QUARTA CONFERENCIA
28 de junho de 1891
Logo que soou aos espertos ouvidos de El-Rei D. João II, de Portugal, a noticia de que o Santo Papa publicara e enviara aos reis de Castella e Aragão uma bulla concedendo-lhes terras a descobrir, além de 100 leguas ao Occidente das ilhas de Cabo-Verde, protestou immediatamente contra o direito que a curia romana se arrogara e declarou aos reis de Castella e Aragão que se não submettia ás bullas Pontificias.
Um conflicto poderia nascer deste incidente, caso não chegassem a accordo amigavel os monarcas de Castella, Aragão e Portugal; um tratado, porém,[{96}] celebrado em Tordesilhas, em 1493, estendendo a linha ideal traçada de 100 a 365 leguas, e compromettendo-se os soberanos a respeitar em tudo mais a bulla referida, serenou os animos timoratos, e puderam, então, desassombrados de sustos de guerra, cuidar os reis de Hespanha de aprestar a expedição maritima, militar e colonisadora, promettida a Colombo, para que elle continuasse na empreza do descobrimento das Indias Occidentaes, tão felizmente iniciada em sua primeira viagem.
Olhava Isabel particularmente para os interesses da religião catholica. Quanto não ganharia Castella propagando o Christianismo nas Indias, chamando ao gremio da Egreja Romana tantas almas pagãs, perdidas naquelles desertos, baptizando e salvando infelizes creaturas, a quem estava feixado o reino dos céos!
Para outra direcção pendia Fernando de Aragão. Salvação de almas era para elle questão secundaria. A principal consistia em conquistar terras, augmentar dominios, alcançar riquezas para Hespanha, e dos relatorios pomposos e discursos[{97}] bombasticos de Colombo derivava-lhe a ideia de que immensas vantagens resultariam de uma segunda viagem de exploração.
Combinavam, portanto, agora, tanto Isabel como Fernando nos desejos e propositos de coadjuvar a Colombo, e de facultar-lhe todos os meios com que podesse realizar seus projectos.
Decretaram immediatamente uma leva de soldados e marinheiros, e uma esquadra de dezesete navios armados, que tudo se collocava á disposição de Colombo. Já não servia o pequeno porto de Palos para tão grande empreza. Foi designado o de Cadix, muito mais importante. Annunciou-se egualmente que á bordo se receberiam voluntarios militares, maritimos, profissionaes de industrias, missionarios, medicos, pharmaceuticos, agricultores, que quizessem partir para a conquista das Indias Occidentaes ultimamente descobertas. Transmittiram-se ordens ás autoridades de Andaluzia para se prestarem ao serviço, e aos recebedores das finanças para despenderem as sommas necessarias.[{98}]
Que contraste entre a segunda viagem, que vai Colombo emprehender, e a primeira effectuada em 1492, em que apenas teve sob seu commando tres miseraveis caravellas com 140 homens de tripolação, e quasi que sem despender o thesouro de Castella quantia notavel de dinheiro!
É que os reis agora estavam convictos de abundantes proventos, e tambem exaltava-se favoravelmente a opinião do povo. Então fôra preciso recrutar á força gente, derramar tributos, arrancar a seus donos os miseraveis e velhos chavecos que partiram de Palos, no meio dos choros, maldições e desesperos dos habitantes. Mas em 1493 todos queriam ir, brigavam por ir. Foi mister determinar que não mais de 1.200 pessoas se recebessem a bordo da esquadra. Cavalleiro avido de distinguir-se em emprezas romanescas; especuladores que pensavam encontrar riquezas que os saciassem; navegantes que sonhavam viagens maritimas venturosas; missionarios inflammados do zelo de promover a dominação da Egreja e o conhecimento da verdadeira fé; fidalgos, plebeus,[{99}] obreiros, lavradores, commerciantes, todos corriam pressurosos á offerecer-se para a partida. Não os olhavam mais as populações como victimas de temerarios e loucos planos; tinham-lhes agora inveja pelas opulencias e ouro que de certo adquiririam.
Dizia Lopo da Vega em uma comedia famosa:
Nono lhos leva christandad,
Sino el oro y la codicia.
Tal era o enthusiasmo que produzira a primeira viagem de Colombo, e tão exageradas se espalhavam as noticias das grandezas e magnificencias das Indias Occidentaes por elle felizmente encontradas!
Trabalhosa foi a tarefa de escolher a gente que pretendia embarcar. Colombo, queixoso dos Pinzons, não os quiz mais para companheiros. Escolheu outros pilotos e mareantes; acceitou egualmente varios fidalgos pobres, que lhe pareceram animados do espirito guerreiro hespanhol. Entre elles alistou-se um cortezão muito afamado pelo seu valor na conquista de Granada,[{100}] e pelas suas aventuras romanescas. Chamava-se Alonzo Ojeda, e vaticinara-lhe a sorte uma brilhante fama, bem que minguada de proveitos e de felicidade. Mais de mil e duzentas pessoas embarcaram em tres grandes galés, e quatorze caravellas, estas maiores de cem toneladas, e aquellas de trezentas, guarnecidas todas e convenientemente de peças de artilharia, e dos melhores petrechos de guerra e apparelhos de navegar. Não houve profissões e classes da sociedade que alli se não representassem, bem como todas as especies de animaes domesticos, sementes de plantas, cepas de vinha, cannas de assucar, e outros objectos de industria preciosos, e de necessidades domesticas e publicas.
