IX

O dia amanheceu baço e humido. Chovera pela madrugada.

Meu tio, em candidos linhos, estirado num pliant de lona, com um jornal sobre os joelhos, olhava da varanda os rosaes ainda gottejantes. Saudando-me, interessou-se pela minha noite, indagando se não me assustara com os tremendos trovões da madrugada e, dizendo-lhe eu que nem os ouvira, lançou-me os olhos, admirado da valentia do meu somno de chumbo, affirmando—que o céu viera abaixo em raios e em agua. Sahimos ao jardim para ver os descalabros da tempestade nas roseiras e nas moutas de cravos e compungimo-nos, mais de uma vez, diante das esfolhadas de petalas ou á vista de um canteiro que a torrente da chuva escavacára. Mas já o jardineiro andava a recompor, pondo esteios, fincando espeques, ligando galhos, ajustando ramos, e meu tio, como se visitasse uma enfermaria de desastre, ia de arbusto em arbusto, sempre com uma phrase terna e cheia de condolencia, lastimando o botão que os ventos haviam arrancado ou a begonia pendida para a terra encharcada, quasi a morrer dos embates fataes da noite tempestuosa.

Almoçámos tristemente—repasto funebre de exequias, sem palestra, com poucos vinhos. Os canarios, como se participassem da agonia das rosas, estavam encolhidos nos poleiros, mudos. Sahimos logo depois do almoço, porque meu tio não queria demorar-se mais a olhar a devastação do seu jardim, mas como o Jeronymo lhe promettesse «arranjar tudo», recompoz a physionomia e, quando entrámos para a victoria, já elle levava o rosto transfigurado e dizia a rir «que as almondegas estavam coriaceas», cravando nos dentes um resto de palito.

Em caminho falámos do Dr. Gomes.

—A proposito, meu tio, de que vive elle?

—Tem uns predios, ganhou alguma coisa na praça á minha custa, accrescentou com superioridade. Deve possuir uns trezentos contos. Mas gasta muito, é um dissipador: o dinheiro foge-lhe das mãos como entrou.

—É solteiro?

—Solteiro. Vive com uma italiana bailarina, uma Denzi, Emilia Denzi. Bella mulher, boa voz, mas... E meu tio, num gesto eloquente, derreando a cabeça, entornou o polegar na guela e, com lastima, os olhos em branco: É uma pena!

—E elle?

—Tem theorias. Diz que é nevrose, que a culpa não é della, que aquillo é um mal hereditario e dá-lhe coisas a cheirar, e deita-a. É preciso vel-o. Já uma vez, lá em casa, foi um trabalho para conter a italiana. Entrou a beber e deu, a principio, para cantar ao piano, elle acompanhava-a tremulo, já desconfiado prevendo o desfecho. Cantou a Traviata e uma barcarola; mas, de repente, poz-se a achincalhar a musica e, sem mais, apanhou as saias e saltou para o meio da sala atirando as pernas ao ar num can-can furioso. Por fim tomou de uma peanha a mais linda estatueta que eu possuia, partiu-a e atirou-me os cacos á cara; elle, porém, com um heroismo generoso, poz-se á minha frente, recebendo no peito o que a furia me arrojara. É um perigo! Um perigo, mas mulher bella e de carnes.

Chegaramos ao largo, ao mesmo ponto em que, na vespera, haviamos estacionado, e meu tio impelliu-me para a rua, dizendo ao imperturbavel Edgar: Ás cinco!

Iamos caminhando em direcção á rua do Ouvidor quando meu tio, parando repentinamente, perguntou-me:

—Ó Anselmo, dize-me cá: tens dinheiro? Machinalmente levei a mão ao bolso, mas recolhi o gesto a tempo, respondendo, entre vexado e cubiçoso:

—Pouco, meu tio, creio que duzentos ao todo... tenho ainda umas compras a fazer: lan e talagarça para Marocas, uma Senhora de Lourdes para a velha e as obras do Casimiro para o Simão Carreira. Sem dizer palavra, meu tio sacou do bolso a enorme carteira empanturrada e tirou um macinho nitido, de notas largas, dobrou-o e deu-m’o sorrateiramente. Nem me preoccupei com a carteira, foi mesmo no bolso da calça que as guardei profundamente, acariciando-as.

