Lyrios

Clareava.

Manhan opáca, envolta em bruma que algodoava a terra, fluctuando com um lento ondular, fluindo em frouxeis alvissimos como pennugem, esgarçando-se, diluindo-se em fumo tenue que se esvaía no ar silencioso.

A espaços frondes boiavam, ramarias exciduas irrompiam.

Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.

A terra dava-se avaramente, a trechos [{20}] curtos, á medida que os viajantes avançavam e o caminho percorrido, como os dias da vida, eram logo fechados em branco pelos nevoeiros.

Branco era tambem o ceu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que as nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos.

Passaros piavam nas taliscas, occultos; vozes de gado, longinquas, evocativas, annunciavam casaes.

Maria tiritava.

A tunica pesava-lhe nos hombros, humida, e as faces, rorejadas, tingiam-se em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem procurado abrigo ao calor carinhoso daquella mocidade pura.

José distrahia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando.

Todos aquelles atalhos tortuosos, [{21}] aquelles carreiros invios haviam sido, em tempos remotos, trilhados por patriarchas.

Ali haviam-se travado batalhas sanguentas; ali alvejara a tenda, crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas de Iaveh omnipotente.

Por ali andara Elias trovejando oraculos. Judith afiára o gladio libertador nas arestas daquellas penhas.

Em poeira de ouro foi-se mudando a nevoa: era o sol.

Já apparecia uma nesga de azul; arvores, moutas destacavam-se: a mortalha rasgava-se para a resurreição.

Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a victoria da Luz. E Maria, contente, d'olhos em extase, esperava [{22}] o astro annunciado pela fulguração das nuvens.

Num recanto, entre mirradas arvores de troncos retorcidos, uma agua escura e quieta reluzia.

Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.

Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de somno, sentou-se tão perto d'agua que toda ella reflectiu-se na superficie espelhenta.

Viu-se sem vaidade, com a mesma innocencia com que se revê o passaro e, num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.

Quiz José reprehendel-a, vendo-a, porém, sorrir, sorriu tambem.

Gottejando sahiram as pequeninas mãos da agua que tremia.

Olhavam os dois os circulos que se abriam quando viram duas flores subirem [{23}] á tona, brancas, abertas em cinco petalas, erectas em finas hastes, como se o reflexo das mãos da Immaculada se houvesse materialisado em memoria da ablução ligeira.

Eram lirios e trescalavam.

Virtude, brilho das almas, que importa que desças á vasa? és impermeavel como a luz, purificadora como o raio de sol.

Não perdes a limpida pureza e, se entras no Vicio, fazes desabrochar a Graça; se afundas no Crime, tiras o arrependimento.

O pantano era lobrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só com o aflorarem, tanto o purificaram que delle nasceu o lirio sem macula, symbolo formoso e candido da innocencia. [{24}]

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