O somno

Maria mal humedeceu os labios á borda do tarro de leite de ovelha que o pastor ordenhara antes de partir. Cuidados traziam-na apprehensiva. Se o filho estremecia sobresaltava-se-lhe o coração, se o via immovel, dormindo, temia que houvesse morrido e logo, anciosamente, afagando-o, chamando-o, despertava-o.

—Deixa-o dormir, disse-lhe o patriarcha, o somno é necessario á vida, é a sombra em que a alma repousa. [{158}]

O espirito das crianças refugia-se no somno como o dos velhinhos—o primeiro porque d'elle sahiu e ainda o tem por ninho; o segundo porque o procura como abrigo. Não o despertes, deixa-o dormir.

—É que me parece estar morto. Não faz o mais leve movimento e, quando elle assim fica, meu coração pára retransido.

—É a serenidade. Só o somno dos maus transmitte ao corpo a convulsão do pesadello.

O somno é uma visita á morte: os innocentes fazem-na sorrindo, os peccadores fazem-na espavoridos.

Não receies que Elle passe tão cedo á Eternidade de onde veiu. Ainda que não trouxesse a missão que o fez baixar ao mundo, fosse Elle tão da terra como o filho da zagala dos montes, não o deverias tirar do repouso.

Não desenterras a semente por não [{159}] a veres á flor do solo, deixas que ella venha a flux e rebente, abra o renovo e cresça.

O somno é uma incubação. Porque não sonha? porque não tem impressões. O sonho é como um reflexo em que ha echo, é a reproducção confusa da vida com a repercução indistincta das vozes e dos ruidos.

Ha quem veja presagios no sonho como o nómade vê realidades na miragem.

Com que ha de sonhar quem não tem consciencia da vida? Deixa-o dormir.

É á noite que a floresta cresce e a criança é como a arvore.

O luar é manso, é uma luz silenciosa de vigilia, uma tunica diaphana sobre a treva—não desperta. As estrellas são meigas porque a noite deve ser tranquilla para que a Natureza descance. Peixa-o dormir. [{160}]

Conserva-te immovel e calada, não perturbes a vida mysteriosa. Demais, Elle é o Eterno. A Morte passa por Elle como a lamina de uma espada por um raio de sol. Deixa-o dormir.

Bem sei que o egoismo das mãis chega a insurgir-se contra as leis de Deus; não te insurjas tu, que O geraste. Elle precisa rever a Humanidade entrando na Vida e gozando, sahindo, talvez, pela Morte com soffrimento.

—Meu senhor! exclamou a Virgem estendendo as mãos, commovida.

—São palavras, Maria. Ai! de mim, quem sou eu para pronunciar oraculos sobre Aquelle que tem o destino da Vida na sua mão direita!

São palavras que digo. Deixa-o dormir. [{161}]