III

Tenhamos em lembrança a affirmação do tribuno: «Os caracteres superiores e os superiores talentos são aquelles que teem tanta perspicacia para conhecer a verdade como força para propugnar por ella».

O espirito heroico, o arrebatamento na acção e a capacidade, inumeraveis vezes demonstrada, de se lhe consagrar em corpo e alma, não podia perturbar em José Estevão a lucidez do politico; porque, «caracter superior e superior talento», lhe era tão prompta a penetração da verdade como impetuosa a energia de combater por ella. A concepção politica da organisação do estado e das obrigações dos governos, para o inteiro dominio da justiça e para o derramamento da felicidade entre os povos, formava-se e modificava-se no seu espirito parallelamente com a expansão do ardor civico; e, se este tinha de manter-se inalteravel, integro, porque de sua natureza era irreductivel, a ideia politica havia de transformar-se com a experiencia das cousas, porque é por essencia mudavel e progressiva. Um mesmo sentimento guiava, porém, e conduzia as visões do apostolo e os planos e arte do homem d'estado áquella altura em que uns e outros deviam collocar-se para serem todos igualmente grandes. O heroismo não póde significar a insensatez e excluir o respeito de condições elementares de prudencia para se tornar efficaz no bom exito dos seus propositos. Comprehendendo as difficuldades e restricções impostas á realisação dos seus sonhos pelas paixões que redemoinhavam por todas as estradas da revolução, cauteloso por incitamento previdente da propria intensidade do desejo, para evitar os escolhos da jornada, mantendo o que estava ganho e preparando novas conquistas, avançando sem comprometter a posse do terreno adquirido, José Estevão seguiu em toda a conjunctura sua estrella heroica, transigindo sem abdicar, concedendo e conciliando o impulso da aspiração com as pressões do momento, sem jámais renegar, antes de continuo proclamando a sua fé. O opportunismo, quando as circumstancias lh'o impozeram, foi sómente uma pausa na febre das suas esperanças, retraidas para se renovarem com maior vigor em ensejo propicio á victoria; nunca significou fraqueza ou desanimo, e muito menos desprendimento ou apostasia por exigencias d'um egoismo commodo. Onde o idealismo se mostrou chimera, absoluta ou transitoria, cedeu, salvando invariavelmente o que do naufragio podia salvar, com uma dedicação e coragem indefectiveis. A natural e rara ponderação do seu temperamento guardava-lhe o heroismo da degeneração em temerarias arremetidas estereis, e, em meio da exaltação, livrou-o dos perigos que M.me de Stael apontava como fataes ao renascimento das sociedades europeias turvadas e em desordem: e assim nem «proclamou os principios d'um modo excessivamente incondicional», nem, muito menos, «acceitou os factos n'um espirito d'excessiva resignação com elles».

Só a absoluta ignorancia dos acontecimentos, estreiteza manifesta d'entendimento ou uma perversão morbida do caracter propenso a enxovalhar toda a grandeza d'alma e a aviltal-a para a tornar sua igual, só essa miseria humana poderá achar contradicção entre o revolucionario destemido, o setembrista valoroso e o soldado da opposição ao cabralismo, que foi José Estevão, e o deputado, homem positivo e pratico, chamado a intervir na solução de problemas de mera mas urgente importancia administrativa, que apoiou, em 1852, o movimento chamado regeneração,--prompto, de resto, a combatel-o quando e onde se mostrou funesto, quando, pelo seu lado moral, se revelou o inicio entre nós da prevista «acceitação dos factos n'um espirito de excessiva resignação com elles», dando direito de cidade a fraquezas, medradas em volume e audacia no correr dos tempos até constituirem o deploravel imperio da corrupção, de que as gerações presentes agora colhem a ruina economica e a deshonra perante o mundo civilisado.

