XI
Vamos refocilar na devassidão, disse o doutor quando nos apeamos. Infelizmente a besta que trazemos em nós exige esse mergulho de quando em quando. Os hygienistas não se aperceberam desta grande verdade: o homem espoja-se. O corpo exige, com a mesma tenacidade, o exercicio e a insania, a tensão dos musculos e o enervamento, como o espirito requer o real e o ideal. O vicio mantem em silencio a carne: é um repasto material. É preciso satisfazer o animal. Estudei profundamente o organismo do homem e cheguei á convicção de que a vida serena é um absurdo impraticavel. A vida deve sujeitar-se ás leis do movimento—a variedade é um facto. Confesso ao meu amigo que sou avesso ao deboche, detesto a vida de noceur; mas sinto, de longe em longe, necessidade de atravessar uma noite desfolhando rosas em champagne, no fundo de um gabinete discreto, com uma grisette que me recite a léria do amor, trincando lascas de fiambre e queimando cigarrilhas. Acho prazer, prazer perverso, porque sou um detestavel instincto. Estacou e disse-me de novo: um detestavel instincto.
Se pudesse viver como me inspira o temperamento, garanto-lhe, meu amigo, que as chronicas terriveis de Gilles de Rais desappareceriam como banaes e pueris. Depravar a humanidade!... deve ser um prazer magnifico. Ver todo um mundo no vicio, numa orgia sardanapalesca, ao sol, cantando. O vinho a correr pelo leito dos rios. Em vez de barcas, grandes cantaros fluctuando; e gente a beber, a cambalear, a cahir, besuntada e tropega, crianças e velhos, virgens, monjas, tudo, a babel terrivel do satyrismo, num diluvio roxo escoado de todas as torneiras e de todas as vinhas... que delicia! E calmo: O vicio é uma necessidade, affirmo-lhe.
Jogo e depravo-me como empanturro o estomago, como ingiro a medicina. Para mim a pilula e a esphera da roleta pertencem á mesma therapeutica, operam diversamente, mas operam. Para os males do figado calomelanos, para o tedio uma parada commovedora. As mulheres interessam-me pela estranheza do typo: adoro a mulher de amor, não pelo seu beijo, mas pelo seu estudo, porque é curioso ver como esses animaesinhos sabem attrahir. Algumas, pobres camponias, ainda com as mãos grossas do cajado com que andaram a pastorear nos campos, conhecem melhor a arte de agradar, as delicadas minudencias do amor que interessam, que prendem, que sensualisam, do que as eruditas educadas em finos boudoirs, lendo brochuras ardentes. Acho adoravel a cocotte—é um sexo neutro—alguma coisa de homem, a tactica commercial, alguma coisa de mulher, a hypocrisia. De resto, é uma valvula de segurança social. Um contemporaneo da academia, rapaz de finissimo espirito e talento não vulgar, dizia-me sempre: que sentia, de tempos a tempos, necessidade de embriagar-se. Encerrava-se e bebia. Era uma medicina.
Aventurei citando Simão Carreira, que, nos momentos em que a musa lhe foge, vai ao pucarinho e derreia bebedo acordando, no dia seguinte, dyspeptico e amarrotado, mas com a imaginação fulgurante e provida para um novo canto do seu poema ou para meia duzia de sonetos, que immediatamente registra para o Correio da Serra, orgão superiormente litterario para as alturas em que vê a luz.
