III
Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco fallou com Emilia, elle prezo a uma meza do whist, para ser agradavel ao juiz que sem isso se aborrecia, ella dansando sempre. Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz, as Silvas, de Barrosas, raparigas novas, muito praticas em galanteios e n'esta especie de reuniões, de fluente banalidade. Animavam muito, dizia-se; com ellas e quatro estudantes que de Coimbra acompanharam o sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas seguiram-se quasi sem interrupção. Á meia noite parecia haver certo cansaço, mas, como o doutor mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira, a alegria renovou-se.
—Que bella noite! dizia um dos estudantes para as damas. O peior é ámanhã a cabra. Eu ainda não vi nem uma linha da lição. Provavelmente já não me deito. E ainda por cima as saudades... Não sei o que ha de ser de mim!
Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e via já ali correspondencia amorosa para uns bons seis mezes, apressava-se a responder-lhe:
—Agora não esqueça o caminho!... D'aqui a pouco temos o Sagrado Coração de Jesus. Não falte. Quero ver...
—Se eu poder... Queira Deus que não venha a cahir em férias de ponto!
Cerca das duas horas, o juiz deu a sua partida por finda e Claudio veio então a uma janella respirar por um momento o ar fresco da noite e repousar a cabeça aturdida pela immobilidade e pela attenção forçada.
O dr. Carvalho, vendo-o só, abeirou-se d'elle para o distrair.
—Tem-se aborrecido muito, não é verdade?
—Não!... Pelo contrario! Basta a travessura d'estas meninas para nos communicar alegria. Esta D. Emilia, principalmente, é d'uma vivacidade...
—Ah! muito galante!
—E fina...
—Parece incrivel que ella ainda conserve estas maneiras fidalgas, a viver todos os dias com um homem d'aquelles!
—É grosseiro, o marido?
—Não imagina!
—Pois eu suppunha-o um pobre diabo, só um pouco amigo de vinho.
—Não, muito longe d'isso! É d'uma grosseria e d'uma brutalidade nunca vistas. Eu conheço perfeitamente a historia d'essa rapariga, por um condiscipulo meu que era muito lá de casa d'ella e creio até que ainda parente.
E contou:
—Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos meios mas andando constantemente em muito boa roda, porque a familia era realmente muito fidalga. Os paes estavam quasi sempre por Penacova. Tinham ali proximo, no Chello, uns bemsitos, uma casa na villa, e para economisar,—coitados, não havia melhor!—viviam lá todo o anno, com excepção do tempo que passavam na quinta do morgado do Véro que os convidava muito, para os ajudar. Dos quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga, morreu de variola, dos rapazes um assentou praça, creio que já está tenente, o outro que era um estroinão, foi para o Brazil, e esta, a Emilia, casou, mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo era escripturario de fazenda e que só depois foi nomeado escrivão, por muita instancia do morgado do Véro com o Marques Lino, deputado pela Louzã.
Foi um casamento de paixão. A rapariga vinha lá de Lisboa, habituada a muita convivencia e a muito namorisco, encontrou se só, não tinha mais ninguem que lhe fizesse a côrte e apaixonou-se. Os paes ainda se oppozeram, tinham-n'a educado com a esperança de lhe arranjarem um casamento rico, mas começaram, com estas cantigas do costume, a dizer-lhe que o Ricardo era muito bom rapaz, que não era o dinheiro que fazia a felicidade, e, como eram babosos pela filha e ella andava doidinha de todo, lá se deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora o Ricardo não é tão papalvo como parece; o que elle é sei-o eu, um grande relaxado com muito pouca vergonha e muita impostura, que se convenceu de que a protecção da familia da mulher ainda o podia levar a escrivão de fazenda, como levou. Mas mal se apanhou servido, fez-se então um bebado descarado, sempre pelas tabernas, com amigas réles, e em casa com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta de obscenidade deante da mulher e dos filhos... É impossivel que esta mulher, para quem manobrasse com arte... Deus sabe até o que ella terá feito por outras terras!... porque não creio que ella com o genio desinvolto que tem e vendo o que o marido é e como a trata...
—Mas não consta nada?! interrompeu Claudio.
—Não... mas aquillo não falha. Estava bom para si que é novo e tem tempo para essas cousas!
—Para mim?
—Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?
—Não são annos de fortuna! respondeu Claudio sorrindo e encaminhando-se para o centro da sala, d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.
—Que boa aventura! pensava Claudio instantes depois, passeando a passos largos no seu gabinete, de regresso de casa do dr. Carvalho.
Era o que lhe convinha; mulher bonita, graciosa, educação aristocratica. Que desenfado para os seus ocios de Albergaria!
Ella era captivante, estava alli aborrecida, contrariada, o marido desleixado, sempre pelas tascas, repellente para quem se mostrava de habitos tão finos e sensibilidade tão delicada. Não devia falhar a aventura.
Marcava-lhe prazos: um mez para conquistar a confiança de Emilia, mais dois de correspondencia amorosa, ao terceiro a primeira entrevista e o resto estava certo.
Era claro! Uma mulher casada sabia bem para que era que elle lhe fazia a côrte. Não tinha a esperar casamento. Devia ser boa essa situação em que nunca podia haver compromissos de futuro. E o marido? Com aquella obesidade, calvo e de lunetas, não seria de temer.
Depois, tinha com certeza necessidade de dinheiro; não se mostrando muito avaro, havia de o manter em boa disposição. Um achado, um achado! O peior era a mãe; não havia de gostar, haviam de lhe produzir grande impressão os amores com uma mulher casada. Coitadita! Não sabia o que era a lei soberana da lucta pela vida. Por que privilegio aquelle immundo bebado guardava para si uma deliciosa mulher?
Elle, Claudio, era novo, rico, agradava-lhe mais do que qualquer outro; estavam no seu direito, haviam de amar-se livremente.
A natureza não conhecia fidelidades nem infidelidades; os seres attraiam-se por selecção natural, não havia fugir á lei.
Demais, isto era uma aventura; se a velhita se mostrasse muito contrariada, punha-se termo ao episodio. Nem a elle convinha prolongal-o. Um anno, quando muito; na primavera seguinte, malas feitas e a caminho do Oriente! Nada de se prender com pieguices; isso era bom para os tempos em que ia ao Outeiro fallar com a Conceição e tinha escrupulos de lhe tocar. Fôra bem tolo! Se fosse agora, o caso seria outro. Já era tempo de ser homem.
Meditava todo o plano de campanha. No dia seguinte iria visital-a. Era correcto. Continuariam a conversação da estrada de S. Braz, que ia em bom caminho de intimidade, e não sairia sem deixar ajustado sob qualquer pretexto novo encontro. Era preciso bater a caça sem cessar.
Os devaneios da imaginação amorosa prolongaram-se até altas horas da noite. E adormeceu contente, nas suas risonhas esperanças.
Pela manhã dirigiu-se ao seu gabinete, para estudar como de costume! Abriu um livro de botanica, mas não estava em boa disposição de leituras scientificas.
Era melhor um livro de pura litteratura. O quê? Tourgueneff? Não; eram tristes estes russos com as suas lamurias sobre a vida, sobre a miseria e a dôr. Eram fracos; questão de clima, de lymphatismo e inacção forçada pelos rigores da natureza. Com um sol tão lindo e o jardim como um açafate perfumado de rosas e de lilazes seria barbaro embrenhar-se em pensamentos sombrios.
Vejamos outro. Balzac? Tambem não; era uma obsessão de gente fallida, credores e agiotas por todas as esquinas, outra especie de fraqueza, a angustia da cubiça.
Outro ainda, vamos correndo a estante. Merimée! Ah! Merimée... este sim, este era um homem são. Sceptico, dizem. Que importa? Não é o scepticismo a verdadeira philosophia? Quem póde dizer-me o que é vicio e o que é virtude? Phantasias! O que existe é a natureza humana com todas as suas forças e a sua expansão. A harmonia ha-de sair da lucta, deixemos livre o instincto.
Abriu as Cartas a uma desconhecida e foi sentar-se proximo da janella, comodamente estirado n'uma poltrona ingleza. De todo o jardim se evolava uma sensualidade triumphante e cariciosa, murmurios de regatos, scintillações do orvalho na folhagem mimosa, balsamos das flores que desabrocham, vozes sentidas das aves que se amam e preparam o ninho.
Sentiu-se levado n'essa onda que o attraia á sua doçura, pousou o livro sobre os joelhos e, apoz breves minutos de hesitação, lançou-o sobre a mesa e desceu a vaguear pela sombra dos platanos, á beira dos lagos que os ramos beijavam, curvados, em mystico amor. A imagem de Emilia não lhe deixava os olhos e, ancioso por encontra-la, ia pensando no que lhe diria, todo entregue vaidosamente aos sonhos de conquistador.
Ao meio dia foi almoçar.
De noite fizera somnos curtos, inquieto, o corpo morbidamente irritado da atmosphera de fumo e de poeira em que permanecera durante cinco horas. Cada vez que accordava, a custo conciliava novamente o somno; era um dormir febril em que o retrato de Emilia permanecia como visão insistente. Por isso, depois do almoço, cedendo á fadiga e ao torpor da digestão, adormeceu novamente n'um divan do seu gabinete. Quando accordou, eram cerca de duas horas da tarde. Exultava. Dentro em pouco estaria ao pé da sua amada.
Foi vestir-se; tirou do guarda-roupa o traje mais elegante que trouxera de Londres. A gravata era um problema; as mulheres attentam em todas estas frivolidades e é necessario satisfazer-lhes o espirito. Luvas, sapatos, meias, bengala, outros tantos pontos a resolver e que Claudio considerou um a um, experimentando e observando, em frente do espelho.
Saiu de casa proximo das tres horas. A meio da praça, lembrou-se de que tinha de passar em frente da botica e o pharmaceutico ia estranhar-lhe o traje. Hesitou; voltaria atraz e sairia pelo jardim. Poderia ser que elle o não visse... Foi para diante. De facto, o pharmaceutico dormia a sésta. Por esta vez, estava salvo da interrogações compromettedoras.
Á porta da casa da rua da Cruz, em que morava Emilia, bateu de mansinho duas pancadas com a bengala, que eccoaram seccamente na pequena escada despida e núa. Sentiu-se um abafado rumor de passos apressados e veiu abrir a porta uma rapariga descalça, os cabellos curtos, escondendo as mãos sob um avental de riscado.
A rapariga olhou Claudio com surpreza.
—O sr. Almeida está?
—O sr. Almeida está a descansar.
—E a sr.a D. Emilia?
—A sr.a D. Emilia acabou ha pouco de jantar.
—Leva-lhe este cartão e diz lhe que eu desejava fallar-lhe, sim?
E tirou da carteira de couro da Russia, com monograma de ouro, um cartão em que se lia: C. de Sousa Portugal. Mandara-os fazer em Paris, eram os que usava no estrangeiro e já por vezes o tinham feito passar por conde.
A creada voltou:
—Que faça favôr de subir...
Claudio subiu e encontrou-se n'uma sala pequena, rectangular, com uma só janella saccada, e tendo por toda a mobilia um sofá coberto de palhinha, algumas cadeiras, um tapete, uma meza com um panno vermelho, sobre ella um candieiro, dois castiçaes, um par de jarras vasias e um album de photographias, e na parede um retrato a carvão, mal desenhado. A pobreza transparecia n'aquella nudez.
