XIX

A ave chora e geme enlouquecida derramando a tristeza na floresta.
Desnaturada mão lhe roubou os filhos para os votar à morte na tortura.

Em vão soltou a ave o seu clamor da materna agonia enternecida. Em vão chamou, dorida, anciosamente, por quem responda e queira ao seu amor, sedento, insaciavel de outro amor que agora não encontra e experimentou em freimas e fadigas e carinhos de afortunados dias prolongados!…

Já desmaia o poente e, descorado, deixa crescer a noite e se abandona a todo o seu império. Sentiu-a aproximar-se a ave infeliz. Redobra e é mais aguda e mais a oprime a lacrimosa mágoa em que se perde.

É noite; é noite!… É a escuridão e o frio e o desamparo. Que peito o seu amor vai proteger?… Por quem há-de correr todo o seu sangue?… Quem virá receber-lhe o seu alento?… Que boca o seu calor há-de aquecer?… Para que a vida senão para dar a vida?… Para que, senão para a dar só por amor?!…

Ao fim, na solidão como contricta de tamanho sofrer em que comunga, ao gemido da ave respondeu a dôr, a companheira que encontrou em seu tépido ninho onde afagára os sonhos de ventura malfadados.

E ao lamento da ave me prendi, como se prendem corações irmãos. Porque, escutando-o, repetiu e disse a fortuna e desgraça do meu peito—quanta ilusão e sonho arrebatado só por amor criou e acalentou, e quanto padecer é o seu martírio quando a sorte sinistra lhe converte seus enlevos mais belos na amargura.