A refeição
Suave som de frauta pastoril deu a Maria o encanto de uma egloga. Voltou a cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.
Trazia-o um menino, guiando-o por entre as hervas de aroma. Um lindo menino, tão alvo que não despedia sombra, como as neves que os raios do sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava.
Vinha a frauta soando em suaves accentos e attrahidas, enlevadas na musica, [{26}] abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos: um pela terra verde, outro pelos ares claros.
Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, deu a sentir o seu desejo.
Como devia saber aquelle leite que era a metamorphose das flores dos silvados! Como devia rescender na boca e aquecer e fartar!
Calou-se a frauta e o menino, fitando os olhos meigos no casal errante, como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animaes pararam.
Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um vello e as abelhas, zumbindo, puzeram-se a esvoaçar em torno dos lirios alvos.
José adiantou-se e, offerecendo um obulo ao menino, pediu-lhe um pouco de [{27}] leite. Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.
Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ancioso. Balavam todas offerecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.
Foi á primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em fio; outra chegou, depois outra e a todas elle attendia para que nenhuma ficasse preterida.
Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes.
Sorrindo, aceitou Maria a offerta do zagal; bebeu a lentos goles, saboreando. E foi a vez de José.
Refeito, o patriarcha insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a recebel-a: [{29}]
«Que era um pouco de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.»
Saudou-os, e, pondo-se á frente das ovelhas, levou a frauta aos labios.
Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho proseguiu. Foi então que Maria viu que as abelhas, tantas que occultavam os lirios, deixavam as flores voando á musica da frauta.
—Lindo pastor! Lindo rebanho! disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, referindo-se ás abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão ellas buscado nas flores d'agua?
—O arôma e o néctar, explicou o patriarcha.
Chegaram-se os dois ás flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de mel crystallino e louro como o ambar precioso e tão perfumado como se contivesse toda a essencia das flores.
Tomou José um dos lirios e deu-o a [{30}] Maria; a Virgem offereceu-lhe o outro. Depois, deliciados, contemplaram-se felizes.
—A frauta já não sôa, vai muito longe o pastor, disse Maria.
—Vai muito longe! repetiu José contricto, levantando os olhos para o ceu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas. [{31}]