle proprio o diz, foi seu discipulo e com elle veiu em 1681 para o Brazil, quando o dr. Guerra estava despachado para a Bahia. O biographo de Th. Pinto Brandão diz que «influiu nelle Gregorio de Mattos o seu espirito agudo e picante, a que o seu perspicaz engenho soube illuminar com um emphasi especifico, que brilhava não só nas suas composições, mas nos seus dictos.»
Thomaz Pinto, falecido em 1743, parece que nunca esqueceu o seu mestre e amigo Gregorio de Mattos, e em 1713 invocou a alma do poeta bahiano e deu-nos a Satyra feita a todo o Governo de Portugal por Gregorio de Mattos ressuscitado em Pernambuco em 6 de Agosto de 1713. Consta de 40 strophes e é imitada da satyra de Mattos que tem por titulo Justiça que faz o P na honra hypocrita pelos estragos que anda fazendo na verdadeira honra, e que começa:
Uma cidade tão nobre,
Uma gente tão honrada,
Veja-se um dia louvada
Desde o mais rico ao mais pobre:
Cada pessoa o seu cobre;
Mas si o diabo me atiça,
Que indo a fazer-lhes justiça,
Algum sahia a justiçar,
Não mo poderão negar
Que por direito e por lei
Esta é a justiça que manda El-Rei.
A primeira strophe da satyra de Thomaz Pinto é esta:
Um Reino de tal valor,
E de povo tão honrado,
É justo seja louvado
Desde o vassallo ao senhor.
Inda que fraco orador,
A verdade hei de dizer,
E cada qual recolher
Póde, aquillo, que lhe toca;
Inda que diga, o provoca
Uma imitação real:
Este o bom Governo de Portugal.
Esta longa producção ainda se conserva inedita. A Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro a possue nas Obras partas de Thomaz Pinto Brandão, msc. in-4.ᵒ de 269 ff. num. Acha-se de ff. 195 a 204.