Notas sobre as principaes especies de Eucalyptos que tenho cultivado

Eucalyptus acervula.—Uma variedade do Eucalyptus Gunnii, sem vantagem alguma sobre a especie typo, quanto a crescimento e resistencia ou qualquer outra qualidade.

Eucalyptus acmenoides.—Da Nova Galles do Sul. Boa madeira, sem duvida, na opinião unanime dos que se lhe referem. Desenvolvimento mediocre nos exemplares que experimentei. Macclatchie aponta-o como «conveniente para o littoral das regiões tropicaes», o que, acrescido ao acanhado desenvolvimento que na experiencia mostrou, o deve excluir das nossas plantações.

Eucalyptus affinis.—É um hybrido do Eucalyptus sideroxylon e do Eucalyptus hemiphloia, segundo as indicações de Maiden, que o reputa de boa madeira. São muito novos os exemplares que possuo, para que possa concluir o quer que seja sobre a conveniencia da sua cultura. Cresceram bem no vaso, nos primeiros mezes; mas na plantação definitiva amuaram a tal ponto que não farei nova tentativa. Creio que d'alli nada ha a esperar.

Eucalyptus amygdalina.—Da Tasmania e muitas outras regiões da Australia. Gigantesca e preciosa arvore, de que se encontraram exemplares com 120 metros de altura e 20 de circumferencia na base. A sua madeira é leve, propria para muito genero de carpintaria; habitualmente não torce ao seccar, e fende em estacas com facilidade; mas não é muito duradoura, quando enterrada, nem tão pouco dá combustivel de primeira ordem.

Tenho d'este Eucalypto muitos exemplares e em muito diversas condições, e apezar da qualidade da madeira que apodrece quando enterrada e dá uma lenha de valor mediano, afoita e calorosamente o aconselho, sobretudo nas encostas frias e humidas, onde em desenvolvimento excede algumas vezes o Eucalyptus coriacea e o Eucalyptus Gunnii, generosos e os melhores povoadores d'essas terras. O Eucalyptus amygdalina passa por ser ávido de humidade; mas nunca, porém, me morreu nenhum de estiagens, embora alguns as soffressem e das mais severas. Em terrenos bons, attinge rapidamente proporções magnificas, e em terrenos pobrissimos, nos quaes o Eucalyptus globulus adoeceu e se tornou rachitico, o Eucalyptus amygdalina cresceu devagar, muito devagar, mas sempre sadio.

É positivamente um criador de vegetação notabilissimo; merece ser disseminado com prodigalidade, podendo subir a grandes elevações, pois supporta temperaturas baixissimas, parecendo sob este aspecto mais robusto que os seus companheiros da frialdade, o Eucalyptus coriacea e o Eucalyptus Gunnii. Nem nos prenda a limitada applicação da madeira; não servindo para muita coisa em que outras especies se distinguem, ainda assim lhe ficam qualidades de sobra para ser classificada em alto apreço.

O Eucalyptus coccifera, o dives, o fissilis, o melanophloia, o regnans e o Risdoni, todos téem com o Eucalyptus amygdalina parentesco, quando não são apenas um estado acidental d'essa especie, determinado pela situação em que vegetam, convindo considerar n'este ponto que, segundo o Barão de Mueller, o Eucalyptus amygdalina, mesmo ordinariamente, varía bastante de aspecto, conforme as condições geologicas e climatericas a que fôr sujeito. A essas variedades do Eucalyptus amygdalina me referirei em sua altura; mas desde já será bom fixar que para as nossas culturas florestaes nenhuma d'essas variedades offerece qualquer vantagem comparada com a especie de que derivam.

Eucalyptus Andreana.—Naudin julga que provavelmente, será uma das especies a que se deu o nome de Eucalyptus amygdalina, e achou-lhe caracteres que d'esta especie o aproximam, emquanto na fórma juvenil parece mostrar parentesco com o Eucalyptus viminalis. Sejam, porém, quaes forem as suas affinidades especificas, que aliás não auctorisam a presumpção de grande resistencia de madeira—«resistencia», note-se, não se confunda com «utilidade», a qual não só na resistencia se funda—seja qual fôr o seu logar na classificação botanica, o certo é que o Eucalyptus Andreana dá uma linda arvore, com a folhagem miuda e os ramos delgados e pendentes, tronco direito e grande abundancia de flôres na época propria.

Tenho exemplares de 17 annos com 90 centimetros de circumferencia, prosperando em terrenos mediocres e nunca se havendo mostrado muito captivos do frio. Ainda não decapitei nenhum; por isso, ignoro se tem facilidade em ramificar e formar arvores baixas e copadas que seriam bellas. É uma experiencia a fazer, com probabilidades de bom exito, a julgar pelo parentesco. Tanto o Eucalyptus amygdalina como o Eucalyptus viminalis podem sem maior difficuldade sujeitar-se a fórmas ramificadas.

Eucalyptus Behriana.—Pequeno e vagaroso no desenvolvimento. Na opinião dos botanicos, talvez uma variedade do Eucalyptus largiflorens (ou Eucalyptus bicolor). O Barão de Mueller diz que «as qualidades technicas da madeira estão ainda por experimentar.» Os exemplares que tenho d'esta especie, semeados em 1903, estão bons e téem mostrado grande resistencia ás estiagens. Mas cresceram anchamente, são de casca persistente, e por estas qualidades supponho que houve erro na classificação e são do Eucalyptus hemiphtoia, especie da qual o Eucalyptus Behriana se distingue a custo.

Eucalyptus Boormannii.—Maiden tem-no por hybrido do Eucalyptus siderophloia e do Eucalyptus hemiphloia, dando madeira de duração. Por este lado, é de boa origem; qualquer das especies de que provém dá madeira rigissima. Acresce que o Eucalyptus hemiphloia é oriundo de regiões sêccas.

Do Eucalyptus Boormannii tenho um só exemplar. Cresceu devagar e não está grande, em terreno de segunda ordem; mas sempre se mostrou sadio. Por isto e attendendo á qualidade da madeira, convém persistir na experiencia, a meu vêr.

Eucalyptus bosistoana.—Encontro-o indicado nos livros estrangeiros como de boa madeira e proprio para regiões humidas. O unico exemplar que d'elle tenho, sendo muito novo, e é nos primeiros tempos que mais costumam crescer, e estando em excellentes condições, não mostra pressa de ser grande, e desanima-me de novas tentativas.

Eucalyptus botryoides.—Abunda na Nova Galles do Sul e ainda na colonia de Victoria; e tornou-se vulgar no sul da França, na Italia e na Argelia. É, portanto, uma especie experimentada em climas muito parentes do nosso, da qual já se sabe alguma coisa provada.

Mueller apresenta-o como arvore mediana, raro excedendo 40 metros de altura, de casca permanente e madeira sólida, escura na côr, similhando mogno, boa para carpintaria e marcenaria. Acha esta especie uma das mais proprias para cultura á beira-mar, presumpção justificada pelo facto de se encontrar indigena em localidades humidas e arenosas. Naudin tambem a recommenda, «pela fórma pyramidal e pela folhagem abundante e umbrosa» capazes de «a converter n'uma bella arvore de estrada».

Da excellencia da madeira do Eucalyptus botryoides ha, porém, quem duvide; Macclatchie, no seu precioso livro sobre Os Eucalyptus cultivados nos Estados-Unidos, muito avisadamente aponta as divergencias, embora previamente confirme as vantagens da cultura. Pois diz: «Esta especie prospera á beira-mar; mas não convém a regiões de clima sêcco. Na Australia prefere as situações arenosas e humidas, junto á costa maritima, e, segundo o Barão de Mueller, vinga bem em terras contendo agua estagnada. Na California dá-se bem em grande variedade de situações que vão até 50 milhas da costa.» Esta arvore é das que se pódem usar para plantação florestal em terras baixas de regiões moderadamente humidas, onde não ha a temer grandes geadas. Pela folhagem é util como arvore de sombra, em muitos sitios. Na Australia, onde os colonos de differentes sitios estimam diversamente a sua madeira, chamam-lhe «mogno dos brejos» e «mogno bastardo». Maiden julga que este ultimo nome deve ser devido a confusão. Bailey e o Barão de Mueller ambos reputam boa a madeira, emquanto Maiden se lhe refere como «inferior, tanto pela resistencia como pela duração». Mueller e Bailey indicam a madeira como dura, rija e duradoura, util para travejamentos nas grandes edificações, cavernas de embarcações, postes, carros e ripado. A madeira é avermelhada e de fibra apertada. Mueller diz que os postes d'esta qualidade são muito duradouros, não lhes havendo notado signaes de decadencia, ao fim de quatorze annos de uso.