Emilia appareceu immediatamente, com um vestido de chita clara muito singelo, apertado no pescoço por uma larga fita de velludo preto e um alfinete de prata, um só annel, a alliança, na mão esquerda, o pequenino pé bem calçado de preto. Apertou a mão a Claudio e, começando a conversa, disse-lhe que o marido estava a descansar mas que ia chamal-o.
—Não o incommode v. ex.a por minha causa, vinha só apresentar a v. ex.as os meus respeitos.
—Mas elle é que ha-de sentir não o vêr.
—Pelo amor de Deus lhe peço, não o incommode.
Sentaram-se. Fallaram da reunião da vespera e apreciaram a belleza das raparigas que lá foram. Claudio teria estado melhor se podesse conversar um pouco mais, e accentuava significativamente estas palavras; mas o juiz, coitado! é que já não prescindia do whist e não quiz contrarial-o. A ella por certo não tinha acontecido o mesmo. Dansára toda a noite e n'isso estava a suprema felicidade, não era verdade?
A conversação da estrada de S. Braz recomeçava. Pela janella aberta via-se um largo campo em que uma rapariga graciosamente curvada ceifava, balouçando a fouce com agilidade, o azevem prestes a amadurecer que se estendia n'um vasto lençol, ondeando ao vento, em fugidios reflexos prateados; em baixo, tremiam os choupos verdes e luzentes, bordando os caminhos e abrigando os regatos; ao longe, a orla negra do horisonte com os montes cobertos de pinhaes; o ambiente, tepido e perfumado, dos fenos que seccavam ao sol, as pavêas alinhadas na terra e polvilhadas de pontos amarellos, murchas flores de malmequeres.
Viver n'aquella casa e dizer mal da vida provinciana era uma injustiça com a feliz sorte que o destino lhe concedia, dizia Claudio. Que linda payzagem! Nunca ali tinha vindo e era decerto um dos pontos mais bonitos da villa.
—Todos me dizem isso mesmo, respondia Emilia; mas ou por estar habituada ao local ou porque realmente não está no meu feitio apreciar estas cousas, nunca penso em tal paysagem. Venho á janella para vêr se temos sol ou se temos chuva. Só este silencio é de morrer! Parece-me que estou n'uma sepultura, eu que fui educada no meio de tanta gente. Não! Por emquanto não me dou por convencida!
—Mas hei-de convencel-a, creia v. ex.a Não me será difficil.
—Talvez...
—Com certeza. E mais tarde v. ex.a ha-de agradecer m'o. Será o meio de se aborrecer menos em Albergaria.
N'isto, o escrivão assomou á porta d'uma alcova, em chinellos, sem luneta e sem collarinho, a camisa desabotoada.
—Oh! disse confuso, queira v. ex.a perdoar, sr. doutor. Estava a descançar, senti fallar e levantei-me pensando que era o meu escripturario que ficou de me trazer esta tarde o borrão das novas matrizes da Afurada. De fórma que...
—Ora, sem cerimonia, á sua vontade. O que eu sinto é ter vindo perturbar-lhe a sésta, mas não queria deixar passar mais tempo sem vir apresentar os meus respeitos a vv. ex.as.
—Muito obrigado, muito agradecido, não era necessario incommodar-se.
—Estava admirando estas lindas vistas de sua casa...
—Ah! sim, não são más, mas a casa não presta para nada. Ora eu lh'a mostro que ella depressa se vê.
Emilia córou. Envergonhava-se da sua pobreza.
—Quem anda sempre com a mala ás costas, disse, sem paradeiro, não póde ter a casa em ordem. V. ex.a vae pasmar da nossa sumptuosidade.
—Que importa! apressou-se a responder Claudio, accudindo ao embaraço de Emilia. Bem pequena era a nossa casa de Villalva e viviamos lá contentes. Estou quasi arrependido de ter mudado.
O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos quartos, uma sala de jantar e para além, indicava, a cosinha, a dispensa e um quarto para as creadas. Não tem mais nada; lá em baixo uma loja para a lenha, este pedaço de quintal que se vê d'aqui, e mostrava o da janella; serve para os pequenos brincarem.
—Um cantinho delicioso; só esta vista vale um palacio, dizia Claudio.
—Não estou descontente. Na Pampilhosa habitei uma casa que nem vidros tinha! Esta ao menos é mais limpinha.
De pé, em frente da janella, conversaram ainda algum tempo. Claudio pedia informações da casa, perguntava os limites da propriedade, quanto teria custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos de Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente vender-se-ia porque elle trazia a propriedade muito desprezada e arrendada.
—É tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa um pouco mais abaixo, de fórma que podesse descobrir toda a varzea.
—Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!
—Não me quero prender, tenho ainda uma vida tão incerta... E não incommodo mais a v. ex.as, disse abruptamente, curvando-se e estendendo a mão a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que tinha vindo perturbar-lhes o seu socego. A culpa não é minha, a culpa é da amabilidade de vv. ex.as.
—Nós é que ficamos muito obrigados á sua amabilidade, replicava ella. Quando quizer apparecer... Estamos quasi sempre em casa; á noite mesmo, só saimos aos sabbados, a casa do dr. Carvalho.
—Não me despeço d'acceitar o favor, ia dizendo já a caminho da escada.
—Mesmo para vêr se me converte á boa doutrina...
—Hei-de converter, por Deus!
Claudio sahiu contente. A sua intimidade com Emilia caminhava a passos largos; ainda ha dois dias era uma desconhecida e já hoje lhe offerecia relações continuadas. O escrivão tambem devia estar contente; um desgraçado, sempre perseguido dos credores, havia de exultar com a amisade de quem lhe podesse valer com largueza. Era não desanimar nem perder tempo. Fallavam-lhe em ir lá á noite? Aproveitaria. Excellente! E depois Emilia cada vez lhe parecia mais tentadora. O que era a educação! Ainda n'aquella pobreza, que aceio, que ordem, entre quatro paredes caiadas e núas! Que differença entre aquelles habitos e o desleixo provinciano. Já mais de uma vez tinha notado como iam bem vestidos, na sua modestia, os dois pequenitos de Emilia que via á tarde, na botica, passando da escola. Devia soffrer muito a infeliz rapariga, tão fina de nascimento, ligada a um homem estupido e boçal que necessariamente a trataria como a qualquer escripturario de fazenda.
Uma breve impressão de piedade lhe passou no coração, mas immediatamente procurou affastal-a. Era uma preza que buscava, uma amante delicada e fina que lhe satisfizesse os sentidos e o espirito, já com pretensões a gôsos artisticos; nada de romantismos. Se se punha com pieguices, tinhamos outra Conceição, e para vergonha uma bastava. Aquella desculpava-se por creancice; agora devia ser homem. Ia gosar, não ia chorar.
Cuidado, muito cuidado, para que não désse algum passo em falso e prejudicasse a sua grande ambição! N'isso é que devia pensar. O resto... nada de escrupulos; se não fosse elle, havia de ser outro; era impossivel que ella se não aborrecesse d'aquelle bebado que demais tinha, segundo diziam, uma amante em Coimbra. Deus sabe mesmo o que já teria acontecido pelas outras terras onde ella andou. Caça d'arribação!
E com estes pensamentos fortalecia o animo para a sua nova empreza.
Emilia dissera-lhe que apparecesse á noite; havia de o fazer, era até a hora que mais lhe convinha.
Como tudo se encaminhava ao sabor dos seus desejos!
O dia livre para o estudo e para cuidar dos bens, a noite, essa noite que até agora tanto o enfadava, para as caricias da amante.
Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo pelo qual nunca podéra seguir no estudo cingindo-se aos programmas que architectava, fosse esta ausencia de prazeres.
Tambem devia contar com elles, como homem que era, para a propria perfeição, para alcançar a plenitude de desenvolvimento mental a que aspirava.
Para isso a influencia da amante devia ser salutar, vinha preencher uma lacuna da sua existencia.
Os impulsos de namorado transformavam-se na alma de Claudio em esperanças de gozo, de paz e de saber, d'essa vida tranquilla e nobre; e, o espirito enlevado n'esta illusão, esperou alegre a noite em que havia de voltar a casa de Emilia.
Não foi no dia immediato áquelle em que lá esteve pela primeira vez. Mostraria uma pressa que ao marido se podia tornar suspeita, e vaidosamente resolbêra usar de todas as precauções que á sua conquista conviessem, como homem astuto e habil. Nem sequer lhe devia passar á porta.
Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vêr os amigos, palestrou alegremente com o boticario, passeou bastas vezes no jardim, e assim consumiu o tempo d'estes dois dias que precederam a nova visita a Emilia.
Nada estudou e pouco pôde lêr; não se sentia em boa disposição, a alegria distraia-o, inquietava-o. Em pouco tempo, pensava, viria a tranquillidade, quando a sua vida estivesse definitivamente fixada.
Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha tantas esperanças. Seria melhor vestir-se antes de jantar e poderia mesmo referir-se a esse facto na conversação que tivesse com ella; devia engrandecel-o aos seus olhos o habito elegante de, ainda na provincia e só, mudar de trajo para se sentar á meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair medeiava um espaço de tempo em que não sabia que fazer... Era melhor vestir-se então e a Emilia diria do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.
Mentir! Não era isso tão mau, não lhe repugnava tão profundamente? Sim, mas por costume, por vicio de educação de que necessitava corrigir-se. Se a mentira era um instrumento proprio a conseguir o seu fim, porque não o havia de usar? A lucta pela vida, a lucta pela vida! Grande lei! N'essa é que precisava inspirar-se.
O jantar, em companhia da velha mãe, que lhe chamava ceia e pouco comia porque, dizia, tinha jantado ao meio dia, foi breve. Quando terminou, ainda a noite não se tinha cerrado.
Claudio recolheu-se aos seus aposentos; ia vestir-se pausada e esmeradamente. O relogio, parecia-lhe, caminhava lento; mau grado seu, achou-se prompto ainda não eram oito horas. Tinha-se impacientado talvez, apezar do proposito em contrario que fizera.
Era cedo, mas tambem custava-lhe esperar alli, quieto; ia dar um pequeno passeio e depois das oito horas se dirigiria a casa de Emilia.
Desceu a estrada que vae a S. Braz. Ao fundo da descida, sentou-se n'um banco de pedra que alli havia. Não iria mais longe. A poeira enxovalhava o e não queria voltar a casa para se limpar; poderiam estranhar tantos cuidados.
A noite estava calma e morna; sobre a sua cabeça uma abobada de arvores colossaes, cortada a espaços breves e raros pelas manchas do céu que empallidecia á luz do luar nascente.
Além, para lá do valle em que as aguas corriam murmurosas, ficava a casaria da encosta, ainda na sombra; depois, a viva crista dos montes; por detraz, erguia-se a lua jorrando silenciosamente a claridade. Nos loureiros, á beira dos regatos, debruçados sobre alfobres mimosos, cantavam os rouxinoes.