—Mas é assim, meu amigo. A castidade atrophia, deprime, suffoca o espirito. O amor é um derivativo. Não o amor sentimento: o amor sensação. Afinal, que vamos nós buscar no fundo de um theatro, prazer? distracção? arte? não absolutamente: vamos cevar o animal. No meu programma de educação, inaplicavel, porque não tenciono perpetuar a minha crise de spleen, dando ao mundo um representante de meu tedio e das minhas desillusões, entraria, como curso fundamental—o vicio. O vicio, pois não. O epigono constitue o seu caracter com mais vigor nos camarins e nas tascas do que nas escolas. Que diabo ensina o mestre? ensina a evitar o vicio, o que vale dizer—mostra outro vicio. É uma verdade o que Comte deixou escripto: «Não se destroe senão o que se substitue.» Afinal a vida é uma constante marcha e a natureza tem as suas leis. Para seguir é preciso tomar rumo. O mestre diz que não se vá pela direita; então o caminho da moral é o da esquerda e ahi vai o pimpolho arrebatado pelo temperamento e induzido pela logica do pedagogo para peior deveza. E por fim a educação inutilisa um homem que podia ser perfeitamente aproveitado. Meu amigo, os primeiros ciumes fazem os futuros bravos, os primeiros amores fazem os futuros poetas. A moral é uma palavra van; toda a gente a pronuncia e poucos a praticam. Qual moral, qual nada!... o corpo exige. Emmudeceu de repente.
Haviamos chegado a um largo, e na parte fronteira á rua por onde seguiramos, uma grande cauda de luz electrica alastrava o passeio argentando as arvores e, ás vezes, ganhando o céu como uma esteira de luar.
—Variedades, disse-me o doutor. Mas se fossemos ao Sant’Anna?
—Como quizer...
E seguimos. O doutor, depois de um silencio, avisou-me: Mas não se illuda—olhe que a caixa de um theatro é um pouco peior que a caixa de Pandora...
—E a esperança, doutor?
—Fica á entrada, como no distico do Dante. Vai ver de perto a illusão, que é uma triste realidade. E voltando a rua: Eis-nos chegados, disse.
Á porta do theatro formigava uma multidão impaciente. Logo que nos aproximámos, dois sujeitos avançaram pressurosos, offerecendo bilhetes:—que eram os melhores, que na casa só havia da ultima fila e perseguiam-nos tomando-nos o caminho, embaraçando-nos o passo, sofregos, afflictos. Safámo-nos briosamente e ganhámos a bilheteria. Tomei a frente ao doutor e, enfiando a mão pelo guichet, bradei:
—Duas cadeiras!
—Uma! Uma só, disse elle.
—E o senhor?
—Não preciso; tenho entrada.
—Uma, emendei; uma cadeira. E, recebendo o papelucho das mãos do bilheteiro, examinei-o: Lettra L... que tal?
—No inferno...! Mas como não tencionamos assistir, qualquer coisa serve. Vamos.
O doutor encaminhou-se vaidosamente e confesso que, pela primeira vez em minha vida, senti picar-me a inveja vendo-o passar entre os porteiros grave, sem uma palavra, como se entrasse por sua casa. A mim tomaram o papelucho e rasgaram uma nesga entregando-me o resto; ao doutor disseram com respeito: Boa noite!
Achei-me num estreito pateo de terra humida. Para um lado, um correr de portas verdes com um oculo ao alto; para outro lado, mais adiante, um balcão de bebidas—na mesma direcção um tablado coberto, cheio de mesas de zinco entre as quaes passavam atarefados caixeiros carregados de copos. Mulheres subiam e desciam opulentamente vestidas, saracoteando, com grandes leques de plumas, deitando olhares, franzindo sorrisos; outras tagarelavam em grandes rodas de rapazes, com gargalhadas estridentes; e uma velhusca, de preto, com uma barbicha no queixo, como as feiticeiras de Macbeth, estremecia, mostrando as gengivas desertas, rindo estridulamente aos galanteios de um meninote de chapéu de palha e terno de flanella branca.
—Vê este seculo, meu amigo?
—É a propria velhice...
—É Venus ancestral. Essa mulher é o centro do mundo equivoco—é ella quem dirige as neophytas e dizem que tem um curso admiravel de sciencia. Dá lições diarias ás que pretendem fazer carreira pelo caminho que Laïs trilhou arrastando poetas e o tonel de Diogenes. É uma mulher digna de consideração: sem ella não haveria novos encantos, nem os languores imprevistos. A sabedoria está com os velhos, meu amigo. E, baixinho, soprou-me: Olhe a Marion, evitemol-a. Era, em verdade, a loura, a formosa loura ciumenta e aspera, que acariciara os meus sapatos com o pésinho minusculo.
