VII
Gregorio de Mattos como linguista presta um auxilio poderoso á linguagem portugueza e brazileira. É elle o escriptor que nos dá idéa mais exacta do modo de fallar e escrever no Brazil no XVII seculo. O seu vocabulario é riquissimo, principalmente em locuções e termos populares, sem exceptuar, já os de origem indiana, já os derivados da lingua africana, e é o unico documento d’aquelle seculo que possuimos neste genero de estudos; o poeta provavelmente não imaginára que viria um dia prestar valioso serviço aos philologos e investigadores das cousas da patria até sob este ponto de vista.
Gostava Gregorio de Mattos de conviver com gente da mais baixa sociedade; mas d’ahi buscava elle elementos para as suas chistosas composições, e por isso nos dá cabal idéa do que era a Bahia, e por conseguinte o Brazil, nos primeiros tempos coloniaes, relatando-nos por miudo os usos, costumes e modo de viver da gente de então.
Gregorio de Mattos é incontestavelmente um dos homens que mais honra fazem á poesia portugueza e brazileira. Nascido em epocha em que o Brazil, mal conhecido, como as inhospitas praias de Angola, servia de logar de exilio e receptaculo dos povoadores das cadêas do Reino, não podia certamente receber na sua terra aquella instrucção que pedia o seu alentado espirito.
Dispondo seus paes de recursos, mandaram-n’o para Coimbra cursar a sua Universidade, onde se formou em leis, e em Portugal passou a mocidade, ganhando sempre a mais merecida e honrosa fama de poeta e jurisconsulto. Quando se resolveu a tornar á patria, já era um homem feito, pois tinha mais de meio seculo de existencia: contava 58 annos.
Quasi velho pela edade, era todavia moço pelo vigor do talento e pela vivacidade e lucidez do espirito. O amor da terra natal agitava-se fortemente no coração do poeta. Em Portugal, Gregorio de Mattos escreveu muito, mas parece que no Brazil, apezar dos poucos annos que nelle viveu, escreveu ainda mais. Aqui nada lhe escapou, não poupando os desconcertos do seu seculo, nem os desvarios das auctoridades civis e ecclesiasticas da sua terra. Notava elle o desgoverno das conquistas da America Portugueza, e derramava então nos seus escriptos uma torrente de satyras, versando sôbre varios assumptos, umas tractando dos vicios e costumes, outras cheias de personalidades, ora em tom serio, ora repletas de chistes agudos e pouco decorosos; mas o certo é que em todas ellas se observa o mais acrysolado amor da patria:
Querem-me aqui todos mal,
Mas eu quero mal a todos,
Elles e eu por varios modos
Nos pagamos tal por qual:
E querendo eu mal a quantos
Me têm odio tão vehemente,
O meu odio é mais valente;
Pois sou só, e elles são tantos.
O odio de Gregorio de Mattos, a que elle proprio se refere, inspirava-o o mais elevado principio—o amor da patria—que é uma das virtudes que mais ennobrecem o coração do homem. O odio do poeta não abrangia a todos, nem a tudo. Soube respeitar e louvar o merito de muitas pessoas do seu tempo; e que as suas satyras tinham grande força e energia prova-o o grande padre Antonio Vieira, quando diz que maior fructo faziam as satyras de Mattos que as suas missões; o que importa dizer que mais valiam as censuras satyricas de um poeta do que as palavras cheias de uncção e de verdade proferidas do pulpito por um famoso orador sagrado.
Comprehende-se d’aqui que o poeta gozava de importancia na boa sociedade dos seus dias, e que as suas satyras eram bem cabidas, salvo um ou outro excesso ou exaggero que nellas se nota proprio dos poetas e romancistas, que têm o direito de engendrar cousas as mais impossiveis, sem todavia se lhes poder exigir contas.
Si Gregorio de Mattos não cantou a natureza brazileira tão bellamente recommendada por seu contemporaneo Botelho de Oliveira; si não descreveu os exquisitos fructos indigenas da sua terra, como o fez mais tarde o nosso épico Sancta Rita Durão; si não quiz chamar ao ridiculo a Companhia de Jesus, como o realizára por interesse proprio Basilio da Gama; retratou os vicios e costumes desregrados da sua patria, entrelaçando-os de ditos agudos e picantes. De genio instavel e buliçoso, pouco tempo lhe sobrava para descantar as scenas portentosas da natureza americana, o seu esplendido e formoso céu, as aguas pittorescas e risonhas da sua bahia. Apezar d’isso, e como já disse, ha poesias suas repassadas do mais puro e delicado lyrismo, e que muito o honram e abonam o seu estro.
Gregorio de Mattos foi em vida um homem popular; como poucos, adquiriu esta honraria, tão desejada de muitos; era conhecido por grandes e pequenos, ricos e pobres, e, apezar das suas satyras mordentes e picantes, e, de, ás vezes, empregar expressões menos decorosas nas suas poesias, não deixava todavia de ser respeitado e admirado de quantos o conheciam. Por occasião da sua morte fizeram-lhe um soneto, do qual infelizmente só se conhecem os dois quartetos, que justificam por demais o que fica allegado. Dizem elles:
Morreste emfim, Gregorio esclarecido,
Que sabendo tirar por varios modos
A fama, a honra, o credito de todos,
Desses mesmos te viste applaudido.
Entendo que outro tal não tem nascido
Entre os romanos, gregos, persas, godos,
Que comtigo mereça ter apodos
Nos applausos, que assim has adquirido.
Gregorio de Mattos viveu e viveu longos annos; mas si passou a sua mocidade na grandeza e na abundancia, como elle mesmo confessa no soneto que dedicou á cidade da Bahia, quando diz:
Triste Bahia! Oh quão dissimilhante
Estás, e estou do nosso antigo estado.
Pobre te vejo a ti, a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante,
tambem veiu a soffrer na velhice, si por ventura elle a teve; porque o seu espirito era sempre o mesmo, dizia sempre as suas graças com a mesma naturalidade e chiste; quer na ventura, quer na desventura, foi sempre o mesmo homem, o mesmo genio, o mesmissimo caracter. A sua presença quer em Coimbra quer em Lisboa, quer na Bahia, quer em Angola, quer em Pernambuco, que lhe serviu de tumulo, sempre infundiu o mais decidido respeito.
Era um homem reconhecidamente douto e mui versado nas litteraturas italiana e hespanhola, as duas mais em voga no seu tempo. De facto Gregorio de Mattos escreveu poesias em castelhano, algumas das quaes se acharão nos seus logares da presente edição.
Gregorio de Mattos não era um talento commum, nem um simples versejador; foi um genio e soube crear; um d’esses genios raros e extraordinarios, que só apparecem de seculos a seculos, revestidos de todas as galas, e que perduram por todos os tempos, ganhando cada vez mais fama, augmentando cada dia o numero dos seus admiradores e enthusiastas.