Pela minha parte, confessarei grande predilecção por esta especie. Ha bastantes annos que a tenho plantado em grande variedade de terrenos, alguns assaz sêccos e sáfaros, e em todos elles encontro exemplares perfeitos, senão pela rapidez do desenvolvimento, alguns medram devagar, ao menos pela conformação e saude. O melhor de todos, da primeira plantação, ha dezesete annos, tem hoje 1m,50 de circumferencia no tronco, um metro acima do sólo. Note-se que estas plantações sentem ainda o ar do mar; ficam a menos de vinte kilometros da costa, e sem montes de permeio que embaracem a visita das brizas maritimas. Nada posso dizer da madeira, senão que é maravilha o aprumo das hastes quando a plantação é basta; e crescendo este Eucalypto rapidamente, é de crer que a madeira amadureça tarde, e só em exemplares de quarenta annos, pelo menos, attinja aquella firmeza de trama que lhe dá todo o seu valor. Cortada cêdo, achando-se tenra, tanto mais tenra quanto mais depressa cresceu, ha-de por força torcer e rachar, tal qual as congeneres em iguaes condições.

Para arvore decorativa e de sombra, o Eucalyptus botryoides é manifestamente magnifico, o mais bello do seu genero.

Achando-se desafrontado, ramifica abundantemente, sem prejuizo do aprumo do tronco, sendo frequentemente necessario cortar-lhe os ramos inferiores, dos quaes não tem tendencia a desfazer-se espontaneamente, como acontece com muitas especies, sobretudo, com o globulus. A folhagem expande-se horisontal, bella de côr e de fórma, e assim fórma uma copa opulenta.

Advirta-se que, apezar de agradecer e preferir a humidade, até hoje ainda nenhum Eucalypto d'esta especie me morreu por effeito da estiagem, o que aliás me tem acontecido com muitos outros, especialmente com o Eucalyptus capitellata, com o Eucalyptus obliqua, com o Eucalyptus Stuartiana e mais alguns de importancia secundaria.

Eucalyptus calophylla.—Uma curiosidade de jardim. Flôres grandes, folhagem bella, lusidia, lauriforme; mas muito melindroso, tanto que nem vale a pena pensarmos na qualidade da sua madeira, embora não falte quem a gabe.

Eucalyptus capitellata.—D'esta especie, geralmente reputada de boa madeira, tenho bons exemplares. O melhor, plantado em 1903, mede agora 80 centimetros de circumferencia. Mas é uma Stringybark (de casca encordoada) e, como as parceiras, facil em povoar terras pobres, mas exigente quanto a humidade. Alguns exemplares perdi já com as estiagens.

Eucalyptus citriodora.—Folhagem de um delicioso aroma, lembrando o do limão, unica, por este lado, entre as congeneres. Madeira linda e excellente, sem contestação dos que se lhe referem. Extremamente exigente, quanto a clima. Emquanto novo, qualquer geada o mata. Deve, todavia, notar-se que em Portugal se conhecem exemplares crescidos d'este Eucalypto, com bastantes annos e grande desenvolvimento.

Eucalyptus coccifera.—De Tasmania. Verdadeiramente um arbusto, resistindo bem ao frio e sem valor algum florestal ou decorativo.

Eucalyptus colossea.—Vide Eucalyptus diversicolor, do qual é synonimo.

Eucalyptus Consideneana.—Segundo Maiden, é talvez um hybrido do Eucalyptus piperita e do Sieberiana, de madeira descorada e macia, proprio do littoral.

Os exemplares que d'elle tenho são poucos e muito novos. Entre elles está um de magnifico desenvolvimento e em exposição assaz fresca, voltada ao norte. Apesar d'isso, julgaria imprudencia confiar, por emquanto, em grandes plantações d'esta especie. Parece demandar humidade, e n'essas condições haverá especies que se lhe avantagem, tanto mais que a qualidade da madeira não é tal que mereça maior risco em experiencias.

Eucalyptus cordata.—Da Tasmania, apparecendo em altitudes de 500 metros acima do nivel do mar. Interesse meramente botanico. Embora supporte bem o frio e a pobreza do sólo, como verifico no magnifico exemplar que tenho na minha collecção, nada vejo que me auctorise a recommendar-lhe a madeira. Conserva sempre as folhas oppostas, sesseis, azuladas, cobertas de goma, o que para as outras especies, como no Eucalyptus globulus, é transitorio.

Eucalyptus coriacea.—Magnifica especie, a aproveitar em muita terra portugueza, humida e fria.

Muito conhecido em algumas classificações por Eucalyptus pauciflora, encontra-se desde as mais pequenas elevações até ás mais altas montanhas, tanto nos terrenos graniticos como em formações de outro genero. Apparece na colonia de Victoria, Nova Gales do Sul e Tasmania, estendendo-se por muitas outras regiões.

Arvore mediana, chegando a 30 metros de alto, de bello aspecto, ramos pendentes, tira o seu principal interesse da resistencia a frios severos. Nos Alpes Australianos constitue com o Eucalyptus Gunnii florestas em miniatura a 1:500 metros de altitude, até proximo das geleiras. Na Europa houve um exemplar em Pau (Pyrineus) que viveu durante alguns annos, chegando a florir; só morreu com o frio excepcional do inverno de 1881-1882. Proximo de Montpellier, supportou uma tempestade de 11 graus abaixo de zero, onde o Eucalyptus amygdalina, que é dos mais resistentes, gelava.

Madeira relativamente macia, facil de cortar, mais descorada que a maior parte dos Eucalyptos, fendendo bem; excellente lenha. Não convém para enterrar; assim, apodrece facilmente.

Não se esqueça que teme muito as estiagens. Macclatchie diz que na California não supporta a atmosphera sêcca, nem mesmo regado.

A principio não me captivei muito d'esta especie. É lenta em germinar, pega mal na primeira transplantação e medra muito a medo nos primeiros annos. Mas depois mostrou o que era. Distingue-se entre as companheiras pela robustez nas encostas frias. Os melhores exemplares, de 17 annos, téem agora 1 metro de circumferencia.

Eucalyptus cornuta.—Da Australia occidental do Sul, nas proximidades de Geographe-Bay e nos massiços montanhosos de Sterling. Na Europa, é já vulgar nas margens de todo o Mediterraneo, principalmente na Provença, na Argelia e em Genova.

Arvore de mediana grandeza, chegando excepcionalmente a 30 metros, supporta um sólo arido, mas prefere os logares humidos, apparecendo (circumstancia importante por não ser vulgar nos Eucalyptos) nos terrenos calcareos.

A madeira, rija e elastica, convém para lanças de carros, instrumentos agricolas e embarcações, sendo para este fim de valor aproximado ao do freixo. É a mais pesada de todas as madeiras do occidente australiano, afundando-se na agua, ainda mesmo depois de bem sêcca.

Macclatchie dá informações da cultura d'esta especie na California, que são muito de considerar em nosso uso:

«Resiste a temperaturas elevadas, soffrendo, todavia, muito com as geadas. Não sucumbe com cerca de 50° centigrados positivos; mas ficará rijamente molestado com 5° abaixo de 0. Prefere terra rica e lenta, nem por isso deixando de crescer bem em terra pobre. Pelo modo de crescer e pela densidade da folhagem, é uma arvore de sombra, havendo poucos Eucalyptos que ramifiquem a tão pequena altura como este. Na California tem sido empregado quasi unicamente como arvore de sombra.»

Apezar de recommendado para as regiões tropicaes e adjacentes, tenho achado que o Eucalyptus cornuta póde servir a vastas regiões do nosso paiz. Em Moreira da Maia encontrei-o viçoso e excellente entre o matto, sem nenhuns cuidados, e tenho exemplares em condições bem pouco favoraveis que no primeiro anno se desenvolveram a par dos Eucalyptus globulus e, de 1902 até hoje, crearam um tronco de 0m,60 de circumferencia.

Eucalyptus corymbosa.—Não é para desprezar, se não me engano. Os dois unicos exemplares que possuo, plantados em 1902, passaram já duros invernos e violentos estios, ao fim mostrando dois troncos medianos em grossura, mas aprumados e perfeitos. Sobre a qualidade da madeira não ha duvida; facil de apparelhar em verde, durissima depois de sêcca, fraca lenha, por virtude de excessiva quantidade de kino, e, por isso mesmo, impenetravel ás termitas. D'este, diz Maiden:

«Para postes enterrados e para canalisações subterraneas é quasi imperecivel.»

Eucalyptus corynocalyx.—Da Australia do Sul. Já experimentado em varias localidades do sul da França. Boa madeira para estacas de vedação e travessas do caminho de ferro; postes de quinze annos não mostravam signaes de decadencia.

De uma grande elasticidade, quanto ás vicissitudes atmosphericas, dizem os que se lhe téem referido, que supporta temperaturas que vão de 8° centigrados abaixo de 0 até 45° positivos. A folhagem é adocicada, qualidade que partilha com o Eucalyptus Gunnii; os gados roem-na, differentemente do que em regra acontece com a quasi totalidade dos Eucalyptos, em que os animaes não costumam tocar—o que não deverá esquecer a quem os plantar em terras onde persista o mau costume de apascentar os gados soltos nas mattas.

Torna-se, porém, notabilissima esta especie, porque a sua madeira não fende nem torce ao seccar. Só o Eucalyptus resinifera encontro indicado com igual boa prenda e, como este não supporta tão bem o nosso clima, o Eucalyptus corynocalyx tem, por aquella sua virtude, um logar de primazia.

