IV
Em 1840, o oraculo mysterioso da ordem, invocado por José Estevão e interrogado sobre o numero de partidos que havia na camara dos deputados, respondeu: «No paiz ha dois partidos e duas facções, e n'esta camara um partido e uns poucos d'illudidos[[35]]».
Quem tão solemnemente lhe ouvia os segredos, estaria entre o numero dos illudidos, por decreto dos avisados e prudentes que combatia, senão até pelo reconhecimento intimo, esclarecido em repetidos desenganos. E, todavia, esse filho da illusão que como ella deveria ser innocente e ephemero, o cavalleiro phantasma que com suas correrias impetuosas surgia em meio de todas as pelejas e deveria confundir-se e afugentar-se facilmente na supposta inconsistencia do seu ser, voltava sempre, atraiçoando-a e negando-a de continuo, terrivel e audaz, renascido das tenues sombras em que o julgavamos dissipado, para semeiar o terror entre os fortes e os grandes, verdadeiros potentados da terra. Tremiam dos seus vaticinios e anathemas os que mais seguros se reputavam; e os mais frios e incredulos erguiam-se da prostração e desanimo, despertando pela harmonia d'aquella voz divina. O illudido, que pela fatalidade da sua natureza viéra ao mundo condemnado á derrota, era a cada passo o vencedor, exaltado pelo clamor das multidões, derrubando na passagem muita grandeza falsa, desfazendo idolos e reduzindo a pó mentirosas virtudes que pretendiam cobrir-se com os trajos da dignidade.
Singular poder! Sendo tamanho, profundamente temido dos que flagellava e ardentemente adorado dos que protegia, é na sua constituição d'uma tão homogenea espontaneidade, d'uma ingenuidade tão constante e perfeita, que quasi escapa á analyse e se torna impossivel decompol-o e observal-o nos seus elementos.
Não póde sem impropriedade ou violencia applicar-se a palavra arte á eloquencia de José Estevão. Arte oratoria, esta disposição reflectida e determinada dos pensamentos e a escolha meticulosa de termos que os exprimam, tendo em attenção o effeito que hão-de produzir sobre o ouvinte e amoldando-se para esse fim a caracteres e tendencias psychologicas, previamente estudados e astuciosamente explorados, o calculo da impressão,--essa arte não a teve José Estevão. De todo a desconheceu.
A sua palavra corre como correm os rios, rebentando onde um impulso natural os fez rebentar, sem nada cuidarem dos obstaculos ou inclinações propicias que os esperam, escavando aqui e amontoando acolá, ora derrubando e destruindo, ora fertilisando e fazendo crescer, resultando de tudo afinal belleza e explendor, dos destroços e ruinas como das creações magnificas. Logica, gradação d'argumentos por sua progressiva intensidade, crescendos de força arranjados com sabedoria, o caminhar a uma méta que nunca se perde de vista e para a qual nós dirigimos os passos, regulando-os e guardando-lhes toda a viveza e celeridade para o derradeiro lanço decisivo, a famosa arte de persuadir, levada ao fastigio em remotas eras por talentos assignalados com justiça nos annaes da humanidade,--isso é cousa que em vão se procurará nos discursos de José Estevão. Muitos d'elles e dos mais celebres podiam baralhar-se, trocando o fim pelo principio e o meio pelos extremos, e ficariam igualmente bellos, sem perderem um atomo da energia d'acção sobre o nosso espirito. Examinando-os, teremos talvez de concluir que esse homem que tantas vezes persuadia e sempre subjugava, não fallou para persuadir nem para subjugar, mas apenas para dizer a verdade e por amor d'ella, para a dizer tal qual no seu entendimento e sobretudo no seu coração se revelava, por uma necessidade indomavel e intima, e não para no impulso prender ou esmagar os estranhos. Por vezes, poderemos convencer-nos com boas razões de que quem tão duramente castigou e tão nobremente enalteceu, nunca pensava em castigar ou enaltecer o quer que fosse, e apenas buscava dar satisfação a surdas e indistinctas exigencias da consciencia, que não lhe permittiam ficar quieto e calado. Se esse modo de ser redundou em uma arte sublime, não foi por seu querer, não foi porque o procurasse; e tudo quanto a critica poderá descobrir na observação e meditação das suas obras, será, não a sua arte, que a não teve, mas os caracteres e fundamentos da sua eloquencia, o que é differente.
