TERCEIRA CONFERENCIA
14 de junho de 1891
Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas maravilhosas Indias que elle só conhecia pelos livros errados e mappas defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango ou Japão. Na sua convicção, na sua crença profunda, na sua fé, as Indias não estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de oeste.[{58}]
Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano, rumando ao principio ao SO. á procurar as Canarias, situadas á cerca de 27 gráos de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da viagem. Não lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florença, e bem assim o globo ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que elle conhecera quando em serviço de Portugal?
Não figuravam todos esses documentos o Japão ou Cypango na mesma latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude, pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?
Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha. Conserva-se ainda nos archivos da Corôa este precioso documento, e foi publicado no seculo[{59}] presente, pelo celebrisado geographo Navarrete em sua interessante collecção de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introducção pomposa, assim começa:
—In Nomine Domini Nostri Jesus Christi—Encarregado pelos muito altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.—de descobrir os paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado o Grão-Kan da Tartaria, etc.—afim de convertel-os á nossa santa Religião Catholica, Apostolica, Romana—parti de Palos a 3 de agosto de 1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar durante o dia.—
Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas nossas observações de preferencia ao que referem muitos escriptores, que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se não encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. Não fallo só dos escriptores contemporaneos de Colombo como[{60}] Oviédo, Las Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros como Herrera, e Garscilaso, e até aos mais modernos como Benzoni, Munoz, Robertson, Prescott e Irving.
Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiança e a estima dos subordinados, de impôr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de embeber-lhes no animo a crença de que se não navegava a esmo e sem destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japão encostadas ás Indias e fronteiras ás Canarias. Visto que elle expunha sua vida, que lhe devia ser preciosa, não tivessem os companheiros receio de entregar-se á sua direcção. Encontrou felizmente auxiliar de immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.
Ao correr o terceiro dia de viagem o leme da Pinta desconjuntou-se, e trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou menos[{61}] açoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem até ás Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos navios para que dia e noite navegassem proximos e á vista.
Arribou-se á ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas, refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provisões. Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em mares não devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam ás costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos Portuguezes em suas excursões maritimas, e de pretender o Duque de Viseu consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido á reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhóes as tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome da Corôa de Castella.
Que sustos assaltaram as tripolações ao passarem pela ilha de Tenerife no momento em que do[{62}] seu pico saltavam flammas de fogo, que illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma erupção volcanica, e custou bastante á Colombo explicar-lhes a natureza de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do Vesuvio em Napoles.
Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um signal de terra! Ás vezes calmarias detinham a marcha dos navios, batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os mareantes incommodos dos balanços descompassados dos navios sobre as aguas aliás tranquillas do oceano!
Adiante caminhava sempre a Pinta por mais veleira, sustendo de quando em quando a marcha para não separar-se das caravellas companheiras. Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara boiando sobre as aguas um pedaço de mastro de navio! Começavam já a assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os[{63}] opulentos portos e cidades riquissimas do Japão e da China, e ahi se encontrariam thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos começaram entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrás de si? Não veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torrão natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da patria!
Quatrocentas, quinhentas leguas tinham-se vencido, e nada de terra!
E o que por alguns momentos abalou um tanto tambem á Colombo foi observar com o cuidado e pericia que elle empregava, que a agulha variava durante as noites e manhãs. Tres dias meditou observando e occultando o phenomeno. Perfeita estava a bussola. Seria causa a estrella polar, que como os demais corpos celestes soffria evoluções e descrevia cada dia um circulo em derredor do polo? Assim o declara em seu jornal haver conjecturado.[{64}]
Previdente como era, e adivinhando murmurios da tripolação, havia formado desde as Canarias dous cadernos de estimativa, um verdadeiro e exacto para seu uso, e outro para ser a todos aberto e mostrado. Neste ultimo diminuia diariamente as milhas caminhadas, afim de se não amedrontarem os marinheiros com as distancias percorridas.