De Cadix partiu a esquadra, no dia 25 de setembro de 1493, no meio das saudações estrondosas do povo. Collocava-se emfim o governo do reino, francamente, á testa de emprezas maritimas, e despendia com largueza as sommas necessarias. Da primeira viagem de Colombo, si nem a elle e nem á Corôa couberam vantagens[{101}] materiaes, visto que sob este ponto de vista fôra improficua, da segunda muito se esperava. Entrara tarde em descobrimentos de terras ultramarinas, mas entrava com resolução, vigor e poderosos elementos, e por isso Hespanha conquistou glorias imarcessiveis e proventos espantosos de riqueza e opulencia.
Da sua capitanea apenas de posse, transmittiu Colombo aos commandantes dos outros navios instrucções precisas para as eventualidades da viagem. Seguiu ao SO. para Gomera, onde refez-se de algumas provisões e aguada. Tomou rumo dahi em direitura para o Haity, mais ao sul do que o fizera na primeira expedição. Aos 15 gráos de latitude N. descobriu, no dia 1 de novembro, numerosas ilhas em frente da esquadra. Estavam todas cobertas de vegetação abundante, que exhalava perfumes pela atmosphera; comprehendiam-se no grupo das chamadas Antilhas, que pelo Sul e Léste feixam o mar interior por ellas separado do Atlantico. Dirigiu-se para a mais proxima e deu-lhe o nome de Dominica. Não[{102}] encontrando ancoradouro seguro, desembarcou em outra quasi tão extensa, que appellidou Maria Galante. Levando comsigo por interpretes os gentios que o haviam acompanhado de Haity á Hespanha, e que já fallavam um pouco o idioma castelhano, tratou de reconhecel-a, e entender-se com os indigenas.
Não encontrou, porém, nem-um signal de população; só florestas espessas.
Dirigiu-se então para uma terceira, chamada por elle Guadelupe. Visitou uma aldêa, de onde fugiram os habitantes ao avistarem navegadores estranhos, deixando apenas crianças abandonadas, que Colombo esmerou-se em adornar com rosarios e braceletes de contas, no intuito de patentear seus propositos pacificos para com os indigenas. Essa aldêa mostrava-se semelhante ás de Cuba, S. Salvador e Haity; conteria quarenta casinhas collocadas em um quadrado, construidas de madeira, cobertas com folhas de palmeiras. A aldêa tinha só sahida por uma especie de portico. Dentro das casinhas rêdes de algodão para dormir,[{103}] algodão em rama e trançado, arcos e flexas, e utensis de pedra e madeira. Horrorisaram-se estupefactos os hespanhóes, notando craneos humanos pendurados, que os gentios interpretes declararam pertencer á inimigos prisioneiros, que os Caraibas, terriveis habitadores das ilhas do sul, matavam para comerem e devorarem em seus festins e folguedos. Pelas praias encontraram canôas de um só tronco de arvore, mas enormes, em que cabiam quarenta a cincoenta homens.
Ordenou Colombo que uma partida de marinheiros commandada por Ojeda penetrasse no interior da ilha e examinasse seus sitios: voltaram elles, no fim do dia, conduzindo muitas mulheres, que os tinham procurado, e quizeram acompanhal-os. Soube, pelas conversas que os interpretes com ellas travaram, que haviam sido roubadas ás ilhas vizinhas e reduzidas á escravidão, e supplicavam as não deixasse elle naquella ilha entregues á ferocidade dos moradores que se tinham evadido com medo dos castelhanos. Comprehendeu Colombo que eram tribus de[{104}] barbaros que alli habitavam: acolheu as mulheres a bordo e continuou sua viagem, ancioso de chegar á fortaleza da Natividade no Haity.
Atravessou por entre muitas e innumeras ilhas de diversas dimensões, e deu fundo em uma que recebeu o titulo de Santa Cruz. Eis que de um promontorio surgiu-lhe uma piroga com bastante gente; apenas avistada mandou Colombo uma chalupa a seu encontro. Os gentios da piroga deitaram a fugir. Empunhavam arcos, disparavam no entanto flexas que feriram a varios hespanhóes, bem que defendidos por seus escudos. Combatiam tão valentemente como elles algumas mulheres. Cahiram os castelhanos sobre a piroga, viraram-na no abalroamento; mas os gentios e as mulheres que a guarneciam atiraram-se ao mar, e mesmo nadando faziam chover flexas sobre os hespanhóes, ao passo que desappareciam aos olhos mergulhando e impossibilitando sua perseguição. Percebeu-se que as flexas tinham veneno nas pontas, porque um dos castelhanos feridos morreu do virus communicado.[{105}]
Levantou então ancoras a esquadra e descobriu a grande ilha conhecida pelo nome de Porto Rico, de encantador aspecto; fugiram tambem os seus moradores apenas avistaram os navios. Depois de uma pequena exploração, continuou Colombo sua viagem e chegou emfim ao Haity, parando a esquadra defronte do local onde se construira o forte da Natividade e onde elle deixara 40 companheiros, quando partira para Hespanha. Era noite já, e para signal roncou a artilharia de bordo, avisando os amigos de terra.
