Eucalyptos e Acacias

I
Do logar do Eucalypto na economia florestal do nosso paiz e da apreciação do valor dos seus productos

Tem já historia a cultura do Eucalypto na Europa, embora não tão remota como a data do descobrimento d'estas arvores soberbas nos auctorisaria a suppôr. O primeiro registado nos annaes dos exploradores, o Eucalyptus obliqua, foi visto na Australia por l'Héritier, em 1788, e por elle annunciado então ao mundo scientifico; e onze annos depois, em 1799, achado por Labillardière, vinha o Eucalyptus globulus, «o principe dos Eucalyptos», no dizer do Barão de Mueller, por sua vez tambem principe no estudo d'este genero de plantas. Sempre terão de recorrer aos seus preciosos trabalhos quantos em similhante cultura se acharem interessados. Todavia, só do meado do seculo XIX em diante começou a reconhecer-se a importancia do Eucalypto, comquanto «o prolongado desprezo de arvores de tão maravilhoso valor pareça agora quasi indizivel e enygmatico», segundo tambem, e com toda a justiça, observa aquelle grande e illustre mestre.

Para nós, apesar de possuirmos nas collecções scientificas alguns exemplares antigos, de 1850 ou pouco depois, o tempo da passagem do Eucalypto dos viveiros escolares para a cultura economica usual poderá começar em 1870. É de 1870 a Breve noticia sobre o Eucalypto globulus do illustre propagandista snr. Duarte de Oliveira, e de 1876 o Eucalyptus globulus de Carlos de Souza Pimentel. Essas publicações, ainda hoje de considerar na grande maioria das suas observações, marcam uma época, o inicio intelligente e fecundo d'esta cultura florestal.

A esse tempo, não havia virtude de que o Eucalypto não commungasse. Crescia rapidamente, multiplicaria milagrosamente a riqueza florestal em proporções descommunaes, povoava os desertos, soffria toda a inclemencia da atmosphera e do sólo, purificava os logares insalubres, livrava das febres paludosas, dava madeira excellente para todos os fins, rebelde á podridão, e distillava oleos, essencias e medicamentos preciosos. N'esta fé se plantaram muitos Eucalyptos pelas nossas provincias e por todo o littoral do Mediterraneo. Plantaram-se bem e plantaram-se mal, onde vingavam e onde morriam, n'uma variedade de condições infinita; e, por isso, houve plantações que foram maravilha de prosperidade e opulencia, e outras houve tambem que se tornaram exemplo tremendo de miseria e ruina. Não podia deixar de haver de tudo isto n'uma experiencia feita em tão larga escala, em grande parte filha de illusorias e arrebatadas esperanças, mal consideradas, de todo alheias a uma sensata observação das coisas, desde principio condemnadas a naufragio por violação de leis impreteriveis da natureza.

Seguiu-se a reacção contra os impulsos da primeira hora. Os que haviam sido infelizes se encarregaram de a proclamar, pondo á conta da debilidade e insignificancia da arvore o que frequentemente era apenas a consequencia da mingua de reflexão de quem precipitadamente a havia plantado. Então, não houve defeito de que não se accusasse o Eucalypto: não resistia nem ao sol, nem ao frio, nem á pobreza da terra; onde crescesse, edificava um abrigo temeroso para os passaros que devastavam as seáras; estragava os mattos e logo de começo ficava caro pela despeza da plantação. A madeira não prestava para nada; estalava por mil modos, torcia e rachava ao seccar, apodrecia depressa, quando enterrada ou mesmo fóra da terra, e demais o córte das arvores tornava-se dispendiosissimo em muitos casos pelo volume monstruoso que ellas tinham attingido. Quanto a effeitos de saneamento, pura phantasia; em vez de beneficios, o Eucalypto importava calamidades. Não só onde havia plantação de Eucalyptos e as condições hygienicas haviam melhorado, a melhoria provinha de outras causas; mas até acontecia que o Eucalypto era nocivo, creando na casca e na sombra humida viveiros de mosquitos, e assim se convertendo indirectamente em agente disseminador de febres palustres.

Tudo isto se dizia e se jurava.

Como, porém, havia plantações que tinham medrado e offereciam bons córtes, entrou no debate um elemento novo e resolveu a questão; veio o mercado e em termos do seu uso garantiu que os Eucalyptos eram excelentes. Comprando-os, pagando-os por um preço altamente remunerador, dando-lhes variadissimo destino, decidia com todo o desrespeito pelas academias e seus libelos, que os Eucalyptos constituiam uma cultura, pelo menos lucrativa. N'uma reacção contra a reacção, volta-se á primeira fórma, e eis que aquella cultura começou a insinuar-se por todos os cantos, entre as fagueiras esperanças dos que n'ella se empenhavam e as liquidações vantajosas dos que, tendo ido á frente, começavam a arrecadar os proventos, não raro avultados, da sua audacia.

A verdade será que nem o Eucalypto tinha os poderes miraculosos de resgate de esterilidade que o primitivo enthusiasmo de botanicos e de iniciadores annunciou, nem tambem, e muito menos, era a nullidade economica e o perturbador nocivo que o estouvamento e má sorte de alguns cultivadores desastrados proclamava.

A madeira do Eucalypto é magnifica, incontestavelmente, quando lhe tivermos dado o tempo necessario para amadurecer capazmente. Cortaram-se Eucalyptos com 10 ou 12 annos e não deram madeira que prestasse. Não podia prestar. Pois se essas arvores eram herva!... D'essa idade, que consistencia podiam ter! Uma arvore, seja de que especie fôr, não demanda menos de 30 ou 40 annos para criar cerne e endurecer. Se está feita aos 25, e isso não raro acontece com o Eucalypto, já foi grande fortuna.

Demais, para apreciação da madeira de Eucalypto, fomos buscar um padrão subido, dos mais subidos. Comparamol-o com o carvalho. Por pouco iriamos até ao mogno e ao pau santo. Não é d'isso que se trata; não se pensa em trocar pelo Eucalypto essas madeiras que formam uma aristocracia; apenas se procura auxiliar e engrandecer as plebes florestaes, associando-lhes plantas novas da sua igualha. É ao choupo, ao amieiro, á nogueira, ao ulmeiro, á cerejeira, sobretudo ao pinheiro, que temos de referir o valor do Eucalypto. Com estas e outras madeiras da classe das communs a que estas pertencem, temos de o comparar, e perante ellas achar-lhe-hemos uma superiosidade indiscutivel a todos os respeitos—pela rapidez do desenvolvimento e pelo volume dos troncos, pela duração, pela belleza, (em obra confunde-se facilmente com o castanho), pela resistencia, pela elasticidade e pela faculdade, aliás de summa importancia, de durar na agua mais do que qualquer outra das nossas arvores. De que se trata é unicamente de plantar Eucalyptos onde estavam pinheiros, e de tirar das margens dos nossos rios e das areias dos seus campos um rendimento florestal superior ao que actualmente d'alli podemos colher com as arvores que lá temos. Pela minha parte, direi que não semearei mais um pinheiro onde possa plantar um Eucalypto; todas as experiencias de comparação que n'este sentido fiz durante 20 annos, e em terrenos, no geral, ruins, pedregosos, frios e magros, me auctorisam sem discrepancia esta conclusão.

