V

Quando desci, aprumado e airoso no meu terno de cheviot claro, meu tio roncava na casinhota do jardim, com a cabeça descahida sobre o recosto do banco, o papo em evidencia, todo molhado de suor e rubro, a boca aberta, os braços pendentes num abandono flaccido. A cartola repousava sobre a mesa e o precioso unicornio, encastoado de ouro, jazia aos seus pés como um cajado vulgar.

A impaciencia e a temperatura da hora tepida, macia e somnolenta haviam, por assim dizer, narcotisado o pobre homem. Da janella do meu quarto para onde, de instante a instante, elle levantava os olhos anciosos, eu o via caminhar ao sol, com enormes bocejos, riscando a areia com a ponta da bengala. Subiu e desceu lentamente as áleas do jardim, por fim perdeu-se e só o vi depois nessa posição pacata, refestelado, a dormir á sésta como as roseiras dormiam no silencio canicular desse meio-dia abrasado, murchas, enlanguecidas, emquanto a terra incançavel infundia-lhes a seiva vivificante para que, mais tarde, ao frescor vesperal do crepusculo, os botões despertassem e distendessem as petalas, abrindo-se.

Á porta estacionava uma victoria. O alto cavallo, negro e luzidio, escarvava fogosamente, picado pelo sol. Meu tio grugrulejou como se sorvesse uma golfada quente e esfregou os olhos.

—Boa sésta, meu tio. Elle ergueu-se molle, com os braços abertos em cruz, o ventre empinado e falou espremendo-se:

—Boa estafa é que foi. Que diabo estiveste fazendo até agora? Sacou o relogio e mostrou-me: Uma hora da tarde.

—Um trabalho para descobrir a roupa, meu tio. Arranjaram-me de tal modo a mala que, para encontrar um par de meias, tive de despejal-a.

Meu tio mirou-me detidamente e, com satisfação e vaidade, li no seu olhar—que me achara digno. Tomou a cartola e eu apanhei o unicornio para poupar-lhe o sacrificio de abaixar-se.

—Está quente! disse limpando a fronte.

—Um dia de fogo, mas lindo!

—Lindissimo! Deu um puxão ás calças olhando o céu.

—Vamos, Anselmo.

Durante o caminho parou diante de todos os canteiros examinando carinhosamente as flores, decepando galhos seccos, com uma solicitude bondosa. O criado correra a abrir o portão. Sahimos.

Ah!

As interjeições são pequeninas syntheses. Como em um atomo o olho do sabio descobre todo um mundo de complexidades, nas interjeições o arguto espirito de um grammatico descobriria todo um romance, se quizesse, e facilmente o reconstituiria. As grandes emoções manifestam-se pelo laconismo monosyllabico dos oh! e dos ah! Concisas, como são, dizem mais do que os periodos e supprem, com vantagem, o complicado artificio de que lançam mão os escriptores, artificio que nem sempre é bastante para exprimir o que sentem e raras vezes auxilia a externar o que pensam. Ah! e Oh! hiatos insignificantes, mas analysai-os, profundos mestres.

Diante de um quadro de Rubens—ah! e nada mais, alguns manifestam deste modo o seu pasmo; diante de uma mulher formosa oh!—oh! soturno e commovido, que o agudo só tem applicação nos momentos de terror. A tragedia do panico tem a sua clave: uh! Othello: oh! Macbeth: uh! Ophelia... ah! suspiroso; os Sete Infantes: ôooh! Mesmo no amor encontrareis um ah! tremulo e doce. O suspiro é um ah! isolado e, como dizem os pessimistas que o riso é ainda uma fórma da tristeza, a gargalhada é um rosario de suspiros.

Ah! e nada mais foi o que me fugiu da garganta quando me sentei nas almofadas de damasco côr de vinho da victoria de meu tio. Que regalo! E, em verdade, que podia eu dizer que désse exactamente a impressão de aconchego que senti quando me aprofundei mollemente no macio assento? Que podia eu dizer que traduzisse o gozo, quasi sensual, que experimentei senão o que veiu espontaneamente aos meus labios: ah! um doce e demorado ah! que me ficou muito tempo a brincar na boca e que eu acompanhei com uma mimica fantastica—olhos arregalados, braços abertos como se me balouçasse em ondas... Ah!