Que surpreza foi, porém, a sua! Amanhecera o dia e ninguem lhe apparecia! Espantado de não avistar o forte, desembarcou, e em terra descobriu-o inteiramente arrasado; nem um hespanhol ahi deixado encontrou, e apezar de gritos e tiros de artilharia para lhes servir de chamada, ninguem appareceu-lhe! Expediu logo gente que visitasse a aldêa não muito distante, do seu amigo, o cacique Guanacaguary. Deserta e destruida estava tambem a aldêa. Mandou-o procurar nos mattos, e felizmente em nova aldêa[{106}] foi elle encontrado. Soube então pelos interpretes que os hespanhóes do forte tinham roubado ornamentos de ouro e mulheres aos da tribu guerreira do Cibão, que entre si mesmos haviam e por causa da divisão dos despojos, que alcançaram, travado luctas sangrentas e mortiferas, e que provocando com seu procedimento os furores do cacique Canoabo, este os atacara, vencera, matara a todos e arrasara completamente o forte. Accrescentava-se ainda que Guanacaguary esforçara-se em defender os hespanhóes, mas fôra derrotado, ferido e obrigado a esconder-se nas florestas até que Canoabo se houvesse retirado, e elle pudesse estabelecer-se com sua tribu em novas tabas que construira.
Inicia-se por esta maneira a historia dos estabelecimentos europeus na America. As paixões desordenadas dos invasores produziram guerras civis e a perversidade de seus espiritos suscitou contra elles os odios dos gentios que até então pareciam mansos, mas que eram por natureza barbaros e vingativos.[{107}]
Tratou Colombo de pacificar os animos dos gentios, que mostravam-se agora desconfiados dos hespanhóes; convidava-os a ir á bordo dos navios, acolhia-os com caricias e presenteava-os generosamente afim de angariar-lhes de novo as sympathias.
As visitas, no entanto, que a bordo do Almirante repetiam os gentios, suas conversas com as indigenas que Colombo acolhera nas ilhas das Antilhas, deram em resultado um espectaculo singular.
Em uma noite ellas se precipitaram todas ao mar. Bem que perseguidas pelos hespanhóes, mergulhavam, nadavam, e agarrando-se a rochedos, que se entranhavam nas aguas, desappareceram e escaparam ás perseguições! Não teriam havido concertos? Tão suspeitoso como o dos gentios tornou-se dahi por deante o animo de Colombo.
Traçou então a planta de uma cidade em terra, que denominou Isabel, edificada no centro norte do Haity, perto do Monte-Christo; não tardou em[{108}] construil-a, abrindo ruas e praças, edificando casas, levantando fortificações e estabelecendo uma egreja. Foi esta a primeira povoação que os europeus firmaram na America! Della tomaram posse os hespanhóes, e a mais vasta morada reservou Colombo para si, como almirante e governador das conquistas. Distribuidos terrenos, principiou-se a cultura do sólo, e confiaram-se-lhe as sementes de plantas européas, as cepas de vinha e de cannas de assucar, que se desenvolveram rapidamente. Não esqueceu a propagação dos animaes, e preparou-lhes os pastios indispensaveis. Em pouco tempo uma cidade hespanhola assim organizou-se e constituiu-se o nucleo de outras, que se semearam por aquellas paragens.
Expediu depois Colombo gente numerosa ás ordens de Ojeda, cujo desembaraço e intrepidez temeraria lhe agradavam, afim de que explorassem o interior da ilha, dirigindo-se particularmente para as montanhas do Cibão, onde, segundo os dizeres dos gentios, existiam importantes minas de ouro.[{109}]
Cumpriu exacta e resolutamente Ojeda a sua tarefa. Bateu por vezes os gentios do Cibão, aprisionou muitos, reconheceu signaes de ouro virgem nos leitos das torrentes e rios, e soube que existiam minas do mesmo metal, mais para as alturas dos morros. Estabeleceu-se em ponto fortificado, e remetteu a Colombo algum ouro em pó e pedaços petrificados. Para lá partiu immediatamente Colombo á testa de quatrocentos homens; feriu variados combates com os gentios e verificou com seus olhos a verdade do que Ojeda lhe communicara.
Fez voltar, no entanto, alguns navios para Hespanha, a dar contas de sua commissão. Confiou o commando a Antonio Torres, incumbindo-o não só de proclamar as riquezas da terra, levando para prova amostras valiosas de ouro, bastante algodão, plantas aromaticas e pimenta que adquirira; como de voltar com a maior brevidade trazendo vinho, medicamentos, viveres, armas, vestimentas, cavallos, artifices, agricultores, e particularmente mineiros para se[{110}] rasgarem com proveito e maior facilidade as minas opulentas do Cibão.
Infelizmente sorriu ao espirito de Colombo uma deploravel ideia: por que não converteria em escravos os gentios que nos combates aprisionara? Vendidos em Hespanha, como em Portugal e mesmo em Hespanha se vendiam mouros e pretos de Guiné, não prestariam ao thesouro régio colheita abundante de impostos, que o coadjuvasse nas despezas indispensaveis ás expedições maritimas? Convencido deste principio, embarcou cerca de quinhentos gentios nas caravellas que apparelhara e que expedira immediatamente para Hespanha.