Muitas são as vantagens do Eucalypto, mas entre todas avulta a facilidade e vigor com que rebenta dos troncos cortados. O mesmo terreno dá dois e tres córtes de madeira, sem necessidade de renovar a plantação ou sequer, a cultura, e advertindo—circumstancia devéras apreciavel e que muitos ignoram—que as segundas camadas, sem duvida porque a robustez do raizame e a condição das seivas lh'o facultam, criam cerne immediatamente, ao contrario do que é a regra com a primeira haste, prompta em crescer, mas lenta em amadurecer. Assim, nas segundas camadas, as varas delgadas, de seis ou oito annos não dão ordinariamente mais de 25 por cento de cerne. O Barão de Mueller diz que a renovação do Eucalypto pelos rebentos das hastes cortadas é sobretudo propria de arvores não muito antigas e não se opera com igual força e promptidão nas differentes especies. Entre os mais faceis em rebentar, menciona o E. globulus e o E. amygdalina, e acha o E. rostrata dos menos inclinados a este modo de renovação. Mas nas minhas plantações, provavelmente por serem recentes, todas as especies téem rebentado admiravelmente. Foram rarissimos os Eucalyptos que não rebentaram depois de cortados, e n'esses as baixas mostram ser accidentaes, questão de condição individual e não commum á especie que n'outros exemplares provou a sua faculdade de renovação.

Como combustivel, as analyses do snr. C. Lepierre, publicadas pelo snr. W. C. Tait, em 1915, mostram que a lenha de Eucalypto dá 4:353 calorias onde a lenha do pinheiro não passa de 3:200—isto é, a lenha do Eucalypto tem um terço a mais do poder calorifero da lenha de pinheiro; e póde mesmo substituir o carvão, valendo um kilo de lenha de Eucalypto por 550 grammas de hulha. De modo que, para este effeito, quando, por exemplo, uma tonelada de pinheiro custar 12 escudos, a de Eucalypto deve valer 16. E, se considerarmos que a mesma superficie plantada de Eucalyptos ou semeiada de pinheiros dá no primeiro caso um volume de madeira que é tres ou quatro vezes, pelo menos, aquelle que póde produzir na segunda hypothese, por ahi se calculará quanto vale a substituição do pinheiro pelo Eucalypto, ainda que não seja senão para criar lenha.

Secarão os Eucalyptos as fontes, segundo muitos crêem? Desconfio. Ganharam essa fama e provavelmente continuarão a soffrel-a, se os que téem minas e canalisações debaixo das raizes dos Eucalyptos não as limparem assiduamente. As raizes dos Eucalyptos, no seu rapido desenvolvimento, depressa obstruirão completamente essas minas e canalisações, transviando-lhes e sumindo-lhes as aguas. Se, porém, houver os necessarios cuidados de limpeza, creio que tal não acontecerá, pois sobre este quesito posso dar testemunho de que, tendo ha quarenta annos um macisso colossal de Eucalyptos sobre uma nascente, nunca esta deu signal de enfraquecimento. É hoje o que sempre foi.

Dão abrigo aos passaros—evidentemente, como todo o arvoredo. Se isso houvesse de ser motivo de depreciação do Eucalypto, importaria a condemnação de todas as florestas. O que faltou dizer, quando se aduziu semelhante prejuizo do Eucalypto, é se essas aves que elles abrigam não valem bem o que pastam nos campos e se sem ellas não corre grave risco a nossa saude e o nosso sustento, pela invasão de uma fauna bem mais destruidora do que as aves, e da qual as aves são inimigos infatigaveis e mortaes. Isto reduzindo a questão a termos meramente economicos, porque, se a apreciassemos por considerações moraes e estheticas, não podia subsistir um instante. A belleza, o conforto e a protecção do arvoredo de qualquer especie serão eternamente um regalo dos sentidos incomparavel e um mysterioso mas efficaz elixir de paz de espirito.

Mas os Eucalyptos dão cabo dos mattos, ou melhor, do tojo. É este um dos artigos mais repetidos da excommunhão dos Eucalyptos.

Sobre isso, não haja duvida. É muito certo. O Eucalypto é absorvente, onde se planta, logo se apossa absolutamente da terra, como inevitavelmente, sempre terá de acontecer com toda a especie vegetal de natureza opulenta. O Eucalypto reclama tudo para si; necessidades formidaveis de sustentação assim o determinam. Que eu saiba, apenas as acacias, as hakeas e os sobreiros lhe supportam a vizinhança e apezar d'ella se mantéem e medram. O que resta saber e aqui constitue todo o problema, é se vale a pena conservar o matto onde podemos crear Eucalyptos. Ora, um hectare com 1:000 Eucalyptos dará, ao fim de 25 annos, 5 contos, calculando cada Eucalypto a 5 escudos, preço modesto. Serão 200 escudos por anno. E quantas carradas de matto seriam necessarias para que esse hectare produzisse rendimento semelhante? Haverá mesmo algum pedaço de matto em Portugal dando rendimento que com aquella cifra se compare?

O lavrador corre a affirmar que não póde dispensar os mattos para adubo dos campos. Mas suspeito de que haverá agronomos que discordem, respondendo que semelhante processo de adubação é tão antiquado como pobre. As adubações em verde, com a sua riqueza de azote, barateza de applicação e mais vantagens scientificamente demonstradas, e os adubos mineraes, de uma efficacia admiravel e de uma commodidade de transporte unica, vão deixando para um derradeiro e pesado recurso as adubações pelo tojo, de proveito minguado e lento e preparação dispendiosa, reclamando uma somma de trabalho que não está em proporção da riqueza fertillisante do adubo, seriamente estorvada por difficuldades de decomposição desanimadoras. Não, não será o tojo que economicamente possa medir-se com o Eucalypto.

Dar-se-ha, porém, o abstruso caso da insalubridade das mattas de Eucalypto, por propicias á propagação dos mosquitos? Abrirão ellas uma excepção na velha e incontestada crença pupular de que as arvores são beneficas para a saude de quem entre ellas habita?