Mueller diz que o crescimento não é de maior celeridade, segundo observou, cultivando-o por muito tempo; e Naudin calcula esse crescimento em cerca de um metro por anno. Os melhores exemplares que eu tenho, com 17 annos, téem, em média, 60 centimetros de circumferencia.

Mueller aconselhou este Eucalypto para a Argelia, como resistindo á maior aridez e a estiagens prolongadas, e indifferente á natureza mineralogica do terreno. Eu, sem querer ensinar o mestre, mas traduzindo-lhe para portuguez os conselhos em dezesete annos de experiencias, direi apenas, e para portuguezes que vivam em sitios similhantes a estas colinas proximas de Aveiro, não em extremo sêccas no verão nem demasiado agrestes no inverno:—Bella arvore, na verdade, o Eucalyptus corynocalyx. Mas ao abrigo, ainda que quente seja. Nunca nenhum dos meus soffreu com as estiagens e muitas téem passado incolumes, assim como rijos janeiros. Mas detesta o norte e o frio dos brejos desarmados do sol. Exemplares plantados no mesmo dia, em terreno da mesma natureza, e a 50 metros de distancia, téem hoje um palmo de diametro ou duas polegadas, conforme estejam ao abrigo do vento e bafejados do sol, ou sepultados na sombra e açoitados do norte.

Eucalyptus cosmophylla.—Não tem valor industrial apreciavel; mas goza da singularidade de dar flôr no inverno—em Eixo floresce em dezembro—e assim offerece bom pasto ás abelhas, em tempo no qual o pasto escasseia. Fórma uma arvore pequena, de folhagem espessa, prosperando em situações muito diversas, sem grandes exigencias, quanto a terra e clima. Na Australia occupa logares sêccos e pedregosos.

Eucalyptus crebra.—Este é um dos meus preferidos. Quereria vêl-o disseminado largamente; e, pelo que tenho observado, são de todo applicaveis em nossas terras as indicações com que Macclatchie o recommenda para a America. «A iron-bark (casca de ferro) de folha estreita, diz, supporta uma maior variedade de condições climatericas do que as outras iron-bark. É a unica d'este grupo que supporta valles sêccos e quentes do interior», com temperaturas minimas de 7° centigrados negativos e maximas de 50° positivos, aproximadamente. «Pela madeira dura, rija e elastica, serve para grande numero de applicações. É uma das madeiras da Australia mais altamente apreciadas; duradoura debaixo do chão e, por isso, muito usada para postes e travessas de caminho de ferro; é tambem material bom para pontes, carros e grande variedade de applicações.»

Está com 80 centimetros de circumferencia o maioral dos Eucalyptus crebra que plantei, e todos são de uma resistencia notavel, teimando em não morrer muitos que ficaram perdidos, sem luz nem espaço, entre as plantações de outros mais apressados em tomar conta do terreno.

Eucalyptus Deanmaiden.—Deste tenho apenas dois exemplares e novos. Não são feios, com a sua folhagem horisontal. Em crescimento estão, porém, muito distantes de muitos outros companheiros da mesma idade e differente especie. Creio que não convirá ás nossas terras.

Eucalyptus decipiens.—Arvore pequena. Da sua madeira diz o Barão de Mueller que «é pouco conhecida e não parece ter qualquer valor capital.» E, ainda que assim não fosse, não nos serviria, porque cresce devagar e não chega a tamanho que valha o quer que seja.

Eucalyptus delegatensis.—O viveirista onde comprei a semente apresentou-o no catalogo como o menos exigente dos Eucalyptos, crescendo entre a neve a 1:500 ou 1:800 metros de altitude e dando boa madeira. Mas a obra de Maiden indica-o como uma variedade alpina do Eucalyptus obliqua, e eu que tenho medo do Eucalyptus obliqua, como de todos os stringybarks, tão faceis em seccar com a estiagem, deixal-o-hei de remissa, embora d'elle possua um lindissimo exemplar.

Eucalyptus diversicolor.—É o afamado karri dos australianos, cantado e celebrado como rival do Eucalyptus globulus, e presentemente apregoado na Europa como capaz de curar a diabetes com a infusão das suas folhas.

Muito conhecido sob a designação de Eucalyptus colossea. Da sua estatura contam-se maravilhas, chegaria a 120 metros de altura e n'um crescimento rapido; e sobre a qualidade da madeira não divergem as opiniões: é excellente, de resistencia superior ao carvalho e apresentando casos de conservação na agua durante 26 annos.

Quanto a terreno e clima, é que lhe porei grandes duvidas. Não se póde comparar com o Eucalyptus globulus. Gelou até ao colo da raiz onde o Eucalyptus globulus nada soffreu, e de todo estacionou, emquanto os companheiros erguiam bellos lançamentos. E parece que não serei o unico a queixar-me, porque Macclatchie diz: «Esta especie prospéra nas regiões moderadamente humidas, junto á costa; mas não supporta bem o calor sêcco do interior. Os melhores exemplares que observei cresceram entre Los Angeles e Pasadena, da California, onde a atmosphera é moderadamente humida e as geadas leves.»

Por conseguinte, é bom, e será mesmo optimo para quem lhe puder offerecer terras profundas e valles abrigados, não muito longe do mar, para respirar frescura, entre Douro e Minho, segundo me palpita.

Eucalyptus dives.—Um arbusto, fórma aberrativa do Eucalyptus amygdalina, sem importancia alguma.

Eucalyptus eximia.—Boa lenha e fraca madeira, segundo os mestres affirmam. Acrescentando a isto que se tem mostrado acanhado no crescer, desde que o tenho, ha 17 annos, posto que sempre sadio, não mais pensarei em repetir a experiencia.

Eucalyptus erythronema.—Os horticultores gabam-lhe as flôres, vermelhas e com sua graça, na verdade. Mas é um arbusto pobrissimo de folhagem, em toda a situação, pondo uma nota de mingua, constrangimento e desharmonia.

Eucalyptus ficifolia.—Arvore de bastante sombra, casca persistente, raras vezes excedendo na Australia 15 metros de altura, aproximando-se apenas do Eucalyptus calophylla e differindo muito das outras especies. Do valor da madeira nada se sabe. Como planta decorativa, notabilissima; são maravilha os feixes esplendidos das suas flôres côr de fogo, de um vermelho singular. Por esse lado, é o unico Eucalypto francamente decorativo.

Melindroso, quer boa terra, abrigo e frescura; é verdadeiramente uma arvore de jardim. Devo, porém, advertir que o tenho achado menos sensivel ás geadas do que o Eucalyptus citriodora e o Eucalyptus maculata. Facto curioso:—varía extraordinariamente na côr das flôres, provavelmente por hybridação. Direi mesmo que nunca achei dois exemplares com flôres exactamente do mesmo tom.

Eucalyptus fissilis.—Maiden julgou a principio que o Eucalyptus fissilis, do Barão de Mueller, devia ser considerado synonimo do Eucalyptus amygdalina, de Labillardière. Ultimamente, porém, diz que Luehmann o convenceu de que o Eucalyptus fissilis se deve ligar ao Eucalyptus obliqua. O catalogo de Vilmorin diz que se aproxima do Eucalyptus goniocalyx. Com isto coincide que diversas sementes que pude haver com o rotulo de Eucalyptus fissilis, deram arvores muito differentes. De tudo o que concluo que é especie assaz incerta na classificação, e não será sensato plantal-a em similhantes condições, embora eu possa mostrar um exemplar soberbo, nascido e creado sob esta invocação, e havendo dado ao fim dos seus 17 annos de existencia um tronco com 1m,3 de circumferencia. Demais, se o Eucalyptus fissilis é um Eucalyptus amygdalina, teremos este para o substituir com menos incertezas; e, se é um Eucalyptus obliqua ou um Eucalyptus goniocalyx, não será de confiança para grandes plantações, pelos motivos a que me refiro nas minhas notas sobre estas duas ultimas especies.

Eucalyptus fœcunda.—Um arbusto, que pouco se me desenvolveu e vive em grande miseria.

Eucalyptus Fœld-Bay.—Em livro algum sobre a flora australiana encontrei referencia a qualquer Eucalypto sob esta designação; nem tão pouco achei nas cartas geographicas Fœld-Bay. O que lá está é Twofold Bay, ao sul, no extremo da Nova Galles do Sul. Porventura houve equivoco; será d'aqui o Eucalyptus Fœld-Bay que o catalogo da casa Vilmorin offerecia em 1901, quando ahi comprei a semente. Por isso, nada sei do valor da madeira d'esse Eucalypto; emquanto da sua robustez e aspecto decorativo, só posso dizer bem. É uma bella arvore, ramificando com largueza, de ramos pendentes como o chorão, prosperando em situações frias e ainda n'outras onde o calor aperta, e reproduzindo-se espontaneamente com uma certa facilidade. Pelo fructo, pela folhagem e pela casca, lembra muito o Eucalyptus viminalis e ainda, bastante, o Eucalyptus rostrata.

Eucalyptus gigantea.—Synonimo do Eucalyptus obliqua, a que em sua altura me referirei.