As ideias fanaticas da epoca consideravam quem não fosse catholico como inferior em direitos aos catholicos, os hereges e pagãos podiam, portanto, escravisar-se: por que escapariam os gentios da America á este destino, á esta sorte miseranda? Apezar de seu espirito adeantado, não podia Colombo resistir á influencia das ideias do seu tempo.[{111}]
Emquanto se occupava Ojeda nas pesquizas de ouro, deliberou Colombo proceder á novas explorações de terras. Seguiu em um navio e tomou rumo pelo sul de Cuba, em direcção do oeste; encontrou a ilha da Jamaica; admirou suas bellezas naturaes, deu-lhe o nome de Santa Gloria, quiz desembarcar, mas oppuzeram-se os gentios em grandes canôas, armados de arcos e flexas. Pareciam guerreiros como os Caraibas, não pacificos e mansos como os de Cuba, e em geral os do Haity. Foi, pois, compellido Colombo a descer em terra levando chalupas bem guarnecidas de gente. Pela primeira vez empregaram-se, além das armas mortiferas de fogo, enormes cães de fila, que se atiravam furiosamente sobre os gentios, e que muito coadjuvaram aos hespanhóes em suas victorias, pois que apavorados de terror fugiam elles para os mattos e escondrijos.
Da Jamaica, bem que não domada e nem em parte submettida, partiu Colombo tratando de correr as costas meridionaes de Cuba, no intuito de verificar por si si era ilha verdadeira. Navegou por[{112}] entre as numerosas ilhas appellidadas Jardins da Rainha. Ahi foram amigaveis as relações com o gentio, traçando Colombo constantemente mappas geographicos das terras que via. Voltou para a cidade de Isabel ao findar o anno de 1494, sem ter conseguido contornar Cuba em toda a sua extensão. Com a mais intensa alegria encontrou ahi seus irmãos Bartholomeu e Diogo, que á seu chamado se tinham despedido do serviço maritimo de Portugal, e embarcado immediatamente para o Haity em navios que de Hespanha haviam partido no correr do anno, trazendo para as Indias Occidentaes auxilios de gente e viveres.
Infelizmente, porém, o caracter turbulento e altivo, e o levantado espirito dos hespanhóes não se desviavam de sua natureza e instinctos, trocando o sólo europeu pelas terras Americanas.
Sedições formaram-se logo em Isabel; um Bernal Dias excitou grande numero de moradores contra o governo de Colombo, e ousou ameaçal-o: suffocada a revolta, castigados os criminosos e enviados para a Hespanha o chefe e os[{113}] principaes cumplices, outra e mais terrivel sedição rompeu, capitaneada por Margarito e pelo Padre Boyle, que se apoderaram com seus asseclas de alguns navios, e partiram para Hespanha sem se importarem com o almirante.
Comprehendeu então Colombo as difficuldades da sua situação diante de gente tão insubordinada, e que se considerava illudida, porque não obtivera logo riquezas que sonhara, e pois considerava, por esse motivo, á Colombo como autor de suas infelicidades e soffrimentos.
Perseverava tambem inimigo o famoso cacique Canoaba, que ousou formar um tal qual cerco regular em torno de Ojeda quando se estabelecera nas montanhas do Cibão, e contra elle dirigir continuadas escaramuças e assaltos. Era Ojeda felizmente bravo e sagacissimo. Empregando estratagemas, conseguiu colhel-o ás mãos, aprisional-o, e remettel-o em ferros para Isabel. A guerra, pois, contra os gentios, inaugurava peripecias perigosas, e combates a combates se succediam, sem que se tivessem subjugado aquelles[{114}] selvagens da ilha, bem que já mais ou menos povoada pelos hespanhóes e dividida em districtos. Voltara Torres, no entanto, de Hespanha, trazendo reforços á Colombo. Fel-o de novo Colombo voltar com novo carregamento de indigenas escravisados e com os productos, que pôde colher, pensando assim sustentar seus creditos perante os reis catholicos.
Muitos hespanhóes, porém, que haviam regressado para Hespanha, começaram a espalhar alli vozes e noticias desabonadoras de Colombo; accrescia que poucos proventos alcançavam ainda á Corôa, visto que não traziam os navios mercadorias e ouro, que compensassem os sacrificios que ella fazia com as expedições. Maior intensidade tomaram as intrigas e o descontentamento, ao chegarem á Hespanha o padre Boyle e Margarito. Perdia Colombo no conceito, e começavam á manifestar-se-lhe adversarios. O Bispo Fonseca, presidente do tribunal fundado para os negocios das Indias Occidentaes, declarou-se logo seu inimigo e em memoriaes e relatorios dirigidos á Corôa accusava-o constantemente por tudo quanto[{115}] parecia nocivo aos interesses dos subditos e das conquistas.
A Rainha Isabel, impressionada com as noticias que se espalhavam, e com as communicações de Fonseca, resolveu mandar ao Haity um emissario incumbido de syndicar do procedimento de Colombo, e publicar edictos concedendo licença mediante clausulas aos subditos que desejassem ir ou mandar, por sua conta particular, navios que se destinassem a explorações e descobertas de terras fóra da alçada e da autoridade do almirante das Indias. João Aguado partiu immediatamente em caracter official para o Haity, commissionado pelo governo, e pela Castilha se espalharam os edictos regios.