Claudio sentiu-se penetrado de poesia e de amor. A figura de Emilia passou-lhe nos olhos como uma apparição de pureza; não era n'aquelle momento a sensual amante que buscava, era uma belleza ideal que adorava.
Romantismo! oh! o maldito romantismo que o atacava! Quando se veria livre d'aquella molestia? Porventura seria incuravel e nunca chegaria a sua hora de forte e viril razão? Procurou dissipar estes sentimentos, que tinha por fraqueza, e começou a pensar no que iria dizer á Emilia.
Precisava lisongear-lhe os caprichos e instinctos feminis, fallar-lhe de elegancia, mostrar-lhe com que luxo vivera em Paris, no Continental, e como sabia aprecial-o. Por este meio havia de alcançar a sua admiração; d'ahi a mostrar-se em confronto com a grosseria e a rudeza do marido, o caminho era curto. Não poderia escapar-lhe.
Tinham batido oito horas. Emfim!... Era tempo. Podia ir sem risco de mostrar ignorancia dos costumes elegantes.
Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso e desesperado da sua anciedade. Sempre aquella fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis não, porque aquelle não tinha a menor difficuldade. A consciencia da sua desproporcionada agitação mais o irritava. Que podia temer? Que o não recebessem? Não voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas em uma só batalha. Era pedir muito. Vaidade da sua parte; concluia. O que elle receiava era a infelicidade na sua empreza que tomaria por uma prova de incapacidade para as luctas do mundo. Coragem, firmeza! Não havia de succeder assim.
Em casa do escrivão, veiu abrir a porta a creadita descalça, correndo pressurosa, da cosinha, onde preparava o chá, mangas arregaçadas e o lenço mal atado, quasi solto, a cair-lhe nos hombros.
—A sr.a D. Emilia recebe? perguntou Claudio, suspeitando de que Emilia o ouvisse e procurando uma linguagem elegante.
—Os senhores estão na sala, respondeu promptamente a creada. Faça favôr de subir.
Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro, Emilia costurava, um pequeno açafate pousado ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um jornal approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza sobre que estendia os braços e o papel.
—Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida e franca alegria.
—Eu tinha promettido... começou Claudio.
—Faz-nos muito favôr, interrompeu Ricardo. Nos dias em que não tenho de ir a Coimbra é sempre esta semsaboria. Olhe, os pequenos já estão deitados; mal anoitece, começam logo a cair com somno. A Emilia passa o tempo com os farrapos. A mim, o que me vale é o Seculo. É muito bom jornal. V. ex.a não costuma lêl-o?
—Não, nunca o vejo.
—Pois é bom. Ás vezes traz tres folhetins! É o que me vale. E ainda assim, quando Deus quer, ás nove horas estou na cama. Quando quizer... faz-nos muito favôr.
—Eu receiava vir perturbar o socego d'este cantinho. Imagino que os celibatarios hão-de ser muito importunos para a gente casada.
—Por mim nunca receie, disse Emilia. Ainda não pude habituar-me a deitar-me cedo; antes da meia noite não durmo. Por aqui me entretenho conforme posso. E ainda v. ex.a quer que me conforme com a vida de provincia!... Só estas noites são um castigo!
—N'esse ponto concordo. Tambem me custam um pouco.
Ia recomeçar a antiga conversação. Estavam satisfeitos os desejos de Claudio; teria ensejo de mostrar que, apezar das suas preferencias pela vida do campo, sabia o que eram os prazeres da vida aristocratica, experimentára-a, e em Paris tinha andado em todos os regalos do luxo. Para Emilia devia ser uma fascinação.
Mas em breve a conversação caiu no extremo opposto. Não era de Paris que se fallava, era de Villalva, da sua paz e das suas alegrias. Emilia ouvia-o com tanto interesse, tão meigamente o instigava á intimidade que Claudio, impensadamente, esquecendo todo o proposito anterior, caiu no mais completo abandono e começou n'uma confissão sincera, espontanea, d'um coração que estava a trasbordar d'affecto, almejando por um coração gemeo em que o vertesse.
Contava a morte do pae, a surpreza com que, recolhendo a casa, fôra encontral-o no leito, os olhos cerrados e a face livida, n'uma serenidade em que lhe parecia sobreviver um reflexo da sua imaculada consciencia.
Relembrava as silenciosas lagrimas da mãe junto do cadaver do esposo e quanta grandeza vira n'aquella mudez de estatua, n'aquella dôr tão pura que se concentrava recatada, como temendo polluir-se no contacto com a indifferença mascarada de lucto que sempre apparece n'essas horas. Elle, Claudio, não chorava. Sentia-se esmagado, mesquinho, perante esse quadro em que se resumiam tantos annos de communhão no amor e no trabalho. Intimamente perguntava em que dissipára os trinta e tres annos da sua existencia.
Só mais tarde é que poude sentir uma infinita saudade; só mais tarde é que percebeu bem o desapparecimento d'aquella sombra querida a labutar, a labutar, pelas frescas alvoradas, pela ardencia do sol, pelo frio penetrante, pelas noites do estio, ao frouxo reverbero das estrellas. No primeiro instante, fôra apenas uma grande lição. Que era a sua vida de estudo ao lado d'aquella ignorada epopêa? Aquelle sim, aquelle tinha chegado ao posto, aquelle tinha sido digno.
A confissão corria torrencial, como as aguas do açude que se despenham. Ricardo ouvia e vagamente presentia qualquer cousa captivante; Emilia, na sua delicadeza femenil, deixava-se levar n'um surdo e inconsciente arrebatamento de admiração. Já não provocava a conversação, interrogando; o mais espontaneo tornava-se para ella o mais agradavel. E, quando Claudio vendo o relogio se ergueu, ella exclamou com visivel pezar:
—Já?!
—São dez horas e não quero contrariar os habitos de v. ex.as Estou aqui ha duas horas! Para sécca não foi pouco.
—Quer provocar amabilidades, disse Emilia. Pois não lhe faço a vontade! Não digo nada.
—Faz v. ex.a muito mal. Quem cála consente e eu sou capaz de voltar.
—Queira Deus que seja breve!
Ricardo acompanhou Claudio até á porta e voltando á sala:
—Parece ter bom coração este rapaz, disse, dirigindo-se a Emilia.
—É muito sympathico e muito fino, respondeu ella. Ninguem ha-de dizer que foi creado na aldeia.
—Lá estás tu com toleimas. Imaginas que só essa gente de Lisboa é que sabe conversar. Um rapaz rico e que tem viajado!...
Emilia não replicou. Temia as brutalidades de linguagem do marido e não queria provocal-as.
Ambos se alegravam com as novas relações: ella, porque via em Claudio uma boa companhia para attenuar o aborrecimento das noites provincianas e o marido porque systematicamente cortejava todas as pessoas ricas que poderiam ter influencia, esperando alcançar melhor collocação. A sua aspiração, presentemente, era passar para recebedor; teria menos trabalho e mais alguns proventos.
Só Claudio é que saira descontente da rua da Cruz, descontente da sua inhabilidade, interiormente humilhado do seu procedimento. Não era aquella a conversação que tinha marcado como inicio de conquista; tinha feito tenção de fallar a Emilia da vida elegante e fôra contar-lhe intimidades de Villalva. Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter na vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre infeliz!
O erro era querer ser aquillo que as aptidões naturaes lhe recusavam. E, depois, praticára uma ruim acção cujos aspectos negros a imaginação lhe avolumava, dando-lhe as proporções d'uma grande infamia; fallára a Emilia da morte do pae, a Emilia que d'antemão tinha considerado sua amante! Como, por que estranha aberração de todas as regras moraes, que tão cedo se acostumára a respeitar, confundia as cousas intimas e sagradas, aquillo que no seu coração havia de mais recatado e nobre, com os mais baixos dos seus apetites? Fôra inhabil e fôra indigno, e esta suspeita torturava-o.
A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta oppressão. A fadiga e a frescura da madrugada trouxeram-lhe porém duas horas de repouso. Pelas sete horas da manhã despertava e a alegria da natureza, o bulicio do mercado, que era junto á sua casa, todo o fremito de vida proprio d'aquella hora conseguiram infundir no espirito de Claudio a tranquillidade perdida e porventura um vago contentamento.
Não! Exaggerava. Melhor fôra que não tivesse fallado da morte do pae, mas que mal houvera n'isso? Emilia não era sua amante. Era talvez, sob a apparencia de frivolidade, uma mulher digna; até o cuidado com que olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar bem da sua honestidade. Os amores não tinham passado ainda da sua imaginação, e quem sabia se na sua imaginação morreriam! Tudo tinha remedio. Não havia de que se arrepender. Tivera confissões intimas com uma mulher que conhecia ha pouco, mas de cuja dignidade não tinha direito a desconfiar; a isto se reduzia a sua falta, se falta tinha havido. Não era motivo para inquietações.
Tranquillisado o espirito, Claudio começou a frequentar os serões de Emilia, duas ou tres vezes por semana.
Os fumos de conquistador pareciam apagados, lançara-os á conta das suas bastas phantasias, e entregava-se sem reserva á doçura d'um convivio em que sentia mal definido prazer. Fallára á mãe em visitar Emilia. Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia, muito bem educada; havia de gostar d'ella.
—Ora, respondia a mãe, vou lá visitar fidalgas! Nunca me entendi com essa gente. Não saio do meu canto, estou velha para aprender costumes novos. E quem sabe lá o que ella será? Conhecel a ainda não ha um mez e já te parece uma santa. Caça d'arribação! dizia teu pae que Deus haja.
—É porque a minha mãe não a conhece. Em a conhecendo, ha-de gostar d'ella, verá.
Mas a velhita, na sua bisonha desconfiança, não se dava por vencida, meneando negativamente a cabeça.
Aos sabbados era a reunião em casa do dr. Carvalho. Claudio nunca faltava. Dispunha sempre as suas cousas de modo a que estivesse livre n'essas noites.
Emilia pedia-lhe singelamente que não faltasse e elle queria mostrar-lhe que nunca esquecia os seus desejos.
Demais, se o juiz não vinha, não havia whist e todos se juntavam em volta da meza do loto, palestrando e interrompendo o jogo a cada instante.
Então corriam horas deliciosas para Claudio, entregue desprendidamente á admiração de Emilia cujo espirito d'uma infantil alegria contrastava tão singularmente com as suas pesadas e sombrias duvidas habituaes. Para ella, a vida era apparentemente um trinado de aves.
Uma noite fallou-se dos passeios de Albergaria.
—Ha um muito bonito, mas é um pouco longe, disse Claudio, Lourosa.
Ninguem sabia onde ficava.
Claudio explicou:
—Lourosa fica entre Villar e a Ariosa. Sóbe-se a estrada até Villar, depois começa-se a descer e no fim d'uns tres ou quatro kilometros encontra-se a povoação. É uma aldeia, sem cousa alguma de notavel; os pinhaes que ficam entre Lourosa e Villar, esses são d'uma extraordinaria belleza, cortados de ribeiros orlados de choupos e salgueiros, os montes abundando em vegetação. Um retalho delicioso de natureza montanhosa!
Todos desejavam vêl-a.