Eucalyptus globulus.—Dispensa commentario. Do que é e vale dizem já as nossas mattas e estradas, e tambem, largamente, as nossas officinas. O que sobre elle se tem escripto formaria uma bibliotheca; mas a pujança em que a cada passo se ostenta, substitue-a com vantagem. O seu rendimento florestal e a excellencia da madeira são casos julgados em sua honra. De passagem, apenas quero notar que Naudin escreve que o Eucalyptus globulus supporta no sul da França frios de 6° centigrados abaixo de zero, e que o tenho encontrado viçoso, robusto e já com muitos annos e tronco formidavel, em elevações de 500 e 600 metros acima do nivel do mar, nas serras do Caramulo e S. Macario.

Eucalyptus gomphocephala.—Nunca d'esta especie me foi possivel crear coisa que se visse. Sempre se me mostrou por diversos modos inteiramente esquiva. Todavia, talvez não seja ocioso que outros e em outras circunstancias repitam a experiencia, pois leio que convém aos terrenos calcareos, qualidade rarissima nos Eucalyptos, e que dá madeira durissima. Não irá muito alto, apenas a uns 30 metros, mas engrossa bem. Note-se, quer, segundo leio, terrenos frescos.

Eucalyptus goniocalyx.—A julgar pelos exemplares que possuo d'este Eucalypto, inclinar-me-hia a excluil-o, desde já, das nossas plantações; cresceram bem nos primeiros annos, emquanto encontraram terra cavada, e depois passaram a medrar muito devagar. Em geral, não são propensos a dar hastes direitas, tendo a seu favor uma facilidade notavel em rebentar da cepa quando cortados e d'ahi dar rapidamente lançamentos elevados. Apesar d'esse balanço pouco favoravel, talvez não seja desacerto insistir na tentativa; os botanicos attribuem ao Eucalyptus goniocalyx qualidades de alto valor. A madeira é boa, duradoura, mesmo que enterrada esteja, e um combustivel excellente. Demais, esta especie iria a altitudes de 900 ou mesmo 1:000 metros e, segundo Sahut, prestar-se-hia maravilhosamente para a distillação, produzindo, como outras congeneres, uma essencia que os colonos australianos empregam sobretudo para a illuminação, e acrescendo que a essencia derivada das folhas do Eucalyptus goniocalyx seria preferida a qualquer outra por sua chamma brilhante, sem fumo nem cheiro.

Eucalyptus Gunnii.—É de certeza, um dos poucos que merecem ser propagados para aproveitar terrenos e situações em que o globulus vai mal e o proprio pinheiro cresce miseravelmente.

Frequente nas montanhas da Tasmania, é a especie mais vulgar dos Alpes australianos da colonia de Victoria, onde se encontra a 1:800 metros de altitude; por estas circumstancias de origem, legitima é a supposição de que ha-de prosperar em muitos dos nossos montes mais sáfaros. Associado com o coriacea, fórma na Australia as florestas miniaturas dos Alpes d'aquelle continente, e ahi floresce em estado arbustivo, qualidade que entre nós conserva, havendo produzido sementes fecundas em arvores de quatro annos de idade. Na Europa, apparece em França; na Africa, tem sido experimentado; na Argelia, e na Inglaterra, em Kew, proximo de Londres, ha um exemplar que ha muitos annos resiste aos invernos, embora plantado ao ar livre.

Da sua resistencia ao frio, não ha a menor duvida. Os muitos exemplares que d'elle tenho, alguns já com dezeseis annos, nunca soffreram com o frio, havendo passado invernos rigorosissimos. N'este ponto, leva grande vantagem ao globulus.

Quanto a terreno, contenta-se com os mais pobres. Mostra-se são e com um desenvolvimento normal em terras expostas ao norte, frias, pedregosas e muito humidas no inverno, emquanto, ao mesmo tempo, tem vencido estios prolongados em terras de areia, muito sêccas, sendo de notar, todavia, que, para terras sêccas, outras especies lhe são inferiores e devem ser preferidas.

Não é feio. A massa da folhagem é mais escura e sombria do que em grande parte de outras especies, sem o cheiro particular de nenhuma d'ellas. D'ahi vem que os gados a roem, circumstancia rara nos Eucalyptos, apontada tambem como particularidade do corynocalix.

Sobre as qualidades da madeira, divergem um pouco os que a téem examinado. O barão de Mueller acha-a uma «bella madeira, igual em dureza á do macrorryncha, rostrata e globulus; muito boa para diversa obra, se se poderem conseguir hastes direitas, em regra fendendo mal, mas excellente para lenha.» Porém, Macclatchie, repetindo a informação de Mueller, diz que «esta arvore não fornece uma madeira especialmente util», sem embargo de acrescentar que «é especie muito promettedora como revestimento florestal nas situações montanhosas, não sujeitas a temperaturas estivaes muito altas.»

Esta conclusão, a que se chegou nos Estados-Unidos da America, está para mim absolutamente confirmada pela experiencia, já não muito breve, que tenho da cultura d'esta especie. Verifica-se que varía muito nas proporções do seu desenvolvimento; alcançando 60 ou 70 metros de altura, quando encontra condições favoraveis de terra e abrigo, decresce em differentes graus e chega mesmo a reduzir-se a um arbusto rasteiro, á medida que essas condições se vão tornando menos propicias. Mas é incontestavel a sua pujança, que quasi a isenta por completo das doenças cryptogamicas, amiudadas vezes fataes ao globulus; a sua rudeza, que lhe permitte um desenvolvimento superior ao do pinheiro em terrenos de gandara magrissimos; e, finalmente, a boa qualidade de madeira que, ainda mesmo acceitando como subsistentes todas as duvidas que a depreciem, conservaria a virtude de um magnifico combustivel.

N'estes termos, o Eucalyptus Gunnii, plantado basto, a um metro de distancia, é uma arvore preciosa para o aproveitamento de muita charneca fria e ao presente abandonada, povoando-a e adornando-a de uma vegetação por diversos titulos vantajosa.

Convém notar que esta especie cresce frequentemente torta, com tendencia a arrastar-se pelo chão.

N'este caso, não ha que hesitar. A haste corta-se a meio palmo de altura; invariavelmente dá origem a diversos rebentos, de ordinario direitos; e d'estes deixam-se os dois ou tres mais aprumados, que em breve estarão da grossura do ramo que se cortou—o que, aliás, deve ter-se como regra geral para os Eucalyptos que comecem a crescer inclinados. É assim que eu tenho usado, com os melhores resultados, até mesmo com o globulus.

Admitta-se mais que a plantação, para ser bem feita, deverá ser precedida da cava ou da lavoura de todo o terreno, no qual depois se abrem as covas. É uma despeza de manifesta importancia; mas, como uma plantação d'estas não se faz para dez ou vinte annos, mas sim para sessenta ou oitenta, porque os Eucalyptos, dando successivos córtes, povoam um pedaço de terra por dilatados annos, essa despeza torna-se minima pela duração da sua utilidade e rendimento.

Eucalyptus hemiphloia.—Já por um exemplar authentico d'esta especie que possuo, já por outros exemplares, cujas sementes me vieram como do Eucalyptus Behriana, parente muito proximo do Eucalyptus hemiphloia, e que muito mais se conformam com a descripção d'este do que com os caracteres d'aquelle, estou em dizer que o Eucalyptus hemiphloia é muito de aproveitar e propagar. Em primeiro logar, o Eucalyptus hemiphloia pertence áquella secção dos box-tree (arvore do buxo) em que se encorporam os Eucalyptus polyanthema, melliodora, largiflorens e outros, todos notaveis pela boa qualidade da madeira e pela resistencia ás estiagens. Depois, em fontes auctorisadas leio que o Eucalyptus hemiphloia prospéra tanto junto da costa maritima como nos outeiros e valles sêccos do interior, supportando temperaturas minimas de 5° e 7° centigrados abaixo de zero e maximas de 43° a 48°, e não temendo nem geadas pesadas nem o vento quente. Depois ainda, produz madeira de notavel resistencia. O Barão de Mueller diz que os postes d'este Eucalypto cravados na terra foram achados quasi perfeitamente sãos, ao fim de 16 annos, e Maiden refere que elle dá uma das melhores lenhas da Nova Galles do Sul. E, finalmente, pelas informações que de longe véem e a minha experiencia confirma, é uma arvore de folhagem densa, qualidade rara em Eucalyptos, e, a meu vêr, prosperando mesmo nos terrenos argilosos, qualidade tambem não menos excepcional n'este genero de plantas, tudo o que é precioso num paiz como o nosso, onde ha muitos barros sêccos carecidos de sombra e com poucas probabilidades de achar arvore que lh'a dê.

Eucalyptus yugalis.—Um arbusto, de todo sem importancia para o lavrador.

Eucalyptus largiflorens.—Synonimo do Eucalyptus bicolor.