Quem examinar com attenção, desprendida de preconceitos e suspeitas, as affirmações de José Estevão, no primeiro periodo da sua carreira politica, e as reclamações do parlamentar, no momento em que foi necessario olhar a serio para a restauração e progresso das forças economicas do paiz, não só immediatamente comprehenderá a diversidade de objecto que em duas epocas differentes sollicitou a discussão e a applicação das faculdades do tribuno, mas verá tambem, com uma evidencia perfeita, a unidade de caracter, superior e integro, que em toda a situação o manteve no mesmo logar.

O que queria o setembrista?

Queria «uma monarchia feita por nós, levantada nas nossas lanças, monarchia que tivesse suas raizes no coração do paiz e nos degraus de cujo throno se sentassem os officiaes da hierarchia social, e não as raças que a vaidade distingue: uma monarchia bella, generosa e forte como a juventude, sensata, economica e prudente, como a edade provecta[[19]]»: juiz só, a julgar só; um rei só, com ministros responsaveis, a executar só; um corpo legislativo só, a legislar só»[[20]]; «a extincção de todas as aristocracias e a propagação da unidade social»[[21]]; «uma constituição popular; um rei sem arbitrio; uma representação extensa; uma familia social; nacionalidade segura; administração sem opprimir; auctoridade com confiança; centralisação com fóros; justiça com independencia; fazenda regulada; despezas com economia; tratados com industria; reciprocidade sem perdição; ordem sem enthusiasmo; e liberdade sem sophisma»[[22]].

Tudo isto elle queria, e por tudo isto soffreu nas fadigas o nos riscos dos campos de batalha e nas desoladas amarguras do exilio, perseguido e odiado por aquelles cujo despotismo nefasto combatia. E tudo isto elle julgou realisavel, sem muito contar com a multidão de terriveis fermentos moralmente morbidos, que sempre se insinuam em todo o movimento politico e contrariam, desfazem e annulam a tarefa d'aquelles que se propozeram moldar as sociedades em formas de belleza estreme.

O que encontrou foi a desillusão dos seus sonhos, ainda mesmo quando pareciam ter vencido e estarem prestes a dar ao paiz a fortuna por que elle anceiava. Imaginára uma perfeição moral e um equilibrio mental á sua imagem e semilhança, a mesma fé e isenção e coragem, ignorando o ser d'excepção que no seu peito habitava; e ficava prostrado de dôr, ao descobrir que esse paraiso terrestre se desvanecia, quando julgavamos abertas as suas portas, e que não havia modo de banir da nossa existencia em geral, e em particular da nossa politica, a quéda, o peccado, a baixeza explorando a generosidado e escarnecendo-a, a debilidade das resignações forçadas e os assaltos do desalento, um abysmo entre a aspiração e a realidade.

Nem o seu proprio partido politico escapava ao contagio. Quando veio a julgal-o, verificou-lhe a impotencia e confessou que «sempre o achára leal, franco, valente e guerreiro, mas mais inquieto do que revolucionario, pouco substancioso, muito musical, com muitos hymnos e com muito pouca disposição de luctar arca a arca, peito a peito, com os abusos que era do seu dever combater e destruir. Tinha vivido bastante no meio d'elle, e desgraçadamente via que o partido progressista, quando ia ao poder, não ia para pôr em execução as suas ideias, mas para mostrar que não tinha ideias»[[23]].

A desillusão, no pungir do seu golpe, levou-o talvez bem proximo da injustiça. Porventura atribuiu a inanidade de companheiros inconsistentes e frouxos o que era apenas a imposição cruel e indeclinavel dos factos. E estranhou e lamentou, como infelicidade e máu sestro do seu gremio, o que era desgraça commum aos agrupamentos politicos e ás cousas humanas.