—É bem facil, dizia Claudio. Saimos d'aqui de manhã, levamos o almoço, passamos por lá o dia e ao anoitecer estamos em casa. Depende só da vontade de v ex.as. É marcarem o dia e eu me encarregarei de tudo.
—Vamos lá! Estou prompto! Magnifico! Não falto!—grande alarido de vozes confusas em torno da meza.
Ficou ajustado o passeio; iriam o dr. Carvalho e a mulher, Emilia e Ricardo, as Silvas, de Barrosas, o reitor, o dr. Maia, um rapaz da Beira que tinha vindo advogar para Albergaria, e Claudio; ao todo umas dez pessoas.
Assim é que os passeios são bons, diziam; onde vae muita gente, d'ordinario não se passa sem qualquer cousa desagradavel.
Tres dias depois, ás seis horas da manhã, no pateo do palacio de Claudio, um char-à-banc ordinario tirado por dois magnificos cavallos, nédios e impacientes nos seus arreios burnidos, de ferragens reluzentes, esperavam os convidados. Em cima do carro havia tres cestos de verga, da ilha da Madeira, dois fechados e um terceiro coberto com uma toalha por baixo da qual se adivinhavam as garrafas de vinho.
Os convidados vinham lentamente. Claudio recebia-os á porta. O primeiro foi o reitor que, contava, já tinha dito missa e tomado a sua chavena de café; era fraco e ninguem o apanhava em jornada de estomago vasio. A isso, graças a Deus, devia a sua saude; não havia de fazer como o seu collega do Eiral que não tinha cuidado nenhum comsigo e agora lá ia para as Pedras Salgadas a vêr se conseguia algumas melhoras. Incommodo, despeza, e no fim viria bem ou mal, como Deus quizesse:
Depois do reitor veio o dr. Carvalho; tinha-se demorado um pouco e pedia desculpa, mas não quiz sair sem vêr a mulher do José Manco que estava com uma pneumonia, muito doente.
—Tenho feito clinica em muita terra, dizia, mas pneumonias como as d'estes sitios nunca encontrei. Terriveis! Quasi sempre fataes. Não sei se é do clima, se da constituição da gente... Ahi vem já o Ricardo e a sr.a D. Emilia com o dr. Maia. Bom! Só faltam as Silvas. Não pensei, ainda assim, que fossem todos tão pontuaes.
Emilia vinha apressada e risonha, ao lado do marido que conversava com o advogado, queixando-se ambos da madrugada. Trazia um vestido de chita azul guarnecido de rendas brancas, luvas côr de camurça e grande chapéu de palha clara com papoulas vermelhas. Trabalhára até á meia noite, a burnir o vestido, a pregar-lhe as rendas que eram d'um outro, e a enfeitar o chapéu composto com uma velha carcassa que tinha comprado ha dois annos e as flores que trouxera no chapéu de inverno.
O marido regateava-lhe uma a uma todas as despezas e envergonhada, ás occultas, andava constantemente remexendo os farrapos para improvisar enfeites que satisfazessem os seus appetites de elegancia.
Agora que tinha de acompanhar Claudio, cujo bom gosto começava a admirar, esmerara-se e vinha contente, julgando que elle havia de reconhecer no traje a distincção da pessoa.
Não se enganava. Claudio admirou a sua gentileza; intimamente fazia confrontos entre as senhoras da villa. Emilia era decididamente a unica com educação. Fina, muito fina! concluia no seu juizo.
Pelo seu lado, procurava tambem não decair no conceito da sua amada e pedia-lhe agora desculpa da pobreza da carruagém. Uma grande falta de recursos para fazer alguma cousa em termos! Tinha procurado um breack decente, mas nem em Coimbra o poude arranjar. Uma miseria! Vira-se obrigado a remediar-se com aquelle que ali estava e os seus cavallos. Se continuasse por ali, porque pensava em se estabelecer definitivamente em Albergaria, havia de comprar uma carruagem propria para aquelles passeios.
Eram quasi sete horas quando appareceram as Silvas, acompanhadas d'uma creada ofegante, com uma pequena cesta á cabeça.
—Ah! disse a mais velha, julguei morrer! Que estafa! Mas a culpa não foi minha. A mana não quiz vir sem trazer um bolo de sete cantinhos,—é muito bom, é ainda feito por uma receita que nos deu a D. Adelaide Saldanha,—e aquelle forno é um castigo. Primeiro que aqueça...
—Ora v. ex.a a incommodar-se... interrompeu Claudio.
—Deixe lá, deixe lá, disse o dr. Carvalho, que mostrava com ellas grande confiança, quem corre de gosto não cansa. E visto que foi para nosso regalo, havemos logo de lhe fazer uma saude. Olhe, já ali vão,—e apontava para o cesto das garrafas.
Recolheram-se todos á carruagem que partiu, oscillando ao sair o portal. O reitor e Ricardo tomaram logar ao pé do cocheiro.
—Vamos aqui melhor, dizia o Ricardo para o reitor, escusamos de aturar senhoras. É bom para o Maia que está novo e o Carvalho tambem... chega-se muito para as Silvas. É menino! Eu cá já não faço versos. Tomára eu mas é o almoço. Parece-me que já ia.
—O sr. tambem está sempre com essas cousas! Ora não seja má lingua... dizia o reitor.
Ao passarem na botica, estava o boticario á porta a conversar com o regedor do Sobral.
—A vida está para aquelles, disse despeitado por não ter recebido convite. O pae e o tio a pouparem para estes agora gozarem!
A companhia ia alegre.
As Silvas palravam com o advogado; interiormente sonhavam ali um casamento, sua ambição capital. Fallavam das suas flores, das suas gallinhas, dos cuidados que tinham pela adéga e pelo lagar d'azeite, procurando com deligencia pôr em relevo as suas virtudes domesticas. Mutuamente se elogiavam; uma sabia de cosinha como ninguem, não havia má cosinheira ás ordens d'ella; a outra, diziam, tinha nascido para homem, constantemente nos campos, á frente dos bandos na apanha da azeitona, entre as vinhas, no outomno, com grande chapeu de palha, dando ordens e berrando aos trabalhadores:
—Olha como levas esse poceiro! Não fazem nada em ordem! Que estupidos! Não póde a gente ter um momento de descanso...
O advogado ouvia e procurava palavras de admiração.
—Isso hoje é muito raro, dizia V. ex.as foram educadas á antiga. Bons tempos! As meninas d'agora vão para os collegios e vêm de lá anemicas, sem prestimo nenhum. Levantam-se ao meio dia e só servem para tocar piano.
Tambem elle pensava em casamento: queria cousa de conveniencia. A sua ambição era um dote de dez a doze contos de réis. Não o tinha ainda encontrado, mas não desanimava nas suas deligencias.
O dr. Carvalho procurava associar-se á conversação, ora com gracejos, ora lisongeando as Silvas.
—Muito tolinhas, pensava. Com algum geito ainda vêm a cair.
Claudio conversava tambem, dirigindo-se á mulher do dr. Carvalho e a Emilia, empenhado em prender esta ultima aos seus sentimentos. Apontava tudo o que na estrada ia vendo de pittoresco ou de bello, os carvalhos nodosos do Casal Novo, projectando-se nos montes nus e asperos, a varzea de Villar humida e mimosa, emoldurada nas montanhas que se encastellam em torno.
—N'este tempo, o campo é muito bonito, exclamava a mulher do doutor em admiração convencional.
Emilia, intimamente insensivel, sómente por ser agradavel a Claudio, repetia:
—É bonito, é realmente muito bonito.
Sentia-se bem, não pelas impressões da paysagem, mas pelo doce prazer de ouvir Claudio.
Tinham passado a primeira cadeia de montanhas começavam agora a descer rapidamente para Lourosa.
Á esquerda, no extremo horisonte, ficavam as corôas de neve da serra da Estrella, em frente, em toda a sua desdenhosa magestade, erguiam-se as serras da Louzã, as faldas bordadas de aldeias, de pinhaes e de campanarios, os píncaros despidos e negros, respirando, no ceu sereno e mudo, solidão e grandeza.
—Oh! amigo Claudio, disse o dr. Carvalho, parece-me que você se enganou; isto aqui ainda é mais feio que do outro lado.
—Oh! não. Eu acho este panorama magestoso. Magestoso, meu amigo!
—Será, não digo que não. Eu é que não vejo senão muita pedra. O que vale é que você hade tratar-nos bem. Que horas serão?
—Oito.
—Uma hora de caminho! Aquella subida de Villar é enorme e nós viemos devagar. Os seus pobres cavallos vão dizer mal do passeio. Com uma carga d'estas!
—Não, não é muito. Agora vamos depressa. D'aqui a meia hora estamos em Lourosa.
A carruagem ia descendo e o aspecto dos montes modificava-se; a vegetação tornava-se mais basta e os raros casebres dispersos eram construidos de delgadas laminas de pedra schistosa. Dentro em pouco atravessavam Lourosa.
—Então? dizia de cima o Ricardo. Cá o nosso reitor diz que estamos em Lourosa. Para onde nos leva você, ó doutor?
—Não seja impaciente; vá andando, vá andando que não se hade arrepender, respondia Claudio.
—Eu sei lá! Desconfio...
Apenas se passa a aldeia, a estrada perde-se serpeando nos pinhaes bastos e sem interrupção que cobrem aquella região de monticulos e desfiladeiros. Nem a mais pequena planicie; os accidentes do terreno são continuados e dos valles apertados, entre o matto espesso e tenro, solta-se um alento de viço e de frescura. As urzes floriam em quebradiços calices de rosa desmaiada, os fetos espandiam as rigidas frondes reluzentes e nas palidas giestas desabrochavam as suas fulvas e aladas flores.
—Ah! isto sim, isto aqui é outra coisa, disse o dr. Carvalho. Dou a mão á palmatoria. Sim, senhor. Valle a pena vir cá.
—Já vê que não o enganei, respondeu Claudio.
Tinham parado em frente da casa d'um cantoneiro, um pobre abrigo com uma só porta, sem janellas, feito de lageas toscas, quasi sem argamassa, a luz espreitando entre as telhas desunidas. Era ali que esperavam os creados de Claudio que tinham vindo adiante, alta madrugada, para fazerem os primeiros preparativos. Com a mobilia do cantoneiro conseguiram montar a mesa, em baixo, ao pé d'uma fonte, longe da estrada, para fugir aos curiosos, de modo que não fossem vistos de quem passasse. Eram essas as instrucções de Claudio. Estava tudo prompto, dizia um dos creados, para quando s. ex.as quizessem.
Claudio propôz á companhia um passeio. Era muito cedo, passeiariam agora pela fresca viriam depois a almoçar quando o sol apertasse, que o dia promettia ser quente.
Todos acceitaram. Só o reitor e Ricardo é que se apressaram a pedir que os deixassem ficar. Já sabiam o que era gente nova e o que eram as serras; não se fiavam nas pernas. Ninguem insistiu.
—Liberdade! disse o dr. Carvalho, cada um gosa a seu modo; e as Silvas, aproveitando o ensejo para fallar da sua actividade, diziam ao dr. Maia que não sabiam que gente era aquella, tão commodista. Para ellas não havia como andar a pé. Tinham ido uma vez á Senhora da Penha, umas boas tres léguas por maus caminhos. Pois ainda não era noite quando voltaram a Barrosas e do dia seguinte, ás cinco horas da manhã, estavam a pé como se nada tivesse acontecido.