Chegado que foi Aguado á villa de Isabel, mostrou-se Colombo resentido por lhe parecer falta de confiança o acto dos soberanos. Mais ainda exacerbou-se, sabendo do decreto que permittia a aventureiros emprezas exploradoras nas Indias Occidentaes, que elle reputara estarem todas sob seu governo exclusivo.[{116}]
Aguado abriu inquerito contra Colombo e ostentou autoridade independente. Reuniu elementos que lhe pareceram sufficientes para prejudicar ao almirante. Não ousando, porém, no Haity, commetter acto offensivo, decidiu-se a voltar para a Hespanha, afim de ahi formular, sem susto, sua accusação. Prestou-lhe Colombo uma caravella para a viagem. Temendo, todavia, o resultado do inquerito, preparou outra para si, e transferindo o governo ao irmão Bartholomeu, seguiu para Hespanha ao mesmo tempo que Aguado. Acompanhava assim a accusação e o magistrado que a instaurara, no propósito de nullificar-lhes os effeitos: era já o anno de 1496.
Apenas tomou terra em Cadiz, seguiu Colombo para Burgos, onde se achavam os reis hespanhóes. Convem dizer-vos, minhas senhoras e senhores, que não vos deveis admirar que os soberanos de Castella e Aragão ora estivessem em uma, ora em outra cidade dos dous reinos, que lhes pertenciam. Capital de Hespanha só tornou-se[{117}] exclusivamente Madrid para residencia do Rei e centro da administração geral, em tempo de Felippe II, na ultima metade do seculo XVI. Até então eram todas as principaes cidades consideradas capitaes, isto é, os soberanos residiam umas vezes nesta, outras vezes naquella, mudando sempre a côrte para assim agradarem a todos os povos das antigas provincias outr'ora independentes, que não queriam perder sua autonomia, e mostrar-se-iam desgostosos quando uma capital fixa fosse preferida para morada dos monarcas. E pois, no correr destas narrativas, os encontrais em Cordova, Granada, Sevilha, Barcelona, na Salamanca, e agora em Burgos e no intervallo do tempo achavam-se egualmente em Valhadolid, Saragoça, Toledo e Leão.
Não foi por Isabel mal acolhido Colombo, bem que sem aquelle enthusiasmo e intimidade, de que elle recebera publicas e particulares demonstrações em 1493. Nos funccionarios elevados deparou, porém, frieza, assim como em Fernando de Aragão. Para o povo andava já bastante[{118}] desconceituado: não o acreditavam mais aquelle heróe, aquelle ente sobrenatural que descobrira as Indias Occidentaes, e promettera á Hespanha tanta opulencia e riqueza que, desgraçadamente, se não tinha ainda realizado!
Procedia o descredito, em que começava Colombo a cahir, de ser accusado de enganar os soberanos e zombar da nação com descripções exageradas dos paizes descobertos, que mais custariam despezas e sacrificios que vantagens e gloria; attribuiam-lhe ainda uma administração tyrannica e oppressora, com que coagia os subditos á revoltas constantes; e imputavam-lhe tambem ambições arrojadas de explorações novas e inconscientes de que não havia proveito a esperar.
Felizmente para Colombo levara elle para Hespanha bastante ouro extrahido das montanhas do Cibão e de uma mina ahi encontrada no sitio denominado Hayna, que se descobrira com signaes de ter soffrido já antigas excavações. Esta circumstancia ultima, que elle verificara, mais lhe confirmava a ideia que tinha de que o Haity[{119}] era a ilha de Offir, e que aquellas excavações regularmente effectuadas deviam ter sido praticadas pelos povos indiaticos das costas fronteiras á ilha.
Quer apresentando e entregando notavel quantidade de ouro para os cofres publicos; quer com discursos e relatorios afiançadores de maiores riquezas, e em que reluzia sempre a esperança de tornar catholicas tantas almas perdidas, que imploravam o baptismo para se salvarem, com o que correspondia ás delicadas cordas da consciencia da Rainha; conseguiu Colombo desfazer muitos preconceitos e calumnias propaladas á seu respeito. Declarou-lhe por fim Isabel que continuaria a confiar nelle e lhe prestaria novos auxilios, com que executasse terceira viagem ás Indias Occidentaes, explorasse terras até encontrar o Japão e a China, e cuidasse de extrahir das minas descobertas no Offir a maior somma possivel de riquezas.
Que difficuldades se lhe antepuzeram, no entanto, aos desejos de aprestar navios com gente[{120}] e carregamentos necessarios! Ora allegava-se que o thesouro regio estava esgotado com as guerras que o ambicioso Fernando travara contra a França; ora excessivas despezas exigidas pelos casamentos da princeza D. Joanna com o archiduque austriaco Felippe, que governava em Flandres, e do principe D. João com uma infante egualmente da casa d'Austria.
Oppunha-se por seu lado tambem Fernando de Aragão a todo o gasto para se descobrirem ilhas e terras selvagens e incultas, preferindo nas guerras, em que quasi sempre laborou na Europa, empregar os recursos de Hespanha.
