II
Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue títulos autênticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A história da civilisação registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo exemplo são garantia da sua excelência.
Quid inde? Com que direitos e por que trâmites se criou essa nobreza e por que razões ha-de persistir em nossos dias?
Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prática do vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmações e mais disseminadas na acção. Imediatamente se nos revelará o seu carácter e a sua influência na moralidade das raças.
Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitágoras, na aurora do helenismo, quando ele começou a ter consciencia dos seus destinos e a meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida universal.
Renova-se seis séculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas disputas do mundo sucedendo à amálgama de diferentes raças e diversíssimas aspirações religiosas em uma só e nova civilização permitiu aos homens que interrogassem o seu íntimo e conhecessem o que queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigações os encaminhavam e prendiam.
Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfírio e a pléiade de filósofos que naquelas terras meditava a experiência de quasi dez séculos de vida social intensa investigavam as consequências que de aí derivavam para a compreenção d'este pequenino ser que é o homem.
Escurece-se na pulverização do império romano, enquanto o tumulto das guerras e a poeira do desabar de ruinas não consentiam parança em que os problemas morais da nossa vida se traçassem e solvessem. Mas logo a breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, até que no seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe dão ingresso no templo os mais venerandos levitas da redenção humana.
Isto é--sempre que as sociedades europeias poderam pelo gráu de cultura que atingiam ouvir a voz da consciência moral e prestar obediência aos seus ditames, o vegetarismo surge e impõe-se como uma lei a que não é permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traição do dever e de crueis remorsos. Não é outra a lição da história sôbre esta doutrina, nem outra póde ser a interpretação das vicissitudes por que tem do passado, dos entusiasmos que despertou, e dos ódios que o perseguirem e da irrepressível expansão que em nossos dias o propaga. É um fenômeno da consciência moral, invariavelmente presente onde quer que a consciência moral assista, seu filho e servo. Não é um devaneio filosófico, questão de sistema ou de lógica, é um acto de religião.
Por isso teve e tem inimigos, porque não póde dominar sem offender crenças arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse «poder arbitrário do costume e a violência da luxúria» de que falou Bernardo do Mandeville e que encontram na fé vegetariana como uma acusação dos seus crimes e uma ameaça de abolição contra as quais se revoltam.
Singular coincidência! Os apóstolos do vegetarismo não mereceram em regra as boas graças dos poderes politicos constituídos. São aborrecidos de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor, porventura é odiada de toda a opressão e egoismo. O certo é que os discípulos de Pitágoras foram perseguidos; Ovídio foi desterrado e Sêneca foi condenado à morte e os cataros sofreram da igreja católica as mais bárbaras crueldades.
Na verdade, significa uma profunda revolução moral com todas as consequências sociais que necessáriamente importa. Como tal o devem considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensável para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revolução. Se os nossos tempos não toleram martírios, nem por isso pódem prescindir de tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspiração se proposer conquistar o seu lugar no mundo.
A tarefa será tanto mais árdua quanto é certo que o vegetarismo se vê enleiado e combatido por tradições terríveis.
Toda a nossa civilização é filha da civilização romana. Dela viemos e na realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso não é mais do que o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa estrutura mental como a nossa estrutura econômica, como, sobretudo os nossos problemas sociais, tudo é a repetição e a ampliação em volume e complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou.
Ora, não nos iludâmos; não há talvez pior inimigo do vegetarismo do que a cultura latina. Compare-se a civilização latina com as civilizações orientais e a superioridade moral destas últimas imediatamente se nos mostra com evidência. A intemperança, a gula e a crueldade foram vícios caraterísticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o deixaram inferior, não já à puresa do budismo, que com êsse o confronto é inadmíssivel sôb êste aspecto, mas até mesmo à sobriedade e frugalidade do grego, de cuja civilização descendia em linha recta. Aos banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente dos mansos animais e nêles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os olhos. Parece que há mais de vinte e cinco séculos a nossa raça vive sôb um anátema irrevogável de crueldade, tanto mais pungente quanto é clara a consciência da maldição que nos atormenta.
Catão, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cônsul, deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro público dêsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--«Se tais coisas são exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o julgue.»
São exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador tão bem como nós o sentíamos. Mas a enfermidade persiste e até hoje não podemos vencê-la e sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se senão um título pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos corações e deixamos de sacrificar á sua desapiedade soberba tanto os homens nossos irmãos como os animais a que as demências da nossa vaidade passaram diploma de inferioridade.
Dobramos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como na Índia do seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus companheiros e seus servos e amigos.
Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz expressão de Carlyle.
Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos orgulhamos.