IV
Olhe, ahi vem o dr Carvalho que lhe póde contar alguma cousa, dizia o boticario para o recebedor, atirando os dados sobre a taboa do gamão.
—De quê? do calor? perguntava o Carvalho entrando. Tem sido de morrer. Esta manhã tive de ir a Sarnadas...
—Mas responda lá, é verdade ou não é?
—Respondo... mas hei-de saber primeiro o que me pergunta.
—É verdade que o Claudio vae todas as noites, á uma hora, para casa da D. Emilia emquanto o bebado do Ricardo está no melhor do seu somno?
—Ora...
—Ora!... Elles até já teem saido a passeiar! Ainda a semana passada umas mulheres, que iam ás tres horas da noite para a feira de Monteiros, os encontraram sentados lá em baixo, ao pé da fonte. Tambem agora só de noite... que de dia não se pára com calor.
—Eu acredito lá n'isso! Quando mesmo fosse verdade o que vocês querem dizer, ella ia deixar o marido, os filhos e a creada, e sair para fóra de casa! Bastava que um d'elles accordasse para a comprometter.
—Vê o doutor o Claudio por aqui?!... Metteu-se na toca como um rato dentro do queijo. É que arranjou coisa melhor que a nossa companhia. E faz bem. Olhe que eu antes me queria com ella aos couces que com o nosso recebedor aos beijos. Não é peste nenhuma.
—Não sei... essas cousas são faceis de dizer. Vejo-os em minha casa todas as semanas, ainda não descobri n'elles signaes de namoro. Conversam, jogam e até ás vezes passam quasi toda a noite sem se aproximarem um do outro.
—Não que elles iam mesmo namorar-se para sua casa! Se não fallam um com o outro é porque andam entendidos. Para mim é mais uma razão. Que o doutor deve defendel-os... Tambem nos saiu bem bom...
—Adeus, adeus, que estão hoje com muito má lingua, apressou-se o Carvalho a dizer, fugindo com receio de que lhe fallassem na Silva que continuava a seguir, com boas esperanças de conquista.
Estavamos a este tempo em fins d'agosto, mez e meio depois que vimos Claudio saindo como um louco de casa de Emilia. De facto, retraira-se; com o pretexto nos seus estudos e na sua debil saude, fechara-se em casa e quasi ninguem o via. Entregara-se por completo ao drama da sua existencia.
Aquelle dia em que de volta das Caldas tinha ido vêr Emilia, ficára-lhe na lembrança. Fôra a hora mais cruel de toda a sua vida. Recordava-o a todo o instante, como se trouxesse cravado no peito um punhal que lhe rasgava as carnes a cada movimento.
A mãe estranhára-lhe a pallidez vendo-o entrar. Não era nada, resultado da fraqueza e do calor; ia dormir um pouco... Fechou-se no quarto, atirando-se para um sofá, succumbido de pavor. O que fôra? Que loucura o fizera ajoelhar aos pés de Emilia? O que pensaria ella? Perdel-a-ia, julgando-o um vulgar conquistador, ou começava uma vida d'amor? Que fizera dos seus propositos de amisade e da energia com que havia de dominar toda a paixão? Por outro lado, pensava, ella resistira frouxamente quando elle lhe apertou as mãos. Era pois verdade que o amava?
Um refrigerio se lhe derramava nas veias. E a mãe? Ai! mentira-lhe; tão cedo olvidára as torturas da noite! Não, não seria assim, não seria levado por uma hora de desvairamento. Havia de voltar a casa de Emilia, poderia agora abrir-lhe completamente a sua alma, fazer-lhe inteira confissão do seu amor, das suas duvidas e ella, se o amava,—era certo, era certo!—havia de querer, como elle, uma vida pura, uma vida sem macula, em que nenhum tivesse de córar nem perante o mundo, nem perante a propria consciencia.
A consciencia! Voltava esse estranho phantasma. Onde, em que livros, em que systemas aprendera a guiar-se por esse feitiço interior, onde vira provada a sua existencia? Imaginação doente! Não havia consciencia, não havia deveres deante de dois entes aproximados pelos impulsos do amor que os abrazava e confundia. Ah! pensasse baixinho... estava ali sua mãe, sentia-lhe os passos, vinha talvez escutar, saber se dormia. Não fosse adivinhar o que lhe passava pelo espirito e morrer na cruz de tamanha dôr! Que lhe dissera ella na estreita sala de Villalva, pelas noites de luar, ao pé do Christo? Lembrava-se agora! A consciencia, a consciencia!
Fôra alli que se lhe revelára essa apparição que o vigiava implacavelmente.
Havia de obedecer-lhe. Sentia um fremito de coragem que o erguia do abatimento e da duvida. Mas não!... Delirava.
Não eram escrupulos que o atormentavam, era o receio de perder o amor de Emilia, de se ter apartado para sempre do seu coração, ferindo-a na sua virtude. A que baixeza descera!
Não eram melhores os remorsos, a consciencia atribulada, que esta misera prisão á fragilidade d'uma mulher? Quem lhe déra libertar-se! Porque não havia de o fazer? Para que voltaria a casa de Emilia? Cobardia! Havia de a insultar e fugir? Pediria primeiro o seu perdão,—ai! quanto lhe seria doce! depois... talvez, talvez...
E o seu espirito perdia-se n'um labyrintho e o coração vogava em ondas de dôr.
N'este martyrio passou todo o dia. Ao jantar queixou-se á mãe. Ainda não se sentia bom. Se fosse estar dois dias em Villalva, poderia fazer-lhe bem a mudança d'ares. No dia seguinte resolveria, conforme fosse a noite.
Interiormente, esta palavra fazia-o tremer. A noite! O que iria passar-se entre elle e Emilia? Contava uma a uma as horas que o aproximavam d'esse momento decisivo e, por mais doloroso que o imaginasse, apetecia-o.
Ás oito horas batia á porta da pequena casa da rua da Cruz. A custo subiu a escada; o corpo mortificado arrastava-se pesado e lento, banhado n'um frio suor d'agonia.
Mal entrou na sala, deixou-se cair sobre uma cadeira. Emilia estendeu-lhe a mão, silenciosa, mais pallida ainda do que elle a vira de manhã, com lagrimas de emoção a toldarem-lhe os olhos. Claudio olhou em volta. Estavam sós. Podia fallar.
—Por certo me terá julgado severamente, mas se quizer fazer-me a esmola de me ouvir,—é uma esmola,—ha-de perdoar-me.
—Não tenho que lhe perdoar, interrompeu ella tremendo, escusa de me dizer cousa alguma, sei muito bem o que se passa no seu espirito... Eu é que sou infeliz!
E as lagrimas desprenderam-se-lhe pelas faces.
Fez-se uma longa pausa e a conversação continuou.
N'esta mutua confissão em que o amor desabrochava, sentiam-se ambos bem; partiram-se as cadeias que os prendiam n'um mutismo oppressivo e as palavras voaram como um bando de rolas soltas á luz por uma alegre madrugada.
Claudio podia contar todos os soffrimentos por que passára e Emilia responder-lhe, descobrindo a seu turno o intimo do seu peito.
Tambem ella tinha soffrido muito ao vêr crescer esta affeição. Chamava-lhe assim, repugnava-lhe a palavra amor em que sentia mais de perto a quebra da fidelidade conjugal.
O adulterio repugnava-lhe, invocava para o repellir o dever e a religião, sem todavia sentir a profundeza d'aquellas obrigações.
Repugnava-lhe porque era feio, era de mau gosto, contradizia os preceitos da sua educação e não cabia no convencionalismo estreito que era toda a sua regra moral, vasia de sentimento.
Envergonhar-se-ia de ser infiel ao marido pelas mesmas razões que a levavam a passar noites crueis procurando tirar dos seus farrapos trajos elegantes, para competir com a gente fina cujas relações frequentava.
Claudio ouvia e applaudia, penetrado de admiração perante tão sublime virtude, ingenuamente julgando ter encontrado par ás suas duvidas e atribulações, onde de facto só havia um fragil simulacro de grandeza moral.
Esta noite, que se annunciára tormentosa, derramava em ambos os amantes uma tranquillidade profunda.
Tudo agora ficava determinado d'uma vez para sempre.
Perdoada a falta de Claudio, que se punha á conta do arrebatamento produzido pela presença de Emilia ao fim de tantos dias de saudade, quebrada toda a repressão dos sentimentos intimos, podia assim reconhecer sem remorsos o seu mutuo affecto todo impregnado de respeito.
Seriam como irmãos; elle com a sua amizade trazer-lhe-ia lenitivo á tristeza da infelicidade conjugal, aconselhando-a, guiando-a e amparando-a pela presença d'um coração fiel, ella havia de banir a aridez das horas de estudo de Claudio pelas graças do seu espirito. A vida tornava-se perfeita.
O encontro d'aquellas duas almas fôra um bem providencial para ambos, perdida uma em busca de carinhos, perdida outra na desventura d'um destino amargo.