Gregorio de Mattos foi um genio e genio creador—torno a dizer; e teria talvez feito uma eschola, si as suas obras tivessem sido publicadas pouco depois da sua morte, quando já não existissem as personalidades retratadas.
Mas teve inimigos poderosos e hereditarios, que o obrigaram a andar mendigando o pão pelas casas dos amigos e que só desejavam dar-lhe cabo da existencia! Foi torturado, não pela Inquisição, como Bocage, mas pelos grandes da sua terra; e os seus dois maiores amigos foram os seus dois maiores traidores! O poeta porém não fraqueou, ganhou antes novas forças, e, despedindo-se da sua Bahia quando seguiu para o seu exilio de Angola, começou dizendo:
Adeus praia, adeus cidade,
Sendo que estás tão decahida;
Que nem Deus te quererá.
E concluiu assim:
Terra, que não se parece
Neste mappa universal
Com outra; e ou são ruins todas,
Ou ella sómente é má.
E como Scipião Africano, chegou a dizer: Ingrata patria! ossa mea non possidebis!
Accresce ainda que o poeta teve, além dos inimigos hereditarios, inimigos posthumos, que, calando e occultando as suas obras, só ambicionavam tirar-lhe a aureola de poeta, tentando assim apagar-lhe o nome da memoria dos posteros.
Não obstante isso e as expressões e termos pouco decorosos que ás vezes emprega nas suas obras, o seu nome será sempre evocado com respeito e veneração, e jámais ficará esquecido nos annaes da litteratura dos dois paizes que fallam a sua lingua.
A. do Valle Cabral.
VIDA
DO
DR. GREGORIO DE MATTOS GUERRA
PELO LICENCEADO
MANUEL PEREIRA REBELLO
VIDA
DO
DR. GREGORIO DE MATTOS GUERRA
Abreviarei a vida de um poeta pouco cuidadoso de estende-la nos espaços da eternidade, que lhe franqueou as portas, escrevendo costumes do doutor Gregorio de Mattos Guerra, mestre de toda a poesia lyrica por especial decreto da natureza, cujo enthusiastico furor poderá só retratar-se dignamente, porque de fórma menos viva desconfia a equidade tão excellente materia.
Cousas direi menos decorosas ao sujeito de minha empreza; e por seguir os dictames da verdade historica, quero perder os louros de piedoso advogado contra exemplares famosos, que commentando ou redimindo as obras de benemeritos talentos, affectam justificar-lhe as vidas no resumo d’ellas, de modo que pareça impeccavel aquelle de quem o céu confiou os erarios da sua profluencia. E si a geral opinião reprovar ésta maxima por desabrida, o mesmo sujeito que descrevo me apologisa, cujas doutrinas persuadem sempre a verdade nua.
Nasceu na Bahia de Todos os Sanctos, capital cidade do Estado do Brazil, ao Cruzeiro de S. Francisco, da parte do norte, em casas cuja figurada cornija de medalhas imperiaes ainda hoje as distingue caprichosamente nobres. Os paes que o deram á luz em 7 de abril de 1623 foram Pedro Gonçalves de Mattos, fidalgo da serie dos Escudeiros em Ponte de Lima, natural dos Arcos de Valdevez; e Maria da Guerra, matrona geralmente conhecida de respeito em toda a cidade, cujas prendas intellectuaes amassaram uma trindade capaz de resplandecer no coração da mesma Roma. A 15 do dicto mez recebeu a graça baptismal com o nome de João, na cathedral que depois o venerando prelado d. Pedro da Silva e Sampaio, pela sua occurrencia e milagroso auspicio de S. Gregorio Magno collocado em Nossa Senhora da Ajuda, lhe mudou em Gregorio, mysterioso agouro de que seria Gregorio doutamente grande o tenro afilhado: mas dirigida aquella mudança de algum modo a favorecer a distincção de seus paes.
Eram estes de tal maneira ricos que possuiam com outras fazendas um soberbo cannavial na Patatyba fabricado com perto de cento e trinta escravos de serviço, que repartia a safra por dous engenhos, cujo rendimento suppria largamente os gastos de um liberal tractamento e caridade com os pobres; mas nada d’isto basta para que um poeta sendo grande se escuse de morrer nos braços da maior miseria.
Foi o doutor Gregorio de Mattos o ultimo filho de tres varões que nasceram d’este matrimonio, dotados pela natureza com os maiores thesouros; mas a fortuna sempre opposta aos morgados da natureza veiu a consumir-lhe aquelles nomes, que ambiciosa a fama pedia; e não sem apparencias de virtude, increpando o desalinho e pouca estimação, &, achaques que sempre toma de anniquilar os benemeritos, e desgraça repetidas vezes chorada de sua mãe, que com agudeza natural dizia: «Deu-me Deus tres filhos como tres sovélas sem cabo.» Farei particular menção dos dous primeiros no segundo tomo, para que o ultimo se não queixe do desaire que a minha penna poderia occasionar-lhe, que é menos honra ser um accidentalmente grande, que o ter vinculada sua grandeza na especie generativa.
Gregorio, que d’este triumvirato sapiente é o nosso particular assumpto, criou-se com a boa estimação que inculcavam os seus haveres e as suas honras. Soube mais que seus brazileiros contemporaneos fatalmente agudos com o temperamento do clima, sendo lastima carecerem de mestres para toda a Faculdade: porque Athenas perdêra de uma vez aquella suberba, com que se reproduz em desprezo do mundo.
Passou a Coimbra, onde não teremos por novidade que aprendesse, ou que admirasse quem tanto de casa levava as potencias dispostas. Direi somente que assombrou na poesia: porque Belchior da Cunha Brochado, depois desembargador da Relação d’este Estado, escreveu a certo cavalheiro da côrte em um periodo succinto o maior elogio do seu enthusiasmo: «Anda aqui (dizia elle) um estudante brazileiro tão refinado na satyra, que com suas imagens e seus tropos parece que baila Momo ás cançonetas de Apollo.» Não devia de haver-lhe visto as valentias amorosas para enviar outra cedula aos apaixonados de João Baptista Marini pelo postilhão de Italia: mas como o maior d’esta materia se destina a perpetuo silencio pela impunidade dos termos que a modestia portugueza não permitte, triumphem os Italianos embora, que lá deve de haver necessidade d’aquillo mesmo que cá se despreza.
