II

«Eu detesto os heroes todos», disse um dia José Estevão[[13]]. «Os heroes são excepções monstruosas da nossa natureza; podemos vangloriar-nos de vermos os seres da nossa especie exceder as condições ordinarias da nossa existencia, mas essa vaidosa satisfação custa sempre cara. Os heroes são uns filhos prodigos da natureza e da sociedade, que dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo: que sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo, de mais nobre e de mais sympathico, e a Providencia, que castiga sempre, ainda que por diversos modos, os que se esquecem da humildade do berço commum, ou lhes esconde a lousa da sepultura para que os deslembre, ou lh'a deixa apontada á indignação publica para que os aborreçam.»

O homem que fallava dos heroes n'estes termos, era a mais genuina encarnação do espirito heroico. Simplesmente se illudia e errava quando, ao analysar o valor d'esses seres da nossa especie, «excepções da natureza», de que podemos orgulhar-nos, sem duvida, por «excederem as condições ordinarias da nossa existencia», affirmava, peremptoriamente e sem reservas, que «essa vaidosa satisfação custa sempre cara, e «os heroes, filhos prodigos da natureza e da sociedade, dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo, e sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo e de mais nobre.» Porque a nós, portuguezes, nem nos custou caro o heroismo de José Estevão,--muito lhe deviamos e pagamos-lhe pouco e mal; nem jámais o vimos dispor, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra da nação, antes sempre o encontramos honrando-a pelo sacrificio do proprio sangue e pelo risco da vida em bem da sua nobreza o gloria. E muito menos soubemos que a providencia quizesse castigal-o, ella que instantemente nos aponta a sua sepultura, não para a aborrecermos mas para a adorarmos, ella que da sua memoria fez um culto salutar e purificador. O ingenuo, desconhecendo a que regiões o genio o erguia e em que mundos de claridade o trazia combatendo, condemnou o heroismo ao deparar-lhe com a perversão e tomando-a pelo seu caracter unico e consequencia. Num desejo vehemente da punição dos seus crimes, esquecia as virtudes que o constituem na pureza da sua essencia e resgatam em homens d'eleição, por feitos immortaes, a fraqueza d'uma outra e vulgar humanidade transitoria, debil e corruptivel. E ignorava, porque a candidez d'alma o offuscava, que elle, heroe tambem e dos mais altos, passaria na terra agitada de paixões, sem que o heroismo o pervertesse, e sem que os seus triumphos, que foram magnificos, o cegassem, nem o seu poder, que foi largo e duradouro, constante, conseguisse degenerar em vaidade, capricho, mentira, insensatez e crueldade a energia e o fulgor que só pela justiça se inflamavam e a nenhuma sollicitação de baixeza jámais responderam.

Para o homem consagrado por instigação da consciencia a uma missão sobre-humana, por ella sujeito á obediencia e imperio de forças sobrenaturaes divinas, cujos designios tem de cumprir e que no seu intimo habitam e o vigiam e regulam em todos os apetites e tendencias, ora condemnando, ora absolvendo, ora reprimindo, ora incitando, não ha senão tres soluções da crise moral, em que necessariamente tem de debater-se ao iniciar da vida consciente e ao escolher caminho entre as aspirações e as tentações do mundo. Perante os conflictos eternos do bem e do mal, se os sentiu e quiz ter preferencias, e, se os sentiu, ai d'elle! tem d'escolher e preferir, que uma voz interior e sem repouso lh'o exige; perante essa interrogação temerosa, sómente tres estradas vê abertas:

--a abdicação, estoica ou santa, o orgulho invencivel na insensibilidade premeditada e voluntaria, ou a humildade perfeita no desprendimento absoluto, resultando, segundo o modo a que se inclina, ou na simples contemplação, passiva e paciente, por effeito da identificação com a alegria do universo, ou na acceitação da dôr, como inexoravel, e procurando então a salvação em si, descrendo da possibilidade de modificar a fatalidade e se lhe oppôr;

--o suicidio, terminando a melancolia desesperada, pela certeza de que só na dissolução do proprio sêr encontrará a paz; e

--a acção, o voto heroico, derivado da confiança e fé na vontade e no esforço dos homens, a conversão immediata do sonho em motivos de proceder e tentativa de realisação, para resgatar d'angustias e produzir na terra a tranquillidade, a abundancia, a alegria, a felicidade emfim.