E meu tio comprehendeu porque voltou-se immediatamente dizendo:

—Molas excellentes, hein?

—Excellentes, concordei hilariante e baboso; excellentes, meu tio, e, sem que elle percebesse, levantei-me um poucochinho e deixei-me cahir para ter o gosto de afundar como afundei.

O cocheiro, um inglez, magro, raspado, retezou-se na boléa tenteando as redeas para soffrear o cavallo negro que pinoteava.

—S. Francisco, disse seccamente meu tio e logo rodámos.

Estiquei as pernas mergulhando os pés no pellego felpudo.

—Não fumas, Anselmo? E as mãos papudas offereciam-me charutos. Esgazeado e hirto de espanto entalei-me no fundo do carro. Pois meu tio... a offerecer-me charutos...! É uma cilada, disse commigo. Meu pai, com a sua moral primitiva, entende que fumar é um vicio execrando para os moços, principalmente em presença dos mais velhos. Em casa, quando me tenta o desejo de tragar uma fumaça, corro ao meu quarto e fecho-me ou desço ao pomar para não ir de encontro ao preceito paterno, que é uma herança dos maiores. Educado em principios de tanta austeridade, agradeci os charutos. Meu tio, porém, insistiu:

—Fuma, homem; já não és criança, disse num tom cheio de sinceridade que varreu do meu espirito o resto de escrupulos. Fuma—e entregou-me um charuto. Ainda assim, senti certo vexame, elle, porém, insistiu novamente, animando-me.

—Não tens phosphoros?

—Sim, meu tio; tenho aqui. Accendi o charuto e baforei para o mar a primeira fumaça dando as primicias do meu havana ao respeito, como os antigos pastores offereciam a Deus as primicias dos seus rebanhos, depois recostei-me, fumando ante as barbas grisalhas do irmão de meu pai.

O Rio começava a apparecer-me. A victoria corria cruzando-se com outros carros elegantes, onde iam senhoras faustosamente vestidas. Dos bonds espiavam-nos com interesse curioso. Eu encolhia-me para que me não vissem, ia ali assim como um deus num nicho, apenas visivel para os que, como eu, passavam luxuosamente em carruagens e que nos procuravam reconhecer. Meu tio, habituado ao luxo, ia indifferente, todo preoccupado com o seu charuto; eu não, mostrava-me, queria que as mulheres olhassem para o meu rosto rosado e fresco, para os meus olhos femininos, para os meus labios purpureos e carnudos, para os meus bigodes sedosos, para o meu largo peito forte, e que reconhecessem em mim um modelo de homem, um remanescente da idade morta, quando a força era divinisada e o musculo merecia poemas; um solido e masculo exemplar de sertanejo capaz de amal-as com mais ardencia e com mais impetuosidade do que esses rapazes pallidos, de olhos tristes, que passavam acabrunhados e exhaustos, sem viço, sem enthusiasmo, frouxos e melancolicos, sugados pelo vampiro da anemia, derreados pelas vigilias devassas.

A victoria parou. Saltámos e eu, curioso de vêr e de admirar maravilhas, olhei em volta. Era uma grande praça quadrada e clara, murada pelos edificios que reverberavam á luz radiante do sol. Ao meio, sobre um pedestal negro, a estatua tosca de um homem, numa attitude cheia de solemnidade, a mão estendida num gesto classico de tribuna, como a allegoria iconica do meeting que é, em nossos dias cultos e morigerados, o escoadouro da inoffensiva indignação das massas. Meu tio, indicando-me a effigie escura, disse:

—José Bonifacio, o patriarcha da nossa independencia e da tribuna dos comicios.

