V

D. Pedro Menezes de Tavora Abreu e Albuquerque era todo o nome com que nos actos solemnes se assignava o fidalgo que vivia em Coimbra, na estrada da Beira, e cujas relações Claudio frequentava.

Senhor de grandes propriedades e muitos bens no valle de Lafões, onde era conhecido pelo morgado de Cercosa, reunira nas suas mãos, por successivas heranças dos seus antepassados, uma das maiores fortunas territoriaes que por aquellas regiões se conheciam.

Em Coimbra tinha menos; mas fazia ahi maior assistencia porque o palacio era bello e rico, e a vasta quinta que o rodeava, com grandes insuas a morrer no rio, um ninho de frescura entre o arvoredo magestoso.

Demais, tinha a convivencia de muitos lentes da Universidade que, tirados de condição humilde, se curvavam reverentes perante a nobreza, felizes de se acercarem d'ella.

Tratavam-n'o por sr. D. Pedro d'Albuquerque, e elle queria mais a este tratamento, que aos seus olhos indicava funda e genuina fidalguia, do que ao de sr. fidalgo ou sr. morgado que em Lafões usualmente lhe davam.

Fidalgos e morgados havia muitos; que usassem o titulo de Dom eram raros. De portas a dentro, em Coimbra, esse tratamento era de obrigação e indicado aos creados, logo que entravam em casa.

Uma vez que Claudio singelamente perguntára pelo sr. José d'Albuquerque, o filho do fidalgo, o creado apressou-se a corrigir:

—O sr. D. José está a almoçar.

D. Pedro nascera em 1825. Muito cedo, aos cinco annos, ficára sem o pae que tinha morrido d'uma catarrhal, apanhada andando á caça em Cercosa, segundo lhe diziam. Ficára entregue aos cuidados da mãe e d'um tio, filho segundo, irmão do pae, que em vida d'este tomára a seu cargo os cavallos e os cães de caça, e de nada mais se occupava. Na verdade, póde dizer-se que ficára unicamente entregue aos cuidados da mãe, senhora fidalga de origem, de maneiras e de costumes, caridosa e boa, mas com excessivo affêrro ao estreito formalismo da gente da sua egualha.

Um dos motivos por que ella, á morte do marido, se apressára a tomar nas suas mãos toda a administração da casa, fôra o temor de que o seu governo caisse sob as ordens do cunhado.

Temia-o e evitava-o, não por ciumes de dominio mas porque receiava a influencia d'elle, grosseiro e rude, sempre em gracejos com as raparigas do campo; queria affastar o filho d'essa má escola, queria, no seu pensar, fazer d'elle um legitimo fidalgo, de modos nobres e nobres sentimentos, como convinha á gente fina. Por isso fazia valer os seus direitos de mãe e tutora, para que ninguem podesse com auctoridade interpôr-se entre ella e o filho.

D. Pedro passou a mocidade, ora em Cercosa, ora em Coimbra, sempre acompanhado por um padre que a custo lhe ensinou a lêr e a escrever, porque o discipulo era, além de pouco intelligente, remisso na applicação e no estudo.

—Esperto, esperto! dizia o padre á morgada. Mas muito distraido... O que elle quer é brincar, está sempre com o sentido no que lá vae fóra.

Por seu lado, a mãe toda se esmerava em educar os modos do filho. Até aos dezaseis annos, em Coimbra, nunca o deixou sair que não fosse seguido por um creado, para não se perder em más companhias; tinha-o sempre a seu lado na egreja e em todas as suas devoções, corrigindo o mais pequeno gesto descompassado, se o filho se benzia com excessiva rapidez, se ajoelhava ou se levantava estouvadamente, se deixava de se curvar com reverente moderação e suavidade ao erguer a Deus.

Na sala, os seus cuidados eram extremos e as lições completas; mandava-o entrar e sair, sentar-se, cumprimentar, despedir-se, indicando d'uma maneira precisa as palavras, as attitudes, os logares e as distancias que convinham a cada momento. No dia em que pela primeira vez viu o filho descendo a escada com uma dama pelo braço, a acompanhal-a á carruagem, lento, pausado, com toda a nobreza de movimentos que lhe vinha do seu corpo moço e robusto, teve um fremito de alegria e de triumpho. A sua obra estava consumada. Que fidalguia! Que gentileza!

Com intimo pezar e grande receio, era necessario entregar o morgado ao tio para as lições de equitação. Tão má companhia... Mas d'essa penosa impressão cobráva allivio quando, ao entrar no palacio, o tio que em casa era sempre tratado pelo sr. D. Joãosinho, vinha dizer-lhe enthusiasmado:

—O rapaz dá um cavalleiro! É atrevido e firme. Hoje na Calçada era tudo a olhar para elle. Trazia o Corisco numa dobadoira.

D. Pedro aproveitára as lições; exteriormente estava tal qual ella o desejára. Interiormente, porém, o caracter era o do tio e as preoccupações dominantes, absorventes, os cavallos e as mulheres. Muito novo ainda, não saia de ao pé das creadas que continuamente inquietava, perseguindo-as e apalpando-as.

—Menino! Isso não se faz! Olhe que eu digo á senhora!... Que tal está o fedelho?... Eram as vozes que a cada instante corriam na cosinha e na casa de trabalho, por toda a parte em que elle se encontrava com as creadas.

Aos creados, com quem ás vezes vinha conversar ás occultas da mãe, dizia sempre que havia de ter um cavallo grande, hespanhol, como o que vira na serra, aos Malafaias, de Serrazes, e uma boa mulher, com boa perna.

—Isto ha-de ser bom!... commentavam os creados. Temos outro como o sr. D. Joãosinho! Cão de caça quer-se de raça!

A mãe julgava-o uma vestal, e já elle ia longe nas suas aventuras, tendo começado pela mulher do jardineiro e proseguindo com uma costureira habitual da casa, quando ella, por conselho do padre, começou a dar ao filho liberdade de dispôr de si, do que elle usou com a largueza que os seus instinctos exigiam.

A elegancia do novo morgado, que a mãe procurava, quasi unicamente, na sua educação, combinada com o fogo d'um temperamento sanguineo, deu em resultado o amor do luxo alliado a uma vida de continuadas festas, caçadas, conquistas amorosas e jogo.

Ás muitas despezas que provinham da lauta vida provinciana, juntaram-se em breve alguns mezes de inverno passados em Lisboa onde D. Pedro Albuquerque acabára por estabelecer residencia que lhe permittisse frequentar a capital com as commodidades de que era tão cubiçoso. A abertura das linhas ferreas deu o ultimo impulso a esta ruina. A cada passo estava a caminho de Lisboa, para assistir ao baile do conde de X..., para ouvir uma cantora em S. Carlos, ou mesmo, mais simplesmente, para se vestir no Keil, que a esse tempo era o alfaiate dos janotas; e, inversamente, a cada passo estava acarretando de Lisboa para Coimbra moveis de mau gosto que vinha misturar ás solidas mobilias de pau santo, herdadas de seus avós, roliços estofos armados em casquinha que um estofador francez, chamado Gardé, lhe vendia por bom preço, farrapos d'algodão arrendados que vinham substituir os sumptuosos cortinados de damasco de seda vermelha.

Tambem trouxe um cosinheiro que, á força de consommés, foie gras, galantines, mayonnaises e outras preparações que muito confundiam e intrigavam os velhos fidalgos beirões que se sentavam á meza do morgado de Cercosa, veiu banir para a frugalidade dos banquetes da burguezia prospera o succulento pato com arroz, o cosido bem adubado com carnes de porco e a famosa vitella de Lafões.

Foi á meza do Albuquerque que primeiro, em Coimbra, se viram gordos espargos, comprados em Lisboa, n'uma salchicharia franceza; houve lentes da Universidade que, sentindo com vexame faltar-lhes o seu profundo saber para usar tão exoticos petiscos, deixavam de os comer por hesitarem na forma de se servirem.

O Albuquerque, que lhes percebia o embaraço mas que por cortezia não queria dizer-lhes francamente como se comiam espargos, fallava alto, rolando-os no molho com a mão e chamando para si a attenção, a dar o exemplo.

Mas apezar d'isso passaram-se mezes sem que os bisonhos convivas acceitassem os novos manjares. Os mais ousados, os que primeiro entraram na communhão dos usos estrangeiros, vinham depois para a Via latina gabar aos collegas menos elegantes a cosinha franceza, os espargos e as galantines, pondo um particular deleite em ostentar o conhecimento d'essas cousas finas perante a gente rustica que as ignorava.

Entretanto, a administração dos bens andava por mãos de feitores e procuradores que todos enriqueciam e serviam a contento, se tinham a habilidade de arranjar dinheiro sempre que de Lisboa ou de Coimbra o Albuquerque o pedisse, o que bastas vezes fazia.

A velha morgada, a mãe de D. Pedro, julgava ter cumprido a sua missão no mundo fazendo do filho um homem religioso, que ia á missa aos domingos e dias santificados e se confessava todos os annos, de casaca e gravata preta, e um fidalgo pela distincção com que se havia n'uma sala e na presença das damas.

A sua grande preoccupação era a manilha e os parceiros de todas as noutes, no salão do palacio da estrada da Beira onde ella invariavelmente se encontrava no mesmo logar, distribuido mesuras e palavras doces aos que entravam, perguntando-lhes com o seu finissimo tacto pelas cousas que os interessavam, a este pela saude dos filhos, áquelle pelo andamento dos trabalhos na Universidade, e áquel'outro pelas colheitas das propriedades que possuia nos campos do Mondego e a que amiudadamente se referia, para dar mostras de riqueza.

Quando essa senhora falleceu, cerca de 1865, a casa do Albuquerque estava na realidade escalavrada. Em Lisboa tecera uma rede de lettras passadas a amigos e a agiotas que lhe tinham valido em apuros de dinheiro, os bens de Cercosa já estavam hypothecados á misericordia de Vizeu, e um negociante da Praça Velha, em Coimbra, com quem se adeantára em contas, sabendo que as dividas cresciam, instava por uma hypotheca das melhores insuas. Nem ao certo se sabia a quanto montavam as dividas porque nunca se tinha pago um real de juros a ninguem, havia contractos feitos em condições leoninas e, quando se chegasse á liquidação, era de esperar que a somma se elevasse a uma quantia fabulosa.

O tio do Albuquerque, que os annos e a gotta tinham privado do regabofe que fôra toda a sua vida, com o grosseiro bom senso que acompanhou a sua existencia descuidada via o estado da casa. Chamou o sobrinho, procurando convencel-o da conveniencia de se salvar pelo meio simples que lhe ia propôr.

Era preciso casar-se, dizia-lhe; a mãe tinha fallecido, faltava áquella casa uma senhora que lhe désse o tradicional resplendor; elle, D. Pedro, estava com quarenta annos e era necessario que tivesse um herdeiro. Demais, accrescentava, em continuação do exordio que invocava os brios fidalgos, as dividas tinham crescido e se encontrasse uma noiva com um dote bom...

A estas palavras, o sobrinho que se tinha conservado silencioso e indifferente, de perna cruzada, limpando pachorrentamente as unhas com um canivete, ergueu a cabeça ante-gozando boa maré de dinheiro e recrudescencia de prazeres.

—Pois depende só de ti! apressou-se o tio a concluir aproveitando a impressão favoravel. Tua prima Maria Francisca...

—Oh! diabo! Mas ella em tempo não tinha tido umas historias com um Mendonça, capitão de engenharia?

—Não, quem sabe lá d'essas cousas?! Fallaram um pouco, mas isso passou. Raparigas tem sempre os seus namoriscos...

—Em todo o caso...