Elle, o dr. Maia, respondia que tambem tinha sido grande andarilho, quando era mais rapaz, em Coimbra; fôra a Lorvão com os companheiros de casa. Mas agora não tinha tempo, por causa do escriptorio; uma vida sedentaria, que o matava. O que lhe valia eram os banhos do mar. Costumava ir para Espinho.
—Nós vamos sempre para a Figueira, disse uma das Silvas.
—Este anno provavelmente tambem para lá irei. Fica-me aqui mais perto e posso vir ao tribunal quando fôr preciso.
Entretanto Claudio fallava com o cantoneiro que lhe indicava o passeio. Desciam abaixo, á azenha, subiam pelo carreiro que se via do outro lado, atravez do monte, depois chegando acima encontravam um caminho; não tinham mais do que seguil-o e lá iriam ter.
Era um sitio muito lindo! Ainda o anno passado ali tinha estado o director das obras publicas com uma familia de Coimbra.
Dentro em pouco, Ricardo adormecia na cabana do cantoneiro, sobre uma esteira estendida n'uma velha arca, o reitor sentava-se n'uma pedra, á porta da casa, a lêr os jornaes que cautelosamente tinha trazido, e em frente, na montanha, iam subindo os restantes companheiros.
As Silvas caminhavam adeante, fazendo gala da sua robustez e rindo-se do Carvalho e do Maia que queriam acompanhal-as e se confessavam já cansados; atraz, a larga distancia, seguiam Claudio com Emilia e a mulher do Carvalho.
—Sangue quente! dizia Claudio apontando os que iam á frente. O sr. dr. Carvalho é que parece um rapaz, alegre e ligeiro...
—Foi sempre assim, respondeu a mulher do doutor. Muito rijo!
Claudio mostrava insistentemente a Emilia a belleza infinda das cousas por que passavam: a suavidade de colorido das primulas que bordavam a ribeira, os aljofares d'orvalho que cobriam o matto, os choupos tremulos na aragem da manhã, os pinheiros que se desenhavam nitidos na limpidez do céu, as vozes mysteriosas que se desprendiam do arvoredo. Queria que ella commungasse nas suas impressões e ella já não resistia.
—É bonito, muito lindo, respondia a cada instante.
O cantoneiro não os enganára. Passado o cume do monte, o caminho era ladeado de muros baixos, para defender os mattos dos rebanhos que passassem; continuava assim em longa distancia até que o pinhal começava a rarear e abria-se uma clareira. Tinham em frente, na margem opposta do ribeiro, uma ravina apertada por onde a agua corria, em pequenas cascatas, entre as azenhas e os pinheiros. Era a este logar que o cantoneiro se referira.
—Muito lindo! muito lindo! exclamavam todos.
Só uma das Silvas fez reservas.
—Sim, é bonito, disse; mas a nossa Albergaria não é peior. Só aquella abundancia d'agua!...
Desceram abaixo, atravessaram o ribeiro e subiram pelo carreiro que dava accesso ás azenhas. Pouco caminharam; estavam cansados, o calor já apertava, e, aos primeiros muros que encontraram entre a sombra do pinhal e á beira da agua, sentaram-se.
Claudio, sempre ao lado de Emilia, ia colhendo flores agrestes e fazia-lhe vêr as formas delicadas e os mimos de colorido que se perdiam ignorados por aquellas serras. Para que os jardins? A belleza espalhava-se por toda a parte, nas cousas mais triviaes, tudo estava em a perceber com olhos carinhosos.
Por isso o campo nunca lhe enfadava. A natureza era inexgotavel, as suas riquezas não tinham limite e a vida inteira era sempre breve, não diria já para as admirar que seria querer muito, mas para comprehender a sua existencia.
Quando se chega a isto, quando se adivinha o thesouro que a todos foi prodigamente aberto e que raros aproveitam, uma absorvente avidez de sensações nos invade e somos arrebatados por este espectaculo prodigioso e infindo que nos vem d'aquillo que antes chamavamos mudez e solidão. Animam-se os rochedos, no maior ermo acompanham-nos vozes desconhecidas; o coração captiva-se d'um amor puro e largo, immaculado e sereno. E como as cidades nos parecem então abominaveis, com as suas miserias e a sua vida de artificio e mentira! Nem satisfazem o espirito nem os sentidos.
Queria que Emilia se penetrasse do mesmo sentimento. Ella já não luctava; ouvia e nas palavras de Claudio sentia com deleite uma embalsamada frescura.
O dr. Carvalho e o Maia não deixavam as Silvas. Fallavam agora dos galanteios da Figueira no ultimo outomno e discutiam o procedimento d'uma menina de Coimbra que passava a noite a fallar, a uma janella baixa, com um janota de Lisboa, um tal Couceiro d'Abreu, que se dizia de boa familia, mas que pelos modos não o parecia.
Era a mais velha das Silvas que sustentava a conversa com o dr. Carvalho.
—Ella tinha desculpa, dizia. Uma rapariga nova, sem experiencia do mundo, não podia calcular o que se pensaria no meio d'aquella gente que morre por dizer mal e, quando não tem que dizer, inventa. Mas elle!... Um infame! É preciso ser muito canalha para jogar assim a reputação d'uma rapariga. Que eu não acredito... Os homens são todos assim, terminava suspirando, com os olhos baixos e fitos na ponta do guarda sol que cravava entre os seixos.
—Mas que mau humor, que maldade! Parece que já algum homem lhe fez mal.
—A mim?! Estão bem livres d'isso, eu lhe asseguro. Tenho os olhos bem abertos.
—Ora tem os olhos abertos... Eu queria vêr!... Se gostasse a valer d'um rapaz...
—Ai, nada, nada! Não sou de pieguices. Que tambem lhe digo: Se gostasse d'alguem, não havia de ter medo do que dissessem. Havia de lhe fallar onde melhor me parecesse. Com tanto que estivesse de bem com a minha consciencia...
—Bravo, bravo! exclamava o doutor, sonhando aventuras. Gosto de gente assim.
Claudio tinha-se levantado e, apoz elle, toda a companhia. Eram horas do almoço. Voltaram á casa do cantoneiro, seguindo o mesmo caminho por que tinham vindo.
A mesa estava posta n'um sitio ensombrado, o reitor já tinha lido os seus jornaes e contava pormenores d'um crime praticado no Poço do Bispo ao Ricardo que passeiava impaciente em frente da mesa, olhando sempre o carreiro por onde os companheiros tinham desapparecido.
Um pouco acima, encostada a uma canastra, uma creada adormecera.
—Olá, seus mandriões, gritou o dr. Carvalho dirigindo-se ao reitor lá do outro lado do monte.
—Vivam, vivam, respondeu o Ricardo. Já cá tardavam.
A mulher accordou.
—Muito moida, tia Venancia? perguntou o reitor.
—Sai de Albergaria ainda era noite. Já vinha ao pé do Hospital quando bateram tres horas, respondeu a pobre mulher.
O almoço começou quasi em silencio. Todos tinham estranhado a madrugada e o passeio; o calor e a fome acabaram de os alquebrar. Sentia-se a moleza e o cansaço. Só o dr. Carvalho resistia, sempre alegre e palrador. Estava habituado a não ter horas para dormir nem para comer; os doentes é que mandavam. Estranhava a Claudio o luxo com que tratava os seus convivas, que não era preciso; até as taças para o champagne tinha mandado vir. Um copo para cada um era quanto bastava.
—Principalmente para o Ricardo!... Um só e grande, segredava maliciosamente.
Pouco a pouco a animação ia surgindo, na excitação dos vinhos e das viandas; a conversação tornava-se continua, entre o bulicio da baixella e o riso dos convidados, cada qual elogiando o prato que melhor lhe convinha ao paladar e todos louvando Claudio.
—É um cavalheiro, um cavalheiro, dizia Ricardo, o prato coberto com uma enorme fatia de fiambre e lançando a mão a uma farta garrafa de Collares. Eu cá vou andando com este, não sei que graça acham a essas limonadas!
E apontava os vinhos do Rheno.
Estavam chegados ao champagne. As rolhas voavam entre os gritos das Silvas que com grandes gestos defendiam os olhos. O dr. Maia, que ha muito se calara ruminando o discurso, levantou-se para beber á saude de Claudio.
Não eram palavras banaes as que queria dizer; pretendia fazer um discurso que impressionasse os ouvintes e particularmente a mais nova das Silvas para quem começava a olhar como uma noiva possivel.
«—Minhas senhoras e meus senhores...»
—É muito amavel, não se esquece das senhoras, disse sorrindo com ironia o dr. Carvalho para a Silva que estava ao lado d'elle; e atrevidamente chamava a sua attenção, batendo-lhe com a mão no joelho, por baixo da mesa.
«Não era á minha humilde e obscura personalidade, não era a mim que sou um forasteiro n'estas terras e tão pobre de dotes de eloquencia, que competiria talvez saudar o nosso generoso amphytrião; mas a profunda estima e consideração que tenho pelo illustre doutor Claudio obrigam-me a levantar a minha fraca voz n'este concerto de bellezas da natureza, de illustrações e de formosuras que tocam o nosso coração...»
—Toma, diz em segredo o Carvalho para a Silva, aquillo é com a mana. A menina é que não apanha nada. Só se fosse um beijo que eu lhe désse!
—Não seja atrevido!
—Não seja má. E bateu-lhe novamente com a mão no joelho, procurando ajuizar da perna.
«O dr. Claudio, meus senhores, a cuja amabilidade devemos as boas horas que temos passado aqui e que jámais esquecerei, não é um homem vulgar. Tem seguido a evolução da sciencia e está ao par das modernas descobertas da sociologia. Eu que deixei ha pouco os bancos da universidade, não posso acompanhal-o nos arrojados vôos do seu estudo mas comprehendo a sua bella orientação positivista...»
E continuou assim fazendo o elogio de Claudio, até se lhe esgotar a provisão de banalidades que tinha adquirido em Coimbra. Ao fim, sentou-se vaidoso, procurando adivinhar a impressão que tinha deixado nos ouvintes.
—Muito bem, muito bem, sr. dr. Maia, disseram de differentes lados da mesa.
A Silva disse-lhe tambem em voz branda:
—Gostei muito de o ouvir, falla realmente muito bem.
—Não, minha senhora, isso é muita bondade de v. ex.a Não tenho tido uso. Aqui, na comarca de Albergaria, o movimento é pequeno e com estes jurados analphabetos não vale a pena estudar.
—Oh! não esteja com modestia... eu reparei que todos o estavam ouvindo com muito agrado. Na provincia é tão raro encontrar alguem que saiba fallar...
O reitor contava ao Ricardo dos prégadores que tinha ouvido. O melhor era o Alves Mendes. O que eu admiro, dizia, é a memoria que elle tem para metter aquillo tudo na cabeça!
Claudio estava embaraçado. Não contava com o discurso e percebia que os convivas esperavam a resposta.
Interiormente sentiu um momento de enfado que attribuia á impertinencia do dr. Maia, mas que de facto vinha do risco, que corria, de desmerecer no conceito de Emilia, a seus olhos supremo juiz do bom gosto.