Doutorou-se na Faculdade de Leis, e passando á côrte a praticar os termos da judicatura com um dos melhores lettrados d’ella, lhe conciliou grandes creditos o caso seguinte:
Defendia este lettrado um pleito a certo titular, tão volumoso que o conduziam mariólas quando era preciso. Era a causa civel sôbre a possessão de uns morgados, e expirava contra aquelle cavalheiro, que somente queria empatar-lhe a execução; e nesse empenho nenhuma esperança lhe dava o seu advogado com os melhores da côrte. Mas por animar o affligido pleiteante, resolveu manda-lo ao doutor Gregorio de Mattos, dizendo que só d’aquella viveza confiava o remedio palliativo a Sua Excellencia, dado que o houvesse. Conduzido aquelle volumoso labyrintho para casa do nosso praticante, com os maiores encarecimentos lhe supplicou o fidalgo que puzesse os olhos naquelle instrumento de sua perdição, examinando-lhe os menores incidentes para embargos, cuja extensão dirigia a concertar-se com a parte vencedora por meio de algum respeito.
Era meio dia, foi-se o fidalgo, e não lhe soffrendo descanso o seu alvoroço antes de vesperas, partiu a examinar si se desvelava ou não com os autos o novo lettrado; mas achando-o na janella que palitava sôbre o jantar, grandemente affligido rompeu em queixas do pouco cuidado que lhe dava cousa de tanta importancia. «Socegue V Ex. (lhe disse o bom Gregorio), que os autos estão vistos, e nelles o remedio que desejamos muito avantajado. Neste termo de autuação temos embargos de nullidade a todo o processo, porque no anno aqui mencionado antes e depois corria um decreto de Felippe IV que condemnava nullos aquelles processos começados em papel que não tivesse o sello das armas de Castella; e como alcançou o decreto este, de que tractamos, e lhe falta o sello, segue-se que está nullo.» Com esta destreza se trocaram as fortunas dos pleiteantes, e o novato se acreditou por aguia de melhor vista.
É tradição constante que serviu na côrte o logar de Juiz do Crime; e que tambem serviu o de Orphãos se mostra de uma douta sentença sua proferida em 2 de novembro de 1671, que traz Pegas no tomo 7.ᵒ das Orden., Liv. I. tit. 87 § 24. Chegou a merecer a attenção do senhor rei d. Pedro II, então principe regente da monarchia, pelo bom e particular conceito que fez da sua grande litteratura e rectissimo proceder, e d’aqui se foi engolphando em merecimentos. Com promessa de logar na Supplicação o mandava sua alteza ao Rio de Janeiro devassar dos crimes de Salvador Corrêa de Sá e Benavides, mercê que fatalmente rejeitou. Uns dizem que por temer as violencias de tão poderoso quão resoluto réu, quando no firme proposito de observar justiça: outros, que com algum atrevimento indecoroso capitulára com o Soberano a mercê antecipada do serviço, dando a entender que se fiava pouco em promessas ainda que Reaes.
Isto é o que se conta, e sempre o ouvi dizer a pessoas de melhor noticia; mas como se faz merecedor do engano (diz Camões) quem acredita mais o que lhe dizem, que o que vê, affirmarei que o doutor Gregorio de Mattos cahiu da graça do Soberano á persuasão de alguem prejudicado em suas satyras, sem que atrevida ou temerosamente recusasse mercês. Thomaz Pinto Brandão, em um resumo que faz da sua mesma vida, diz que viera ao Brazil na companhia d’elle, que se retirava descontente de lhe negarem aquillo mesmo com que rogavam a outros, e isto por ser poeta e jurista famoso:
Procurei ir-me chegando
A um bacharel mazombo,
Que estava para a Bahia
Despachado, e desgostoso
De lhe não darem aquillo
Com que rogavam a outros,
Pelo crime de poeta,
Sôbre jurista, famoso.
D’aqui infiro que invejas indignas occasionaram que o doutor Gregorio de Mattos se retirasse desgostoso para a patria d’aquellas injustiças, que de ordinario padecem na côrte os benemeritos. E com elle mesmo provarei o que digo, que é auctor sem suspeita, escrevendo umas decimas a d. João de Alencastre:
Mas inda que desterrado
Me tem o fado e a sorte
Por um juiz de má morte, &.
Esta queda do conceito de el-rei devia occasionar-lhe certo semivalido, contra quem indignado soltou o meu poeta os diques á sua musa, mostrando desde Lisboa ao mundo a mais venenosa satyra que podéra excogitar o mesmo Apollo. Sempre que leio este ramalhete de viboras me recordo do miseravel Bupalo, que desesperado de honra se enforcou por haver sido assumpto de outra menos viva talvez do que esta: cujo heroe devia de amar menos a honra, do que a vida. Foi tal esta obra, que o mesmo Soberano a decorou, fazendo glorioso apreço das suas figuradas consonancias.
Despachado e desgostoso, que são termos encontrados, diz Thomaz Pinto que viera para a patria o doutor Gregorio de Mattos: e veiu desgostoso por lhe negar el-rei o adiantamento que merecia, mas despachado, porque sendo provido na dignidade de thesoureiro-mór da Sé da Bahia, d. Gaspar Barata de Mendonça, primeiro arcebispo d’esta, lhe commetteu o cargo de vigario geral, que acceitou, e com estes empregos se embarcou para a patria, desenganado de poder lograr o fructo de suas virtuosas lettras em uma côrte que o reconheceu agudo, para teme-lo ousado. O desembargador Christovão de Burgos de Contreiras, natural da Bahia, que depois o foi na Relação de Lisboa, lhe facilitou a passagem na sua conducta, e em julho de 1681 entrou a exercer de ordens menores aquelles cargos que trouxera, trajando porém o habito secular todo aquelle tempo que lhe ficava livre das obrigações ecclesiasticas: capricho que principiou a arrufa-lo com os governadores do arcebispado: porém os erros do habito eram nelle menores que os de costume naquelles, cuja parcialidade se augmentára por horas em contraposição da luz: e o padecente que conhecia o seu damno com vista clara, queria reparar a inimizade de todos com a sua. Elle o pinta magistralmente nestes versos:
Querem-me aqui todos mal,
Mas eu quero mal a todos,
Elles e eu por varios modos
Nos pagamos tal por qual:
E querendo eu mal a quantos
Me têm odio tão vehemente,
O meu odio é mais valente,
Pois sou só, e elles são tantos.
Algum amigo que tenho,
Si é que tenho algum amigo,
Me aconselha que o que digo
O cale com todo o empenho, &.