Gabavam-lhe a imaginação. Era famosa. De facto, abundou no seu temperamento e sempre lhe assistia, nas cousas graves da vida e nas mais vulgares, no convivio quotidiano com os amigos e nos grandes lances da fortuna nacional.
Fallando de D. Fernando I, no parlamento, ia dizendo:--«Este rei fraco e versatil tinha uma filha formosa...». Corrige-lhe o erro Almeida Garrett.--«Não era formosa», diz-lhe n'um aparte. «Não seria», replica de prompto José Estevão. «Julguei que fosse contra as prerogativas da corôa chamar feias ás princezas[[36]]».
O segundo discurso do Porto Pireu é uma torrente de imaginação, rebentando em borbotões, incessante, colorindo e animando toda a oração, e dando-lhe um relevo primoroso. A historia da ordem e a enumeração dos que José Estevão ia vendo no Pireu, incidentemente, em diversos momentos do discurso, marcam até hoje o apogeu do explendor do parlamento portuguez, e não é facil conceber como nem quando será excedido, porque soffrem sem deslustre a aproximação das mais bellas paginas d'esse genero legadas por qualquer epoca ou civilisação.
«Passo á historia da ordem», disse o tribuno. «N'ella tudo é grandeza, doçura, prazer e maravilha. Assim a empreza fosse facil! Que lingua póde revelar os seus mysteriosos trabalhos, descrever com delicadeza a efficacia portentosa dos seus meios, e a pompa dos seus resultados? Que engenho póde comprehender todos os phenomenos da ordem, e abranger a extensão dos seus dominios? Quem póde, arrombando os umbraes da eternidade, ver a ordem, luctando com o cáos, obrigar a natureza ás leis da harmonia?
«A ordem, primeiro, encerra no centro d'esse cáos as materias vulcanicas, essas massas anarchicas da natureza, depois empola os montes, escava os valles, encana os rios, recolhe os mares, azula o céu, alumia a terra, suspende os passaros nas azas, equilibra os peixes no nado, levanta nos pés os outros animaes, tira do pó o rei gozador d'estas maravilhas, da costella d'esse rei a rainha sua companheira, e inspira a esse par ditoso o seu primeiro beijo, beijo creador e fecundo, de que a nossa vida é um presente. Ingratos! Devemos a vida á ordem, e negamos-lhe os respeitos que ella merece!
«Por outro lado, quem forjou a espada organisadora de Nemrod? A ordem. Quem salvou das aguas do Tibre os infantes fundadores de Roma, e com elles os fados do Lacio? A ordem. Quem ensinou os caminhos, quem conduziu atravez de todas as difficuldades os barbaros do norte? A ordem. Quem fez dum almocreve arabe o chefe duma religião? A ordem. Quem deu a Carlos Magno a sua poderosa espada? A ordem. Quem compoz o balsamo de Ferrabraz? A ordem. Quem fez as botas de Carlos 12.º o chapéu de Henrique 4.º e o casaco de Napoleão? A ordem. Quem finalmente inventou as bellas artes, a musica, a pintura e a esculptura, e a grande e nobre arte da gastronomia? A ordem. Ingratos! E devemos tudo á ordem, e não lhe damos a consideração de que ella é credora!
«Quando a expedição restauradora, epilogo romantico de esperanças, de receios, de saudade e valor, quando essa expedição que em si encerrava maiores fados que a náu sagrada dos athenienses, atirou peça de leva nas lagoas dos Açores, quem se poz ao leme dos seus navios? A ordem. Quem abateu os mares, quem enfreou os ventos, quem fez singrar os escaleres, quem deu a mão ao soldado para saltar em terra, quem tangeu os clarins, quem rufou os tambores, quem limpou o fusil, quem fez rodar o canhão? A ordem... Está decidido; não ha outro poder na terra senão a ordem. Todo o mundo material e politico lhe pertence. Entelechias de Malebranche, turbilhões de Descartes, monadas de Leibnitz, gravitação de Newton, principio utilitario, escola sentimental, força de costumes, educações religiosas, genio de legisladores, tudo isto é nada, e o mundo não lhe deve nem bem nem mal. Só a grammatica se póde apresentar como rival da ordem, e disputar-lhe o imperio do mundo; tambem ella tem pretenções anteriores, grandes e importantes, e já um seu predilecto as sustentou com gravissimas razões.»
