A fórmula da Santificação

Fórmula, receita, para a Santificação—poder-se ha falar a sério desta mudança formidável, como se o processo fosse tão claro e preciso como o de produzir uma certa e determinada corrente de electricidade? É impossivel duvidà-lo. Ou ha de uma experiência mecânica ter infalivelmente bom êxito, e ser de êxito duvidoso uma experiência vital da humanidade? Ha de o trigo crescer debaixo de método, e o caráter ao acaso? Se não pudermos calcular com segurança que as fôrças da religião hão de fazer a sua obra, é que a religião é um capricho; e se não pudermos exprimir por meio de palavras a lei destas fôrças, então não é o Cristianismo a religião do mundo, mas sim o seu enigma.

Mas onde se ha de ir buscar essa fórmula? Onde se vai buscar qualquer fórmula—aos tratados. Se nos voltarmos para os tratados do Cristianismo, acharêmos para êste problema uma fórmula tão clara e precisa, como as que se aplicam ás sciências mecânicas; e podemos ter a certeza de que, se esta regra fôr seguida corajosamente, dará o resultado dum caráter perfeito, exactamente como qualquer resultado, que fôr garantido pelas leis da natureza. A mais bella expressão desta regra na Escritura, ou ainda em qualquer literatura, é a que S. Paulo nos dá, condensada num único verso. Encontrà-la heis numa epístola sua—a segunda aos Coríntios, escrita por êle a alguns Cristãos que, numa cidade, que era considerada como o cúmulo da depravação e licenciosidade, procuravam vida mais elevada. É esta: «Nós todos, com a face descoberta, reflectindo como um espelho a gloria do Senhor, somos transformados na mesma Imagem, de claridade em claridade, como pelo Espírito do Senhor.»

Observai logo no começo o desmoronamento de todos os nossos esfórços prévios pelo emprêgo do simples passivo somos transformados. Somos transformados, não somos nós que nos transformamos, nem ha ninguem que se possa transformar a si mesmo. Por todo o Novo Testamento achareis que sempre que são descritas estas transformações morais e espirituais estão os verbos na passiva. Devemos observar que ha nisto um alcance profundo; mas a pesar disso não punhamos violentamente de parte estas palavras, como se a passividade negasse todo o esfôrço humano, ou não quizesse admitir leis que são compreensíveis. O que aqui diz respeito á alma, não é mais do que aquilo que em toda a parte se exige para o corpo. Em fisiologia estão na passiva os verbos que descrevem os processos do crescimento; porque o crescimento não é voluntário: tem logar, sucede, está fixo á matéria. Dá-se o mesmo aqui. «Tendes de ser gerados de novo,» não podemos gerar-nos a nós mesmos. «Não sejais conformados com este mundo, mas sede transformados,»—somos sujeitos a uma influência que nos transforma, não somos nós que nos transformamos. É tão certo haver uma coisa fóra do termómetro, que produz a mudança no termómetro, como haver alguma coisa fóra da alma do homem que produz a mudança que nêle se opéra. É fóra de duvida que êle tem de ser suscetível a essa mudança e que tem de a acompanhar, mas é igualmente certo, que nem as suas faculdades, nem a sua vontade, a podem produzir. Evidente como isto deveria parecer, talvez que para muitos seja uma revelação inesperada! A mudança, que nos temos esforçado por alcançar, não a podemos produzir continuando a procurà-la; tem de nos ser imposta por mãos superiores ás nossas. Assim como o ramo se ergue, como o botão se entreabre, como o fruto se avermelha sob as influências do ar que de fóra os bafeja, assim o homem se ergue a mais elevada estatura pelas pressões invisíveis que lhe veem do exterior. O defeito radical de todos os nossos anteriores métodos de santificação foi o tentarmos gerar da parte de dentro aquilo que só nos pode ser impôsto por influências vindas de fóra. Segundo a primeira lei do movimento: cada corpo continúa no seu estado de repoiso ou de movimento em linha recta, excepto quando é compelido por «fôrças determinantes» a mudar êsse estado. Esta é tambem a primeira lei do Cristianismo: cada caráter humano fica como é, ou continúa na direcção em que está indo, até que é compelido por «fôrças determinantes» a mudar êsse estado. O nosso êrro tem sido colocarmo-nos no logar dessas fôrças. Ha o barro, e ha o Oleiro; o que nós temos procurado é que o barro seja moldado pelo próprio barro.