Felizmente que para infiltrar nos animos alguma coragem, alli appareciam de quando em quando uns monticulos de terra com arbustos balanceados pelas vagas; acolá esvoaçava um passaro aquatico e tambem uma meia duzia delles logo depois se mostravam.
O que produzia alguma esperança nos navegantes era a limpidez, a temperatura da atmosphera, muito menos quente em egual latitude que a das costas de Africa.
De bordo dos navios fazia-se fogo e matava-se um ou outro dos passaros volantes; e ás vezes apanhavam-se peixes que serviam de agradavel repasto.[{65}]
Em diversas occasiões illudiram-se com aspectos de nuvens accumuladas, que figuravam terras. Disparavam então em gritos de alegria, entoavam canticos de agradecimento aos céos! Tombavam de novo nas apprehensões e sustos ao verificarem o engano. Já claramente se manifestava a decepção dos animos dos tripolantes; terras não appareciam: os indicios que se notavam, bem que se succedessem uns após outros, não bastavam para acredital-as deante de si. Não houve propriamente alvoroto ou revolta, mas a decepção mostrava-se tão intensa já, que se devia temel-o. Propalava-se francamente a opinião de que era mister retroceder, afim de se não perderem todos, homens e caravellas! Colombo quasi não comia e nem dormia, observando durante toda a noite os astros, relanceando os olhos pelo firmamento, e procurando descobrir-lhe o termo no mysterio das aguas!
Uma vez, a 25 de setembro, ao anoitecer, Martim Pinzon gritou da pôpa da Pinta para as duas caravellas, que tinha avistado terra, e queria[{66}] um premio, apontando para o SO. e mostrando uma longa listra preta por cima dos mares, destacada no fundo do horizonte. Todos proromperam em vivas! Echoou pelo limpido horizonte e em solemnes saudações o cantico de Gloria in excelsis, acompanhado pelas vozes de toda a equipagem!
Enganadora illusão! Era uma nuvem que no dia seguinte já se não via no espaço! A aurora desfizera todas as apparencias de terra, bem que durante a noite para ella, que estava ao SO., se navegasse a pannos largos, desviando-se do rumo de O. De quando em quando repetiam-se estas scenas creadas pela imaginação e desejos dos navegantes, e nada de terra, bem que mais de 700 leguas se tivessem já caminhado pelo oceano, pensando a tripolação que só 500 devassara. Eis, porém, que começaram a apparecer passaros de diversas qualidades, e hervas em montes e parecendo frescas, que concorriam bastante para alliviar os sustos!
Corria a noite de 11 de outubro, e estava Colombo encostado á amurada do castello da prôa,[{67}] meditabundo e abatido, como que desanimado, sentindo apenas rebentar-lhe do peito uma ultima esperança brotada da profunda convicção, que unica o alimentava.
Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. Não dava o globo attribuido á Behaim posição das ilhas do Cypango ahi por perto, segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de passaros que se encontravam no espaço, a direcção de seus vôos para o Oeste, não o confirmavam? Por elles se não regulavam os Portuguezes, com quem aprendera em suas viagens? Não mostravam-se ainda frescas as hervas e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, só proprios de rochedos, não se colhiam aos anzóes? No estendido horizonte, ao som monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, não adivinhavam seus olhos alguma cousa extraordinaria?
Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha, que se movia. Navio não podia ser. Não o havia naquellas[{68}] paragens. Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinião. A luz ora desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a marcha fosse parallela e não em direitura á luz, para melhor se reconhecer a verdade.
Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de peça de bordo da Pinta estrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram, subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria devéras terra? Não equivaleria ainda a uma illusão?
A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios. Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o navegador intrepido e arrojado!
Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou então a equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devéras, deante das Indias? Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia da Europa, em mares[{69}] desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas afim de ir a pouco e pouco melhor observando.
Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America! Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e não um novo hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para outro polo? Não tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos, percebido terras novas defronte da Africa e Europa?
Não fôra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperança, dobrado em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e duração da viagem? Para Colombo não houve duvida mais,[{70}] estavam alli as Indias, e ás terras que descobria foi dando o nome de Indias Occidentaes, como costas oppostas ao Indostão que os Portuguezes procuravam.