Durante alguns minutos pensou no que iria dizer; depois, como impellido por uma subita resolução, levantou-se e disse:
—Agradeço as immerecidas palavras do sr. dr. Maia, que por certo foram dictadas pela consideração que me dispensa e não pelo que realmente valho. Entre aquelles que me honraram acompanhando-me n'este passeio, não quero fazer senão uma unica distincção, aquella que de justiça é devida. Saúdo de todo o meu coração as senhoras que com a sua formosura, o seu espirito e a sua gentileza generosamente nos déram estas tão breves horas de alegria!
—Vivam, vivam! Á saude de vv. ex.as! D. Emilia... D. Maria.
E todos beberam.
Claudio bebeu tambem, olhando Emilia. Era a ella que se dirigia e era a admiração pela sua graça que o inspirára.
—Foi pena ser tão pouco, disse o reitor para Claudio, sollicitando um discurso.
—Não perderam nada. Não sou orador. Isso é aqui para o nosso dr. Maia.
Os brindes não tinham fim. Cada qual bebia pelas pessoas das suas relações e o dr. Carvalho, que o calor do banquete tinha excitado, voltando-se para a Silva, disse-lhe quasi em segredo:
—A ultima, a virar e a serio, por uma intenção particular, por uma menina que sinceramente admiro e estimo!
—Agradeço em nome d'ella e posso assegurar-lhe que é pago com muita amizade.
—Não acredito, respondeu o Carvalho, fitando-a com olhos languidos.
E, voltando se para Claudio, accrescentou:
—E se nos levantassemos, oh doutor? Olhe que estamos á meza ha duas horas e não queremos morrer aqui de indigestão!
—Está dito. V. ex.as mandam.
Novamente os convivas se espalharam nos montes, reconstituindo-se os primeiros grupos; o Carvalho e o Maia com as Silvas, Claudio com Emilia e a mulher do Carvalho, o reitor ao pé de Ricardo.
Pouco se affastaram do logar do almoço; o calor, a madrugada, o cansaço do passeio e o pezo da digestão tornaram-os abatidos, molles e somnolentos. Só Claudio e o dr. Carvalho resistiam, movidos ambos por identicos motivos.
Ás quatro horas partiram de regresso a Albergaria. Houve um momento de animação aos primeiros movimentos da carruagem, mas em breve voltou o silencio proprio da fadiga.
O Ricardo cambaleava dormindo, os olhos cerrados por baixo da luneta, o collete desabotoado mostrando a camisa enxovalhada de suor. A mulher do dr. Carvalho, que tinha percebido os galanteios do marido com a Silva, desesperada com ciumes queixava-se de dores de cabeça. Claudio vinha scismando.
Porque não havia de casar-se? Que vida daria ao seu lar a graça e a elegancia d'uma mulher? Mas não era facil encontrar quem com instinctos d'artista se sugeitasse á vida monotona de provincia.
Emilia crescia agora aos seus olhos e na sua admiração. Que rara fortuna possuil-a! E como devia ser infeliz, ligada a um homem grosseiro e bestial! Uma irrepremivel compaixão o aproximava d'ella e mais um laço ligava aquellas duas almas que, n'uma turva inconsciencia, se iam prendendo e confundindo.
Cerca das seis horas, chegaram a Albergaria. Claudio conduziu cada um á sua casa e todos se apartaram com palavras de reconhecimento e cordealidade.
—Queira Deus, dizia Claudio á mulher do dr. Carvalho, que v. ex.a não fique a dizer muito mal do passeio. Talvez que uns granulos de antipyrina...
—Não, respondeu o doutor. É muito sujeita a dores de cabeça. Em dormindo, fica bem. Isto não vale nada. Quem déra que todos os dias assim fossem!...
Claudio tornou-se inseparavel da familia de Ricardo. A cada passo se encontravam juntos: nos passeios, á tarde, pela estrada do Sobral; na egreja, á missa e em dias de festa; á noite, em casa do dr. Carvalho e pelos serões da visinhança. Na botica estranhava-se a mudança de Claudio; commentava-se já com risos maliciosos e palavras mordazes. Só elle ignorava o que se dizia; feliz de tanta e tão bella amizade, a ella se entregava inteiramente e ingenuamente transformava em sentimentos puros, d'esta vez sem plano nem preoccupações scientificas, os projectos de conquistador com que dois mezes antes entrara em casa de Ricardo.
Entre Claudio e Emilia fazia-se rapidamente a permuta de habitos e costumes que é de regra entre amantes; ella cedia dos seus prejuizos lisboetas para admirar a natureza e conformar-se com a paz provinciana, elle esquecia a simplicidade de Villalva, o estudo e os propositos de vida laboriosa, para se confundir nas futilidades em que imaginava bom gosto e arte.
De facto, nenhum mudára; ambos passavam apenas por uma crise d'amor que lhes transfigurava o aspecto das cousas.
Para Emilia a natureza era um adorno, como as flores na meza do glutão que, só cubiçando as viandas, se compraz todavia cercando-as de frescura e perfumes; nada podia dizer ao seu mesquinho espirito a vida gigantesca da terra, o drama eterno e mudo em que os elementos se combatem e amam, captivantes de mysterio, insondaveis na profundeza dos seus destinos. Nem as arvores nem as aguas nem as montanhas podiam ter significação aos seus olhos apartadas da voz do amante e dos seus doces olhos, as brizas do poente que á tarde varriam a atmosphera ardente do estio, a sombra do loureiro que á hora da calma a protegia, o murmurar dos regatos e o canto apaixonado dos rouxinoes ao luar eram unicamente a faustuosa decoração do theatro em que se lhe revelava a imagem de Claudio, mas valiam aos seus olhos tanto como a rutilancia dos cristaes, das sedas e dos salões dourados em que o seu temperamento se formára.
Por sua vez, Claudio caia n'uma illusão parallela: pensava que Emilia lhe revelava um mundo novo de elegancia e arte, lançava á conta de rudeza a simplicidade que em tempos, que agora lhe pareciam distantes, adorava na casa de seus paes, e tomava por alargamento e complemento da educação do seu espirito a frivolidade a que só o arrastava a anciedade de se impregnar das graças da sua amada.
Pelo S. João acompanhou Emilia e Ricardo a Coimbra, a uma festa em casa d'um fidalgo, d'appelido Albuquerque.
Os Albuquerques viviam n'um palacio, proximo da estrada da Beira; a pouco mais d'um kilometro da cidade, encontrava-se um largo portão de ferro rematado por um brazão e continuado para um e outro lado pela gradaria alta que circumdava a propriedade.
De dentro trasbordava o arvoredo, os choupos, os platanos, as olaias, as palmeiras e as eras que vestiam as paredes d'uma crina frondosa; em frente do portão, uma alameda, bordada de buxo, que em leve declive conduzia, em linha recta, a uma curta e larga escada de pedra, de dois lanços, formando semicirculo, com uma grande taça de pedra ao centro d'onde a agua se derramava sobre um tanque em fios longos e scintillantes. A casa era d'um andar, sobre celleiros e adégas muito baixos, quasi inteiramente enterrados, tendo acima do sólo só as estreitas frestas que lhes davam luz. Entrava-se n'um largo vestibulo bem mobilado de escabellos em que destacava o vermelho e ouro do brazão que os encimava; á direita a larga porta d'uma capella, á esquerda uma extensa linha de vastissimos salões, em frente a entrada para o interior do palacio.
O velho Albuquerque, fresco e esmerado na sua velhice, o rosto vivo e malicioso lembrando os retratos de Henrique IV, com ademanes fidalgos recebia as senhoras no vestibulo e conduzia-as pelo braço ao coração da festa. Ao lado estava o filho que o ajudava n'essa tarefa. Fôra condiscipulo de Claudio e era ainda seu intimo amigo. Quando o viu, veiu para elle promptamente, e, n'um movimento de jubilo, abraçou-o.
—Mas que feliz surpreza!...
—Tantas vezes me pediste que viesse ás tuas festas e tantas vezes recusei que algum dia havia de quebrar o encanto. É verdade que faltei ao dictado... Vim sem ser convidado, mas já sabia que me desculpavas.
—Agradeço-t'o muito. Déste-me agora uma grande alegria.
—Tinha vontade de te vêr, creio que ha tres mezes que não nos avistavamos. Ultimamente tenho vindo pouco a Coimbra. Depois as instancias da familia do Almeida...
—Escolheste bem; a companhia é excellente. Gosto muito da Emilia! D'uma vivacidade... Que pena ter casado com aquelle homem... Mas anda cá, continuou o filho do Albuquerque pondo as mãos na cintura de Claudio e olhando o attentamente, reparo agora!... Estás um janota! Que é da modestia e do estudo e d'essa austeridade d'outros tempos?
—Um pouco mais civilisado, um pouco mais civilisado... Querias-me eternamente rustico?
—Não, quero-te assim, estás muito bem. Até me pareces mais bonito. Essa maluqueira de te metteres em casa com os livros, como n'um convento, era intoleravel! Ainda bem, ainda bem que estás a caminho da salvação! Que eu, verdade, verdade, tambem gosto de socego...
E entraram ambos na sala onde os pares se levantavam para a primeira quadrilha, em meio da confusão das sêdas e das joias, de cristaes, de moveis artisticos e de louças orientaes illuminadas abundantemente pelos candelabros de bronze que pendiam do tecto e pelas pratas cinzeladas que pousavam nos velhos contadores indianos. A casa dos Albuquerques tinha fama pelas suas festas, pelo luxo e pela alegria que tradicionalmente as caracterisavam, e muitos corriam ali só para admirar essa ostentação de opulencia.
Claudio teve um momento de pasmo, A vida simples de Villalva e a vida estreita que levava em Albergaria não o tinham educado a passar indifferente pela riqueza e pelo luxo; captivavam-no pela novidade, pela sensualidade, pelo preconceito bebido nos livros materialistas de que a expansão de todos os appetites era salutar e humanamente digna, e, mais do que isso, pela sympathia com o espirito frivolo de Emilia.
Todo o espectaculo que tinha diante de si lhe parecia admiravel; passava uma epoca, que seria breve na sua existencia, de cubiça mundana.
Dentro em pouco dançava com Emilia. Ella estava radiante, julgava-se transportada aos salões de Lisboa. Uma noite de baile era a reviviscencia das melhores lembranças da mocidade, d'aquellas a que o seu espirito mais insistentemente queria. A Claudio apontava aquella peça da India que só tinha egual na collecção d'El-rei D. Fernando, os brilhantes da condessa de Murtede que o Leitão avaliára em sete contos de réis, o vestido de setim da Costa Real, de Miranda do Corvo, feito em Paris quando lá esteve, na primavera, a graça, a distincção do velho Albuquerque, e toda a tremulina de fogos fatuos que lhe passava diante dos olhos. Elle ouvia e applaudia com palavras de admiração, que o amor lhe segredava, o enthusiasmo futil de Emilia.
