III
Se porêm o vegetarismo fôsse incapaz de captivar os homens de inteligência lúcida e coração recto só pelo seu valor moral absoluto, pelo que representa como signal da mais alta concepção moral das relações do homem com o universo e particularmente com os seres vivos que nos cercam, não poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela sua influência directa, imediata, como mecânica, na dissipação de flagêlo que presentemente é o maior e mais terrível dissolvente da moralidade das raças--o alcoolismo.
Não é êste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para afastar a qual todo o esfôrço será pouco. Mas ninguém d'olhos abertos e medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poderá deixar de reconhecer com J. Reinach que, «se a questão do alcoolismo não é toda a questão social, é a mais terrível e a mais grave das questões sociais.»
O que a êsse respeito se passa em o nosso país, não o sei eu. Suponho que será tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde quási não há crime de violência contra as pessôas que não seja cometido sob a acção próxima ou remota do álcool, pelo movimento dos hospitais onde sob inumeráveis fórmas essa desgraça vai pedir socorro e o mais das vezes acabar.
Não o sei. As estatísticas do nosso país são menos do que incompletas ou deficientes a tal respeito; são nada. Parece que tememos saber toda a verdade e preferímos afundar-nos em cegueira total e em criminosa indiferença, embora o exemplo dos demais países nos assegure que não é assim que cada um cumpre o que deve à pátria, à humanidade e à consciência.
Mas conheço um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar infundindo-me no espírito as mais lugubres preocupações sobre o futuro da nossa raça.
Pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes deverá ter consumido em 1911 (numeros redondos):
1.041:000 litros de vinho comum.
7:500 litros de vinhos licorosos.
11:000 litros de agua-ardente.
Isto equivaleria na mais benigna hipótese a uma despeza de 50 contos de reis e a um consumo de álcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianças que se acha incluída nos 10:000 habitantes do total da população da cidade, poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambêm da precipitação de decadência física, moral e econômica que está minando a raça.
Ora eu não posso crêr que Aveiro seja um lugar de maldição no país. Pelo contrário, inclino-me antes a pensar que será uma das terras do país menos desmoralizadas não só neste ponto mas em absoluto. E sendo assim, como tudo leva a crer, poderemos bem imaginar por este minúsculo exemplo em que inferno estamos vivendo, a que penas estamos sujeitando os nossos filhos e o futuro da nossa pátria, que tremendas responsabilidades de ignomínia e de traição não estamos tomando perante a história, porque outra traição mais infame eu não conheço do que aquela que resulta no aviltamento físico e moral dos nossos filhos.
Salvação, se a póde haver, e sem dúvida a haverá porque assim o teem demonstrado os países mais adeantados do que o nosso que conscientes do mal não descansam em lhe acudir com todos os preservativos e remédios que a experiência lhes vai aconselhando, a salvação terá de começar pela propagação do regime vegetariano que em semelhante missão, sem se degradar e antes acrescendo as virtudes, passará d'um dever moral imprescindível a uma utilidade social de primeira grandeza.
«Basta a questão do álcool para que o problema da dieta seja digno da atenção de todos os homens que amem a pátria», escreveu Russel no seu belo livro Strength and Diet, hoje um clássico. Se o vegetarismo é o primeiro passo, na opinião de Tolstoi, para a disciplina da nossa vontade na obediência religiosa, é simultaneamente a primeira regra para nos salvar da decadência do corpo e do espírito nêsse embrutecimento do álcool como Tardieu lhe chamou, resumindo em uma só palavra as consequências de tal processo de envenenamento dos homens e das raças. Porque qualis enim esus, talis est potus; tal comida, tal bebida. Assim o disse ha longos séculos Tertuliano meditando nos trâmites da vida religiosa, buscando os caminhos por que a santidade se alcança; e a sciência dos nossos dias não desmentiu as lucubrações do teologo. Pelo contrário, absolutamente as confirmou.
Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos de todas as demencias e abjecções.
O seu processo na desmoralização das raças é sabido. A atrofia de consciência que é o invariável resultado de todas as intemperanças da gula começará por ser acidental e transitória na sua victima, para em seguida se tornar permanente, constante, ininterrompida por virtude de repetição, e para finalmente se transmitir por hereditariedade a toda a descendência, por isso mesmo que se tornou verdadeiramente constitucional e orgânica.
É n'esta operação de aviltamento da nossa raça que o carnivorismo está colaborando activamente. Combater pelo vegetarismo é combater o alcoolismo na sua maior fortaleza.
Dos resultados que os nossos esforços, poderão ter em uma tal calamidade dizem as lições que os países estrangeiros nos facultam. Um só exemplo invocarei. Há cerca de cincoenta anos a Suécia tinha uma taberna por 100 habitantes e a Noruega uma por 200. Hoje a Suécia tem uma taberna por 5:000 habitantes e a Noruega uma por 9:000. E isto que é gigantesco como capacidade de redenção dum pôvo, não foi a obra do acaso; foi o produto do método, sistema e energia de vontade que todas as terapêuticas aproveitou. Não se é uma nação civilizada e digna por menor preço.
[A] Na verdade, os processos de cosinha carnívora não são outra coisa senão processos de corrupção; o alimento será tanto mais saboroso quanto mais perfeitamente se lhe houver dissipado a exalação fetida primitiva. Qualquer dama de mãos mimosas que trinca com delicia uma costeleta coberta de pão e embalsamada em loiro, em cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limão, empalidece de nausea sentindo o cheiro do açougue, considera imundicie um pedaço de carne crúa nos seus vestidos e foge mais depressa da praça do peixe do que da montureira que aduba a horta.
Pelo contrario, na cosinha vegetariana o esmero e a perfeição consistem em conservar inalteravel o sabor proprio de cada alimento. Ninguem jámais teve o capricho de querer cosinhar maçãs para saberem a loiro ou feijões para cheirarem a salsa.
[B] Não acontece isso sómente com as creanças. Na gente do povo, creança tambem pela vitalidade dos instintos primitivos, mostra-se claramente a mesma tendencia. Muitos e muitos que seriam incapazes de roubar de qualquer salgadeira uma grama de toucinho, não resistem á tentação de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes esteja á mão. Os assaltos ás hortas e pomares são frequentes, e de tal forma isso parece estar na ordem natural que grande numero dos homens rudes não lhes associa nem de longe a noção do crime. Longos seculos de corrupção da dieta não conseguiram atrofiar essas tentações d'uma atiguidade biblica, as mesmas que desgraçaram Adão e Eva.