—Deixa-te de piéguices; vamos ao que importa... Tua prima está agora com os seus trinta annos,—e é uma mulher toda perfeitaça!—o pae não póde ir longe porque já deve ter passado os oitenta, e tu bem sabes o que ali está... um poço sem fundo! O Ornellas, do Pragal, disse-me, a ultima vez que estive com elle, que só em ouro o velho devia ter para cima de cem contos de réis.

O sobrinho não pôz mais objecções, fizesse o tio como quizesse. Foi para Lisboa, a gastar por conta das suas novas esperanças e das heranças futuras, e o tio partiu para Vizeu. Em quinze dias, estava tratado o casamento de D. Pedro.

Esta menina, Maria Francisca de Menezes Noronha e Mello, tinha em Vizeu uma historia muito sabida e commentada.

Era uma mulher alta, morena, d'olhos negros, dentes perfeitos e longos cabellos d'azeviche, filha d'um fidalgo, avarento e sórdido, e d'uma creada que elle tivera.

A creada fallecera quando a pequenita tinha cinco annos; e o velho, que tudo consentia menos que lhe pedissem dinheiro, deixou crescer a filha ao Deus dará, entre creados grosseiros que nem na sua presença se guardavam de toda a casta de brinquedos e gracejos maliciosos.

Demais, sendo filha natural, só muito tarde os parentes consentiram em a receber. Ficou por isso sem a minima educação nem de intelligencia e sentimentos nem de delicadas exterioridades.

Apesar d'isso, como era bonita e rica, não lhe faltavam casamentos que todos se goravam, uns pela opposição do pae, que ella desde creança se habituára a temer pelo seu genio irrascivel, outros por capricho da rapariga que não olhava a fortunas nem fidalguias e pretendia marido que lhe satisfizesse os sentidos.

Entre os pretendentes, contava-se um capitão de engenheiros, homem alentado e grande, de grandes bigodes atrevidamente levantados, jogador e conquistador famoso.

Diziam que D. Maria Francisca tivera por elle profunda paixão e nada poupára para lh'a demonstrar, compromettendo o seu bom nome em longas entrevistas nocturnas que se tornaram sabidas na cidade.

Mas nem por isso o casamento se realisára, porque o pae d'ella se oppunha e o capitão, desde que não presentia probabilidades de dote, preferia não crear obrigações e lançar mais esta á conta das aventuras de que tinha já larguissimo ról. A rapariga chorou, desgostou-se, e em breve, por despeito e desespero, tinha novo namoro.

A proposta do tio, offerecendo-lhe o casamento com D. Pedro, vinha encontral-a na mais favoravel disposição de espirito. Perdida a esperança de casar a seu contento, mórmente depois dos infelizes amores com o capitão, estava com trinta annos. Que lhe restava?

Ao menos, casando, seria senhora da sua casa e gosaria uma liberdade e independencia que muito apetecia. Acceitava.

O pae acceitava tambem. Suppunha que o sobrinho estava ainda rico, não lhe pediria dote, morava longe e não o incommodaria. Era até uma economia! A lembrança de que ia ter menos um encargo, menos uma pessoa a sustentar e a vestir, trazia-o contente.

Verdade seja que era necessario dar-lhe alguma coisa... Parecia mal! Mas tinha as joias que herdára da irmã, algumas pratas, peças de panno de linho, colchas de damasco... Emfim, veria. Dinheiro é que não!

O Albuquerque recebeu em Lisboa a noticia de que o casamento estava ajustado, o que só pela certeza d'uma nova fortuna a desbaratar o commovia. Comprou ricos presentes para a noiva, depois de conseguir do agiota da Praça Velha um novo emprestimo para o qual hypothecou as insuas, fazendo-se então largas contas de todos os atrazados que d'esta vez ficaram garantidos. Veio immediatamente a Vizeu prestar homenagem, que era de bom estylo, á futura esposa, a qual de resto conhecia muito de perto dos bailes e festas beirôas onde costumava encontral-a e onde uns leves pruridos de conquista tinham creado já entre os dois uma certa intimidade.

Depois recolheu a Coimbra para presidir a uma ligeira reparação do seu sumptuoso palacio, que foi rapida, e sem mais delongas se realisou o casamento.

Passados os primeiros e curtissimos tempos em que o Albuquerque julgou de bom gosto acompanhar a mulher em visitas e apresental-a aos seus velhos amigos n'um riquissimo baile, como tradicionalmente eram os da sua casa, voltou ao seu antigo viver, jogo, mulheres e bastas visitas a Lisboa. Entregava a administração da casa á esposa para melhor conquistar a sua generosidade e simultaneamente se desonerar de enfadonhos encargos.

Ella, em quem dominavam os instinctos plebeus e uma insaciavel sede de mandar, exultava com tão subida investidura.

Não se casára com outro fim; a liberdade compensava-a de todas as magoas presentes e passadas, incluindo a indifferença do marido que tratava respeitosamente mas que no intimo considerava como um simples e pouco incommodo tributo imposto á sua independencia.

Quando o velho pae de D. Maria Francisca morreu, o Albuquerque veio com ella a Vizeu; mas ao fim de poucos dias, já tristemente convencido de que a fortuna a herdar ficava muito áquem do que lhe tinham annunciado, deixou-se ganhar pelas saudades dos seus prazeres habituaes e apressou-se a voltar a Coimbra onde agora tinha uma amante, rapariga do povo, travessa e maliciosa, muito cubiçada dos estudantes, e que possuia o condão de despertar em D. Pedro os mais insoffridos ciumes.

A D. Maria Francisca ficava o cuidado de liquidar a herança, o que realisou com uma ganancia e uma crueldade que recordavam bem a ascendencia paterna.

Foi então que ella contractou um procurador e administrador, que havia de a acompanhar a Coimbra e ficar sob as suas ordens, para a coadjuvar n'aquella missão de morgada e senhora rica que aos seus olhos significava uma corôa real.

O procurador era um padre, novo, de vinte e cinco annos, lindo, d'olhos azues e cabellos louros, occultando sob uma apparencia de doçura e placidez um coração apaixonado e ardente.

Em breve D. Maria Francisca o presentiu e, n'uma inflammada avidez de luxuria, entregou-se sem reservas a um amor que realisava a melhor fortuna da sua vida.

A humildade do padre, casada com um vigor juvenil, dava-lhe uma impressão de plenitude em que o contentamento do espirito coroava os regalos do corpo satisfeito.

Pelo seu lado, o padre correspondia impetuosamente a esse amor, concentrando todos os seus esforços em affastar de Coimbra D. Pedro para mais tranquillamente possuir a amante.

—Vá v. ex.a para Lisboa, dizia ao morgado; não se prenda com os negocios da casa. Estão a meu cuidado; não vim aqui para outra cousa. É a minha obrigação.

O Albuquerque partia e, depois de estar em Lisboa, o padre fazia de modo que o dinheiro nunca lhe faltasse para que não se tentasse a voltar a casa. O fidalgo escrevia ao procurador, reconhecido por tanto trabalho e affecto; aos seus amigos não cessava de o elogiar, como um modelo de dedicação, associando-lhe sempre o nome da mulher cujo zelo pelos bens e pelas commodidades do marido, dizia este, a obrigava a viver quasi sempre no meio d'aquellas inhospitas serras de Cercosa, mal servida por uma velha creada que trouxera de casa de seu pae.

Porque era Cercosa a habitação preferida dos amantes. As visitas, os serões com os lentes e mais frequentadores do palacio da estrada da Beira, a creadagem basta, tudo isso perturbava em Coimbra as horas d'amor, e tudo isso desapparecia no silencio do solar de Cercosa protegido pela discrição da creada que já em Vizeu fôra confidente de D. Maria Francisca.

Do casamento de D. Pedro nasceram, com largos intervallos, tres filhos; Leonor, José e Laura. Até aos nove annos foram educados com os velhos creados da casa, no abandono proprio das circumstancias em que se encontravam; a mãe a todo o momento estava em jornada com o capellão para Cercosa, o pae fugia para Lisboa sempre que se via com algum dinheiro e, quando estava em Coimbra ou na Beira, passava o tempo em caçadas, visitas e recepções, folgando continuamente, como um rapaz, ora em sua casa ou nas festas visinhas, que retribuia com largueza. D'este modo, os filhos tornavam-se um estorvo, quer aos amores da fidalga, quer aos prazeres do morgado.

Era preciso remover esse embaraço. Sobre isso conversaram amigavelmente os paes, que de resto sempre viviam em paz e harmonia, n'uma indifferença intima e exteriormente na mais estremada cortezia.

Queriam para os filhos uma educação primorosa, diziam, como aquella que elles mesmos tinham tido, queriam-n'os, principalmente, educados na religião christã.

Por isso resolveram mandar as filhas para o recolhimento das irmãs de Santa Ignez, estabelecidas em Lisboa, umas freiras irlandezas que a marqueza de Fermelã, piedosa senhora que lá ia todos os dias ouvir missa, lhes tinha elogiado como um modelo de bons costumes e fina educação.

Durante muitos annos, no 1.o d'outubro, D. Pedro era certo á porta do recolhimento, que ficava para os lados do Campo d'Ourique, a principio só com Leonor, mais tarde, quando Laura chegou aos nove annos, com as duas filhas.

Ele, pelo seu natural descuido e por certo pendor para a bondade, que facilmente o levariam a ceder aos rogos das filhas, consentiria em alongar as ferias; mas a mãe que vivia contrariadissima com a sua presença, por causa do capellão, punha todos os seus esforços em que os regulamentos collegiaes fossem cumpridos a rigor. Era um bom costume, dizia ao marido sempre que o sentia propenso a qualquer concessão.

No collegio elogiavam a pontualidade das meninas Albuquerques; apontavam-na como exemplo aos mais remissos. Aquelles sim, aquelles educavam conforme as boas regras d'outros tempos! Os filhos lh'o saberiam agradecer mais tarde. Não eram como a gente de Lisboa que estragava as creanças com mimo.

Com o rapaz não se podia fazer outro tanto; o pae não consentia. Queria-o educado em liberdade, para que fosse um homem; o collegio tornal-o-ia maricas.

O melhor seria um professor que viesse a casa dar-lhe lições até ao exame de instrucção primaria, depois havia de frequentar o lyceu para se habituar a tratar com os outros rapazes e por fim formar-se-ia em direito na Universidade.

D. Maria Francisca acceitou e applaudiu o programma. Tinha pensado em que a solução era boa; durante o tempo lectivo o filho estava preso em Coimbra, deixando-lhe por conseguinte a liberdade de gozar a sua querida tranquillidade de Cercosa, as ferias do natal e da paschoa eram breves, e dos mezes de agosto e setembro não tinha a preoccupar-se que esses estavam d'antemão prejudicados pela presença das filhas.

D'esta arte tudo se harmonisou, a contento dos regalos dos paes, até que chegaram os desoito annos de Leonor, a filha mais velha. Era necessario trazel-a para casa, apresental-a, para que se mostrasse em toda a sua belleza, que era grande, e tomasse os habitos mundanos que consideravam parte integrante, e a mais essencial, da sua educação. E assim se fez.

No collegio, Leonor aprendera o cathecismo; só por isso sabia mais doutrina christã que toda a aldeia de Cercosa e arredores. Aprendera tambem a bordar a ouro, em branco e a torçal, copiava desenhos a lapis e a carvão, sabia francez e inglez muito bem, escrevia regularmente o portuguez, e ao piano tivera o primeiro premio, um livrinho de estampas, encadernado em papel côr de rosa com lettras douradas.

Ouvira e repetia que a caridade era a primeira das virtudes, o que a obrigava a não bater nas companheiras e não as accusar das suas faltas, sem embargo do intimo prazer que sentia ao reconhecer a sua superioridade e ao vêr-se louvada pelas suas mestras como a primeira. Sabia que era uma obra de misericordia dar agasalho aos nus, de beber a quem tem sede e de comer a quem tem fome, mas sem exercer essas virtudes ou mesmo sentil-as interiormente; porque no collegio não havia miserias nem mendigos, todos comiam á mesma meza, que era abundante, e dormiam em leitos macios, quentes e aceiados.