Cerca da meia noite, o borburinho do baile afrouxou. No meio das salas ficaram grupos de casacas esguias e negras, em volta das damas formaram-se pequenos circulos de cadeiras; os creados entravam com grandes taboleiros pesados de finas iguarias, o Albuquerque e as filhas corriam as salas offerecendo os calices do precioso vinho das suas terras do Douro.
Comia-se alegremente e trocavam-se saudes intimas, com palavras banaes de convencional cortezia.
Claudio aproximou-se de Emilia; ia beber por ella, pelos seus filhos e pelo seu marido, pela sua felicidade e alegria. Os copos tocaram os labios e dois minutos de silencio disseram o que os labios calaram,—o affecto que n'aquelles dois corações surdamente crescia.
Á uma hora, já o Ricardo queria partir. Andára a arrastar-se pelas cadeiras, pelas portas das salas de dança e pelos cantos das mezas de jogo, mãos nos bolsos e luneta pendida sobre o nariz, até que chegasse a hora de se fartar: agora, replecto, a festa terminara para elle, queria dormir. Estava massado, dizia á mulher, e tinha no dia seguinte a repartição. Elle é que sabia o que isso era, com o mez de julho á porta e o semestre da contribuição predial para receber!
Claudio accudia em favor de Emilia:
—Seja rasoavel, dizia ao Ricardo; são tão poucas as occasiões que ella tem de se divertir...
Intimamente tambem elle tinha vontade de partir; ao deslumbramento das primeiras horas seguia-se uma sensação de fadiga e enfado, uma vaga necessidade de recolhimento e silencio. Porque? Mysterioso cansaço!
Abandonado, a um canto da sala, n'uma soberba cadeira de espaldar, ia seguindo com os olhos Emilia que valsava ligeira nos braços d'um rapaz estroina, todo fresco e risonho de cynismo e de saude. Comparava-a com as outras raparigas e cada vez mais se penetrava da sua gentileza. Até no trajar lhe parecia vencel-as, ella que para vir ali fôra buscar ao seu pobre guarda-roupa as unicas sedas que lá havia, um vestido preto que os paes lhe déram quando casou e uns farrapos côr de rosa com que o enfeitára.
Sahiram pelas tres horas da madrugada. A frescura da manhã, açoutando-lhe as faces, animava-os. Claudio e Emilia vieram conversando até Albergaria. Ricardo ia a dormir, oscillando com as trepidações da carruagem.
—Sim, dizia Claudio a Emilia, tudo isto é magnifico mas o socego dos nossos serões não é peior. Em regra, fico indifferente ás festas a que o coração é alheio; e n'uma multidão d'estas não póde haver intimidade.
—Tudo tem o seu logar. A mim, nada me refresca como um baile; fico bem oito dias, pelo menos. Dá-me saude.
Claudio voltava triste. Emilia julgava-o cansado e elle mesmo queria attribuir a sua inquietação aos effeitos d'uma atmosphera viciada e da excitação do fumo e do movimento. Só tarde pôde conciliar o somno, o corpo abrazado e dorido. Não se lhe varriam dos olhos e dos ouvidos os rumores das vozes e da musica, o brilho rutilante das salas e a imagem de Emilia valsando distraida e fogosa nos braços dos rapazes galanteadores e ousados. Inconscientemente, soffria as primeiras dores do ciume.
Estavamos chegados ao fim de junho. O dr. Carvalho aconselhava Claudio a que não deixasse de ir ás caldas. Só as inhalações das aguas sulphurosas podiam livral-o d'aquella bronchite, dizia. Era o que a sua experiencia lhe tinha mostrado.
Claudio defendia-se brandamente. Estava tão bem... Mas o Carvalho instava. Resolveu partir para as Caldas da Rainha.
No primeiro de julho, por um sol ardentissimo, foi a casa de Emilia despedir-se. Ella nunca tinha estado nas Caldas da Rainha, mas ouvira sempre á gente com que convivia em Lisboa que não havia terra de mais gozo. Todas as noites se dansava; os dias passavam se em continuados jogos e merendas á sombra do arvoredo.
—Embora!... respondia Claudio. Estava aqui muito bem.
E olhava a varzea e os campos d'onde se desprendiam sussurros d'aguas que iam descendo e um alento de frescura, sobre os milhos tenros, mimosos, regados n'aquella noite.
A voz de Emilia e a doçura da intimidade casavam-se com a suavidade da natureza. Teve um instante de desalento; sentiu derramar-se-lhe no corpo, como uma uncção venenosa, um torpor em que a vontade se aniquilava, mas, sacudindo energicamente a tentação, levantou-se, apertou a mão de Emilia com palavras d'um adeus vulgar, e saiu.
Em casa foi abraçar a mãe. Ingenua, resignada, sorridente na paz da sua alma, recommendava-lhe que tivesse cautela, tinha muito medo de remedios. Não gostava de o vêr partir, ficava em cuidados, antes fosse para Pariz.
—Tenho sempre muito medo! dizia.
Partiu. O movimento, a curiosidade da paysagem, as ininterrompidas cambiantes d'aspectos moderavam os movimentos de saudade e quasi lhe davam a illusão do esquecimento.
Depois, ao chegar ás Caldas, a installação, a consulta do medico, os banhos, novas terras, nova gente, cousas novas, trouxeram-n'o durante dois dias n'uma agitação que tomava por contentamento. Apressou-se a escrever á mãe, ao dr. Carvalho e ao Ricardo, referindo o que se passava e promettendo que voltaria ao fim de vinte dias, quando o tratamento tivesse terminado. Teria muito que contar aos serões.
Estava na firme disposição de se associar á vida mundana, assistindo aos concertos, passeiando todas as tardes na Matta, jogando o arquinho com as damas e o whist com a gente grave que Lisboa emprestava por um mez, dançando e galanteiando. Queria tomar os conselhos de Emilia e imital-a, para mais merecer no seu conceito.
A illusão foi breve. Ao fim de dois dias, com desespero e odio, fugia de toda a convivencia, procurava os cantos affastados e ermos para se concentrar nas suas lembranças, e opprimido, ancioso, como um tigre na jaula, revolvia-se na estreita cella que habitava n'uma hospedaria.
A ausencia revelára-lhe o amor. Percebia agora até onde levianamente tinha caminhado. Dissipada toda a duvida, sabia,—com que amargura!—que o seu coração estava preso a Emilia, cuja imagem o acompanhava sempre, sempre, fundindo n'uma só ambição todos os desejos, todas as preoccupações e todas as necessidades.
Que era feito das suas convicções materialistas, dos seus propositos de conquistador, da alegre esperança com que d'animo leve procurava a casa de Ricardo? Por que estranha inercia deixára transformar essa viril resolução no affecto candente que o consumia? Mysterioso impulso!
Era por certo uma fraqueza. Havia de occultal-a firmemente, sem um minuto de desfallecimento, aos olhos do mundo, e ainda mesmo aos seus mais intimos amigos. Ás vezes tinha uma esperança e dizia comsigo:
—Pieguice! Tambem assim foi com a Conceição e hoje vejo-a passar, casada, com os filhos ao collo, sem o menor desejo. Hei-de curar-me; tudo se gasta, tudo esmorece.
Em pouco tempo adoecia. As saudades e a agitação constante em que ellas o traziam determinaram um aggravamento da doença que o tinha levado alli. Ao cair da tarde começava a febre, a noite passava-se em suores, e pela madrugada dormia então prostrado um somno povoado de pesadellos. Não queria medico; sabia bem qual era o seu mal.
Uma manhã, com surpreza do creado, que sempre o estranhára e nunca podera comprehendel-o, pediu uma carruagem e correu ao caminho de ferro.
Só a viagem bastava para lhe restaurar as forças. Quando á noite chegou a Albergaria, parecia-lhe que todos os soffrimentos tinham sido apenas um sonho mau.
Não o sentiu porém assim a pobre e velha mãe que, recebendo-o surprehendida e alvoroçada, ao attentar na sua physionomia escalavrada por dez dias d'ausencia de Emilia, mal poude conter as lagrimas.
Claudio mentiu-lhe. Fôra uma constipação com alguma febre, uma noite que se demorara na Matta. O medico dissera-lhe que só passados vinte dias podia continuar no tratamento e por isso voltára para casa.
N'isto, beijou-a, intimamente pedindo n'este beijo, supplica muda, perdão da mentira. Ella estranhou-o mas, tomando o apenas como sêde dos seus carinhos, passou-lhe a mão no rosto, affagando-o.
—Não ha de ser nada, se Deus quizer... Parecia-me que o coração me adivinhava qualquer cousa, quando te vi sair.
O serão prolongou-se até muito tarde, Claudio perguntando pelo que se passava em Albergaria e a mãe ouvindo o que era a vida nas Caldas.
—Ai, Senhor! Que dinheiro se gasta n'essas cousas! exclamava. E tanta pobreza por esse mundo...
—E Emilia!?
—Não a tinha visto, mas dissera-lhe o filho, na egreja, á missa, onde o tinha encontrado, que a mãe não saia porque andava um pouco doente.
Claudio estremeceu. O quê?! Ella tambem!... E calou-se um instante, absorvido n'esse pensamento, entre o temor e a alegria.
Bateu uma hora da noite. Era tempo de se deitar, dizia a mãe; precisava descansar, não lhe voltasse a febre.
O filho beijou-lhe a mão e recolheu-se ao seu gabinete, a caminho do quarto em que dormia, que era contiguo.
Abriu a janella para lançar os olhos sobre o jardim. Quantas vezes nas Caldas se lembrara com penetrante saudade d'elle e da sua tranquillidade, a que associava o vulto de Emilia! Vinha do norte uma densa névoa que envolvia as arvores n'uma gaze humida e fresca, das magnolias rolavam gottas d'agua caindo descompassadas sobre as folhas seccas que juncavam a terra, e as aguas rumorejavam sumindo-se nos sorvedouros que atravez da encosta as levavam aos ribeiros. Toda a voz humana se calava, só a natureza cantava o seu infindo e eterno canto.
N'aquella frescura Claudio procurava um balsamo, mas a inquietação abrazava-o, embalde o peito arquejante se dilatava nas auras matutinas. Esperava um somno tranquillo. Entre as nuvens de poeira que o tinham acompanhado ante-gozára o repouso no seu leito, no silencio do seu lar e na alegria de voltar em poucas horas a vêr Emilia; e o silencio não lhe trazia repouso e a frescura não lhe abrandava esse fogo estranho que lhe corria nas veias!
Mentira á sua mãe. Esse pensamento torturava-o. Nunca o tinha feito. Queria affastal-o, procurava motivos que lhe satisfizessem a consciencia. Mentira, é verdade, mas que mal resultava d'ahi? Não fôra só para occultar o seu amor por Emilia? E a quem interessava esse amor senão a elle, a elle só? Debalde! A razão não lograva dominar a dôr que estava ali, como um espinho, cravada no coração, penetrando cada vez mais fundo. Depois, Emilia... que lhe diria, que pensava ella?...
Lembrava todo o passado, os continuados passeios, as palestras intimas, a mutua confissão de todos os cuidados, de todos os bens e de todos os males da existencia de cada um. Muita vez se tinham referido á sua amizade mas nunca entre elles se fallára de amor.
