IV

Lembra-me ter visto em um livro erudito este conceito:—«A embriaguez é a poesia da vida digestiva» e, se ainda me é fiel a memoria, o sabio que assim se exprime é Letourneau. Penso que tem razão o philosopho, porque Simão Carreira, que cultiva, com tanto esmero, a Arte divina de Apollo, não despreza as garrafas e os seus melhores heroicos, os versos intrepidos do seu poema Os Pincaros da Mantiqueira foram escriptos emquanto durou um quinto de Cartaxo com que o brindou o padre Coriolano. Eu, porém, de imaginação escassa e tão perro para a cadencia, soffri profundamente os effeitos da poesia estonteante, que me poz no espirito uma nuvem densa e na lingua uma saburra espessa.

Confesso que senti o pudor subir-me ás faces quando dei com o ar sisudo e grave do criado, que me apresentava cerimoniosamente um taboleiro de xarão. Puxei o lençol até o queixo e, de olhos baixos, tomei a chicara e, a pequeninos goles, fui chuchurreando até á ultima gotta. Por fim, no intuito de quebrar aquella serenidade fleugmatica do homem, aventurei sorridente:

—Bem bom café! Decididamente não ha bebida como esta.

Mas o bruto, impassivel e frio, recebendo a chicara que eu lhe entregava, sempre sisudo e grave como um preceptor, perguntou seccamente se eu queria o banho morno ou de chuva?

—De chuva, respondi humilhado e corrido. Que vergonha tive! Parecia-me que aquelle imperturbavel servidor viera ao quarto apenas para exprobrar, com o seu silencio inquebrantavel, o meu procedimento da vespera. E tinha justas razões esse criado, porque afinal... que indecencia para um homem da minha casta, herdeiro de uma tradição sem mancha, principalmente de vinhos, porque na familia o unico que bebe é meu tio, os mais, desde o meu intemerato bisavô, implicado nas conspirações patrioticas do Xavier, até meu pai, nunca foram além do côco do pote ou da calha da nascente. A adega dos Ribas, inesgotavel e pura, foi sempre a limpida fonte dos «Suspiros» numa chanfradura de rocha, velada por um bosquesinho de tayobas, fonte cujas aguas historicas mataram, em tempos, a sêde do grande Dirceu quando a paixão e a politica o arrebatavam para os ermos. E ha ainda hoje fanaticos do poeta que affirmam distinguir no murmurio da agua o nome suave de Marilia.

Cheio de vergonha saltei da cama, enfiei a cabaia e, sem olhar para a alcova faustosa, desci acompanhando o criado que me deixou á porta do banheiro.

Lavado e vestido, apresentei-me na sala de jantar, clara de sol e cheia de um festivo canto de passarinhos. Accendi um charuto e, de mãos enfiadas nos bolsos, comecei a passear de um lado para outro, assobiando uma aria rustica.

Ia admirar tranquillamente um quadro de frutas, quando o criado veiu dizer-me, muito teso, estendendo um gesto nobre para o exterior:—que meu tio estava á minha espera no jardim.

Respirei alliviado! Ia emfim fugir aos olhos daquelle Argos da moralidade. Atirei fóra o charuto e desci.

Meu tio, todo de branco, com um gorro de seda á cabeça, agachado, examinava os canteiros. Sentindo o rumor dos meus passos no saibro, que scintillava ao sol, voltou o rosto purpureo e nas suas bochechas nedias perpassou um sorriso fugitivo. Ergueu-se resfolgando, com as mãos papudas cheias de terra, de sorte que não me atrevi a beijal-as para não macular os meus bigodes lustrosos e rescendentes.

—Meu tio passou bem a noite?

—Como um abbade. E tu?

—Maravilhosamente...

Elle mirou-me dos pés á cabeça e pareceu satisfeito com o meu terno de brim pardo, não desdenhando os sapatos amarellos, que eu trouxera para «surrar em casa», como dizia pittorescamente minha santa mãi quando prégava sobre economia domestica.

—Que tal o alojamento, Anselmo?

Gabei sem reservas a belleza e o conforto do tecto hospitaleiro, creio até que o teria comparado aos palacios maravilhosos de Aladino e á soberba vivenda de Sindbad se um homem, com dois enormes regadores vermelhos, não viesse interromper o nosso colloquio. Era o Jeronymo, jardineiro. Parou um momento para dar a meu tio a boa nova do desabrochamento das camelias e, radiante, limpando com o braço o suor da testa, disse que já havia dois botões das rajadas. Meu tio felicitou-o e, como o Jeronymo retomasse os regadores, accrescentou—que as violetas estavam encharcadas.