—Precisas conhecer o Rio... tens ahi a chave de todos os mysterios. Acolhi com respeito a peroração sentenciosa do meu generoso parente, e do mais intimo de minha alma elevou-se, como num suspiro subtil e estremecido, toda a minha gratidão: Obrigado, meu tio. Elle, porém, ou porque não ouvisse, ou para affectar indifferença á dadiva, estendeu-me a mão liberal com estas palavras: Deixo-te aqui. Tenho ás 3 horas assembléa geral da Companhia Fomento Agricola. Não te vás perder, vê lá! Anda como quizeres, mas não saias da rua do Ouvidor e, ás cinco, no Paschoal. Sabes onde é?

—Pois não; sei.

—Vê lá!

—Vá descançado: Ás cinco horas no Paschoal.

Separámo-nos.

Fiquei algum tempo indeciso, sentindo-me mal na liberdade, receioso, timido, sem animo de atravessar sósinho a rua do Ouvidor. Parecia-me que toda aquella gente, que subia e descia, mirava-me achando-me desageitado e ridiculo, o ar tolo, os modos desalinhados. Meu terno tão perfeito, tres vezes provado e retocado por mestre Thomé Caminha, parecia-me largo e fofo, sem gosto, fazendo dobras nas costas, curto de mangas, curto de pernas, todo elle curto e largo, sem geito. Sentia-me mal e estive para correr ao alcance de meu tio, pedindo-lhe que me levasse á assembléa do Fomento, tal era o desanimo que de mim se apoderava ao ter de atravessar, sem companheiro, a rua que eu via diante dos olhos, atulhada de gente, apezar da ameaça sombria das nuvens que rolavam no céu, turgidas e tumidas de aguaceiros. Diante de uma vitrina lancei um rapido olhar de analyse e achei-me escorreito e liso, apenas o chapéu havia tombado para a esquerda; puxei-o e, estacando, a enrolar um cigarro, o olhar errante como se procurasse alguem, deixei-me estar algum tempo a invocar coragem para vencer a cobardia do meu espirito acanhado. Por fim atrevi os primeiros passos e fui caminhando vagarosamente, cauteloso, para não ir de encontro aos que vinham azafamados, indifferentes, abrindo caminho á força de hombros e cotovellos.

A minha idéa era o Paschoal. Ali, ao menos, sentado a uma das mesas, ninguem daria por mim e poderia ficar até ás cinco á espera de meu tio, livre daquelles olhos que me pareciam despir, livre daquelles sorrisos que pareciam criticar os meus gestos selvagens e o meu lento e medroso caminhar de rustico. Mas, subitamente, como se despertasse dentro em mim uma nova energia, senti-me desembaraçado e altivo. Parti, pisando forte, a olhar d’alto a gente; mas ao cabo de alguns passos, um grupo de senhoras garrulas colheu-me num encontro amigo, no enleio expansivo de uma intimidade affectuosa, o fiquei collado á parede a ouvir beijos chochos trocados com precipitação e risinhos, emquanto um pequeno, vestido á maruja, mettia-se pelas minhas pernas empurrado pelas amistosas damas.

Atroz menino! atrozes senhoras! Uf!

Esbaforido e suado consegui desentalar-me do aperto intimo, maldizendo as minhas patricias que andam pelas ruas, como as formigas pelos trilhos da roça, esbarrando os labios em beijinhos. Afastei-me da calçada para evitar nova collisão e segui lançando os olhos adiante na esperança de descobrir o doutor que, segundo a affirmação peremptoria do meu tio, devia andar pela rua do Ouvidor digerindo o almoço e commentando os nossos erros politicos e os ultimos livros de França. Infelizmente, porém, cheguei ao Paschoal sem ter sequer divisado a sua sombra e conjecturei que se deixara ficar em casa amarrotando as housses dos divans em longos espreguiçamentos de tedio, com os seus poetas, em solidão ou tendo a seu lado a italiana, em toilette tenue de cambraia e rendas, mexendo grogs de cognacs, com um romance de Tosti nos joelhos.

Um homem como o doutor não abandonaria o lar num dia como esse de spleen e de nevoa. Que viria fazer á rua senão chapinhar na lama e ouvir as queixas indignadas dos politicos, que presagiavam, com grande cópia de argumentos, um futuro tragico de assassinios e de roubos, de violencias e crimes barbaros? Que viria fazer á rua quando podia estar no tepido aconchego do seu «home» arrulhando nesse doce toscano, que foi o idioma dos amores, no tempo em que a humanidade, menos civilisada, amava? Não, meu tio errara na sua affirmação: o doutor não andava pela rua do Ouvidor, devia estar nas Laranjeiras, a reler poemas para distrahir a paixão bacchica da italiana iconoclasta, ou a traduzir os sabios conselhos de Martial sobre a felicidade, onde o poeta escreveu este hemistichio sobrio que, de per si, constitue um elemento de paz e de ventura: nox non ebria... talvez nunca experimentado pela bailarina.