Sobre esse ponto atrevo-me a ter opinião propria, com toda a arrogancia do incompetente que não é medico nem homem de sciencia.

O Barão de Mueller falla do «grande poder de exhalação» que os Eucalyptos possuem, e na minha intimidade com essas arvores casualmente vi demonstrada essa assombrosa capacidade de exhalação. Puz flôres em diversos vasos de vidro, d'estes vulgarmente chamados «solitarios», e entre elles ficou um contendo unicamente ramos e flôres do Eucalyptus gracilis. Passadas vinte e quatro horas, vi quasi sem agua o vaso do Eucalypto, emquanto os outros a conservavam aproximadamente na altura em que na vespera a deixára, o que aliás era de esperar passando-se isto em dezembro, mez em que a evaporação é frouxissima. Enchi de novo o vaso no qual a agua baixára e, passadas as segundas vinte e quatro horas, de novo a agua desapparecêra, como da primeira vez. Seguidamente, repeti a experiencia e o resultado foi invariavelmente o mesmo. Percebi então o que era o extraordinario «poder de exhalação» do Eucalypto.

Ora, sendo assim com os ramos cortados, cuja vitalidade necessariamente terá abrandado pelo córte, pergunto que especie de atmosphera será a que cobre uma floresta de Eucalyptos e a sua visinhança immediata, e não posso deixar de suspeitar que essa atmosphera será permanentemente moderada por uma evaporação que tanto ha-de quebrar a violencia do calor no estio, como o rigor do frio no inverno. Será um manto precioso para a actividade do corpo e uma fonte continua de suavidade para os sentidos. Se isso não é salutar, não sei o que o seja nem o que deva buscar para ter saude.

Quanto aos effeitos therapeuticos das essencias derivadas do Eucalypto, especialmente das folhas e dos seus oleos, respondem os formularios pharmaceuticos e o uso medico actual. Mas convem lembrar que esse será um rendimento secundario, apenas subsidiario, nas plantações de Eucalyptos em larga escala.

Para preencher os pedidos da pharmacia, bastará uma quantidade de arvores muito reduzida. Por ahi o lavrador não enriquece, e nem sequer achará mercado sufficiente, se tem muitas arvores para vender.

E, porventura, o mesmo se poderá dizer do Eucalypto como pasto das abelhas. Sem duvida, não haverá melhor planta para este fim; a profusão de flôres em cada especie e a diversidade de época em que as differentes especies florescem, facultam sustento ás abelhas na maior parte do anno, senão mesmo durante todos os mezes do anno. Sobretudo o Eucalyptus cosmophylla torna-se notavel sob este aspecto; vingando bem em terras nossas, floresce no principio do inverno, quando a escassez de flôres nos montes é extrema.

Não tenho elementos para conjecturar até que ponto será remuneradora a cultura do Eucalypto como planta melifera. Parece-me, todavia, que alguma cousa ha ainda a experimentar e estudar n'este capitulo, particularmente com a especie que acabo de apontar.

II
Cultura do Eucalypto

A cultura do Eucalypto tornou-se facilima e corrente entre nós. Hoje, o Eucalypto vende-se nas feiras á duzia e ao cento como as couves, enterra-se depois pelo meio dos mattos em covachos abertos a esmo, e n'esta barbarie, com estes cuidados elementares por demais resumidos, vinga, se o terreno lhe agrada e a humidade atmospherica o favorece, ou se não sobrevêm dois ou tres dias de nordeste que o mirram. Assim se téem criado arvores magnificas.

Sempre aconselharei, porém, mais algum esmero a quem quizér proceder com segurança ou com minguado risco de perder o tempo e o dinheiro.

De quantos processos de cultura experimentei, e creio ter percorrido a escala toda ou pouco menos, o que decididamente offerece mais probabilidades de exito começa pela sementeira em vasos ou caixões, seguida da transplantação de cada pé para seu vaso privativo—sementeira em abril ou ainda mesmo na primeira quinzena de maio; transplantação para vasos de 8 e 10 centimetros de bocca e altura correspondente, quando as plantas estão de 3 a 4 centimetros; plantação definitiva, logo no começo do outomno, de exemplares não muito grandes, de cerca de palmo, tirados dos vasos antes que as raizes comecem a enrodilhar-se, como sempre acontece se se prolonga a estação nos vasos, determinando-lhes aquella fórma de desenvolvimento em espiral que ulteriormente conservam e as prende mal á terra, sujeitando a arvore a cahir quando o temporal a açoite. As transplantações para vasos deverão fazer-se pela fresca, de manhã cedo ou á tardinha, onde o sol não toque a raiz; a simples exposição da raiz a uma atmosphera secca e quente, por poucos minutos que seja, bastará para inutilisar alguns pés e atrazar nos demais a renovação do crescimento interrompido pela transplantação. Deverão os vasos ser postos á sombra, durante quinze dias, e quer então, quer posteriormente, depois de passados para o sol, convém regal-os abundantemente duas vezes por dia, de manhã e á tarde. Em outubro e d'ahi por diante até aos primeiros dias de março, abrindo apenas um parenthesis durante o tempo das geadas mais rigorosas, poderá proceder-se á plantação definitiva. Para esta, será grande vantagem cavar ou lavrar primeiro a eito o terreno da plantação, abrindo depois de tres em tres metros covas de tres palmos em toda a direcção e tendo o cuidado de picar bem fundo o leito da cova. Bem sei que se encontram bellissimos Eucalyptos plantados em covas sem arroteamento prévio de toda a terra, e não é cousa que eu não tenha feito e repetido, algumas vezes com resultado; mas para mim não soffrem duvidas as vantagens incalculaveis do arroteamento prévio. É miraculoso.

A sementeira em viveiros e a plantação definitiva immediata é o processo vulgar, o mais usado, ficando contente o lavrador quando achou e comprou exemplares bem desenvolvidos, frequentemente de um metro de altura e mesmo mais. Mas, a não ser em terrenos cultivados e muito frescos, ainda não observei factos que me demonstrem a vantagem de semelhante regra. Não só por este systema as probabilidades de vingar serão largamente reduzidas porque na transplantação se inutilisaram as raizes mais delicadas; simultaneamente e tambem por effeito da perda d'essas raizes, os Eucalyptos grandes levarão tanto tempo a pegar que os pequenos, não havendo soffrido igual perda e trazendo intacto do viveiro todo o raizame, depressa alcançam e ultrapassam os que foram plantados já grandes.

Sementeiras de outomno nunca me deram boa prova. Não vingam tão facilmente como as da primavera e prolongam inutilmente, e até prejudicialmente, o tempo de viveiro; não crescem tanto que estejam em termos de plantação definitiva na primavera immediata á sementeira, e ficarão demasiado desenvolvidas para plantação ao fim de um anno, no outomno seguinte depois da sementeira.