«Sabeis vós os que estão no Pireu? São aquelles que com uma carta de recommendação mercantil, assignada pela ordem, cujas letras no mercado politico estão agora valendo tanto como os titulos azues na nossa praça, julgam converter o paiz em uma feitoria sua de poder, alcançando que todos os ministerios lhes venham sempre consignados... São os que tendo feito alguns lucros de reputação, quando a praça tinha menos negociantes, julgam que podem esperdiçar o ganho, reputando que alguns papeis de credito, que ainda teem em suas carteiras, são effeitos de grande valor, e não vendo já sobre os seus escriptorios o sello da quebra, e a impossibilidade de apurar da massa fallida sommas que possam exceder ás quantias necessarias para o pagamento priviligiado de caixeiros, creados e outros que lhe ajudaram a grangear suas poucas riquezas scientificas.
«Sabeis vós os que estão no Pireu? São aquelles que vem despachar ás alfandegas da publicidade estes fardos avariados da historia, sem o sello da critica, e expôr á venda no bazar do parlamento, em vez dos panos finos da verdade, as baetas do sofisma.
«Estão tambem no Pireu os que, vendo voltar dos bancos das eleições muita embarcação carregada de quartolas de confiança, de barris de votos, de dornas d'actas, e tendo muitas vezes emprehendido sem successo esta pesca d'alto com perda de barcos e apparelhos, agora julgam fazer-se senhores do ganho de toda esta especulação, fingindo-se caixeiros e guarda-livros da nação, e querendo comprar por sua conta todo o pescado, passando para tudo isto lettras em nome d'ella, com o mesmo direito com que uma vez tres alfaiates inglezes proclamaram em nome da Grã-Bretanha.
«Estão no Pireu os que, considerando a corôa como uma mina, se associam a todas as campanhas nacionaes e estrangeiras para a explorar, meditando largar a empreza logo que a veia estiver pobre, e as galerias de mineração inundadas... Estão no Pireu os que, depois de terem feito suas genuflexões á estatua de ferro de usurpação, foram para a emigração adorar algumas estatuas de ouro que por lá se levantaram, e que depois se recolheram ao paiz para se associarem, não com aquelles que haviam sustentado o colosso da tyrannia, julgando que combatiam pelo bem da nação e pelos direitos da realeza, mas com os que sem acreditarem causa alguma as seguem todas, que teem a chronologia das desgraças publicas marcada no peito com as insignias das mercês, e que havendo levantado o usurpador do pó do nada, depois que tiraram todo o partido dos seus maleficios, procuraram minar o seu poder para servirem outro senhor que melhor lhes pagasse.
«Estão no Pireu os actores de todos os entremezes, comedias e tragedias ministeriaes, que vestem com a mesma facilidade a jaqueta de gatuno, o manto do rei tyranno, e o chambre d'aulico retirado, sem lhes importar os apupos da plateia e as censuras dos litteratos, procurando só que haja boas enchentes, que as escripturas da empreza sejam cumpridas, embora todos os dias mudem os emprezarios.
«Estão no Pireu os que, deixando o licito commercio da virtude e da honestidade, se pozeram a traficar em galões, plumas e lantejoulas, e que, sollicitando um logar nos mercados das côrtes estrangeiras, para irem expor á venda suas fazendas, o não poderam alcançar.
«Estão finalmente no Pireu os que vieram para a casa commercial Revolução & Companhia, como a mocidade do Minho vem para as lojas do Porto, e que, tendo feito alguma fortuna pela bondade dos patrões, agora os perseguem, desacreditam e procuram arruinar por todo o modo.
«Mas quem é toda esta gente que se acha no Pireu? Que está ella lá fazendo? Foi um sonho! No Pireu só vejo uma companhia de trabalhos braçaes, que corre avidamente á praia, quando chega alguma carregação ministerial, e que carrega por todo o preço os fardos de que ella se compõe, qualquer que seja a firma commercial com que venham marcados[[37]].»
Foram longas as citações, apparentemente abusivas. Mas quem as houver seguido, logo comprehenderá que constituem documentos essenciaes da nobreza de José Estevão, pergaminhos inseparaveis do seu nome, onde quer que elle appareça. A fulguração do seu genio deslumbra e entontece n'esses momentos.