Apezar de pensamentos taes, não me abandonava a esperança de o ver surgir de repente, muito correcto na sua toilette justa, espalhando em sorrisos o seu bom humor e a sua graça.

Da porta do Paschoal estive longo tempo a contemplar o meio corpo de um homem que ficara á esquina, parado. Via-lhe apenas um lado: meia aba do frack, uma perna, metade do chapéu. Tive impetos de partir para reconhecel-o; mas, evitando-me os passos em vão, o homem voltou-se—era um sujeito moreno, abaçanado, com grandes bochechas molles picadas de bexigas—um bigodinho ralo descia-lhe pelos cantos da boca em duas gotteiras. Cançado, resolvi entrar. Havia uma mesa junto á porta, encostada a uma das columnas. Tomei-a.

Pouca gente. Rapazes, o ar entediado, bebiam. O que eu vira no primeiro dia, lá estava abancado a ler a mesma tira, creio, a um pequenote de olhos espertos que bebia, sedentamente, a grandes goles, uma agua effervescente dando com a cabeça loura em signal de approvação. O da tira levantava gestos que deviam exprimir coisas de subido alcance ou guindava, com os dedos em feixe, tremulamente, numa ascensão olympica, a imagem ou a estrophe, e o outro, radiante, como um auditor romano dos que ouviam Estacio, sorria, acompanhando com um olhar ineffavel os dedos, que já iam pelo ar subindo, subindo sempre, á proporção que a voz se ia tornando cava e profunda com um rumor longinquo de trovões de estio.

Quando o caixeiro veiu ter commigo, ouvi distinctamente o ultimo ronco e logo em seguida a voz infantil e clara do auditorio.

—Bonito! Bonito! Delicioso, Mendes! Delicioso! e docemente, numa lisonja amavel, repetiu o verso final:

Neste cymbio de prata...

O resto do verso, que devia ser divino, perdeu-se no estouro de uma nova garrafa d’agua aberta para o pequeno enthusiastico e sedento. O da tira dobrou-a com indifferença e guardou-a no bolso interno do casaco atirando para cima da mesa uma nota.

Na mesa contigua uma virago de luto mastigava gulosamente com um triturar famelico de mandibulas, diante de um velhote casmurro, que meditava levando, de vez em vez, á boca, escondida por trás da barba curta e amarellada, o copo de cerveja. A mulher devorava atabalhoadamente e elle, taciturno, parecia muito longe d’ali, com os olhinhos fitos no vago, em algum sonho de saudade, talvez na imagem sempre viva de quem se fôra e por quem elle trazia a cartola enrolada em crepe e a mulher insaciavel o merinó de luto. O caixeiro acudiu ao meu appello. Encommendei um grog. E voltei o olhar para os dois rapazes. O da tira tomara uma attitude de abandono, as pernas cruzadas, cahido sobre a bengala, cujo castão perdia-se-lhe na axilla; o pequeno accendera um cigarro e baforava, farto.

Trouxeram-me o grog.

Um tlim-tlim ao lado attrahiu-me a attenção. O caixeiro acudiu num salto. O velhote, sempre triste, passou a mão por sobre os destroços, responsabilisando-se por tudo, e empinou-se para sacar o dinheiro do bolso. A virago chupava os dentes com estrepito endireitando a capota ao espelho. Levantaram-se os dois. O velho dava pelos hombros da mulher e, magrinho, engelhadinho, fazia dó vel-o humilhado pela abundancia daquella Eva formidavel, de seios enormes, que o arrastava soberanamente como a cauda do seu vestido arrastava os palitos do chão. Fazia dó ver aquelle homem diminuto e franzino ao lado daquella fartura—e foram-se, ella adiante chupando os dentes, elle seguindo-a, com o guarda-chuva debaixo do braço, contando as notas do troco.

Acompanhando com o olhar o pobre velho, que desapparecia no rasto da poderosa Cybele, passou-me pelo espirito este pensamento estranho: Esse homem apanha da mulher.