Verdadeiras obrigações n'esta vida eram o modo de dobrar a roupa ao deitar, a maneira de pegar no garfo e na faca, o modo de fechar o piano, sem precipitação, e as lições que deviam ser bem decoradas. Feito isto, o elogio das mestras era certo; os premios publicamente distribuidos no fim do anno a confirmação plena de todas as satisfações da vaidade.

Saindo do collegio, a transformação era facil; tinha apenas a substituir vaidade por vaidade, os cuidados escolares pelas preoccupações do vestuario, os louvores dos superiores pelo elogio da sua belleza feito nos requebros e galanteios.

As instigações do instincto, auxiliadas pelos conselhos da mãe, não tardaram a operar rapidamente a mutação; dois annos depois de sair do collegio, com pratica d'alguns salões da capital, de S. Carlos e da Figueira da Foz, Leonor tinha feita a sua reputação de bondade, de formosura e boa educação.

A mãe, astuta, nunca perdendo da lembrança o padre, anceiando pelos tempos de tranquillidade que com elle passava em Cercosa, espreitava o ensejo de casar a filha. O destino breve lhe deparou boa fortuna. A victima foi o filho d'um brazileiro do Minho, novo e riquissimo, que do Porto veiu á Figueira ostentar as suas carruagens e os seus anneis e procurava afidalgar-se pelo casamento.

Exultou quando o viu seguir a filha. Era a felicidade para ella e talvez para toda a familia, porque o rapaz decerto ia pagar as dividas da casa do Albuquerque que dia a dia se afundava vertiginosamente. Teve uma certa difficuldade em convencer Leonor, que soffria d'ambições de fidalguia, mas o amor do luxo tentou-a e o casamento realisou-se.

D. Maria Francisca podia voltar mais livremente a Cercosa, até que Laura deixasse o collegio. Leonor tinha do marido tudo quanto queria e elle se julgava obrigado a conceder á nobreza e ao lustre que ella trazia ao plebeu.

Só os calculos de resgate das dividas se desfariam em desillusões, porque o brazileiro, rehavendo para isso toda a energia d'um bom burguez, defendia-se tenazmente.

Não queria saber dos negocios dos outros, tinha os seus capitaes muito bem collocados e não podia tocar-lhes.

Á sr.a D. Leonor, como respeitosamente a tratava, nada faltaria, nem mesmo o titulo de condessa da Maia que um deputado lhe promettera e as vastissimas propriedades, que n'aquelles logares possuia, justificavam.

José d'Albuquerque completamente convertêra em desenganos as esperanças dos paes. Por um capricho de hereditariedade, carecia absolutamente das qualidades que caracterisavam o temperamento dos paes, a vivacidade, o amor do luxo e dos prazeres.

Era um philosopho, diziam. Levára arrastadamente os seu estudos, não por falta de intelligencia, que realmente possuia grande reflexão e bom senso, mas por incuria e aversão ao que os mestres lhe ensinavam.

A cada momento deixava os livros da aula, para se entregar á leitura das velhas chronicas que ha muito jaziam abandonadas no seu palacio e tinham pertencido a um seu remoto ascendente que fôra conego da sé de Coimbra.

Finda a formatura na Universidade, começou a passar dias inteiros entre a livraria e o jardim, com a paixão d'um alfarrabista. Os seus unicos jogos eram os livros e as flores.

Recusava todos os casamentos vantajosos que tentavam fazer-lhe com fidalgas e parentes da Beira; na sua indolencia, tão avêsso ao jogo, aos cavallos e a mulheres, que constituiam os regalos tradicionaes da sua casa, como indifferente á administração dos bens, tornára-se, com grande desgosto de D. Pedro, a negação do morgado que elle phantasiára continuando o regabofe da familia.

D'aqui, nem D. Pedro nem a mulher esperavam cousa alguma, tanto mais que o filho, além das qualidades de espirito que tão accentuadamente manifestára, era d'uma teimosia invencivel, mansa, calada, mas infinitamente resistente. Na parcimonia, no desprendimento do luxo, e até mesmo no poder de intelligencia, fazia lembrar o avô materno, tendo pelos livros a soffrega cubiça que o outro tinha pelo dinheiro.

Talvez por isso, por lhe recordar o pae, senão mesmo pela propria contradicção de caracteres, a mãe adorava-o; só por elle consentia em fazer qualquer sacrificio dos amores do padre. A mansidão captivava o seu genio ardente; onde quer que a encontrasse, acariciava-a.

Como ultima esperança de salvar a casa, restava Laura. O casamento de Leonor só para ella trouxera riqueza, e de José todo o pensamento de especulação se tinha affastado, graças á sua doce e energica resistencia.

Laura tinha uma educação perfeitamente egual á da irmã. Ao tempo em que a conhecemos, contava vinte e quatro annos de edade e havia seis que deixára o collegio, continuando em casa com lições de piano e de pintura cujos resultados se exibiam frequentemente nos seus magnificos salões, como tentação aos noivos ricos que infelizmente não vinham.

A fama de ruina da casa de D. Pedro era larga e fundada, vivia n'uma teia infinda de embaraços; todos fugiam de ligar o seu nome e a sua existencia aos vexames e vergonhas de que os Albuquerques estavam permanentemente ameaçados.

Entretanto, não faltavam a Laura carinhos de educação nem vestidos elegantes. Devia-se aos mestres e á modestia, de quem periodicamente se recebiam cartas agridoces instando pelo pagamento, mas uma derradeira esperança concentrava na pobre rapariga todos os desvelos e para a fazer brilhar não havia hesitações.

Tal era muito em breve a historia e a situação da familia a que Claudio pensava em unir-se, buscando paz á sua alma n'uma vida de dignidade, de trabalho, de elevação e de grandeza moral.

Tambem, pelo seu lado, D. Pedro e a mulher o cubiçavam. Instigados pela mesma ambição, tacitamente reunidos num mesmo pensamento de interesse, viam ha muito em Claudio um genro que lhes convinha. Suppunham muito elevada a sua fortuna; sempre que de Albergaria vinha alguem aos seus jantares, não perdiam occasião de se informarem.

—É muito bom rapaz, todos lhe diziam, e deve estar muito bem. Além do que elle comprou ao fidalgo, tem muito dinheiro; calculam-lhe para mais de cem contos que herdou do tio. Elle diz que não, que apenas recebeu de lá uns quarenta contos, mas é claro que essas cousas nunca se confessam.

Ao jantar e na palestra que precedia as partidas de whist, emquanto o creado punha sobre a meza as marcas e os baralhos de cartas, collocando aos cantos os castiçaes de prata e os cinzeiros, o velho fidalgo, no sofá encarnado, perna cruzada, a pôr em evidencia o seu pé pequenino que toda a Beira galante conhecia, não cessava de elogiar o amigo do seu José.

—Uma joia de rapaz! exclamava. E de boa familia...

O seu enthusiasmo ia ao ponto de imaginar fidalguias para o seu futuro genro. Não sabia ao certo... mas pelo nome era indubitavelmente descendente d'uns Souzas, muito nobres, ainda parentes do duque d'Aveiro, que viviam em Albergaria quando foi da invasão franceza.

Os francezes queimaram-lhes o palacio; elles, desgostosos com isso, nunca mais lá voltaram, foram morar para umas herdades que possuiam no Alemtejo e mais tarde venderam tudo o que tinham no norte.

Depois, mesmo o nome de Portugal indicava alguma cousa. Em Semide conhecia uma familia com aquelle appellido, parente dos condes de Montemór que, como se sabe, eram da mais antiga nobreza do reino.

No fundo, o velho Albuquerque sentia uma ligeira contrariedade ao pensar no casamento da filha com Claudio. Tentando convencer os outros, procurava ao mesmo tempo desvanecer as sombras que lhe empannavam o espirito. Claudio não era, infelizmente, fidalgo; só por triste necessidade de ruina o acceitaria para marido de Laura.

Não tardaria que isso succedesse, porque, emquanto os Albuquerques se davam a este novo sonho de riqueza, Claudio resolvia definitivamente a sua situação.

Na madrugada que se seguiu áquella noite tormentosa em que como doido deixára para sempre a capella da rua da Cruz, ainda no ardor da febre em que a anciedade o consumia, Claudio encontrava casualmente sobre a mesa um livro de Paulo Bourget, L'Irreparable. Leu e sentiu um subito despertar. Accordava, tinha encontrado a chave do enigma da sua existencia, a resolução de todas as duvidas. Recuperava o animo, n'esta esperança que d'antemão se lhe afigurava uma realidade.

Sim, comprehendia agora o que tinha a fazer, o que ha muito podéra ter feito, se a fraqueza o não tivesse vencido.

Era necessario, urgente, que por um acto de energia creasse entre elle e Emilia uma situação irreparavel em que lhe fosse impossivel voltar atraz; e essa situação não podia ser outra senão o ajuste immediato do seu casamento com Laura.

Com Laura?!... Se ella o acceitasse!... Tremia, recordava as palavras de sympathia que tinha ouvido da sua bocca e, recordando-as, moderava as apprehensões que lhe provinham do confronto da sua humildade plebeia com a nobreza dos Albuquerques.

Fosse como fosse, a hora era de acção; estava resolvido a lançar para longe esta cruz d'uma eterna hesitação.

Ia escrever a Jorge pedindo-lhe que viesse a Coimbra fazer aos Albuquerques o pedido da filha. Elle mesmo, n'aquelle dia, iria ver Laura e, confessando-lhe o seu amor, propôr-lhe-ia o casamento. Se ella recusasse, telegrapharia a Jorge para que elle suspendesse a jornada e partiria para o estrangeiro a refazer-se de todas as dôres no repouso e nos prazeres.

De Emilia não cuidava. Fizesse o que quizesse, não se julgava responsavel da loucura que a accomettera e em que ella pretendia, com um egoismo cruel, reduzil-o a propriedade sua, calcando todas as attribulações da sua consciencia e cuspindo palavras de escarneo e desprezo sobre aquillo que elle amava. Era de mais! A taça trasbordava.

Sentou-se e escreveu:

«Meu querido Jorge:

Esta carta será para ti uma surpreza e espero que, conjunctamente, um motivo de alegria. Vae surprehender-te o pedido que venho fazer-te, a ti que me suppunhas talvez cahido na impenitencia final, e ha-de por certo alegrar-te saberes que, embora tarde e o coração rasgado pela dôr e pelo remorso, vou tentar uma nova vida de honestidade e de trabalho, procurando resgatar nos annos que porventura tenha deante de mim, os erros que foram o amargo fructo de toda a minha mocidade.

Depois que estiveste aqui na primavera passada, nunca mais te fallei dos tormentos com que tenho vivido em continuada mortificação; julguei por um lado excessiva fraqueza da minha parte e, por outro, profanação da paz risonha do teu lar ir inquietar-te com lamentos que nunca deveria soltar porque eram unicamente a minha culpa, minha grande culpa. Mas a triste verdade é que ha um anno vivo n'uma constante lucta, procurando fazer penetrar no coração de Emilia a luz de Deus que nos devia guiar, a ella e a mim, no caminho da emenda e salvação.

Todos os meus esforços foram vãos; todos se partiram e desfizeram d'encontro a um egoismo sem limites em que, invocando o meu amôr, procurou prender-me por todos os modos, com rogos e ameaças, já invocando os meus loucos protestos de fidelidade perpetua, já soccorrendo-se das obrigações que me attribuia por ter manchado a sua honra e destruido a sua reputação.

