Palavras de Maria

Como eu agora comprehendo que se viva escravisada a um sorriso!

Quando tenho meu filho ao collo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a côr da purpura e veste-se de branco para não macular os labios innocentes, toda a minha vida nelle se concentra.

A Felicidade e a Desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no contentamento que me alvoroça e nos presagios estranhos que me occorrem. [{162}]

É preciso ser mãi, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor.

A alma sahe-me do corpo e fica junto do Infante. Se me arredo um momento sinto-me logo attrahida como por uma pesada corrente que se me prende ao coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com elle dentro dos olhos como quem fita um objecto ao sol e depois o vê em toda parte, ainda na treva mais densa.

Dantes, quando as mãis falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava exaggeradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem!

O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: «Meu filho!» São as que o coração inspira-me, são as que me agradam ouvir.

Ellas fazem um gyro alegre como um casal de passarinhos brincando. Sahem-me dos labios, entram-me pelos ouvidos [{163}] cantando, circulam o meu coração e tornam á boca.

Meu filho! E não ha todo um mundo de amor dentro d'ellas? Que mais é preciso para a ventura?

Quando as suas palpebras descerram-se inclino-me e busco vêr nas suas pupillas—que são agora os meus espelhos—o que ellas contêm.

Fico tão perto que ellas só a mim reproduzem.

Do mais tenho ciume, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes.

Quando Elle estremece, tremo. Quando Elle sorri é tão grande a minha alegria que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e choro e rio.

Ai! de mim quando Elle chora.

Não tendes notado que sou agora como uma faminta perdida que não se sacia de alimento? [{164}]

Não é que tenha fome, não; mas penso n'Elle e, como é preciso que Elle encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celleiro.

Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que Elle faça surprehendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, afagando-o, procurando readormecel-o ou acalentando-o, se chora.

Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que vivo no mundo, só d'Elle me lembro. Onde Elle está ahi é que me apraz viver.

O seu berço é um oasis em immenso deserto.

Dizeis, ás vezes, que me distraio porque não vos respondo de prompto. Não é distracção, é que a alma está junto d'Elle—o corpo fica vasio como uma casa fechada cujo dono trabalha na seara. [{165}]

Dissestes uma vez: «As mãis adivinham.» Como conheceis o coração materno!

E ha mãis que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem guiar na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem vêr sem luz? Como não sossobram no pranto? Eu...

—Porque choras, Maria?

—Porque sou feliz, meu senhor... [{166}]

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