Duvidas, saudades, hesitações, tudo se dissipava nas brizas propicias do amor triumphante. O espirito vergou-se ao sentimento e acceitou, sem perplexidade nem confusão, esse flamejar de desejos, tomando-o por uma aurora luminosa e serena.
Claudio entrou no seu palacio, fatigado mas alegre, a refazer-se n'um somno povoado de venturas. No dia seguinte podia dizer á sua mãe:—Graças a Deus, estou melhor;—e ella veria contente, como a benção das suas orações, a vida e o rubor voltar ao rosto do filho.
Pela calma do estio as flores beberiam o viço nos regatos e a natureza havia de povoar-se de vozes harmoniosas e clementes, cantando em côro com os amantes felizes.
Era boa occasião de voltar ao estudo, satisfeitas as vagas aspirações sentimentaes que nunca deixavam de o seguir. Tinha o affecto da mãe e de Emilia. Que mais precisava? Devia mesmo romper com perniciosos habitos de ociosidade provinciana, gastando-se a inquirir das intrigas do soalheiro e expondo-se a ouvir, com a brutal liberdade da gente rude, allusões ás suas relações com Emilia que outros poderiam interpretar injustamente. Por isso deixára de frequentar a botica, armado para uma vida de pureza e de saber. Na seccura das suas preoccupações racionalistas infiltrava-se um desconhecido fermento de poesia cujos primeiros e rapidos movimentos lhe davam a illusão da felicidade.
D'essa illusão partilhava Emilia, e para ella era completa. Rapidamente esquecera o dia em que Claudio voltára das Caldas; na sua leviandade mulheril, entregava-se sem reservas ao prazer da hora presente.
Ella, tão pobre de carinhos, abandonada do marido que cada vez mais se entregava aos seus vicios, sentia como uma infinita suavidade a nova atmosphera de affecto que a envolvia. Já não havia dores que fossem unicamente suas, já não havia cuidados que não tivessem confidente, afflicção que não tivesse soccorro. A imagem de Claudio entranhava-se-lhe no coração como o supremo bem e sabedoria. Era bello tudo o que elle amava, era bom quanto elle julgava bom. Deixára de a tentar o ruido das festas, a vã agitação por que algum tempo suspirava, para esquecer as mágoas; a natureza e o seu silencio ou os seus mysteriosos murmurios diziam-lhe agora mais que todos os artificios que com delicia lhe deslumbravam os olhos.
Para elle, ainda não chegára a hora de inteira tranquillidade. Estava bem, não havia remorso que lhe pesasse, poderia confessar toda a sua vida. Mas não a confessava. Porque? Não era tão puro, tão casto o seu amor por Emilia? Não córava elle lembrando-se que algum dia pensára em fazer d'ella sua amante? Não estava resgatada essa affronta, que nunca communicára a ninguem, pelo respeito com que agora a idealisava, santificando-a e adorando-a como martyr? Embora!
Não ousava fallar de Emilia, temia que alguem manchasse com ruins desconfianças este amor immaculado. Nem á sua mãe o confessava; na ingenuidade do seu pensamento condemnaria talvez o affecto por uma mulher casada e não poderia comprehender a isenção do filho.
Por isso se calava, por isso fugia d'antigos companheiros com que francamente ria de amorosas aventuras picarescas, arrastando dentro de si, como um pendulo que oscilla e mortifica, esta constante reserva e o temor do que elle julgaria injustiça. A sua vida era feliz, mas apertava-se dolorosamente, cercada de phantasmas.
N'este idyllio se consummiram quatro mezes. Claudio frequentava pouco a casa de Emilia, sempre perseguido d'uma vaga suspeita do naufragio da honra da sua amada.
Encontrava-a em casa do dr. Carvalho uma vez cada semana, via-a na egreja, acompanhava-a nos seus breves passeios. Só de longe em longe a procurava na rua da Cruz, contando os dias, para que a frequencia se não tornasse notada da visinhança. Inutil cuidado; o cynismo vulgar, melhor inspirado do que o idealismo poetico, não se illudia sobre a realidade, satanicamente commentava a familiaridade e sorria.
Uma tarde, nos primeiros dias de dezembro, á hora em que o sol ia baixando e um frio sereno e humido annunciava os gelos da noite, Claudio entrava na villa, regressando d'um passeio a Palhares, com Emilia, com as Silvas, a mulher do dr. Carvalho e o Maia.
Este, tendo partido um casamento rico que tentára na Beira, voltava-se agora com mais insistencia para a Silva, tanto mais que lhe haviam dito que ellas tinham em Monteiros um tio rico de quem seriam herdeiras.
Averiguára pelo juiz que lá estava, um seu parente, e viera a saber que o homem era realmente rico; pagava uns noventa mil réis de contribuição predial, tinha bastante dinheiro a juro, fóra um bom mealheiro que guardava em casa, como grande avaro que era. Não constava que tivesse testamento, nem o faria porque isso lhe repugnava. Os unicos herdeiros eram as sobrinhas.
A herança devia estar para breve. Elle contava setenta e quatro annos, já o anno passado tinha tido um antrax que o pozera ás portas da morte, e os medicos diziam que não podia ir longe; havia desordens no funccionamento dos rins, perigosas e incuraveis.
A duvida era uma unica: este homem tinha um filho natural d'uma creada, mas nunca o reconhecera, correndo-o com uma bengala uma vez que o pequenito, por conselho da mãe, lhe pedira a benção no meio da rua.
Pretendia que elle fosse filho d'um creado, com quem a rapariga tivera amores, mas, para maior segurança, quando o rapaz tinha quatorze annos, mandou-o para o Brazil. Sabia-se que elle vivia e que de lá soccorria a mãe, a quem o velho abandonára na miseria.
O Maia, porém, não se assustava com isto; já conhecia alguns casos mal parados de investigação de paternidade illegitima que o affoitavam, quasi se sentia tentado com a demanda para dar largas á sua actividade profissional, e conhecia o processo por que ordinariamente estes terminam casos.
O rapaz não tinha dinheiro para custear o pleito e viria a uma conciliação, contentando-se com uns magros contos de reis.
Na verdade, esse grupo que vinha estrada acima cantando louvores á natureza,—a tarde estava lindissima! não se cansavam de repetir,—cuidava apenas de amores.
O Maia procurava mulher e fortuna; Claudio contemplava a sua Emilia; a Silva, a mais velha, que dizia agora que não se queria casar porque não estava para aturar homens,—queria a sua independencia!—a cada instante olhava para traz, a vêr se descobria o dr. Carvalho que tinha ido á Varzea visitar os doentes, e a mulher do Carvalho, que andava muito inflamada em ciumes, vinha guardando a amante do marido.
Pararam na praça. Havia alli um grande ajuntamento, em volta d'um trapezio erguido no meio da calçada e tapetado em baixo com immundos farrapos.
No trapezio estava sentado um homem magro, as faces cavadas, vestido d'uma desbotada malha côr de rosa, calçado de cothurnos brancos; em baixo, de pé, uma mulher, tambem vestida côr de rosa, saia curta, coberta de lantejoulas que se estendiam em arabescos pelos hombros, levantava do chão uma creancita magra, longos cabellos louros e olhos azues, e arremessava-a ao homem do trapezio. A creancita, voltando-se no ar, soltava um grito agudo e o homem recebia-a nos braços.
Claudio voltou-se constrangido, para não presencear este quadro de miseria, e, ao lado d'elle, uma rapariga do povo, que era linda, voltou as costas tambem.
—Credo, Virgem Nossa Senhora, nem quero vêr! disse ella.
—Eu tambem não gósto, respondeu Claudio.
—Quem ha-de gostar de vêr o innocentinho alli aos trambolhões?! Até parece que o desmancham.
—São modos de vida. A fome tudo póde.
—Antes pedir esmola.
E trocaram ainda mais umas breves palavras, com uma subita sympathia tirada da mesma compaixão.
O dr. Carvalho não tardou a chegar, risonho e animado.
—Vamos para casa, disse para a Silva, antes que se faça noite, que lhe quero dar um ramo de violetas como ha muito não vê. Tenho-as lá magnificas. Deu-m'as o jardineiro da condessa de Albergaria. Uma maravilha!
A mulher do Carvalho córou, e lá seguiram todos a caminho do jardim.
Claudio acompanhou-os até á porta e voltou a casa, para não mais sair n'aquelle dia. Emilia ia taciturna.
—Tão calada? perguntou Claudio.
—Estou com frio.
—Deus queira que não lhe vá fazer mal.
E separaram-se.
No dia seguinte, á tarde, Claudio foi á rua da Cruz saber de Emilia.
Com grande surpreza, appareceu-lhe Ricardo, dizendo que a mulher estava muito incommodada desde a vespera.
Logo ao chegar a casa, fôra atacada de vomitos; desde então nunca mais a tinha deixado uma violenta dôr de cabeça.
—Até chorava, dizia o Ricardo.
Tinha querido chamar o medico, mas ella toda se exaltára com a lembrança, dizendo que isso ainda lhe fazia peior, que nunca se chamou um medico por uma dôr de cabeça e que o maior beneficio que lhe podiam fazer era deixal-a só, em paz e socego.