Donde veem então essas pressões, e onde está êsse Oleiro? A resposta da fórmula é: «somos mudados reflectindo como um espelho a gloria do Senhor.» Mas não é muito claro. O que é a «glória» do Senhor? E como póde o homem mortal reflecti-la; como pode êsse acto como uma «fôrça determinante» amoldà-lo a uma fórma mais elevada? A palavra «glória»—a palavra que tem de suportar o pêso de manter essas «fôrças determinantes»—é estranha em linguagem comum, e o nosso primeiro dever será procurar em linguagem figurada uma que lhe seja equivalente. Traz-nos primeiro á lembrança um resplandecer, um irradiar, um deslumbrar, uma como que auréola que os antigos mestres gostavam de pintar em volta das cabeças dos seus Ecce-Homos! Mas isso é pintura, simbolo visível duma coisa invisível. Qual é a coisa invisível? É de todas as coisas invisíveis, a mais radiante, a mais formosa, a mais divina—é o caráter. Na terra, no Céu, não ha nada tão grande, tão glorioso! Tem muitas significações; em ética porêm só pode ter uma: a «glória» é nem mais nem menos do que o caráter. A terra está «cheia da gloria do Senhor» porque está cheia do seu caráter. A «Belleza» do Senhor é o caráter. A «Effulgência da Sua Gloria» é o caráter. A «Gloria do Unigenito» é o caráter, o caráter «cheio de graça e de verdade». E quando Deus disse ao Seu povo o Seu Nome, deu-lhe simplesmente o Seu caráter, que era Ele Próprio: «E o Senhor proclamou o Nome do Senhor ... o Senhor, o Senhor Deus, cheio de misericordia e de graça, pacientissimo e abundantissimo em bondade e verdade.» Não é pois a Glória uma coisa intangível, espectral, transcendente! Se o fosse, como poderia S. Paulo pedir aos homens que a reflectissem? Despojada do seu enfaixamento fisico, é Beleza, Beleza moral e espiritual, Beleza infinitamente real, infinitamente exaltada, infinitamente próxima, e infinitamente comunicável!

Depois desta explicação lêde de novo em parafrase as palavras de S. Paulo: «Nós todos, reflectindo como um espelho o caráter de Cristo, somos transformados na mesma Imagem, de caráter em caráter»—isto é, dum pobre caráter, para outro melhor; desse melhor, para outro melhor ainda; e desse outro, para outro ainda mais completo; até que lentamente acabamos por atingir a Imagem Perfeita. Aqui a solução do problema da santificação fica concentrada numa única frase: reflecti o caráter de Cristo, e tornar-vos heis semelhantes a Cristo.

