VI
Está adormecido o vento do outono. É côr de rosa a aurora preguiçosa em seu berço rendado de neblinas; e rutilante o manto com que cobre a campina onde a noite e a madrugada mansamente verteram a ternura de um luminoso pranto cristalino.
Entre os orvalhos vem a despontar, em hastes débeis, hirtas, ainda palidas, sementes germinadas na frescura da terra já banhada pelas chuvas dos derradeiros dias de setembro. São legiões bemditas que conquistam o chão e o seu poder e os seus tesouros para os sonhos floridos de verdura, que a primavera sonhará no encanto do colorido esplendor do seu triunfo, e para as messes doiradas do estio, cálice de oiro que se faz em sangue, sustento e amor que nos fortalece o peito e os nossos braços e nos aquece e alenta o coração.
E os orvalhos que a manhã fez diamantes, e as turgidas sementes a crescerem, seu doce brilho e seu infindo anseio de eterna juventude, eternamente renascida e erguida do pó e da secura, a redenção das cinzas apagadas do estio na brandura outonal e sua esperança, emquanto me adormecem no seu canto, murmurando-me os salmos dos seus córos, louvando ao Deus que os engrandece e exalta, na própria obediência me teem preso, acorrentado à terra na qual bebem todo o vigor e força de crescer, e arrebatado aos céus que lhes ensinam, e por eles me dizem, o misterio da sua caridade, a gloria da sua aspiração e o enlevo da sua formosura.