Claudio ficou no maior desalento. Evidentemente, tratava-se d'uma doença grave, para que Emilia não fizesse o esforço de se levantar do leito e vir vel-o quando não podia ignorar que elle ali estava. O seu primeiro impulso foi instar pela assistencia d'um medico, mas depois, reflectindo, receiava contrarial-a e aggravar o mal. Resolvia esperar mais vinte e quatro horas que antecipadamente sabia serem de agitação.
A noite foi afflictiva. A possibilidade da morte de Emilia perseguia-o como um espectro, povoando-lhe a escuridão de visões tenebrosas. O despontar do dia, porém, alliviou-o; dissipava os sonhos, parecia dar-lhe consciencia mais nitida da realidade. Não seria cousa grave! A sua imaginação é que tinha certa tendencia a representar-lhe o peior. Até poderia ser que áquella hora tudo estivesse passado! O que o preoccupava agora era determinar a hora de ir vêr Emilia.
Preferiria a tarde para não mostrar excessivo cuidado. Oh! Senhor, que vida! Não ter a liberdade de confessar os seus sentimentos, sempre em continuados temores, fugindo como um criminoso... E não o era!
Mas não podia esperar tanto. Sete horas da manhã!... Teria ainda dez horas. Impossivel. Iria depois de almoço. Que lhe importava o que podessem dizer. Ia ás occultas, porventura?...
Era meio dia quando chegou á rua da Cruz. Á creada perguntou por Emilia. Estava melhor, já se levantára, até de manhã descera um bocadinho ao jardim.
Subiu ligeiro e contente, alliviado d'um grande peso; entrou na sala que estava deserta, Emilia tardava e por certo já lhe tinha ouvido a voz... Era singular! Ella que sempre corria para elle tão pressurosa...
Decorreram longos minutos, Emilia aproximava-se a passos lentos, compassados, parando a meio do corredor, para dar á creada umas ultimas ordens. Claudio esperava-a de pé, frenetico, movendo-se nos dois passos que medeavam entre a meza e o sofá.
De repente, perpassara-lhe pelo corpo um frio de terror. Emilia vinha para elle com aquella mesma pallidez caracteristica que já um dia lhe conhecera e em que só os seus grandes olhos ficavam boiando como pharoes, em braza, n'uma toalha alva e mate, orlada ricamente pelos mais finos cabellos.
—O que tem? perguntou Claudio afflicto, prendendo-lhe a mão. Estranho-a.
—Não sei, respondeu ella pausada e desprendidamente. Foi apenas uma dôr de cabeça, um pouco mais violenta do que as que costumo ter. Antes fosse uma doença grave! Que faço eu n'este mundo?!...
—Não seja injusta nem cruel com os que a estimam. Se soubesse o que eu tenho soffrido ha algumas horas...
—Não vale a pena. Que falta lhe podia fazer? Haveria muita rapariga fresca e nova que o cubiçasse. Conheço-me. Olhe: ainda ante-hontem vimos uma bem bonita na praça, aquella que esteve ao pé de nós. Não lhe pareceu?
Claudio só então comprehendeu que Emilia ardia em ciume. Correu-lhe o sangue ao coração, seccaram-se-lhe os labios e, como uma féra precipitando-se sobre a preza, lançou os braços em torno da cintura de Emilia, beijando-lhe as faces em convulsões de desejo.
—Claudio, Claudio, exclamou ella, tentando libertar-se, endoideceu?
—Não, não endoideci, respondeu elle tremulo e o rosto congestionado. A culpa é sua, unicamente sua. Fica assim convencida do meu amor?
Já não era o timido que nós viramos soluçante, implorando perdão, por uma calma noite de julho. A cubiça e uma instinctiva mas plena certeza de dominio tornavam-n'o arrogante e despotico. E Emilia obedecia, defendendo-se frouxamente com o temor do escandalo e da sua vergonha, inconscientemente dominada por um ardor de paixão que a fazia acceitar como boas as razões que o amante ardilosamente inventava para a levar a quanto lhe apetecia.
Não valia a religião nem o dever; a culpa era do destino que, tendo-lhe dado um marido repellente e sordido, lhe deparava agora uma alma irmã da sua.
Claudio voltava a casa agitado de contentamento. Todos os escrupulos, todas as preoccupações se baniram ao alento d'aquelle corpo que tivera nos braços, ao contacto d'aquella face cuja impressão sentia ainda nos labios.
A animalidade vencia, a satisfação da carne punha em debandada os terrores da alma transformando-os em deliciosas e captivantes esperanças. Voltaria á rua da Cruz no dia seguinte, á mesma hora, quando Ricardo estivesse na repartição e os filhos na escola. Sequioso dos beijos de Emilia, todo se entregava a essa cubiça absorvente.
Eil-o novamente vagueando entre as flores, n'esse jardim que fôra e seria ainda o theatro das suas inquietações, esperando o bater do meio dia como cavallo fogoso escarvando a terra e mascando o freio, a orelha fita ao toque do clarim que marcará a partida.
Quem lh'a déra ali, por essa tarde de dezembro em que o sol tão brandamente penetrava a terra passando entre os troncos nus das arvores desfolhadas pelo inverno! Iria colher violetas á sombra dos cedros e a meiguice dos seus beijos havia de confundir-se com o perfume subtil e inebriante, o amor a adejar na luz pallida e cariciosa.
Onde estavam as dolorosas duvidas de ha pouco, onde o respeito pela sua amada que havia de pôr no sacrario a que não chegariam as palpitações da concupiscencia impura? Sonhos vãos, vãos propositos! Nem d'isso já se lembrava! Varrera-lh'o da lembrança a chama em que todo o seu ser ardia n'uma transformação gloriosa.
Com que alegria subiu á sala de Emilia!... Mas Emilia vinha triste, os olhos macerados, mysteriosa, perseguida d'um pavôr que nem o anceio de vêr o amante podia dissipar. Não se assustasse Claudio... Ricardo desconfiára, estranhára as visitas áquella hora, ameaçára-a. Tudo porém se poderia arranjar, ella lhe mandaria dizer quando e onde se poderiam encontrar. Depois lhe contaria pausadamente como isso se passára; não se demorasse, saisse quanto antes. Que não se affligisse, ella era a mesma. E abraçaram-se.
Claudio voltou a casa; todo o seu peito entoava hymnos de triumpho. Era sua! A certeza do amor de Emilia vencia todas as atribulações e resgatava todas as dores passadas. O ardor da paixão e a coragem confundiam-se n'um só fogo, impetuoso, subindo para os céos, á serenidade olympica do amor victorioso.
Na mesma tarde d'este dia em que tivéra o primeiro annuncio da desconfiança de Ricardo, Claudio recebeu uma carta de Emilia.
O marido partira para Coimbra e ella pedia-lhe que viesse, ás dez horas da noite, a uma pequena capella abandonada que ficava junto á casa, na rua da Cruz, e que com ella tinha communicação interior.
Entregaram a carta a Claudio na presença da mãe, no fim do jantar. Teve de mentir. Disse que era do prior de Villa Nova, a pedir-lhe que fosse lá á noite. Estava com um ataque de gotta e não podia sair.
—Foi-se metter na eleição da junta de parochia e agora ha-de querer que eu lhe dê os votos de Villalva!...
Para se conformar com o que disséra á mãe, saiu ás oito horas. Não era verosimil ir procurar um velho, n'uma aldeia, ás dez horas da noite. E ainda, para retardar a partida, foi preciso inventar uma carta longa a escrever, inaddiavel, que justificasse a permanencia em casa.
Seguiria pela estrada acima, caminho de Villa Nova, e voltaria torneando a villa, a entrar na rua que o levaria em direitura a casa de Emilia; mas, quando chegou ao extremo da villa, eram apenas oito horas e um quarto. Que fazer? Impossivel dirigir-se já á capella; poderiam vêl-o e comprometteria Emilia.
Seguiu para deante. Foi sentar-se n'um logar deserto, á beira do caminho, sobre o parapeito d'um aqueducto, esperando.
Accordava agora do desvario sensual em que todo o dia andara arrastado; a treva, a fadiga, o silencio, o isolamento e a immobilidade forçada despertavam-lhe a consciencia. Era um crime o que ia fazer? Não era; a paixão convencia-o da propria innocencia. A ninguem prejudicava, nem mesmo a Ricardo que fôra o primeiro a abandonar a mulher. Não a roubava aos filhos, para que havia de privar-se do seu amor? Este mundo é uma conquista; queria a sua parte. Mas porque então este sentimento d'amargura á hora em que ia satisfazer-se a sua maior ambição? Mentia e a mentira repugnava-lhe.
Não vira elle o que lhe acontecera com a mãe ao receber a carta? Mentira! Era a voz que sentia echoar pelos despidos cerros dos montes e pelas sombras do olivedo nos valles. Mentira! Mentira!... Olhava em torno. Viria alguem?... Que importava? Quem o sabia? Oh! não, tinha-o escripto na fronte, illuminada por uma luz de remorso. Fôra loucura... Porque não fugiu, porque não se affastou para longe a primeira vez que encontrara Emilia? Emilia!... Quanto soffreria ella tambem?!... Devia-lhe amparo, fôra elle que a tentara na paz da sua virtude, fôra elle que lhe derramara no sangue, como um veneno, aquella pallidez com que a vira nas horas de soffrimento e que se lhe gravaria nos olhos para sempre.