A terra que via Colombo defronte de si pareceu-lhe uma ilha, não montanhosa, mas coberta de espessos e altos arvoredos. O aspecto encantava, e á proporção que os navios se approximavam, foram apparecendo homens, sahindo dos bosques, e que se collocavam curiosos nas praias a olhar para as caravellas. A atmosphera diaphana, perfumada, mais ainda o enchia de contentamento e enthusiasmo.
Lançam-se ao mar as ancoras. Tres chalupas enchem-se de homens armados. Colombo embarca-se em uma, coberto com um manto encarnado, de espada em punho e sustentando no outro braço o estandarte real de Castella e Aragão. Os dous irmãos Pinzons descem para as outras duas. Rema-se para terra. Os habitantes curiosos fogem para os bosques. Colombo salta: ajoelha-se, rende Graças a Deus, beija o chão e derrama lagrimas[{71}] de alegria! Resoam os ares com canticos a Deus, em córos repetidos. Colombo estende então a espada, levanta o estandarte, e, rodeado de seus companheiros, declara a terra de posse e propriedade da rainha de Castella e do rei de Aragão, e dá-lhe o nome de S. Salvador. Manda pelo escrivão lavrar termo com todas as formalidades e jura aos Santos Evangelhos que, na qualidade de almirante e governador em que se considera desde aquelle instante, obedecerá escrupulosamente ás régias magestades, que representa como subdito fiel e dedicado.
Todos saudam, applaudem o chefe, proclamam sua autoridade, e juram-lhe egualmente obediencia.
Os naturaes da terra descoberta, notando a attitude tranquilla dos invasores, vão perdendo os sustos, de que a principio se tinham apoderado; sahem á pouco e pouco dos bosques, bem que se mostrem bastantemente suspeitosos. Homens, mulheres, todos nús, de uma côr de cobre, cabellos pretos e compridissimos, ás vezes pelo[{72}] corpo, pelos narizes e pelo rosto pinturas toscas com tintas differentes: talhe ordinario e elegante!
Mais se confirma Colombo de que está nas Indias, porque Marco Paulo dizia que a côr dos Indios não era branca como a dos Europeus, e que na China, Japão e Tartaria puxava ella mais ou menos para o bronzeado e o amarello. Como porém estavam nús? Como não via habitações, cidades, taes e tão ricas como Marco Paulo apregoara?
Dirigiram-se para os gentios signaes de chamada, gestos de caricias, mostrando-lhes bugigangas de pedrinhas, rosarios de contas, carapuças coloridas. Posto que exprimindo palavras meigas e amigaveis, não eram entendidos! Mas a pouco e pouco se foram os gentios approximando, empunhando lanças pontudas de páo, e sem ceremonia recebendo os presentes, que se lhes offertavam, e que pareciam alegral-os.
Ao cahir da tarde retiraram-se os hespanhóes para bordo das caravellas; no dia seguinte viram, antes de desembarcarem de novo, numerosos[{73}] gentios nadando á roda dos navios e batendo palmas, como para saudal-os, e muitos em canôas compridas ou pirogas movidas com remos. Traziam de terra bolos ou pães de mandioca, que offereceram aos navegantes europeus.
Estavam travadas as relações. Voltaram á terra os hespanhóes. Perceberam então pequenos ornamentos de ouro, de que os gentios usavam, e que trocavam por bugigangas, rosarios e carapuças. Colombo prohibiu logo o trafico do ouro, por pertencer á Corôa por seu contracto.
Perguntou-lhes por signaes onde estava o ouro, e elles apontaram para o lado do sul. Havia, pois, terras ao sul, e nellas ouro. O ouro era o principal incentivo dos aventureiros.
No dia 14 reconheceu o almirante, embarcado em uma chalupa, as costas da ilha, e viu ao pé uma outra pequenina, que hoje se chama Whattling, e que era a que mostrara-lhe a luz, por elle percebida na noite de 11. Arvoredo espesso, excellentes aguas, praias faceis, e umas pequenas aldêas nos bosques.[{74}]
Tomou o almirante a seu bordo sete gentios, na intenção de ensinar-lhes castelhano e servirem elles de guias e interpretes. Prestaram-se-lhe de boa vontade, convidados com caricias.