E ri, ri francamente, imaginando o homunculo, em camisa de dormir, descalço, a saltar, a correr perseguido pela mulher possante que lhe atirava varadas ás pernas seccas e guedelhudas.

Enfastiado de estar ali sósinho, resolvi tomar rumo, e como o caixeiro passasse, atirei-lhe dinheiro. Elle inclinou-se esfregando a mesa com um guardanapo e indagou:

—Foi um grog?

—Sim, um grog, disse-lhe e, lembrando-me de que era assiduo na casa, tive a feliz inspiração de interrogal-o:

—Não esteve por aqui o Dr. Gomes de Almeida?

—Sim, senhor; esteve aqui, mais um outro, um de barbas louras, e puxou das bochechas duas suissas imaginarias.

—Ha muito tempo?

—Ás onze e meia, mais ou menos.

Retirou-se depois de perguntar-me se queria mais alguma coisa.

Levantei-me para sahir: não havia, porém, chegado á porta quando alguem poz-se a bradar:

—Ó senhor! Ó senhor! Voltei-me; era o caixeiro que me perseguia sorridente e apressado:

—Olhe ali em baixo o Sr. doutor Gomes...

—Onde? indaguei ancioso.

—Acolá, ao fundo.

Ainda não conseguira descobrir o paradeiro do illustre moço e já a sua voz clamava por mim de longe, festivamente:

—Bemvindo seja o meu amigo!

Avancei pressuroso e radiante, esgueirando-me por entre as cadeiras para cahir nos braços do meu recente amigo. Apertámo-nos e, em poucas palavras rapidas, contei a minha peregrinação pela rua nesse dia obscuro e inerte. O doutor, com um gesto vago, lançou apodos ao clima e, arrebatando-me para a mesa, apresentou-me a uma formosa mulher loura, em cujo rosto reconheci promptamente as pupillas azues mais claras do que a celagem, que tanto me haviam seduzido quando, pela primeira vez, palmilhei o lagedo da rua do Ouvidor.

—Mlle. Marie, ou simplesmente Marion, a divina Marion... E á loura, com distincção: Dr. Anselmo Ribas, meu amigo. Curvei-me ao peso do titulo e diante da belleza. A divina Marion desabrochou um sorriso adoravel, todo doçura e graça, á flor dos labios finos e offereceu-me a pequenina mão apertada em uma luva côr de perola que lhe subia ao cotovello, enrugada e cheia de pulseiras. Commovido e tremulo tomei a mão leve de mademoiselle e que de esforços empreguei para não a levar aos labios!

Mettez-vous ici... disse-me ella afastando-se com um rumor de sedas, comparavel ao que fazem os bandos de pombos bravos quando levantam o vôo das margens dos rios, na minha terra.

Sorri e balbuciei com uma pronuncia tosca: Je vous remercie bien.

O doutor affixou com habilidade e graça:

—Meu amigo, exprima-se em vernaculo, sem cerimonia. Marion é de Paris, mas fluminense pelo coração. Mademoiselle asseverou galantemente com a cabeça loura. Sorri.

—Iamos por um champagne e pela moral de Philetas. Falavamos do amor na accepção terna do termo, tão vilmente abastardado pelos actos civis e religiosos do casamento e bebiamos Clicquot frappé. Veja o amigo se está pelo thema e se aceita a bebida, que nesta casa é detestavel, valha a verdade.

—Perfeitamente, disse voltando-me logo para os olhos doces de Marion.

O doutor ergueu a garrafa esgotada e impoz ao caixeiro:

—Outra e uma taça. E logo tornou: Para um celibatario de gosto, meu amigo, não ha actualmente no Rio melhor emprego de capital e, com a mão aberta, estendida, indicou-me Marion. Fala tres linguas e com uma voz... Não é esta que o amigo ouve, não, é bem differente—modulada em bemóes languidos. Ó Marion, dize alguma coisa no tom intimo, fala como se estivessemos no teu ninho. E mademoiselle, rolando os olhos, pipilou:

Mon p’tit’! O doutor, em veia alegre, derreou-se perdido.

—Ouviu? e ainda não é tudo! Quando ella diz: Mon amour! e apertou o proprio peito estremecendo e demorando a exclamação. Ah! meu caro! Mon amour! hein, Marion? Mademoiselle baixou as palpebras maliciosamente. E o doutor continuou: Executa Chopin e tem uma estante de classicos. E mais do que tudo isto—dezoito annos.

