II

CARACTER E ARTE

CARACTER E ARTE

I

Um dos signaes mais evidentes da robustez da compleição moral de José Estevão e da firmeza do seu caracter, foi a energia com que supportou os errores romanticos do seu tempo, e de todo se libertou da fluctuação e fraquezas proprias d'aquella epoca, perigosas para qualquer, e sobretudo para as organisações nimiamente sensiveis e promptas em responder ao incitamento estranho, como era a sua. Mas, por um fundo d'austeridade invencivel, sentiu-as para lhes resistir e não para se lhes render. N'uma crise em que o principio da liberdade, traduzido na pratica ordinaria e nos costumes em relaxação e despejo, emancipando de toda a tutela rigorosa da antiga constituição social, religiosa, politica, moral e litteraria, facilmente induzia a uma indisciplina absoluta, obliterando por completo o sentimento do dever e legitimando paixões, crimes e aberrações, em que a phantasia e não raro a vaidade precipitava a gente moça, mal precavida de experiencia e reflexão, é maravilha o poder de sacrificio e o esforço constante d'um homem para fazer prevalecer na sua terra o imperio da justiça.

A tentação era temerosa. Muitos, aliás de valor, lhe cederam, caindo em culpas e desgraças que uma atmosphera menos propicia ao desvairamento lhes teria poupado. A crença romantica encontrava boas razões para toda a sorte de desordem. Não triumphava a liberdade? Para que constrangimentos? Era necessario perseguir até á anniquilação todos os despotismos, os canones da moral como os da egreja, o absolutismo estreito dos usos e costumes como a auctoridade sem limites dos reis. Porque não poderia cada um abandonar-se sem peias nem reservas ás tendencias do seu temperamento, no conceito corrente talvez todas salutares e, pelo menos, sem duvida todas admissiveis? Não seria até um erro contrarial-as? Não seria uma violação das leis naturaes e um aggravo á felicidade humana? Não era do concurso de todas as liberdades que havia de resultar a harmonia dos homens e o progresso das sociedades? No espirito de muitos dos seus hallucinados sectarios, a liberdade não significava a simples abolição de privilegios odiosos e instituições oppressivas, caducas e corrompidas, para as substituir por outras que conviessem a aspirações sociaes mais nobres e conformes com a dignidade humana; era o desregramento, a ausencia de preceito que interior e exteriormente regulasse e sanccionasse as acções, um absolutismo de nova especie, o absolutismo da incontinencia. Liberdade de pensamento, liberdade de cultos, liberdade dos vinculos matrimoniaes e da familia, liberdade d'acção e até de inacção, de indifferença e cynismo, exaltações mysticas, egoismos abjectos e cobiças sordidas, para tudo isso encontraram explicação bastante as philosophias liberaes d'astuciosa commodidade. Aviltamento e nobreza eram pólos da esphera moral que iam a apagar-se; já ninguem sabia ao certo marcal-os. Por uma estranha e nunca vista concessão, as paixões sairam como doidas das prisões em que as continham encarceradas os espectros de deveres inexoraveis, e vinham expandir-se á luz do sol, ora em bem, ora em mal, e sempre impetuosamente.

A litteratura glorificava-as, com uma fecundidade e um esplendor d'arte deslumbrantes. A litteratura de que Byron foi o summo pontifice, e portentoso, deixou-nos um testemunho inequivoco e, sem embargo, brilhante, d'esse estado d'espirito que, se para muitos foi exaltação merecida, se para a humanidade foi uma crise de renovação e renascimento necessaria e fertil em beneficios, foi tambem para outros fonte amarissima de desenganos, de tristeza e desgraça, que tantas vezes se refugiou na morte, e por todas as nações da Europa determinou, invariavelmente, conflictos graves e lances perigosos, rematados com fortuna varia para os destinos dos povos.