A melhor época para colher a semente é o fim do inverno, quando as capsulas só esperam o calor de março para expontaneamente se abrir e lançar á terra a semente. Antes d'isso, as capsulas murcham muito, quando se colhem, e téem certa difficuldade em largar a semente, o que indicará talvez um amadurecimento imperfeito. Segundo o Barão de Mueller, a semente do Eucalyptus globulus conservaria durante 4 annos o poder germinativo que no Eucalyptus amygdalina vai até 6 annos e n'outras especies alcança mesmo 13 annos, se a semente foi conservada em logar secco e frio. Mas tenho-me dado mal com sementes velhas; em regra, poucas nasceram. Por isso, direi:—Semente fresca, o mais possivel, de poucas semanas, e até de poucos dias, podendo ser. Vai n'isso uma vantagem manifesta.

Exceptuando as argilas e os calcareos, todo o terreno convém ao Eucalypto, comtanto que não seja fundado em rocha a pequena profundidade e dê ás raizes possibilidade de penetração. Tenho lido que o Eucalyptus gomphocephala e o cornuta supportam os barros e os calcareos; não vi, porém, ainda demonstração prática d'essa faculdade auctorisando qualquer experiencia de certa latitude. O livrinho de Souza Pimentel diz que o Eucalypto viverá onde o sobreiro viver, e inclino-me a crêr que essa indicação será, em geral, segura. O certo é que o Eucalypto é facil de contentar quanto a terreno e capaz de vestir e enriquecer os mais ingratos, desde os seixos frios das charnecas até as areias mais safaras.

Outro tanto não se poderá dizer das exigencias do Eucalypto em materia de clima. Na Australia supporta temperaturas de 70° centigrados ao sol e algumas especies ha, como o Eucalyptus largiflorens e o polyanthema, que affrontam impunemente as nossas estiagens mais duras. Mas desenganemo-nos, tanto mais que os enganos poderão sahir caros ao lavrador, como aconteceu na Argelia; o Eucalypto é arvore de climas moderados, alegra-se na frescura e soffre deveras com o frio. Em temperaturas inferiores a 4° centigradus abaixo de zero, dá logo signais de doença, e nas especies mais melindrosas gela até ao colo da raiz, mesmo quando já está com alguns metros de altura. Isto me aconteceu, por exemplo, com o Eucalyptus maculata; perdi n'um só inverno quantos tinha, já muito crescidos e lindos.

Sobretudo, acabemos por uma vez com a illusão de que os Eucalyptos podem formar abrigos contra o vento do mar. Tenhamos bem presente a preciosa recommendação de Souza Pimentel, que, sendo de 1876, ainda hoje carece de ser repetida, tão lenta é a diffusão dos conhecimentos agricolas:—«Apezar do clima maritimo ser muito favoravel para os Eucalyptos, não devemos fazer plantações d'esta arvore em sitios muito proximos do mar e que estejam directamente expostos ás emanações salgadiças e aos ventos muito violentos do littoral; ou então procederemos de modo que as plantas fiquem abrigadas por alguma elevação natural, ou outra qualquer defeza, o que é facil encontrar.» Quererá o Eucalypto sentir o alento das aguas do mar, mas onde lhe chegue isento de toda a aspereza que é caracteristica da nossa costa maritima.

Sem embargo, a grande zona do Eucalypto, em Portugal, aquella que admitte largo numero de especies e lhes assegura condições de desenvolvimento perfeito, será essa que as brumas maritimas de perto ou de longe e em toda a estação bafejam. O fallecido e benemerito Bernardino Barros Gomes, nas Cartas elementares de Portugal que, a meu vêr, continuam sendo um documento fundamental no estudo da physiographia do nosso paiz, acha a linha culminante que domina a vida physica do paiz na extensissima cordilheira que com depressões de variada profundeza vai subindo lentamente do Cabo da Roca á Estrella, pelas serras de Cintra, Aire e Louzã, e da Estrella vai a Larouco, na fronteira da Galliza, pelas serras de Montemuro, Marão e Gerez. «Linha seguida de condensação mais extensa e elevada não ha no paiz: 1:580, 1:206, 1:422, 1:389 1:993 e 1:202 são as alturas dos seus pontos culminantes, marcados na carta geographica com os nomes de Larouco, Gerez, Marão, Montemuro, Estrella e Louzã.» São essas as muralhas que os ventos do mar téem a vencer na passagem para o interior da Peninsula, e por sua poderosa influencia de condensação essas serras dividem o paiz ao norte do Tejo em duas grandes zonas—littoral e interna.

Ora, é esta zona littoral ao norte do Tejo que eu julgo ser a grande zona da cultura do Eucalypto em Portugal—na faixa média, isto é, a distancia sufficiente do mar, para não soffrer com o rigor da ventania, e limitando-se na subida ás alturas, para não morrer victima dos gelos, devendo todavia notar que a 600 metros de altitude tenho encontrado lindos exemplares do Eucalyptus globulus e que, se o Eucalyptus globulus prospera n'essas alturas, é de suppôr que o Eucalyptus amygdalina, o coriacea e o Gunnii consentirão em crescer nos nossos montes a 700 ou mesmo 800 metros de altitude, se ahi lhes soubermos escolher situação. Fóra d'essa extensissima região litoral do norte do paiz, quer no sul, quer no interior do norte, haverá, sem duvida, muitissimos logares onde o Eucalypto medre rapida e magestosamente, sobretudo nos valles e na proximidade de ribeiros que alguma frescura lhe facultem. Mas, pois que não é licito contar aqui como regra a abundante e permanente humidade da zona norte que tracei, a cultura do Eucalypto passa a ser como accidental, o que aliás não impede de apresentar muitas e valiosas manchas de explendor, igualando as melhores da zona eleita.

III
Póda dos Eucalyptos

Algum tempo, e muito longo, tive como regra invariavel que os Eucalyptos não careciam de póda. Mais do que isso, a póda era-lhes nociva. Isto me diziam os melhores livros que se occupavam da sua cultura; isto me era confirmado pelo que observava nas minhas plantações e nas dos visinhos; e isto tambem me era aconselhado pelo exame das proprias arvores que, despojando-se expontaneamente dos ramos caducos, d'aquelles cuja acção havia cessado, estavam em seu trabalho organico a mostrar-nos a indiscrição de qualquer intervenção, que por certo nunca poderia exceder, ou sequer emparelhar, a sua natural previdencia. Ellas, as arvores, é que sabiam, muito melhor do que nós, quando é que lhes convinha desfazer-se das roupas velhas.