—Se a convidassemos para a ceia, doutor?
—Não... não... Excede-se e dá para chorar a sua infelicidade, porque essa divina mulher tem saudades da patria e da honestidade e, quando bebe vinhos de França, lamenta não ter um filho e fica de tal modo nostalgica que, ao cabo da lamentação saudosa, é sempre necessario que venham tres homens para leval-a ao carro. Não... não...! Evitemol-a.
Marion bebia e tão entretida estava com a sua garrafa de Apollinaris que não deu por nós.
—É sobria, entretanto: bebe agua, á grega.
—Sobria? quem...? Marion...?! porque está bebendo Apollinaris? Conheço muito essas medidas preventivas: é que ella conta ceiar, meu amigo, e está recompondo o estomago para um diluvio de Bourgogne. Mas vamos. Tomámos por uma das alas do theatro e, justamente quando voltei os olhos para a scena, entrava um grande diabo, brandindo um facho, a bradar coisas terriveis, ao clarão purpureo de fogos de bengala. A orchestra ia num crescendo infernal—quasi se não ouvia a declamação do maldito quando surgiu uma legião de diabos vermelhos, truculentos, dançando em torno do rei a berrar, a bramar, á proporção que os musicos, num delirio satanico, sopravam com furia, batiam com gana, dando ao espectador pasmado a idéa aproximada do que deve ser a musica nesse reino negregado de chammas, onde as almas penam torrando-se em labaredas inextinguiveis, sob abobadas de granito em brasa. Felizmente, porém, houve uma pancada vibrante e os demonios sumiram.
Cahiu um novo panno: Uma aldeia risonha sob um ceu de azul, com uma igrejinha branca a um alto e na eira da herdade, no primeiro plano, entre médas de palha e instrumentos agrarios, camponios a espadellarem linho, cantando um villancico meigo.
—Vê aquella velhota que ali vem por entre arvores...? É a Jesuina.
—Por Deus! mas é uma antigualha!
—Engana-se. É uma bella mulher. Vai convencer-se...
Os homens, que se apertavam á minha frente, pouco me deixavam ver. Puz-me nas pontas dos pés, já interessado pela velhota quando, subitamente, vi surgir o demonio, sem archote, os braços cruzados, numa attitude hostil, e berrar:
—Fada... não sei que... e uma infinidade de palavras que deviam ser de insulto, porque a velha poz-se tambem de entono e avançou hysterica, vociferando:
—Ainda não!... Cahiram-lhe os andrajos, o cajado transformou-se em sceptro enramado de folhas de ouro e eu vi uma esplendida mulher, de fórmas admiraveis, resplandecente na sua toilette feerica.
—Linda, com effeito, doutor! disse maravilhado.
—Ah! é esplendida! E languido, com os olhos em alvo, trincando o beiço: E que mulher! A scena atroou aos berros dos camponios, que deitaram a correr espavoridos. Ficaram sós, desafiando-se—o diabo negro e a fada. Houve uma troca de palavras e novo tchaan! Pannos cruzaram-se acima e abaixo. Nova scena. Jardim florido, entre grutas. Mulheres: nymphas, disse-me o doutor, tangendo lyras e cantando. Cahiam do céu, como na lenda de Danae, palhetas de ouro. O diabo, estortegando, vencido, urrava com os joelhos em terra, e a fada, com um gesto cheio de magestade, mantinha-o subjugado e immovel. Romperam palmas e o panno veiu descendo lentamente.
—Vamos falar á Jesuina.
—Pois não, doutor. Pois não... E partimos atravéz da multidão que recuava.
O doutor bateu á porta da caixa, e appareceu ao postigo uma cara ossea, macilenta, hispida de pellos, indagando soturnamente: Quem é?
—Abre, Amaro.