Queria vêl-a, queria abraçal-a,—fortuna suprema! E o amor e a compaixão casavam-se na mesma anciedade.
Finalmente, ás dez horas, abriu-se a porta da capella da rua da Cruz. Claudio não a conhecia.
Foi preciso que Emilia o guiasse na escuridão, apenas cortada pela escassa luz que vinha da porta lateral que abria sobre os campos e dava passagem para um alpendre da casa de Ricardo.
A capella estava abandonada; servia apenas de palheiro e arrecadação de alfaias de lavoura. Iam sentar-se no degrau do altar-mór, unica elevação que havia no pavimento lageado e raso.
—Tambem alli está um confissionario velho, disse Emilia, mas só tem um assento, o do padre.
—Leva-me lá, respondeu Claudio, quero ajoelhar aos teus pés e pedir-te perdão das minhas faltas.
—As suas faltas!...
—Suas?... Não me chames assim. Parece que me affastas.
Ella sentou-se e Claudio ajoelhou. Estava tremulo e frio, gelado pelas longas horas de espera na estrada deserta e mortificado pelas angustiosas cogitações em que o lançavam as luctas interiores da paixão, as contradições do dever e do desejo, da realidade cynica e das aspirações ideaes. Caíra como prostrado, mudo de emoção, esmagado de duvidas em que a amargura e o contentamento se confundiam n'uma mesma vibração.
Ella estava serena, na simplicidade do amor apartado das complicações d'uma consciencia intelligente e timida. Estava nos braços do amante, que lhe envolviam a cintura, ninguem o sabia, e esta ultima circumstancia bastava a tranquillisal-a. Não havia duvidas intimas; tudo se reduzia a convenções mundanas que, illudidas ou compridas, ficavam sempre igualmente satisfeitas.
Pouco e pouco, Claudio reanimou-se no alento da amante. A sensibilidade vencia. E tarde, pela noite calada, recolhia a casa n'uma plenitude de vida e de contentamento que ha muito lhe era desconhecida.
A sua existencia tornára-se completa, julgava elle com a fé mais firme; ia entrar n'um periodo de fecunda e longa tranquillidade. Considerava-se unido para sempre a Emilia no mais puro hymeneu, ella era a legitima esposa do seu corpo e da sua alma, a que devia fidelidade que do coração lhe votava. Quizera o destino, por um capricho cruel, que essa mulher vivesse separada d'elle, n'uma vida de privações e de penas, mas esse facto não enfraquecia nem prejudicava a união. Pelo contrario, sublimava-a, introduzindo-lhe elementos moraes de paciencia e resignação que inflamavam os amantes pela lucta perpetua.
Restava a Claudio dispôr as cousas externas conforme as novas condições da sua existencia.
Para illudir a mãe, faria um pequeno gabinete, em baixo, ao pé do jardim, em que passaria as noites, sem ninguem o sentir. Iria á rua da Cruz nos dias em que Ricardo fosse a Coimbra, repetiria quanto possivel os passeios e jornadas que o affastasem de Albergaria,—convinha ao bom nome de Emilia, cuja honra se lhe afigurava immaculada,—e evitaria mesmo frequentar a casa do dr. Carvalho com a assiduidade que até então usára. Voltaria a completar os seus estudos que d'esta vez tinham todas as condições de proseguir até ao fim, satisfeito o corpo e envolvido o espirito n'uma atmosphera de poesia. Assim seria a sua vida até á hora derradeira em que queria morrer os olhos fitos n'essa imagem que era o sangue do seu sangue, a sua razão de ser.
N'este novo caminho, em que affoitamente entrou, deu aos seus estudos uma nova direcção. Era necessario resolver o problema moral, que ha tantos mezes o inquietava, era necessario pôr de harmonia a razão e o sentimento, descobrir os motivos que haviam de justificar plenamente a sua existencia e banir todas as duvidas que o turvavam.
Na verdade, a sciencia nada lhe dissera. As leis da lucta pela vida e do transformismo nunca lhe podéram explicar nem porque era doloroso mentir a sua mãe nem por que motivo havia de occultar os seus amores com Emilia. Conveniencias sociaes? Mas então os instinctos naturaes não são o melhor juiz dessas conveniencias e não conduzem á perfeição final? E, se assim não é, se ha parallelamente outras leis, quaes são, em que se fundam, que princípio as sancciona, como e em que modificam as primeiras?
Evidentemente, a sciencia era incompleta; nada lhe dizia sobre aquillo que mais o interessava e mostrava-se incapaz de lhe offerecer tranquillidade. Porque era verdade que vivia inquieto.
Voltava-se para os livros de religião e de moral. Devia haver uma outra sciencia. Lia Epicteto, Marco Aurelio, os padres da Egreja e, entre os modernos, Renan, Amiel e Tolstoi. A vida seria, nas palavras d'estes, o desprezo do mundo e da carne, a conformidade com o destino, a exaltação no amor e na humildade. Os primeiros serão os ultimos e os ultimos serão os primeiros. N'este mundo, todos somos irmãos. «Irmãos, amae-vos uns aos outros!» As palavras do evangelista tornavam-se uma obsessão.
Se assim era, que crimes eram os seus, na occiosidade, na traição e na mentira! Dominava-o um impulso de arrependimento. N'uma tragedia intima, repetia: Pequei! Esquecia a sciencia. O corpo e os seus apetites não eram uma realidade tambem? Sim, de certo, mas melhores seriam as privações do que a tortura d'aquella vida sem repouso...
N'este drama, passou cerca de dois annos. Aos olhos dos estranhos, a quem os amores escandalosos, por muito continuados, se tornaram indifferentes, a tranquillidade parecia perfeita. De facto, nenhum obstaculo de natureza material existia.
A mãe de Claudio não se julgava no direito de pôr estorvos á sua vontade, desde a morte do marido; nos seus inveterados habitos de servir e obedecer, considerava o filho o seu senhor. O Ricardo, ou fosse ignorancia, aliás nada provavel, dos amores da mulher, ou fosse um cynico interesse na amisade de Claudio de quem sempre esperava protecção e com cuja bolsa contava para os momentos difficeis, amiudando e prolongando as suas noites de Coimbra em casa da amante, acabára por deixar Emilia n'um desafogo que lhe permittia longas horas do mais repousado amor.
Os tormentos vinham da consciencia. Claudio não encontrava solução moral que importasse justificação plena do seu viver. A duvida e a inquietação eram constantes, permanentes; cavavam-lhe na alma abysmos de mysterio, perante os quaes a todo o instante tremia e se apavorava. O mais pequeno incidente revolvia toda essa vasa que o suffocava, um dia de ciumes de Emilia, a suspeita de que o tinham visto entrar na capella, um gesto, uma palavra de sua mãe, condemnando os desvarios do adulterio.
Por outro lado, Emilia descia aos seus olhos. Saciados os apetites que as graças do seu corpo despertaram, via em plena nudez a inanidade do seu pensamento moral.
Instinctivamente boa e simples, amando Claudio ingenuamente com o afferro caracteristico das mulheres apaixonadas, era todavia incapaz de se elevar á comprehensão das duvidas que o agitavam; e ella, que se sentia contente com a sua sorte, não percebia que o amante podesse, sem reservas, deixar de partilhar o seu contentamento.
Presentiram o juizo que o publico formava das suas relações? Adivinhavam-n'o, e até se esforçavam por lhe tirar toda a apparencia de razão; mas viera tão cedo e em tal calor de paixão que não constituira mais que um passageiro desgosto com que ambos em breve e facilmente se conformáram. Que tinham os outros com a sua vida? Olhassem para si que teriam bem de que fallar. Que fazia o Carvalho sempre de braço dado com a Silva? E a outra não ia casar com o Maia? Uma miseria! Só por causa da fortuna.
Era sabido que ella na Figueira tinha namorado um rapaz de Lisboa que lhe vinha fallar ao terraço, á uma hora da noite.
Um dia, na primavera, exactamente tres annos depois que conhecera Emilia, Claudio recebeu uma carta de seu amigo Jorge de Castro, annunciando-lhe uma proxima visita.
Visto que elle, Claudio, se mettera a ermita, resolvia o Jorge ir abraçal-o; que preparasse os cavallos, queria visitar todas as aldeias suas conhecidas, que a visita não era só para elle, era tambem para aquelles montes de que se lembrava com saudades.
A carta respirava uma grande alegria, denunciando uma natureza sã, vigorosa. Claudio leu-a com tristeza. Porque não havia elle de viver assim contente?... Scismava. Talvez o Jorge lhe revelasse o segredo d'aquella fortuna.