Deixou a ilha de S. Salvador e seguiu rumo do sul, e o mais lindo panorama se lhe desdobrou então aos olhos. Numerosissimas ilhas salpicavam os mares. Penetrava-lhe pelos sentidos um aroma agradavel dos bosques.
Cada vez mais acreditava Colombo que estava nas Indias, porque Marco Paulo declarara que o Cypango continha uma enorme quantidade de ilhas, abundantes de especiarias e arvores odorificas.
Em uma desembarcou, dando-lhe o titulo de Conceição, povoada como S. Salvador; depois em outra que chamou Fernandina; logo após em uma terceira, cujo aspecto o inebriou, e por isso lhe poz o nome de Isabel; o mesmo espectaculo presenciou em todas: estavam cobertas de arvoredos gigantescos, eram habitadas por gentio manso e tranquillo.[{75}]
Passando pelo meio dessas ilhas numerosas proseguiu para o Sul, apontado pelos guias gentios de S. Salvador: chegou a uma terra immensa, e desembarcou em um excellente porto ao Norte, onde corria um rio copioso, por cujas aguas foi subindo facilmente.
Maravilhado do esplendor e magnificencia da terra, dos passaros multicores, das plantas que avistava, dos pinheiros e arvores fructiferas e desconhecidas pelos Europeus—exclamou:—Eis os Campos Elyseos! Não será Cypango?—Era a ilha de Cuba que elle descobria, e que intitulou Joanna, por ser este o nome da Princeza hespanhola filha de Isabel e Fernando.
Viu maior quantidade de ouro nos ornamentos dos gentios, mas não lhes entendeu a linguagem; nem o Arabe nem o Chaldeo fallavam! Pelos signaes com que elles respondiam mostrando-se-lhes ouro, atinou logo que o ouro vinha do paiz que estava mais ao Oriente. Viveu perfeitamente em paz com os indigenas de Cuba, e gastou dias em reconhecer parte das suas costas do Norte. Duvidoso si estava[{76}] em ilha ou em continente, entendeu todavia não lhe ser util perder tempo em examinar a terra, preferindo continuar até que deparasse povos civilisados e ricos, e que por emquanto não encontrava.
Deixou Cuba portanto, e seguiu rota para o ponto designado pelos gentios da terra, sempre que se lhe fallava em ouro. Navegou para ESE. No dia 5 de dezembro achou-se defronte da ilha do Haity, que denominou Hespanhola, e que é tambem conhecida pelo nome de S. Domingos.
Estudemos agora, ainda que succintamente, a geographia e topographia destas localidades, afim de colhermos maiores esclarecimentos que bem elucidem as peripecias do descobrimento.
Entre a ponta da Florida aos 25 gráos de latitude Norte e ás bocas do rio Orinoco aos 9 gráos, estreita-se a terra Americana pelo lado occidental, e forma então um isthmo, que se estende entre os dous grandes continentes, abrindo pelo Oriente uma larga bahia chamada das Antilhas, no fundo da qual ao occidente se escondem golphos[{77}] importantes como o do Mexico, de Honduras, de Darien e outros. A bacia que mais propriamente se appellida mar das Antilhas contém em seu seio as ilhas de Cuba, Jamaica, Haity; e na parte de Léste onde se confunde com o Atlantico é toda fechada por uma muralha ou linha quasi symetrica de ilhas maiores ou menores, chamando-se as situadas ao norte Lucayas, que pertencem ao grupo septentrional, e as do lado do sul Caraibas. Por entre as do Norte penetrara Colombo quando descobriu S. Salvador.