Mas de todo o desastre cobrava animo. Não se quedava paralysado pelo extasi de triumphos ou desalentado pelo espectaculo d'infortunios. Porque ao fim de vinte annos de luctas politicas via reduzidas a proporções mesquinhas as conquistas do seu sonho, não cruzava os braços, abandonando o campo a inimigos, mais persistentes e activos na ruindade do que os bons nas obras de salvação. O abandono poderia ser solução para ambições ephemeras dos temperamentos vulgares; não o tolera, porém, o espirito heroico. Emquanto houver a disputar um beneficio, uma esmola, um lenitivo a tormentos, haverá eternamente motivo de combater. Hoje bate-se por uma cidade, amanhã por um castello, depois por uma choupana; hoje desembainha a espada por Deus, amanhã por sua dama, depois pelo rei, e depois ainda pelo infimo servo: jámais se convence de que o seu braço possa jazer inerte, deante do si tem continuamente visões que lhe exigem o esforço.

Em 1852 os tempos iam bem mudados do que haviam sido em 1838. As liberdades publicas e as garantias constitucionaes, embora claudicantes e mutiladas, tinham finda a jornada, acabando por alcançar nas leis do paiz os mediocres logares d'uma acanhada victoria. Mais não tinham podido conseguir, e o resto, aquillo a que debalde haviam aspirado, já não encontrava paladinos que partissem a disputal-o; de tanta vez tentado e tanta vez vencido, entrava para os mais timidos e menos credulos no rol das utopias. Comprehendia-o o tribuno, e com a sua sorte se resignava; porque elle tambem declarava bem alto, na presença dos representantes da nação, que «não estava disposto em nome de palavras, em nome de tradições, a applicar o seu fraco talento e a sua saúde a revoluções sem substancia, a ministerios sem principios e a coalisões sem necessidade. Não estava para isso. Isso não era vida para um partido forte e robusto. Preferia antes reduzir-se á sua pobre e insignificante individualidade, do que andar naquellas estafadeiras politicas em que se estragam as faculdades e não se faz nada para a causa publica»[[24]].

Do que agora se tratava, a exemplo do que se fazia nas outras nações da Europa mais adeantadas, era de procurar a paz e o pão para o malfadado povo portuguez, exausto de luctas vãs em que dissipava as forças e a fazenda; do que se tratava era de pôr em ordem e prospera a casa arruinada pelos devaneios de correrias politicas infecundas, restituindo-lhe muitos bens perdidos e acrescentando-lhes o valor por um cultivo mais esmerado. Pelo correr natural dos acontecimentos, a riqueza constituiu-se para nós, como para muitos outros povos, o primeiro elemento de fortuna e grandeza, e José Estevão, não desconhecendo a situação nem podendo ficar indifferente á atracção d'esse explendido crescer dos recursos economicos d'aquelle momento, persuadido de que era mister para a sua patria render-se ás condições e exigencias da nova phase do liberalismo, inclinou-se a coadjuvar aquelles nos quaes reconheceu arte para edificar o quer que fosse d'uma utilidade manifesta, duravel e fecunda, entre o marulhar tremendo da corrupção dos homens e da contingencia das cousas. O soldado tornava-se obreiro, deixaria a espada pelo alvião; e trocava-se o manto de magistrado pela blusa do trabalhador. O guerreiro surgiu-nos transformado. Mas não mudou nem de logar nem de coração, que sob todo o vestido era o mesmo, inviolavel; não se turvou a limpidez da energia moral com que manejou ambos esses instrumentos da felicidade humana, em ambas as situações e attitudes foi identico a si mesmo. «Estava a desapparecer totalmente», disse, «a geração que inaugurára a liberdade na nossa terra. Para os feitos e para os homens d'esse tempo começára já a posteridade. Á pressa, no ultimo quartel da vida, procurava essa geração resgatar o tempo perdido em banalidades revolucionarias, deixando algumas obras que lhe abrandassem a severidade dos vindouros»[[25]]. E elle vinha pagar o seu tributo á redempção com a mesma generosidade com que o pagára ás illusões. Tambem caíra em falta; justo era portanto que partilhasse tambem da penitencia.