Dix-neuf, emendou Marion, dando com o leque uma pancadinha no hombro do doutor. Dix-neuf, Gomes. Quand j’avais dix-huit ans j’connaissais pas encór’ l’amour... arrulhou endeixosa.

—Pois sim, dezenove; mais um, que não apparece ainda á flor do rosto. Ah! porque os annos realisam o eterno principio da gotta d’agua, já citado por Montaigne—accumulam-se, accumulam-se sem que a gente se aperceba e, ás vezes, basta um dia para que a velhice transborde em rugas e em cabellos brancos. Não achas, Marion?

O caixeiro serviu o champagne.

Mademoiselle tomou a sua taça e, erguendo-a, cumprimentou-me: M’sieur!

—Mademoiselle! correspondi; e os crystaes tiniram. Mas (e aqui faço a confissão da perfidia covarde de que me tornei culpado) não foi só isso, por baixo da mesa senti que um pésinho roçava pelo meu carinhosamente e, num movimento allucinado, calquei tambem, com toda a violencia do meu amor e com todo o peso dos sapatos inglezes. Mademoiselle, sem um protesto, impassivel, bebia; e eu, num delirio indomavel, baixava os olhos attrahidos pela alvura do seu collo esgargalado, de uma tez fina onde passavam fremitos dourados.

—Demora-se no Rio? indagou a divina Marion, rilhando as palavras.

—Pouco, mademoiselle.

—De onde é?

—De Minas.

—Ah! de Minas... Recolheu-se um instante e, pouco depois, perguntou-me com a sua voz mysteriosa, a encantadora voz de que falara o doutor:

—Conhece em Juiz de Fóra, Amancio...?

—Amancio! Amancio de que, mademoiselle? E os nossos pés trucidaram-se cruelmente.

—Amancio de... Tocou os labios com o leque, elevou as pupillas num olhar extatico e nervosa: não sei de que... É um gordo, tem uma fazenda com muitos bois, faz queijo...

—Não, mademoiselle, não conheço.

Calámo-nos. O doutor, pensativo, desfazia os crystaes de gelo no champagne, balançando a taça. Mademoiselle tornou-se de novo extatica.

De improviso o doutor chamou-me.

—Tem algum compromisso para amanhan, Sr. Anselmo?

—Nenhum, doutor.

—Quer vir almoçar commigo?

—Com todo gosto.

—Podemos fazer uma ascensão ao Corcovado? Ainda não conhece o Corcovado?

—Ainda não.

—É bello! E dá-se commigo um caso estranho—sinto, de vez em quando, a necessidade da altura, tenho a mania satanica de contemplar da montanha as coisas inferiores. Já experimentou a delicia vaidosa de ver toda uma cidade a seus pés em nivel humilde? É delicioso, meu amigo. Demais, recebe-se o ar em primeira mão, fresco e puro, sem os toxicos da vida rasteira e certos de que a golfada que respiramos não andou pelas cavernas de pulmões enfermos.

—Aceito com prazer, doutor...

—Queres ser do bando, Marion?

—Não é possivel, disse com lentidão mademoiselle trincando os labios.

O doutor encarou-a e por fim sacudiu a cabeça resignado:

—Pois iremos nós...

Calquei o pésinho para ver se por meio delle conseguia vencer a caprichosa, mas com surpreza senti que me fugia esquivo. Insisti amoravel:

—Então porque não vem comnosco, mademoiselle?

Pas possible... disse com um momo abrindo e fechando com estardalhaço o leque. E pondo-se de pé, num impeto:

Eh! bien... j’m’en vais...

O doutor mirou-a. Mademoiselle estendeu-me a mãosinha:—M’sieur... e friamente, dando as pontas dos dedos ao doutor:—Au revoir!...

Au revoir, Marie; disse com lentidão cruzando as pernas e, quando a viu sahir, passando nervosamente a mão pelos cabellos, exclamou entediado. Idiota!

—Zangou-se? indaguei com interesse.

—Ciumes... Que quer o meu amigo? não ha um ser perfeito. Veja essa mulher divina... é ciumenta. Ciumenta a ponto de fazer tolices. Bolas...! E casmurro: Eu sei como tudo isto acaba: vão ambas para a rua! não ha que ver. Vão ambas para a rua... E recuperando o natural: Então está combinado?

—Perfeitamente.