D'este direi o que fica dito do Eucalyptus hemiphloia. Adoptal-o-hia para os logares sêccos. Sómente acrescentarei que não leva grande vantagem áquelle seu companheiro na rapidez de desenvolvimento e no volume dos troncos, e muito menos na espessura da folhagem, e que, sendo muito propenso a entortar e rastejar, convém guial-o,—o que, não se esqueça, é mais a regra do que a excepção em todos os Eucalyptos que formam a classe dos box-tree.

Eucalyptus Lehmani.—Botanicamente «inseparavel» do Eucalyptus cornuta, segundo a expressão do Barão de Mueller, e apontado pelos horticultores como admissivel nos jardins.

Qualidades decorativas e mediocres, a meu vêr, e valor florestal nullo, porque, circumstancia decisiva, é arvore pequena e assaz melindrosa, extremamente sensivel ás geadas.

Eucalyptus leucoxylon.—Aqui de todo me perco. Emquanto o Barão de Mueller recommenda calorosamente o Eucalyptus leucoxylon e lhe acha muitas virtudes, Maiden reputa-o de nenhum valor. Demais, enganou-me; cresceu bem nos primeiros dois annos, e em seguida passou á cathegoria dos retardatarios. Entre tantas incertezas deixaria de contar com elle, absolutamente, para o quer que fosse, se não tivesse mostrado uma excepcional facilidade de cruzamento. D'esses hybridos do Eucalyptus leucoxylon tenho um bonito exemplar, viçoso, crescendo bem e aprumado. O futuro, porém, dirá se traz no ventre qualquer coisa aproveitavel.

Eucalyptus longifolia.—Não se illudam os que o encontrarem viçoso em terrenos frescos, que só n'esses sabe prosperar. É dos que menos vale pela madeira e conjunctamente é de robustez muito limitada.

Eucalyptus Mac-Arthuri.—É tentador! Quando o logar lhe agrada, desenvolve-se esplendidamente, ramificando com largueza; e onde o terreno deixa de o favorecer, ainda ahi resiste e vai medrando devagarinho. Mas Maiden reputa inferior a sua madeira e, n'esta deficiencia, junta-o com o Eucalyptus Stuartiana e semelhantes. Por conseguinte, não será muito avisado quem, seduzido pela belleza do aspecto, se alargar na plantação.

Eucalyptus macrandra.—Insignificante a todos os respeitos.

Eucalyptus macrocarpa.—Como o precedente, um arbusto insignificante. Não me deu trabalho. Morreu ás primeiras geadas que lhe tocaram.

Eucalyptus macrorryncha.—Na verdade, os livros não mentiram onde dizem que o Eucalyptus macrorryncha é maravilha para medrar em terrenos pobres. Vejo-o crescer um metro em terras miseraveis, emquanto os pinheiros a par crescem um palmo. A madeira é boa e a casca aproveitavel para cobertura de choupanas e curraes, podendo em semelhante uso durar cerca de 20 annos. Mas... um terrivel mas o persegue; é um stringybark, parente proximo do Eucalyptus capitellata e não muito distante do Eucalyptus obliqua, e, como elles, sujeito a morrer da estiagem, o que aliás todas estas especies já ampla e praticamente me provaram nas minhas experiencias.

Eucalyptus maculata.—Visinho do Eucalyptus citriodora, e de menos confiança do que este. Não teremos que discutir-lhe qualidades da madeira, quando em materia de clima é de todo esquivo. Exemplares magnificos, com mais de 5 metros de altura, gelaram até ao colo da raiz desde que sentiram um inverno rigoroso. Depois d'isso, rebentam e crescem; mas, quando de novo vem um inverno em que a geada abunda, voltam á primeira fórma, ao rez-do-chão.

Eucalyptus Maideni.—Uma variedade do Eucalyptus globulus, annunciada como de mais vigor... onde o terreno fôr de primeira ordem, acrescentarei eu. Nos outros, nos terrenos mediocres, parece-me mesmo muito menos robusto do que o Eucalyptus globulus.

Eucalyptus marginata.—Da Australia Occidental. Casca persistente; altura mediana, 30 metros, de ordinario, indo, por excepção, até 45.

É o famoso Jarrah dos australianos. Originario das terras humidas, parece um pouco mais indifferente á situação e ao sólo do que outras especies congeneres; mas foge dos logares quentes e sêccos. O seu maior desenvolvimento é nos sitios que recebem humidade do mar.

Na opinião unanime de britanicos, silvicultores, engenheiros e homens práticos, o Jarrah é de uma robustez verdadeiramente sem igual. Exposta ao ar ou submergida, ao sol, á chuva ou debaixo da terra, a sua madeira apparece intacta, ao fim de uma prova de cincoenta annos. Como foi usada desde a fundação da colonia da Australia Occidental, em 1829, encontram-se exemplos numerosos a demonstrar a sua duração inexcedivel. Em certas circumstancias, essa duração excede a do ferro. Para construcções navaes está a par ou muito proxima da teca, e é invulneravel ao teredo e ás termitas; os barcos d'essa madeira dispensam cobertura de cobre. Além d'isso, é uma das madeiras menos inflammaveis, qualidade muito de apreciar onde se usarem construcções de madeira, e, por certo, em virtude d'essa mesma qualidade, dá excellente carvão. A madeira das planicies arenosas á beira do mar é de qualidade inferior; a melhor é a que se cria nos terrenos montanhosos, particularmente a dos terrenos ferruginosos e dos graniticos—do que, confiadamente o lembro, o nosso Minho deve tomar boa nota para seu uso. Não faltam lá nem terrenos frescos, nem montes, nem granitos, nem a frescura maritima que frequentemente alcança até ás maiores alturas das serras entre o Mondego e Minho.

Nas minhas experiencias, comecei por ser infeliz com esta especie; nasceu mal, soffreu muitas baixas na primeira transplantação, e cresceu muito devagar na plantação definitiva. Mas insisti, e com a boa fortuna mudei de ideias. O melhor exemplar que possuo, em terreno mediocre e algo sêcco, tem hoje 16 annos e mede 75 centimetros de circumferencia, um metro acima do sólo. Os outros que plantei em terreno aliás bem pobre e alto, assás exposto ao norte, vão devagar, é certo, mas sadios, com lindas hastes aprumadas.

Tudo o que, bem considerado, e acrescentando-lhe ainda que a madeira do Eucalyptus marginata é mais docil á ferramenta do que as madeiras de outras especies de Eucalyptos, posto que menos forte seja em resistencia ás pressões—tudo o que me leva a crêr que temos todo o interesse em plantar o Eucalyptus marginata onde lhe acharmos condições proprias. A riqueza das suas qualidades colloca-o em logar privilegiado e a marcenaria rural tem alli uma grande esperança de moveis seguros, bellos e duradouros.

O Eucalyptus marginata é um dos Eucalyptos que com mais facilidade se propaga expontaneamente. Tenho isso por um signal de vigor e tendencia a acclimação. Como processo de reproducção, a ninguem o aconselharia. Os Eucalyptos nascidos expontaneamente crescem sempre muito devagar, quando crescem. A cova e o esboroamento da gleba é um começo de vida essencial n'esta cultura.

Eucalyptus megacarpa.—Pequeno, crescendo devagar, e de duvidosa qualidade de madeira. Não ha que perder tempo com elle.

Eucalyptus melanophloia.—Boa madeira, segundo o Barão de Mueller. Mas não é para as nossas terras, onde vegeta mal. Assáz o experimentei para não pensar mais n'elle.

Eucalyptus melliodora.—Um box-tree, e tanto lhe basta para carta de admissão; d'esta cathegoria todos são bons e proprios para as nossas terras.

Da colonia de Victoria e Nova Galles do Sul, onde apparece principalmente nos outeiros, não subindo, porém, a grandes elevações. Arvore mediana, chega, por excepção, a 70 metros, com um diametro superior a dois metros na base. Madeira amarellada, extremamente rija depois de sêcca, duradoura e pezada, d'uma flexibilidade notavel, mas, em regra, difficil de obrar e fender. Na textura, muito semelhante ao Eucalyptus rostrata. Não convém para cortar em pranchas, por apresentar frequentemente largas fendas perpendiculares entre as camadas. Excellente combustivel. Na Australia vive em terras pobres e é de crescimento lento.

Naudin diz:—«Conhece-se facilmente ao longe, pelos ramos longos, delgados e pendentes, que lhe dão certa semelhança com o chorão. Abundante de folhagem e flôres, recommenda-se como arvore decorativa.» Sahut julga-o «muito resistente e interessante pelos ramos pendentes e pelas flôres odoriferas que as abelhas procuram avidamente».

Merece propagar-se; é manifesto. Sempre se me mostrou resistente, até mesmo em situações ardentes e em terrenos com larga dose de argila.

E convenço-me de que não ficaria mal á beira das estradas e em volta da casa dos nossos vinhateiros. Tem belleza, vigor e utilidade que o abonem para isso.

Eucalyptus microcorys.—Não devemos contar com elle. A madeira é excellente; mas pressente a geada, quando nós ainda mal a enxergamos. Macclatchie acha-o «proprio para as regiões humidas semitropicaes.» E assim deve ser, porque é um stringybark, ávido de humidade por conseguinte.