No mais vivo ardor das conquistas liberaes, em 1839, prosentira já que uma segunda tarefa nos esperava; tinha bem presente a magnitude do problema economico e afigurava-se-lhe que «viver d'industria era o grande pensamento d'aquelle seculo»[[26]]. E dezoito annos mais tarde, em 1857, pretendia que «os homens de todos os paizes que por diversos modos estão empenhados na civilisação e no progresso, os industriaes mais activos e mais emprehendedores que querem vêr postas por obra as suas concepções... o que teem em conta são governos solicitos, que aproveitem os paizes que administram, que os fazem cultivar e produzir quanto cabe em suas naturaes faculdades»[[27]].

Por isso applaudiu, quando despontaram, os actos governativos que inauguravam a nova era. Louvou a creação do ministerio das obras publicas e enthusiasmou-se pelos caminhos de ferro. «A creação do novo ministerio das obras publicas e industrias applica ao fomento do paiz os cuidados e o prestimo da auctoridade publica. Isto importa a medida do governo, pois quanto existia na administração publica para promover as industrias ou abrir communicações era por tal modo desmaselado, rotineiro e burocratico, que quasi se podia dizer que aquelles interesses sociaes estavam eliminados da gestão governativa, e entregues á sua propria força, escassa as mais das vezes para lhes dar uma existencia mesquinha, e quando muito, bastante para as arrastar a esforços inuteis e desconcertos deploraveis. O caminho de ferro de Lisboa ao Porto é a maior medida que se podia tomar para imprimir nova vida a esta nação... é o primeiro manifesto de adhesão á moderna economia das nações»[[28]].

Da bondade e legitimidade da obra a que José Estevão agora dedicava o talento, e na qual era um trabalhador de extraordinaria importancia, não tinha duvida. O passado e o presente não se contradiziam, completavam-se. Um incidente, um novo aspecto, e passageiro, da administração e da politica nacional,--não era outra cousa a regeneração; de modo algum prejudicaria a inteireza do sentimento de quem sem reservas e constantemente consagrára á sua patria todo o coração. A simplicidade da situação moral era perfeita. E, na carta que dirigiu aos eleitores e foi escripta em Aveiro em fins d'outubro de 1852, reconheceu-a com uma lucidez e escrupulo que desvaneceriam toda a hesitação d'espiritos menos promptos em penetrar os motivos da ultima attitude do setembrista exaltado. «Senhores eleitores», dizia, «não busqueis por agora em mim o homem politico. Esse não sei se morreu em alguma das batalhas ultimamente pelejadas pela liberdade ou se come no exilio o pão estrangeiro. Quem se vos apresenta, é simplesmente um homem ingenuo e um cidadão, que julga ser util ao paiz, encaminhando os negocios do estado pela vereda que vos indicou, e que se paga de todos os trabalhos e desgostos da vida publica com a honra de merecer os vossos votos. E, para nada vos encobrir, esse mesmo homem, apezar das suas convicções profundamente democraticas, chega com as suas sympathias a um dos lados do throno. A ninguem peço venia para esta respeitosa affectuosidade, porque para todo o homem livre a religião das ideias e a dos sentimentos são dois cultos independentes e tolerantes»[[29]].

Quando morreu a rainha D. Maria II, José Estevão, n'um dos seus muitos impetos d'eloquencia, que eram ao mesmo tempo a apreciação das obras alheias e um exame de consciencia coram populo, a justificação do seu passado e a razão do presente, disse-nos como no seu espirito se lhe representava o desenrolar da historia politica nacional nos annos em que n'ella influira tão poderosamente; d'onde se partira, em que altura nos encontravamos e para onde convinha que nos dirigissemos. A passagem é de superior importancia para elucidação da sua vida:

«Honrada familia de liberaes, d'esses liberaes iniciadores, homens crestados da polvora, macerados de fome, amarallecidos pelas masmorras, torturados pelo exilio, e que espalhados na terra que é duas vezes nossa, uma pelo direito do berço, outra pelo direito do resgate, conservastes sempre immaculado o dogma, a doutrina, por que tanto sangue e lagrimas se derramaram! Estaes, nobre familia, bem rareada, bem reduzida, bem proxima a sair inteiramente do livro dos vivos, e entregar á nossa gente o fructo das nossas fadigas, das nossas dores e das nossas gentilezas... Mas todas estas mortes são glorias, são triumphos,--glorias, triumphos para o que ha no mundo verdadeiramente grande, alto, sublime,--a sorte dos povos e os progressos da humanidade. Foi-se o legislador e o capitão da liberdade, e a liberdade não pereceu com elle. Vae-se a rainha a cujo direito dynastico a liberdade se amparára, e a liberdade fica vivendo na sua propria vida. As instituições teem entre nós resistido por longo tempo á acção desregrada dos partidos, á ambição turbulenta dos estadistas, ao desleixo governativo, ás corrupções desaforadas, ao desequilibrio dos poderes, ás exaggerações populares, ás restricções governamentaes. As liberdades publicas, por vezes oppressas e cerceadas, quebraram afinal todas as prisões, restabeleceram todo o seu poderio, e nem mesmo nos dias de maior provação esconderam o seu direito, nem appareceu alguem que se atrevesse a negal-o despejadamente... Mas a morte da rainha é uma grande admoestação para os partidos. Façamos todos exame de consciencia, já que Deus nos avisou n'um dos poderes da terra. Os partidos tambem teem poder, tambem teem vida, e são chamados a contas. É no interior dos seus archivos, e não sobre a sepultura dos reis, que se faz o inventario das prosperidades dos povos. Acabou-se já um reinado depois do systema constitucional, e se foi pequeno para a vida da rainha defuncta, não o foi para o tempo que costumam passar no throno as testas coroadas. Que fizemos durante esta epoca? São desenove annos preciosissimos pelos acontecimentos que n'elles correram, pelas descobertas que durante elles se fizeram, pelos beneficios sociaes que se inventaram, pelas uteis emprezas que se levaram ao cabo. Aproveitámos nós todas estas vantagens, imitámos todos estes exemplos? Comprehendemos o espirito do nosso seculo? Démos ao paiz todos os melhoramentos que lhe podiamos dar? Levantámos cada classe á altura a que ella podia subir? Honrámos a geração a que pertencemos, a nação que nos deu o nome? Responda cada um a si, responda á sua consciencia que é o mesmo que responder a Deus. E seja o que temos feito aviso para o que temos de fazer... Estamos em regencia... O regente sabe melhor do que ninguem o que nos falta... Um regente plantou n'esta terra as liberdades publicas, plante outro entre nós a civilisação sem a qual ellas não podem arreigar-se nem medrar. A obra é de todos e para todos. Empenhemo-nos portanto n'ella com animo leal e resoluto»[[30]].

A estrada talvez se lhe afigurasse plana e facil, mas, ai d'aquelle em quem encarnou o idealismo, heroico ou sonhador! Cada esperança, cada amargura; em cada passo no caminho da aspiração o assaltam e torturam desillusões. A candura de José Estevão representára-lhe na regeneração uma empreza, honesta e chã, de fomento da riqueza, e pelos meios que a epoca aconselhava e eram manifestamente convenientes. E, sem duvida, deshonesta não era na intenção e lisura com que concedia á miseria dos homens, á satisfação de muitas das suas fraquezas, aquelle quinhão indispensavel para que se mantivessem quietas e não fossem impedimento á realisação de mais altos destinos. Um dia viria, porém, em que, pelo crescer d'influencias perniciosas, os termos d'esta perigosa arte de governar haviam de inverter-se; e, depois de se haverem empregado as fraquezas dos homens em beneficio da nação, depois de se usar a corrupção para alcançar o bem publico, aconteceria que a nação seria explorada em beneficio das fraquezas e o bem publico sacrificado á corrupção.