Quando, porém, se lhe tornou necessario passar da reproducção pitoresca do presente á resurreição da simples verdade historica, quando conveio e lhe aprouve trocar pela contemplação grave d'outros tempos a feira de cobiças e vaidades, a que assistia e de que pintou tão completamente a diversidade de gentes e trajos, e a azafama e tumulto de mercar e ganhar, encerrou largos horisontes em curtissimos quadros, favorecido sempre por igual poder de imaginação. Em breves traços exprimiu e resumiu crises profundas, condensando n'um rapido lampejo uma situação moral, economica, politica e militar, sem preterição dum só dos seus caracteres e pondo-os todos manifestos com uma transparencia cristallina. A imaginação puramente descriptiva não ficava áquem da imaginação creadora. A renovação do acontecido e distante não foi menos perfeita do que a obra de phantasia, na qual traduziu a realidade presente, moldando-a, vestindo-a e compondo-a em formas desusadas e inesperadas.
N'aquelle mesmo discurso do Porto Pireu, rememorando as circumstancias do paiz no principio do seculo XIX, dizia:
«Depois d'estes successos, (a invasão franceza e factos correlativos), sabido é como a flôr da nossa juventude, o ouro dos nossos cofres, a paz dos nossos campos, a gala das nossas cidades, o sangue dos nossos soldados, a devoção dos nossos povos, se empenharam pela destruição do poder colossal do imperio. Sabido é como a Inglaterra considerou pouco estes esforços, depreciou o valor d'estes sacrificios e calou a gentileza das nossas armas.»[[38]].
Avalie-se por este mero exemplo, escolhido quasi ao acaso, a destreza e a robustez do gigante. Cada palavra vale uma pagina. Maravilhosa capacidade de condensação! Tudo o que um instante temeroso na historia dum povo póde trazer de inquietação, de ruina, de dedicação, de valor, de perfidias e ingratidões, todo o abalo e commoção dos lances de guerra, tudo alli resurge tirado da obscuridade por um singelo e sereno clarão.
Não basta, todavia, a imaginação para base de tão extenso e duradouro poder sobre os homens como aquelle que José Estevão em sua vida exerceu. Não é sufficiente para transformar n'uma arma penetrante e inflexivel as simples considerações d'um orador. A imaginação poderá provocar a admiração e conquistar celebridade, mas não basta para constituir auctoridade; e o que José Estevão alcançou, unicamente pela virtude do seu verbo, foi uma força excepcional d'influencia sobre o espirito, consciencia e acções d'aquelles que de perto ou de longe o escutavam. A imaginação poderá captivar pelo capricho dos seus vôos e revelações, por uma rapida atracção transitoria, mas não logrará conferir um imperio permanente e efficaz; isso demanda laços mais resistentes e susceptiveis de supportarem a acção do tempo sem afrouxarem; e o imperio de José Estevão prolongou-se por toda a sua existencia, até á morte. A imaginação, por isso mesmo que se expande em brilho, esváe-se no contacto de elementos d'energia menos fugaz, não resiste d'ordinario á tenacidade penetrante da reflexão, que nunca deixa de lhe seguir o rasto, para o embaciar e frequentemente para de todo o apagar. Por muito realce que á obra de José Estevão houvesse dado, não podia ser ella explicação basilar da sua inalteravel efficacia. Os fundamentos d'aquelle prestigio incomparavel teem d'assentar em terreno mais solido do que esse pulverulento e doirado em que a phantasia se dilata.
Notemos desde já a feição mais accentuada da imaginação de José Estevão; attente-se no seu caracter e no objecto que preferia. Talvez isso nos inicie na comprehensão da sua força.
Não se detem e espraia na embriaguez dolente de prolongadas cadencias musicaes, não se adelgaça em melodias languidas, nem se estende em cavas sonoridades retumbantes. É viril e austera. Ruge como o estampido dum roble que se despedaça; não verga como o sibillar ondeante d'um canavial. É magestosa e grande; não se amesquinha a recortar frivolidades.
Depois, que procura? Os traços comicos dos homens e das cousas, para os expor ás gargalhadas d'um publico ávido de folgança e avesso a tomar a vida a serio? Não. É evidente que de passagem os toca bastas vezes, accidentalmente; um espirito da sua pujança e uma sensibilidade tão aguda como a sua, que a nenhuma impressão ficam de todo estranhos, percorrem a escala inteira das emoções. Mas são incidentes, verdadeiros incidentes, notas passageiras, em que não insiste nem procura fazer insistir os que o ouvem.