Era o doutor Gregorio de Mattos acerrimo inimigo de toda a hypocrisia, virtude que, se podéra, devia moderar, attendendo ao costume dos presentes seculos, em que o mais retirado anacoreta se enfastia da verdade crua. Mas seguindo os dictames da sua natural impertinencia, habitava os extremos da verdade com escandalosa virtude, como si nunca houveram de acabar-se as singelezas da primeira edade; e bem que se communicava com os doudos, d’aquella prodigiosa chuva nunca se resolveu a molhar a cabeça, como admiravelmente o diz na obra em que redargue a doutrina ou maxima de bem viver, que seguem muitos politicos, de involver-se na confusão de homens perdidos e nescios, a qual o leitor veja, por me fazer mercê, e d’esta contumacia lhe nasciam os quebradouros d’ella. Nem havia lisonja que desmentisse as durezas d’aquelle engano, o que se prova com esta decima:
A nossa Sé da Bahia,
Com ser um mappa de festas,
É um presepe de bestas,
Si não fôr estrebaria:
Varias bestas cada dia
Vejo que o sino congrega:
Caveira mula gallega,
Deão burrinha bastarda,
Pereira mula de albarda,
Que tudo da Sé carrega.
Pareceu a certo conego que não ia incluido nesta decima, onde o seu nome se não mostrava, e promptamente lhe veiu agradecer com palavras humildes; mas o bravo lhe respondeu: «Não, senhor padre, lá vai nas bestas.» É verdade que naquelle tempo eram poucos ou nenhuns os formados que vestiam murça, e tanto que para acceitarem aquelles logares capitulavam conveniencias os benemeritos, pelo contrario do que agora passa.
Com ésta singular opinião passou o doutor Gregorio de Mattos de uma côrte de sabios, que o representavam grande, a uma colonia de presumidos, que o aborreciam critico, experimentando por peior condição d’esta troca desegual o entregar-se nos braços da propria patria, onde o mais purificado sempre tem o desar de o haverem visto menino. E como aquelle que olhou para o sol, que qualquer sombra depois lhe parece abysmo, a elle, com a vista proxima de Lisboa, se representavam infernos as confusões da Bahia.
O genio satyrico e orgulho intrepido, não ha duvida que de justiça providencial se devia ao desgoverno d’estas conquistas, onde cada um tracta de fazer a sua conveniencia, gema quem gemer, e se notou que de algum modo moderaram os viciosos seus depravados costumes: de que veiu a dizer o grande padre Antonio Vieira que maior fructo faziam as satyras de Mattos, que as missões de Vieira; mas bem podéra deixar de dizer muitas cousas, sem inteira informação, do que ao depois como christão se arrependeu, dizendo ao vigario da Muribeca em Pernambuco, Antonio Gomes Baracho, que lhe doia na alma o que dissera de fr. Basilio.
Com este genio pois e com esta valentia se fez Gregorio de Mattos aborrecido de uns e temido de outros. Estes lhe fingiam amizade, pelo que já sentiam: sendo o primeiro golpe da commum vingança fazerem-lhe despir a murça capitular com desprezo, por sentença do arcebispo d. fr. João da Madre de Deus, successor d’aquelle em cujo tempo a vestira; si não é que elle de motu proprio abandonou o beneficio por se não accommodar ás pensões da sua residencia.
Poucos dias antes pretendeu este prelado com piedosas mostras persuadir ao poeta que tomasse ordens sacras, para conservar-lhe os cargos; mas elle respondeu com inteira resolução que não podia votar a Deus aquillo que era impossivel cumprir pela fragilidade de sua natureza; e que a troco de não mentir a quem devia inteira verdade, perderia todos os thesouros e dignidades do mundo: que o ser mau secular não era tão culpavel e escandaloso, como ser mau sacerdote. E esta resposta esperava sem duvida o arcebispo, conhecida a inteireza de Gregorio de Mattos. Sendo certo que si o quizera conservar nos cargos não eram as ordens condição necessaria, valentia foi sem duvida offender a um homem que para despicar-se não respeitava caracter, nem potestade, trajando por espada a mesma foice de Saturno amolada nas esquinas da eternidade.
D’esta segunda declinação da fortuna, que com os bens patrimoniaes muito antes havia vacillado, nasceu o precipicio terceiro, que se encadeam os males, casando com Maria de Povos, viuva honestissima, quanto formosa; mas tão pobre que seu mesmo tio Vicente da Costa Cordeiro, lastimado do seu abatimento, entendeu despersuadi-lo. Mas vendo ser impossivel, fez da sua fazenda um donativo, para que a sobrinha não fosse totalmente destituida. Era o gosto de Gregorio de Mattos, e não se trocava pelos maiores interesses, que nunca o dinheiro foi capaz de lhe apaixonar o animo. Vendeu já necessitado por tres mil cruzados uma sorte de terras, e recebendo em um sacco aquelle dinheiro, o mandou vasar no canto da casa, d’onde se distribuia para os gastos sem regra, nem vigilancia.
Posto já na obrigação de sustentar encargos de matrimonio, e aberto as portas o escriptorio da vocacia, poucos eram os defendidos, porque a inteireza do seu animo patrocinava sómente a mesma razão em materias civeis, sendo inimigo voraz d’aquelles advogados, que por junctarem cabedal enredam as partes no labyrintho de incertas opiniões. Si algumas vezes defendeu contra o que entendia, eram as causas crimes, onde a summa justiça se reputa por summa iniquidade. Ninguem se acorda que lhe rejeitassem embargos, e toda a materia d’elles se corporisava em quatro palavras d’aquelle espirito laconico, que sem offender gigantes fórmas conseguia a diminuição plausivel das materias, logrando na curta esphera de qualquer laconismo alma substancial, visivel graça, e intelligencia commum, como ninguem. Por exemplo contarei com brevidade alguns casos.
Pleiteava Pedro o cabedal que havia dado com sua filha em dote a Paulo, o qual depois de adornar a defuncta esposa com palma e capella, publicava que havia fallecido intacta. Defendia por parte do auctor o nosso jurista, e provada legalmente razoou o feito com ésta vulgaridade:
Gaita de folles não quiz tanger,
Olhe o diabo o que foi fazer.
Banhou-se em aguas de flor o patrono adverso accusando de ridicularia indecente este razoado na extensa formalidade do seu: mas um e outro Senado confirmando aquella sentença, veiu a conhecer o que realmente passava; e foi que o doutor Mattos fallando pouco para merecer o menos, dizia muito para conseguir o mais.
Outro laconismo se nos envolve na historia de um religioso, para cuja intelligencia já dissemos o grande aborrecimento que tinha a todo o fingido. Venerava os religiosos verdadeiros tanto quanto abominava os que com este sancto titulo apenas merecem o nome de frades. Elle o diz com graça nestes versos:
Se virdes um dom abbade
Sôbre o pulpito cioso,
Não lhe chameis religioso,
Chamae-lhe embora de frade.