O cérbero sumiu-se batendo o postigo e logo abriu meia porta, por onde nos esgueirámos rapidamente. Ambiente de estufa—mal se podia respirar. Não haviamos ainda caminhado dois passos quando vi surgir a uma porta o truculento diabo, abanando-se, com um charuto nos beiços, muito ancho. O doutor acenou com os dedos um cumprimento intimo. Entre os bastidores torvelinhava a gente do movimento arrastando peças accessorias, içando nuvens, pregando sarrafos. Dois homens, agachados junto de uma rocha sarapintada, ajustavam cordeis, e um moreno, de sobrecasaca, a cara rapada, berrava para as bambolinas:
—Ó Candido! ó Candido! desce mais essa vista! mais! mais, homem! Que diabo... mais! e bateu uma patada formidavel.
—Mais á frente...! ordenava um outro, alto, de cavaignac, aos homens que collocavam a rocha... ahi...
Um soldado, com o capacete atirado para o sinciput, passeava de um para outro lado, cantarolando. Um pequenote passou por mim esbaforido, arrastando uma carapaça de saurio com grandes escamas.
Era difficil atravessar-se, porque de toda a parte surgiam genios, demonios, soldados, mulheres, atropelando-se, azafamados, lançando appellos, a correr, empurrando-se.
O doutor avançou e, mostrando-me uma escada larga por onde desciam coristas trauteando, disse:
—Vamos subir... Isto aqui em baixo é impossivel. E galgámos os degráus, ganhando um passadiço por onde andavam actores, refrescando-se com ventarolas. Um, em trajo de principe, vociferava no camarim, sacudindo uma gaforinha loura:
—Que aquilo era uma vergonha, um nojo! E sahiu bradando: Ó Ferreira! ó Ferreira! Vocês não viram por ahi o Ferreira! Ah! grandissima besta!...
—Mas que é? indagou um escudeiro acaçapado e ventrudo, arrastando a durindana ferrugenta.
—Olha p’ra isto... e tomou a cabelleira nas pontas dos dedos. Isto é decente? Pois eu hei de entrar em scena com esta peruca?! Não entro, nem que me rachem! E berrou de novo: ó Ferreira! ó Ferreira! Outro assomou á porta de um camarim, em ceroulas, todo sarapintado:
—Ó Ferreira! Onde é que se mette esse pedaço d’asno, não me dirão? Ó Ferreira!
Passámos atravéz do alarido e, como olhasse por uma porta entreaberta, surprendi um lindo braço nú, de esbelto contorno e avisei o doutor.
—Ahi? é uma certa Clotilde... detesta-me; de resto não vale um olhar: é mulher de banhas fofas. Vamos á nossa Jesuina. É aqui. Parou diante de uma porta e bateu:
—Quem é.
—Eu, Jesuina.
—Eu, quem? Estou occupada.
—O Gomes...
—Ah! Espera... E a voz, mais proxima, indagou: Estás só?
—Não, mas é como se estivesse: trago commigo o Amor que tem os olhos vendados.
—Oh! filhinho... não estou em estado de receber. Mas a chave rangeu na fechadura, a porta descerrou-se e eu vi o rosto adoravel da fada.
—Como vais? indagou lançando para o meu lado um olhar obliquo, e baixinho: Espera um momento, abro já, sim?
Recolheu-se e voltámos a passear. Ainda gritavam pelo Ferreira. Debruçámo-nos á balaustrada: em baixo andavam soldados antigos, com grandes escudos rutilantes, jacarés arrastando caudas enormes, monos, demonios e camponezes, uma promiscuidade mirabolante, gente e animaes, em intimidade só comparavel á que existiu entre esse troço de salvados que andou pelas aguas do diluvio dentro da arca, para perpetuar as especies. Fios de luzes tremeluziam ao alto, por trás dos pannos. Subiam vistas, arrastavam-se bastidores—havia um grande rumor de faina. De repente uma voz fanha entoou
Nu... unca percas a esp’rança
e outra violenta e desesperada esbravejou:
—Quem diabo tirou daqui as minhas botas? Isto é uma pocilga! Ah! seu Alvaro!... Quem diabo tirou daqui as minhas botas?