As minhas observações então limitavam-se, porém, a uma só especie de Eucalyptos, ao globulus. E para esse e para todos os afins no modo de vegetar, isto é, para aquelles que crescem em haste direita e se despojam expontaneamente dos ramos velhos, a regra prevalece:—não se lhes deve tocar. A não ser, claro está, para cortar algum ramo muito baixo que por acaso persista e se desenvolva, encurtando mais tarde o comprimento das madeiras ou empecendo, no presente, o caminho ou passagem. E esta ultima hypothese não é rara nos Eucalyptos plantados isoladamente, em condições de bracejar com largueza, a seu capricho.

Nas especies que não dão expontaneamente haste direita, e n'este numero se tornam notaveis e predominantes o polyanthema, o melliodora, o Behriana e o bicolor ou largiflorens, n'estas, se não lhes acudimos a tempo encaminhando-as pelo córte dos ramos rasteiros, teremos todas as probabilidades de as vêr convertidas em grandes arbustos, pendidos, tortos e curvados por mil modos, sem dois palmos de madeira direita aproveitavel. Ahi, a póda é essencial e tem sua arte, reclamando a attenção de quem a faz, para que não seja tardia, nem excessiva, para que não deixe engrossar demasiado os ramos e tambem para que por excesso de póda não adelgace muito a haste e lhe prejudique a robustez.

Mas ha mais: em certos casos, e mesmo para Eucalyptos que naturalmente crescem em haste direita, poderá haver vantagem no córte das pontas terminaes a quatro ou cinco metros do chão. Em Roma, encontrei frequentemente Eucalyptus rostrata, assim degolados, com troncos magnificos na base e bem vestidos de frondosos braços no cimo. E aqui, nas minhas plantações, aconteceu que, havendo sido cortadas (por malvadez) as pontas de oito Eucalyptus macrorrynchas, crearam outras que soldaram perfeitamente no tronco, e este engrossou bem, e até mais do que o dos Eucalyptos da mesma especie que estavam proximos e foram poupados pelo vandalismo.

Por isso me inclino a crêr que, n'esta materia, a regra é, na verdade, não podar; mas tem muitas excepções, a que convém attender. E não me tenho dado mal, muito pelo contrario, admittindo-as no meu uso.

A proposito, acrescentarei que o Eucalypto que comece a crescer inclinado, seja de que especie fôr, não só d'aquellas que acima aponto como tendo invariavelmente esta tendencia, mas tambem de outras que accidentalmente a revelam, como, por exemplo, o Gunnii e o Stuartiana, Eucalypto que assim cresça deve ser cortado a meio palmo do chão, logo que o tronco chegue a robustez bastante, de ordinario no quarto ou quinto anno. É o unico modo de obter boas hastes d'essa cêpa; véem depressa, direitas e vigorosas. Algumas tenho que subiram mais de dois metros logo no primeiro anno depois do córte. E, se considerarmos que os rebentos são mais promptos em crear cerne do que as mães, convencer-nos-hemos de que similhante operação é de todo o ponto vantajosa. Muitas vezes a tenho feito e nunca me arrependi.

IV
Escolha das variedades

Evidentemente, em mais de oitenta especies e variedades de Eucalyptos que tenho experimentado, o globulus mantém o seu logar de primazia, quanto á rapidez de desenvolvimento. Quem procurar o volume maximo de madeira a crear em determinado tempo e espaço, não tem que hesitar: plante o globulus. E, se nos lembrarmos de que a sua madeira é excellente, propria para innumeraveis applicações, teremos por seguro e certo que, quem assim resolver, procede com as maiores probabilidades de haver feito um magnifico negocio, rendoso como os melhores.

Mas, se o Eucalyptus globulus conta a seu favor a vantagem do mais rapido desenvolvimento, outras especies o preterem, quanto á resistencia a doenças parasitarias, e quanto a belleza e quanto á capacidade de supportar as vicissitudes climatericas e a pobreza do sólo, e quanto á qualidade da madeira.

Não ha plantação de Eucalyptus globulus que se mostre viçosa por igual. Aqui e além apparecem sempre exemplares rachiticos, e tenho para mim que esses, em geral, definham por doenças cryptogamicas, sobretudo se a exposição é ao norte e batida do vento d'esse lado. O Eucalyptus Risdoni partilha com o globulus d'essa susceptibilidade; adoece tambem muito facilmente. Mas, exceptuando este, julgo que, em grande maioria, as outras especies de Eucalyptos são, em geral, muito menos sensiveis ás invasões cryptogamicas do que o Eucalyptus globulus.

Quanto a belleza, se queremos formar avenidas copadas, ou vestir de folhagem abundante um pedaço de terra, se procuramos sombra e frescura, o Eucalyptus botryoides, aliás facil de contentar em riqueza do sólo e favor do clima, excede todos os demais. Em seguida, para este effeito, virá o Eucalyptus Andreana, uma especie de chorão, de folhas delgadas, um pouco esguio, na verdade, mas lindo, sem embargo, principalmente quando se cobre de flôr. Por ventura o Eucalyptus virgata, ou Sieberiana, segundo outra classificação, tem de ser incluido n'esta cathegoria. Ramifica copiosamente. Mas os exemplares que possuo estão ainda muito novos para que me auctorizem juizo definitivo. É possivel que com a idade se tornem mais despidos.

Para os terrenos humidos e frios, a solução não offerece duvida. O Eucalyptus amygdalina, o coriacea e o Gunnii téem de ser os redemptores d'esses brejos miseraveis das nossas florestas, assim como nos terrenos sêccos o Eucalyptus polyanthema, o melliodora, o bicolor ou largiflorens (são synonimos) e o Behriana e o hemiphloia—de crescimento lento, note-se—excedem em coragem para supportar a estiagem todos os demais. Sobretudo, o Eucalyptus polyanthema, quando plantado basto e bem guiado, porque facilmente entorta e deixa engrossar os ramos rasteiros com prejuizo da haste principal—é muito de cultivar, tanto mais que a madeira é rija como ferro. O Eucalyptus melliodora cresce mais depressa e dá troncos mais direitos; mas pelo que tenho visto e lido, supponho que a madeira, embora boa seja, é inferior à do polyanthema.