Trincou um charuto e irrompeu assomado:

—Um dia magnifico, não ha duvida... magnifico! enguliu um pouco de champagne e continuou: Não sei se o meu amigo cultiva a volupia do somno matinal, o somno das seis ás dez? É uma delicia! O somno da noite dorme-o todo o ser—o operario e o poeta, a agua gemente e a flor, mas o extra languido, o somno tepido da indolencia, esse é exclusivo dos privilegiados que conhecem a vigilia—esse é incomparavel, porque, não sendo um acto normal, é um vicio e, como todo vicio, encanta. Eu penso assim. Difficilmente deixo os lençoes antes das dez. Acho que um homem de gosto deve encontrar o dia pleno, em viva luz, passaros cantando e tudo em ordem para recebel-o porque, sahir pela manhan, á hora em que a natureza se arranja, quando o sol nasce e os passaros acordam, produz em mim a mesma sensação de desgosto que experimento quando entro em uma sala de jantar no momento em que o copeiro estende a toalha. É odioso! Sou um commodista extremado—gosto de achar tudo prompto, limpo e nitido—o céu todo em sol, a mesa já florida. Haverá coisa mais ridicula para os olhos de um homem do que surprender a mulher amada diante do espelho, em penteador, sem meias, amaciando a cutis ou trançando os cabellos, ainda com os olhos empapuçados de somno? É desolador! Levanto-me tarde, desço para a ducha, visto-me—uma grande hora de trabalho lento, mirado e caprichoso—e ganho a frescura do jardim, uns metros de terra onde brotam cravos e bogaris, sob a copa frondosa de uma amendoeira amiga. Ahi leio pausadamente os jornaes e bebo o café e o cognac, ouvindo os meus canarios. Sem essas minudencias sou um homem inutil. Recolhi-me tarde, muito tarde, e sem somno. Reli uns capitulos de psychologia experimental e confesso que fiquei impressionado. Eram talvez quatro horas da manhan, cantavam gallos pela visinhança, quando consegui conciliar o somno. Pois ás seis fui violentamente acordado, porque um intimo carecia do meu auxilio para resolver uma questão magna. Note o meu amigo que sempre tive uma decidida vocação para a gynecologia, recuei diante do forceps e dos outros apparelhos de viabilidade fetal simplesmente porque as senhoras preferem dar á luz á noite... Se não fosse a hora incommoda preferida pela genese, eu seria hoje um parteiro notavel. Sou advogado, homem de leis e de rhetorica. Desci desesperado. Borrifei-me com um pouco d’agua, sorvi, ás pressas, um gole de café e, ainda em jupon, bocejando, recebi o intimo na minha sala de estudo. Quer saber o motivo da visita do meu illustre despertador? a crise de transportes. Baniu-me do leito para pedir-me um artigo violento contra a Central. Escrevi, deve sahir amanhan. É um horror! resente-se terrivelmente do meu estado de espirito. O intimo collaborou dando-me a assignatura, que é um mysterio de que elle faz segredo: A alma de Frei Góes. Não sei que quer dizer, mas presumo que ha dentro disso coisas de subido alcance. Mas agora, entre nós, que diabo tenho eu com a crise de transportes? Cruzou os braços e encarou-me. Que tenho eu com tudo isso? As cargas que apodreçam ao sol, pouco se me dá que haja ou não sal em Matto Grosso e sapatos em Goyaz. Que se arranjem, deixem-me em paz, deixem-me dormir. Que tenho eu com a crise? Houve uma pausa curta e o doutor tornou: Depois do artigo uma scena de ciumes. Uma mulher idiota que se revoltou porque um intrigante qualquer lhe foi dizer que andei seguindo os passos de uma hespanhola, no Polytheama. Virou o resto do champagne. Eu sentia-me meio atordoado—ardiam-me os olhos amortecidos de somno.

—Mas, meu amigo, voltando á minha leitura da noite: confesso que estou deveras impressionado. Tem lido os modernos estudos psychicos?

—Alguns.

—E... que pensa da alma? indagou.

—É uma hypothese, aventurei.

—Como! uma hypothese? Não crê?