Portanto, errára? perguntaria ao tribuno a consciencia atribulada. E uma voz intima o tranquillisava:

«Folheio os fastos parlamentares, ás vezes sem intuito, ás vezes com o intuito certo e determinado de procurar esclarecer-me n'uma questiuncula, de saber um ou outro facto; nunca me dou a estas buscas que não traga de lá a mais intima, a maior satisfação que póde trazer um homem probo e um homem de consciencia; acho a minha coherencia, toco-a, encontro-a, sae-me a cada pagina de cada livro; e eu, tendo uma fraca memoria de todos os meus actos, respondo pela logica d'elles, porque confio no meu caracter e na minha consciencia»[[31]].

«Antes da dissolução da camara era equivocamente regenerador. Mas, depois da dissolução, depois que achei no governo caracter politico, entidade politica, tenção politica, plano politico, coragem e decisão de iniciativa, decidi-me e fui regenerador até que a regeneração acabou, porque hoje essa denominação de regeneração e não de regeneradores, tudo isso até certo ponto póde servir para fins mas não diz nada»[[32]].

Aproximava-se aquella terrivel «conformidade excessiva com os acontecimentos» que M.me de Stael promettera e fôra como uma pesada maldição. Imaginára José Estevão uma transformação politica sem perda do caracter, o cuidado e zelo dos interesses economicos sem preterição ou quebra da elevação moral, a riqueza aureolada de nobreza e isenta de toda a mancha de degradação em sordidez; e o que a situação lhe offerecia era a dissolução do caracter em proveito de fatalissimas baixezas, que iam a tornar-se invasoras e absorventes.

Não era isso que elle sonhára e esperára, porque muito nobremente considerava que «os partidos teem tanta difficuldade em viver como em envelhecer, mas o envelhecer é uma cousa que custa muito para se fazer com dignidade. Um partido tem de se sujeitar tambem a esta condição, mas envelheça com amor ás suas ideias, com amor ás suas tradições e aos seus principios»[[33]]. Comprehenderia a necessidade da transformação que o correr dos annos importava, foi a isso de certo que elle chamou o envelhecer e declinar; repugnava-lhe porém a apostasia, e contra ella protestava.

Naturalmente, porque em todos os agrupamentos politicos tinha sentido, juntando-se e atraiçoando-se, a perfidia e a sinceridade, a infidelidade á causa publica por cobiças deprimentes e a devoção generosa, isenta e nobre aos interesses da humanidade e do povo, desenganou-se por fim da virtude dos partidos e confiando ainda no civismo e na rectidão onde quer que habitassem, afastado da vileza dos bandos mas crendo, incorregivel, na pureza de consciencias d'eleição, invocava a união e esforço dos homens de boa vontade para salvação da patria. E na Carta aos eleitores, de 15 d'abril de 1861[[34]], deixou-nos esboçado este seu ultimo sonho.

«Para o futuro», dizia, «pertencerei de certo ao partido, que começa a formar-se, que já está crescido, que vive entre nós sem termos dado por tal, que nos inspira sem nós o sentirmos, e que mesmo do berço dirige as coisas publicas e domina até os homens da mais forte vontade. Este partido será um producto de todos os partidos que ora existem; ainda com um nome politico mas sem substancia doutrinal, producto alcançado, não pelo concerto de individualidades, de coalisões ephemeras, de parcerias ambiciosas, mas pela trituração da opinião publica, pela acção da consciencia universal, pela solibilidade das pequenas paixões e das importancias artificiaes no grande e irresistivel sentimento nacional, que transforma tudo quanto lhe convém assemelhar, e destróe todas as heterogeneidades que lhe resistem, ou que lhe não servem. Este partido não se parecerá em caracter com nenhum dos partidos existentes, nem se filiará nas glorias de nenhum d'elles, nem será um engenho politico incapaz d'acção propria e embargante da acção dos outros, em seu gremio ocioso e solipso, que affaste e maltrate como apostatas todos os que se não curvam ás suas idolatrias. Este partido será a ligação de todas as capacidades prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a civilisação do paiz em todas as suas formas. Se este partido fosse obra dos homens ou a sua creação podésse ser contrariada por elles, talvez se não fizesse; mas esta ordem de cousas surge, rebenta da nossa situação.»