O que a imaginação de José Estevão procura constantemente, o objecto que mais lhe apraz e em que de preferencia se quêda e escava, é a pintura dos caracteres, a investigação dos mobis moraes que nas acções humanas se occultam e as dirigem. N'aquelles mesmos trechos do discurso do Porto Pireu que acabamos de repetir, no extenso ról dos mercadores que enxameiam na praia, cada um leva no rosto, taes quaes elle lh'os estampou, os signaes certos, a indicação segura do credito que merece, das baixezas que praticou e dos contractos infames a que se presta e em que sonha. Com o resto prendeu-se pouco; não lhe importa a gentileza da figura ou a deformidade do corpo, que a graça ou a fealdade virão do intimo, e é a descobril-o que se applica com ardor. Os factos e os homens não são cousas que tenham vida sua, na essencia do conceito e arte de José Estevão; hão-de tiral-a do valor moral que possuirem; e é para o aquilatar que a sua imaginação se exalta a reconstituir factos e homens e lhes põe a nú e em relevo a estructura.
Junte-se a esta uma outra circumstancia notavel, e estaremos porventura proximos a penetrar o segredo da magia d'aquella fascinação soberana:--o ataque é habitualmente directo. Ironia, astucias vulpinas, surprezas de flanco, disfarçadas, se por acaso surgem, aqui e além, logo as abandona e troca por armas mais a seu molde. O espirito heroico compadece-se mal com esses engenhos de malicia, invenção de timidos e defeza de cobardias que não se afoitam a entrar em campo raso. Combate peito a peito. Nem procura escudos para o seu, sempre a descoberto, nem tambem se deleita a arranhar o adversario e a cobril-o de sangue á flor da epiderme, sem lhe tocar as entranhas. Vibra os golpes ao coração, e por isso que lh'os conheciam e sabiam que eram mortaes, por isso os temiam tanto. A ninguem poupava a exprobração d'erros e fraquezas, se se convencia de que tinham sido aggravo á causa publica. Toda a torpeza e mentira desmascarava, sem uma funesta piedade, sem attenuantes nem dissimulações que, no tremor duma consciencia persistentemente vigilante, se converteriam de prompto em suspeita de cumplicidade.
Que ha pois afinal no fundo de todo esse movimento brilhante da eloquencia de José Estevão? Varrida a arena dos fumos do combate, que ficou de inexpugnavel no seu logar, que fortaleza prostrou tantos inimigos, e desbaratou e poz em fuga tão numerosas hostes e luzidas? Uma assombrosa intuição moral, a facilidade de lhe exprimir as revelações com uma concisão e uma exactidão maravilhosas, a coragem de as dizer alto na presença d'aquelles a quem mais feriam, a absoluta isenção com que só por amor da patria assim procedia,--eis o segredo do poder d'essa voz unica na historia da politica portugueza e grande entre as maiores da humanidade. Se toda a vida de José Estevão «foi uma consequencia rigorosa da sua composição moral», como já notamos, os recursos da sua arte, mais ainda do que o esforço do seu braço, d'ahi tiraram todo o poder de encanto e victoria.
Ouçamol-o ainda, em momentos de sereno julgamento. As horas de calma confirmarão a verdade de que nos deram testemunho os momentos de phantasia estimulada e abrasada pela presença dos adversarios, pelas suas provocações e pela viveza do combate:
«Foram os ministros da carta que, depois da convenção d'Evora-Monte, consentiram que o punhal das facções andasse solto pela capital, vingando odios e malquerenças passadas, que os moribundos viessem arrastando-se a dar o ultimo arranco na sua presença, e não sei mesmo se com as rodas das suas berlindas pisaram algumas vezes os cadaveres dos infelizes que deixaram assassinar! Este punhal devastador passou da capital para as provincias, e das mãos dos fanaticos politicos para a dos salteadores faccinorosos. Penetrou as nossas mais pequenas povoações, infestou todas as nossas estradas, e semeiou por toda a parte os seus horrorosos estragos! Isto são factos, sr. presidente: o assassinato começou em Portugal por fanatismo politico, alentou-se por desleixo, continuou pelo exemplo, e generalisou-se por necessidade. Por necessidade, sim! sr. presidente. A lei mais imprudente, a mais atroz e provocante, a lei das indemnisações, levantou esperanças enganosas, suscitou pretensões esquecidas, sanccionou exigencias indiscretas, e distraiu dos seus mestéres o laborioso artista, o pequeno commerciante, o proprietario de poucos teres, com a espectativa de promettidas delicias, com a mira dos prejuizos resarcidos. A illusão dissipou-se, e os homens illudidos, tendo perdido o habito do trabalho, entregaram-se ás violencias para haver aquillo que a lei lhes tinha promettido, e cuja recusa reputavam depois um roubo que lhes dava direito a outro roubo. A lei das indemnisações espalhou no paiz mais de tres mil punhaes, e perdeu muito cidadão util e honesto. Recaia pois a culpa d'esses assassinios sobre quem promulgou a lei[[39]]!...»