Sorri, e entrei a falar como se dictasse: As minhas idéas sobre psychologia estacam diante dos tumulos: depois da lapide mais nada. Não posso comprehender essa verdade suprema dos philosophos romanticos—a vida posthuma. Alma é o atomo, alma é a monéra, alma é a cellula, alma é o sangue. Das causas puras, doutor, só podem derivar iguaes effeitos, entretanto o odio germina dentro em nós, o ciume, a aversão, a antipathia, abjecções proprias da materia, naturalmente affecta á podridão pela sua propria essencia—o verme. O nosso corpo é um thermometro, de que o sangue é o mercurio. Nos periodos pacificos e normaes marcamos os gráus baixos da tranquillidade; um pouco que o sangue ascenda ao cerebro, como o mercurio sobe, ao calor dos fortes estios ou das febres, temos a exaltação, o delirio, todos os horrores do desequilibrio mental, todas as concepções extravagantes e allucinadas. Creio no Nirvana porque adoro o silencio. Ao céu, ao promettido paraiso, falta a primeira condição: variedade. A vida eterna deve ser monotona. O meu ideal é o fim absoluto. Isto de vida, doutor, é um phenomeno de attracção de moleculas. O homem vem ao mundo pela mesma razão porque vem á arvore o fruto, o fio d’agua á rocha: fatalidade, sympathia, cohesão, tudo quanto quizerem, da vida physica, da vida material; mas de alma, espirito invariavel e eterno, sopro de Deus, etc., etc.... não percebo. Alma como conjunto dos sentidos, admitto. O beijo é uma premissa do amor, o amor é uma manifestação da alma.

Doutor, estude a psychologia em uma criança: é um brutinho, incapaz de pensar, incapaz de outra coisa que não seja vagir e chupar tetas. A primeira manifestação é toda material: o choro, manifestação positiva do soffrimento ou do tedio, que é innato, e a fome manifestação do instincto—a alma mysteriosa não dá signal de si. Com o correr dos annos chegam os sentimentos, isto é, o aperfeiçoamento das sensações. É por meio delles que as fibras delicadas do cerebro e do coração vibram; essas vibrações formam a vida complexa do amor, do ciume, do desespero, do pensamento, etc. Para a velhice, com o declinio do corpo, todo o organismo definha e a alma, immortal e forte, em vez de sustar a queda da carne, auxilia-a porque os sentimentos affluem todos para a saudade, que é a velhice das paixões; ella é que vive até á caducidade, até á bestialisação, até á regressão ao primitivo estado de inconsciencia. Alma é a vibração da mocidade, alma é a ardencia do sangue. Infelizmente nós outros oscillamos entre dois crepusculos—a ignorancia da primeira idade e o pavor do fim dos annos. Não creio, doutor; em alma, não creio.

—Mas, pelo amor de Deus, meu amigo... acudiu elle, vejo, pela prelecção que acaba de fazer, que é um materialista intransigente; isso, porém, não impede uma observação singela. Abriu um parenthesis para propôr mais champagne; recusei e elle continuou firmando-se nas minhas palavras: Vivemos entre dois crepusculos, disse o meu amigo, mas os crepusculos succedem-se numa eterna continuidade—as almas têm o occaso em um corpo, mas resurgem em outro. A alma existe como existe a luz e ha de existir até á ultima dynamisação. O corpo é um casulo. Como já lhe disse, creio firmemente na vida eterna das almas. A civilisação é o resultado da longa pratica do espirito humano: a carne é uma especie de alambique, mediador plastico entre a concepção e o movimento. Os homens que fizeram as primeiras obras, os donos das idéas iniciaes, são esses mesmos que as continuam. A morte é apenas uma solução de continuidade.

Nós não fazemos outra coisa senão aperfeiçoar o que dantes fizemos. As idéas tem o seu alpha na antiga era. Ha uma estranha connexão entre o pensamento moderno e o modo de ver dos antigos—a synthese de hoje vem da analyse de hontem. Nós, a civilisação, estamos continuando a nossa obra barbara. Somos os mesmos. A alma de Lucrecio resurgiu em Virgilio e a de Pythagoras, antes de metter-se no corpo do sophista, animou Euphorbio, filho de Panthous. Quem sabe se dentro do meu amigo não vive a alma sceptica de Zenon?

—Não, doutor, a alma que se aloja em meu corpo nunca perscrutou mysterios transcendentes—é a mais ingenua das almas, contenta-se com um pouco de sonho e com um pouco de amor. Como disse, as minhas idéas estacam diante dos tumulos. Depois da morte mais nada.

—Mas, meu caro amigo, note que já os egypcios pensavam que «a morte é um meio e não um fim»—um meio de perpetuar a vida. A sciencia moderna vai desbravando o mysterio da immortalidade: o zaimph de Isis cahiu deixando a grande deusa descoberta, e são tão fortes e peremptorios os argumentos em favor da existencia perenne, que é hoje quasi um absurdo a negação da Eternidade da Alma.