Para Claudio essa illusão terminára. Sabia que a paixão o consumia. Havia de occultar-lh'a porque era uma offensa á sua honra e porque, se ella a adivinhasse, havia de repellil-o com a sua intemerata virtude.
É verdade que a mãe lhe dissera que Emilia tambem adoecera na sua ausencia... Mas não! Era impossivel! Não cabia na sua candura a sombra d'um pensamento criminoso. Criminoso?! Pois era crime o affecto entre duas almas irmãs e o desprezo do homem vil a que Emilia se achára ligada n'um momento infeliz? Convenção estupida contra que a natureza protesta, frageis leis humanas que a vida deroga a cada instante, desmentindo-as e escarnecendo-as!
E todavia não podia libertar-se da duvida! A convicção não lhe empolgava o espirito. Mentira a sua mãe, havia de mentir-lhe todos os dias occultando-lhe o intimo do seu coração, fugiria de todos guardando o segredo de que córava, perseguido pelos phantasmas implacaveis da sua consciencia. A consciencia! Tambem o amor era crime? Que tinha elle com o que o mundo pensava?
Não fôra intencionalmente que procurara aquella mulher, não era seu direito,—lera-o nos livros, aprendera-o nos evangelhos da sciencia!—conquistar todos os bens que a sua força podesse alcançar? A vida era uma lucta. Gloria aos vencedores, vergonha aos vencidos! Queria a sua hora de luctador, queria a sua hora de triumpho, queria as palmas da victoria, elle que tão mal dispendera os primeiros annos da mocidade n'um timido recolhimento. Mas voltava uma onda de amargura... Não, não podia ser! E a honra de Emilia? e o seu nome? e os seus filhos? Que duvida! que angustia!...
Altas horas, adormeceu, prostrado d'este doloroso meditar. O somno foi breve; pela madrugada ergueu-se e desceu ao jardim.
O sol bebia os orvalhos da noite, uma branda aragem do norte varrera a névoa, no ceu azul corriam ligeiras, a perder-se no horisonte, pequenas nuvens alvas e leves. A natureza despertava para a vida, e no renascimento da luz Claudio colhia a sua parte de vigor.
A inquietação da noite fôra um desfilar de phantasmas que iam longe, como as nuvens para que levantava os olhos. Talvez a febre, o cansaço da jornada... Em poucas horas veria Emilia. Havia de occultar-lhe a tempestade por que passara, transformal-a em pura e candida amizade.
Fôra um erro, uma falta, ter mentido a sua mãe. Pezava-lhe ainda, magoava-o. Para o futuro, porém, não teria necessidade de a repetir porque na sua existencia nada haveria que precisasse occultar. Todas as attribulações dos ultimos dias passavam como um sonho mau, e ia seguindo pelas ruas do jardim na embriaguez do leve perfume que as ultimas rosas espalhavam no ar, juncando a terra, desfolhadas e emmurchecidas pelo estio.
Á beira do lago pendia d'um rochedo um jasmineiro; sobre as aguas boiavam as suas flores singelas e brancas. Debruçou-se, ajoelhado na terra e colheu um ramo. Era para Emilia.
Voltou a casa contente e almoçou com a mãe. Tinha dormido pouco, dizia-lhe, talvez excitado da jornada, mas sentia se bem, com bom apetite. O dr. Carvalho é que o aconselhara mal;—coitado!—de boa fé. O que elle precisava não eram banhos das Caldas, era estar em casa socegado com os seus livros e as suas flores. Ali sim, ali é que tinha saude.
A mãe applaudia: graças a Deus nunca precisara sair da aldeia senão para ir a Coimbra ou á Figueira, no S. João. Sempre assim vira fazer aos da sua condição. Agora é que tudo eram doenças e banhos de mar e remedios da botica. Muito dinheiro e pouco que fazer! Não sabia como essa gente governava o que era seu, a sair a cada instante, a casa sempre em mãos dos creados. Deus a livrasse de tal vida! Até tinha escrupulo...
Onze horas. Claudio levantou-se. Ia vêr o dr. Carvalho, explicava, passaria por casa de Emilia, e depois viria descansar. Tinha medo do calor, estava muito fraco.
Saiu e dirigiu-se a casa do dr. Carvalho.
O dr. Carvalho estava no escriptorio, de esporas, chicote na mão e chapeu na cabeça, ouvindo um cliente. Correu risonho de braços abertos para Claudio.
—Estava agora mesmo para ir a sua casa. Fui ao Amial que tenho lá uma mulhersinha com uma perniciosa,—e bem mal,—e ia vêl-o. Então como vae, diga-me cá? Que foi isso? Aqui ficamos todos muito surprehendidos ao dizerem-nos que tinha voltado. Foi o Martins, quando veiu ao chá, que trouxe a noticia. Ainda quiz ir saber como tinha chegado mas estavam cá as Silvas e depois, quando ellas sairam, era tarde, já passava da meia noite.
—Isto não foi nada. Demorei-me um dia a conversar na Matta com o conselheiro Andrade, estava fresco,—ali nas Caldas ha para tarde um norte mesmo frio, e a bronchite aggravou-se. Tive uma febricula. O medico do hospital disse-me que devia suspender os banhos e, em vista d'isso, achei que o que tinha a fazer era vir-me embora. E fiz bem! Já esta noite dormi descansado.
—Em todo o caso, tenha cuidado. Eu acho o ainda palido e um bocadinho abatido. Deixe cá vêr esse pulso... Está bem, mas tenha cuidado, tenha cuidado. Nem mesmo devia sair com este calor.
—Não vou para longe; quero só visitar os amigos. D'aqui a pouco estou em casa.
A visita foi breve, Claudio contando rapidamente como se passava o tempo nas Caldas e o dr. Carvalho referindo o que se passára em Albergaria. Tudo muito desanimado com a falta de Claudio; até aos serões pouca gente tinha apparecido. A Emilia não saia, andava um pouco incommodada do estomago, o dr. Maia estava para a Beira, elle, Claudio, nas Caldas, o Ricardo sempre a caminho de Coimbra; só as Silvas e o reitor é que se conservaram firmes. Quasi nem havia parceiros para o quino.
Saindo de casa do dr. Carvalho, Claudio dirigiu-se á repartição de fazenda, á esquina da rua da Cruz.
O seu desejo era ir immediatamente a casa de Emilia, mas já desconfiado, procurando evitar toda a suspeita, com a astucia vulgar dos namorados que a ninguem illude senão áquelles mesmos que a usam, foi primeiro procurar o Ricardo para fazer crer que o interesse e a amizade se estendiam a toda a familia.
O Ricardo, mal o viu, levantou-se logo.
—Como está v. ex.a tem passado bem? perguntou muito respeitoso, afastando a cadeira com ruido e atirando apressado o cigarro para o escarrador.
—Um pouco incommodado; foi por isso que voltei mais depressa.
E reeditou a velha historia da Matta, da bronchite e do medico que só ao fim de vinte dias o deixava continuar a tomar banhos.
—Ora muito sinto, muito sinto, repetia Ricardo, procurando dar á voz uma intonação magoada.
—E em sua casa, a sr.a D. Emilia e os pequenos como vão?
—Muito obrigado, os pequenos optimos, cada vez mais travessos; a Emilia é que não tem passado bem, com uma grande falta de appetite e muito fraca. O dr. Carvalho já lhe receitou uns granulos de quassina e de arseniato de strychnina, mas ella teimou em não tomar nada. Que está bem, que está bem, que não precisa remedios... Deus queira que não me dê ainda alguns trabalhos!
—Eu hei de ir vêl-a, disse Claudio mostrando desprendimento mas intimamente ancioso.
—Olhe, deixei-a agora mesmo a costurar na sala. Fui a casa beber uma cerveja, que este calor mata-me! Nem posso trabalhar, tem-se me atrazado o serviço!...
Claudio aproveitou o ensejo.
—Não quero interrompel-o por mais tempo, á noite conversaremos com vagar... Então, se me dá licença, vou ali vêr a sr.a D. Emilia... Até logo...
—Não se incommode... dizia ainda para Ricardo que se dispunha a descer a escada e a acompanhal-o até á porta.
Os poucos passos que medeavam entre a repartição de fazenda e a casa de Emilia foram para Claudio lentos e compassados. Dominando os movimentos, por um esforço da vontade, julgava dominar a anciedade e porventura libertar-se assim da inquietação. Á porta bateu cautelosamente, o peito opprimido, suffocado de impaciencia. Lembrava-se da primeira vez que ali fôra. Tambem então estava ancioso, em alegres esperanças de conquista, e agora,—quanto caminho andado em tão breves dias!—ali estava novamente mas escravisado pela paixão, torturado de duvidas, turvado pela dôr.
A creada desceu, como de costume, abriu, e d'esta vez, sem hesitações, exclamou:
—Ah! o sr. dr. Claudio!... Faça favor de entrar. A sr.a D. Emilia está na sala!
Claudio subiu. Entrou na sala, quando Emilia, já de pé, tendo ouvido a sua voz e apressando-se a deixar a costura, vinha ao seu encontro.
As mãos apertaram-se n'um movimento de franca e irreprimida alegria; n'um momento pareciam magicamente dissolvidas todas as duvidas e todas as dores.
Sentaram-se e a conversação começou precipitada, rapida. Sentiam-se ambos bem; á frescura da sala com as janellas semi-cerradas juntava se a frescura do espirito faiscante no contacto dos dois corações amorosos.
Para Claudio as Caldas eram uma estação deliciosa; as horas passavam se ligeiras em concertos, em bailes, em passeios, n'uma festa continuada de graça, de luxo e de elegancia. Lembrara se lá muitas vezes de Emilia. Como ella havia de apreciar aquelles dias que correspondiam tão bem á delicadeza da sua educação! O peior fôra a constipação que não o tinha deixado concluir o tratamento. Seria outro anno! Paciencia. Tambem tinha a compensação de se vêr na tranquillidade da sua casa.
Emilia estava um pouco surprehendida com a doença de Claudio. Só pelo jardineiro que trouxera o ramo de jasmins soubera do seu regresso, que o Ricardo, conforme velhos habitos, em casa só parava para dormir e comer, pouco fallava. Mas suppozera que se tinha aborrecido da vida e da gente que elle chamava ironicamente a gente fina, e por isso voltára ao ninho.
Ella, tambem, tinha passado mal, do calor, provavelmente; uma inapetencia e uma fraqueza que a não deixavam um instante. Não tinha saido de casa, nem uma só vez, depois que elle partira.
N'este ponto, a conversa esmoreceu e fez-se um momento de silencio. Claudio fitou Emilia, viu-a pallida, os olhos cavados, todo o viço minado pela paixão.
Perpassando-lhe pela mente, n'uma vertigem, a lembrança da torturante saudade que soffrera, arquejante de desejo, caiu de joelhos, e beijando-lhe as mãos que apertava nas suas convulsivamente:
—Emilia! Emilia! balbuciou com a face occulta no regaço.
Ella, muda de surpreza e entorpecida d'amor, mal tentou desembaraçar-se dos laços que a prendiam.
De repente, Claudio levantou-se, como n'um subito e apavorado despertar:
—Perdoe-me, perdoe-me pelo amor de Deus, disse para Emilia.
E tremulo, desvairado, correu a esconder-se em casa.