A Rainha, porém, decidiu-se á coadjuval-o efficazmente, logo que soube que em julho de 1497 El-rei D. Manoel, que herdara a corôa de Portugal, tratava de executar o pensamento e recommendações de D. João II, fallecido em 1495, de perseverar nos aprestos de uma grande expedição para as Indias do Indostão, e conseguira emfim fazel-a partir de Lisboa, ás ordens do almirante Vasco da Gama, que como seu auxiliar levara[{121}] em sua companhia o famoso Bartholomeu Dias, que descobrira e dobrara a ponta final da Africa, o tormentoso Cabo da Boa Esperança. Cortou então por todas as difficuldades, e ordenou que á todo o preço se prestassem auxilios á Colombo.
Não era agora desairoso á Castella deixar que a nação portugueza proseguisse só nos descobrimentos, e se lhe avantajasse em gloria e riquezas, que das Indias pintadas e imaginadas com as mais deslumbrantes opulencias deviam provir?
Não tardaram em promptificar-se seis grandes navios convenientemente armados e tripolados no porto andaluz de S. Lucar, vizinho do de Cadix. Foram carregados de armamentos e viveres em abundancia, de obreiros e mineiros para a extracção do ouro, e de missionarios para a catechisação dos gentios.
Confiados de novo á Colombo, transmittiu-lhe a Rainha instrucções para que não parasse na empreza de abrir commercio com o Japão e a China.[{122}]
Partiu assim Colombo para sua terceira viagem de descobrimento das Indias em julho de 1498, e agora do porto de S. Lucar.
Já algumas nações da Europa agitavam-se, no entanto, com o pensamento de relacionar-se tambem com as Indias. Por que Hespanha e Portugal seriam as unicas a ganhar louros gloriosos na historia do mundo, a dilatar os conhecimentos e sciencias cosmographicas, a opulentar-se e enriquecer-se em commercio e navegação? Faltavam á ellas elementos e meios para emularem e competirem com os dous povos da peninsula iberica? Não dispunham egualmente de homens habituados aos azares maritimos, de temerarios chefes e soldados intrepidos para tomarem parte no movimento assombroso e conquistador, cujas noticias causavam o espanto e a admiração geral?
Que poderiam, porém, Francezes intentar quando seu rei, Carlos VIII, vivia occupado em reunir á corôa franceza a Bretanha, no desejo de completar a obra de seu finado pai, Luiz XI,[{123}] que anciara unificar a França em um só reino? Quando, além disso, iniciara guerras com Fernando de Aragão por ciumes de dominar a Italia, e apoderar-se de Napoles e Sicilia? Atrevidos eram ainda como sempre o haviam sido os normandos, marinheiros audazes, e pois, em despeito das ordens régias, e apoiados só em suas energias e temeridades particulares, começavam espontaneamente á devassar as aguas do Atlantico, seguindo primeiramente os passos dos portuguezes pelas Costas da Barbaria e da Guiné.
Adeantou-se-lhes, porém, Henrique VII de Inglaterra: resolvido á partilhar as glorias de abrir caminho á seus subditos para a India, convidou a um venesiano, de nome João Caboto e a seus filhos, residentes em Bristol; autorizou-os á tripolarem navios, que seguindo como os hespanhóes o rumo de Oeste, descobrissem terras e dellas se apossassem em nome da corôa britannica. Não perdeu Caboto tempo; aprestou navios, e ousou viajar affoitamente, antes que terminasse o anno de 1496. Foram-lhe propicios[{124}] os ventos, e acertada a direcção. Descobriu em principios de 1497 terra na America Septentrional aos 58 gráos de latitude; encaminhou-se dahi para o Sul e verificou varios pontos; chegando á bahia de Cheasepeake, aos 34 gráos, no sólo fixou postes declarativos do dominio britannico. Voltou para Inglaterra levando á seu bordo algumas madeiras e bastantes gentios. Pararam ahi por alguns annos as explorações por parte de Inglaterra, porque não resultavam da viagem beneficios correspondentes ás despezas effectuadas. Si fôra Colombo o primeiro que descobrira a America em 1492, e se apossara das ilhas do mar das Antilhas; foi Caboto o primeiro europeu que avistou, em 1497, a terra firme, bem que já no Haity se houvesse Colombo estabelecido e ahi fundado a primeira povoação européa. Tanto, porém, um como o outro, conjecturavam que tudo aquillo eram ilhas asiaticas e não propriamente terra firme, ou um continente separado e novo.
Deixado este incidente, que muito esclarece, todavia, a historia do descobrimento da America,[{125}] acompanhemos á Colombo em 1498, na sua terceira viagem executada, já depois da partida de Vasco da Gama, que em 1497 deixara a barra do Tejo, largando de Lisbôa, em busca egualmente das Indias.
Com seus seis navios fundeou Colombo, segundo seu costume, na ilha Gomera. A tres ordenou seguissem directamente para a cidade de Isabel, no Haity. Com os outros tres, dirigiu-se para o Sul e arribou ás ilhas de Cabo Verde. Dahi caminhou para OSO., e a 31 de julho descortinou aos 9 gráos de latitude terra desconhecida. Era a ilha que tomou o nome de Trindade. Deslumbrando para o sul montanhas longinquas e que se perdiam no espaço, para ellas proseguiu sua rota, e achou-se deante de um canal rodeado de rochedos e recifes.