Está o Haity quasi aos 20 gráos de latitude Norte. É ahi que Colombo mais encantos encontrou, e foi a ilha que elle mais amou e sempre preferiu em sua estima. O clima, o sólo, as florestas, as flôres, os fructos, a posição, as minas de ouro que desde o principio ouviu dizer existirem nas montanhas do interior; todas estas circumstancias affeiçoaram-lhe sympathia particular. Durante sua vida considerou-a como a ilha de Offir, onde reconta a Biblia que Salomão mandava navios buscar ouro. Colombo morreu[{78}] na convicção que era o Haity a ilha indiatica do Offir.
Tratou logo Colombo de firmar pazes com os gentios, e de fundar ahi o dominio hespanhol, como em um centro que lhe abrisse as relações para as Indias quer insulares, quer do continente asiatico, que perto devia achar-se, segundo seus estudos e calculos.
Mostravam-se os gentios, seus habitadores, amigos e innocentes como os das outras ilhas que visitara; menos selvagens, todavia, porque observavam-se entre elles signaes de cultura de algodão, ainda que agreste, caminhos traçados atravez dos bosques, e aldêas regulares edificadas.
Com um cacique respeitavel chamado Guanacaguary abriu relações, presenteou-o, visitou-o, recebeu-o a bordo, e banqueteou-o agradavelmente.
Infelizmente na noite do Natal, descuidos dos officiaes de quarto deixaram a sua caravella arrastar-se pelas correntes impetuosas das costas, e ella enterrou-se em areias, de onde os mais[{79}] diligentes esforços não puderam arrancal-a. Perdida, naufragada assim a Santa Maria, seus tripolantes desembarcaram parte, e parte com Colombo transferiram-se para a Nina.
Encontrou Colombo em Guanacaguary auxilios para o salvamento de tudo que havia a bordo do navio naufragado. Cuidou incontinenti de estabelecer uma fortaleza, a que deu o nome de Natividade; nella depositou algumas peças de artilharia e gente destinada á guarnecel-a, e dispoz-se a voltar para a Hespanha, afim de levar noticias de seus descobrimentos e viagens, e pedir reforço de homens, com que pudesse sustentar e continuar suas conquistas.
Não queria deixar S. Domingos sem que alli permanecessem hespanhóes como nucleos de povoações futuras, defendidos pela fortaleza levantada e ligados em sympathia com os gentios. Convinha impôr a estes estima e respeito, de modo que quando regressasse de Hespanha para S. Domingos pudesse livremente proseguir em suas emprezas maritimas.[{80}]
Muitos marinheiros hespanhóes, agradados do clima e do gentio, prometteram-lhe ficar em terra. Era uma necessidade imperiosa, porque as duas caravellas, que sobravam, não podiam conter a equipagem das tres, que commandara, tanto mais que perdida fôra a maior. Ouviu, pois, com grande prazer que acceitassem quarenta hespanhóes a proposta de occuparem a fortaleza, durante sua ausencia, e desde logo devotou-se á idéa de partida.
Enlevou-se-lhe a imaginação em vôos altanados, em allucinações mysticas, em projectos extravagantes. Não annunciara no seu jornal de bordo que Isaias o amparava e impellia para espalhar por todas as partes do mundo que encontrasse, a Religião do Crucificado? Não estava talvez predestinado para augmentar a influencia da Egreja Catholica? Não poderia egualmente arrecadar nos paizes conquistados riquezas taes, que lhe facilitassem os meios de ir com um exercito poderoso salvar o tumulo de Jesus Christo, e repôr e firmar em Jerusalém o culto do verdadeiro[{81}] Deus? Não era isto para elle um sonho; era um desejo, uma ancia, uma inspiração do céo, que lhe parecia sorrir como idéa realizavel, tão pratica e facil como fôra o descobrimento das Indias Occidentaes. Afim de conseguil-o carecia, porém, de gente, de armas, de soccorros de Castella, e era seu proposito, regressando á Hespanha, enthusiasmar os monarcas e povos, e alcançar delles os recursos com que voltasse habilitado para os mais grandiosos emprehendimentos.
