O campo de Booz

Á hora cálida, abafada em que as folhas dormem e as ribeiras murmuram de leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda aza encolhe-se entre os ramos mais densos, e todo reptil encova-se na terra mais humida, deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moças juntavam gavellas, cantando, emquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes do chão, na raiz do trigal. [{106}]

Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquella messe de ouro e na alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos altos, onde os seareiros desappareciam, como se fôsse o proprio campo que cantasse o louvor do sol.

Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direito a uma palhoça onde um velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe e cantando.

Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando elle saudava o ancião.

—Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta alegria?

—A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador.

—Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem bom, que a amou?

—Sim, foi aqui. Esta é a leira de [{107}] Ephracta, a mais fertil entre as mais abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raça robusta dos reis de Israel.

Aqui nasceu David, tronco forte, estirpe augusta de que ha de sahir a Immarcessivel Flor annunciada, cujo perfume encherá as almas de ineffavel ventura. Este é o celleiro de Iaveh. E vós, vindes de longe?

—De Nazareth, na Galiléa.

—E ides?

—A Bethleem. Urge que lá cheguemos antes do pôr do sol.

—Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que tenho dá para repartir comvosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem fatigada; que descance um instante á sombra, gosando a sesta. Entrareis na cidade com a fresca da tarde.

Aceitaram os peregrinos o convite [{108}] hospitaleiro: sentaram-se e comeram do pão molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso.

Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu.

As moças cantavam na eira levantando medas de ouro e, sob o sol escaldante, no alto ceu azul, as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na distancia, esmoreciam perdidamente. [{109}]