Um d’estes frades pois se valeu do doutor Mattos, pedindo embargos para seu sobrinho, sentenciado á morte natural por haver furtado a naveta da sua sacristia. Mas elle absolutamente o desenganou que não estava em hora de o servir. Instava o religioso por saber ao menos a razão da difficuldade, e comtudo não poderei eu doirar a pilula da resposta. «É (dizia elle) que neste instante se foi d’aqui Maria de S. Bento muito agastada, e fez aquella cruz na minha porta em juramento de não entrar mais por ella.» «Ila-hei buscar (tornou o religioso), si nisso está o valer-me V Mᶜᵉ.» E logo foi representar á mulata quanta necessidade tinha de leva-la a quebrar o seu juramento. Caprichosa era ella, mas em tal caso caritativa accompanhou o triste pretendente, e posta já na presença d’esse singular e exquisito genio, ouviu que lhe dizia assim: «Não eras tu, ridicula, quem fez aquella cruz de aqui não tornar? Bem se vê que morrias por esta introducção. Ora vae, que agora te mando eu.» Foi-se a mulata exhalando veneno pelos olhos; e á vista dos autos fez elle a seguinte trova por embargos:
A naveta, de que se trata,
Era de latão, e não de prata.
Á vista dos autos digo, porque o processo nelles estava em termos de lhe valerem, como valeram, ganhando sempre applausos pela attenção com que examinava os menores incidentes.
Com a folhinha do anno livrou a outro condemnado, contra quem as testemunhas com verdade haviam jurado de vista sôbre um furto de noite escura, a peditorio de seu amigo João dos Reis, mordomo então da Misericordia.
Um homem de baixa esphera, que por aquella iniquidade a que no Brazil chamam fortuna, subiu a desconhecer seu amo, comprando a vara de Juiz Ordinario na villa de Igaraçú em Pernambuco, fez um auto criminal contra este, por lhe haver chamado por Vós, como antes de o ver Juiz costumava. Defendia o nosso jurista ao réu, e confessando a culpa, mostrou que o não era, começando as razões com este argumento:
Si tractam a Deus por tu,
E chamam a El-Rei por vós,
Como chamaremos nós
Ao Juiz de Igaraçú?
Tu e vós e vós e tu.
Estas e outras obras de mais agigantado peso no seu officio canonizaram o doutor Gregorio de Mattos pelo melhor jurista; de sorte que no dia de sua morte disse o Ouvidor de Pernambuco, que lhe não era affeiçoado: «Já morreu quem entendia o direito.» Mas si o dinheiro é inimigo declarado da virtude, mal poderia Gregorio de Mattos adquiri-lo, defendendo o justo, e aconselhando o verdadeiro, arrebatado maiormente pelo furor das Musas, cuja condição totalmente se encontra com os labyrinthos de Bardo e Bartolo. Conta-se que muitas vezes aconteceu entrarem-lhe as partes com dinheiro consideravel, e os amigos com assumptos menos dignos, e que elle despresava aquellas, por attender a estes, passando lastimosas necessidades.
Era a esposa um pouco impaciente, talvez pelo pouco pão que via em casa, e tal pelo distrahimento de seu marido, cujas desenvolturas claro se patenteam d’estas obras: como veremos pelas rubricas de cada uma, posto que nem a todas se deva dar inteiro credito; e enfadada de uma e outra desesperação sahiu de casa, e entrou pela de seu tio, que depois de a reprehender asperamente, veiu rogar ao poeta com razões de amigo que a fosse buscar, ou consentisse ao menos que elle lh’a trouxesse: e foi-lhe respondido que de nenhum modo admittiria sua mulher em casa sem vir atada em cordas por um capitão do matto, como escrava fugitiva. Assim se fez pelo mais decoroso modo, e elle a recebeu, paga a tomadia do regimento; protestando chamar Gonçalos áquelles filhos que nascessem de tal matrimonio; porque a sua casa se pudesse dizer de Gonçalo, com mulher tão resoluta.
Acossado da pobreza, e sem esperança alguma de remedio em uma terra, onde sómente o tem para triumphar da fortuna quem por estradas de iniquidade caminha, se entregou o poeta a todo o furor da sua Musa, ferindo a uma e outra parte como raio com edificios altos a materia mais debilitada. E não achando a resistencia, que talvez desesperado pretendia (negação fatal em tempos bellicosos), elegeu peregrinar pelas casas dos amigos, e sahiu ao reconcavo povoado de pessoas generosas pela multidão florentissima de engenhos d’assucar, preciosa droga, que perdendo com o valor a estimação, levou comsigo a dos Magnates Brazilienses.
Por este Paraiso de deleites estragava a cithara de Apollo suas harmoniosas consonancias com assumptos menos dignos de tão relevante estrondo. Lascivas mulatas e torpes negras se ufanizaram dos tropos e figuras de tão delicada poesia. Mas que muito, si quando naufraga o baixel quaesquer barbaros galeam a mais preciosa mercadoria! Não quero persuadir que a desesperação lhe occasionou desenvolturas; mas direi que do genio, que já tinha, tirou a mascara para manuzear obscenas e petulantes obras em tanta quantidade, que das que tenho em meu poder tão indignas do prélo, como merecedoras da melhor estimação, se póde constituir um grande volume.
Mas a prodiga diffusão de mal applicados conceituosos dispendios nascia das enchentes prodigiosas d’aquella Musa, que sem esperança de que seus descuidos correriam na futura estimação, barateava versos á conjuncção dos acasos, facilitando linguagem ao genio dos sujeitos. Da mesma sorte que o celebrado pintor Raphael de Urbino, que disfarçado em sua criminosa peregrinação pintava aos oleiros louça, e taboletas de mezão aos estalajadeiros, sem prevenir que em sua posteridade seriam resgatados por alto preço aquelles borrões milagrosos da sua malograda idéa.
Assistia-lhe nestas desenvolturas com outros do mesmo genero aquelle celebrado trovador de chistes, a quem uma titular lisonja proporcionou Thalia por ama sêcca, que se prezava muito de ministrar-lhe assumptos, apezar dos melhores amigos, que d’estas companhias lhe prognosticavam sempre a fatal ruina.
Governava então d. João de Alencastre, secreto estimador das valentias d’esta Musa, que a toda a diligencia lhe enthesourava as obras desparcidas, fazendo-as copiar por elegantes lettras; quando de uma náu de guerra desembarcou o filho de certa personagem da côrte com animo vingativo contra o poeta, por dizer-se que havia satyrisado toda a honra de seu pae: e bem que disfarçava sua maligna intenção, toda a intenção maligna percebeu d. João dos mesmos disfarces d’ella. Era este cavalheiro generosamente compadecido, e excogitando meios de livrar uma vida em que a natureza depositára tão singulares prendas, achou traças de segurar-lhe o perigo nos fingimentos de rigoroso justiceiro.