Em Genova estava sua familia carnal, seu berço; Hespanha, porém, agora, Hespanha que o coadjuvara nos seus heroicos designios tornara-se sua patria de adopção, e por Hespanha e gloria de Hespanha convinha-lhe sacrificar-se. Exaltado o espirito, inundava-se de visões; é assim organizado o genio, inflltra-se-lhe um atomo de loucura, e realiza então grandes feitos ou meritorios, e extravagantes actos que só brotam do mysticismo das idéas que o dominam. Aquella atmosphera de Hespanha do XVI seculo respirava o mysticismo, a allucinação, e não se podia[{82}] resistir-lhe. Colombo, que já se deve dizer hespanhol, Ignacio de Loyola, Santa Thereza de Jesus, e tantos outros engenhos superiores, perdem-se nessa abstracção de idealidade mystica, de arroubos espirituaes de singular natureza, dignos entretanto da mais sincera admiração!
Firme no proposito que amadurecera, fortifica seriamente a Natividade com sufficiente artilharia; confia o presidio á quarenta homens, aos quaes nomeia chefes, e deixa-lhes instrucções miudas para viverem bem com os gentios, recommendações de muita prudencia e paciencia, e affiança-lhes que voltará breve para o meio delles, trazendo milhares de companheiros, e premios de preço pelos seus serviços e denodo. Com as equipagens dos tres navios, se não conseguiriam as grandes emprezas que agora começam; de Hespanha deverão vir os auxilios de gente para leval-as ao cabo. Aos que ficam cabe mais honra e mais gloria que aos que o acompanham na volta para a patria. Alcança assim promessas de obediencia e trata do seu regresso á Europa.[{83}]
Aprestadas regular, convenientemente as duas caravellas; carregadas com pequenas quantidades de algodão, que conseguira; de bastantes plantas exoticas e aromaticas, papagaios e aves desconhecidas, de colorido deslumbrante, macacos e uma duzia de gentios que se dispuzeram a seguil-o; levando tambem a pequena quantidade de ouro em joias e adereços que recebera dos indigenas; despediu-se Colombo amoravelmente dos quarenta companheiros que ficavam no forte da Natividade e do cacique seu amigo, e fez-se de vela, seguindo rumo de NE., tomando o commando da Pinta.
Feliz e quasi tranquilla fôra a viagem para as Indias; a volta, porém, para Hespanha tornou-se lenta, trabalhada e perigosa. Mais ao norte dirigindo-se, encontraram-se mares bravios, romperam grandes temporaes e as duas pequenas caravellas por vezes sossobraram no meio das aguas do Atlantico, batidas e inundadas pelas vagas furiosas. Quantas vezes anteviu Colombo perdido todo o seu trabalho! E que dôr o assoberbava, lembrando-se de que outro não[{84}] descobriria esse caminho das Indias, que elle conquistara com seu arrojo e fé, caso morresse nos mares e com elle seus companheiros, sem que á Hespanha chegassem noticias! Que pericia não lhe foi preciso applicar ao governo dos navios, que coragem mostrar para animar as equipagens estafadas e desesperadas! Quantas promessas á Virgem Santissima, aos santos predilectos, caso se salvassem!
Avistaram felizmente a ilha de Santa Maria, no archipelago dos Açores, depois de andarem muitos dias á matroca as duas caravellas, entregues ás correntes do oceano, impellidas para onde os ventos as empurravam, sem poderem usar das velas, porque seria um perigo, nem tomar alturas por falta de sol e de estrellas; coberto sempre o céo de negras nuvens!
Com difficuldades obteve Colombo que as autoridades portuguezas da ilha lhe consentissem concertos nas caravellas e lhe prestassem alguns soccorros de viveres. Ao deixar Santa Maria, nova tempestade irrompeu, e tão impetuosa, que[{85}] separaram-se de uma vez a Pinta e a Nina. Colombo tratou por seu lado de procurar abrigo na primeira costa, e avistando as montanhas de Cintra, penetrou no Tejo com o seu navio, emquanto que a Nina commandada por Martim Pinzon, atirada mais para o Norte, seguia rumo differente.
Que espanto o da população de Lisboa ao avistar a caravella de Colombo apparecer á barra, subir o Tejo, fundear defronte de Belém, e, visitada, obter informações de que Colombo descobrira as Indias pelo Occidente!