Foi, foi, foi...
outro cantarolou em tom de troça. Travou-se um dialogo azedo atravéz do tabique divisorio de dois camarins e riamos dos palavrões, quando uma velhota nos veiu dizer que—«madama estava prompta».
Fomos immediatamente e, á porta, o doutor, lisonjeiro, indagou com ternura:
—Dás licença, Titania?
Entrámos. O doutor apresentou-me como «favorecido das musas.» Jesuina sorriu e mostrou-me um divan forrado de damasco vermelho. A velhota, que nos acompanhara, tomou de uma prateleira um par de sapatinhos brancos debruados á sarja, agachou-se e, com os pésinhos de Jesuina ao collo, calçou-os sem esforço, suavemente. E ella, delicada e meiga, voltando para o meu rosto os olhos admiraveis:
—Desculpe-me, doutor. Vou concluindo a minha «toilette», porque, infelizmente, esse maldito contra-regra é de uma impaciencia feroz. A velhota levantou-se e foi ao canto.
—Agora é que são ellas! disse Jesuina a rir. Vamos ao peior. E, franzindo a fronte serena: Que calor, hein?
—Muito, disse eu, bufando.
A velha voltou com uma cotta de seda imbrincada de ouro e deu-lh’a a vestir, primeiro um braço, outro depois, e as duas, a velhota de joelhos, Jesuina, muito direita, firme, obrigada pela pressão das barbatanas, começaram a abotoar, uma da fimbria para cima, outra da gola até á cinta, apressadas, magoando os dedos.
Depois uma tira de filó em diagonal ao peito, cahindo em duas pontas soltas sobre um dos flancos; duas pulseiras em cada braço e, á cabeça, comprimindo os cabellos, um diadema altissimo com um brilhante á frente.
—Prompta! exclamou a velhota levantando-se.
—Graças a Deus! suspirou Jesuina sorrindo. E a vara?
—Está aqui...
—Estás divina! disse o doutor abraçando-a e beijando-lhe a nuca.
—Oh! oh! É terrivel este seu amigo, disse-me. E o doutor, tomando a frente, impoz:
—Hoje vens ceiar comnosco.
—Hoje...?!
—Hoje, e não admitto desculpas.
—Se assim é, disse ella com um momo... que hei de fazer...? Verteu algumas gottas de perfume na palma da mão e esfregou-as dando-me depois a aspirar:
—Delicioso! sussurrei, fungando.
—Agradavel, não é? Mas a sineta vibrou e um mulatinho appareceu á porta:
—D. Jesuina...
—Vou já.
—A que horas acaba esta rigolade? perguntou o doutor.
—Meia-noite.
—Pois até lá. E vai ter com Satanaz, que te espera.
Despedi-me tambem e descemos.
A orchestra executava os primeiros compassos de uma marcha infernal, quando, de novo, ganhámos a frescura do jardim.
—Então, meu amigo?
—Divina, disse eu. O diabo é que isto demora. Que havemos de fazer...?
—Vamos á cerveja; não ha outro meio de fugir á insipidez.
E abancámos.
—E dizer que toda essa gente goza, ponderou o doutor, num tom melancolico de lastima. Isto que me enfada, que me provoca bocejos, faz as delicias de uma multidão. Olhe ali aquelle homem debruçado á balaustrada... Quanto eu daria para poder rir como elle! Decididamente esse casal do paraiso levou-nos o melhor da vida—a innocencia, deixando-nos em troca o tedio. Felizes os simples!