Ordenou aos officiaes de milicia que saindo fóra da cidade a toda a cautela lhe trouxessem preso o dr. Gregorio de Mattos. Mas não pôde effeituar a diligencia, porque suspeitoso d’ella o vigario da Madre de Deus, Manuel Rodrigues, homem virtuoso que o hospedava, soube consumir naquella ilha as mesmas presumpções de ser achado. Mas o governador impaciente com ésta tyranna piedade, que lhe frustrava os meios da sua piedosa tyrannia, communicou a intenção ao secretario d’Estado Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, pessoa de bom entendimento, e como tal estimador do poeta, e accordaram que o mesmo secretario fingisse que o chamava para dar-lhe importantes avisos, que não poderiam ser menos de pessoaes; e com carta de sua lettra se enviou portador interessado nas melhoras do perseguido.
Conhecida a lettra pelo dr. Gregorio de Mattos, e confiado na muita honra de Gonçalo Ravasco, promptamente veiu a fallar-lhe no logar determinado, que era a casa de Antonio de Moura Rolim, tambem amigo, para que se veja que quando os amigos grandes se junctam empenhados a favorecer um desditado poeta, será para o prenderem e desterrarem por modo de fineza. Sempre tenho que d’estas tres amizades, a primeira arrastou com sagacidade as duas por temer em seu govêrno os atrevidos córtes d’esta penna.
Alli pois o prenderam sem poder dar um desafôgo ao discursivo; e mettido na casa que chamam Leoneira, na mesma portada de Palacio, mandou que alli não deixassem chegar pessoa de qualidade nenhuma: e por mãos de um confidente criado lhe remettia para sustentar-se os manjares de sua meza particular: e d’esta particular prisão o trasladaram depois á cadêa, mal seguros de seu perigo.
Trabalhou o infeliz Gregorio por justificar-se, lisongeando a um tempo aquelle magistrado, cujas entranhas dominava pias; mas d. João o desenganou, intimando-lhe que por sua conhecida culpa e necessario remedio havia de embarcar-se para Angola em uma nau, que promptamente carregava a tropa de cavallos de El-Rei para Benguella. Era o dr. Gregorio de Mattos consummado solfista, e modulando as melhores lettras d’aquelle tempo, em que a solfa portugueza se avantajava a todas as de Europa, tangia graciosamente. A proposito do que me pareceu escrever aqui esta decima, que por isso lhe fez Gonçalo Soares da Franca, nobre engenho da Bahia:
Com tanto primor cantais,
Com tanta graça tangeis,
Que as potencias suspendeis,
E os sentidos elevais:
De ambas sortes admirais
Suspendido o bravo Eolo,
Mas eu vos digo sem dolo,
Que de mui pouco se admira
Pois tocais de Orpheu a lyra,
E a pluma tendes de Apollo.
Com estas prendas fazia apreço particular de uma viola, que por suas curiosas mãos fizera de cabaço, frequentado divertimento de seus trabalhos, e nunca sem ella foi visto nas funcções a que seus amigos o convidavam, recreando-se muito com a brandura suave de suas vozes. Por esta viola, que havia deixado na Madre de Deus, fazia extremos taes, receiando que sem ella o embarcassem, que o vigario Manuel Rodrigues, a quem feriam na alma suas desgraças, promptamente lh’a mandou com um liberal donativo para as cordas d’ella.
D. João, chegada a hora de embarcar, o mandou vir á sua presença, e tractando-o com humanidade de principe lhe pediu que evitasse as occasiões de sua perdição ultima; porque era lastima que uma pessoa, a quem o céu enriquecêra de talento para melhor fama, comprasse o seu discredito com o discredito irremediavel de tantos. Decorosamente o fez embarcar, não se olvidando de recommenda-lo ao governador de Angola Pedro Jacques de Magalhães, a quem com a causa d’aquelle degredo insinuava os perigos que em qualquer parte corria sua pessoa.
Chovendo maldições e praguejando satyras peregrinou os mares aquelle que por instantes naufragava nas tempestades da terra. Dizia elle que com razão sobrada podia articular o non possidebis ossa mea de Scipião; e fallou com rigoroso acêrto: porque se houveram patrias no mundo que desterraram seus benemeritos filhos, não consistiu talvez essa desgraça tanto na malicia d’ellas, como no destino d’estes. Porém a Bahia dos muitos habitos de desprezar seus naturaes fez natureza para aborrece-los e persegui-los. A melhor pintura d’esta verdade se póde ver nas vozes que sôbre ella declama o mesmo poeta, onde sem hyperbole de Musas resplandece a propriedade tal, que eu com ser extrangeiro acreditava a poesia com o juramento dos Sanctos Evangelhos.
As personagens de quem o poeta justamente se queixa em suas satyras são comparadas a uma herva natural de Guiné, chamada aquelle terreno Nhesiquè, e transplantada neste com o nome de Melão de S. Caetano, por virem as primeiras a um sitio d’este nome; a qual de sorte se apoderou do Brazil em toda parte, que não ha logar sem ella, nem planta que prevaleça com sua inutil visinhança. As casas de religião enriquecidas e illustradas pelos curiosos e liberaes mazombos, e sempre nellas laborando petulantes opposições a parcialidade dos Reinóes admittidos alli por com miseração. Ingratos hospedes! Mas si algum tivesse desejos de padecer martyrio, fallar nesta materia queixoso causaria ao menos um degredo similhante ao do doutor Gregorio de Mattos.
Não poderá negar-me a razão, que choro, quem sabe que no anno de 1740 mandou o provincial de S. Francisco conduzir do Porto uma chusma de pobretões, em desprezo dos pacientissimos naturaes da terra, para adorno da sua religião, e nunca o demonio acertou com esta destreza para combater o animo de Job. Chegam finalmente a aborrecer os mesmos filhos sem maior causa que haverem nascido no Brazil, onde receberam cabedal, e inundando por toda a parte em que os brazileiros os honram e estimam, em nenhuma d’ellas querem soffrer que haja honra nem estimação nos brazileiros.
Fazendo porém verdadeira distincção nos nossos naturaes que são comprehendidos nesta miseria, culparei sómente os das fecundissimas provincias da Beira e Minho (salvando os nobres), e é de reparar que sendo estes os que com maior necessidade se lançam a buscar dinheiro, são estes mesmos aquelles cuja suberba é tão formidavel a quem os remedeia. Vejamos ésta queixa allegorisada pela nossa aguia sôbre o gato de um meirinho:
Não posso comer ratinhos,
Porque cuido, e não me engano,
Que de meu amo são todos
Ou parentes, ou paisanos:
Porque os ratinhos do Douro
São grandissimos velhacos;
Em Portugal são ratinhos,
E cá no Brazil são gatos.
Mas deixando esta materia por irremediavel, e não por temer as unhas d’estes gatos, irei seguindo o meu infeliz poeta em sua fatal navegação.