Pela qualidade da madeira é que muitos Eucalyptus se antepõem ao globulus, coincidindo a superioridade da madeira com uma celeridade de desenvolvimento e aptidões de cultura inteiramente satisfatorias e mesmo comparaveis ás d'aquelle gigante das nossas florestas. Aqui seria longa a lista das especies de Eucalyptos do meu conhecimento e experiencia que convém preferir ao globulus, embora este jámais deixe de ser excellente. Outros o vencem, é incontestavel: e para abreviar, mesmo porque ha vantagem prática em abreviar e não dispersar o nosso esforço em incertezas e caprichos, eu recommendaria, a quem quizesse produzir madeiras de excepcional valor, todos os Iron-bark (casca de ferro), como é, por exemplo, o crebra, de que facilmente conseguiremos bons exemplares, e poria na cabeça do ról o Eucalyptus corynocalyx ou cladocalyx, que não torce depois de sêcco, o marginata, de uma dureza maravilhosa, e ainda o resinifera que não dispensa logar favoravel; mas que, cemo o crebra, não é tão esquivo que não vegete bem em muitissimos valles e encostas do nosso paiz e possa formar florestas esplendidas.

V
Do córte dos Eucalyptos

Sobre o córte dos Eucalyptos, a Eucalyptographia do Barão de Mueller reproduz as recommendações de George Simpson, o qual, na opinião de Mueller, «falla em resultado d'uma longa experiencia e com auctoridade»; e porque essas recommendações se me afiguram de uma importancia capital, aqui as reproduzo.

Dizem assim:

«Por causa da sua densidade, a madeira do Eucalypto não póde seccar nos cêpos; troncos de 12 pés de comprimento por 12 polegadas de espessura, deixados durante 7 annos no logar onde foram cortados, empenaram, quando depois foram serrados em pranchões, quasi tanto como se houvessem sido cortados recentemente. D'aqui vem que a exposição dos cêpos a influencias proprias a effectuar a séca alcança apenas a parte externa e com prejuizo, pelo menos, d'essas camadas que attinge. Por isso, G. Simpson insiste, com razão, na conveniencia de serrar os troncos nas dimensões que se quizerem, logo que são derrubados. A madeira serrada deve depois ser empilhada, e, para obstar a que se fenda e torça, convem cobril-a levemente com serradura, sendo esta substancia a mais facil de obter e applicar para evitar uma evaporação demasiado rapida da humidade da madeira. A serradura é um mau conductor do calor. A madeira do Eucalypto (pelo menos do Jarrah, Eucalyptus marginata) requer para seccar por este processo cerca de 3 mezes, se é feita em pranchões de 3X2 polegadas; para pranchões de 12X12 polegadas demandará, aproximadamente, um anno. Quanto á occasião do córte, o snr. Simpson está de accôrdo com todos os observadores sensatos, insistindo em que as arvores devem ser cortadas quando o movimento da seiva é menos activo; por conseguinte, ahi pelo fim do estio, antes que as chuvas pesadas dos mezes mais frios venham despertar uma circulação mais vigorosa da seiva. Mais nota ainda G. Simpson que os ramos de Eucalyptos, quando cortados na estação humida, fendem muito mais do que quando o córte se faz nas épocas mais sêccas do anno. Deve haver tambem muito cuidado em livrar as arvores de grande abalo ao cair. De outra fórma, a madeira apresentará defeitos, embora algumas vezes estes só se revelem muito tempo depois de a empregarmos. Poder-se-ha evitar muito esmagamento inclinando a quéda para onde haja ramada e afastando-a dos terrenos pedregosos e das rochas.»

VI
Eucalyptos hybridos

Desde que, em 1902 comecei a fazer sementeiras de Eucalyptos com maior assiduidade e experimentando largo numero de especies, achei entre exemplares que inteiramente se conformavam com a descripção que d'elles tinha nos livros proprios do seu estudo, alguns que eram uma aberração manifesta do typo especifico. A principio julguei que essas divergencias, então raras, proviessem de menos cuidado no apartamento das sementes; seriam resultado de qualquer mistura casual. Mas, havendo plantado algumas dezenas de especies n'um espaço relativamente estreito, verifiquei, á medida que comecei a colher sementes das arvores por mim plantadas, a progressiva frequencia dos exemplares extravagentes, e tive por indubitavel a hybridação. Até que, ultimamente, me veio ás mãos a obra do illustre botanico e professor Maiden, A Critical Revision of the genus Eucalyptus; e ahi vi o facto da hybridação dos Eucalyptos confirmado por uma das mais subidas auctoridades contemporaneas em materia de flora australiana.

Maiden considera «absolutamente provada» a hybridação dos Eucalyptos, e acha que d'esse facto abundam provas. Segundo as suas observações, o Eucalyptus Boormanii é um hybrido do siderophloia e do hemiphloia; o affinis vem do cruzamento do sideroxylon e do hemiphloia e o consideneana será talvez um hybrido do piperita e do Sieberiana.

Nas minhas sementeiras, os Eucalyptos que se mostraram mais facilmente susceptiveis de cruzamento foram o Gunnii e o leucoxylon. De quinze exemplares provenientes de uma sementeira d'este ultimo, não havia talvez dois perfeitamente iguaes. O robusta, o botryoides e mais acentuadamente o Stuartiana tambem não eram dos mais esquivos em apresentar exemplares divergindo das mães, não sei se por hybridação, se por tendencia ingenita a variar, a qual é igualmente fóra de duvida para grande parte das especies d'este genero. Em compensação, ha outras que não variam. Do globulus nunca encontrei um só hybrido. No amygdalina são rarissimos os exemplares divergentes; n'uma sementeira que produziu mais de quatrocentos pés, apenas encontrei um que não se conformava inteiramente com o typo commum.

Dado este facto da hybridação e começando nós a conhecer as especies em que se manifesta, convém saber se d'ella poderemos tirar proveito economico e não teremos antes de a considerar no ról das meras curiosidades da cultura florestal.

N'este ponto é que a obra de Maiden nos dá, se não me engano, uma indicação de valor, onde diz que as especies e variedades de Eucalyptos agrupadas na designação vulgar sob o nome de box-trees (arvores de buxo) e entre as quaes se encontram o melliodora, o polyanthema, o largiflorens e outros, mostram «uma particular tendencia para cruzar com aquellas outras especies chamadas iron-barks (casca de ferro) das quaes o crebra é muito nosso conhecido e a todos os respeitos justamente famoso.

Esta affirmação do sabio director do Jardim Botanico de Sydney porventura envolverá para nós uma indicação preciosa. O polyanthema, um box-tree, é muito provavelmente o Eucalypto que entre nós melhor supporta o calor do estio, emquanto resiste perfeitamente aos nossos invernos; mas é lento, muito lento no desenvolvimento. Entretanto, o crebra, um iron-bark, mais sensivel ás vicissitudes climatericas, prosperando, todavia, sob temperaturas elevadas e supportando sem maior mal frios rigorosos, tem um desenvolvimento mediano, em termos manifestos de aproveitamento economico. Em ambos a madeira é excellente. Seria possivel pelo cruzamento do polyanthema e do crebra obter hybridos que tendo as notabilissimas qualidades de resistencia do polyanthema lhes juntassem uma maior celeridade de desenvolvimento? E o Gunnii tão prompto em cruzar e tão proprio para povoar as encostas frias, não poderia ser melhorado pela insinuação de elementos novos, trazendo á sua madeira qualidades superiores a essas, devéras aproveitaveis, que já possue, e fazendo-a tão boa para construcções como magnifica é para lenha?