D. João II mandou-o ir logo á sua presença, interrogou-o, ouviu-o attentamente e louvou-lhe a façanha em termos lisonjeiros e agradaveis, não manifestando a menor decepção ou despeito, acolhendo-o antes com cavalheirismo. Despediu-o com presentes, afim de que livremente seguisse para a Hespanha, depois de receber os soccorros de que carecia. De Lisboa tomou Colombo rumo maritimo para o Sul, e dobrado o Cabo de S. Vicente entrou na barra de Salter, na manhã do dia 15 de março[{86}] de 1493. Subido o rio Tinto, fundeava ao meio-dia em Palos, depois de quasi oito mezes de ausencia, que tanto durara a sua excursão maritima! Caso inesperado! Appareceu e chegou a Palos, na tarde do mesmo dia, a caravella Nina, cuja vista e noticia perdera Colombo desde a altura dos Açores. Depois de errar longos dias pelo oceano, alcançara egualmente Pinzon dar fundo no porto, de onde partira.
Imaginai, minhas senhoras e senhores, as impressões, as sensações, as alegrias, os exaltamentos, os transportes, a admiração dos habitantes de Palos, ao reverem seus amigos, ao saudarem a empreza portentosa que se commettera, e que elles nunca haviam pensado que se podesse realizar!
Tinham-se descoberto as Indias, e era Hespanha que se gloriava do feito, e antes que Portugal as deparasse! Por quasi um seculo inteiro Portugal as procurava em vão, emquanto que logo a seu primeiro ensaio de navegação maritima, ao primeiro e fraquissimo commettimento que praticara[{87}] Hespanha, com tres miseraveis caravellas, abrira para as Indias o caminho da Europa!
Não se devia tudo ao genio de Colombo? Á sua audacia, á sua pertinacia, á sua paciencia, á sua sciencia, á seus trabalhos? Não arriscara seu nome, sua vida, em serviço e gloria de Hespanha?
Pensavam-no perdido, morto talvez, porque nem uma confiança depositavam nem sabios nem povos em sua temeraria e louca empreza, e eil-o com seus navios, radioso, triumphante, coberto de glorias!
Correram todos a recebel-o, a vel-o, a ouvil-o, a perguntar noticias dos amigos, das terras descobertas, dos novos mundos das Indias! Com difficuldade pôde elle desembarcar, dirigir-se á egreja a render graças á Deus! As ruas cobriram-se de folhas de arvoredos, as casas ornaram-se de cortinas, aos ares subiram os fogos, estrondaram as peças de artilharia, repicaram festivamente os sinos dos templos, repercutiram estrondosamente os gritos e saudações geraes, espontaneas. Foi para[{88}] Palos um dia de incomparavel jubilo, de alegria louca, de transportes patrioticos! Reis não são acclamados com mais espontaneidade e enthusiasmos! Como que um delirio se apoderava de todos os animos!
Sabendo Colombo que os reis catholicos estavam em Barcelona, para elles escreveu logo e fez partir emissarios communicando-lhes sua chegada.
Depois de rever seu amigo, o prior João Perez, a quem tanto devia, partiu para Barcelona, levando em seu sequito os gentios que trouxera, e cujas figuras causavam espantosa admiração, e as plantas, aves e animaes exoticos que trazia das terras descobertas, bem como os pequenos ornamentos de ouro que colhera e que mais excitavam as cobiças.
Por toda a estrada que vai de Palos á Barcelona derramavam-se multidões de povo: tomavam suas togas as autoridades, os alcaides, os corregedores para o comprimentarem; os sacerdotes benziam-no cobertos das mais esplendidas vestes; a plebe applaudia-o, saudando-o estrepitosamente.[{89}]
Era uma marcha triumphal, que lembra as honrarias dos antigos vencedores romanos, voltando de suas conquistas e carregados de despojos e prisioneiros.
Nas grandes e pequenas cidades que atravessava, ruas, casas, edificios se paramentavam, levantando bandeiras, espalhando illuminações, tocando sinos, roncando a artilharia, e resoando os ares com vivas, gritos enthusiasticos, e sons repetidos de musica.