Ora, entre estes tres modos de sêr, José Estevão, por temperamento, por educação e por circumstancias caracteristicas do ambiente que o involvia, foi dominado pelo arrebatamento heroico.

Nada temeu como a inacção. Foi para elle a suprema desgraça. Em 1852, fallando de Saldanha e relembrando que havia sido perseguido durante o seu ministerio, disse n'uma expontanea confissão, e valiosa para a comprehensão do seu caracter: «Nenhum soffrimento da minha carreira politica me custou tanto como essa perseguição. Um homisio d'um anno, não estando bastante compromettido para me resignar aos martyrios d'uma emigração, não podendo exercitar livremente no paiz as faculdades mais nobres do espirito, nem cultivar as relações de parentesco e amizade, instigado pela minha innocencia legal a comparecer deante dos tribunaes, constrangido pelo pundonor a ser carcereiro de mim mesmo, vendo dos incertos paradeiros das minhas curtas e enfadonhas peregrinações cair num mar de sangue a estrella brilhante da revolução europeia, recebendo e abraçando no meu captiveiro os meus cumplices já absolvidos e restituidos á liberdade, de que por tal causa eu era o unico privado, tudo isto compozéra para mim n'aquelles tempos uma d'estas situações equivocas, fastidiosas e mortificantes, que entristece mais do que as desgraças profundas e irremediaveis»[[14]].

O heroe, exaltado na impaciencia d'acção, a tudo poderá sujeitar-se, toda a dôr e sacrificio poderá acceitar d'animo sereno, menos aquelle estado de sequestro do mundo e de intervenção nos seus feitos, que significa a annulação completa de todas as faculdades, a condemnação ao espectaculo da propria esterilidade, dia a dia sentida e verificada. E José Estevão, victima docil do seu temperamento e partilhando da sorte d'aquelles a quem por sua gloria coube igual dote no livro do destino, não pôde resignar-se com o terror d'esse apartamento violento, para elle peior do que a morte, porque era a immobilidade junta á constancia da aspiração, o tumulo sem a paz da inconsciencia. Chorou-o como o mais angustioso tormento. Desde que, moço quasi imberbe, se armou cavalleiro na batalha da Cruz dos Marouços, até que a morte o arrebatou, anciado e ainda quente das pugnas parlamentares, luctou com a rigidez d'uma tenacidade épica pela justiça e pela verdade, confiado na victoria do seu reino, que os corações como o seu haviam de estabelecer na terra, por um trabalho gigantesco, antecipadamente certos de que o triumpho ou a derrota serão sempre objecto e resultado da capacidade humana e suas façanhas.

O temperamento heroico não se inocula por artes pedagogicas, por contingencias do acaso ou por virtude de simples condições externas; ou uma scentelha inominada e intima o accendeu, ou influencia alguma, alheia a essa vibração, poderá creal-o. Se José Estevão o possuiu e d'elle foi luminoso reflexo, é que o trouxe quando viu a luz, ou que alguma fada lhe bafejou o berço. Esse espirito era seu, propriamente seu; e foi elle que derramou da sua robusta figura d'athleta a irradiação de claridade que a engrandeceu.

Todavia, sem embargo, as condições transitorias, se não pódem gerar o heroismo, podem favorecel-o ou atrophial-o, deixando-o consumir esteril na inercia e na obscuridade; podem prohibir-lhe toda a expansão, contrariar-lhe os impetos ou negar-lhe ensejo de se alargarem. E José Estevão teve a fortuna de vir ao mundo n'uma epoca em que a educação classica e a exaltação do civismo, provocado pelo ardor das paixões politicas, se mostraram singularmente propicias a revelar-lhe e fortalecer-lhe o caracter.

