III
Oh meu tio!
Esta exclamação quasi infantil escapou-me dos labios quando penetrei o santuario da limpeza. Que asseio e que fausto! As thermas da cidade por excellencia deviam resplandecer assim.
Quem te dera, Lucano, um tanque como este para nelle abrires as veias! Quem te dera, altivo poeta, um interior assim, de tanta claridade e tão sonora acustica, para reboar com os versos da Pharsalia com que recebeste a Morte! Infelizmente a Arte não alcançara o requinte que hoje possue. Á vista do tanque de meu tio—onde podia nadar, folgada e livremente, uma familia de nereidas, se ainda as houvesse—que figura faria a banheira do teu suicidio, ó victima da tyrannia, ó voluptuoso e languido patricio...!
A sala vasta é toda de mosaico miudo, talhado em triangulos brancos e vermelhos; o tanque, de bordas altas, tem tres metros de comprido e dois de largo, e a gente afunda em um metro e 25 d’agua. O chuveiro é uma grande cupola de zinco, pintada de branco, com duas correntes de metal que imitam prata. A agua jorra copiosamente das guelas de dois leões de nickel—uma entorna agua fria, outra vomita agua a ferver. As paredes, forradas de marmore italiano, completamente núas. A um canto, um cabide de bronze para as toalhas felpudas e o jupon, e, em frente, numa prateleira, tambem de marmore, negro e fosco, a bateria d’oleos e de perfumes; os sabonetes, as esponjas, escovas e essencias tonicas para hygiene da pelle e lavagem das gorduras do couro cabelludo. Ao centro um espelho de nitido crystal, alto e grosso, onde se pode admirar a nudez das fórmas.
Para um canto, recatado por um biombo japonez, uma especie de ádyto, com um divan de couro, repousando em um encerado onde a gente estira longamente os membros emquanto os leões inundam o tanque. Para aquecer ha uma mesinha com um serviço de crystal: whisky, cognac, old-brandy e curaçáu. Um mono de bronze carregando ás costas um cesto atochado de charutos e brochuras de um frescor irritante (a mais pudica que meus olhos viram abria com uma esplendida mulher núa, de costas para quem olhava, os braços roliços passados por cima da cabeça farta e negra de cabellos) na capa um distico: Le nu au salon.
Ao fundo, num retiro velado por um panno de linho escuro, que corria num varão de ferro, uma caixa envernizada. Abri e pasmei silenciosamente—era tambem um objecto indispensavel ao asseio. Ao lado, numa caixa menor, um maço de papeis finos. Aclarava esse interior de gozo um lustre de seis globos côr de rosa.
Feita a visita fechei-me por dentro e, ouvindo o rumor d’agua que cahia, levantando um vapor fino como o orvalho, fui despindo a fatiota, lenta e preguiçosamente, ante-gozando a delicia da immersão tépida depois da fadiga de todo um dia em wagon.
Safando a camisa lembrei-me do ribeiro poetico da minha villa onde todos nós da familia, do mais velho ao mais novo, um depois do outro, por decencia, vamos, todas as manhans, limpar o corpo e endurecer os musculos sob a folhagem viçosa dos cajueiros em flôr.
Nú, como um grego do tempo juvenil da graça olympica, mirei-me ao grande espelho que, indecorosamente, me reflectiu da cabeça aos pés—e achei-me perfeito e forte e masculo, um modelo rijo e gracioso de Marte desnudado, um inteiriço e reforçado exemplar de homem, digno herdeiro dos Ribas. Sorri com vaidade para o crystal que começava a empanar-se com o vapor das fauces do leão fervente.
A sala estava como uma estufa—era um banho russo. Corri a refugiar-me atráz do biombo e estirei-me no divan fresco e macio servindo-me, em um calice, da garrafa vermelha que trazia, pendente do gargalo, uma chapa denunciando: cognac. Bebi e regalei-me esticando as pernas núas no couro frio.