Custava-lhe escapar á curiosidade das populações, que a cada passo estorvavam-lhe a marcha. A exageração de seus feitos inventava prodigios, e coroava-o como ente extraordinario!
Que admiração pelos gentios, pelos macacos, pelos papagaios! Que esperanças no ouro! Tudo era assombro! Seria milagre, sim, que os Hespanhóes de então acreditavam em toda a especie de milagres.
Entrou em Barcelona acompanhado por clerigos, fidalgos, autoridades, militares, pessoas de todas as classes, que o acompanhavam, uns desde Palos, outros juntando-se-lhe pela estrada![{90}]
Acolheram-no os reis catholicos com a maior amabilidade, cercados de toda a sua esplendida e luzida côrte, e ao chegar Colombo para perto delles, levantaram-se do throno, abraçaram-no, mandaram-no sentar a seu lado, e ouviram-no com a maior attenção e curiosidade. Te-Deums nas egrejas, musicas pelas ruas, trophéos e arcos, illuminações, tudo manifestava a gloria de Colombo, e os reis de Hespanha passeavam com elle pelo meio do povo, para o honrarem e engrandecerem!
Decretaram logo os reis um premio á Colombo de trinta corôas de ouro, por haver sido o primeiro que avistara terras das Indias: não fôra quem descobrira a luz nocturna da ilha de Wattling, proxima da de S. Salvador? Concederam egualmente armas á sua familia com a legenda:
Por Castilla y por Leon
Nuevo mundo alhó Colon.
Fizeram partir incontinente para a França, Italia, Allemanha emissarios annunciando que[{91}] Colombo descobrira as Indias para a Hespanha! Os reis catholicos ostentavam-se vangloriosos dos feitos de Colombo, e prometteram-lhe coadjuval-o em tudo quanto meditasse e emprehendesse. De differentes pontos da Europa receberam parabens, e tambem de Roma não tardaram embaixadores, que o Summo Pontifice enviava para congratular Isabel e Fernando e entregar-lhes uma bulla que promulgaram na cidade eterna, concedendo-lhes, no tocante ás regiões descobertas por seus subditos, direitos eguaes aos que Portugal recebera no tempo do infante Dom Henrique de Vizeu. Para que se não travasse conflicto entre as duas Corôas, que tinham entrado em emprezas de conquistas ultramarinas, declarou o Summo Pontifice na referida bulla, que traçada uma linha ideal do polo do Norte para o polo do Sul, a cem leguas ao Oeste das ilhas dos Açores e Cabo-Verde, as terras do oriente pertenceriam a Portugal e as do occidente á Hespanha. Assim decidia o Papa da sorte do mundo, não sendo de estranhar que o rei[{92}] de França perguntasse-lhe em que verba do testamento de Adão achara Sua Santidade o direito de distribuir os territorios do globo!
Convencidos os reis em presença da exposição pomposa que lhes fez Colombo das grandezas das ilhas indiaticas que descobrira; das vantagens que colheriam fazendo dellas suas conquistas, e povoando-as de Hespanhóes; do ponto de apoio que ahi deparariam para estender suas relações e dominação ás Indias; convencidos mais ainda ao apresentar-lhes Colombo os gentios e explicar-lhes que eram da raça das Indias, segundo ensinavam os livros dos viajores que tinham visitado aquellas partes do mundo, e conformes em tudo, traços, côr e fórmas com os chins e tartaros, doceis para receberem o baptismo, e crerem na religião de Christo, não se demoraram em expedir ordens terminantes para apromptar-se uma esquadra de navios, embarcar-se nella grande quantidade de gente, artilharia, armas, munições, cavallos, gado, e o que mister fosse para lá empregar-se, e confiar tudo á inteira e[{93}] exclusiva disposição de Colombo, afim de que proseguisse nas descobertas, munido de elementos poderosos com que praticasse a guerra, sendo preciso, e firmasse posses da Corôa, que durassem, e excluissem alheias pretensões.[{94}]