Espantou-se de ver o mar, bem que não agitado por ventos, levantar-se em ondas altanadas e subir e descer furiosamente, banhando terras cobertas de vegetação robusta e deslumbrante.
Passou instrucções aos commandantes dos navios e aos pilotos para se acautelarem contra[{126}] as correntes e impetos das vagas, emquanto elle tratava de examinar o phenomeno.
Ordenou que das lanchas lançadas ao mar se examinasse seu fundo. Provadas as aguas, percebeu-se que eram doces inteiramente. Comprehendeu logo que se precipitavam alli rios caudalosos, que só de terras vastas e não de pequenas ilhas podiam nascer tão possantes e tão abundantes.
Não se enganava. Alli rebentava o famoso Orenocco por suas numerosas e tumultuarias boccas, despejando aguas altivas no Oceano e fazendo recuar as salgadas do mar, prestando assim gosto adocicado ás vagas e causando esse phenomeno de elevações extraordinarias, de correntes perigosas e de ondas assoberbadas.
Communicou com a terra e pelos seus interpretes, que se entenderam com os gentios, soube que penetrara no golpho denominado Pariá, que o paiz era cultivado, e os indigenas mansos. É ponto ainda duvidoso si desembarcou então o proprio Colombo, ou si apenas mandou[{127}] pisar o continente por seus officiaes. Como quer que seja, avistou emfim a terra firme, travou relações com os indigenas, presenteou aos caciques com innumeras bugigangas e vestimentas coloridas, e recebeu em troca fios de perolas, que diziam os naturaes vinham do Oeste. Maravilhado e satisfeitissimo, continuou sua viagem, tratando de sahir do golfo em que se achava. Deparou caminho pela Bocca do Dragão, e penetrou no mar das Antilhas: numerosas ilhas se lhe apresentaram ainda. A costa do Pariá seria ainda uma ilha, ou era já parte do continente das Indias que por alli se estendiam? Posto que mergulhado em duvidas, tomou as alturas, verificou as localidades, e tratou de recolher-se ao Haity, para mais tarde e acuradamente proceder á escrupulosa exploração.
Chegado á Isabel, soube que seu irmão Bartholomeu fundara uma nova cidade ao sul da ilha, á qual dera o nome de S. Domingos, nas proximidades das minas de Hayna, e que resultados mais compensadores alcançavam suas[{128}] fadigas, tendo-se extrahido já bastante ouro. Para lá partiu incontinenti Colombo, e converteu S. Domingos em séde do governo. Fundações de novas aldêas e fortes militares determinou tambem, assegurando assim a posse da ilha e curvando os gentios a seu governo. Concedeu a uns liberdade, com obrigação de pagar tributos; declarou captivos os remissos, e empregou-os nos trabalhos da mineração. Quanto aos prisioneiros de guerra, perseverou no systema de envial-os para Hespanha, afim de lá se venderem como escravos.
Não viviam, porém, tranquillos os hespanhóes; intrigas, tumultos, rixas entre si, ameaças de revoltas, tinham roubado muito tempo á Bartholomeu, durante a ausencia de seu irmão. A presença deste não extinguiu as tentativas sediciosas. Um capitão, Roldan, havia levantado o estandarte da rebellião, e á frente de gente bastante tinha-se fortificado em um posto militar, atacando dahi e assaltando as povoações hespanholas vizinhas, e incitando as[{129}] tribus de gentios a se não resignarem ao jugo dos hespanhóes, que muitas eram e dirigidas todas por caciques particulares. Foi o almirante compellido a guerrear de novo. Á frente de numeroso corpo de soldados e servindo-se de cães de fila, e agora tambem de cavallaria, de que já dispunha, e que muito assustavam e maltratavam os gentios, dirigiu-se ás possessões do cacique Guarionez e desbaratou-o completamente. O mesmo não pôde, porém, fazer no tocante aos revoltosos hespanhóes capitaneados pelo chefe Roldan. Conjecturou ser melhor politica transigir e conciliar-se, fingindo acredital-o arrependido de haver-se levantado contra Bartholomeu, que elle accusava de injustiças praticadas.
Era um bravo e ousado soldado, que Colombo poderia conter com geito, e aproveitar para emprezas de vulto, bem que dahi podesse resultar quebra de seu prestigio. Não seria mais desastrosa uma guerra civil, caso o tratasse como qualquer outro rebelde e elle resistisse, como se deveria temer?[{130}]
Cumpre aqui dizer que o ouro e perolas enviadas para Hespanha, e as communicações officiaes feitas por Colombo de que descobrira as terras opulentas do Golfo do Pariá, e que dahi esperava colher copiosas riquezas, incitaram os animos de muitos audazes aventureiros, que se propuzeram logo aos reis catholicos para á suas expensas particulares emprehenderem descobrimentos novos. Não annunciara o governo que concederia patentes para suas emprezas? Animava-os, além disso, o bispo Fonseca, e á um delles, Alonso Ojeda, seu protegido, antigo companheiro e subordinado de Colombo, mas de quem agora se manifestava inimigo, concedeu-se carta régia patente para por sua conta aprestar navios e explorar continentes novos.
