V
Tambêm tu, serpão do monte, me prendeste, tambêm tu me roubaste a liberdade! Singelamente, floriste em flores onde a côr da violeta empalidece e rediz seu poema de ternura. Assim me possuiste e à tua pequenez me acorrentaste, àquela pequenez que para mim foi grandeza e voz divina ao desprender da humildade e modestia os mais perfeitos perfumes, os mais doces.
Urna de incenso para ungir o chão, vaso quebrado entornando a essência que o nardo e a mirra e o cinamomo e o galbano não negariam, se Deus lhe désse a escolha! Em teu poder sonhei reinos fulgentes e biblícas visões me arrebatáram.
Ao vêr-te entregue à fria ingratidão e ao desamparo dos montes e dos cêrros mais despidos, partilhando os rigores das urzes tímidas que em sua purpura ocultam a gandara negra; escravo sem sustento abandonado em solidões aváras por quem te quís coroar no sofrimento; sem o abrigo de uma só árvore, sem o consolo do mais tenue fio de água que entre as pedras banhasse e convertesse a aspereza em limpidez; resignado filho trasmudando em doçura suprema a austeridade que o gerou e o castiga despiedosa—na tua vida sonhei terras distantes onde se ergueu a cruz e Cristo orou na paz, entre oliveiras, pedindo àquele que o mandou e está nos céus que sómente a sua vontade se cumprisse. Estranha evocação me segredou que era assim a terra santa do Calvário—no chão o mais severo, a doçura infinita; e no martirio, o amor.
Dos teus ramos tão débeis que rastejam e condição mais alta não procuram, porque só na humildade estão contentes, fiz o rasto do próprio coração onde o senti pulsar em ardor que o acordasse e erguesse para o sagrar. Por te amar, fiz de ti sinal de amor. Em meus tesouros, ricos de lembranças, marcas iluminadas folhas e bemditas onde a minha alma recebeu a graça de peregrinas almas de pureza, onde sentiu a companheira e guia, enviada de Deus, para que no mundo lhe fosse amparo e a fortificasse, e a Deus a conduzisse, à eternidade do amor divino.
Dêste modo me prendes, se te encontro. Dêste modo sou teu, se te colhi.