Não pódes calcular, meu querido Jorge, a sinceridade e instancia com que luctei, chamando-a ao dever, em nome dos filhos, da religião, da consciencia e do proprio amor que me jurava e de que implorava um acto de resignação e desprendimento, restituindo-me a tranquillidade d'alma sem a qual me julgo indigno da vida.

Tudo foi em vão! A cegueira do peccado vendava-lhe todos os sentidos e não tive meio de a levantar d'esse abysmo de tenebroso erro em que, por infelicidade sua e minha, ambos nos precipitamos n'um momento de desvairada tentação.

Chegou porém a hora de pôr termo á miseria e vergonha em que me tenho arrastado.

Hontem, louca de ciumes, insultou-me e insultou pessoas a que muito quero em termos que nunca julguei ouvir da sua bocca e que até mesmo ignorava que ella conhecesse, fazendo-me passar talvez a hora mais indigna da minha vida. Fugi, para não a esmagar n'um impeto de raiva, e agora estou no firme proposito de estabelecer entre mim e ella qualquer cousa irreperavel que d'uma vez para sempre nos livre de consentir em prolongar, por mais um só dia que seja, os nossos amores.

Ah! meu Jorge, tu nunca saberás que fortuna significa uma consciencia imaculada nem poderás imaginar o que são as penas do remorso! Como um Lazaro, coberto de ulceras e das mais fundamente gangrenadas, só peço a Deus que me proteja e conduza no seu infinito amor. Todas as dores do corpo, todas as enfermidades serão para mim melhores que o castigo das minhas culpas nas accusações da consciencia.

Vou tentar libertar-me d'esses phantasmas sem piedade que me perseguem e aterram, reunindo n'um só esforço todas as energias da razão e da vontade que ainda possa encontrar nos miserandos restos d'um corpo exausto e d'uma alma repassada de soffrimento. Quero casar-me.

Conheceste como eu as irmãs do nosso bom amigo José d'Albuquerque; é mesmo provavel que mais do que eu as tenhas encontrado na sociedade que frequentas em Lisboa. A mais velha, a Leonor, casou no Porto com um rapaz muito rico; a Laura está ainda solteira e é no seu nome e na sua imagem angelica que estão hoje todas as minhas esperanças.

Não me julgues apaixonado; vão longe esses tempos e devaneios, posto que a sua formosura e os seus dotes bem os justificassem. Procuro realisar um casamento longamente reflectido e meditado, á fria luz da razão.

Hoje, o meu pensar transformou-se. Ha poucos annos a vida era para mim uma festa pagã em que a livre expansão de todas as forças animaes significava a felicidade suprema; mas a experiencia e a dôr ensinaram-me que concorrentemente ha leis moraes, derivadas de inspiração interior, a que não se póde impunemente faltar. Por as ter desconhecido e prostergado, passei pelas mortificações que só agora espero affastar.

Não que a vida mystica me tente ou desconheça o que devo ao corpo. Pelo contrario, vejo e comprehendo as suas imperiosas necessidades. Mas quero que a existencia humana, para ser bella e nobre, se traduza n'um equilibrio das inspirações divinas e das aspirações terrenas, na harmonia da luz da consciencia dominando e regulando o tumultuar das paixões mortaes.

Não contesto as leis da vida organica e tudo o que a sciencia me ensinou; pretendo apenas que, conjunctamente e superiormente, existem leis divinas, um impulso interior que nos domina e ordena a pratica do bem.

N'estas condições, dada a conclusão definitiva a que cheguei sobre o que a vida deva ser, pódes comprehender a que motivos obedeci inclinando-me a casar n'uma familia nobre. Laura trará ao meu casal a candura, a ingenuidade, a educação profundamente religiosa que recebeu e os encantos da vida aristocratica, no melhor sentido da palavra, os delicados instinctos artisticos que são a coroa da vida mundana e a cercam d'um puro deleite; eu levarei com o meu sangue plebeu os habitos de trabalho que são o brazão da gente humilde e o fundamento da dignidade.

E assim viveremos na modestia que convém á exiguidade das minhas riquezas, na caridade que será para nós o premio divino, o melhor dos bens, e no estudo e na arte que elevam o espirito e nos arrebatam n'uma aurora infinda onde o sol se eleva sempre, espargindo serenidade e luz e jámais se afunda derramando a treva.

Quizera dizer-te todo o programma de vida que em longos mezes de inquietação pude determinar na anciedade de paz e de virtude; quizera dizer-te como espero resgatar estes tristes annos de loucura e de erro.

Mas, alem de que te escrevo extenuado pela fadiga d'uma noite tempestuosa que me deixou o espirito em desordem, a esperança de te vêr dentro em pouco convida-me a ser breve. Porque o que desejo pedir-te, e é o fim principal d'esta carta, é que sem perda de tempo venhas vêr-me para me ajudares com o teu conselho e a tua amisade e para regulares a minha situação com Laura e os Albuquerques, conforme as boas regras de cortezia em que és perito e de cujos preceitos me não reputo sabedor.

Seja qual fôr o teu juizo e opinião sobre as duvidas que me trazem perturbado, a tua presença será para mim, estou bem certo, um grande bem. Nem tu pódes calcular que allivio foi esta curta confissão! Sinto-me agora bem, parecem-me distantes as sombras afflictivas da noite; enche-me o coração a esperança e a paz. Meu Deus! Protegei-me no caminho da virtude e fazei que jámais d'elle torne a desviar-me!

Do teu

Claudio

N'essa mesma manhã, Claudio, levado ainda na impaciencia que o fizera escrever a Jorge, pediu á mãe, no fim do almoço, que viesse fallar-lhe ao seu gabinete e ambos se encaminharam para lá.

A velhinha entrou, sentou-se, e erguendo os olhos negros, a brilhar na face rugosa toucada de cabellos brancos, esperou um instante que o filho começasse. Claudio, tremulo e pallido, não sabia o que dizer; sentia sobre si o peso e o terror d'um grande crime a confessar perante o tribunal supremo. Foi á janella, voltou, dirigiu-se á mesa de trabalho, pegou n'uma faca de cortar papel, pousou-a immediatamente, e n'estes movimentos inconscientes e desconnexos dava pasto á sua agitação sem poder articular uma palavra.

Queria confessar á mãe toda a sua vida e pedir-lhe perdão das suas culpas. Seria o primeiro passo para a regeneração e para a virtude.

—Então que me queres? resolveu-se por fim a velhinha a perguntar, vendo o silencio do filho e começando a sentir certo mysterio n'esta longa pausa.

—Eu queria, minha mãe... queria dizer-lhe... que, se fosse da sua vontade... se fosse da sua vontade... já lhe tenho dado tantos desgostos...

—Que tens tu? disse ella levantando-se ao vêr a angustia do filho. Senta-te, senta-te aqui, tu não estás bem.

Claudio sentou se e proseguiu, olhando vagamente, sem se atrever a fitar a mãe:

—Queria dizer-lhe que, se fosse da sua vontade, talvez me casasse...

—Oh! Claudio! respondeu ella abraçando-o. Deus Nosso Senhor ouviu as minhas orações...

E, nos braços um do outro, afogaram em lagrimas e soluços a agonia, dissipando-a. A confissão que havia de ser longa, encerrara-se n'estas rapidas palavras; o coração sentira o que os labios não souberam dizer.

Não tardou a resposta de Jorge.

«O casamento e a mortalha no ceu se talha», começava elle. Esse é que era o preceito antigo e authentico sobre casamentos. Que se deixasse Claudio de theorias que já uma vez lhe tinham provado mal e que agora mesmo não podiam prometter-lhe cousa alguma.

Que tinha feito muito bem em acabar com os amores de Emilia, se o inquietavam, e que tambem lhe não dizia que deixasse de casar com Laura, se gostava d'ella; mas que ficasse bem certo que nem o primeiro caso era motivo para os exaggerados remorsos de que se deixára possuir nem devia pôr no casamento tão extraordinarias esperanças que o futuro não as podesse satisfazer. Conhecia muito bem o Albuquerque pae, que a cada passo encontrava em Lisboa; era um dissipador, mas um cavalheiro, excellente homem.

Não conhecia egualmente a mulher que quasi nunca vinha a Lisboa, mas ouvira que era uma senhora de muito tino e que toda se dedicára á administração da casa.

Quanto á rapariga, nada lhe diria senão que era muito bonita, porque ninguem sabe o que está dentro do coração d'uma menina que ainda não conheceu nem póde conhecer o que seja a vida do casamento com todos os seus trabalhos e obrigações. O tempo lhe diria a sua sorte.

Ia partir immediatamente para Albergaria; guardava para a sombra dos platanos, que tanto apreciava, a discussão de todos esses pontos que a Claudio pareciam tão obscuros e que para elle eram tão limpidos como agua da fonte.

Em poucos dias tinha ajustado o casamento de Claudio com Laura. Restavam só os cuidados de ordem material, o enxoval da noiva e a installação da casa, para o que se calculou que quatro mezes seriam bastantes.

Claudio deixava o palacio de Albergaria, ia viver em Coimbra. A mãe voltava a Villalva, separando-se do filho com a mágoa e a resignação que era propria da doçura do seu caracter mas ao mesmo tempo contente por ir acabar onde vivera a sua melhor vida, dando largas aos habitos de simplicidade, ao genio laborioso e á caridade constante. O filho promettia ir vel-a todas as semanas.

A casa escolhida pelos noivos era na estrada da Beira, a pequena distancia do palacio dos Albuquerques. Sobre uma elevação, recolhida no meio d'uma pequena quinta que descia em largos taboleiros vicejantes de jardins, de hortas e de pomares, dominava todo o valle, triste nas tintas sombrias do olivedo que o cobria. Em frente, atravez uma pequena garganta, entre duas collinas, as aguas do rio e os salgueiros mimosos, balouçando-se, lançavam um brando alento de movimento e frescura sobre a morna placidez do valle. Aqui e além, erguiam-se os choupos, corajosamente, brandindo ao vento as tenues folhas.

Á festa da natureza quiz Claudio associar os primores da arte; aos moveis do palacio de Albergaria juntou o bric-à-brac que Jorge lhe enviou de Lisboa.

Elle mesmo veio ajudal-o a dispôr quadros e louças, tapeçarias e bronzes, cogitando artificios para dar relevo á belleza dos objectos.

O ninho era tentador para a mais delicada sensualidade; o proprio Albuquerque, que na frequencia da gente fina adquirira auctoridade em materia d'armador, exclamava contente nos serões do seu palacio, entre os lentes que vinham tomar-lhe o chá:

—A casa fica linda; o rapaz tem muito gosto!...

Quando chegou a hora de se separar da mãe, Claudio sentiu pela primeira vez a apprehensão da inanidade de todo o esforço em que com tanto enthusiasmo e tão boas aspirações se empenhára.

Onde ia? Para que tanto movimento? Que buscava? Que valia á sua vida a riqueza e o ninho que architectára n'esse valle que agora lhe parecia estranho? Sonhára uma companheira para a sua vida... Onde estava? Laura? Afigurava-se-lhe uma mulher alheia. Desconhecia-a.

Varrido e abandonado já o palacio de Albergaria, n'essa pequena sala de Villalva, só com sua mãe, via em torno os montes escalvados, em baixo o estreito campo a que déra todos os seus cuidados, ao longe um retalho da varzea cortada pelo rio. Tarde de primavera, suavidade e silencio, só cortado pela voz guthural do lavrador que animava o jugo! Era a hora de jantar, a ultima refeição que teria em commum com sua mãe antes de partir para essa jornada mysteriosa, que tão ardentemente desejára e que agora quasi aborrecia.

Ia dormir a Coimbra, na sua nova casa.