Não ha melhor espelho dos factos e das tendencias d'uma epoca do que a litteratura; nenhum os reflecte tão claramente e, talvez por isso, porque os expõe na mais transparente lucidez, é ao mesmo tempo effeito das correntes estabelecidas e causa da sua propagação, moderando ou accelerando, pela revelação plena do que encerram d'atraente ou de repulsivo, as tendencias de que andar impregnada. Nem a estatistica, com a seccura, desligação, insufficiencia e abstracção dos seus dados, nem a propria historia com as longas narrativas, em que o espirito e inclinações do historiador facil e ingenuamente favorecem ou prejudicam a reproducção exacta dos acontecimentos, supprem a litteratura na arte de guardar integra e perfeita a memoria do estado mental e tendencias sociaes de determinado momento, collocando-nos em contacto directo com os caracteres e os feitos, renovando-os aos nossos olhos em movimento e acção. Ora a litteratura romantica que José Estevão respirou nos melhores annos da vida, n'aquelles em que mais o podia seduzir e maior influencia podia exercer na disciplina ou indisciplina do seu coração, a litteratura romantica, na sua constituição moral, distinguiu-se pela adoração de duas divindades, que serviu com ardor e brilho incomparavel:--a felicidade do homem e a natureza. Dos tormentos e miserias geradas pelo absolutismo oppressivo de todas as actividades e impulsos que se afastassem dos seus mandados, veio-se, pela reacção natural dos organismos opprimidos e atrophiados, ao extremo opposto, passando-se do idealismo da uniformidade ao idealismo da liberdade sem limites, do abuso da regra á desinvoltura da dissolução; e, para que os homens se curassem de males e de futuro vivessem felizes, concluiu-se pela exigencia d'uma emancipação não menos absoluta do que a sujeição precedente. A natureza! A natureza!... Logar ao seu triumpho e imperio! Não constrangessem nenhuma das suas energias, e todas as mágoas e dôres se transformariam em alegrias e riso e força! E viu-se então uma expansão do genio poetico maravilhosa, unica na historia, pela fecundidade, pela grandeza, pelo arrojo da ambição e pela extensão dos horisontes, inflamando e arrebatando os miseros mortaes na belleza de miragens celestes. O homem, feito anjo e liberto de mesquinhas ligações d'um mundo decrepito e abominavel, amava livremente, pelas florestas virgens, pelos ermos e pelas ruinas abandonadas, as mulheres divinisadas pela paixão e nos seus fachos gloriosamente consumidas; e os cavalleiros e os santos e os martyres surgiam, por milagre e em exercitos, das profundezas da terra, armados de coragem infatigavel e sedentos de sacrificio. Escutasse cada qual a voz intima do seu sangue e do seu peito, deixasse-a cantar como as aves cantam e obedecesse-lhe, não temendo convenções nefastas e condemnadas, repudiando todo o mandado e auctoridade que não fosse a sua propria inspiração; e entraria nas espheras da mais alta beatitude. Não era assim em toda a natureza? Não viviam d'esse modo os animaes bravios e as plantas?!... E havia porventura felicidade que não possuissem, harmonia que não realisassem?!...

Uma antecipada promessa de perdão incitava ao desmando. A percepção da necessidade e eternidade d'um principio religioso e moral, dominando as paixões e subordinando a natureza á consciencia, o que, na verdade, se manifestou desde o começo d'esse extraordinario movimento, era ainda frouxa e sobretudo vaga, incerta, ora tentando galvanisar concepções mortas e sentimentos corrompidos, ora modelando novos deuses sem consistencia, hoje nascidos e amanhã desfeitos em pó. E nas ondas incessantes d'esse tumulto perdiam-se sem norte e sem bussola almas nobremente e generosamente dotadas, resvalando em abysmos infernaes, com uma inconsciencia digna de melhor destino, facil preza da embriaguez e do vicio, endoidecidas na propria sinceridade e arrastando e prostituindo por logares infames a pureza d'altissimas aspirações. Deveriam ter sido legião as victimas obscuras, perdidas pelos caminhos errados e fataes que a liberdade romantica lhes abria e apontava, ella que, de facto, e involuntariamente o mais das vezes, nenhum prohibia como criminoso ou arriscado e indigno. E o perigo de tentação era tanto mais grave quanto era certo que, na atmosphera revolta do romantismo, o mundo mal acautelado contra a distincção de limites em que é licito moverem-se os mortaes communs e os sobre-humanos, prostrado d'assombro, semi-louco e em delirio d'admiração e imitação, via erguerem-se a alturas ignoradas, n'uma aureola fascinante, os genios que, quem sabe? valeram talvez as centenas de victimas ignoradas que custaram, para dar á humanidade exemplo da sublimidade em que a nossa alma é capaz de exaltar-se.