Não imagina como invejo um desses homens que são specimens raros do animal primario, que se destacam, entre os civilisados, como um grande cedro num campo raso. Ás vezes, quando passo por uma dessas casas de pasto, onde o grosso povo de trabalho se ajunta para comer, tenho impetos de entrar, sentar-me no mesmo banco, acotovellando estivadores e canteiros, fascinado pela voracidade pantagruelica desses brutos que devoram pratos enormes, com mais apetite do que um de nós, em dias de fome, trincaria uma fatia de caça. Nós somos os degenerados. Que mais pode ambicionar um homem que já experimentou todas as sensações e que leu os materialistas? Que ideaes pode ter um ser esgotado? Nem riso nem pranto. Sinto-me vasio e inutil. Já não existem imprevistos para mim. Tudo dimana de causas naturaes, diz a philosophia, e acham os evolucionistas que feliz é o homem que conhece todos os phenomenos da natureza, que sabe dizer, sendo preciso, por que razão a pedra deriva a gotta d’agua, para onde caminham as correntes dos rios, quantos millenios tem Syrius, porque é pallida a lua, quaes são as causas que presidem aos fluxos dos mares, a origem do homem e tudo mais que a sciencia investigou para esterilisar os productos mais delicados do espirito que, a meu ver, são—a imaginação e a esperança. Felizes são esses pobres homens que crêem nas boas fadas dos caminhos e nos genios dos campos. Felizes são esses que vêem na Via Lactea o caminho sagrado dos reis magos, attribuindo a pulverisação das nebulosas ás patas dos dromedarios que vieram do Oriente parar á entrada da lapa em que Jesus dormia. Felizes são os que podem ainda imaginar mysterios... Oh! os crentes, os religiosos! esses é que são os bemaventurados, não no céu, aqui mesmo, na terra, porque esperam, porque não duvidam. Aquelle homem que ali está desfeito em gargalhadas nunca leu um aphorismo, desconhece a syntaxe e as causas finaes, nunca atravessou uma noite acotovellado á banca do jogo, nem de certo poliu os seus beijos procreadores—é um simples. Trabalha e crê, conhece o Ave e respeita a Lei, ama e quando chega á casa, estafado e moído, o seu primeiro cuidado é para o filho mais novo—toma-o nos joelhos e brinca com elle a rir. E dorme em paz, porque não tem problemas a resolver nem gazes de dyspepsia. É um animal amoroso e puro... E sinceramente, não é preferivel levar a vida assim materialmente, em ignorancia beata, abençoando as estrellas cadentes e commungando, de vez em vez, a andar pelo mundo empanturrado de pessimismo, repetindo com o «Ecclesiaste» que tudo é vaidade?
O homem não nasceu para maldizer sómente, creio eu. «A resignação é o heroismo da desgraça.» Um moralista exprimiu-se mais ou menos nestes termos, mas eu devo confessar que não tenho absolutamente o sangue heroico—sou um pusillanime. Dêem-me novidades, imprevistos, qualquer coisa que me commova: um grande amor, um grande odio. Infelizmente, porém, o amor adquiro-o como adquiro as luvas e os plastrons, por um preço, por outro, mas sempre a dinheiro... É sordido! É vil! Não foi para mealheiro que Deus, ou não sei quem, fez o coração. O amor é uma permuta de affectos e não um mercado. Mas que quer? comprar um beijo, pagar um sorriso, subornar uma meiguice... eis em que consiste a civilisação; isso é requinte, é espirito.
Duas mulheres passaram por nós discutindo em dialecto aspero, esgrimindo com os leques, frementes, terriveis. As vozes subiam, já da platéa reclamavam silencio com prolongados «psios».
Os homens, que cercavam a balaustrada, interessados no escandalo, vieram aproximando-se. Descia gente em tropel e as duas, uma em frente da outra, ameaçadoras, mirando-se roxas de furia, vociferavam com grandes gestos. Repentinamente brandiram os leques e engalfinharam-se—os chapéus rolaram para o chão, as fitas voaram e, apezar da immediata intervenção de alguns rapazes, as duas lutavam, já com os leques partidos, numa algazarra bravia. Na platéa havia gente de pé. Os actores, em scena, emmudeceram e o grande diabo, curioso, coçando o queixo agúdo, alongava os olhos procurando ver á distancia as heroinas. Os coristas, amontoados sem ordem, cochichavam. O regente voltara-se e varios musicos, de pé, olhavam curiosamente; um deixou-se estar sentado, aproveitando a balburdia para afinar o seu violino. Trilaram apitos, mas já haviam apartado as belligerantes. Appareceram praças e o povo foi descendo, em onda compacta, em direcção á porta. Ouvia-se ainda, de vez em vez, um guincho colerico. Por fim irrompeu uma assuada tremenda e gargalhadas estrepitosas abafaram as phrases violentas de uma das mulheres.