No dia seguinte, á uma hora da tarde, era o casamento. Dos seus amigos e dos seus parentes só Jorge o acompanharia; a mãe e a irmã não consentiram, por timidez e acanhamento, em deixar os seus campos. De resto, os Albuquerques, incluindo Laura, mal se referiram a essa falta, muito promptos em acceitar todas as escusas. Intimamente temiam que lhes viessem manchar a festa com a sua rudeza.

Ao fim d'essa derradeira refeição, aproximou-se da mãe para a abraçar pela ultima vez antes de se casar. A lembrança de todo o passado que lhe enchia o peito trasbordou em largos soluços e lagrimas abundantes. Choraram unidos estreitamente, trocando um prolongado beijo, sem articular uma só palavra, n'uma supplica fervorosa e muda de felicidade em que se confundiam mágoas, esperanças e um infinito affecto. Depois, Claudio, abrindo os braços, com um gesto de resolução, deixou a mãe:

—Adeus!

—Adeus!

Foram as unicas palavras que em voz sumida se ouviram; e saiu descendo o caminho, sem olhar para traz, dirigindo-se á carruagem que o esperava em baixo.

A meia encosta, veio juntar-se-lhe, correndo e querendo acompanhal-o, o cão de guarda da lavoura.

—Chama-o, chama-o, disse Claudio para um creado que estava perto.

—Leão, Leão, aqui! gritou o creado.

O cão parou hesitante e contrafeito. Por fim obedeceu.

Claudio seguiu, juntando, no coração opprimido, esta caricia ás fundas dores que o trespassavam.

A este tempo, em casa dos Albuquerques, o movimento e a confusão eram completos. Rolos de tapetes, vasos de flores, escadas, louças, creados em mangas de camisa, mulheres do campo transportando cestos com ramos de hera e de loureiro, um ininterrompido cruzar de vozes dando ordens e pedindo objectos, tudo redemoinhava em volta de D. Pedro que corria de salão para salão querendo dirigir toda a esmerada ornamentação do palacio.

—Olha esse lustre!... Cuidado com as cortinas!... Esses vasos vem ou não vem?!... Então o tapete?... Assim... pela direita... está bem! mais acima!

O tiroteio não cessava, tentando cada um desembaraçar-se da sua tarefa n'uma desordem activa e alegre.

Ao cair da noite estava tudo completo; a casa guarnecida de verdura e de flores, coberto o chão de tapetes a amortecer todos os ruidos, as vellas postas profusamente nos candelabros e nas serpentinas para se accenderem no dia seguinte.

Nos aposentos de Laura e D. Maria Francisca, pelas cadeiras, pelas camas e pelos sofás estendiam-se rendas, plumas, flores e vestidos fôfos e ondeantes. A um canto da janella uma costureira apertava a cintura d'uma saia de seda que se espraiava pelo chão sobre um lençol de linho e que a modista mandára larga, errando a medida.

Para o casamento estavam convidados alguns parentes da Beira e uns fidalgos de Lisboa, companheiros de D. Pedro em S. Carlos, nas touradas e nos clubs.

Começavam agora a chegar em char-à-bancs, que os transportavam da estação do caminho de ferro, os da Beira com bahús de folha envernisada, mal fechados e ligados com cordas delgadas, os de Lisboa com grandes malas de couros macios, afivelladas com ferragens brancas e polidas como prata.

O Albuquerque recebia os hospedes, conduzindo-os aos seus quartos e mostrando-lhes em seguida as salas mal illuminadas, para não desmanchar os preparativos da festa, ouvindo com desvanecimento os elogios.

—Um palacio, uma palacio! Estás aqui como um principe!

D. Maria Francisca tomava as damas a seu cargo e recebia-as nos seus aposentos.

Pelas dez horas da noite caira tudo em relativa tranquillidade, os hospedes de Lisboa acantonados nas mezas de whist e as senhoras no quarto de D. Maria Francisca, mexendo e remexendo com a sua natural curiosidade o enxoval e as prendas de Laura, discutindo, apreciando e fazendo comparações com outros casamentos nobres a que tinham assistido.

—Vaes ser muito feliz! diziam com denguice para Laura.

—Parece-me muito bom rapaz, respondia D. Maria Francisca. Creio que ha-de saber estimal-a... E agora hão-de dar-me licença, que são horas de preparar a meza. Quero deixar tudo prompto hoje; se lá não vou abaixo, os creados não fazem nada. Uns estupidos!...

—Oh! tia, eu vou ajudal-a, respondeu uma das meninas recemchegadas.

E seguia D. Maria Francisca para a sala de jantar.

Claudio veio tambem, mas demorou-se pouco. Tinha umas ultimas cousas a regular na sua nova casa. Laura não procurou prendel-o, absorvida como estava pelos cuidados dos seus vestidos novos e de se mostrar bella e fidalga no dia que lhe diziam ser o maior da sua vida.

O casamento foi á uma hora da tarde, na capella do palacio.

Desde o meio dia havia um incessante rodar de carruagens, que entravam o largo portão de ferro coroado pelo brazão dos Albuquerques e iam parar em frente dos degráus do palacio alcatifados e ladeados de vasos com hortensias.

Os cocheiros, na almofada, voltavam-se para traz, recebiam ordem de regressar á noite, esperavam que o creado da casa, fardado de verde e branco, batesse a portinhola, e saiam dentro das suas librés de emprestimo, mal ajustadas, conduzindo os cavallos magros, cobertos de arreios baços, em que só brilhavam as ferragens amarellas, excepcionalmente polidas, para aquelle dia, tentando honrar os creditos da cocheira.

Nas salas, as casacas negras e brunidas entre vestidos de seda, muitas rendas, algumas joias, e um rumor de vozes abafadas na timidez de indiscrição e no respeito da solemnidade. Só os convidados de Lisboa destacavam por fallarem alto, trazerem casacas usadas e macias, amoldando-se bem ao corpo, e sapatos com visiveis signaes de terem servido muitas vezes; passeavam e conversavam livremente com damas e cavalheiros, e os da terra olhavam-n'os estudando elegancia, confrontando-se com elles e procurando aprender aquella maneira tão facil de dar o nó na gravata que muito cubiçavam.

O Albuquerque entrou sorridente, com Laura pelo braço; Claudio deu por sua vez o braço a D. Maria Francisca. Juntos os convidados aos pares, cada cavalheiro dando o braço á sua dama, poz-se o cortejo a caminho da capella, saindo a porta principal e atravessando pelo jardim. Na rua, o povo apinhava-se nas grades que vedavam a quinta, espreitando por entre as arvores.

—Tão linda! Parece um anjo... exclamavam, confundindo em vágas remeniscencias a noiva e as creanças que viam nas procissões com grandes azas de pennas brancas e vestidos estrellados de lantejoulas.

A cerimonia na capella foi breve; dentro d'uma hora o cortejo regressava ao palacio. Houvera lagrimas ao verem os paes abraçar a filha, mas a missa em seguida ao casamento e os gracejos com que os mais alegres commentavam a situação tinham desvanecido essas sombras passageiras; quando sairam da capella, todos vinham risonhos.

O lunch era ás tres horas; no breve intervallo que medeava entre o casamento e a refeição, os convidados dispersaram-se em grupos pelas salas e pelos jardins, n'aquella molleza que é caracteristica da gula esperando a hora de saciar-se.

Geralmente discutia-se a grandeza e o viver dos Albuquerques. Os commentarios divergiam.

Entre dois parentes de Vizeu sentados á sombra d'uma olaia, podia surprehender-se o seguinte dialogo:

—É uma grande casa! Vê tu que riqueza ahi está e que gente aqui vem!

—Já foi melhor. Deve muito.

—Deixa lá! Tem uma grande casa... Só em Cercosa recebe ainda para cima de cem moios de milho, fóra o trigo, o centeio, o vinho e o azeite.

—Pois sim... mas que importa isso? Á Misericordia deve perto de trinta contos e disse-me outro dia o Nunes, que é lá o cartorario, que tem mais de quatro annos de juro em atrazo e é uma cruz para lhe apanhar um vintem. Só quando estão ameaçados de qualquer penhora é que se mexem. Olha que ha mais de quarenta annos que este homem não faz senão gastar dinheiro!...

—Mas a casa é muito grande, tem muitos recursos. Quanto não vale isto aqui? e os bens de Pombal?

—Está tudo hypothecado ao Credito Predial e quem lá vae é alma que caiu no inferno. Não se sae de lá mais. Lembra-te do que aconteceu ao marquez de Cannaes. Foi tudo! Ficaram sem nada!

—Mas agora tem os genros para o ajudarem...

—Só se fôr isso!... Este rapaz dizem que tem boa casa.

Mais adeante, dois lentes de direito, passeiando de braço dado á beira do lago, commentavam differentemente, em tom malicioso.

—Hein!? Que sorte! Dá cabo da fortuna dos paes, refresca com o casamento, arruina-se outra vez, e agora casa as filhas ricas.

—Elle merece-o, que nos tem dado muito boas festas. Não ha ninguem para receber como este homem. Nasceu para isto!... Acabou-se.

—Mas não podem ir longe... Já por ahi ha procurações para penhora, vindas de Lisboa, sem conta.

—O que eu admiro é como este rapaz aqui veiu cair. Foi meu condiscipulo e era o avêsso de todas estas cousas. Retraído, muito modesto...

—Então?! Está rico, quiz afidalgar-se...

—Não, não é este homem d'isso. Gostou da rapariga, os paes haviam de lh'a metter á cara, e caiu.

—Pois olhe que, se elle é como você diz, não me parece que vá lá muito bem. Esta gente gosta de gastar e de luxar.

—Não, não! A Laura é muito boa menina!

—Boa!... Historias! As meninas são todas boas, mas, quando se habituam a viver á larga, não ha quem as ature. Isto de fidalgos é muito boa gente para gozarmos com elles; de portas a dentro o caso é outro.

Claudio estava aturdido com todo aquelle rumor, que tanto contrariava os seus habitos, e enfadado. As suas preoccupações andavam muito longe da alegria em que a excitação das viandas e o calor dos vinhos lançavam os convidados.

Ás nove horas da noite dançava-se e ria-se desprendida e folgadamente; toda a frieza solemne se tinha partido ao contacto do sangue escandecido. Só Claudio se conservava affastado, ao lado de Laura, supportando como um estranho o prazer alheio, intimamente dominado d'uma religiosa tristeza, meditando na vida virtuosa a que ia consagrar-se, o coração tumido de angustias passadas e de esperanças futuras.

Ao bater da meia noite, julgou ter cumprido o seu dever de assistencia e saiu com Laura para a sua nova casa. Os convidados acompanharam-n'os até ao portão do jardim, a musica deixou de se ouvir por um momento, as salas ficaram desertas, repetiram-se os abraços e as lagrimas que de manhã se tinham visto na capella, ouviram-se alguns beijos e a festa proseguiu redobrando de animação.

Os primeiros dias passados na pequena casa da estrada da Beira foram para Claudio d'uma infinita doçura. Do governo da casa não havia a cuidar; D. Maria Francisca mandára com a filha uma velha creada da sua confiança, para tudo dirigir e regular sem que a paz e felicidade dos noivos fosse perturbada.

Longas horas no jardim entre flores, pequenos passeios a pé pelos caminhos menos frequentados, colhendo plantas e admirando a natureza, passeios de carruagem pelas margens do rio, e o serões em casa dos Albuquerques, ora jogando, ora conversando: n'isto se consumiam os dias.

Claudio sentia-se bem. Acceitava todos estes gozos da sensualidade e da indolencia como um premio de virtude, pensando quanto o amor era bello na consciencia tranquilla pela satisfação das convenções do mundo, e comparando o presente com esse passado que a ventura d'agora mais carregava de crimes e remorsos.

Emprehendia a educação do espirito de Laura, admirando com pasmo e veneração a sua ingenuidade e louvando a Deus por lhe ter concedido tão precioso bem. Aquella sim, aquella seria boa, porque era simples.

