A nuvem
Sob a irradiação do sol a terra secca abrazava, exhalando um bafio de rescaldo.
Triste, flagellada Samária pagan!
Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver desertado o monte onde os homens subiam a retemperar a fé, de onde manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre rochas humidas. [{32}]
Ermo o sagrado monte, esquecido o santuario antigo, as lavouras mirraram e um sol mais árdego crestou as hervas, sorveu as aguas outr'ora copiosas.
Nem as torrentes ligeiras conseguiram, fugindo, escapar á inclemencia e os leitos dos corregos, em lodo secco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas.
Um fio d'agua rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam.
Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias torridas onde viboras esfusiavam, entaliscando-se ao rumor de passos.
De ponto em ponto uma cisterna funda offerecia ao caminhante a sua agua salobra.
Ás vezes o terebintho forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe em torno um bosque ameno.
Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo que [{33}] esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijões. Não se ouvia cantar um passaro—só o gypaeto atravessava o espaço fulgurante ou grandes aguias hostis, pousadas no cabeço das penhas, devassavam os arredores buscando o que prear.
Maria offegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, o sol abrazava-lhe a cabeça.
Caminhavam como atravez de chammas, sem que os olhos avistassem um colmado, a grata ramagem duma arvore.
Ó terras férteis da Galiléa! valles alfombrados e frescos de tanta belleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiléa!
Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como nos incendidos dias estivaes. [{34}]
Seria melhor esperarem a tarde, proseguirem com a brandura do crepusculo; mas a pressa que levavam não lhes permittia demora.
José, mais robusto e affeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, começava a sentir-se atordoada: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.
—Chega-te á sombra do meu corpo, disse-lhe o patriarcha. Ella obedeceu. Mas o sol zombava da misericordia do amor e Maria continha as lagrimas, calava as dores dos delicados pés abertos em feridas, não querendo que o esposo soffresse com o seu soffrimento.
O sol subia, augmentava o calor e o animo da Virgem desfallecia quando uma nuvem cresceu acima do monte Ebal.
Era escura como os nimbus e apressava-se como impellida por um grande vento. [{35}]
Barulho surdo annunciava-a, igual ao ronco soturno que precede as saraivadas de verão.
A terra entenebrecia á passagem obumbrada da nuvem, que vinha direita ao caminho trilhado pelo casal.
O ruido augmentava tornando-se como o escachôo das catadupas.
Detiveram-se os dois, pallidos, tolhidos de espanto.
Subito Maria sorriu:
—São pombas, disse. Eram, effectivamente, milhares de pombas azues que, muito juntas, formavam a nuvem escura. Pairaram, ficaram adejando sobre elles, com rumoroso arrulho, e o sol quebrava-se-lhes nas azas estendidas.
José baixou os olhos, dobraram-se-lhe os joelhos e a Virgem, olhando as aves, não deu pelo gesto piedoso nem ouviu as palavras devotas com que elle, em extase, adorava-a. [{36}]
Então proseguiram á sombra do immenso pallio azul e fóra da nuvem viva a terra, quente e rutila, ardia e faiscava ao sol. [{38}]