Chegado ao reino de Angola, miseravel paradeiro de infelizes, a quem com a propriedade costumada chamou armazem de pena e dor, e exercendo na cidade de Loanda o officio de advogado, aconteceu que amotinada a infantaria da guarnição d’aquella praça, e posta em armas fóra da cidade, entrou uma chusma de soldados pela casa de Gregorio de Mattos, forçando-o a que os fosse aconselhar sôbre as capitulações que tinham com o governador seu general; e posto com effeito entre os amotinados no campo, clamou que o levassem á casa para trazer certa cousa que lhe esquecêra, sem a qual não podia obrar á medida de suas satisfações. Entenderam os soldados que seria livro de direito, e não duvidaram de romper segunda vez o perigo de entrar na praça; mas aquelle que imaginavam instrumento de solido conselho, outra cousa não era mais que a sonora cabaça do poeta; do que se infere o como chasqueou este Democrito das alterações da fortuna.
Muito pago ficou o governador d’esta galantaria geralmente celebrada. Serviu-se d’elle para adjuncto na condemnação dos cabeças d’aquelle motim, que foram arcabuzados pelos ouvidos; e desempenhando a recommendação de d. João de Alencastre deu-lhe liberdade para embarcar-se a Pernambuco. Posto naquella capitania, governada então por Caetano de Mello de Castro, com o semblante perturbado pela indecencia do habito demandou a presença d’este fidalgo, que lastimando de ver o miseravel estado a que chegára um homem tão mimoso da natureza, lhe fez donativo de uma bolsa bem provida, e com palavras um pouco severas lhe mandou que naquella capitania cuidasse muito em cortar os bicos á penna, si o quizesse ter por amigo. Não sei si era zelo publico, si particular temor. Gregorio de Mattos o prometteu fazer assim, e em algumas occasiões mostrou quão violentado estava com aquelle preceito: seja uma d’ellas o caso que refiro.
Picadas de ciumes se encontraram duas mulatas meretrizes juncto á porta do poeta, e renovando suas paixões de uma e outra parte se descompunham em vozes petulantes. Passaram de lingua a braços, e atracadas tenazmente cahiram por terra em ridicula visão, a tempo que avisado da grita sahiu a vê-las o poeta, e dando naquelle espectaculo deshonesto começou a gritar: ai que de El-Rei contra o senhor Caetano de Mello! Perguntaram-lhe os circumstantes que queixa tinha do governador: «Que maior queixa (respondeu) que a de prohibir-me fazer versos quando se me offerecem similhantes assumptos?» Notavel argumento do respeito d’este fidalgo, si Gregorio de Mattos não tomára depois algumas licenças de satyrisar.
Os nobres de Pernambuco contendiam ambiciosas demonstrações de urbanidade com elle, venerando em sua pessoa prendas de que já os havia a fama informado por escriptos. De uma em outra fazenda passava Gregorio de Mattos uma regalada vida, e sem offender a nobreza d’este paiz, me presuado a crer que o adoravam á maneira que os antigos idolatras com politica religião faziam sacrificios ao gorgulho para não destruir-lhe as sementeiras, e á peste para perdoar-lhe as vidas. Mas sempre é digno de louvor quem sabe lisongear o damno porque o teme. Na Bahia perdeu muitos amigos pelo meio de os ganhar; e em Pernambuco os ganhava pelo meio de perde-los. Referirei dous casos, que sirvam de exemplo a este ultimo reparo.
Certa pessoa muito principal em Pernambuco, de quem o poeta era hospede, ouvia d’elle os encarecimentos com que relatava a desgraça em que nascêra, e sua desterrada peregrinação com todos os acontecimentos tristes, e como attribuia seus infortunios á rigorosa força de estrella; e mal persuadido d’esta rhetorica triste lhe respondeu atalhando nesta fórma: «Sñr. doutor, nós mesmos somos os auctores da nossa fortuna, e cada um colhe o que semêa.»—«Não ha duvida (respondeu o poeta), mas é desgraçado aquelle contra quem se conjurou a malicia, que das mesmas virtudes lhe fazem dilictos: verbi gratia, alli vem aquelle boi (e mostrou um da fazenda do mesmo sujeito); elle tem um só corno, como estamos vendo, mas si eu lhe chamar boi de um corno, Deus me livre da indignação de seu dono.» E sendo esta materia por toque ou remoque muito melindrosa em Pernambuco, disfarçou este homem o proposito, sendo certo que foi o maior amigo que teve naquella terra o doutor Gregorio de Mattos.
O vigario da Muribeca Antonio Gomes Baracho, atravessado com o seu coadjutor, não lhe podia soffrer as presumpções de solfista. Ordenou ao seu trombeta que tocasse desesperadamente em ouvindo cantar como sempre o coadjutor. Mas este que percebeu a burla, tambem se armou de um caracol marinho, com que apupava a trombeta de seu inimigo. O vigario, a quem o grande odio descompunha o entendimento, se foi querelar do caso perante o vigario geral, com quem privava. Recebida a queréla, e seguro o coadjutor, chegou o caso á noticia de Gregorio de Mattos, e posto a caminho sobre a besta de um farinheiro entrou com seis leguas de jornada por casa do criminoso, a quem pediu procuração para defender-lhe a causa, asseverando que o não trouxera alli outro algum negocio, e que de graça o queria servir. Ia o padre a agradecer-lhe tanta fineza, mas o doutor lhe atalhou, dizendo: «Não, sñr. padre, não m’o agradeça, que o meu interesse é saber d’este juiz qual é a lei que condemna a quem toca um buzio.» Avisado o vigario do excesso que fizera aquelle homem, a quem conhecia douto e respeitava poeta, logo o foi buscar á casa do mesmo coadjutor, concedendo a este pazes, e ficando em particular amizade com elle.
Honravam-no todos seriamente; mas arrebatado de seu fresco e esparcido genio fugia dos homens circumspectos, e se inclinava (como na Bahia) a musicos e folgazões. E sendo naturalmente aceiado e gentil, descompunha a sua auctoridade vivendo entre estes ao philosopho: de sorte que invejava aos barbaros gentios do Brazil a liberdade de andarem nus pelo arvoredo, lastimando-se d’aquellas pensões a que nos obriga a policia. Como outros costumam adornar seus escriptorios de odoriferos pomos, que regalam a vista e olfacto, adornava elle o seu de bananas que chamam do Maranhão, que mais servem ao sustento que ao gosto: e isto em demasiada quantidade, que provocando riso a quem as via, dava em razão:—adornemo-nos de proveito, que em quanto as tenho, riu-me da fome.