Confundindo a estupidez, a inexperiencia e a futilidade com a candura, tomando por singeleza d'alma, prompta a desabrochar em sentimento christão, o que era apenas estreiteza de intelligencia e de coração, Claudio communicava-lhe todos os seus planos de vida.

Ella ouvia-o, de ordinario silenciosa, fundamentalmente alheia a toda a profundeza de pensamento; elle ficava contente, tomando esse silencio por um tacito assentimento e interpretando a mudez como uma forte e serena energia. Exultava; a esposa tranformar-se-ia n'uma mulher superior.

Foram a Villalva. Laura pouco disse á mãe de Claudio. A unica coisa que lhe permitiu uns momentos de conversação foram as imagens do oratorio e particularmente uma imagem da Senhora do Carmo. Havia uma outra egual no collegio, em Lisboa, e tinha com ella muita devoção. A velhita louvou intimamente os sentimentos religiosos da sua nova filha e repetia:

—Assim é bom, assim é bom... É o que n'esta vida me tem valido e ajudado nas minhas afflicções.

Voltou-se para o filho, sem uma palavra sobre a sua situação. Instinctivamente affastava uma ociosa confissão de desejos e aspirações tão carinhosamente sentidas que nenhumas palavras saberiam traduzil-as.

Perguntava pelas cousas da casa e referia o que na ausencia de Claudio se tinha passado. Que visse elle o que precisaria em Coimbra, que já começava a haver alguma hortaliça no Serrado de Baixo e o azeite que tinha levado talvez não fosse do melhor.

Tinha vindo um rendeiro do Amial pagar a renda, era preciso experimentar o vinho que havia de precisar de trasfega, e o José, o creado, não tinha geito nenhum para isso. O melhor seria Claudio ir lá passar um dia para vêr todas essas coisas, mesmo porque o dr. Azevedo, de Albergaria, lhe tinha dito que precisava fallar com elle por causa dos fóros de Sernadas. Claudio prometteu voltar dentro de pouco dias. Partiu, com grande allivio de Laura a quem as attenções do marido pela mãe começavam a enfadar e que se sentia estranha áquella atmosphera. Não lhe queria bem nem mal; ignorava-a. Por vicio de educação, por temperamento e inclinação hereditaria estava realmente destinada a ignoral-a perpetuamente.

Em vão Claudio, saindo de Villalva, lhe mostraria o campo em que tantas horas tinha trabalhado, as arvores e as flôres que plantára por suas mãos. Tudo lhe parecia uma simples mania; e cautelosamente a occultava nos salões do pae, para não dar ensejo ao riso das antigas amigas, que lhe mordia a vaidade, amesquinhando o marido.

Ao fim d'um mez de vida idyllica, o contentamento do mavioso casal da estrada da Beira foi subitamente perturbado por um incidente doloroso.

Uma noite, pelas tres da madrugada, Claudio despertou aos gemidos de Laura.

—Que tens, minha filha, que tens?... perguntou ancioso.

Ella continuava gemendo, sem responder, e elle insistia em tom afflictivo:

—Dize, dize-me, minha filha, por quem és... Que tens tu?

Por fim, cedendo aos rogos do marido, respondeu arrastadamente.

—Ai! meu Deus!... Ha uma hora que não durmo. Não posso parar com dores n'um dente, d'este lado... E indicava com a mão.

—Se tu fosses ao dentista pedir o elixir...

—A esta hora?! perguntou Claudio surprehendido.

—Sim... sim... não posso esperar.

N'um instante, Claudio estava na estrada, correndo ladeira abaixo, a caminho da cidade. Ao pé de Laura ficára a creada que se offerecia, suavisando a voz, para aquecer uma pinguinha d'agua, segundo ella dizia. Talvez um chásinho...

Laura nem lhe respondia, conforme os seus habitos de menina mimosa.

Entretanto Claudio batia á porta do dentista que veio á janella, ás escuras, a resmungar com somno. A estas horas!... É preciso ter muito pouco respeito pelo socego d'uma pessoa! Bem tolo é quem os atura.

—Quem é que está ahi? gritou de cima.

—O dr. Claudio...

—Ah! é v. ex.a. Eu vou abrir, respondeu apressadamente o dentista, moderando a impaciencia e esforçando-se por sorrir perante o freguez rico.

—Então?!... perguntou mal abriu a porta. Faça v. ex.a o favor de subir.

—Minha mulher está com uma dôr de dentes e eu vinha pedir-lhe aquelle elixir...

—Pois não! Eu dou-lh'o já...

E dirigiu-se a uma estante.

—Queira desculpar.

—Ora essa! É a nossa obrigação, não me falle v. ex.a n'isso... Se a dôr não abrandar á primeira applicação, renova o algodão no fim de meia hora...

—Eu sei, eu sei, respondia Claudio, apressando-se a descer a escada. Infelizmente já o tenho usado... Muito obrigado, sim? E desculpe...

—Não ha de quê. Sempre ás ordens de v. ex.a.

Claudio entrou em casa offegante. Correu ao quarto da mulher que, logo que o sentiu, se sentou no leito.

—Aqui está! exclamou elle risonho de contentamento por vêr satisfeita a vontade de Laura.

Com difficuldade applicou-se o remedio, porque mal se percebia uma sombra de carie no dente, e Laura adormeceu rapidamente n'um somno tranquillo.

Excitado pela inquietação e pelo movimento, o marido ficou passeiando na sala. Só tarde, pelas sete horas, a fadiga o dominou e adormeceu sobre um sofá, para não entrar no quarto e perturbar com os seus passos o somno da mulher.

Ás nove horas despertou, sentindo vozes e passos estranhos. O que seria? Ergueu-se sobresaltado. Laura estaria peor?

A creada velha, logo pela madrugada, mandára dizer á creada de quarto de D. Maria Francisca que prevenisse a sua senhora de que a menina tinha passado muito mal a noite. D. Maria Francisca soubera a noticia quando ás oito horas pediu o primeiro almoço e apressou-se a vir a casa da filha.

Mal penteada e mal vestida, com uns sapatos lassos e a góla do casaco desapertada deixando vêr o collo que as rugas começavam a sulcar, D. Maria Francisca, espavorida, perguntou subitamente ao genro:

—Então que foi, que foi?!...

—Uma dôr de dentes... Felizmente pude applicar-lhe o elixir...

—E agora como está?

—Deixei-a a dormir...

—Sósinha!... Que imprudencia!...

—É que estava tão socegada que eu não quiz aproximar-me d'ella com receio de a accordar.

Entraram no quarto.

Laura tinha dormido excellentemente depois do tratamento; nem sequer apresentava no rosto vestigios de ter soffrido o quer que fosse. Acercaram-se do leito pé ante pé e a mãe, em voz dorida, perguntou á filha, que não levantava a cabeça do travesseiro:

—Estás melhor, minha filhinha?

—Parece que agora estou melhor, mas passei muito mal a noite. Ai, que dôres, Santo Deus!

—O Alexander bem te disse, replicou a mãe em tom de mágoa e reprehensão, que esse dente precisava tratamento. Tu não quizeste e ahi tens as consequencias! Agora o remedio é voltar lá.

—A Lisboa?! perguntou Claudio com certa vivacidade e espanto.

—Sim, e quanto antes. Devem ir hoje mesmo antes que a dôr volte. É um soffrimento horroroso, horroroso!...

—Mas talvez aqui mesmo...

—Ai, pelo amor de Deus, não! Uns brutinhos!...

—É que o dentista foi tão amavel comigo que póde escandalisar-se...

—Não tenha medo. Ha-de fazer-lhe boa conta.

E voltando-se para a filha, a cortar a discussão que lhe parecia ociosa:

—Apósto que ainda não tomaste nada? perguntou.

—Não m'o trouxeram... respondeu Laura.

—Com estas cousas é que é necessario ter muito cuidado, disse D. Maria Francisca, voltando-se enfadada para Claudio e poisando o dedo sobre o botão da campainha.

Appareceu a creada.

—Então são quasi dez horas e esta menina sem ter tomado o leite!?... exclamou irritada.

—Oh, minha senhora, começou a creada a explicar, ainda agora deram nove horas no relogio lá de dentro e eu até vinha saber...

—Vamos, desembarace-se, deixe-se de historias. Traga o leite, traga o leite. E não fique lá quatro horas, conforme o seu costume, ouviu?... Isto quem as atura...

—Oh, minha filhinha, continuou para Laura, talvez umas bolachas de araruta... Deves estar tão fraca!...

—Não, mamã, não; não me falle em comer. Sabe Deus o que me custa o tomar leite!

O leite veiu, Claudio e D. Maria Francisca sairam para não incommodar a doente que durante todo este tempo não tivera uma palavra de gratidão pelos seus cuidados, e, satisfeito o estomago, Laura caiu n'um somno profundo, a refazer-se da interrupção da noite.

Ficou resolvida a partida immediata para Lisboa, apezar da ligeira opposição de Claudio que viu assim desmanchados todos os seus planos de tranquillidade e estudo. Uma necessidade! repetia a sogra. Não quizesse elle tomar a responsabilidade d'uma cousa d'essas.

Dentro de poucas horas, estava revolvida a casa, os corredores atulhados de malas e os guarda-roupas desfeitos. Os vestidos de Laura occupavam duas grandes caixas, tendo-se contado com todas as hypotheses, os theatros, os bailes, as visitas, os passeios, a chuva, o sol, o frio, a humidade e o calor. As bagagens de Claudio tambem não eram pequenas. Laura temia um pouco a apresentação do marido aos parentes elegantes da capital e vigiava e com particular cuidado que nada lhe faltasse; gravatas, calçado, abotoaduras, alfinetes, bengalas, luvas, chapéus, tudo ia combinado ponto por ponto para que não discrepasse das leis vigentes do janotismo.

Em Lisboa passaram quinze dias que para Laura foram d'uma completa felicidade. Á parte as breves horas que dedicaram ao dentista, todo o tempo se dispendeu em visitas, jantares, theatros e apresentação de Claudio á numerosa parentela fidalga. O marido agradava; no trajar e nos modos não destoava dos usos e costumes correntes e essa conformidade com a banalidade consagrada deixava Laura radiante de jubilo e vaidade.

Não succedia outro tanto a Claudio que, regressando a Coimbra e pensando no caminho percorrido, via com mágoa quanto os factos divergiam das aspirações, quanto a realidade se distanciava dos sonhos.

No fundo, inconscientemente, a esposa que elle desenhára no seu espirito e nas suas ambições era a imagem de sua mãe, a honestidade, o trabalho, a resignação e a caridade distillados dia a dia, gota a gota, marcando todos os passos e todos os movimentos da vida; o que o casamento lhe offerecia eram vaidades e impaciencias, occultando um egoismo sem limites, tanto mais cruel quanto era instinctivo e inconsciente.

Lembrava-se da noite em que Laura o fizera ir a correr procurar-lhe remedio para uma passageira dôr de dentes e comparava a com a serenidade que sua mãe mostrava nas dores physicas e moraes; lembrava-se da simplicidade de Villalva e comparava-a com a vida de infinitas necessidades a que entre gente fina se deixava arrastar.

D'esse confronto saia com umas vagas aprehensões de ter errado na maneira de realisar as suas aspirações moraes, mas breve esses temores se dissipavam. A candura de Laura venceria as fraquezas da educação. Era só o tempo necessario para a revelar e vêr desabrochar na sua consciencia as flores de suave perfume que lá dormiam em botão. A esperança reanimava-o.

Tardava, porém, essa almejada quietação na virtude. As futilidades absorventes succediam-se; a existencia consumia-se inutilmente. Laura não dispensava a companhia de Claudio a todas as refeições, em todos os passeios e nos serões passados em casa dos paes, prolongados serões em que a moleza dos estomagos replectos se espreguiçava pelas flexuosas cadeiras Luiz XV. Por amor, dizia ella, não queria desamparal-o um instante.