De papo para o ar comecei a pensar na delicia da vida e achei mesquinha a casa paterna, taciturna e calada, entre arvores murmurantes, invadida pelas moscas e pelos gafanhotos, com os corredores sombrios, atravancados de sellins, ás vezes visitada pelos bacorinhos que vêm familiarmente grunhir em baixo da mesa de jantar, catando os restos do almoço. Pareceu-me triste e acanhada a existencia que eu levara nesse valle melancolico sem agitação e sem conforto, ignorante de tudo, longe de imaginar que o mundo podia proporcionar delicias de tal ordem—delicias como aquella sala de jantar, delicias como aquelle banheiro, onde meu tio tonificava as suas banhas e onde eu ia, emfim, lavar-me para entrar limpo e lepido na vida nova, buliciosa e surprehendente, que eu sentia rumorejar ao longe, nessa grande cidade atravessada, amollecida e somnolentamente, nas almofadas fôfas do carro do ruivo. Ia emfim ver o mundo.
Aquelle banheiro que ali estava era a pia onde o mais novo, o mais esperançoso rebento dos Ribas ia, contricto e nú, receber o baptismo da civilisação, deixando nagua morna a poeira dos caminhos e a barbarie da sua alma ignorante e insaciada.
Confesso que tive inveja da sorte de meu tio e lastimei profundamente os meus que lá haviam ficado chocando pintos e debulhando o grão. Que vale uma ninhada diante de uma mesa como esta que meus olhos contemplam, carregada de crystaes rutilantes? Que valem as colheitas comparadas ao gozo de um mergulho nesta piscina de marmore que me espera? Decididamente a grande sciencia do viver não consiste em saber accumular fortuna, mas em saber dissipal-a. O ideal do homem moderno é o filho prodigo. Estou certo de que a moral não condemna Harpagon senão porque o miseravel não tinha noção da sciencia elegante e fina de dissipar.
Para que ser rico sem um banheiro assim?...
Serapião, meu prospero tio, ronca, deslisa para baixo da mesa farta do teu salão de abundancia, porque estás dando ao mundo, e especialmente ao teu sobrinho e herdeiro, uma lição de savoir vivre!
Enchi de novo o calice e bebi, mas engolindo o sorvo, percebi que me enganara na garrafa: não era a vermelha, eu havia tomado a azul: old-brandy.
Desde, porém, que havia quatro, porque insistir na vermelha? O acaso dirigira o meu braço e o acaso algumas vezes opéra sabiamente e governa como uma bussola. Repentinamente lembrei-me do banho e não foi sem pena que deixei a minha posição em decubito, a mais propria do homem, segundo ouvi dizer a um sybarita das minhas relações campestres.
Puz-me de pé e, estirando os braços, todo retorcido como o Laocoonte, afastei-me do ádyto das libações. Na sala era tão espesso o vapor, que meus olhos nada distinguiram a principio—movia-me, como um deus, dentro de nuvens tenues. Por fim, sentindo nos pés uma humidade tépida, notei que a agua transbordava alagando o mosaico do santuario. Desci precipitadamente as alças fechando as copiosas guelas leoninas, mergulhei o braço, puxei pela corrente do escoadouro e a agua, que me escaldara, começou a baixar silenciosamente até que ficou em nivel para que eu pudesse molhar-me todo regaladamente, mergulhando e nadando. A fauce fria jorrou ainda alguns litros para abrandar a temperatura e o nevoeiro diluiu-se. Apanhei sobre o marmore negro um sabonete de Corydalis, uma grande esponja macia e saltei no tanque. A agua abriu-se para receber-me e fechou-se ficando apenas a flux a minha cabeça, fluctuando como uma boia.
Que delicia! Como senti, nesse momento suave da minha vida, não possuir os dotes de Simão Carreira, que tudo canta, que tudo rima: os olhos castanhos da Bemvinda e os repolhos planturosos da horta do Segurado. Elle, de certo, em meu lugar, acharia uma estrophe sonorosa e nova para louvar e divinisar a agua benigna desse tanque; elle, o sempre inspirado, saberia pagar com um punhado de heroicos a lixivia e o conforto.