Já no palco haviam recomposto a scena, o diabo carregara de novo o sobr’olho e, quando avançou para o ponto, sustentando uma nota grave, de novo o povo reclamou silencio e, pouco a pouco, foi recahindo a tranquillidade.
—Foram presas, doutor?
—Não, fazem-n’as sahir simplesmente. Estalaram palmas estrepitosas, olhámos: o panno vinha descendo lentamente sobre uma scena flammejante.
—Falta-nos ainda um acto, suspirou o doutor. E não ha infelizmente duas outras mulheres ciumentas.
Ao fim do espectaculo, depois de uma fulgurante apotheose no reino das perolas, de grandes pylonos côr de opala, regado d’aguas lactescentes, floridas de nelumbos por onde andavam cysnes alvadios, reino administrado pela magia dos olhos de Jesuina e pelos cordeis do machinista, veiu abaixo o panno ao som abemolado do côro triumphal das nymphas, que exaltavam o poder da soberana. O diabo, corrido e humilhado, estarrecido ao fundo, entre columnas gyratorias rugia, rolando os grandes olhos chammejantes e orlados de malacachetas. O povo, em delirio, prorompeu em gritos, victoriando a boa fada pelo seu nome humano, mais doce, talvez, que o da magica:
—Á scena, Jesuina! Bravos a Jesuina! E uma voz isolada accrescentou num berro agudo:
—Jesuina na ponta!
E tudo desappareceu.
A retirada foi rumorosa e lenta. O povo escoava aos empurrões como uma grossa e pesada torrente contida muito tempo pela comporta de uma represa. As luzes minguavam e, pouco a pouco, veiu cahindo a sombra; o silencio substituiu o rumor. O panno levantou-se de novo sobre um fundo de andaimes e de sarrafos. Fóra andava um meninote assobiando baixinho, com a bengala ao hombro, passeiando ao longo da varanda.
—Vamos esperal-a á porta da caixa. E, em segredo, indicando-me o rapazito solitario, disse-me o doutor:
—Ali está um que não nos perdoará a aventura de hoje. É um terrivel amoroso. Governa o partido da Jesuina. Só em flôres gasta todas as noites para mais de cinco mil réis. Já fez tirar uma polyanthéa glorificando a actriz que, incontestavelmente, tem um lindo collo, mas que desafina soffrivelmente e no terreno da concordancia é como um louco diante de um taboleiro de xadrez: baralha tudo. Emfim, como o fim utilitario da mulher é o amor, Jesuina cumpre admiravelmente o seu destino na vida, porque, sem encomios, é um bello exemplar do sexo.
Começavam a sahir os actores; alguns com embrulhos debaixo do braço. Uma mulher, de mantilha, passou por nós ninando um pequerrucho. Um sujeito magricela, de longas pernas e farto bigode, com agudas saliencias de ossos, deu-nos boa noite em tom amigo.
—Quem é? indaguei.
—É o diabo; pois não conheceu...? é o diabo. Chama-se Silveira.