Passagens como esta, e contam-se por muitas dezenas, leem-se e repetem-se n'uma invariavel impressão de pasmo e confusão e applauso, em que não sabemos o que mais nos captiva e turva, se a nitidez do desenho e do quadro, tão firmemente traçado como ponderadamente illuminado, se a profundeza da analyse dos sentimentos conjugados para um mesmo crime, se a exposição dos desvarios, desordens e dissolução que d'elle resultaram, se o peso da condemnação que pela simples palavra d'um só homem lhe castigou os fautores e instrumentos, deixando-os eternamente marcados de ignominia. Só «a supremacia moral, que, não nos enganemos, é o unico poder verdadeiro»[[40]], será capaz do impulso inicial para taes milagres. E, se por uma rara concessão do destino vem favorecel-a e traduzil-a a prompta justeza d'expressão, resultará n'um explendor soberanamente glorioso.
O genio latino, que encarnou no heroe de tantas batalhas pelejadas pela liberdade, para o lançar no fragor temeroso das armas e para o fazer subir aos rostros do forum, infundindo-lhe no animo o mais depurado civismo, a plena imolação ao bem da patria, resurgiu n'elle tambem para a lucidez perfeita da concepção do pensamento e para a consequente sobriedade de o enunciar, para a renovação d'essa arte que até hoje ficou como qualquer cousa extrema, culminante, da capacidade da raça e suas tradições. Filho abençoado e dilecto d'esse genio, José Estevão fielmente o serviu.
Se encontrava «um estado de miseria, de confusão e d'anarchia», logo via deante de si os punhaes dos assassinos, a debilidade dos tumultos e o desleixo da indifferença»[[41]]. Se procurava a ordem que convinha á estabilidade das nações e á prosperidade dos povos, essa ordem «teria toda a efficacia d'um principio sem ter os desvarios d'uma paixão; era um elemento governativo e não a bandeira dum partido; era um sedativo e não um cauterio para as paixões populares; confessava-se sem alarde e servia-se sem galardão»[[42]]. Não admittia que «se suspendessem as garantias só pela possibilidade de revoluções, só pela possibilidade d'ataques á ordem publica»; porque, «se se enthronisa tal principio, a liberdade fica um receio constante, o despotismo uma prevenção permanente, o arbitrio o direito commum, a lei a excepção»[[43]]. E sempre assim pensava e assim dizia, n'esta impetuosa penetração e comprehensão das situações moraes em toda a sua latitude, definindo-as immediatamente em todos os graus e aspectos, n'uma subita e clarissima enunciação, tão exacta e condensada como completa. Assim nos desvendava n'um relampago mundos extensissimos, em que as paixões politicas se agitavam, e assim verberava, só por os apontar e expor á justiça, os vicios e erros que n'ellas se involviam e as corrompiam. Assim nos tinha atonitos e subjugados, por fim escravos da sua vontade, do seu querer e dos anceios sem macula do seu coração.