Todos os homens são como espelhos—é esta a primeira lei sobre que se baseia esta fórmula. Uma das mais apropriadas descrições do ser humano é, que êle é como um espelho. Ao sentarmo-nos á noite á nossa mesa, o mundo em que cada um de nós viveu e se moveu durante o dia, foi focado para o nosso aposento. O que nós vimos a olharmos uns para os outros, não foi êsses outros, mas o mundo dêles. Houve uma combinação de espelhos. As scenas que vimos, foram todas reproduzidas: as pessoas que encontrámos iam e vinham, falavam, saudávam-nos, passavam para diante, faziam tudo como na vida real. Quando falávamos, estavamos a olhar para o nosso próprio espelho, e a descrever o que por êle ia passando; quando escutávamos, não estavamos a ouvir, mas a vêr—a olhar para o espelho do nosso semelhante. Toda a convivência humana é uma série de coisas reflectidas. Por exemplo, encontro um estranho numa carruagem de caminho de ferro. A acentuação da sua primeira palavra diz-me logo que é inglês e que vem de Yorkshire; sem o saber, reflectiu o logar em que nasceu, quem foram os seus pais, e a longa história da sua raça. Mesmo fisiológicamente é um espelho. Depois de trocarmos algumas palavras, fico sabendo que é politico; e a ligeira inflexão com que pronuncía o nome do jornal The Times revéla-me o seu partido. Nalgumas observações que faz logo a seguir, vejo reflectirem-se um sem número de coisas por que êle tem passado. Os livros que tem lido, as pessoas com quem tem convivido, as influências que o teem dominado e feito dêle o homem que é, tudo isso foi registrado por uma penna que nada deixa passar, e cuja escrita não póde ser apagada. O que eu leio nêle, está êle entretanto a ler em mim; e antes de terminada a nossa viagem poderiamos reciprocamente escrever metade da história de cada um de nós. Ou que nos agrade ou não, a verdade é que vivemos em casas de vidro, o espírito, a memória e a alma, são simplesmente vastas câmaras forradas de espelhos; e desta milagrosa combinação e faculdade é que depende a capacidade de as almas mortais «reflectirem o caráter do Senhor

Mas ainda não fica por aqui. Se todos êstes variados reflexos da nossa chamada vida interna se patenteiam assim ao mundo, quão íntima será a escrita, quão completa a anotação a dentro da própria alma! Porque as influências que encontrámos, não são apenas por um momento mantidas na superfície polida do espelho e arremessadas de novo para o espaço; não; cada uma délas é retida onde primeiro caíu, e guardada na alma para sempre.

Esta lei da Assimilação é a segunda e de todas a mais solene verdade que serve de base á fórmula da santificação—a verdade que os homens não são apenas espelhos, mas que, longe de serem simples reflectores das coisas fugitivas que veem, transferem para a sua própria substância íntima e manteem permanentemente as coisas que reflectem. Ninguem sabe como a alma as póde manter, ninguem sabe como o milagre é feito, nem ha fenómeno da natureza, processo de química, ou capitulo de necromancia que nos possam sequer ajudar a compreender esta assombrosa operação. Porque, atentai bem, o passado não está sómente focado na alma do homem, ficou lá. E como poderia ser dali reflectido se lá não estivesse? Todas as coisas que êle viu, soube, sentiu, creu, do mundo que o cercava, estão agora dentro dêle, tornaram-se parte dêle, e em parte são êle—que foi transformado nessa mesma imagem. Embora o queira negar, embora isso o penalize, tem de admitir que todas essas coisas lá ficaram; não, aderindo a êle, mas transfundindo-se nêle, que por si, não póde nem alterà-las, nem repelì-las, pois não estão na sua memória,—estão nêle. A sua alma é como elas a encheram, a fizeram e a deixaram. São essas coisas, êsses livros, êsses acontecimentos e essas influências que o fazem a êle; e delas dependem a vida e a morte, a beleza e a deformidade. Quando a imagem duma delas se apresenta á alma, não ha nada no mundo que possa impedir duas coisas—uma, o ela ser absorvida pela alma; a outra, o ficar para sempre reflectida no caráter, que perpétuamente reenviará êsse reflexo.

Sobre êstes assombrosos e não obstante perfeitamente claros factos psicológicos, é que S. Paulo baseia a sua doutrina da santificação. Reconhece que o caráter é uma coisa que se construe lentamente, e que, de hora para hora, póde mudar ou para melhor, ou para pior, conforme as imagens que nêle se reflectirem. Mais um passo, e a aplicação destas ideias ao problema capital da religião surgirá diante de nós em toda a sua plenitude.