O certo era que a vida de Claudio se subordinára inteiramente á da mulher; todo o trabalho se reduzia a servil-a nos seus prazeres e nas suas necessidades, empregado a todo o instante nos mais frivolos misteres, em procurar um lenço que esquecera algures ou em transmittir ordens aos creados. Já em casa dos Albuquerques se dizia que a filha encontrára um excellente marido.

Aos primeiros incommodos da gravidez esta situação aggravou-se. Laura passava mal, constantemente enfadada, com um fastio permanente, ora no leito, ora recostada n'uma ottomana dos seus aposentos.

A presença de Claudio era então reclamada como um dever; não podia abandonar a esposa, cumpria-lhe servil-a em todos os seus caprichos como bom enfermeiro. Nos peiores dias, nem sequer lhe era permittido sair ao jardim; ficava em casa, inventando jogos para a distrair, a ella que com tudo se contrariava e aborrecia.

Uma vez, porém, teve a tentação de se affastar para seu prazer. Os jornaes annunciavam a chegada a Coimbra d'uma pianista notavel, Sophia Menther, que vinha dar um concerto, um unico. Claudio leu a noticia á mulher e perguntou:

—Queres lá ir?

—Deus me livre! respondeu ella irritadamente e accentuando a inconveniencia da pergunta. Estou lá em estado de cousa nenhuma! Como queres tu que eu me vista?

—Gostava muito de lá ir. Ha tanto tempo que não apparece por cá quem se possa ouvir...

—Mas vae tu...

—Talvez. Logo veremos. Conforme tu estiveres...

Chegou a noite e Laura estava com o seu habitual fastio, mas sem molestia alguma. Claudio não se conteve; foi ao concerto. Receiando os seus amuos, explicou que era só por uma ou duas horas quando muito, que o desculpasse. Tinha muita vontade de ouvir a pianista; precisava mesmo de se instruir.

Laura nada respondeu, contendo o seu despeito. Claudio saiu na persuasão de que a tinha deixado convencida e de que ella generosamente acquiescera aos seus desejos.

A pianista era notabilissima. Claudio não teve coragem de deixar o theatro até ao fim do concerto. Sentia-se enlevado nas visões tragicas de Beethoven, nos idyllios de Chopin, na attica serenidade de Mozart.

Era uma embriaguez para os seus nervos doentes, ainda magoados das mortificações moraes, uma agitação sádia e capitosa.

Recolheu a casa contente, sentindo em si uma vibração que o erguia da prostração morbida em que os azares do seu destino continuamente o traziam. Esperava encontrar Laura adormecida e abeirou-se do seu leito cautelosamente.

Immovel, os olhos abertos, junto das almofadas um lenço a indicar as muitas lagrimas que tinha chorado, Laura sentiu aproximar-se o marido e nem se moveu nem disse uma palavra.

—Que tens, perguntou Claudio ancioso, que tens?

Não respondia; todas as instancias e todos os carinhos eram vãos, baldada toda a mágua afflicta com que era interrogada. Uma convulsão de choro foi a sua unica resposta, ao cabo d'alguns minutos.

Claudio nem sequer se atrevia a pedir explicações dos modos de indifferença e aborrecimento com que a mulher o tratou durante todo o dia que se seguiu á noite do concerto. Por demais tinha aprendido com Emilia a colera que esse mutismo significa. Pensava apenas no seu triste destino, d'esta vez sem poder fugir a uma ponta de azedume que se lhe cravava no coração.

Não era senhor de si, não podia dispôr de duas horas para seu prazer e sua instrucção, para repousar, avigorando-os, os membros fatigados? Toda a obrigação se reduzia a servir Laura, os seus habitos e os seus caprichos, ainda mesmo aquelles que condemnava como uma perniciosa ociosidade? Esquecia as aspirações de virtude que o tinham levado ao casamento; o egoismo, calcado pelo dominio absorvente da mulher, revoltava-se em nome de direitos soberanos e infiltrava-lhe no peito um mau fermento. Lembrava-se de Albergaria e porventura passou-lhe pelo pensamento, rapidamente, uma onda de saudade.

Ao menos, lá, tinha o socego do seu palacio, a liberdade, a independencia, os carinhos protectores da mãe para lhe suavisar a cruz a que o prendera o amor de Emilia.

Aqui, nem isso; só, a todo o momento em face de uma mulher que constantemente o magoava com uma crueldade que a seccura do seu coração ignorava, todos os caminhos estavam vedados, o carcere era perfeito, o soffrimento sem esperança de remissão que não viésse d'aquella mesma que era a causa da sua dôr. Vinham, por instantes, alentos de energia e fé, clarões que varriam estas sombras.

Sob a meiguice de Laura, nos momentos em que o seu dominio se traduzia acariciando aquelle que era amado por ser objecto da sua posse, Claudio recuperáva animo. Não! errava; as exigencias da esposa eram as exigencias do dever. Precisava banir da alma os derradeiros impulsos do egoismo, abdicar de toda a liberdade, viver só e unicamente para a sua familia. Que lhe importava o resto?

Prazeres da intelligencia e do espirito, alegrias do corpo expandindo-se ao contacto da natureza, tudo eram vaidade de que lhe cumpria despojar-se perante a imagem hirta e sombria que a consciencia lhe apontava, repetindo-lhe com impassivel inflexibilidade a palavra dever. Era necessario viver para a sua familia: essa era a obrigação por excellencia para cumprir a qual se casára e a que espontaneamente havia de consagrar-se, tendo posto termo a um passado criminoso que não voltaria. Acceitasse pois sem trepidar o sacrificio de todos os desejos egoistas.

Claudio promettêra a sua mãe ir vêl-a todas as semanas. Essas visitas, á proporção que o caracter de Laura se revelava, começavam a tornar-se um problema inquietador.

Para Claudio eram a maior das alegrias; a presença da mãe e das serras de Villalva eram para o seu coração um magico lenitivo que apagava todas as dores sem o minimo esforço da razão e do pensamento.

Perante ellas sorria, como se bebesse, por um filtro mysterioso, a mocidade e a frescura. Não o comprehendia Laura e por isso sentia, com um vago ciume, como se lhe roubassem uma parte de qualquer cousa que lhe pertencia, os constantes cuidados do marido pelo que se passava em Villalva, a alegria e a impaciencia com que esperava o dia de lá ir, as pequeninas necessidades que inventava para servirem de pretexto a mais frequentes visitas. Convertia em tortura esse prazer singelo e bom.

Antecipadamente discutia-se o dia da visita; já não era sem receio que Claudio se aventurava a lembral-a, tendo percebido quanto a mulher se contrariava.

—Vamos amanhã?

—Amanhã, não. Temos que acompanhar á estação as Mendonças que vão para o Porto e vieram despedir-se.

—Ah! é verdade!... Depois de amanhã...

—Depois de amanhã tambem não. Disse-me hontem a mulher do dr. Ramos que queria vêr o nosso jardim e talvez cá viesse.

—No outro dia... mas faz-se tão tarde... E não sei o que por lá vae...

—O melhor é não te prenderes comigo. Vaes sósinho.

Estes dialogos eram frequentes; quasi se repetiam invariavelmente todas as semanas. Mal passava o domingo, era necessario começar a preparar o terreno para fazer a jornada a Villalva sem provocar a irritação de Laura.

O problema não tinha solução; estava destinado a manter-se indefinidamente nos termos em que o punham a contradicção do affecto de Claudio e da indifferença de Laura. Ou Laura acompanhasse o marido ou ficasse em Coimbra, essa visita era sempre toldada por inquietações.

A presença de Laura importava um retraimento de expansões que por completo prejudicavam toda a alegria; a sua ausencia obrigava Claudio a apressar-se no regresso e prejudicava do mesmo modo toda a alegria com a suspeita do descontentamento da esposa. Temia o mutismo em que se traduziam os seus frequentes despeitos; apavorava-se com esse espectro que lhe embargava toda a felicidade.

Só a mãe de Claudio ignorava quanto essas visitas custavam, porque o filho, para lhe poupar a tranquillidade dos seus ultimos annos, apparecia-lhe sempre sorridente de ventura, d'uma ventura que só pelo amor da mae se lhe mostrava na face mas que no intimo suspeitava que jámais seria o seu quinhão n'este mundo.

Os seus olhos resplandeciam de felicidade ao transpôr a estreita porta do casal de Villalva, para que as trevas do coração jámais se derramassem na luminosa paz d'essa velhinha que nas suas orações não cessava de pedir a Deus que ungisse o filho com as suas bençãos. Mas, voltadas as costas a esse sanctuario, logo a tristeza involvia Claudio como n'uma lugubre mortalha.

Á casa da estrada da Beira corriam os mendigos, attraidos pela fama de gente rica recentemente casada, esperando generosidades proprias de quem tem fé na recompensa divina.

Raro batiam á porta principal. Contornavam a casa e, segundo o seu velho costume, procuravam a porta de serviço, onde tinham probabilidades de encontrar alguem que os attendesse. Para isso passavam em frente das largas janellas da sala de jantar, vestidas de flores e trepadeiras a emoldurar o fulgor das pratas e as cores mimosas das louças da India, que se viam dentro, cobrindo as paredes em extensas prateleiras. Quando sentiam vozes na sala, começavam n'aquelle ponto as suas lacrimosas melopêas.

Laura contrariava-se com essas visitas. Aborrecia os mendigos cuja miseria e immundicie repugnava á sua esmerada elegancia; apressava-se a despedil-os recusando ou dando a esmola, a maior parte das vezes concedendo-a, por ser esse o meio mais rapido de os vêr sair.

Claudio tentava moderar essas impaciencias com palavras de sympathia pelos pobres, esperando despertar iguaes sentimentos no coração da mulher e associal-a aos seus impulsos de caridade, mas encontrava uma indifferença inabalavel.

Essa indifferença havia de transformar-se um dia n'uma explosão de maldade em que deviam naufragar todas as esperanças de conversão.

Regaladamente, banhada a sala pela luz brilhante que as sombras do arvoredo moderavam com uma vibração de frescura e os lilazes e as roseiras embalsamavam espargindo perfumes, Claudio almoçava com Laura, quando um mendigo entrou a cavallo n'um burro, um par de muletas cruzadas sobre o albardão esfarrapado, o corpo do animal ulcerado pelo attrito constante dos apparelhos que jámais deixava, ou pastasse pela beira dos caminhos ou conduzisse o seu miserando cavalleiro. O burro entrou, parou em baixo das janellas e, emquanto o mendigo começava rezando, elle, com esforço, estendendo os labios, procurava alcançar os ramos d'uma acacia que tinha em frente.

—Ah! é de mais!... exclamou nervosamente Laura dirigindo-se ao marido e apontando o mendigo. É preciso que ponhas termo a isto, d'outro modo não se póde parar n'esta casa!

—Deixa-os lá! Coitados! Precisam e não percebem mais...

—Qual precisam! Precisam menos do que nós. Que trabalhem! O que elles são é uns vadios, a viver a custa dos outros. Afinal morrem e estão ahi a cada passo a encontrar-lhes muito bom dinheiro.

—Isso são casos rarissimos. Lá apparece um que pôde fazer um mealheiro, mas a quasi totalidade d'esta gente passa fome. E ainda os que vem pedir serão os menos infelizes. Deus sabe o que soffrerão os que ficam por esses casaes!... Nós é que deviamos procural-os.

—Não faltava mais nada!... Ainda em cima de nos incommodarem a toda a hora e a todo o instante...

—Incommodar, não. Não gosto de te ouvir dizer isso. Temos obrigação de os ajudar. Até são bonitos!... Nos seus andrajos, nas suas rugas cavadas, n'estas barbas descuidadas, quanta vida, que dramas intimos de miseria physica e de miseria moral, quantas dores, quantos desejos calcados, quanta esperança enganada!