Respondeu lhe immediatamente. Exultava. Os cavallos estavam promptos, tinha-os n'aquelle momento ligeiros como gamos, do campo de Coimbra. Traçava já varios passeios, em Albergaria e em Villalva onde lhe queria mostrar os jardins que créara no meio de rochedos. Promettia-lhe mais varios regalos da mesa provinciana, que o amigo apreciava, bons patos com arroz, uma preciosa vitella vinda da serra e vinhos da varzea de Villar que não os havia melhores. Que viesse quanto antes. Até precisava muito conversar com elle, accrescentava laconicamente.
—Até precisava muito conversar com elle... repetiu Jorge, lendo a carta na presença da mulher. É capaz de querer casar. Que pateta! Aos vinte oito annos, quando tem uma fortuna boa e todos os prazeres ao seu alcance... Eu, se agora me visse solteiro, não me casava antes dos quarenta annos. É muito bom, mas uma prisão...
Claudio veio esperar o amigo a S. Braz, por uma tarde serena, o ceu limpo e azul, os campos rebrilhando de reflexos multicores.
—Oh! que magnifico sol! disse Jorge ao apear-se, depois de abraçar Claudio. Com um tempo assim, até os inimigos se podem visitar.
E encaminharam-se para a carruagem.
Todo o caminho se dispendeu no exame dos cavallos e na apreciação da paysagem. Jorge ia maravilhado. Que vigor, que frescura! Aquillo devia fazer mal... Era lethifero. Dava vontade de fechar os olhos e adormecer por alli, á beira dos comoros toucados de madre-silva e de giesta. Uma natureza assim desmoralisava. Por isso Claudio se quedára n'aquella apathia. Estava encantado. E ria, sem de longe imaginar a dolorosa ferida que tocava.
Ás cinco horas da manhã do dia seguinte, Jorge passeiava no jardim esperando que Claudio despertasse. Este não tardou.
—Ainda bem! exclamou Jorge. Até é peccado dormir por uma manhã d'estas.
Em volta, a vida era d'uma intensidade extrema, n'um turbilhão alegre e scintillante, de murmurios de regatos, tremulas manchas d'um sol benigno, gorgeios d'aves, perfumes de lilazes, de rosas e cylindras.
—Vives aqui muito bem, disse Jorge, sentando-se n'um banco de pedra, á sombra dos loureiros, em frente d'um platano magestoso, opulentamente curvado sobre o tanque em cujas aguas os seus ramos vogavam.
—Não tão bem como te parece!
Contou então todo o drama da sua vida; o primeiro encontro com Emilia, a leviandade com que se lançára na sua conquista, o amor sincero e a paixão que d'ahi resultára, a angustia em que vivia n'uma vida de constante mentira, as tentações que tinha de pôr termo a essas torturas, o receio e a compaixão pela infelicidade da amante, sempre que se lembrava d'uma separação. No fundo, sentia-se torturado de arrependimento e remorsos; a sua felicidade, tão cubiçada dos estranhos que o julgavam satisfeito e impenitente, reduzia-se a uma crudelissima agonia.
Jorge desconhecia essas situações. Casára cedo, por casualidade, cedendo a uma inclinação natural, sem maior esforço da vontade. Não dizia que o casamento fosse bom nem mau; elle tinha-se dado bem e louvava a Deus por o ter feito, pois sabia d'outros casos semelhantes ao de Claudio e todos tinham mau fim.
Lembrava: o Cabral, um companheiro da Universidade, apaixonou-se pela mulher d'um amigo e suicidou-se. O Nogueira, um bom rapaz mas um sceptico, começou a namorar a mulher d'um visinho,—brincadeira!—e a mulher toma o caso a sério, abandona o marido e vem metter-se-lhe em casa. E ahi estava o pobre desgraçado preso provavelmente para toda a vida. Estes eram casos recentes, mas outros aconteciam a cada passo. Elle fugia d'isso. Era quasi ridicula tanta felicidade conjugal, bem o sabia, mas ao menos que descanço!...
De resto, Jorge não se atrevia a aconselhar qualquer resolução. O tempo a indicaria. Era sempre uma loucura querer substituir inteiramente o destino e a sorte pelas inspirações da vontade. Parecia-lhe até uma falta de humildade, desmedido orgulho. Demais, o peccado não era grande. Tinha amores com uma mulher casada cujo marido a deixava a cada momento por uma amante?... De quem era a culpa? As cousas do mundo não se podiam tomar todas em casos de consciencia. No bom senso vulgar havia muito de razão e justiça.
Pensava Claudio que, se amanhã fosse á pharmacia e contasse aos companheiros d'outro tempo o que lhe succedia, alguem tomaria a serio as suas duvidas? Todos se ririam. Ridiculo, n'aquella comedia, só o Ricardo. Era a boa tradição e, quem sabe? talvez a boa regra. Afinal, o amante era vencedor. Por conseguinte, dormisse descansado e levasse as cousas alegremente. O tempo, o tempo lhe diria o que tinha a fazer. Não havia de tardar... que aquelle viver aborrecia.
Jorge voltou a Lisboa sem deixar no espirito de Claudio outra impressão, além da tristeza em que caia comparando-se com elle.
Aquelle sim, aquelle soubera viver! Voltava a casa aos braços da mulher e dos filhos, a um ninho de caricias e de affectos de que abertamente e tranquillamente podia fartar-se, isento de toda a duvida, livre de todo o remorso.
Porque não fizera elle o mesmo? Porque se lançára n'uns amores que a consciencia lhe condemnava, fossem quaes fossem as razões que o espirito buscasse para os legitimar? E porque não havia de emendar-se? Porque não havia de converter Emilia ao dever, como elle mesmo se tinha convertido? Ella seria então a primeira a desejar o seu casamento, a desejar vêl-o emendado d'uma vida de mentira, olvidando o passado, que pelas suas amarguras lhes serviria a ambos de lição, para os affastar de nova queda. Assim resgatariam, em longos annos de honestidade, a breve loucura d'algum tempo. Corajosamente, sem lagrimas, com a risonha serenidade da virtude, apartar-se-iam. Quanto a vida lhes seria então suave e boa!
Isto pensava, isto pensou durante alguns mezes sem se atrever a communical-o a Emilia. Temia a impressão que havia de lhe produzir a lembrança do abandono do amante, seu unico amparo, a sua unica alegria, d'ella que ninguem tinha no mundo, entregue ao marido que a desprezava, perdida no mais arido ermo de carinhos.
O receio e a compaixão traziam-n'o em mentira; ia addiando, addiando sempre a hora d'uma confissão que imaginava o seu dever e salvação e de que todavia tremia, não por elle que a tudo estava d'antemão resignado mas por Emilia que já então sabia ser moralmente fragil, inconsistente.
Pelo S. João foram, como de costume, a Coimbra, a casa dos Albuquerques. Claudio ia contrariado, absorvido, como andava, em preoccupações moraes que o traziam n'um permanente desejo de recolhimento; mas Emilia, em rapidas fulgurações, mostrava ainda todo o seu antigo ardor pela futilidade elegante.
—É mais uma occasião que tenho de te vêr de casaca e gravata branca, e assim é que ficas bem. Mas vê como te portas... Ha por lá muita menina bonita!
Era a recommendação habitual, quando partiam para essas festas.
D'esta vez, Emilia veiu de Coimbra preoccupada e distrahida, fallando a custo e evitando os olhos de Claudio. Este já não se illudia com taes modos e gestos; por muito frequentes os conhecia. Eram ciumes. Quantas horas afflictivas passára na capella da rua da Cruz para affastar essas tempestades que eram uma das dores com que a leviandade de Emilia sobrecarregava a sua atroz situação!
Antecipadamente sabia o que seria a sua primeira entrevista depois do baile, toda consagrada a explicações e a mentiras. Mentiras? Sim, mentiras. Emilia tinha razão. Claudio em toda a noite não tirara os olhos de Laura, uma filha do velho Albuquerque, cheia de graça e de candura, valsando com uma travessura infantil.
Seria mais um remorso, havia de mentir-lhe, havia de a convencer de que era sempre a victima dos seus zelos infundados, mas era certo que Laura lhe deixára uma impressão profunda, e vagamente, com uma tenacidade perigosa para os amores de Emilia, pensava em que talvez estivesse ali a sua salvação. Seria um capricho dos sentidos, o encontro casual d'um temperamento ardente e d'uma natureza nervosa, uma surda concupiscencia? Talvez não. Laura era uma rapariga educada em ociosidade absoluta, sem a minima instrucção, sabendo com segurança apenas valsar, brincar e montar a cavallo e a Claudio, burguez por habito e por educação, d'uma delicadeza moral doentia pela aturada insistencia dos problemas da sua vida, repugnava uma existencia tão vasia e inutil.
Qualquer cousa ignorada o atraia, porém. Tambem aqui o espirito e a reflexão não lograram vencer o sentimento.
Ouem podia saber a verdade? Quem podia dizer-lhe o que se abrigava n'aquelle corpo de creança? Talvez um coração apaixonado, uma d'estas mulheres que se consomem n'um só amor.