Primeiro, a educação. Nunca houve escola que valesse o humanismo latino para despertar o ardor heroico. Nem o estudo dos gregos, tão repassado de philosophia, serenidade e belleza, o poderia supprir para este fim. E, como todos os portuguezes cultos do seu tempo, José Estevão teve essa educação unicamente embebida de Virgilio, de Tito Livio, de Cicero e de Horacio, de feitos de guerra, glorias militares e grandeza civica.

Sahia-se da escola a sonhar com o senado e as legiões romanas, suspirando pela hora de prostrarmos vencidos os inimigos da patria e receber entre os applausos das multidões freneticas os louros da victoria, com aquella intensidade de desejo e commoção que os mestres nos communicavam facilmente, n'um insensivel e involuntario contagio, porque em alto grau a sentiam tambem. Durante mezes e annos não se fallava d'outra cousa; nenhuma se encontrára superior, nenhuma nos merecera maior admiração, nenhuma constituia aspiração mais nobre. Mandar nos homens e governal-os para os conduzir á gloria era a suprema elevação e a mais incontestada dignidade. Ignorava-se, e nem se podia conceber sem desdouro e pejo, a frieza e scepticismo da educação requintadamente scientifica. Essa estava reservada para as ultimas decadas do seculo XIX, embora tivesse origem em reflexões e estudos de longa data iniciados e adeantados, mas que até então eram qualquer cousa estranha e sobreposta á vida civica, sem influencia na sua base moral. A invenção de que o egoismo é uma lei tão real e merecedora de respeito como o desprendimento, e a cobardia tão natural como a coragem; a justificação de mil baixezas, outrora julgadas abominaveis e criminosas e hoje fundadas n'um arsenal de razões physiologicas e psychologicas, retintas todas de rigor scientifico e com pretensões a verdades essenciaes; este apuro de impudor e de ascenção da animalidade estupida e cruel á cathegoria d'um modo de ser normal, a negação do sentimento do dever pela acceitação plena da fatalidade, seja ella qual fôr, indistincta; o inteiro quebrantamento da vontade que d'ahi resulta; a reputação de enfermidade atribuida ao genio, ao heroismo, á santidade, ao simples escrupulo de bem fazer--isso é moderno. Na verdade, só agora se propagou com louvor e a contento dos sacerdotes da sciencia e dos profanos. A educação d'outros tempos, da renascença até ao meiado do seculo XIX, era nas suas consequencias moraes a admiração da magestade romana, offerecida como o mais alto exemplo aos moços que entravam na vida e para ella se preparavam; a concepção pagã da robustez, da força, da ordem e da justiça, a devoção civica posta acima do preceito religioso, seriam regras supremas na conducta dos homens. O proprio christianismo que se lhe interpozéra e a abalára, formava capitulo áparte, já atenuado nos effeitos mysticos e caridosos pelas formas conciliadoras da egreja catholica, com tanto de Jesus como de Cesar. A santidade seria apenas para Deus, objecto d'ermitas, de conventos e d'almas piedosas; para o mundo, o heroismo era cousa mais de venerar e seguir. Scipião valeria, pelo menos, tanto como S. Paulo; o borburinho de togas e de lanças não era menos grato aos ouvidos do que o murmurio das orações e canticos dos templos, nem se cobiçava menos o capacete do guerreiro do que o resplendor seraphico; a expansão do idealismo judaico, com os seus martyres, nem de longe se comparava com o brilho das guerras punicas e dos seus soldados, dos que salvavam a cidade.

Se do berço trouxera o temperamento heroico, José Estevão deveria sentil-o vivamente acalentado na escola. Os impulsos da sua natureza propria e o caracter da atmosphera que encontrava nos primeiros annos, confundiam-se e completavam-se na uniformidade de tendencias.