Admirei reverente o patriarcha, rijo, inflexivel, immovel no seu molde perpetuo de bronze, como a imagem do patriotismo isolada na vasta ágora, para exemplo das gerações. Meu tio, descrevendo com o seu unicornio um hemicyclo no ar, falou para despertar o meu civismo:

—Olha, Anselmo, de um lado a religião, Deus e o mysterio. É a ala santa do perimetro do nosso patriota—e levantou a bengala. Meus olhos seguiram a sua indicação e viram no alto da torre um gallo rutilante. Tive impetos de pedir a significação da emblematica... Seria, por acaso, a figuração do bicho que cantou tres vezes despertando a consciencia de Pedro na grande noite triste de Gethsemani? Mas meu tio já havia baixado a bengala.

—Aquillo que ali vês ao fundo, Anselmo, é a sciencia.

Um casarão alvadio com um terraço á frente. Mal tive tempo de admirar porque a voz grave do cicerone já pronunciava:

—Á esquerda, o commercio, a industria, o movimento... Com effeito a vida parecia decorrer do ponto indicado—bonds chegavam despejando gente, partiam cheios; carros cruzavam-se: era um vozear confuso, indistincto—pregões, appellos, silvos, tilintar de campainhas, brados. Olhei atordoado. Meu tio voltara-se para a estatua e contemplava-a extatico.

—Grande homem! disse eu.

—Grande patriota! accrescentou meu tio e voltou-se com a bengala em riste, risonho, mostrando-me uma rua em frente:

—Conheces?

—Não, meu tio, mas noto que está cheia de gente—parece que vem por ahi abaixo um oceano popular para revindictas.

—É sempre assim, disse e, com lentidão, abriu a sobrecasaca e tirou do bolso profundo um maço de papeis. O sol abrasava pondo-me pruritos na carne e meu tio, calmo e tranquillamente, suando e resfolgando, consultava os papeis. Por fim atafulhou com o maço no bolso e, vagarosamente, desdobrou diante de meus olhos uma folha de papel azul e, indicando-me uma phrase com o dedo grosso, sorriu mirando-me. Era uma carta minha e o que ali estava debaixo do pesado e humido indicador, era apenas isto—«ver a rua do Ouvidor». Sem ler mais, estremecendo, cravei os olhos na rua... e, sem uma palavra, mudo, abatido, como se me tivessem dado uma noticia de morte, suspirei.

—Uma surpresa, hein?

—Uma desillusão, meu tio, disse eu, murcho. Mas o sol ardia. Quasi torrados fomos caminhando para a desillusão, porque ali, ao menos, havia sombra e fresco. Eu ia consternado.

—Mas então... que te parece?

—A mim?

—Sim...?!

—Ah! meu tio... Póde ser que esta rua seja uma maravilha, mas infelizmente, antes de vel-a, antes de pisal-a, eu a sonhara... e o sonho, que é uma visão do mysterio, vai sempre além da realidade.

—Então... que esperavas tu?

—Eu? uma avenida como as que tenho admirado em gravuras, como as que tenho visto descriptas: com grandes casas apalaçadas, ruas cuidadosamente calçadas de marmore... architectura e gosto, arte e elegancia, e largueza sobretudo, meu tio; largueza, muita largueza... Um velhinho magro, esgrouviado, com um amplo casaco côr de castanha, surrado, tomou a frente a meu tio estendendo-lhe ambas as mãos, pallidas como as de um cadaver. Encostaram-se a uma vitrina. O velho sacou do bolso uma enorme carteira e foi desdobrando papeis, cochichando, com risinhos. Meu tio approvava com ar digno, coçando o papo. Parado em meio da rua, olhando, eu sentia cahirem dentro em mim, um a um, todos os meus sonhos ingenuos de roceiro. A multidão cruzava-se num formigamento activo; grupos chocavam-se. Havia constantemente um chapinhar de solas, fru-fru de sedas e, de longe, como um hausto perenne e sofrego, vinha um aáah surdo... De vez em vez parecia-me ouvir o rumor cadenciado e longinquo do desfilar de um exercito.