Uma rigorosa febre lhe attenuou os dias, de sorte que desenganados os piedosos pernambucanos de remir-lhe a vida, chamaram o vigario do Corpo Sancto Francisco da Fonseca Rego, pessoa que suppunham de mais auctoridade, para que o dispuzesse a morrer como catholico. Mas como este parocho era na opinião do poeta mal recebido, sem poder disfarçar nesta hora o genio livre, soltou algumas palavras, que puzeram as chimeras do vulgo em suspeitas, de que nasceu um rumor menos decoroso á sua consciencia; o qual chegando aos ouvidos do illustrissimo prelado d. fr. Francisco de Lima, logo desde uma legua de caminho se arrojou como bom pastor a tomar em seus hombros a ovelha que suppunha desgarrada; e não foi assim, porque não só o achou disposto a morrer como verdadeiro christão, mas em signal de que lhe servira o entendimento no maior conflicto, viu em uma folha de papel escripto com caracteres tremulos o grande soneto que offerecemos:
Pequei, senhor: mas não, porque hei peccado,
Da vossa alta piedade me despido:
Antes quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Si basta a vos irar tanto peccado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos ha offendido,
Vos tem para o perdão lisongeado.
Si uma ovelha perdida, já cobrada,
Gloria tal e prazer tão repentino
Vos deu, como affirmais na Sacra Historia:
Eu sou, senhor, ovelha desgarrada;
Cobrae-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa gloria.
Assistiu-lhe o piedoso bispo até o ultimo valle, e logo seu corpo foi levado por homens principaes ao Hospicio de Nossa Senhora da Penha dos Capuchinhos Francezes, o dia em que chegavam as novas da restauração do famoso Palmar a Pernambuco, que havia de ser o sexto da victoria, pois tanto gasta um caminheiro apressado de um logar a outro. Mas é em vão busca-lo em Pitta, auctor moderno que d’isto tracta como si não tractára. E mais me escandalisa que passasse em sua mesma patria por um poeta de tal nome seu contemporaneo, com quem devia gastar parte d’aquelles elogios. Morreu finalmente no anno de 1696 com edade de setenta e tres annos.
Este é o mais abreviado resumo que posso dar da vida do meu suspirado, quão dilectissimo poeta lyrico; e oxalá podéra eu publicar os prodigiosos fundamentos do meu amor, derramando entre as gentes o manancial thesouro de suas graças! Singular foi a estrella que dominou em seu engenho; porque a toda a circumferencia das luzes apolineas brilhou com egualdade senhoril; e não menos prodigioso aquelle não sei que de sua guarda, porque offendendo ás claras muitas pessoas, de quem o menor movimento seria sem duvida uma tyranna morte, sempre se atreveu, e nunca de seu motu proprio cautelou perigos; morrendo intacto de tão prolongados mezes.
Muitos eram os feridos do seu ferro que consultaram o remedio no mesmo instrumento da chaga, beijando a Achilles a lança que os traspassára. Raro testimunho d’esta fatalidade foi a resposta que deu a um queixoso certo governador severamente resoluto: «Não faça V. Mᶜᵉ. caso (disse), porque isso tambem passa por mim, sem que por mim passe a minima tenção de o castigar.»
Testimunho d’esta fatalidade são as duas quartas de um soneto, que se fez em sua morte; o qual não escrevo por inteiro em razão de que si os seus principios professam a verdade pura, os fins todavia contém temeraria petulancia:
Morreste emfim, Gregorio esclarecido,
Que sabendo tirar por varios modos
A fama, a honra, o credito de todos,
D’esses mesmos te viste applaudido.
Entendo que outro tal não tem nascido
Entre os Romanos, Gregos, Persas, Godos,
Que comtigo mereça ter apodos
Nos applausos, que assim has adquirido.
Muitas vezes quiz elle refrear o genio, que conhecia prejudialmente peccaminoso, fazendo os actos de christão que em seu logar veremos, mas debalde o intentava, porque o seu furor intrepido imperava dominante na massa sanguinaria contra os desacertos d’aquella edade, castigados por Deus com tão horrorosa peste e tão repetidas fomes: como tambem veremos pelo decurso d’estas obras. E não é de admirar que disparadas do throno da divina justiça aquellas duas lanças de sua via, seguisse a terceira com tão exquisito genero de guerra em um homem, que de sua mãe unicamente tomou este appellido entre outros partos: ella o deu appelidando-se—da Guerra—, e elle o foi sem aquella proposição da, por ser a mesma guerra, e não o instrumento d’ella. Isto parece que prophetizou corto inimigo seu, respondendo-lhe a uma satyra com outra na seguinte fórma:
Porém si em nada és guerreiro,
Para que te chamas guerra,
E a fazes a toda a terra
Com a lingua, que é mor damno, &.
Deixou o dr. Gregorio de Mattos um filho de sua mulher Maria de Povos, chamado Gonçalo de Mattos, cujo amor publica em várias obras este livro, que em seus logares se verão sem enfadosas citas.
o quente da cama
Com Gonçalo, e com sua ama,
Dizendo estava comei-me, &.
Por vida do meu Gonçalo,
Custodia formosa e linda, &.
Madrasta do Gonçalinho,
Que é lindo enteado a fé, &.
Sim, por vida de Gonçalo, &.
Mas por vida de Gonçalo, &.
D’este moço, que com sua mãe ficou em summa pobreza e desamparo, correm noticias muito geraes que totalmente degenerára d’aquella massa scientifica de seus estupendos progenitores. Bem pudera eu duvida-lo em uma terra, onde sempre se hão de tomar os echos da fama pelo contrario; pois nunca vi nella abonar um sujeito que não mereça ser desterrado por máu, nem vituperar outro que ao contrario desmereça elogios de bom.
Mas para cumprir com os relativos d’esta historia consultei dous sujeitos que se criaram com Gonçalo de Mattos, ambos de instincto capaz para uma informação, e entre elles achei a contradicção, que póde servir de exemplo a quem se informa: um affirma com juramento que era poeta natural, o outro jurando nega que tal fosse, dizendo que elle nem o Padre Nosso era capaz de repetir. A este seguem muitos, e nenhum áquelle: mas o primeiro chamado Christovão Rodrigues diz que em sua adolescencia lhe dera o seguinte mote:
Com que, porque, para que.
Defendia-se o Gonçalo temeroso de uma maldição condicional de sua mãe, em respeito da qual não queria pegar na penna para fazer versos, posto que no animo lhe pulsavam as Musas (tal foi o escarmento que deixaram ellas naquelles cadaveres da paciencia lastimosa). Mas como a condição do preceito tinha sua clausula, em que fundar-se uma heresia graciosa, respondeu importunado: «Pegae vós na penna, porque a maldição de minha mãe parece que não me prohibe fazer versos, mas sim pegar na penna para elles.»
Repetiu-me então esta decima, que tanto ella como a resposta, si são verdadeiras, vem a ser uns relampagos da esphera do fogo: