VI

Fomos descendo com vagar por entre a turba, ora collando-nos ás paredes, ora desviando-nos para o meio da rua para dar passagem ao feminino. Meu tio, apezar da sua corpulencia anafada, esgueirava-se sorrateiro e agil, sem perder a linha correcta que lhe dava o ar distincto de um diplomata em férias. Eu, porém, atordoado e zonzo, parava de instante a instante, evitando os esbarros e as collisões.

Uma rotunda senhora, de roxo, o rosto placido e sumarento, côr de goiaba madura, olhos fundos, de um brilho fulvo e máu, estacou diante de mim, ameaçadora e terrivel, inchando as bochechas molles, suffocada de ira. Precipitei-me para lhe dar caminho, mas com tal desazo, que nos encontrámos, frente a frente, numa umbigada tremenda. Foi horrivel! O vexame tirou-me de todo a calma. Dei um salto para a esquerda e encontrei a senhora, fugi para a direita, e ella... Assim estivemos um bom par de segundos num balancé ridiculo, até que fui repellido para o meio da rua, exhausto e com o chapéu na mão. E a senhora passou como uma avalanche, resmungando coisas atrozes contra mim. Ó divino De Maistre, queria que visses esse exemplar nedio e colerico do teu «bello animal», queria que o tivesses um minuto diante dos olhos para que me dissesses depois em que casta dos belluinos o classificarias.

Livre, respirei um momento, enxugando o suor que rolava copiosamente pelo meu rosto e, ancioso, perdido, alonguei os olhos procurando meu tio.

A multidão... a multidão... a promiscuidade terrivel... todas as variadas escamas desse camaleão—o povo (como disse uma vez em discurso o verboso promotor Gusmão, referindo-se ás mutabilidades da opinião popular, á versatibilidade da alma collectiva)... tonteava-me e meu tio, a preciosa escama celibataria e farta, sumida, longe da minha vista... Dei alguns passos attonito, desvairado, julgando-me perdido no oceano tumultuoso da populaça que me aturdia: os homens, com os seus cotovellos, as mulheres, com os seus olhos, com os seus cabellos, com o aroma que deixavam ficar no ambiente, como um pollen invisivel para fecundar o amor. Por fim, reconheci a voz de meu tio:

—Ó Anselmo!

Voltei-me ancioso e descobri-o á porta de uma casa, acenando-me.

Corri pressuroso e, mal nos encontrámos, desabafei: Que rua, meu tio! Que garganta! Que inferno!

Elle sorriu, sacudindo com um piparote alguma coisa que trouxera da multidão na golla do casaco, e, naturalmente, puxando-me pelo braço, collocou-me junto de umas caixas de biscoutos, ao lado de prateleiras carregadas de puddings e de frascos bojudos de geléas inglezas.

—Vamos ficar por aqui. Não ha mesa por emquanto. Lancei um olhar de exame á casa. Era uma sala vasta, dividida ao meio por uma linha resplandecente de columnas, de quatro faces, forradas de espelhos. O fundo era um grande espelho corrido do solo á linha branca do estuque, reflectindo, aprofundando o interior, rumoroso e cheio. As paredes, de alto a baixo, carregadas de garrafas; por dentro de um balcão de marmore e nickel, dois homens, em mangas de camisa, sacolejavam cocktails; ao centro, uma comprida mesa de serviço. A outra parte da sala era reservada á pastelaria e aos confeitos. Pelas vitrinas, frascos de compotas, latas de conservas; sobre o balcão pratos de fios d’ovos, bolos, tortas; nos mostradores semi-abertos alfenins e doces miudos, loiros: de creme; escuros: de chocolate, polvilhados de amendoas; pastilhas em bocaes enormes.

As portas estavam entulhadas de queijos, de salames e de linguiças e nos armarios de exposição os finos bombons em caixas artisticas, ornadas de chromos e polichinellos empanturrados de amendoas, sacolas e outras coisas de formas extravagantes—tartarugas, caixas de phosphoros e um Bismarck pançudo com o nome Boissier no retrospectivo lugar das palmadas na infancia, dos pontapés na virilidade.

Um grande aquecedor de empadas, rodeado de homens que mastigavam gulosamente. Do tecto, presas por fios negros, pendiam lampadas electricas.

Não havia uma mesa—todas cheias. Grupos de rapazes, os cotovellos fincados no marmore negro, gesticulando, falando alto, riam espremendo siphons. Senhoras cerimoniosas, com o véu levemente arregaçado, chuchurreavam sorvetes. Em uma mesa um rapaz loiro, imberbe, inclinado para o companheiro, pallido, de pince-nez, lia baixinho umas tiras de papel, levantando o braço direito em gestos supremos, todo arregaçado—o companheiro tinha os olhos perdidos no fundo do copo. Caixeiros azafamados passavam com bandejas carregadas, abriam garrafas, serviam pratos. Havia um rumor confuso e, de quando em quando, um berro: cognac! um nome: Barroso! e estouros de garrafas desarrolhadas, estrepito de louça, tinir de talheres...

Meu tio, que se voltara, disse-me confidencialmente:

—Tens aqui o Paschoal!

—É soberbo...!

—É chic.

De repente abandonou-me e foi-se precipitadamente, de esguelha.

—Com licença! Com licença! para a direita, para esquerda, porque era preciso incommodar os que faziam pacatamente a sua hora de lunch ou de vermouth, para dar passagem ao seu prodigioso ventre; e foi seguindo até o fundo da casa, junto ao grande espelho.

—Temos aqui uma! Temos aqui uma! disse, chamando-me. Já havia tomado duas cadeiras quando um sujeito magro, de cavaignac, avançou com um petiz ao collo, babujado de creme. Falou com a boca cheia: «Se lhe podia ceder uma cadeira?» Mas meu tio, com um sorriso, voltou-se, designando-me ao do cavaignac, como se lhe quizesse significar: «Bem vê que não é possivel, tenho aqui meu sobrinho.»

O homem agradeceu e foi-se com o petiz que chalrava, pedindo coisas, com os braços estendidos. Sentámo-nos. Uf!

—Uma estafa, hein, Anselmo?

—Uma estafa, meu tio!

—É sempre assim. E a um caixeiro que passava com uma bandeja de sorvetes:

—Ó Barros...

—Volto já, senhor commendador. Volto já. Foi-se, equilibrando os copos e meu tio, descançando o chapéu numa vara de metal que corria ao longo do espelho, bufou esbaforido:

—Está quente!...

—Um forno!

—Amigo commendador, disseram, e eu, pelo espelho, avistei um rapagão de fartos bigodes loiros, pince-nez, sobrecasaca e calça clara, que arriava a cartola cumprimentando meu tio. Falava a umas senhoras dando palmadinhas de carinho nas bochechas de um pimpolho, que amuava ao collo de uma negra retinta, com uma touca de seda, donde pendiam até os pés duas largas fitas cinzentas. Meu tio correspondeu com affabilidade offerecendo-lhe a mesa, onde, até então, sómente havia as nossas bengalas cruzadas. Elle espalmou a mão—que esperasse.

—Quem é, meu tio?

—O Dr. Gomes de Almeida, advogado. Moço de talento e rico.

—Bello rapaz.

—Boa prosa. Has de ouvil-o. Voltei-me, porque meu tio afastara a cadeira e já estava de pé. O Dr. Gomes, radiante e de braços abertos, apertou-o com intimidade.

—Meu sobrinho Anselmo... O Dr. Gomes de Almeida, meu amigo, apresentou meu tio. Trocamos um aperto de mão e sentámo-nos. O caixeiro, que voltava, inclinou-se passando pelo marmore uma toalha felpuda:

—Que ha de ser, Sr. commendador?

—Tres grogs.

—Não, não, acudiu o doutor—para mim, um cocktail. É a minha hora e em questão de habitos não transijo.

—Dois grogs e um cocktail, repetiu o caixeiro, deixando sobre a mesa um cartão minusculo. Meu tio, dirigindo-se ao doutor, disse indicando-me:

—É a primeira vez que vem ao Rio.

—A primeira vez! exclamou elle, cravando em mim os olhos claros.

—Estive aqui em janeiro de 72, cinco dias apenas, em um hotel. Grassava a febre amarella e meu pai, que viera para matricular-me em um collegio, ao fim de tres dias, resolveu abalar, aterrado, preferindo conservar-me ignorante, mas vivo, a seu lado, para governo das suas terras. Fugimos, e justamente no dia da nossa partida, no quarto proximo ao que habitaramos, faleceu um jovem americano electricista, que viera ao Rio por conta de um syndicato, tratar de uma empreza de campainhas. O correspondente, que nos escreveu, felicitando-nos pela retirada prudente, falou do pobre forasteiro dizendo que na agonia entrara a declamar em inglez umas coisas gementes, que mais tarde soube, pelo Dr. Azambuja, serem versos de Longfellow. Esse americano agonisando solitario entre os tabiques de um quarto de hotel, revendo na agonia as paisagens da Evangelina, nostalgico na suprema angustia, nunca mais me deixou o espirito. Apezar de o ter visto apenas uma vez, á mesa, não esqueci os traços femininos do seu rosto, de uma tez dourada e rosea, macia e branca como a de uma mulher. E tomei em tal horror o Rio que, apezar das reiteradas instancias de meu tio, fui-me deixando ficar entre as minhas arvores, onde não chega a peste.

—E ainda receia? inquiriu o doutor, sorrindo.

—Não tanto, mas na multidão parece-me ver passar, de vez em vez, o americano pallido, desvairado e hirto. Para mim essa visão de allucinado é como um presagio de peste e, sempre que me falam de alguma victima do terrivel mal, vejo immediatamente levantar-se diante dos meus olhos o desgraçado moço recitando:

In the Acadian land...

—É extravagante, disse o doutor. É um bello caso de impressionabilidade.

O caixeiro fez deslisar pela mesa uma bandeja carregada de copos.

—Dois grogs e um cocktail...

O doutor sorveu um trago e, depois de chupar os bigodes, perguntou com interesse:

—E como tem achado a cidade?

—Pouco tenho visto: cheguei hontem... Mas meu tio interrompeu com uma expressão concludente:

—Não gosta. Sonhara coisa melhor.

—É geralmente o que succede. Deu-se commigo o mesmo facto, disse o doutor. E voltando-se para mim: Imaginava o Rio uma cidade artistica, monumental e nobre, com abundancia de marmores, avenidas, longos passeios abrigados sob toldos, palacios de estylo e o fausto classico. A cruzarem-se pelas ruas carros, cavalleiros; o luxo incomparavel do sonho, a sumptuosidade da fantasia, o espirito, a elegancia, a belleza, e encontrou uma cidade vulgar, sem nada absolutamente do que lhe emprestara a sua imaginação, não é exacto? Sorri, mexendo lentamente o meu grog.

—Commigo succedeu exactamente a mesma coisa. Quando daqui parti, em 80, para ter o prazer de pisar o solo trilhado pela humanidade nas suas marchas atravéz do tempo, desde a éra aryana até o periodo em que se moveram da terra de França, para as campanhas ambiciosas, as legiões que seguiam a aguia altiva de Napoleão, fui perdendo illusões a pouco e pouco. Era já com tristeza que descia a escada do navio quando chegavamos a algum porto, porque levava de antemão a intima certeza de que ia ver aluir-se um dos meus sonhos—e era fatal.

Paris, por exemplo—é um assombro, incontestavelmente... um assombro! Infelizmente, porém, o Paris que eu imaginara era o antigo, que eu vira descripto nos primeiros romances que me entretiveram as horas de mocidade—Paris dos duellos, Paris dos lansquenets, Paris das tascas romanticas, Paris das vielas escusas, onde, á noite, á luz fumarenta das lanternas, tiniam as finas e flexiveis espadas dos pagens rebatendo a rapière dos burguezes, Paris de Ponson, Paris de Dumas... É ridiculo, não é? mas infelizmente é um facto geral.

Essas impressões das primeiras leituras que nos ensinaram a devaneiar, que nos tomaram pela mão para nos mostrar a estrada azul da fantasia, não esmorecem facilmente. É debalde que procuramos suffocar esse residuo de infancia ou de imbecilidade que fica em nossa alma, lendo solidas e doutas philosophias, espanando os preconceitos com o vasculho da critica e da analyse, destruindo, com as verdades da historia, as fabulas que adquirimos na novella e no conto. Esse sedimento subsiste como germen abafado de onde, longe em longe, espontaneo e violento, rebenta um broto de sentimentalismo.

A verdade é que nós temos duas divisões—a do mundo real e a do mundo imaginario, e esta é a primeira que buscamos. É atravéz della que a Poesia entrevê o céu, ella é que torna o mundo possivel, variando constantemente a sua face. Porque é que os astros são eternamente bellos? É porque nós os olhamos com um pouco de imaginação. O Oriente, por exemplo... que decepção, meu amigo! Quando desembarquei em Beyrouth, que é, por assim dizer, a porta da Syria, senti tal aperto d’alma que a minha vontade foi voltar para a cabine, a bordo do paquete, que ainda se balouçava no porto. Tudo quanto eu julgara encontrar nessa terra ancestral estava entulhado pela civilisação, aluido pelo progresso: A industria fincara os obeliscos das chaminés, que fumegavam como em Londres, como em Bruxellas, como em Amsterdão, a patria da genebra e dos organistas. O beduino, em vez de traçar, como nos tempos historicos, o albornoz listrado, encolhia-se sentado a um canto, fumando um cachimbo Cambier, raspando com as unhas as pernas magras, vestido com um paletó côr de cinza, de golla de velludo. O degenerado que me deu cêrco pedindo solicitamente o guarda-sol e o binoculo vinha assim vestido. É verdade que encontrei um filho do deserto, authentico, mas apezar do seu trajo pittoresco de scheik, apezar do yatagan e do cinto vermelho, ruminava um francez duro, offerecendo umas pedrinhas claras de uma fonte milagrosa citada pelo Propheta.

A Palestina... uma miseria! Mas o que jámais esquecerei é o que lhe vou dizer seccamente, em quatro palavras. Quer saber o que encontrei no alto do Calvario, justamente no sitio santo em que foi crucificado o Christo? Inclinou-se todo para mim olhando-me, fixando-me como se quizesse magnetisar-me, por fim disse com um gesto, sacudindo o punho e deixando cahir palavra por palavra com força e furia:—um grande mastro com um cartaz annunciando um leilão de jumentos... Um leilão de jumentos, é exacto! E virou de um trago o cocktail.

Que quer? os homens entendem que podem encerrar todas as tradições das raças nas vitrinas dos museus, já dispensam os sitios santos da religião, porque a Luz é a sciencia. Deus começa a ser analysado como o bacillo-virgula.

Meu tio, que se sentia ferido nos seus melindres religiosos, inquiriu com uma ponta de incredulidade:

—Mas, doutor, era mesmo um leilão de jumentos? Talvez fossem reliquias...

—De jumentos, vi-os eu no Calvario. Jumentos! E arreganhando os dedos: Quatro patas, commendador. Quatro patas e orelhas! affirmou.

—Cães! rusgou meu tio mostrando o copo ao caixeiro para que lhe servisse outro grog.

—Não se incommode, commendador, não se incommode, acudiu tranquillamente o doutor apaziguando a furia de zelo do meu beato parente. A religião ha de vencer, apezar de todas as guerras que contra ella movem obstinadamente os pseudo-reformadores. Isso, longe de destruir a crença, augmenta-lhe o prestigio. Que era a cruz antes do martyrio do Homem? um vilissimo instrumento de supplicio e é hoje um symbolo de misericordia, é a ancora com que nos prendemos á Esperança. O azorrague, a corôa de espinhos, o sceptro de canna, a tunica de byssus, tudo quanto foi para Jesus opprobrio, é hoje objecto de respeito e de veneração. Esse mesmo poste, alçado como um ludibrio, no santissimo lugar, acabou commovendo-me e não dobrei os joelhos devotamente, creia o senhor, não ajoelhei, repito, de vergonha, porque andavam por ali umas mulheres que não tiravam os olhos de mim.

—Ajoelhar-se diante do poste dos jumentos, doutor!

—Pois não, commendador, diante do poste porque elle estava fincado no Calvario, que é a montanha por excellencia, santificada pelas gottas do sangue do Cordeiro. O que eu ali via não era um poste de annuncio, era um mastro espetado no lugar em que estivera a cruz. Ali devia tremular a bandeira branca da Paz Universal. Tinha um annuncio, isso, porém, não era bastante para desmerecer o sitio aos olhos de um verdadeiro crente. O maldito reclamo, inventado pela ambição yankee, é que tem polluido os legados preciosos dos seculos.

Em Epheso, por exemplo, nas soberbas ruinas do templo de Diana onde, á noite, ao luar triste, a gente julga ouvir os latidos da matilha feroz e os gritos das nymphas perseguindo o misero e formoso Endymião, num fuste de esplendido marmore, entre folhas de acantho, avistei uma inscripção em letras negras—corri a decifrar e era um annuncio de capsulas de sandalo.

O commercio affixa em toda parte, escolhendo, de preferencia, os lugares celebres... O Passado vai desapparecendo sob cartazes de côres. Não ha mais antiguidades, não ha mais tradições, o que hoje ha é uma avidez sordida de dinheiro.

É preciso andar para conhecer-se o caracter do homem. Vende-se tudo nos mercados do mundo: innocencias impuberes e aguas mysteriosas que fazem voltar a mocidade, consciencias e homens. Em caminho encontrei de tudo, comprei de tudo para humilhar o semelhante. Em uma aldeia de Constantinopla, perto de um cemiterio todo em flor, ajustei, por uma bagatela, uma formosa rapariga que me agradeceu, cantando uma ballada turca, emquanto eu contava as moedas; em Smyrna abalou com um caixeiro que negociava em pannos, deixando-me, como lembrança, uma lata de contas e uma rosa de Jerichó! Tenho em casa, no meu gabinete de trabalho, reliquias preciosas compradas por ahi além, desde o monte Athos, onde subi para avistar o celebre convento d’Aghios-Dionysios, até Paris: o dedo com que S. Thomé tocou a ferida aberta no peito de Jesus pela lança de Longuinhos, um pouco da palha mastigada pelo burrico que carregou a Virgem para o Egypto, uma madeixa de João Baptista, o ciborio de cophen com que polia as unhas Maria de Magdala, um prego da cruz, uma prova da legenda que foi pregada no tope do aviltante madeiro e um dos suspiros do Bom Ladrão; e reliquias profanas—a clava com que Atila aterrou o Occidente, o tinteiro onde Carlos Magno molhava a penna para escrever os Capitulares, os oculos de Milton e os famosos sapatos com que o Alighieri andou pelas calçadas do inferno. Guardo tudo como recordação dos lugares que visitei para provar a vileza da alma do homem venal e torpe.

—Outro cocktail, doutor, offereceu meu tio.

—Não, obrigado, commendador; basta. E voltou-se de novo para mim offerecendo-me cigarros turcos:

Depois que vi o mundo estou convencido de que o Rio de Janeiro é uma bella cidade. E o meu amigo, dentro em pouco, ha de concordar commigo. Não é tão máu como parece. Demais, para um moço como o senhor, intelligente e forte, ha sempre uma aventura á espreita. Descahiu um pouco para o meu lado e disse-me, em tom mysterioso, apinhando os dedos nos labios para colher um beijo: O Rio tem mulheres esplendidas! e atirou o beijo com um estalinho. Ainda não as viu, garanto...?

—Pois não. Passou por nós uma loura lindissima!

—Uma...! Mas o Rio tem milhares, meu amigo. É preciso vel-as, conviver com ellas no meio em que vivem. Não é na rua do Ouvidor, creia: é nos salões, nos boudoirs... nos boudoirs...! Ah! as mulheres, as mulheres...! foram a minha perdição em viagem. Antes de ver os edificios, as bellezas naturaes e artisticas de um paiz, tratava de ver as mulheres e estou convencido de que é a mais bella coisa da Creação.

—Primeiro as hespanholas! aventurou meu tio com os olhos brilhantes de volupia, recostando-se no varão de metal que corria ao longo do espelho.

—Não sei, commendador, não sei. Olhe que as inglezas são lindissimas...!

Meu tio fez um momo.

—Espere, commendador, eu tambem pensava assim; mas em Londres convenci-me do contrario. Lembro-me sempre de uma noite em que se cantou o Ruy-Blas, no Covent-Garden... Commendador, não se descreve, creia, não se descreve. Imagine o senhor uma assembléa de estatuas, qual mais formosa, alvas de fascinarem, immoveis, numa attitude hieratica, com grandes aureolas feitas dos proprios cabellos louros. E os olhos azues, commendador, os olhos azues das miss! quem os cantará como elles merecem! A impressão que tive em presença dessas donzellas da antiga nobreza foi a que teria um pobre civilisado de hoje vendo subitamente abrir-se o céu pagão e apparecerem todas as deusas, todas as graças num zodiaco como aquelle hemicyclo de camarotes do theatro inglez. Que sei eu, commendador... Não havia uma mulher feia! Nem uma!

E espetou o dedo com convicção.

—Mas não têm vida, tornou meu tio, cruzando as pernas. São umas estatuas, como disse o doutor... E depois—que andar!

—Engana-se ainda, commendador. Decididamente o senhor precisa sahir do Rio. Londres é a patria das mulheres, convença-se, commendador. Não ha louras como em Londres.

—Não gosto de louras.

—Ah! então italianas: as morenas de olhos abrasados. Ha bellissimas mulheres em Roma, em Florença, em Veneza... A Zanelli... Meu tio piscou um olho discretamente; eu, porém, surpreendi-lhe a mimica no espelho fronteiro. O doutor calou-se um momento e logo continuou: Em Roma...

—Cá para mim não ha como a hespanhola. É a mulher que me agrada. Quem é que traz com mais graça a mantilha do que uma andaluza? Quem agita com mais arte um leque? E depois... é outra coisa! Cá para mim não ha como a hespanhola, insistiu.

—Quer saber onde encontrei bellissimos typos femininos? Na Russia. É exacto, lindas mulheres.

—E as turcas, doutor?

Fez um momo e balançou a cabeça negativamente:

—Não gosto...

Um caixeiro aproximou-se e disse-lhe alguma coisa em segredo. Voltou-se de golpe e, apanhando a bengala: Com licença: vou ali á porta ouvir um amigo. Volto já.

—Pois não, doutor.

Levantou-se e partiu com os dedos na aba da cartola, a sorrir.

—Que tal, Anselmo?

—Intelligente. Lembra-me o padre Coriolano que, por haver decorado o livro de Ruth, repete, sem omissão de uma virgula, todos os periodos do idyllio. O doutor, falando, não deixa no espirito a impressão de uma palestra, mas de uma leitura: tem paginas magnificas. Mas, francamente, parece-me exagerado.

—Mentiroso, mentiroso é que é... E carrancudo: Ha lá quem acredite na tal historia dos jumentos? Leilão de jumentos no Calvario... Ora bolas! Mas recahindo em tom brando e resignado: Dahi, quem sabe! do modo por que vão as coisas tudo é possivel. E com ar triste e tedio: Que miseria! Até a religião! e engoliu um sorvo.

Pelo espelho eu seguia todos os movimentos do doutor, que falava a um rapazola pallido, de olhos miudos talhados á chineza, bigode fino, uma singular physionomia de mascara de seda com uns toques de imbecilidade. O assumpto devia ser grave porque, de vez em vez, a fronte do doutor franzia-se e a sua cabeça douta pendia para o peito, scismadora e apprehensiva. O rapazola, com gestinhos femininos, enfeixando os dedos, fazendo beiços, dedilhando no ar, pronunciava baixinho, precipitadamente, puxando, de vez em quando, o doutor para soprar-lhe um segredo ou recuando de braços cruzados, a cabeça á banda, mudo e fito.

Por fim o doutor irrompeu com uma bolachinha entre os dedos, exaltado, frenetico, agitando o braço com violencia e furia; os labios tremiam-lhe, os olhos chispavam e o seu bigode fulvo estava arrepiado de colera.

Encolheu-se e, de improviso, atirando a bolachinha á rua, impoz gravemente a mão direita sobre o hombro do interlocutor e, meneando com a cabeça, disse alguma coisa de responsabilidade porque o outro tomou uma attitude cheia de mysterio para ouvir, mas subitamente, descahindo, prorompeu em rinchavelhada estridente sacudindo-se.

O doutor recuou um passo sorrindo e cofiando o bigode que amaciara. Como o pallido estendesse a mão, o doutor disse-lhe alguma coisa em tom intimo, elle esticou-se um pouco e espiou-nos com ar curioso, mas fez uma careta de desgosto calcando o ventre, alongando o beiço. O doutor sacudiu-lhe a mão num shakehand, disse-lhe uma phrase que elle acolheu com outra rinchavelhada e partiu. O doutor voltou immediatamente com um resto de sorriso e, sentando-se, disse para meu tio, em confidencia:

—Revolução em Matto-Grosso, commendador.

—Como! Ainda? exclamou meu tio saltando.

—É exacto, disse-me agora o Lyrio.

—Aquelle rapaz?...

—Sim, trabalha num jornal, é o debulhador dos crimes. Viu um telegramma.

—Isto é o diabo! exclamou meu tio espalmando as mãos nas coxas e derreando o busto.

—Qual, commendador: revoluções inoffensivas. Nós somos um povo bem fadado... todas as nossas revoluções são incruentas. Somos sufficientemente anemicos e é talvez por isso que nos vamos arranjando a secco. O sangue só escorre no noticiario, a carnificina só existe na local. Temos dado ao mundo o exemplo mais perfeito da harmonia dos poderes—as nossas lutas intestinas são uma blague de bom humor para alimento do artigo de fundo. Toda a nossa evolução social tem sido feita, não á custa de sangue, mas á custa de foguetes. Para dar-se ganho de causa a uma ideia basta collocal-a sob a protecção de uma banda de musica. Só ha dois factores de revolução no Brasil—a chirinola e o foguete de lagrimas. A semente da arvore genealogica da brava gente, commendador, é D. Quixote... A sciencia ha de confirmar mais tarde o que lhe digo hoje em palestra: nós descendemos em linha directa do heróe manchego. Até na mania das concessões temos o traço indelevel da alma do cavalleiro errante que promettia a Barataria quando Sancho, desalentado e moído, pedia para voltar á sua tranquilla aldeia. Não creia em revoluções, commendador, são moinhos de vento... moinhos de vento e nada mais.

—Creio bem, creio bem, mas não é pela revolução de Matto-Grosso. Que tenho eu com Matto-Grosso, não me dirá?

—Nada.

—Nada, certamente, não tenho nada; o que me preoccupa é outra coisa. Não imagina como essas historias fazem mal á praça. Basta o telegramma de uma aldeia qualquer, historia de um caudilho que se poz á frente de um lote de homens, para que o commercio soffra. E escancarando os braços: Senhor, correu um dia destes que iam depôr a intendencia de Maxambomba, pois não lhe digo nada: os titulos cahiram. Eu sei bem que o sangue de Abel, de que falam os jornalistas, é uma figura de rhetorica.

—Simples figura de rhetorica e já estafada e innocua, accrescentou o doutor.

—Mas os papeis soffrem, soffre o commercio, soffre o povo. E indignado, fechando o punho: Que diabo, dêem cabo de tudo, rebentem, estourem, mas não compromettam o credito do paiz! Isto é que é patriotismo. Agora estar a gente todo o dia a ouvir: revolução aqui, e cahiu para a direita; revolução ali, e cahiu para a esquerda; governador deposto, e apontou o tecto, revolta nos quarteis, fez um gyro-gyro com ambas as mãos fechadas. É horroroso... é uma vergonha!

Uma voz estrugiu em plena sala stentorosa e indignada.

«Vá ao Paiz... Vá ao Paiz, lá está o boletim...» Era um homemzarrão barbado, intonsamente barbado, uma cara terrivel de propheta, embrulhado numa sobrecasaca enorme, rapada e lustrosa, com um grande chapéu molle no alto da cabeça calva, côr de marfim antigo.

O doutor encolheu-se e murmurou:

—Fujamos, commendador, antes que o Braz nos venha falar da podridão moral. Baixámos a cabeça e meu tio fez um aceno ao caixeiro que nos servira e fomos sahindo sorrateiramente para que não nos visse o homem. Já haviamos chegado á porta, quando elle berrou indignado, caminhando para a mesa que deixáramos:

—Menino, dá cá um cognac!

Á porta, em um grupo, um rapaz moreno, de pince-nez, discutia assomado, aos pinchos para a direita e para a esquerda, avançando e encolhendo os braços num recúo athletico, a cabeça enterrada nos hombros ou espichado nas pontas dos pés, olhando por cima das lentes, com rugidos surdos. Segurando a bengala pelo meio sacudiu-a e, num salto de acrobata, rugiu numa voz espremida, descrevendo rapidamente um circulo no soalho:

—É o zodiaco do amor, é a escala chromatica do affecto, mas não se aproximem! ululou, encolhido, com os olhos chammejantes,—não se aproximem, porque a pomba, muitas vezes, fere como as aguias bravas. E calmo, calcando sobre a mola do pince-nez: É um mulherão!