Foi do meio d'esta confusão terrivel que Portugal viu levantar-se, proeminente e firme, d'uma robustez moral inabalavel, um homem que sabia o que queria, que o queria porque o devia, e para o cumprir empenhava o coração, o pensamento e o braço, a vida inteira, consagrada ao dever e n'elle consumida, por sua honra e nosso orgulho.

Como revelação do caracter de José Estevão, essa attitude, cuja soberania a nação reconheceu pela auctoridade que conferiu ás suas palavras e pelo respeito que lhe votou, é decisiva e, em certo modo, quasi milagrosa. A sensibilidade de José Estevão e a riqueza das suas faculdades, até uma sensualidade manifesta[[12]], deveriam determinar um extremo pendor para a indisciplina romantica e fomentar por isso um enfraquecimento de vontade funesto á energia d'acção e tenacidade de proposito e emprehendimento. A pujança do temperamento explicaria e desculparia hesitações e tibiezas, o abandono a impressões passageiras, traições frequentes á fé jurada em espirito ou em palavras, desvios e tergiversações. A sua vida, porém, pela constancia inalteravel no combate e nas aspirações, demonstrou-nos a fixidez d'uma attitude radicalmente opposta a fluctuações e desmandos ou desfallecimentos.

N'este ponto, José Estevão não foi do seu tempo. Foi mais longe do que o seu tempo; inscreveu-se no livro d'ouro dos prophetas. Attingiu toda a capacidade do idealismo militante e praticamente efficaz que entre as ruinas do passado, o naufragio das crenças e a inundação d'um scepticismo, refinadamente epicurista e moralmente desdenhoso, apenas germinava e só de rarissimos eleitos era apreciado, sentido e querido. A grande maioria de homens cultos e dos talentos consagrados estava longe de suspeitar as affirmações vigorosas e triumphos resplendentes com que no final do seculo XIX a renascença idealista seria coroada pelo estudo paciente da historia, pela penetração da estructura psychologica das sociedades humanas e das suas condições fundamentaes, e pela consequente creação de artistas, philosophos, poetas, criticos e apostolos, deslumbrando e convencendo, graças á desusada formosura das suas obras, e convertendo á adoração de novos altares, cheios de luz e mansidão, pelo ardor communicativo do sentimento em que se enlevavam. N'essa resurreição de Lazaro, doente de descrença e perversão, das feridas de luctas e calamidades que irremediavelmente tinham d'acompanhar a revolução, José Estevão foi, na verdade, um precursor abençoado, alimentando-se na fonte em que as almas enfermas se curam e as sãas se fortalecem para superiores destinos.

[[12]] «Batido o exercito constitucional e dissolvida a Junta do Porto, o batalhão academico, como todas as demais forças fieis, seguiu o caminho da fronteira, vindo a entrar na Galiza no dia 6 de julho (1828). José Estevão fez toda a marcha quasi sem dinheiro, sem roupa e sem calçado. Em Lobios o seu amigo e patricio Mendes Leite deu-lhe uma das duas unicas camisas que levava. José Estevão levára comsigo um pequeno cordão de oiro, talvez uma recordação de familia; mas em Lobios desfez-se d'elle, não para occorrer a alguma das suas muitas necessidades de occasião, mas sim para satisfazer a sua gulodice (pois era e sempre foi muito guloso), para comprar gemas. Para se avaliar de quanto lhe custariam as taes gemas, basta dizer-se que, no acampamento de Lobios, se vendia então por 600 réis uma brôa de pão de milho que poderia valer 100 réis.» Snr. Marques Gomes, José Estevão, Apontamentos para a sua biographia. Porto; Typographia Occidental, 1889. Pag. 14.