A imaginação representava-lhe prazeres infinitos, n'um lar todo illuminado por essa luz de sacrificio. Havia de a dominar pelo amor, havia de banir dos seus desejos os habitos de ociosidade. Ella seria bondosa, ingenuamente amoravel; não era uma rapariga prevenida e, quando tivesse amamentado um filho, quando tivesse vivido n'uma atmosphera de labor e de virtude, a esposa da sua alma revelar-se-ia.
Depois, se errasse nas suas esperanças, tambem saberia mandar a quem não soubesse amar. A herança paterna, o homem sevéro e frio, accordaria.
Mas Emilia, Emilia?... A sua falta pesava-lhe então n'uma fadiga e n'um desespero invenciveis; entre o desejo de sair d'uma vida, a seus olhos criminosa, e a ambição duma vida normal, cavava-se um abysmo innundado de lagrimas que era precioso transpôr. Recuava. Nunca! Pobre Emilia...
Ás vezes, sobre o conflicto d'aspirações passava uma onda de scepticismo. Laura, Emilia, o casamento, o adulterio... phantasias! Fugisse d'ali, fosse viver em Lisboa, não poupasse ao seu corpo todas as delicias que a fortuna lhe consentia. Mas o dever dominava-o, não havia modo de se libertar, n'uma vida facil, d'essa pesada escravidão a que desde a infancia fôra votado.
Outras vezes, esquecia Emilia. Laura apparecia-lhe como uma visão de candura, o anjo que lhe annunciava a paz, e caia na tristeza da infinita saudade das cousas cubiçadas e impossiveis.
Queria aquecer-se ao sol da sua ingenuidade e da sua fé, beber na sua simplicidade um alento purificador. Loucura! A felicidade fugira-lhe para sempre, de tudo poderia curar-se menos do remorso, a vása de todas as almas delicadas, a toldar-lhes o mais pequeno movimento. Só o dever seria a sua ambição; deixasse como um forte, por justo castigo da sua culpa, os sonhos de felicidade. Loucura ainda! Dever, felicidade, que estranhas vozes eram essas?
Luctar era bom para quem tinha os favores do destino. Elle não; vinha batido dos erros e contrariedades e só na escuridão da terra encontraria repouso.
Comprehendia agora. E pensava na doce paz do cemiterio e nas flores que haviam de lhe cobrir a sepultura.
Nova loucura! O suicidio era um crime. Não lh'o ensinára sua mãe?!...
Iam decorridos oito dias sem que Claudio tivesse voltado a casa dos Albuquerques, como costumava depois dos bailes, por obrigação de cortezia. O seu desejo de tornar a vêr Laura ficava aqui prejudicado pelo receio d'um novo accesso de ciumes de Emilia.
Por fim, uma tarde, ou por mais animado ou por indifferente e fatigado de tanto meditar, metteu-se na carruagem e partiu.
A visita foi curta; pouco pôde fallar com Laura.
—Sei que tem um jardim muito bonito, disse ella. Se algum dia lá passar, quero pedir a meu pae que m'o deixe vêr.
—Muita honra... e com o maior prazer. Mas nada tenho notavel; só uma collecção de rosas que não é má. N'este tempo, porém, póde dizer-se que não há rosas.
Ficava confundido com a lembrança de Laura. Que mysteriosos instinctos a attraiam á sua casa e ás suas flores, ás cousas que elle tanto amava. Ah! Se Emilia o soubesse... Tremia.
D'aquella visita voltava quasi doente, sobresaltado, um vaguear permanente, os olhos cavados, o corpo quebrado, com todos os symptomas physicos da paixão.
A fadiga era extrema; com ella veio um somno profundo de que despertou n'uma tranquillidade que ha muito desconhecia.
O que fôra? Que se passára? Porque tantas inquietações?
A indifferença vencia. Voltaria aos braços de Emilia mais firme do que nunca nos seus propositos de eterno amor.
Para que abandonal-a? Não era o dever que o instigava, não; era o egoismo, o desejo d'uma vida repousada, uma sêde de carinhos e de affectos.
Ingratidão! Tão cedo esquecia o que Emilia era para elle...
Voltasse aos seus livros, ao estudo e ás suas occupações habituaes, resignado com o destino. A felicidade dependia unicamente d'elle; era conformar-se com a natural expiação do seu erro, sacrificando humildemente ao bem alheio os seus sonhos de ventura.
Virtude e saber, tudo era orgulho; a humildade a sabedoria suprema. Fôra o que sua mãe lhe ensinára e era o que o coração n'aquelle momento lhe repetia.
Da incerteza em que então começou a viver ficou testemunho no «diario» a que Claudio confiava as suas penas, n'um isolamento e n'uma clausura que as aggravavam. D'ahi tiramos os seguintes fragmentos:
7 d'agosto. Tranquillidade, abandono. Entregue ao tempo e ao acaso, vejo correr os dias n'uma resignada desesperança. N'esta calma perpassa a imagem Laura e ouve-se por vezes uma dorida voz de anciedade. A vida é mais alguma cousa do que esta apathia na dôr, a vida é a pratica do bem. Até a minha serenidade é crime!... Não! enganei-me. As bençãos da resignação não desceram ao meu peito, vivo na tristeza das cousas desejadas e inaccessiveis. Sinto uma prostração das luctas vãs, não chegou ainda a hora da conformidade.
16 d'agosto. Scismo. A intensidade da aspiração instiga-me a romper com o passado. As fézes d'um amor illegitimo toldam-me a alma até ao azedume. Que direitos tem Emilia sobre mim? É cumplice d'um mesmo crime? Seja pois victima do mesmo resgate.
17 d'agosto. Esta tarde fui surprehendido pela visita dos Albuquerques. Vinham de passeiar, disseram, e desceram para vêr o meu jardim. Laura veio tambem. Perceberia o velho o que me passava pelo espirito? Desconfio. Apressa-se a não perder o ensejo de remendar a sua fortuna escalavrada. Nos primeiros instantes, esta lembrança de que era instrumento de especulação revoltou-me; depois, a presença de Laura tudo desvaneceu. A graça, a candura, a ingenuidade! Só esse alento me restituiria a vida. Acompanhei-a colhendo flores para ella, recebeu-as com avidez, á partida não as quiz pousar na carruagem, guardou-as nas suas mãos carinhosamente. Ella tambem quererá prender a sua descuidada ventura á miseria da minha alma ensanguentada? Talvez... talvez a guie um mysterioso impulso de caridade! Sinto renascer a esperança.
O Albuquerque pediu-me que fosse jantar com elle. Prometi-lhe que iria muito em breve.
18 d'agosto. Noite terrivel. Fui encontrar Emilia n'uma exaltação de loucura com a noticia da visita de Laura. Quando lhe annunciei que tinha promettido ir brevemente a casa do Albuquerque, respondeu-me com uma seccura brutal:
—Vá, está livre, póde ligar-se a quem quizer. Nada me deve. Na minha desgraça não perdi a dignidade, fique sabendo! Os nossos amores terminaram hoje. Aborreceu-se. Era tempo... Sei muito bem o que me cumpre fazer; é voltar áquillo de que nunca deveria ter saido.
Emudeci de surpreza perante aquella linguagem e aquella firmeza; a alegria de vêr terminadas as minhas hesitações e as minhas duvidas lança para longe todas as demais preoccupações. Livre emfim!... E sem lagrimas nem manchas de sangue, sem os espectros que me guardavam o somno. A vida é uma festa. Corramos ao prazer. Affasta quanto póde perturbar-te e aprende na miseria moral quanto vale a sã alegria do corpo repousado na satisfação dos seus apetites. Para traz, para traz todas as atribulações da consciencia; retempera-te no vigor d'um naturalismo ingenuo.
19 d'agosto. Voltei a casa de Emilia. Disse-lhe que queria saber quaes seriam em publico as nossas relações.
—Mas, evidentemente, da maior amizade, respondeu-me. Nem outra cousa se justifica. Não valia a pena ter o incommodo de vir aqui só para isso.
Mentia; o que eu procurava era a confirmação das palavras do dia antecedente. Tudo acabou. Conversamos duas horas, com a animação que o contentamento intimo me dava, sem uma referencia d'amor, sem a mais leve tentativa de reconciliação. Quando parti, pareceu-me que os olhos se lhe humedeciam. Porque? Comprehendeu que a separação está consumada? Para sempre!
Extincto todo o capricho sensual, só ligações moraes nos poderiam prender, e essas desvaneceram-se ao vêr por terra todas as illusões de emenda, de doçura, de resignação, que d'ella esperava para resgatar a nossa falta commum. Restaria a compaixão pela sua desventura e o receio de uma allucinação que, pondo-lhe termo á vida, aggravaria as minhas dores com o mais pesado remorso. Tudo isso passou! Eis-me livre e tranquillo.
20 d'agosto. Fui talvez cruel, abandonando Emilia á sua miseria. Se não fosse Laura, tel-o-ia feito? Cedi á virtude ou ao egoismo, a um novo apetite, ao cansaço do corpo saciado, ou ao arrependimento e ao proposito de emenda? Voltam as duvidas a rasgar-me o coração. Melancolia. Fraqueza. Toda a alegria se esvae.