—Não ha duvida... não ha duvida, senhor; ahi vem o sol, disse o homem. Quem dirá que hontem choveu como choveu...? A terra está secca e a planta carece d’agua. Olhe, se eu fosse outro, deixava as purpuras sem agua... mas vá Vossoria ver... a terra está mirrada, parece que a seccaram ao fogo. É verdade que ali não chove por causa do telheiro.

—E de cravos, como vamos?

—Ainda não os ha, disse o Jeronymo, consternado, e derreando-se ao peso dos regadores, foi-se, bradando a um gato que raspava a terra fofa de um taboleiro.

—Gostas de flores, Anselmo?

—Loucamente, meu tio.

E fomos caminhando para a casinhola rustica. Sobre o colmo cantava uma cigarra.

—Bom tempo, presagiou meu tio.

Haviamos chegado ao retiro do aperitivo, onde nos esperava o alcool matutino, a gotta confortavel que aquecia o estomago preparando-o para receber o almoço. Meu tio subiu pesadamente a elevação que dava accesso ao retiro, e achatou-se no comprido banco de pedra, que imitava um tronco d’arvore... e d’ahi, como Satan na montanha mostrando a Jesus as riquezas da terra, disse-me—que ali assim estavam enterrados para mais de tresentos contos.

Eu sacudi a cabeça admirado e murmurei:

—Bem empregado dinheiro!

—Não bebes? Acenei—que bebia e elle serviu-me. Virámos.

O vasto mar azul, em frente, resplandecia ao sol. Velas de barcos fugiam, muito brancas, afflorando a vaga que, ás vezes, se desfazia numa fita de espuma que vinha rolando, rolando e desmanchava-se. Aves pairavam e, subitamente, como se tivessem sido fulminadas, cahiam nagua serena. O céu limpido, de uma côr fina e translucida, estava radiosamente claro. A aragem fresca vinha cheirando á salsugem e balouçava as roseiras, perfumando-se de um novo aroma de jardins, mais delicado do que a maresia da costa. Dois pequenotes nús, muito luzidios, iam garrulamente rompendo o mar, atirando os braços; subiam na vaga inchada e alterosa, desciam no cavamento d’agua e riam como dois jovens tritões que se andassem adestrando no seio glauco do mar perfido. E, mais longe, varios cavallos, quasi afundados nagua, de cabeça alta e inquieta, eram esfregados por moços que riam ás gargalhadas; um mesmo, montado, como um centauro aquatico, obrigava a alimaria a fazer voltas, nadando, a lembrar o hippocampo das antigas lendas. Ao fundo o recorte accidentado e escuro das montanhas.

A cigarra, na grande luz tepida que dourava o colmo da casinhola, entrou a cantar e meu tio, encolhendo as pernas e servindo novos cognacs, enternecido e lyrico, disse poeticamente para attrahir a minha attenção, toda entregue ao mar infinito:

—Ouve, Anselmo, a cigarra... está chamando o sol. E eu, para dar mais força ao lyrismo, ajuntei, voltando os olhos para o alto:

—Sim, meu tio: é a cigarra que chama a primavera.

Ali ficámos muito tempo, num farniente aprazivel, beberricando, até que o criado nos veiu annunciar o almoço. Descemos lentamente. Eu vinha alquebrado de preguiça e sem apetite, sedento. A agua de um repuxo, que esguichava, iriada e cantante, excitou ainda mais a sêde do meu estomago abrasado. Parei um momento para admirar a elegancia de um cysne que circulava com garbo, abrindo, de vez em quando, ao borrifo fresco, as grandes azas alvadias, iguaes ás que, outr’ora, Jupiter lascivamente tomou, em uma das suas metamorphoses, para cingir o corpo esplendido de Leda. Atravéz da agua limpida viam-se as palmouras rosadas remando com lentidão.

Meu tio, que havia chegado á varanda, chamou-me. Não quiz partir sem acariciar a ave airosa e adiantei-me estendendo a mão para amaciar-lhe o pescoço formoso; o cysne, porém, selvagem e arisco, entrou a espadanar com as azas e, escancarando o bico, a grasnar, poz-se em attitude ostensiva, atirando-me bicadas. Deixei-o. Vendo-me partir veiu precipitadamente até a borda da bacia e, a grasnar, parecia desafiar-me. Longe, no fundo do jardim, levantou-se um alarido terrivel.

—São os gansos! disse-me o tio Serapião... e deixando a balaustrada da varanda:

—Anda dahi que o almoço esfria.

