VII

Vive oculto um misterio em cada peito. Se o sangue o anima e move, insinuou-lhe um ser de luz ou treva, a força eterea, a do bem e a do mal, o fogo que consome e o que alumia, a cegueira mortal que precipita em profundas gehenas insondáveis, onde só a piedade vae salvar-nos, e o sonho que alevanta a espaços limpidos, onde os olhos não chegam nem alcançam e só o nosso coração póde subir. E êsse deus íntimo, ou seja luz ou treva, ou dôr ou benção, todo respira e vive em um alento, todo nele se evola e nele existe.

O rouco arfar de um peito moribundo, no combate da morte inexoravel; o latejar irado da paixão, brazas ardentes da cobiça e inveja; a tremura da ave no seu ninho, sopro ofegante de animal bravio, na incerteza da sorte e seu terror; a timidez da corça perseguida, a criança dormindo no seu berço e os anjos que a visitam e em torno adejam; o cavador prostrado de fadiga, o velho repousando docemente, no repouso de quem já avista proximo o termo dos enganos dêste mundo; a mansa vibração das orações, o brando devaneio enamorado, e a tortura do mal que é irreparavel, e o anseio oprimido da saudade… Que vidas se conteem em um só alento e no breve erguer do peito que o desprende! Que infinitos misterios nos confessa, em que mudez divina nos descobre o que a voz mais clara não traduz, quantas lagrimas chora e em que alegrias de uma celeste luz banha a nossa alma!

Quanto se encerra e vive em um só alento!… Respirar é amor ou aversão, esperança ou danação, suplício ou benção.

Nunca houve alento que me não prendesse. Dos ruins me fez escravo a compaixão, e aos bons foi por amor que me prendi.