Quatro caravellas aprestou Ojeda, e partiu do porto de Santa Maria, defronte de Cadiz, em maio de 1499, levando como seus socios e companheiros um basco atrevido, por nome João de la Cósa, que aprendera ás ordens tambem de Colombo, e o florentino Americo Vespucio, que[{131}] residia em Hespanha, e era muito applicado á estudos cosmographicos e á confecção de cartas maritimas, e ambiciosissimo de tomar parte em expedições da India. Foi esta a sua primeira viagem, sob o commando de Ojeda, bem que elle em cartas particulares, que se publicaram, e que muito teem illudido os historiadores, declarasse falsamente que já em 1497 viajara nas Indias Occidentaes: com quem e quando, nunca exhibiu provas e nem deu ou deixou o menor esclarecimento, cahindo em contradicções palpaveis, e em inexactidões á respeito dos gráos de latitude, o que prova imaginara e não vira com seus olhos. Conseguiu Ojeda do bispo Fonseca cópia do roteiro da terceira viagem de Colombo, e dirigiu-se inteiramente por elle. Descahiu um pouco para o sul, e, segundo affirma, descobriu terras que se conjecturam ser as Guyannas, bem que credulos escriptores pensem ter elle chegado ao Brazil. Volveu das Guyannas para o Norte, sem ter ultrapassado a linha, como elle proprio o assevera. Atravessou o golfo de Pariá, e foi cosendo-se com a terra[{132}] firme. Desembarcou perto da Bocca do Dragão, e encontrando valentes oppositores nos gentios, travou com elles combates sanguinolentos, e perdeu bastante gente. Continuou, e ao entrar no golfo de Venezuela, simularam os indigenas que o acolhiam amistosamente, levando para bordo dos quatro navios hespanhóes cerca de vinte mulheres. Confiadamente desceu á terra Ojeda. Foi então assaltado repentinamente, e com difficuldades inauditas pôde voltar para seus navios. Revelaram-se os indigenas valentes lidadores, e usavam de flexas, escudos e lanças, batendo-se com alguma estrategia, e matando bastantes soldados adversos.
Proseguindo em suas aventuras, sem nenhum proveito, chegou ao Cabo da Vela: faltando-lhe viveres, dirigiu-se ao Haity, quando recebera ordens positivas em Hespanha para lá não desembarcar nessa ilha que era privativa de Colombo.
Que decepção apoderou-se de Colombo ao saber que navegavam hespanhóes por aquellas aguas e terras que elle reputava de seu governo e que[{133}] lhe não prestavam preito e homenagem! Não infringira a Corôa hespanhola seus contratos concedendo-lhes licenças? Não se lhe desprestigiava a autoridade?
Quantas difficuldades, perigos e desgostos para Colombo! Não lhe bastavam as permanentes sedições de rebeldes hespanhóes contra sua dominação. Não se haviam levantado Guemara e Moxica em 1500? Moxica e seus companheiros haviam sido condemnados á morte e executados, e Colombo precisava tornar-se mais severo e inexoravel com os conspiradores. Felizmente para Colombo, occupou-se Ojeda em concertar seus navios e refazer-se de viveres e aguada, e voltou para Hespanha sem causar-lhe o menor desgosto.
As noticias, porém, que á Hespanha chegavam á respeito da situação do Haity, das sublevações alli verificadas, e dos actos rigorosos que fôra Colombo compellido á commetter, suscitaram de novo clamores do povo contra Colombo, e impressionaram forte e desagradavelmente a propria rainha Isabel á seu respeito. Não ouvia[{134}] ella sómente queixas de seus inimigos e relatorios parciaes do bispo Fonseca? Por elles julgou conveniente decretar uma providencia destinada á syndicar o procedimento de Colombo, e á averiguar a verdade das accusações, que constantemente se lhe dirigiam. Nomeou á Bobadilha para seu representante nas Indias Occidentaes, e muniu-o de plenos e geraes poderes para castigar quantos julgasse criminosos, e retirar até das mãos de Colombo o governo da colonia, caso o considerasse indispensavel.
Em julho de 1500 partiu Bobadilha para o Haity.
Apenas desembarcado em S. Domingos, chama as autoridades, mostra-lhes seus plenos poderes, e declara-se na posse das conquistas, aproveitando-se da ausencia de Colombo e de seu irmão, que estavam no forte distante da Conceição.
Todos curvam-se á sua voz e ás ordens régias. Manda então Bobadilha intimar á Colombo para que venha defender-se de accusações que contra elle haviam sido endereçadas á Corôa. Não se[{135}] temeu Colombo de partir para S. Domingos. Bem, todavia, não havia chegado, foi preso com seus irmãos e amigos, carregados todos de ferros, e encarcerados em uma fortaleza. Processos se organizaram, ouviram-se como testemunhas quantos se suspeitavam adversos ao almirante. Não houve crime de arbitrio, tyrannia, concussão, ou roubo que lhe não fosse imputado. Embarcados em uma caravella foram Colombo e seus companheiros de infortunio mandados para Hespanha, com ferros aos pés, e ordens para serem vigiados por guardas, quaes réos de horrorosos attentados. Assim pagavam os reis de Hespanha á Christovam Colombo seu grande feito de descobrir um novo mundo![{136}]