Porventura, a prodigiosa destreza do genio na arte foi compensação das penas de muito desengano do apostolo e ergueu-o de muito desalento, para renovar suas cruzadas em pról da felicidade dos homens e da dignidade da patria. Este poder de definir, esta rara e superior capacidade de exprimir em formas de rematada belleza todas as emoções da alma, e particularmente as suas aspirações de rectidão e justiça, de continuo inflamadas e alvoroçadas pelo decorrer dos acontecimentos, cristallisavam em uma obra magnifica, honra e gloria de quem a edificou e da raça que a produziu, e ao mesmo tempo representando um propulsor energico da realisação dos sonhos que a inspiraram. E José Estevão, em meio das magoas e contrariedades que soffria na carreira politica, ferido de desillusões a cada passo e por ellas rendido á consciencia de successivos e interminaveis desastres, havia necessariamente de sentir, n'uma vaga aprehensão do proprio valor, que deixar os erros dos homens e as desgraças da nação estampados com aquella radiante eloquencia, chorai-os com aquelle poder de vibração communicativo, era já só por si uma alta e nobilissima victoria, era precaver os incautos e os vindouros contra iguaes desvarios, corrigir severamente os culpados e incitar os bons ao resgate do mal e á conquista de melhores dias. Era, por conseguinte, trabalhar n'uma obra, duradoura e solida, de grandes beneficios, cujo encanto e premio intimo não lhe consentiam repouso e perenemente o traziam em sua obediencia, assegurando-lhe a proficuidade do combate. Se toda a sua arte foi consequencia da sua composição moral, e é indubitavel que o foi, não parece menos certo que a sua composição moral deveria singularmente ser auxiliada e mantida em toda a pureza por effeito da arte, que lhe permittia auscultal-a, vêl-a, tocal-a em formas d'um enlevo captivante e soberano, avivando d'este modo o seu bemfazejo dominio.
Ao abrigo dos incitamentos e instancias parlamentares, fóra das distracções a que de bom ou máu grado tinha d'acudir por virtude do logar e da situação, no remanso que lhe permittia toda a pausa e reflexão, quando o orador pôde tornar-se escriptor, a divina obsessão de considerar nos homens e nas acções o seu valor e significação moral attingiu em José Estevão a ultima e mais alta perfeição.
O retrato que nos deixou do rei D. Pedro V vale a melhor esculptura dos mestres, se é que a arte de modelar e fazer reviver a substancia etherea do sentimento humano não é superior ao talento d'animar o marmore e lhe insinuar as palpitações da carne.
«Como morreu o rei? Porque morreu o rei?», escrevia José Estevão. «A paixão publica é grande e as paixões são inventivas, imaginosas, despoticas, desarrasoadas, absurdas. O sentimento pelas vidas que nos são caras cae em desconhecer o poder dos factos e arroja-se até a negar as leis da natureza.
«Não queriamos que o rei morresse. Não acreditamos que o rei tenha morrido. Louca pretensão! Vã incredulidade!
«Os medicos dirão que nome scientifico poderam dar aos padecimentos corporaes que pozeram termo á existencia do rei; e que elementos haveria na sua compleição physica que apoucassem a resistencia ao mal que o acometteu.
«Esta sentença deve aquietar todos os animos e persuadir o paiz á resignação.
«Mas, se o sentimento publico quer descontinuar causas malevolas, machinações tenebrosas na morte do rei,--se se quer desconsiderar os imprescrutaveis decretos da Providencia para substituir a pensamentos de humildade concepções peccaminosas,--se se obstina em não imputar este triste acontecimento ás suas causas naturaes, não nos será permittido investigar se os acontecimentos da vida do rei e a sua composição moral concorreram muito para apressar o fim dos seus dias?
«A consciencia timida do rei, a exaggeração dos seus escrupulos, os seus desejos de completa perfeição na vida privada e na vida politica, as suas aturadas occupações, os seus infortunios domesticos tinham gasto as suas forças e acabrunhado o seu espirito.
«Pouco expansivo no tracto, com um viver recolhido, com o espirito continuamente preso a ideias determinadas, sempre mal contente dos negocios publicos, impossibilitado pela sua lealdade constitucional de metter n'elles a mão mais profundamente, confiando talvez que o poderia fazer com utilidade publica, deixou-se consumir e ralar d'esta complicação d'embaraços, d'aspirações, impossibilidades e conveniencias.
«A apprehensão continuada sobre as difficuldades do seu cargo politico, aggravada em cada occorrencia mais grave pelo receio de não sair bem d'ella, tinha levado o seu espirito a considerar a arte de governar nos termos d'um problema scientifico, que o trazia sempre occupado. Os espinhos da sua situação não só o pungiam, mas eram o objecto das suas meditações, e todas as suas faculdades carregavam com o duplicado trabalho de resolver os negocios occorrentes e d'investigar por que modos e com que maximas um rei podia fazer a felicidade dos seus povos, sendo estimado dos contemporaneos e admirado dos vindouros.