A sala rescendia. A mesa pantagruelica, alva, nitida e farta encantou-me pela profusão de flores em jarrões, por entre os finissimos copos de mussellina, espalhadas pela toalha e de um aroma tão intenso que mal deixava sentir o cheiro dos acepipes. Sentei-me á direita do meu tio e começamos por um prato que me pareceu feito de ouro liquido. O criado que m’o serviu nomeou baixinho:—Mayonnaise. Fartei-me.

Meu tio, com a boca cheia, olhou-me de certo modo e percebi que o seu olhar de epicurista, humedecido e languido, queria dizer alguma coisa; fitei-o até que engolisse o bolo que rolava na sua boca de gastronomo, inchando-lhe as bochechas:

—Um petisco, hein, Anselmo? e passou o guardanapo pelos beiços reluzentes. Eu, sem dizer palavra, arregalei os olhos, sacudi a cabeça e enchi de novo a boca. Quando bebi o vinho, que rutilava num calice diante de mim, pronunciei-me francamente:

—Com effeito, meu tio... é um prato! e elle, attrahindo uma lata de sardinhas, tambem arregalando os olhos, concordou: É um prato! A um gesto seu o criado içou os transparentes; o sol inundou a sala de uma grande claridade—crystaes e faianças scintillaram. Os canarios, deslumbrados, entraram a voar tontos, agarrando-se ás grades das gaiolas, mas a pouco e pouco, habituando-se, voltaram á tranquillidade e foi bastante que um cantasse para que o chilreio irrompesse estridulo. Pedi agua e o criado, inclinando-se, indagou baixinho se eu preferia Vichy ou Apollinaris.

—Do pote, tornei ao solicito.

—Experimenta Apollinaris. Apollinaris com um pouco de Bordéus, aconselhou meu tio e, voltando-se para o criado, com o garfo erguido e cheio de sardinhas: Abre Apollinaris...

Resignei-me. Momentos depois um estampido atroou e logo um jorro fervido inundou meu copo.

—Bebe! Bebe emquanto está quente. Levei o copo á boca e bebi... mas com que ancias...! Um effluvio de thermas subia-me ao nariz. Subitamente acudi com um guardanapo á boca, mas não tão rapido que pudesse evitar um escandalo.

—Perdão, meu tio! murmurei corado.

—Não sou inglez. Eu cá não faço cerimonias. Havias de engulil-o? disse a rir.

As carnes não me tentaram, mas fui forçado a mastigar uma febra de roast-beef e uma fatia de presunto. O tio devorava tranquillamente, sem levantar os olhos do prato.

Ao fim do almoço, saciado d’agua, afastei-me para a varanda. Fazia calor—as folhas murchavam á luz caustica e ouvia-se a voz fina do Jeronymo, que cantava aparando a grama.

Debruçado para o jardim, olhando vagamente, numa abstracção de todo o meu ser, comecei a sentir-me invadido por uma tristeza que me cahia nalma, suave e melancolica como um crepusculo.

Uma sombra interior velava a radiosa alegria do meu espirito e sem causa visivel, porque diante de mim havia a vívida e resplandecente claridade do sol, o immaculado azul e todo o verdor viçoso dos arbustos que as borboletas corriam, sentia como a aproximação de uma tormenta, as primeiras ancias da lagrima.

Indecifravel phenomeno o da visão da ausencia!...

Um véu espesso passou-me pelos olhos. Tudo que a minha vista alcançava desappareceu num momento e vi, como em scenario, num longinquo horizonte nebuloso, aereo, a paisagem silenciosa da minha terra, no valle fresco e verde, no fundo do qual escorre, quasi sem bulha, o corrego das Almas, que vai de sitio em sitio, abeberando as hortas e os rebanhos, sempre manso e sempre claro, que não o toldam senão as flores dos espinheiros que o margeiam, e essas, pobresinhas! com um leve fremito d’agua, desfazem-se, desapparecem e passam quasi invisiveis como um pollen subtil.

E a minha casa, além! bem visivel, branca no verdejante pomar, e gente na eira e gente pelos caminhos, os meus com as suas feições tão nitidas, tão perfeitamente accentuadas, que eu os fui reconhecendo a um e um, como se os visse, não atravéz da miragem meiga de minh’alma, mas na verdade fiel da vida que além vivem. Repentinamente a visão diluiu-se. Alguem chamava-me baixinho—voltei-me. Era o criado:

—O senhor seu tio pergunta se não quer ir á cidade?

—Dize-lhe que vou... e, dissimulando, passei rapidamente o lenço pelos olhos.