De desengano em desengano, chegára á condemnação do partidarismo e á sua expropriação por utilidade publica. Outra cousa não era esse derradeiro sonho d'um partido totalmente expurgado das doenças que os caracterisam, a todos, e apenas sublimado nas virtudes que por vezes os nobilitam. A grandeza da aspiração obcecava-o; e afferrava-se a procurar no mundo o que sómente dentro do seu peito existia.

Desoito mezes depois de conceber essa ultima chimera, surdo ao rumor crescente dos interesses mesquinhos e vis em que a visão liberal se dissolvia, tinha morrido.

Se vivesse, assistiria, não «á ligação de todas as capacidades prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a civilisação do paiz em todas as suas formas», mas á desagregação da grande maioria das capacidades, determinada pela satisfação da miseria politica em todos os seus modos. Como o grande capitão da India, «mal com o rei por amor dos homens, e mal com os homens por amor do rei», José Estevão, incapaz de abdicar dos principios e aspirações que o exaltavam no anceio d'uma era politica de bemaventurança, e simultaneamente comprehendendo a necessidade, por condição humana e imposição da realidade, de tolerar e conceder direito d'existencia de portas a dentro do forum a paixões que lhe repugnavam e o incendiavam em revoltas sagradas, choraria amargamente os novos desenganos que a politica lhe reservava; e, não podendo conciliar o que é de sua natureza irreconciliavel, mal com as illusões, rainhas do seu coração, por causa do mundo que ellas haviam de regenerar e não regeneravam, e mal com o mundo, por causa das illusões cujo imperio elle havia de respeitar e incessantemente desacatava, proseguiria na fé dos apostolos e na tristeza dos vencidos.

Naufragio algum o curaria d'illusões. Haviam de renascer, e era justo que renascessem. Embora não lhes assistisse aos ultimos triumphos, assegurava-lh'os a crença e a justiça. Das que o possuiram, nascidas n'um rubor d'aurora e desfeitas muitas n'uma amortecida pallidez de crepusculo, ficaria na terra um suavissimo rasto de luz. Foram ellas, essas illusões da epopeia liberal, que, embora se dissipassem quasi estereis para as garantias da liberdade individual e para o reconhecimento das liberdades publicas, conduziram ao cumprimento de tão altos deveres de humanidade, como a abolição da pena de morte, e ao fortalecimento de tão solidas bases democraticas, como a abolição dos morgados e o regimen da pequena propriedade, efficazmente protegido pelo systema de successão e partilha adoptado pelo codigo civil. Não foi baldado o heroismo dos que por ellas combateram.

[[19]] Discursos, pag. 90.

[[20]] Discursos, pag. 27.

[[21]] Discursos, pag. 86.

[[22]] Vid. Sr. Marques Gomes. L. c., pag. 70 e seg.

[[23]] Discursos, pag. 278.

[[24]] Discursos, pag. 309.

[[25]] Sr. Marques Gomes. L. c., pag. 149.

[[26]] Discursos, pag. 43.

[[27]] Discursos, pag. 319.

[[28]] Artigo publicado na Revolução de Setembro de 2 de setembro de 1852. Vid. Sr. Marques Gomes. L. c., pag. 123.

[[29]] Vid. Sr. Marques Gomes. L. c., pag. 125.

[[30]] Artigo publicado no Campeão do Vouga em 17 de novembro de 1853.

[[31]] Discursos, pag. 189.

[[32]] Discursos, pag. 274.

[[33]] Discursos, pag. 275.

[[34]] Vid. Jacintho Augusto de Freitas Oliveira, José Estevão. Lisboa, 1863. Pag. 349.

[[35]] Discursos, pag. 88.