XVIII

Pelos degraus de marmore subi à morada dos grandes que se abrigam sob tetos dourados, arrastando os enfadados ócios da riqueza. Benignamente me acolheu o seu fausto; e generosos, senão indiferentes, repartiram comigo os seus banquetes onde o destino os apartou do vulgo, para afagar-lhes volupias caprichosas que o tédio implacavel lhes segreda. Do seu esplendor tambêm fui escravo; tambêm me deslumbrou, tambêm o quiz e entre surpreza e espanto o experimentei, na embriaguês daquela estranha e pérfida beleza que no luxo se acoita e nêle oculta, sob um manto divino e formosura, em purpura e no jaspe e na ametista, uma traição cruel de outra beleza—da infinita beleza que é singéla e humilde e é castidade, que é a isenção sem temor e é a caridade, que é a alegria em Deus e na pobreza, que confiou á terra o seu sustento, que é eterna, que não mente e não desmaia, e nos dá a vida e para sempre afasta a morte, porque o Senhor a mandou e a abençoou.

Ou fôsse desengano ou fôsse esperança de ventura maior que essa, mesquinha, que sendo ouro é pó e em pó se volve, sentindo-me indigente me apartei da rijida frieza dos palácios, peregrino votado a incerta estrada. E vim aos casais pobres, a pedir-lhes esmola de consolo e fortaleza, toda a luz da alma e o calor de afectos e o louvor de Deus que a soberba baniu, na ignorância do seu alto poder; vim pedir-lhes a firmeza e coragem, que no orgulho andam pervertidas, e o trabalho e a fé que são brazão, altar e epopeia dêsses tugurios razos como o zimbro em que o teto mal cobre, a custo abrange, uma enxada e o berço e o coração, doirando só de amor e de fadiga um lar estreito, a rudeza das pedras mal unidas e os colmos negros que as revestiram.

É grande e altivo o cedro e é magestoso na opulencia profunda das suas frondes; e é pequenino o musgo que se arrasta no recato obscuro da sua sombra. Mas vestiu luto e tristeza o cedro alto e um severo desdem da sorte alheia; e só sonhou doçura o musgo humilde, não houve mansidão que o não beijasse, não houve esplendor que o não cobrisse. E o vendaval partiu o cedro robusto e sem vida o prostrou para desfazer-se; e o musgo não sentiu a tempestade, sorriu à violência quando o açoita como sorriu ao sol quando o alentava.

Seja o palácio como o cedro alto! Seja a cabana como o musgo humilde!…

Ah! Fôsse eu o senhor do meu destino e da minha fraqueza me remisse, soubesse eu servir meu coração para que o seu anseio consumasse, e eu iria prendê-lo na choupana, onde a suma beleza e o sumo bem, seus tesouros e luz e os seus coros, são os seios que dão vida amamentando e os braços que dão o pão cavando a terra!