Ao mesmo tempo, como que rematando a inclinação ingenita, favorecida e afagada no periodo de formação e desenvolvimento pelas lições dos experimentados, excitava-lhe o ardor e chamava-o com desusada instancia o clamor de luctas politicas. Desde creança o ouvia a aproximar-se, cada vez mais perto da sua terra. O ensejo era unico, magnifico. Se algum dia houve paixões politicas na historia de Portugal, foi então. A sêde de liberdade que inflamou o povo romano, renascia. Convinha que se renovassem os heroes e os tribunos, que a apregoavam e saciavam. Reabria-se o forum. Viessem os consules administrar justiça;

Para tão alta empreza se aprestou candidamente o iniciado. Soldado ou magistrado, eil-o descendo ao campo, prompto ao sacrificio, para morrer ou coroar-se de louros pela fortuna dos homens e só por ella combater. E partiu ao encontro de toda a sorte de penas, das feridas de batalhas sangrentas, das amarguras do exilio, da incerteza do seu destino e do destino d'aquelles que mais amava, da perseguição, da indigencia e da fome, e, peior ainda, das mordeduras do odio e da inveja d'aquelles cujo talento e designios escurecia ou contrariava. E tudo soffreu nobremente, invencivel na inteireza e força do seu coração, que jámais succumbiu ou esmoreceu. Um dia, n'uma hora solemne, vimol-o erguer-se no pedestal d'uma sublimada grandeza moral, cimentado por inumeraveis provações, para proferir estas palavras memoraveis, em que traduziu a isenção perfeita que de todo o ultrage o defendia, e a victoria ultima da consciencia e imperio do dever sobre os aggravos do egoismo e do orgulho:

«Disseram-se injurias: jogaram-se apedreijos. E eu não ouvi as injurias; e as pedras nem os vestidos me tocaram. O tempo é do paiz: está adjudicado ao cumprimento das nossas obrigações. Mas é nosso o sangue que nos corre nas veias; e a sua primeira hypotheca é feita á nossa honra.»

Como ouviria o rumor da infamia quem seguia sua estrada levado por uma estrella de justiça?!... A «paixão do bem publico», que havia de reinar dentro do parlamento[[15]] enchia-lhe o peito, e d'elle expulsava todo o sentimento mesquinho. Absorvia-o. Todas as energias do seu braço e da sua alma lhe estavam consagradas, porque «os caracteres superiores e os superiores talentos»--e a esse divino bando pertencia, «são aquelles que teem tanta perspicacia para conhecer a verdade como força para propugnar por ella»[[16]]. E essa força jámais o abandonou.

Nem a gloria militar,--e é certo que muito lhe quiz, o desviaria de servir os homens. A espada havia de ser purificada pelo amor, para que o seu brilho não se escurecesse em infamia. «Tinha asco á guilhotina e não tinha consideração pela espada, quando ella serve a violentar os povos, porque a guilhotina é sempre a ignominia das revoluções, e a espada muitas vezes o opprobrio dos governos»[[17]].

«Ah! Como são valiosos, como são uma preciosidade moral, uma fonte de bens ineffaveis, um elemento de disciplina social, um paladio popular, os caracteres lisos, iguaes, nobres, experimentados em grandes provações, e superiores aos lances da fortuna! Que ha no mundo que os possa supprir? Que ha na sociedade que possa desempenhar a missão d'elles?

«Pois José Estevão foi um caracter d'esta tempera, um homem d'estes quilates, um cidadão d'esta valia. Toda a sua vida foi uma consequencia rigorosa da sua composição moral.

«Frequentemente attribuimos á fortuna os feitos dos varões illustres. Esta explicação dos elogios alheios é suggerida pela inveja. Por tal expediente, poupamos o nosso amor proprio, e dessimulamos o pezar da nossa obscuridade. O malogro das nossas tentativas, o desconcerto dos nossos projectos, o desfavor dos nossos concidadãos, quasi sempre provém de nós mesmos, e o infortunio contra que nos tornamos, nasce das nossas proprias culpas.

«José Estevão é uma prova irrefragavel d'esta grande verdade. Representa, por todos os factos da sua vida, o grande principio da responsabilidade moral do homem.