Voltei-me para ver ainda uma vez o vencido, elle lá ia, murcho e sorumbatico, mascando uma ponta de charuto, triste, desmanchado, já sem os arreganhos terriveis, sem a attitude audaciosa e ostensiva com que surgira entre os seus sequazes, bradando pelas furias do Averno e arrancando gritos ás crianças. Ia abatido e não era, de certo, o poder da vara de Jesuina que o derreava, não, deviam ser preoccupações communs. Talvez tivesse um filho doente, sogra de perfeita saude ou, quem sabe se o pobre diabo não estava ameaçado de ser lançado á rua pelo senhorio feroz...? Fosse o que fosse, achei-o mais sentido dentro do frak e nas calças de brim do que na farpella purpurina de rei dos demonios, anniquilado pela magia das pupillas de uma mulher, tres vezes mais forte com as suas nymphas do que elle com a legião de bruxos negros e diabretes.
Em seguida um casal, muito aconchegado, cochichando—a mulher, com uma indignação mal contida, elle calmo, grave, respondendo com pequenas phrases. Depois uma onda tumultuosa, com alarde, achincalhando coplas—os coristas.
—Está demorando, disse o doutor impaciente. Mas no mesmo instante a porta abriu-se e Jesuina appareceu no patamar, seguida da velhota.
—Salve a formosa apsara! saudou o doutor.
—Estão cançados de esperar? indagou sorridente.
—Nem por isso.
Jesuina pareceu-me menos formosa no seu vestido marron e com a cabeça coberta por uma capota de veludo. Confesso—e vai nisto uma ingenua franqueza—confesso que a Jesuina que meus olhos aguardavam anciosos e desinsoffridos era a outra, a que eu vira no palco, entre nymphas, na nudez artistica do maillot, afoufada em rendas, com os cabellos soltos e á fronte o diadema régio. Era assim que eu esperava vel-a, de sorte que tive uma pequena desillusão quando ella assomou á porta, em toilette vulgar, como todas as mulheres, ella, que para mim não era outra senão a propria, a verdadeira fada das perolas, que apparecera em scena, affrontando o Demonio. O doutor sussurrou-lhe:
—Aceita o braço que te offerece o meu amigo, tenho de dar um pulo á Maison para desfazer um compromisso. É um instante. Comprehendi a delicadeza do pretexto e adiantei-me pressuroso e ella, voltando para o meu rosto os olhos incomparaveis, ainda assim menores do que os que me haviam seduzido, indagou:
—Onde vamos?
—Onde quizer, disse-lhe.
—Ao Bragança, não é?
—Ao Bragança, sim, affirmou o doutor. E venham vindo porque já os encontro no Rocio. E até já. Partiu como uma frecha.
—Thereza, podes ir, disse Jesuina á velhota.
—Boa noite, meu senhor. Então até logo.
—Adeus! E a velhota partiu compondo o chale. Sahimos. Á porta havia um homem de gorro, que nos offereceu um carro.
—Sim, vamos, disse eu.
—Oh! não vale a pena. Tomar um carro para ir ao Bragança! Não, vamos andando. E já intima, maliciosa, apertando-me o braço: É preguiçoso assim?...
—Não, gosto de andar, faço leguas a pé, mas... E não me atrevi a dizer-lhe a verdade: eu não sabia onde era o Bragança. Felizmente, porém, o doutor surgiu a uma porta.
—Oh! pois ainda vêm ahi...? E adiantando-se: Os corações já se fizeram amigos? E ella, repousando no meu braço, com um languido olhar e um doce sorriso: Creio que sim.
—Creio que sim, corroborei sorrindo.
Mas o doutor deteve-se para dizer em tom sentencioso:
—Devo observar aos meus amigos que o amor é um sentimento digno, que deve ser cultivado como uma flor preciosa, mas acima do amor ha alguma coisa que é preciso não esquecer...
—Deus! disse ella com beatitude.
—Não, filha: o estomago. Temos um gabinete no Bragança á nossa espera. Depois do champagne gelado os beijos têm mais calor. É a reacção. Cá por mim, como pretendo passar a noite como Santo Antão, comerei alguma coisa solida...
—Você só!?
—Sem duvida. Quando se vai á Cythera é perigoso levar farnel.
—Pois sim... E, com um muchocho, Jesuina achegou-se a mim. Senti-lhe as carnes... Que carnes!