A experiencia é tentadora para os lavradores moços e confiados que queiram juntar a uma justa ambição de lucros uma intelligente applicação dos seus ocios e um sympathico esforço para legar aos filhos e aos filhos dos seus filhos uma riqueza nacional.

Todavia, convém notar que as experiencias d'esta natureza mais pertencem ao Estado e ás suas estações do que aos particulares e ás suas minguadas forças. Experiencias florestaes demandam longos annos e extensos campos; nem podem fazer-se em pouco espaço, nem pódem concluir em pouco tempo, como acontece com as hervas e ainda com os arbustos. Tenho Eucalyptos com dezeseis annos de que ainda não colhi semente; tenho, por exemplo, um urnigera, já feito e com não menos de doze annos, magnifico e bello, que ainda não deu flôr. O que, devo acrescentar, não me desanima; antes me prende. Quanto mais os fructos tardarem, mais se alongará a esperança e os seus cuidados e prazeres. Tal qual como com os nossos filhos: quanto mais crescidos são e mais trabalhos deram, mais os amamos.

VII
A côrte dos gigantes

Para corrigir a nudez habitual das mattas de Eucalyptos, de ordinario esqueleticas, apezar da robustez dos troncos, para lhes dar espessura, misturei-lhes em diversos logares grande cópia de Acacias, espalhadas a trôxe-moche, muito bastas e de variadissimas especies. Verifico, porém, ao fim de alguns annos, que se tornou uma exploração economica rendosa aquillo que havia sido feito por méra preoccupação de belleza. Plantando os Eucalyptos a tres metros de distancia e intercalando-lhes, em igual compasso, as Acacias, mais conhecidas pela designação popular de mimosas, conseguiremos vestir a terra, abundantemente, de folhagem e flôres, e conjunctamente fabricaremos alguma lenha e madeira nos espaços livres nos primeiros tempos, emquanto os Eucalyptos pelo seu desenvolvimento não os tomam e cobrem inteiramente.

O effeito de belleza é grande—o que tambem representa valor. Nem só de pão vive o homem; a vida não se resume em operações arithemeticas de sommar e multiplicar. Disseminando entre os Eucalyptos Acacias podalyriaefolia, Baileyana, dealbata, mollissima, longifolia, pycnantha, cyanophylla, decurrens, melanoxilon e todas a demais d'este genero, possuiremos quanto baste para termos flôres, de um perfume leve e delicioso, desde os fins de novembro até maio, quasi ininterrompidamente. Por momentos, quando a estação lhes corre favoravel, dão um deslumbramento, de que o lavrador, se bom lavrador quizer ser, alguma coisa colhe e traz ao mercado para engordar o mealheiro.

Entretando, criou-se muita ramagem que aquece o forno da brôa e poupa o córte de arvores adultas, e criou-se tambem, além de muita lenha, uma avultada somma de madeira preciosa, com diversos usos, sobretudo convindo á marcenaria e á tanoaria. Para estes ultimos fins, a Acacia melanoxilon tem hoje os creditos feitos; facilmente se pagará por 20 escudos uma arvore de 20 annos, se foi convenientemente tratada—isto é, rendeu 1 escudo por anno e, calculando que um hectare comporta 1:000, rendeu um conto por hectare e por anno. Mesmo suppondo que os preços baixarão algum dia d'aquelles exageros em que a guerra os pôz, a plantação da Acacia melanoxilon, ou da australia, como no vulgo é chamada, ficará em toda a hypothese uma cultura altamente lucrativa.

Immediatamente, como productores de madeira, vém a Acacia decurrens e as suas variedades, entre as quaes póde contar-se a Acacia dealbata, recentemente em uso para fabrico de tamancos e dando casca excellente para cortumes, de uma elevada percentagem de tanino. Muito proxima, senão igual n'esta ultima applicação, segue-se a Acacia pycnantha, de uma rijeza de madeira notabilissima e «uma das cascas taninosas mais ricas que ha no mundo», segundo Maiden diz, o qual acrescenta que «outra mais rica poderá haver, mas não do seu conhecimento.»

Supponho todavia que o principal valor economico das Acacias, sobrelevando áquelle muito subido que possam ter para madeira, lenha e cortumes, estará porventura na sua prodigiosa capacidade de criar vegetação nos terrenos áridos, terrenos que, na expressão de Maiden, «nem herva dão», nem para pastagem servem. D'isso tenho na minha experiencia provas concludentes.

Pelos residuos de materia organica que n'essas terras deixam, as Acacias são o baptismo milagroso pelo qual a esterilidade se converte á cultura. Para este effeito, a Acacia é reputada superior ao Eucalypto, e creio mesmo que é superior a qualquer outra planta, embora tenha conseguido cobrir gandaras frias e miserrimas com o apertado manto de verdura que a Hakea saligna lhes prodigalisa em poucos annos, enriquecendo essas gandaras, preparando-as para melhores destinos com boas camas de folhido. Mas as Hakeas, se depressa medram, cedo morrem e dos seus troncos só nos deixam uma lenha que me parece muito pobre. As Acacias levam-lhes, evidentemente, grande vantagem na missão de fertilisadores: a sua qualidade de leguminosas e o poder fecundante que d'essa qualidade lhes vém, juntando-se a uma incomparavel resistencia ás violencias da estiagem e á avareza nativa do sólo, attribue-lhes um logar unico no desbravamento das nossas charnecas, tanto mais que parece averiguado que a cultura das Acacias se póde prolongar no mesmo terreno sem prejuizo da sua fertilidade. Os cultivadores e botanicos australianos são de opinião que por esse lado não ha inconveniente na repetição immediata de tres ou quatro plantações sucessivas de Acacias na mesma terra. Note-se que a Acacia é uma arvore que se faz depressa e envelhece cedo, mostrando exemplares de 10 e 12 annos com uma boa percentagem de cerne, e este facto, acrescentando-se aos demais que acabo de apontar, legitíma a esperança de melhorar um terreno fazendo tres cortes de madeira boa em 60 annos.

A cultura da Acacia é em tudo igual a do Eucalypto, modificada apenas em dois pontos: a sementeira e a póda.