Sentia-me attrahido pelo luxo dos mostradores. Meus olhos esmerilhavam, rebuscavam, examinando as casas, da soleira á cimalha, penetrando-as, varejando-as indiscretamente com uma ganancia de imprevistos, com uma avidez de novidades... mas desciam desenganados porque a rua que eu antevira, a rua que eu sonhara... Ó divinos jardins suspensos! ó avenidas de loureiros e de anemonas! como estais longe da esplendida passagem que meus olhos viam em arroubos, quando me punha a pensar nesta viagem ao Rio e realizava, embevecido, de olhos fechados, deitado na relva, tamborinando no ventre, o meu passeio elegante pela calçada de marmore branco, refrescada, duas vezes ao dia, com esguichos d’agua de rosas. Não, decididamente eu não tinha razão—o que eu estranhava não era a rua do Ouvidor... todo esse pungitivo sentimento que me opprimia vinha da morte de uma illusão. Para os que não viram, para os que não sonharam coisa melhor, a rua é admiravel; mas para os que podem estabelecer confrontos, perdoa-me, arteria da civilisação patricia, perdoa-me, avenida da elegancia e do espirito fluminense, não passas de uma viela atarracada e sordida. O velhinho inclinou-se de novo com as mãos estendidas e meu tio voltou a occupar junto a mim o seu posto de elucidario.

—Então, Anselmo?

—Estou procurando o encanto, meu tio.

—Descança, descança, disse tomando-me o braço, elle é que ha de procurar-te. E estacando mostrou-me a rua com o mesmo gesto com que, em casa, do alto da casinhola, me havia mostrado o seu jardim: Então isto não te impressiona?

—Não, meu tio... e digo com sentimento.

—Esperavas alguma coisa como o boulevard des Italiens, como a calle Florida? acudiu Serapião, versado em guias.

—Coisa melhor! muito melhor!

O elucidario lançou-me um olhar carregado de pasmo.

—Contaram-me tantas maravilhas desta rua que não é muito que eu me confesse desilludido, porque o sentimento que, em verdade, subjugo é de indignação, a mais justa indignação contra todos quantos me atordoaram o espirito com exageradas fantasias e soberbas descripções de um fastigio incomparavel. Em casa de Marianno Gomes, o Dr. Gusmão, promotor, que parava, de vez em quando, alguns nickeis, no seu feminino palpite—a sota, durante uma longa noite de azar e de chuva, encurralando-me no vão de uma janella, falou-me, com a sua eloquencia de jury, longamente, calorosamente, ácerca da rua do Ouvidor, contando-me aventuras que havia gozado em companhia de um desembargador, homem culto e de gosto. Foi quem mais alarmou o meu espirito ingenuo, foi esse orgão da justiça publica o mais perverso e cruel dos mystificadores. O padre Coriolano que, de longe em longe, vem gozar no Rio um mez de inverno, disse-me, uma vez, em casa da Maria Balbina, que isto era como a Suburra de que fala Horacio: um lugar de vicios. Marianno Gomes, mais franco, explicou-me numa phrase sobria e devassa: «Que para a pandega não havia igual...!»

Mentiram todos: a lei, a religião e a batota. Isto é uma miseria! Nem aventuras, nem Suburra, nem pandega!

—Espera, attende, acalma a furia, Anselmo. Se ainda não a conheces! disse meu tio com um sorriso malicioso. A rua do Ouvidor tem o seu segredo de attracção e de enlevo como certas mulheres que, apezar de feias e avelhantadas, vivem perseguidas pelos adoradores. Has de concordar: ha mulheres taes; a razão? o motivo? dize... Dei de hombros e meu tio explicou com arreganho—um encanto particular, Anselmo, coisas... Depois, recompondo-se, voltou a falar com gravidade, fitando a rua: Não é bella, concordo. Vê-se que não foi traçada por um Haussmann, mas lá encantos isso tem ella... É preciso viver, conhecel-a, penetrar-lhe o segredo. Não estou longe de pensar comtigo. Isto é um becco.

—Um becco! corroborei com desprezo.

—Mas queres saber a razão principal da sua nomeada? inclinou-se olhando-me vesgo. É que ella é o centro da vida nacional. Descolámo-nos para respirar, elle, porém, puxou-me de novo: Todos os grandes factos da nossa politica e da nossa litteratura derivam da rua do Ouvidor—ella é o estuario que recebe todas as correntes, o centro para onde convergem todas as forças activas da nação e donde se escoa a seiva intellectual...

—A seiva intellectual!... exclamei recuando, e meu tio, impassivel, acastellado na sua convicção, repetiu abanando com a cabeça:

—Pois não... pois não, seiva intellectual. E continuou: Tens ali a imprensa, e levantou a bengala para uma sacada onde havia uma comprida taboleta negra com grandes letras brancas—e, passeiando a bengala como um ponteiro, proseguiu: o commercio, a industria. Firmou-se passando o lenço pela fronte gottejante: O cambio, as leis, tudo quanto orienta e desorienta o Brasil sahe daqui...

—É o laboratorio, commentei com ironia, e meu tio aceitou:

—O laboratorio, pois não. Mais ainda, vou mais longe. A meu ver a nossa fórma de governo é a rua do Ouvidor, a nossa religião é a rua do Ouvidor—as constituições, os figurinos e os actos de fé sahem deste becco. Isto é a pia lustral que consagra os factos e os homens. Esta rua echôa todos os successos do mundo como na vida physiologica o cerebro, por um phenomeno de repercussão nervosa, reflecte todas as sensações do corpo. Meu tio, cançado do rasgo scientifico, aspirou largamente e tossiu, mas a facundia voltou: As mulheres, para imporem a sua formosura, descem e sobem a rua varias vezes. Ha um talento prodigioso por ahi além... quem o conhece? Ninguem! Quantos poetas vivem ignorados por esses recantos, sem jámais alcançarem a gloria da publicidade?

—O Simão Carreira...

—Sim, o Simão... Ha por acaso alguem que conheça o Simão?

—Eu, meu tio. Conheço-o e admiro a sua inspiração, sempre nova e fertil.

—Mas... tu és uma parcella insignificante. Para immortalisar um homem só o suffragio collectivo, e a urna aqui está. Tenho certeza de que o Simão, com um dia de rua do Ouvidor, faria mais pela gloria do seu estro do que tem feito com 28 annos de trabalho modesto no canto obscuro de Tamanduá, entre os milhos. Bastava que recitasse dois ou tres sonetos. E meu tio alongou o braço: O caminho da gloria é este, Anselmo.

—Não é feito de rosas, meu tio.

Davam tres horas e o calor escaldava. Meu tio propoz um grog gelado, no Paschoal. Iamos caminhando lentamente quando dei com os olhos em uma esplendida mulher loura, alva e rosada, de preto. Nos cabellos dourados uma especie de diadema régio, com duas cristas de pennas vermelhas, como no gorro do Mephistopheles, que eu vira, em tempos, numa illustração de Natal.

—Linda mulher, meu tio!

—Divina! concordou elle estacando para admirar. A loura aproximava-se coleando por entre a multidão, attrahindo os olhos lubricos, altiva, indifferente, com um andar soberbo de rainha, o collo farto escondido por um grande leque de plumas escuras, que ella agitava com languidez, como uma grande aza. Passou por nós e tive apenas o tempo de vêr a côr innocente e doce das suas pupillas azues, mais claras do que a celagem da altura e ainda mais suaves, a boca, pequenina e vermelha, uma curva sanguinea e humida. E o aroma que ficou á sua passagem, que delicioso!... Linda mulher! tornei voltando-me para admirar o airoso passo cheio de magestade e graça.

—É uma esculptura...

—Uma esculptura, meu tio. E, trincando o beiço, nervoso, tornei á phrase: Linda mulher! com effeito... Mas meu tio, que adiantara alguns passos, vendo-me parado a olhar, absorvido no vulto que desapparecia, chamou-me:

—Vem dahi. Vamos ao grog, que está quente a valer.