Apezar d'isto, tenho d'este Eucalypto alguns exemplares bem desenvolvidos n'uma encosta ao sul, abrigados entre pinheiros.

Eucalyptus microphylla.—O catalogo de Vilmorin, de cuja casa me veio a semente, indica o Eucalyptus microphylla, ou stricta, como uma variedade dos Iron-bark (casca de ferro) que chega a attingir 40 metros de altura, e dando boa madeira e um combustivel de primeira qualidade. Os exemplares provenientes d'essas sementes confirmaram a informação. Porém, a Eucalyptographia do Barão de Mueller acceitando a synonimia do Eucalyptus microphylla e do Eucalyptus stricta, quando este ultimo descreve, não condiz no resto com a noticia de Vilmorin. Pela minha parte, direi que os Eucalyptos que tenho sob a designação de microphylla são Iron-bark, por certo de excellente madeira, como todos os d'essa classe, com um desenvolvimento a par do Eucalyptus crebra, ao qual o juntaria para todos os effeitos. Desconfio que o Eucalyptus microphylla da minha collecção será o Eucalyptus paniculata.

Eucalyptus microtheca.—Nas minhas mãos negou toda a fama com que da Australia passou para a Europa. Invariavelmente ficou rachitico, embora lhe houvesse offerecido logar não de todo agreste. Segundo lia, supportava temperaturas minimas de perto de 8° centigrados abaixo de 0° e maximas de mais de 50°; encontrar-se-hia nas regiões mais áridas da Australia e já se desenvolvia admiravelmente na França e na Argelia. Nada d'isto encontrei. Dou-me por desenganado, de tal fórma que não reincidirei na tentativa.

Eucalyptus Mulleri.—Não me afoita, posto que d'elle possua exemplares bonitos. Ha duvidas quanto á excellencia da madeira; e não será especie tão firmemente caracterisada, que esteja isenta do risco de variar na reproducção. Muitos o poderão substituir com segurança e vantagem.

Eucalyptus obliqua.—É o Eucalyptus gigantea da classificação de J. Hooker, e foi a especie que primeiro se conheceu e sobre a qual l'Héritier fundou este genero. Frequente na Tasmania, isso basta para estabelecer probabilidades de adaptação ao nosso clima. Em regra, são as especies de Eucalyptos d'essa latitude aquellas em que mais seguramente podemos confiar.

Mueller descreveu o Eucalyptus obliqua como arvore muito aprumada, de crescimento rapido, chegando a uma altura de noventa metros, embora floresça muito nova, e encontrando-se em elevações medianas, «não alpestres.» Casca persistente, muito fibrosa, ardendo facilmente, macia e fragil. «É uma das mais importantes de todas as arvores da Australia pela sua grande abundancia e tambem pela facilidade com que a madeira se presta a diverso trabalho.» Serve para construcções, travessas de caminho de ferro e vedações, e para isso é muito usada, mas «apodrece depressa, quando enterrada.» A casca emprega-se em larga escala para cobertura de edificações ruraes primitivas, e convém tambem para o fabrico de papel, quer ordinario, de empacotamento, quer de impressão, e até de escrever.

Cultivo esta especie ha dezesete annos; d'ella tenho muitos exemplares bons e um esplendido, possuindo todas as qualidades que Mueller lhe attribue. Todavia, não a aconselho.

O Eucalyptus obliqua é nas minhas plantações a especie que com o Eucalyptus rostrata me tem atraiçoado maior numero de vezes. Morre facilmente com as estiagens; exemplares de oito metros de altura e outros tantos annos de prosperidade seccaram com o calor, plantados entre muitas outras especies que todas o supportaram e resistiram. Já não téem conta os que perdi por este motivo, mesmo quando pela estatura a que haviam chegado era de esperar que estivessem para afrontar todos os rigores do sol e do frio.

O Eucalyptus obliqua só é aproveitavel em terrenos frescos, e para terrenos frescos não faltam especies de superior madeira que lhe devem ser preferidas.

Note-se—pertence este Eucalypto ao grupo dos que na Australia chamam stringybark, isto é, de casca encordoada, e tenho como regra, por effeito de dilatada experiencia, que todos os Eucalyptos d'esse grupo, alguns dos quaes vegetam em terrenos pobrissimos, carecem de humidade na terra. Se não a encontram, facilmente morrem, apenas se acham expostos a quatro ou cinco dias consecutivos de calor mais forte. Todos elles enganam, e com tanto maior risco, para quem os planta, quanto é certo que não raro a sua fraqueza só se mostra e nos surprehende ao fim de alguns annos de plantação.

Eucalyptus obtusiflora.—Uma variedade do Eucalyptus obliqua, segundo creio, partilhando, por isso, de todo o seu bem e de todo o seu mal, e não mostrando qualquer superioridade sobre este ultimo nos exemplares que tenho plantado.

Eucalyptus occidentalis.—D'este, aliás gabado pela qualidade da madeira, repetirei o que d'outros tenho dito:—Na minha mão, nunca deu nada que prestasse. Supponho que sente frio; Macclatchie nota que elle soffre com temperaturas de 4° centigrados abaixo de zero, e em terras portuguezas fica muito sujeito a essas inclemencias para poder prosperar.

Eucalyptus paniculata.—Se é o que tenho com o rotulo de Eucalyptus microphylla, estamos bem. Vai a par do Eucalyptus crebra e não será desacerto semeial-o e plantal-o de mistura com este. Mas os exemplares authenticos que tenho d'esta especie estão apenas de 4 annos, tempo insufficiente para ajuizar da sua resistencia.

Por emquanto, mostram-se viçosos e crescem regularmente. Teme as estiagens, segundo os livros estrangeiros indicam, e, por conseguinte, convém pensar n'isto ao plantal-o e guardar-lhe alguma quebrada mais fresca. Da qualidade da madeira é que não ha duvida; é um Iron-bark (casca de ferro), e isso por si o garante.

Eucalyptus pilularis.—Não virá mal a ninguem, se fôr plantando alguns exemplares d'este Eucalypto onde houver bom terreno e clima dôce, porque é menos resistente do que o Eucalyptus globulus, cresce mais devagar e teme sobretudo a mingua de frescura, que o desterra dos valles e outeiros do interior. Tanto na opinião do Barão de Mueller, como na de Maiden, dá madeira de superior qualidade em todas as suas variedades. Macclatchie diz: «Este é considerado como produzindo uma das melhores madeiras entre todas as de qualquer outra especie de Eucalypto. De postes de vedações d'esta madeira se conta que duraram mais de 20 annos. Excellente como productor de mel, dizendo-se que o mel que d'elle provém é de uma qualidade especialmente boa.» E deu-me já bons exemplares.

Eucalyptus Planchoniana.—Vão vivendo, sadios, mas acanhados no crescer, os exemplares que tenho d'esta especie. E, por isso, e porque a vejo indicada para regiões sêccas, livres de geada, a ninguem darei de conselho que se aventure a plantal-a, tanto mais que a madeira é boa, mas não superior á de outras especies que pódem bem com os rigores do nosso clima.

Eucalyptus platypus.—Synonimo de Eucalyptus obcordata, e apontado como planta decorativa. É, a meu vêr, um engano, como o Eucalyptus erythronema. As flôres, tambem vermelhas, téem alguma graça; mas a planta é de tão misero aspecto, que a limitada belleza da flôr não compensa o desgosto da presença durante todo o anno de uma vida semi-tysica.

Eucalyptus pleurocarpa.—Um arbusto que é bom lembrar, como os outros Eucalyptos arbustivos, para que, por equivoco, não gastemos tempo e dinheiro a experimental-o.

Eucalyptus polyanthema.—Preciosa arvore que eu desejaria vêr disseminada pelas nossas mattas; tem todas as condições para isso. O Barão de Mueller encontrou-a na Australia nos «outeiros e cumiadas sêccas»; acha-a «inexcedivel» como combustivel, e mais forte na madeira do que o carvalho e o freixo; nas suas affinidades especificas o Eucalyptus polyanthema estaria muito proximo do Eucalyptus melliodora, acontecendo todavia que «ambos se encontram nos mesmos logares, promiscuamente, e cada um parece manter nas mesmas circumstancias de sólo e clima as suas caracteristicas distinctivas; mas, em geral, o Eucalyptus polyanthema prefere mais o cimo das elevações, emquanto o Eucalyptus melliodora desce antes para as terras mais ricas dos valles.» E, pelo seu lado, Macclatchie diz «que esta especie prospéra em grande diversidade de condições climatericas, crescendo na costa e proximo da costa, nos outeiros, na encosta dos montes e nos valles sêccos e quentes do interior.» «É uma das especies experimentadas na Estação Agricola das proximidades de Phoenix, que inteiramente passa incolume, quer com as geadas do inverno, quer com o calor do estio.» Além d'isso, «pela profusão de flôres, vindo n'um tempo em que as fontes de mel são restrictas, é uma arvore util para pasto das abelhas.»