Oh! a volupia das lagrimas, o prazer de sentir o soffrimento dos que choram por nós! Talvez uma vága saudade...
27 d'agosto. Uma hora cruel, extrema angustia. Hoje recebi uma carta de Emilia, pedindo-me que fosse vêl-a á noite, na capella. Todo o dia fiquei na maior inquietação. Passeei de tarde procurando accalmar-me com a fadiga do corpo. A excitação crescia e foi na maior anciedade que ás dez horas cheguei á rua da Cruz.
Emilia fez-me sentar no velho confessionario e rojando-se na terra, a meus pés, suffocada pelas lagrimas, disse-me que me chamára porque já não podia soffrer mais; que sabia que eu ia partir para uma viagem longa, não podia crêr que tivesse acreditado o que n'um momento de ciume me tinha dito, tres annos de amôr em que tudo sacrificára por mim não podiam terminar com duas palavras de separação. N'isto, ergueu-se. Succumbido de terror, vi ressuscitar, deante de mim, banhada de luar, aquella pallidez e os olhos flamejantes em que um dia me abrazei ebrio d'amôr; e da humida escuridão da capella vieram aos meus ouvidos, como uma anathema, como a eterna excommunhão da paz e da virtude, lentamente, pausadamente, estas palavras:
—Diga-me... diga-me... oiça bem!... se não posso contar mais com o seu amôr. Quero suicidar-me!
Um sentimento de miseravel cobardia se apoderou de mim e menti, menti com firmeza, vilmente. Tudo era falso; nunca amára Laura, nunca pensára em casar-me, ia a Lisboa por breves dias para cuidar de cousas urgentes, o meu amor por ella não afrouxara um só momento, queria só castigal-a dos seus imerecidos ciumes. Convenceu-se e serenou. Beijei-a. Entre os meus labios e a sua face interpunha-se uma sombra que em vão procurei dissipar, a sombra da mentira. No fundo, bem o sei, não cessaram um instante as ambições de regeneração. Só o temor do suicidio me contém.
30 d'agosto—Lisboa. Vim até aqui calcando as supplicas mais compungentes que podem sair d'um coração humano. Se ouvisse sómente a compaixão e a piedade, voltaria atraz... Não posso mais! Morro esmagado entre a fraqueza e o desejo. Revolta-se o orgulho e ergue-me um impulso de rectidão. Rectidão ou crueldade? Commetti um crime e para resgatal-o tenho de arriscar uma vida. Deverei permanecer na vergonha ou ensaguentar a virtude? Vae, não receies, diz-me uma voz occulta.
As lagrimas de Emilia são uma fraqueza, o apêgo aos beneficios do seu crime. Não seria a tua compaixão uma fraqueza tambem?
Cuidado! Pensa bem. Não é talvez a virtude que te guia, é a crueldade; não é o amor do bem, é a paixão por Laura.
31 de agosto. Esta manhã encontrei F... que me fallou dos Albuquerques. Conhece Laura, viveu muito com ella. É encantadora de singeleza e de bondade, disse-me. Passei o dia no maior contentamento. Todas as esperanças renascem, vibrantes de vigor. Esqueci que ao longe uma mulher afflicta, semi-doida, bebe o calice da minha culpa. Nem as lagrimas, nem a deshonra alheia, nem a consciencia do proprio aviltamento podem perturbar-me a alegria.
Serão assim os outros homens?... Será a virtude um acaso e a miseria moral a lei comum?
2 de setembro. Lisboa. Tristeza, desalento. Impossivel conservar-me aqui, tenho de voltar a Albergaria. O que me espera? Vou luctar? Cederei abdicando para sempre da paz da consciencia e da felicidade na virtude em proveito dos caprichos e da fraqueza de Emilia? Hora maldita a da tentação! Tudo na minha vida é incerto, só o soffrimento me resta por companheiro. Abraça a tua cruz, é a cruz do teu erro!
4 de setembro. Voltei a casa de Emilia. Encontrei-a fatigada, abatida, mas ao ver-me, o rosto illuminou-se-lhe d'uma candida alegria. Julgava-me restituido ao seu amor. Quando, tentando novamente desprender-me, lhe declarei que só para a tranquillisar lhe tinha dito que nunca julguei terminado o nosso amor mas que, na verdade, o tinha acreditado e estivera em risco de tomar compromissos com Laura, não teve uma palavra de resposta. Silenciosa, muda de espanto, na paralysia da dor, só lagrimas se moveram na face immovel e queda. O que se passou dentro em mim, não o sei; uma compaixão profunda, angustiada, e, mais alto do que ella, o bramar da consciencia e a tortura do dever. Que me resta? Confessar a verdade inteira, pedir o seu perdão e separar-nos. Deixal-a-hei pois na miseria e no abandono?... Nunca! Dorme, enxuga as lagrimas, dou-te a paz da minha consciencia e serei só a soffrer, soffrerei resignado, sem um lamento!
Desde esta hora, durante longos dias, todo o «diario» de Claudio revela uma incerteza e uma confusão infindas.
O sentimento d'um dever a cumprir, a compaixão pela miseria de Emilia, a lembrança de Laura, cujo affecto sentia crescer, o cansaço d'uma vida inquieta e a ambição de tranquillidade, tudo o fazia oscillar constantemente entre os mais desencontrados propositos.
Debalde o pensamento procurava guial-o; a energia e a vontade haviam naufragado nas ondas do seu coração.
A vida arrastava-se penosamente, sem norte, sem rumo, desvairada, em meio de esperanças, desillusões e desalentos.
27 de novembro. Um dia chuvoso, pesado, humido, escuro. Tres horas de leitura junto ao fogão, no doce goso de aprender e de pensar. Mas esta cella é vasia.
Torturam-me ambições d'amor e de conforto moral. Nunca o tive. A affeição illegitima que contradiz o dever, rasga e esphacela o coração sem o aquecer; é uma consumpção doentia.
Quero o amor de Laura, o seu amor e não a sua piedade pelas minhas dores, quero um alento que me restitua á vida corajoso e são, não quero os balsamos com que se occulta a miseria de Lazaro.
28 de novembro. Não póde ser boa a caridade que alimenta o peccado. A minha compaixão pela sorte de Emilia é um novo erro. Coragem! Sê justo!
Aproxima-se a noite, fria, escura, revolvida na sua treva por um vento inclemente. Succumbo; invade-me um suave desejo de morrer. A morte seria a paz, a libertação de todas as duvidas, de todas as hesitações, das interrogações da consciencia. Não!... Seria cobardia e vaidade: a cobardia de arrastar a minha cruz, a vaidade de ungir o meu cadaver com as lagrimas dos que me amaram. Devo viver. Quero resgatar pela virtude as offensas a Deus.
28 de novembro. A dissolução do passado torna-se um encargo em que só entra a razão implacavel e fria. Injustiça?... Não. A severidade é tambem um meio de ser caritativo; a minha complacencia com Emilia é uma falta d'amor.
30 de novembro. Um dia alegre, sorridente; a atmosphera quieta, a paysagem rutilante. Na minha alma, um esvoaçar de esperanças boas. Laura, Laura!... Toda a natureza me repete o seu nome.
1 de dezembro. F... veio vêr-me. É um antigo companheiro que se quedou no materialismo natulista. Durante duas horas, fallou-me de transformismo e de evolução, muito crente na sciencia. Emquanto o ouvia, erguiam-se na minha lembrança as illusões do passado e a tristeza caía mais pesada sobre o meu coração que sobre a terra as sombras da noite. Anciedade d'amor e de perdão. Podesse a tua alma, Laura, sentir o palpitar d'esta vida dilacerada pela amargura e havia de protegel-a, abrigando-a na sua pureza!
2 de dezembro. Destino cruel! Quero terminar uma vida de mentira, mentindo áquella mesma que foi a minha amada. Degradação extrema. Quizera dizer aos que passam:—Fugi d'este ser impuro, cuspi-me na face e desprezai-me!
14 de dezembro. Emilia morreu no meu corarão; apenas o dever e a piedade me prendem. Sinto-o bem, vendo a meu lado permanentemente a imagem de Laura. Só por ella apeteço a vida. Egoismo, ambição de repartir com uma alma pura as agruras das minhas culpas? Talvez... Ai! Quanto a duvida me opprime!
16 de dezembro. Enganas-te. Não é remorso, é orgulho o que tu sentes; não é o amor da virtude, é o pejo de confessar a tua mesquinhez e fraqueza. Aprende a humilhar-te.
Tempestade. O sybillar do vento desperta em mim sonhos de paz e de conforto domestico, as ambições do corpo dissipam as atribulações da alma.
18 de dezembro. Um immenso desgosto da vida, cansado de luctar em vão. A morte seria para mim a melhor esmola de Deus. E todavia aterra-me. Porque? Saudades de Laura, ambição do seu affecto.
Chove. Gotejam mansamente as arvores e os beiraes, a noite vem descendo suave, humida e negra. Só o repouso da minha alma não vem; em vão o imploro da natureza propicia!