«Foi o homem de grande merecimento, d'altas façanhas, de inapreciaveis serviços, e gosou mais do que ninguem da estima dos seus concidadãos. Quaes são as causas d'este seu bellissimo sestro? Essas causas estão todas n'elle; com elle nasceram, e com elle acabaram. Abraçou pela critica intima da sua intelligencia as ideias que se lhe offereceram como mais justas á sociedade do seu tempo, e logo se dedicou todo ao serviço d'ellas, sem mais pensar em vida, affeições e interesses, quando estas ideias requeriam o seu auxilio e sacrificios. Era d'indole dulcissima, de coração affectuosissimo, bom sem limites, compassivo sem restricções, e este mesmo homem era bravo sem alarde, bravo sem intermitencias, bravo no meio de todos os perigos, bravo no campo, bravo em conselho, bravo no soffrimento,--quer dizer, sobranceiro nos grandes males da vida aos tremendos lances d'ella. Que significa isto? Que José Estevão era um homem de uma condição sublime, que a sua alma era forte, que o seu espirito era elevado, e a fortuna não dá, não póde dar, estes predicados moraes, estas supremas excellencias. Se as désse, podia mais do que Deus, mais do que as raças, mais do que o sangue, e n'esse caso antes o horror d'uma absoluta incredulidade do que o culto do acaso.

«Mas José Estevão, pela rectidão do seu caracter, pela segurança do seu juizo, resolveu ainda problemas mais difficeis da politica e de moral. Foi um partidario dedicado e leal. Nunca faltou aos seus primeiros comprometimentos politicos. Como homem publico, era independente: como chegado ao rei, fiel. Trabalhou por vezes contra os seus adversarios politicos. Foi vencido. Os aggravos d'essas luctas esqueceu-os; conversava sobre estes acontecimentos com extrema magnanimidade. Tendo de hombrear pelos seus encargos de homem publico com pessoas de variadissimas extracções e maneiras, tendo de descer da vida cerimoniatica e estudada das altas regiões da sociedade para a convivencia do mundo, livre e por vezes descomedido, conservava-se sem affectação, lhano e accessivel para todos. Batalhou com a espada, porque lhe batia o coração. Não emprestou o seu sangue nem a sua bravura. Era homem convicto e a sua convicção era o seu norte. Entendia a liberdade e queria-a. Confessava-se seu adepto e sujeitava-se aos seus preconceitos. Zelava a sua crença mais do que as honras postiças do mundo.

«Pelejou batalhas fratricidas. Doia-lhe o coração de levantar o braço contra os seus irmãos, mas não o pungiu o remorso de haver feito mal á patria e á humanidade. Pelejavam de manhã e abraçavam-se á tarde. Pelejavam como soldados e abraçavam-se como homens.

«Não lhe opprimia a alma recordar uma vindicta politica, um só assassinato juridico. Respondia por quanto fizéra. E apezar das contendas desnecessarias, das desavenças pessoaes, de perniciosas fatuidades, deixou a terra que o creou, regida por melhores leis que ella tinha quando lhe deu o sêr, e gosando de maiores beneficios do que disfructara quando lhe foi dado conhecel-a»[[18]].

São de José Estevão essas palavras. Escreveu-as apreciando o duque da Terceira, quando elle morreu, em 1860. Sómente substitui o nome do duque pelo do tribuno. Mas que admiravel exactidão na imagem!... Por fortuna nossa e dos vindouros, o caracter de José Estevão ficou ahi estampado a primor, e mais do que estampado, confessado com uma sinceridade plena. Se tão lucidamente o comprehendeu e definiu n'um estranho, foi porque no intimo o sentiu fundamente; e glorificando os irmãos no ardor civico, embora pequenos e pobres de recursos a seu lado, com a ingenuidade que é tambem condição do heroismo, porque a reflexão o enfraquece e lhe é fatal, mais uma vez colhia e entretecia os louros que lhe coroariam a fronte. Querendo apenas ser generoso, exaltado na admiração do valor alheio, fez justiça á sua propria vida.

[[13]] Discurso sobre o apresamento da Charles et George.

[[14]] Sr. Marques Gomes. L. c., pag. 115.

[[15]] Discursos, pag. 215.

[[16]] Discursos, pag. 421.

[[17]] Discursos, pag. 331.

[[18]] Vid. Sr. Marques Gomes. L. cit., pag. 146 e seg.