—É possivel, doutor.

—É de uma arvore que murcha que se colhe a semente para as florescencias futuras. As suas idéas estacam á beira do tumulo, porque encontram o silencio completo? não; porque encontram a realização perfeita do absoluto? não; um cadaver, posto que vasio, existe. Nada se perde, nada é inutil. O espaço é o nada e o espaço existe. Que tem o espaço? constellações; a morte tem tambem os seus astros, o fogo fatuo, por exemplo, é uma estrella funeral.

Demais se, como diz, as suas idéas estacam diante dos tumulos, devem igualmente estacar diante dos leitos.

—O doutor maneja adoravelmente o paradoxo.

—Perdão, não é o paradoxo, é a analogia. Diante de um dormitorio tem-se o exemplo perfeito, o symbolo, devo dizer, de uma pequena necropole: o leito é um esquife. Reza-se para dormir e reza-se para morrer; a lampada serve tanto para os mortos como para os que dormem. Uns e outros têm a mortalha...

—Doutor, mas isto é francamente o que nós outros, pobres rusticos, chamamos Poesia.

—Perdão, todo mysterio tem um fundo poetico. Mostre-me uma religião sem prophetas e os prophetas são os poetas esotericos. Mas continuando: o sonho não será a iniciação de uma outra existencia? O sonho não será uma previdencia?

O corpo adormecido roja-se; parece que tem a nostalgia da terra; e a alma? paira, fica de vigilia como ficava, segundo o pensamento dos padres de Osiris, de guarda á mumia em que havia habitado. O somno é o tunnel por onde a alma atravessa. Meu caro amigo, não ha morte: Sisypho é o symbolo da vida.

—Confesso, meu caro doutor, que apezar da belleza da sua doutrina, o meu espirito repelle-a. Escreva um poema com essas idéas, um poema de mysterio no gosto dos Versos Dourados.

—Pudesse eu, meu caro! Sacou o relogio e poz-se de pé: Vamos sahir? Isto está funebre.

—Tenho um encontro para as cinco.

—Feminino?

—Não, meu tio.

—Ah! Então demoro-me mais alguns minutos. É cruel deixar um amigo abandonado nesta triste sala em um dia como o de hoje. E de repente: E se jantassemos juntos...?!

—Onde? indaguei.

—Por ahi, em uma baiúca qualquer. Pretexto para conversarmos. Temos a ameaça de uma noite terrivel, podemos atravessal-a queimando punchs em algum gabinete, em companhia de alguem que nos ajude a arrastar o tedio até a madrugada.

—Aceito, mas com a condição de impôr alguma coisa: iremos a um theatro, não para o espectaculo, pouco me preoccupo com o que se canta em palcos, mas confesso, em intimidade, que tenho um desejo louco de ver a caixa de um theatro... Dizem-se tantas coisas...

—É horrivel, meu amigo, mas não pense que me recuso, póde dispôr de mim. E mais ainda, sei que não conhece o Rio á noite, proponho-me a mostrar-lhe, em uma noite, todos os mysterios desta cidade que começa a ter vicios. Joga?

—Pouco.

—Conhece a roleta?

—Conheço. E o doutor percebeu pela expressão dos meus olhos que eu não era de todo indifferente á tavola.

—Pois ha um meio de conciliarmos tudo; vamos jantar ao club. Voltando-se, o doutor deu com os olhos em meu tio, que assomára á porta, sempre jocundo, já acenando para o nosso lado. Levantámo-nos para recebel-o.

—Meu caro doutor... e logo, dirigindo-se a mim: Então? como te arranjaste?

—Perfeitamente.

—Bem... e de improviso: Vem jantar comnosco, doutor?

—Hoje não é possivel, e indicando-me: Vou mostrar ao amigo Anselmo o Rio de Janeiro, á noite.

—Então, até amanhan.

—Até amanhan, meu tio.

—E não te cances muito, ajuntou com um sorriso: amanhan á noite temos a festa do Bessa, em Botafogo. E ao doutor: Lá nos encontraremos.

—Não garanto.

—E cuidado, Sr. Anselmo, cuidado! O Rio, á noite, é um perigo para os que vêem pouco.

—Descance, commendador: eu vejo admiravelmente.