Muitos exemplares d'esta especie tenho plantado, e em variadissimas situações, e todos, sem excepção, confirmam as virtudes que os silvicultores da Australia e da America lhe attribuem. Dos Box-tree (arvore do buxo), a cuja classe pertence, seria, juntamente com o Eucalyptus melliodora, aquelle Eucalypto, que eu preferiria para os terrenos sêccos. Mas, advirta-se, não é para os apressados ou impacientes; cresce devagar, o melhor exemplar que eu tenho, está agora com 17 annos de plantação e 50 centimetros de circumferencia. Nem tão pouco será para os descuidados; facilmente rasteja e entorta; é necessario visital-o, podal-o e guial-o com arte. Tudo merece; a robustez da madeira e a resistencia ás intemperies e a toda a violencia climaterica pagarão anchamente a paciencia e zelo que na cultura empregarmos.

Eucalyptus pulverulenta.—A custo o distingo do Eucalyptus cordata, sendo certo que os botanicos lhe acham differenças apreciaveis. Creio que economicamente não vale mais nem menos do que o Eucalyptus cordata, e o reduzido logar que occupa nos livros dos auctores estrangeiros fortalece-me n'este juizo.

Eucalyptus punctata.—Aqui ponho um ponto de interrogação e boas esperanças. De madeira magnifica, crescimento rapido e modesta exigencia quanto a fertilidade do terreno, o Eucalyptus punctata não dispensaria a frescura das regiões costeiras, e não se sujeitaria á seccura das regiões do interior. O certo é que os exemplares que plantei ha quatro annos, estão lindissimos, com lançamentos pujantes e ramificação abundante; e um outro exemplar mais antigo tem já um bello tronco. Serão, porém, necessarios mais alguns annos para uma conclusão prática fundada.

Entretanto, não será erro propagal-o nas localidades menos desfavorecidas. Outros indicados como mais melindrosos considero eu já absolutamente proprios para as nossas terras.

Eucalyptus Raveretiana.—Aconselhado para climas tropicaes humidos. E assim deverá ser, porque na minha collecção morreu das geadas, logo no primeiro anno.

Eucalyptus redunca.—Este foi tambem dos que viveu sómente emquanto a geada não lhe tocou.

Eucalyptus regnans.—Uma variedade do Eucalyptus amygdalina, de mais rapido crescimento, maior estatura e melhor madeira—o que tudo creio ser verdade, onde o terreno fôr bom e não faltar a frescura. Sem isto, cada estio será para elle uma doença grave, e para o proprietario o risco da perda de uma arvore muitas vezes já crescida. Foi o que por experiencia verifiquei, d'ahi resultando que o risquei do rol dos que reputo proprios para povoar as nossas encostas. Quando muito, servirá para as terras profundas dos valles, e para estas não faltam especies infinitamente mais meritorias pela qualidade da madeira.

Eucalyptus resinifera.—Este foi dos poucos que me deu muito mais do que promettia. Annunciado como proprio para as regiões tropicaes, planteio-o a medo, sempre á espera de um inverno que o matasse. Afinal, os invernos vão correndo e um exemplar plantado em 1903 tem agora 90 centimetros de circumferencia.

Todavia, não seja isto razão bastante para que deixe de observar a regra quem tiver de o plantar; parta do principio que não deverá expôl-o a frios muito severos, nem tão pouco a temperaturas muito elevadas, n'uma atmosphera sêcca. Guarde-lhe sitio ameno.

Merece-o. Porque a madeira é «esplendida e tão duradoura como qualquer dos Iron-bark», segundo um botanico que estudou a flora australiana e é citado para este effeito pelo Barão de Mueller—o que Maiden confirma, dizendo por sua vez:—«É esta uma das madeiras rijas de mais valor da Nova Galles do Sul. De um vermelho intenso, muito se assemelha no aspecto ao mogno verdadeiro. É grande madeira para moveis onde o peso não fôr obstaculo... Uma das mais duradouras madeiras que nós temos, altamente resistente á humidade e ao ataque da formiga branca.»

Junte-se a isto que o Eucalyptus resinifera é com o Eucalyptus goniocalyx um dos poucos que não torce nem fende expontaneamente ao seccar; relembre-se a rapidez do seu desenvolvimento; e teremos quanto baste para lhe reservar bom logar na silvicultura nacional e não perdermos ensejo de o aproveitar.

Eucalyptus Risdoni.—Segundo todas as probabilidades, será uma variedade ou fórma erradia do Eucalyptus amygdalina, mas ainda aqui, como com todas as demais derivações ou aberrações do Eucalyptus amygdalina, eu preferiria á extravagante a especie typo. Obtive bons exemplares do Eucalyptus Risdoni; tenho mesmo um, das plantações de 1902, com 1m,80 de circumferencia. É magnifico. Mas vinga com muito menos facilidade do que o Eucalyptus amygdalina nos primeiros tempos, é talvez mais exigente em humidade do que este ultimo, tem accentuada tendencia a ramificar em fórmas arbustivas e torna-se necessario guial-o, se pretendemos criar troncos direitos, e, finalmente, não sei de qualidade alguma singular que lhe distinga a madeira e por esse facto recommende em especial a sua cultura.

Eucalyptus robusta.—Segundo o Barão de Mueller, «como arvore para lenha e para madeira que não demande grande resistencia, o Eucalyptus robusta é evidentemente mais importante do que até aqui se suppunha, especialmente quando consideramos a faculdade de se adaptar aos brejos e ás localidades apauladas—as quaes convém sómente a uma muito limitada classe de plantas florestaes; mas este Eucalypto parece requerer para seu superior desenvolvimento o accesso do ar do mar.» No Diccionario das Plantas Uteis, diz mais este mesmo illustre mestre que o Eucalyptus robusta «resiste aos cyclones melhor do que as outras especies.» Na qualidade da madeira, que é avermelhada, ha a considerar que é quebradiça, difficil de rachar e, por isso, pouco querida dos carpinteiros; porém duradoura debaixo da terra, o que, por certo, lhe dará valor nos telegraphos, nos caminhos de ferro e entre lavradores que procurem estacaria.

Tambem encontro o Eucalyptus robusta aconselhado para ensombrar avenidas—no que porei os meus reparos. Nos primeiros annos é realmente bello, com a sua folhagem larga e ramagem espessa. Mas, quando Deus quer, foge para as alturas, despojando-se espontaneamente dos ramos inferiores e deixando a estrada assás desprotegida.

Rebenta muito bem, quando cortado, e dá feixes de lançamentos lindos e pujantes.

Plantei muitos exemplares d'esta especie e, pelo seu exame, tenho por certo que é o melhor para as proximidades do mar. Onde o ar fôr sêcco, não se canse ninguem a plantal-o.

Eucalyptus rostrata.—Foi com este que fabriquei os meus maiores desastres. Devo-lhe as manchas de maior miseria das minhas plantações, tanto mais sensiveis quanto maior foi a largueza com que o disseminei, incitado pelo elogio caloroso que de outras terras o acompanhava. Grande culpa, na verdade; nada d'isso me aconteceria, se houvesse lido com attenção o livro de Sahut, onde diz: «O Eucalyptus rostrata é muito resistente, supportando grandes calores e frios devéras rigorosos, segundo os logares em que se encontra. O crescimento é rapido; mas, em contrario do Eucalyptus resinifera, gosta de terras ferteis e da borda da agua, e resiste muito menos do que este á estiagem.» O sublinhado é meu—«terras ferteis.» Fóra d'isso, não vale um caracol; vegeta emquanto tem a terra solta da cova, e depois não passa d'ahi, torna-se absolutamente rachitico. Mesmo em terras ferteis, desenvolvendo-se bem, ficará por este lado abaixo de muitas outras especies, aliás magnificas.

Quanto a qualidade da madeira, quasi não ha virtude que se lhe recuse. Mas ainda n'este capitulo proponho certo desconto. Maiden, diz; «Quasi tão rija como o ferro, quando bem sêcca.» E o Barão de Mueller, citado por Macclatchie, é um pouco mais explicito; acha que as arvores, bem maduras, d'esta especie, cortadas na estação em que a circulação da seiva é menos activa, e cuidadosamente postas a secar, produziram uma das mais duradouras das madeiras de todo o mundo.» «Bem maduras» e «cuidadosamente postas a seccar», note-se; tambem aqui os sublinhados foram meus, porque tenho cortado bastantes Eucalyptus rostrata e, se não me engano, é uma das especies que mais tarde amadurece, e por isso uma das que mais fende e torce ao seccar, se a arvore não é velha.

Salvo o devido respeito a auctorisados mestres, direi que só por excepção e curiosidade guardaria logar para o Eucalyptus rostrata em mattas de terras nossas. Se em qualquer arvore de semelhante caracter me sentisse disposto a gastar tempo e dinheiro, então empregal-os-hia com o Eucalyptus tereticornis que vale o Eucalyptus rostrata como madeira e altamente se lhe avantaja em modestia de exigencias.