«O rei passava, só, largas horas no seu gabinete. Só, não dizemos bem, que o acompanhavam de continuo a consciencia e a historia. Sabresaltado por uma e estremecendo da outra, o seu espirito luctava no mar d'incerteza, e, depois de muito trabalhar, nem acabava satisfeito dos expedientes que se lhe antolhavam, nem das soluções doutrinaes que lhe vinham á mente.
«Correndo pelo sentido os casos da sua curta e tormentosa vida não achava n'estas recordações com que robustecer o seu animo, nem onde repousar o espirito da sua agitação interior.
«Rei muito antes da epocha em que o seu amor filial lhe consentia desejal-o, em que a sua sisudeza lhe permettia acceitar a corôa com a confiança de bem preparado para os encargos d'ella; viuvo na edade em que a maior parte dos homens não tem ainda escolhido esposa, e no momento em que o seu coração começava a gostar os prazeres da vida conjugal; não havia bem que não viesse do mal, nem ventura que a fortuna lhe não roubasse.
«Ferido nos seus affectos intimos, mortificado de desastres, as epidemias parece que esperavam a sua ascenção ao throno para assaltarem o povo. Perseguia-o a infelicidade como rei e como homem. Dir-se-ia que a morte estava apostada a trazer-lhe sempre deante dos olhos o seu horror, e este sestro havia de pesar-lhe ao coração como um presagio.
«Infelizmente as qualidades do rei careciam d'aquelle equilibrio que contrapeza os bens com os males da vida. Nos raros gosos que a sua sorte mesquinha lhe consentiu, sentia sempre o amargo essencial que ha ainda nos affectos mais gratos da vida. Por outro lado o pezar para elle era extremo: não levava em si nenhum lenitivo. O seu espirito não comprehendia as atenuações naturaes de todo o infortunio, nem o seu coração era feito para conhecer a alegria da desgraça.
«A expressão será temeraria ou infeliz; mas ha nas mais densas cerrações da alma uma luz, embora tenue, que rasga a escuridão e que nos deixa enxergar ao longe horisontes menos carregados, e ás vezes até risonhos. Para além d'estes horisontes estanceiam as consolações humanas, tão variadas e efficazes como são numerosos e terriveis os males da vida. Mas o rei não respirava as auras d'aquella região. Não sabia consolar-se, e falto d'este auxilio indispensavel nos tormentos do mundo decaiu na superstição do infortunio. Julgou-se votado a elle e curvou-se á sua sorte»[[44]].
Foi este o monumento, do qual apenas destacámos um pedaço, que José Estevão ergueu sobre a sepultura de D. Pedro V, logo apóz a sua morte. Depois d'elle, outros vieram que pelo bronze e pela palavra tentaram consagrar a sua memoria. Nenhum, porém, jámais o excedeu, nem sequer o igualou, na resurreição da nobreza ingenita do rei e da magestade tragica da sua queda.
Pelo labor expontaneo das suas energias, o genio de José Estevão constituiu-se n'um tribunal, esclarecido e augusto, com tanta rectidão para condemnar a perversão criminosa e a combater, emquanto importasse estorvo ou aggravo á felicidade humana, como magnanimidade para sanar por indulgencia as feridas que por dever fosse coagido a rasgar.
Quando deixou de pulsar o coração que o animava e movia na terra, foi um dia negro; espalhou-se em torno como uma onda de sombrio e desesperado terror. A profundeza da dôr confessou a magnitude da perda. Emudecera para a democracia, para os apostolos dos seus sonhos e para os opprimidos das escravidões que a suffocam, o eleito que lhes ouvia os gemidos e lhes interpretava a anciedade, quem lhes restituia os direitos e lhes fazia vingar as aspirações. Não era um homem que a morte arrebatava; era um templo sagrado que se submergia. Não era um tropheu dos escudos nacionaes que se esfarrapava, uma flamula das suas glorias que se desfazia; era um écco da justiça divina que para sempre se calava, precipitando em angustia os que consolava, defendia e amava.
[[36]] Discursos, pag. 118.
[[37]] Discursos, pag. 91, 93, 95, 101 e seg.
[[38]] Discursos, pag. 132.
[[39]] Discursos, pag. 77.
[[40]] Discursos, pag. 322.
[[41]] Discursos, pag. 74.
[[42]] Discursos, pag. 96.
[[43]] Discursos, pag. 173
[[44]] Artigo publicado no Districto d'Aveiro. Vid. Marques Gomes. L. c., pag. 156.