Eu, porém, sem estro, incapaz da mais insignificante imagem poetica, limitei-me a esfregar a cabeça, não para acordar a inspiração adormecida, mas simplesmente para tirar a poeira... e mergulhei. Quando vim á tona trepei á borda do tanque e, á falta de quem me esfregasse, resolvi fazer eu mesmo a operação e vesti-me todo de espuma. Tive impetos extravagantes de correr ao espelho para admirar-me sob esse aspecto mousseux, mas recuei porque, Ribas anadyomay, comprehendi que não me seria facil abrir os olhos—a espuma escorria em floccos pelo meu rosto.
Atirei-me, de novo, ao banheiro e refocilei voluptuosamente. A temperatura baixara sensivelmente quando sahi gottejante para o pequeno estrado. Enfiei o jupon, calcei as chinelas de feltro e arrastei-me até junto da mesinha, onde experimentei a garrafa verde—whisky. Ia deitar-me quando bateram á porta. Acudi com pressa lembrando-me de meu tio que ficara na imminencia de uma apoplexia. Indaguei, e uma voz disse-me de fóra—que a ceia estava servida, ajuntando:
—Aqui tem vosmecê o robe de chambre para sahir.
Abri devagarinho a porta e estiquei o braço, que derreou ao peso da investidura com que eu me devia apresentar á mesa. Era uma especie de cabaia de seda, debruada a cairel de prata, com bordados extravagantes e alamares; mangas immensas e uma gola almofadada, com forro de setim côr de perola. Admirei-a e com ella recolhi-me ao biombo para vestir os primeiros linhos indispensaveis e calçar os sapatos.
Sobre a camisa e as ceroulas abotoei a cabaia que, sentindo a falta das protuberancias do meu tio, cahiu em dobras molles ao longo do meu corpo, menos fornido e mais baixo. Por compostura apertei a cinta com o cordão de seda. Dividi o cabello, alisei os bigodes e, derramando na palma da mão algumas gottas de Cherry Blossom, plantei-me diante do espelho, revendo-me sob esse trajo que me dava a figura classica de um veneziano, como os que eu vira em gravuras, dentre os quaes me ficara eterno na memoria o typo veneravel de Brabantio, pai da incomparavel e abnegada Desdemona, tão cruelmente immolada pelo mouro negro.
Cheiroso e fresco sahi para o corredor, onde me esperava o criado. Seguimos.
A sala de jantar estava de novo illuminada... mas sem meu tio. Recolhera-se de certo. Sentei-me só e em silencio.
Havia no ar um cheiro apetitoso de frituras e de flôres. Dos pratos cobertos sahia um fumego tenue rescendendo a temperos. Toda a porcelana florejada tinha o monogramma do proprietario—S. R. em ouro fosco.
O criado serviu-me a sôpa e verteu em um calice de crystal verde um vinho claro, que bebi com avidez antes da primeira colherada; e comecei a jantar desordenadamente, servindo-me de um lombo, com petits-pois, no momento justo em que o criado me apresentava um badejete, que repudiei com desprezo.
Mas o meu ataque mais sério foi á garrafeira.
Não sei dar a razão desse delirio bacchico, tão singular, tão novo em meus habitos de sobriedade. Os vinhos attrahiam-me. Depois de uma aza de frango, que apenas trinquei, fui sedentamente ao Bourgogne e enxuguei dois copos. Mas quando appareceu o Champagne, uma meia garrafa deitada sobre crystaes de neve em uma geladeira de prata, tive impetos de fazer ali assim, para o criado impassivel, um improviso sobre esse precioso vinho, que é a alma do festim, o remate requintado do gozo, o companheiro do amor. Vinho alambreado que parece cantar nas taças um dithyrambo de ouro, vinho impaciente que ferve e espuma, vinho que tem as coleras do oceano—ambrosia da nova éra, vinho vivo e intelligente, vinho que tem alma... e que eu jámais provara. Bebi sofrego.
Subitamente notei que me sentara na cadeira abbacial do meu tio. Estava explicada a minha sêde insaciavel. Os moveis adquirem os vicios de quem os possue. Aquella cadeira estava inveterada. Era repousado em seus braços que meu tio dormia o seu primeiro somno digestivo.
E foi esse confortavel movel que fez com que eu sómente readquirisse as minhas faculdades de ser ás 10 horas da manhan seguinte, quando me vieram trazer ao quarto o café e os jornaes.