Eucalyptus rudis.—Sabe-se pouco das qualidades da sua madeira; será, porém, evidentemente e para todos os effeitos, superior ao pinheiro, cujo logar haja de tomar. Dá bellos troncos, aprumados, não muito altos, não indo ordinariamente a mais de 25 metros, e engrossando bem. Vigoroso e de crescimento rapido, capaz de descer a povoar terrenos mediocres. Mediocres, note-se; para os ruins não será de confiança. Na America mostrou-se «notavelmente resistente ao calor e ao frio» (Macclatchie); Naudin considera-o «naturalisado» na Europa. A fórma do fructo, proxima da do rostrata, promette que será dos que se prestam a cruzamentos, e parece-me mesmo que das sementes que colhi, tenho já exemplares hybridos.

O que tudo visto, e sendo certo que os numerosos Eucalyptos d'esta especie que possuo confirmam a informação dos livros estrangeiros a seu respeito, creio que é de propagar com franqueza e estudar com attenção e com probabilidades de proveito.

Eucalyptus saligna.—As noticias que encontro sobre este Eucalypto divergem.

Aqui, leio que a madeira é «esplendida» e que os carpinteiros a estimam muito; além me acautelam contra a sua «inferior» qualidade. Talvez questão de terreno, o que nos Eucalyptos muitas vezes determina a boa e má qualidade da madeira. Quanto a exigencias climatericas, não é maior a conformidade: na America, não sobreviveu a estiagens intensas, e na Australia habita apenas as regiões mais quentes do littoral; mas o Diccionario das Plantas Uteis diz que «é mais rustico do que o Eucalyptus globulus». Sobre terreno é que não ha duvida; o apparecimento d'esta especie é uma «indicação de terreno bom», diz a Eucalyptographia.

Os exemplares que eu tenho, já não são novos e estão magnificos, em boa exposição e boa terra; mas, não obstante esta demonstração favoravel, correrá talvez a desenganos quem se aventurar á plantação fóra de iguaes condições, e as reservas sobre a qualidade da madeira não auctorisam aventuras.

Eucalyptus salubris.—Boa fama; promettedor para as regiões áridas, supportando temperaturas elevadas e geadas consideraveis, e afinal dando boa madeira. E d'estas virtudes nenhuma subsistiu nos poucos exemplares que d'elle obtive. Desde o viveiro foram muito pobresinhos, e, depois, nunca tiveram nem um momento de crescenças francas nem estatura apreciavel.

Eucalyptus santalifolia.—Um arbusto. Perdi quantos tinha no primeiro inverno; morreram de frio.

Eucalyptus siderophloia.—Um Iron-bark (casca de ferro), de excellente madeira, como todos os da sua classe. Parente proximo do Eucalyptus crebra, será talvez menos resistente do que este, o que aliás não foi estorvo a que me desse um exemplar que, da mesma idade do Eucalyptus crebra, não lhe está muito inferior nem em desenvolvimento nem em saude. Porventura não será erro, na cultura meramente florestal, plantar conjunctamente, em mistura, o Eucalyptus crebra, o Eucalyptus paniculata e o Eucalyptus siderophloia.

Eucalyptus Smithiana.—D'esta especie pouco pude averiguar. Os exemplares que possuo, de sementeiras de 1913, ainda não passaram invernos bastantes para dizer claramente ao que vem. Alguma cousa dizem já; é certo. O desenvolvimento é magnifico em qualquer exposição, preferindo a frescura, manifestamente; mas tambem sem temer a terra ingrata e ardente onde vejo um exemplar sadio e com um desenvolvimento mediano. Aspecto lindo, folhagem abundante, delicada e pendente. Madeira... parece que é parente do Eucalyptus viminalis, ao qual muito se assemelha, realmente, á primeira vista; e, n'esse caso, teremos a contar com uma madeira clara, inferior em dureza á das especies congeneres mais notaveis, mas de muitas e utilissimas applicações apezar d'isso.

Eucalyptus stellulata.—Arvore pequena, que não será talvez para desprezar em encostas voltadas ao norte, pois supporta grandes frios e dá boa lenha. Sem grandes esperanças, claro está; em Portugal serão mais de apreciar Eucalyptos que resistam ao calor do que os que supportam grandes frios. Abrigos não faltam em nossos montes; a humidade é que nem sempre será bastante, e sem alguns dias ardentes ninguem passa no estio, quer more á beira do mar, quer paire nas alturas da Estrella.

Eucalyptus Stuartiana.—São de 1902 os que eu tenho. Muito me animaram nos primeiros dez annos; depois afrouxaram no crescer, e entretanto moderavam-me o enthusiasmo. Resiste bem ao frio mas teme a falta de humidade; por este lado muito me lembra o Eucalyptus obliqua, o Eucalyptus capitellata e os demais Stringybark, seccando quando elles seccam e nunca se lhes assemelhando nas proporções quando elles medram. Juntando a isso que o Eucalyptus Stuartiana não dá nada especial quanto a madeira, embora muito aproveitavel seja e faça boa lenha, inclino-me a crêr que não ha vantagem em insistir na sua disseminação.

Eucalyptus tereticornis.—Convém não o perder de vista. Agradece a frescura das proximidades do littoral, emquanto ao mesmo tempo não succumbe com a estiagem e a seccura dos valles do interior; e, quanto a madeira, é o rival do Eucalyptus rostrata na opinião do maior numero, e até lhe será superior na opinião de alguns outros. «O snr. Maiden, diz Macclatchie, conta que um poste d'esta madeira se conservou inteiramente são durante 55 annos; e, segundo o mesmo auctor, o snr. Howitt, eminente auctoridade sobre as arvores da colonia de Victoria, põe o Eucalyptus tereticornis na cabeça do rol das madeiras d'aquella colonia proprias para commercio.»

Vão bem os dois exemplares mais antigos que d'esta especie possuo; o maior, de 1902, tem 85 centimetros de circumferencia. Note-se: cresceram devagar nos primeiros annos e, no geral, não terão tendencia a dar troncos muito aprumados,—o que se corrige, já vigiando-os e guiando-os, já plantando basto e assim mantendo direitas as hastes que sobem á procura da luz.

Eucalyptus uncinnata.—Um pobre arbusto, que nem sequer pelo vigor se faz valer.

Eucalyptus urnigera.—Não fica pequeno; tenho, entre outros, um exemplar com 15 annos e 1m,10 de circumferencia. Talvez o Eucalypto que mais baixas temperaturas supporta; vem das regiões mais frias da Tasmania. Affigura-se-me, porém, assás amigo de humidade, e não tenho podido achar informações algumas sobre a qualidade da madeira. Se é certo o seu proximo parentesco com o Eucalyptus cordata, conforme o Barão de Mueller tem por probabilisimo, o Eucalyptus urnigera não nos promette madeira melhor do que a de muitos outros de cultura igualmente facil, senão mesmo mais segura e rendosa.

Eucalyptus viminalis.—Um colosso; dos meus, o mais alentado, com 20 annos, mede de circumferencia 2m,20. Cultura facil; até os encontrei nascidos e crescidos expontaneamente em terra de uma vinha abandonada, argilosa e de todo exposta ao sol. Na Italia supportou temperatura de 9° e 10° centigrados abaixo de zero. Além d'isto, uma bella arvore de sombra, melhor do que qualquer outra especie.

A madeira é que não tem muito credito; julga-se inferior á da maior parte das outras especies, pouco duradoura em contacto com a terra e fraca para lenha.

Talvez que o juizo que mais exactamente resume as qualidades e deficiencias d'esta arvore seja o de Naudin, dizendo que o Eucalyptus viminalis é uma bella arvore de ornamento ou de avenida, chegando a mais de 30 metros de altura, sem crescer tão depressa como o Eucalyptus globulus. A sua madeira não tem nem a mesma densidade nem a mesma duração da madeira do Eucalyptus globulus, o que não a impede de servir para numerosas applicações em obras do interior da casa.

Eucalyptus virgata.—Ou Eucalyptus Sieberiana, na classificação do Barão de Mueller, que d'elle diz muito bem. É o Iron-bark da Tasmania, frequente nas cumiadas graniticas da costa, nos valles arenosos e pedregosos do interior, assim como nos outeiros de lousinho, e indo até 1:200 metros de altitude. Boa madeira para serrar, dura depois de sêcca, leve e elastica, ardendo bem mesmo em verde, fraca para enterrar, muito superior á do Eucalyptus hoemastoma, do qual o Eucalyptus Sieberiana é parente muito proximo. De casca aspera e persistente, ramifica mais copiosamente do que qualquer outra especie de Eucalyptos da Tasmania.

Téem apenas tres annos os exemplares que possuo d'esta especie, provenientes de sementes enviadas para o Jardim Botanico da Universidade de Coimbra pelo professor Maiden, e, por isso, com todas as garantias de authenticidade. Mas estão promettedores, com mais de 2 metros de altura, viçosos, amplamente ramificados e já com fructos, segundo a precocidade sabida e caracteristica da especie. Tudo me anima aqui a novas sementeiras e a insistir na cultura.

Eucalyptus Wabtoniana.—De incerta qualidade de madeira e parente do Eucalyptus maculata, por extrema susceptibilidade ao frio excluido das nossas culturas, o Eucalyptus Wabtoniana não resistiu á geada, nem mesmo com certo abrigo. Entre nós será quasi uma planta de estufa.