20 de dezembro. Indifferença, fadiga, reacção da intelligencia. Que te importa a miseria estranha, as lagrimas que espalhaste? Que te importa o passado? Orgulho imbecil! Vive a tua vida, conforme o teu destino, fabrica o teu mel ou o teu veneno, como a vibora nos brejos ou a abelha sobre a rosa. A natureza não erra. Não tentes dominal-a. Vaidade das vaidades!
31 de dezembro. Meia noite. Atmosphera limpida e calma, o céu estrellado, nem a mais ligeira nuvem nem o estremecer d'uma folha. Interrogo os astros. Bom agouro? É a tranquillidade que o novo amor me traz?
1 de janeiro. Saí sósinho. Impressão de abandono, ao pensar nas alegrias do novo anno em volta do lar. Só minha pobre mãe me resta por companhia. Advinha talvez as minhas dores e roga a Deus que as affaste. Na praça encontrei um mendigo mal abrigado nos seus farrapos de burel. Serenamente, estendeu-me a mão, recebeu a esmola e seguiu o seu caminho. Ao longe, vejo a casa de minha irmã; no campo, descendo para o rio, os gados que meus sobrinhos guardam. O amor divino, o burel, o trabalho—suprema sabedoria! Por que estranha loucura os abandonaste, por que aberração voltaste a face á felicidade que tinhas deante dos teus olhos e te lançaste nas vagas da ambição e da vaidade?
3 de janeiro. Passei a manhã no jardim, cultivando as minhas flores. Alegria plena. Cantava, arrebatado no palpitar de energia que se desprendia á luz tépida e branda. Ao longe, distante, quasi perdido, um lugubre rebate de remorso, phantasmas da consciencia voando levados pelos balsamos a exalarem-se da terra que o sol beija e fecunda, castamente.
A crise terminava para Claudio n'uma inacção de impotencia; o ardor do sentimento e a intensidade da razão quebravam todas as energias da vontade.
Os dias succediam-se eguaes na sua infinita inconstancia; a melancolia, o remorso, a indignação, a alegria, o desprendimento, confundiam-se obscuramente, ora no desejo de possuir o amor de Laura, ora no temor do abandono de Emilia, ora n'uma viril resolução de emenda, ora finalmente n'um cansado scepticismo.
Mas, anniquilado para toda a acção, entregára-se n'uma conformidade de desesperança ao seu triste destino.
Virtude, felicidade, estudo, tudo se perdera! Nem sequer para ahi podia volver o pensamento que logo na memoria não surgissem lembranças crueis dos espinhos por onde deixára em pedaços todo o viço da sua mocidade.
Uma unica imagem, uma unica, vogava nos destroços do naufragio, incolume, resplandecente, irradiando uma luz divina que penetrava a alma de beatitude,—sua mãe.
Perante ella, todas as sombras se dissipavam; o tumulto da paixão convertia-se n'um culto singelo, purificador e ardente.
Instinctivamente, habituava-se á irregularidade da sua vida. A consciencia parecia adormecer,—não se repele um drama interior,—e essa indifferença, quasi satisfeita, começava a conquistal-o. Habituara-se ao egoismo absorvente de Emilia e ao seu incorregivel ciume e habituara-se tambem á presença de Laura que sabia ser o fructo prohibido. Exteriormente, a sua vida era d'uma tranquillidade e d'uma satisfação completas; cuidava das suas terras, passeiava, vinha bastas vezes a Coimbra conversar com os amigos ou assistir aos espectaculos publicos, e até mesmo frequentava a capella da rua da Cruz, corajosamente, sem aquelle receio de que as suas visitas fossem sabidas, que em outro tempo tanto lhe pesava e que hoje punha á conta de preoccupação pueril.
Pois podia alguem illudir-se sobre a natureza das suas relações com Emilia?! Era claro que todos as percebiam e advinhavam. Pasmava de que só agora tivesse feito este raciocinio tão simples e tão seguro.
Assim se consumiram cinco mezes, durante os quaes Claudio muitos dias visitou Emilia sem que em longas horas de palestra banal houvesse uma unica referencia ás luctas passadas. De longe em longe, o problema voltava á discussão, mas agora quasi friamente, á parte a ligeira irritação de Claudio, que provinha do sentimento da sua escravidão, e os fogosos impetos de Emilia que temia vêr fugir-lhe a preza.
Claudio insistia sempre pela necessidade de pôrem termo a uma vida que os envergonhava; Emilia respondia-lhe com a obrigação em que elle estava de nunca a abandonar, obrigação que lhe custara, a ella, a perda da sua honra.
Um dia, em fins de maio, Claudio recebeu o convite do filho do Albuquerque para jantar. Era no dia dos seus annos; festa intima para que só convidava Claudio, que dos velhos amigos da casa não fallava, eram sempre convidados.
Claudio foi com conhecimento prévio de Emilia, que pouco se amedrontava já com estas visitas, convencida de que os amores por Laura não adeantavam. De resto, promettera-lhe que voltaria immediatamente, no fim do jantar, e ás onze horas estaria na capella.
Debalde o esperou até á meia noite, hora a que, receiando a entrada de Ricardo, se deitara para soffrer uma noite de insonia, torturada de despeito e de ciume.
Claudio ficára até tarde em Coimbra, bem certo do que na primeira entrevista o esperava, mas intimamente indifferente, n'esta indifferença que a frequencia dos arrebatamentos de Emilia e o seu indomavel egoismo tanto ajudára a crear.
A noite estava tépida e serena. Depois do jantar, todos os convivas sairam para o jardim e Claudio foi sentar-se no banco que dominava a varzea, ao lado de Laura, que para ali se tinha affastado pelo braço de uma prima sua hospede, vinda da Beira a Coimbra para dar lições de piano com uma mestra afamada.
Conversaram da paizagem, das flores, dos apetites e prazeres de cada um, trocando entre si impressões e ideias que se lhes afiguravam da mais perfeita conformidade.
Laura adorava a musica, dizia; estudára-a cinco annos em Lisboa, no collegio das irmãs de Santa Ignez, com uma senhora irlandeza, e continuara depois, tres annos, com um professor que vinha do Porto uma vez por semana, para a ensinar. Claudio admirava os primores de educação de Laura e tristemente se deixava levar em devaneios de ventura e em vagas esperanças d'um futuro feliz.
Foi n'este scismar que voltou a Albergaria, tão magoado de saudade como enfadado de Emilia, que n'aquelle momento não representava nem um affecto nem um remorso; era apenas um estorvo.
Estranhou que no dia seguinte Emilia não lhe mandasse o convencionado aviso para ir á capella.
—Ou o marido saiu ou está desesperada com ciumes, pensava; seja como fôr, em boa hora!... Não sentia o menor desejo de a vêr, antecipadamente aborrecido das explicações que tinha de lhe dar.
Não tardou porém a carta da amante. Dois dias depois da sua visita a Coimbra, exactamente áquella hora em que o silencio e a suavidade da noite mais lhe aggravavam a saudade dos doces momentos em ouvira a voz de Laura confundindo-a n'uma só delicia com as caricias d'uma atmosphera impregnada d'uma subtil sensualidade, encaminhava-se vagarosamente para a rua da Cruz.
Emilia estendeu-lhe seccamente a mão e foi sentar-se affastada, no degrau do altar-mór.
—Então como estás, perguntou elle, ao fim d'uma ligeira pausa, tentando tomar-lhe a mão que ella distraidamente retirou.
—Bem, tenho passado muito bem.
—Antehontem não pude vir porque o jantar acabou tarde, o Albuquerque instou comigo para me demorar e pareceu-me que não seria muito delicado...
—Fez muito bem, como é proprio da sua educação. Nem eu mesmo o esperava.
—Estás a dizer isso maliciosamente, e não tens razão. Pódes crêr que fiquei muito contrariado. Deus sabe o que me custou!
—Imagino! disse ella então levantando-se e dando largas á sua colera. Que impostor!...
—Não sejas injusta comigo. Magôas-me tanto... Se adivinhasses o mal que me fazes...
—Muito grande! Deve soffrer muito, calculo bem!
—Talvez mais do que julgas...
—Oh! sim, acredito. Tem pressa de se casar e quer vêr-se livre d'este trapo velho. Pois case-se!... Quanto mais cedo, melhor!... O meu desejo é que fosse já amanhã, para me vingar... para lhe vêr coberta essa cabeça de cornos como a mãe d'ella fez ao pae!
Claudio ergueu-se raivoso; os punhos cerrados, o olhar dardejante, os labios e as narinas palpitantes de frenesi, cresceu para Emilia.
—Veja o que faz! disse ella recuando e acobardando-se.
Um lampejo da propria indignidade, como um relampago, lhe illuminou o espirito; n'um salto, transpôz a capella, lançou a mão á porta e saiu.
—Canalha!... ouviu ainda.
E começou a fugir atravez dos campos sobre que poisava, quietamente, bafejando-os, o véu de humida gaze que se desprendia dos regatos.
O amor, offendido no insulto a Laura, vencera onde a razão e a consciencia tinham sossobrado, debatendo-se passivamente no remorso e na duvida.