A semente da Acacia tem um invólucro muito rijo; ha exemplos de sementes enterradas fundo, durante muitos annos, que depois d'isso germinaram, quando o acaso da cultura as trouxe de novo á superficie da terra. Por isso, agradece preparo que facilite a germinação; convém lançar-lhe em cima agua a ferver e n'essa agua a conservar antes de a lançar á terra. Isto tenho feito com bom resultado. E ha até quem recommende que se ferva a semente por um instante, advertindo todavia que a temperatura não deve exceder 75° centigrados. Tenho para mim que a melhor sementeira das Acacias é a que se faz com as sementes frescas logo que se colhem. Então germinam quasi todas, mesmo sem prévia immersão na agua quente; e como essas sementeiras são antes do fim do estio, época em que a semente amadurece, habilitam-nos a ter plantas em estado de collocação definitiva na primavera seguinte; o que, afinal, significa o adiantamento de um anno.

A póda é indispensavel, a Acacia facilmente alastra e rasteja, se se encontra abandonada e á larga. Para obter troncos bons, altos, lisos e aprumados, teremos de os guiar com cuidado, limpando os ramos lateraes e decapitando a arvore, para lhe engrossar a haste principal, se ella vai muito delgada, com o risco de se tornar curva pelo peso da folhagem.

O melhor processo, particularmente para a Acacia melanoxylon, é a plantação basta; assim, a falta de luz, determinando a inanição dos ramos lateraes, atrophia-os e secca-os, ao mesmo que promove a elevação do tronco. Considere-se, porém, que póda ha-de ser feita com discernimento e paciencia, pouco a pouco, de modo que a arvore se forme bem equilibrada, sem nunca se achar demasiado despida, o que a enfraquece e atraza, quando não a inutilisa.

Maiden é de parecer que as Acacias se devem dividir em dois grupos: as das terras sêccas, que medram com pouca chuva, e d'essas a Acacia pycnantha é o typo; e as das terras frescas e dos climas maritimos, demandando mais agua e florescendo em temperaturas inferiores d'estas, o typo é a Acacia decurrens.

Esta distincção, que tenho por fundamental, bastaria para a selecção das variedades conforme as circumstancias da cultura que emprehendessemos; mas entretanto não será ocioso, para mais segura apreciação, tomar conhecimento de certas qualidades peculiares a cada uma das especies que passo a apontar, e que julgo as principaes:

Acacia Baileyana.—Lindissima, como planta ornamental, pela profusão das flôres; mas especie pouco firme, degenerando com frequencia, e das menos rusticas. Quer abrigo, boa terra e, ainda assim, não raro morre nova.

Acacia cyanophylla.—Arvore robusta. Bellas flôres, das mais tardias. Excellente para logares sêccos. Teme a geada. Comparavel á Acacia pycnantha, manifestamente.

Acacia dealbata.—A mais conhecida das mimosas. Flôres já muito apreciadas nos mercados. Como arvore florestal, aproxima-se da Acacia decurrens, sendo-lhe um pouco inferior no volume dos troncos, na percentagem taninosa da casca, e talvez na dureza da madeira. O Barão de Mueller, no excellente Diccionario das plantas uteis extra-tropicaes, traduzido para a nossa lingua pelo illustre professor da Universidade de Coimbra o snr. dr. Julio Henriques, recommenda a Acacia dealbata, «principalmente como combustivel, por ter grande poder calorifero.»

Acacia decurrens.—D'esta, diz o Barão de Mueller que «é mais resistente do que o Eucalyptus globulus, podendo ser cultivada a altitudes mesmo muito notaveis.» Riqueza taninosa superior, boa madeira, contentando-se com terrenos pobres, e, como a Australia, com maior tendencia a crescer direita do que as congeneres.

Acacia longifolia.—Boa flôr para o córte, crescimento rapido, valor baixo em madeira e tanino, acentuada propensão a rastejar, preciosa como povoador e fixador das areias da costa maritima. É esta a sua qualidade por excellencia, provada entre nós em algumas localidades.

Acacia melanoxylon.—Dispensa commentarios. Conhecida e experimentada em todo o nosso paiz que d'ella ostenta exemplares soberbos, em grande variedade de situacões. Madeira magnifica para innumeraveis applicações. Não ha, porém, que fiar na sua generosidade, quanto a qualidade do terreno; nem todos lhe servem. Tenho d'esta especie plantações atrophiadas por não terem gostado de terrenos, onde aliás o Eucalyptus globulus medra bem. Por isso, passei a reservar-lhe algum pedaço de terra mais fresca, leve e penetravel. Encontra-se em grande variedade de situações; é sabido e certo. Mas, até onde a minha experiencia alcança, inclino-me a incluir a Acacia melanoxylon nas Acacias do typo da decurrens, para os effeitos da cultura e da escolha do local da plantação.

Acacia mollissima.—Maiden julga que a Acacia mollissima, como a dealbata, é uma variedade da decurrens. Por esta poderiamos, pois, aferir o valor economico da Acacia mollissima. Das plantações que tenho feito, inclino-me a concluir que a Acacia mollissima não prospera em terrenos agrestes pela seccura ou pela pobreza do fundo. Deixa-la-hia, portanto, na cathegoria das Acacias ornamentaes, porque as flôres são realmente opulentas, brilhantes, e de um amarelo de oiro. Degenera e cruza com uma frequencia extrema.

Acacia podalyriaefolia.—Cultivo-a ha poucos annos; faltam-me elementos para lhe apreciar o valor da madeira e o desenvolvimento, que entretanto me parece mediano. Supporta terras magras e estiagens aturadas. Como productor de flôres para a venda, é incomparavel, não só pela sua côr, de um amarelo leve, mas sobretudo pela época em que ellas véem, em novembro, logo após os ultimos chrysanthemos, quando as flôres muito escasseiam.

Acacia pycnantha.—Os naturalistas australianos reputam-lhe a casca immediata á da Acacia decurrens, em riqueza de tanino. O Barão de Mueller diz que «é de rapido crescimento, contentando-se com quasi toda a terra, mas encontrando-se geralmente em terrenos arenosos pobres, proximo á costa maritima.»

Maiden acha-lhe uma casca esplendida, densa e nada fibrosa, pulverisando-se completamente, o que porventura não será indifferente quando se empregue em cortumes. Não é das mais promptas em enraizar na primeira transplantação para vaso; mas depois, na plantação definitiva, vinga bem e atura grandes estiagens. Madeira rigissima, troncos grossos; um exemplar de 20 annos, tinha 30 centimetros de diametro quando o cortei. Passa por ser das mais sensiveis ao frio; mas as que plantei nas encostas e entre outro arvoredo, soffreram temperaturas de 2° centigrados abaixo de zero, sem maior mal. Flôres grandes e magnificas, facilidade em dar á arvore boa fórma por uma póda conveniente.