VI
Os homens de genio nunca morrem; neste caso está o nosso Gregorio de Mattos, que é uma verdadeira gloria nacional: quasi obumbrado por espaço de dois seculos, o seu ainda que não completo apparecimento no mundo litterario é quiçá um acontecimento. Estou certo que, mais conhecido, o seu nome se tornará tão vulgar como o de Luiz de Camões, dado o desconto da indole poética de um e de outro e da profunda differença dos assumptos de que um e outro se occuparam e que não são de certo para comparar-se. Gregorio de Mattos terá porém egualmente citadores, porque ha nas suas poesias muito que se applicar a todas as situações da vida, e si as condições sociaes mudaram, não são as mesmas do tempo em que poetou e floresceu, a humanidade é ainda a mesmissima e as fragilidades humanas se repetem e renovam em todos os seculos... por ventura refinadas.
Nascido na Bahia formára-se em Coimbra e estivera por algum tempo em Lisboa a exercer a advocacia. Tornou depois á Bahia, de onde, preso pela vivacidade das suas satyras, fôra deportado para Angola: d’ahi voltou a Pernambuco, onde exhalou o ultimo suspiro em 1696.
Como Camões, foi em Coimbra que Gregorio de Mattos começou a fazer-se conhecido pelas suas poesias e satyras; ahi esteve 7 annos, como elle proprio o diz, e, quando terminou o seu tirocinio academico, não se esqueceu de compôr um Adeus á Coimbra, despedindo-se da Universidade:
Adeus Coimbra inimiga,
Dos mais honrados madrasta,
Que eu me vou para outra terra
Onde viva mais á larga.
Adeus prolixas escholas,
Com reitor, meirinho, e guarda,
Lentes, bedeis, secretario
Que tudo sommado é nada.
Adeus famulo importuno
Ladrão público de estrada,
Adeus: comei d’esses furtos,
Que a bolsa está já acabada.
Adeus ama mal soffrida
Que si a paga vos tardava,
Furtaveis sem consciencia
Meios de carneiro e vacca.
Adeus amigos livreiros,
Com quem não gastei pataca
No discurso de sete annos,
De tantas carrancas cara.
Esta producção foi assim publicada por Varnhagen no seu Florilegio da poesia brazileira, t. I, pg. 11.
A sua vida é uma perfeita comedia, em que figuram os mais notaveis personagens do tempo, trazidos á baila pela sua musa folgazã, aviventados pelo seu genio creador e superior.
O Brazil ainda não produziu outro genio egual no seu genero ao de Gregorio de Mattos. Como já disse, não era elle só satyrico: era tambem um poeta sacro e um lyrico insigne. Os sonetos, que escreveu em grande numero, são eguaes ás melhores composições d’esta especie; rivalisam com os mais famosos de Bocage.
Na qualidade de advogado, Mattos era de um tino e perspicacia admiraveis, sabendo tirar partido vantajoso dos mais insignificantes incidentes: uma causa que tivesse a ventura de cahir nas suas mãos, estava de certo ganha e coberta de innumeros applausos, mesmo dos da parte contraria. Era de um laconismo extraordinario nos seus embargos, e de muitos d’elles nos dá noticia o seu biographo Rebello.
Gregorio de Mattos era alegre e folgazão como o mostra boa parte das suas producções.
Em geral os poetas pedem a morte cedo; Gregorio de Mattos porém não desejava morrer na flor da edade, e no soneto em que chora a morte de um filho seu de tenra edade, diz:
Que muito, ó filho, flor de um pau tão bronco,
Que acabe a flor na docil infancia,
E que acabando a flor dure inda o tronco.
De genio altaneiro e caracter independente, não se curvava a interesses mundanos. Queria dar espansão ao seu singular espirito e não admittia nisso o mais leve constrangimento.
A sua ambição era limitada: assim, não fazia caso de dinheiro, nem mercava a sua musa aos poderosos.
Conta o seu biographo, que quando elle vendeu umas terras suas por tres mil cruzados, recebendo o dinheiro em um saco, mandara-o despejar a um canto da casa, e d’ahi se ia tirando o necessario e sem regra, para os gastos diarios.
Como advogado Gregorio de Mattos era de rectissimo proceder; só defendia o justo e aconselhava o verdadeiro. «Conta-se, diz o seu biographo, que muitas vezes aconteceu entrarem-lhe as partes com dinheiro consideravel, e os amigos com assumptos menos dignos, e que elle despresava aquellas, para attender a estes, passando lastimosas necessidades.»
Apezar da promessa de d. Pedro II de um logar na Casa da Supplicação de Lisboa, não quiz o dr. Gregorio de Mattos devassar no Rio de Janeiro dos crimes imputados ao governador Salvador Corrêa de Sá e Benavides, cahindo assim das graças d’aquelle monarcha. Este facto, si não lhe sobrassem outros muitos que conta o seu biographo, bastava para mostrar a rectidão e a independencia de caracter do poeta.
Á Gregorio de Mattos deve o Brazil o primeiro brado da sua independencia. Foi elle quem primeiro, só e desajudado, teve a coragem e a energia de dar este grito de alarma na colonia portugueza. Em muitas das suas producções notam-se o amor que o poeta consagrava á sua patria e os esforços que empregava para liberta-la do jugo da metropole, e na despedida que fez á Bahia, quando seguiu para o seu exilio de Angola, diz elle:
Que os Brazileiros são bestas
E estarão a trabalhar
Toda a vida, por manterem
Maganos de Portugal.
As famosas bandeiras que em busca de minas partiram da Bahia, levaram o nome do poeta até á Villa Rica de N. S. do Pilar, hoje cidade do Ouro Preto, onde, em homenagem ao famigerado satyrico, denominaram uma das suas ruas Gregorio de Mattos: prova inconcussa de que a sua fama não se circumscrevia só á capitania natal. Esta rua parece que hoje já se acha com o nome mudado. Vi-a indicada em uma Planta de Villa Rica de N. S. do Pilar, trabalho manuscripto que se guarda no Archivo Militar d’esta côrte.