—E os que andam ahi pelas tabernas e pedem para ir beber, tambem te parecem muito bonitos?

—Tudo é miseria. Que importa que venha das enfermidades do corpo ou das enfermidades da alma? Não podemos distinguir. Bem diz o Evangelho: Dá a quem te pede.

—As phantasias que tu quizeres... disse Laura córando de colera e querendo terminar; eu é que não estou para aturar isto. Tenho cá os meus pobres que sei que são necessitados e não quero saber dos outros. D'aqui a pouco não ha gente decente que possa vir a esta casa. Sempre tudo entulhado com pobres. Deus sabe as doenças e a porcaria que elles trazem. Ainda queres agora que ponham os burros a pastar no jardim!... Eu é que não estou para aturar isto!... Para me consumir basta o que aturo aos brutinhos dos creados.

Claudio calou-se, não se atrevendo a insistir perante a irritação de Laura, e ficou scismando, com infinita mágoa, no caracter rebelde da esposa. Enganára-se? Essa educação religiosa das irmãs de Santa Ignez, em que tanto se fiára, seria unicamente uma série de formulas occultando a inanidade de sentimento? As devoções bastas, as orações, as missas, as confissões, os escrupulos em faltar aos preceitos ecclesiasticos nos dias de abstinencia seriam um habito, ainda uma singular especie de vaidade, a vaidade religiosa, coincidindo com um egoismo tenaz e uma implacavel sede de commodidades? A ingenuidade, a candura de Laura seria apenas a inexperiencia d'uma rapariga educada ao abrigo de todo o esforço e de toda a contrariedade, só para ostentar a gentileza da sua figura?

Os factos tentavam convencel-o, mas elle affastava todas as suspeitas ruins com a vara magica do amor e da esperança. Não; Laura era um anjo. Só a impaciencia de tranquillidade e de virtude lhe povoava a imaginação de pavores. Toda esta irritabilidade que simulava estreiteza ou perversão moral, todo o egoismo absorvente que reduzia o marido a uma simples commodidade da mulher, d'uma passividade completa, tudo isso eram apenas o resultado necessario d'um mau estado physiologico, d'enfadonhos incommodos de gravidez. Mas, terminados elles, quando Laura fosse mãe, a generosidade, os carinhos e a caridade haviam de desabrochar na sua alma e a vida seria então para Claudio o eden que nas attribulações do erro sonhára e se propozera conquistar. Esperasse; a sua hora chegaria.

E assim tudo perdoava a Laura, abdicando sempre, perante o dominio da esposa, dos seus mais pequenos desejos e das suas ambições mais nobres, tomando por motivos de bom quilate as razões que para desvanecer suspeitas amargas lhe eram suggeridas por um amor ainda flamejante, e porventura por um ardor de sensualidade que não attingira ainda a sua inevitavel e satanica consumpção.

Para alliviar o enfado de Laura, começaram a reunir-se á noite em casa de Claudio os antigos frequentadores do palacio dos Albuquerques. Vieram as classicas mezas de jogo com os seus castiçaes de prata, os cinzeiros e o panno verde, accenderam-se as vélas do piano para ouvir as walsas e as marchas em que as meninas fidalgas mostravam o esmero da sua educação, entre a assistencia circularam os taboleiros com bolos e chicaras de chá levados nos braços hirtos dos creados, em bom aprumo, envergando a casaca bem assente.

Laura sentia então um suave contentamento que lhe dava uma expressão de felicidade; via ali uma reproducção fiel do viver de seus paes, toda a sua vaidade vibrava quando algum mais intimo lhe vinha dizer que os seus serões já tinham fama de elegantes na cidade.

Na meza, porém, é que punha os seus maiores cuidados. O arranjo das flores, a combinação do jantar, o serviço, o modo de pôr e tirar os pratos, a maneira de servir os vinhos, tudo isso era objecto de longas reflexões e consequentes recommendações severas aos creados. Se havia algum convidado, o que bastas vezes succedia, os cuidados redobravam e não deixava de perguntar ao marido pela sua impressão.

—Que te pareceu?

—Muito bem, respondia invariavelmente Claudio.

—Dizes-me sempre isso!... Não me ajudas em cousa alguma!...

A frivolidade invadira-lhe a casa com todo o seu cortejo de fainas ociosas e estereis trabalhos em que a vida se dissipa sem o minimo valor moral. Todos os sonhos de caridade, de trabalho, de honestidade, de modestia e de affastamento das cousas mundanas esvaiam-se deante das mesquinhas exigencias de Laura a quem parecia ter cedido completamente.

Não cedera, apenas esperava. Todas as ambições geradas na cruz do remorso permaneciam vivazes, bem arreigadas no fundo da sua alma, esperando a hora de saciar-se. Cedia levado pela convicção de que era seu dever dar tranquillidade á esposa proxima a ser mãe, sacrificando-se n'esta abdicação ao culto da maternidade, mas intimamente contando os dias que o separavam da hora da redempção. Nem poderia esquecer os propositos com que se casára: lá estavam a lembrar-lh'os as visitas a Villalva, que Laura supportava com mal dissimulado aborrecimento.

D'ahi voltava sempre com uma tristeza inquieta que o tornava silencioso e distrahido. Porventura a sua vida teria naufragado sem remedio? O dever que impozera á sua vontade como norma de existencia e satisfação da consciencia havia de curvar-se á fragilidade d'uma mulher?

A duvida voltava a apossar-se do seu espirito, mas o desalento era breve, terminando sempre em uma cega confiança na transformação de Laura. Toda a sua fundamental frivolidade lhe parecia então uma transitoria meninice, e, resignado, esperava ancioso as dôres que, fazendo a mãe, accenderiam na sua alma as fachos do amor divino.

Quando viu approximar-se esse momento, exultou. Era a libertação de toda a agitação vazia em que consumira quasi um anno. Laura aprenderia nos labios côr de rosa do filho a piedade e o sacrificio. Não mais coraria de desespero quando os mendigos lhe calcassem o jardim; havia de preferir á banalidade fastidiosa dos seus serões entre os convivas o silencio da alcova singela compassadamente cortado pelo embalar da berço. Só estranhava o borburinho que lhe ia em casa e as andadas de D. Maria Francisca, já interrogando o medico, já segredando com a parteira.

—Olhe, doutor, parece que agora sentiu umas picadas mais para o lado esquerdo... Que me diz?

—Isso não significa nada, minha senhora.

E ia ao pé da filha, a dizer-lhe que não era nada, tinha respondido o medico.

Voltava instantes depois.

—Oh, doutor, não acha que isto vae a demorar-se. Se a examinasse... O dr. Xavier, um indio que estudou lá fóra, disse-me que em Paris...

—Ora, Paris!... Em Paris, respondeu o doutor que era um rude e singelo descrente de medicinas, em Paris as mulheres teem filhos como em Portugal. Até devem ter menos que a população diminue.

—Tem uns modos este doutor... ia dizer D. Maria Francisca á parteira. Já estou arrependida de não ter mandado vir de Lisboa o dr. Xavier. Sempre é outra cousa!...

—Oh, sr.a D. Amelia (era o nome da parteira) talvez seja melhor passar outra vez as mãos pelo sublimado. Esteve agora ahi a mexer nesses vestidos e o dr. Xavier disse-me que era preciso muito cuidado. O sublimado sempre! Para a mais pequenina cousa!...

—Deixe lá, minha senhora! Tenho assistido a muita mulher. Isto com a ajuda de Deus Nosso Senhor...

—Oh, doutor, voltava D. Maria Francisca a perguntar ao medico, as dores parece que são tão distantes...

—Não se afflija v. ex.a, ellas apertarão.

—Que homem, que modos estes! E dizem que é bom medico! Ai, Senhor, tomára já isto passado!

Claudio olhava este espectaculo surprehendido, vagueando pelas salas e pelos corredores. O que?! Pois o nascimento era este vil receio da morte e esta ridicula fé nas cousas que hão-de salvar o corpo? Não havia uma religião que libertasse de tantos e tão mesquinhos cuidados elevando a alma em extasis divinos? Não era toda a maternidade, desde o parto e o berço até á formação completa do homem, o modo providencial de pagarmos a divida d'amor e de carinhos que a existencia de cada individuo significa? E, sendo assim, porque tamanha pressa em cuidar do corpo e de passageiras dôres que a resignação, tirada da consciencia d'uma missão sublime, curaria melhor que todas as medicinas? Ainda aqui as aspirações da sua alma vinham bater contra a mais extrema pobreza moral; o desgosto perturbava a piedade que a afflicção da esposa lhe despertava.

No quarto de Laura ouviu-se um grito afflictivo. Fez se um silencio d'anciedade. Os gritos repetiram-se, lancinantes, e, após uns curtos momentos, os vagidos d'uma creança pozeram a casa em alvoroço.

—Felicissima! veio o medico dizer a Claudio. Muitos parabens! É um rapaz!... Adeus que não tenho aqui que fazer. Muito socego é que a doente precisa.

—Muito obrigado, muito obrigado, respondia Claudio acompanhando o medico até á porta.

O medico saiu e Claudio correu apressado ao quarto de Laura. Queria vêr a sua physionomia illuminada de contentamento, queria vêr os primeiros clarões d'essa aurora. Era que a sua alma havia de expandir-se nas auras d'uma vida nova.

Entrou cautelosamente, pé ante pé.

—Entre, entre, disse com affouteza D. Maria Francisca, que estava sentada á cabeceira da cama de Laura. Venha vêr o seu morgado. Muito gordinho e lindo como um anjo!

Claudio aproximou-se da creança, tumefacta e vermelha, apertada em faixas brancas, mas logo a deixou para se dirigir a Laura.

Beijou a mulher timidamente, humildemente, com uma uncção religiosa. Não era o corpo enfermo que os seus labios tocavam, era a imagem em que a graça de Deus incarnára.

—Como te sentes? murmurou.

Ella entreabriu os olhos e, n'uma contracção de repugnancia e odio, respondeu:

—Ai, meu Deus! Que horror!

E os olhos cerraram-se novamente. Não houve uma palavra para o filho, nem um gesto de ternura, nem o mais leve movimento que não significasse um fastio mortal.

Claudio ficou de pé, immovel, esperando ainda d'aquella massa inerte envolvida em finissimo linho uma vibração que viesse confirmar as suas esperanças de tantos mezes.

Só uma gélida mudez lhe respondia. Saiu do quarto de Laura esmagado de desalento.

Embora! No seu espirito procurava razão para justificar o estado moral de Laura e continuar a esperança que até alli tinha mantido.

Era uma reacção natural do corpo fatigado pela dôr physica, mas, quando a saude voltasse, com ella viriam os affectos de mãe e o ardor de sentimento em que todos os sacrificios são recebidos, na alma ávida de amor, como favores do destino.

Todavia, pensava, que singular perversão a do genero humano! Não acontecia o mesmo com os animaes. N'elles, o instincto materno dominava todas as dores e tanto era o zelo que, nos primeiros tempos immediatamente ao parto, a aproximação das mães era perigosa; havia uma resurreição de instinctos bravios a proteger os recemnascidos.

Porque não seria assim para as mulheres? Que degeneração de sentimento as podia levar a abandonar os filhos logo ao nascer, friamente, sem um grito do coração offendido? Não, não podia ser assim.

Laura soffria apenas uma crise passageira; em breves dias havia de operar-se a transformação milagrosa do ser frivolo e egoista na esposa e mãe profundamente generosa, consagrada com uma intima felicidade, á existencia alheia.

Essa transformação porém não vinha. Deccorriam os dias, as forças voltavam, e Laura continuamente se lamentava. Não podia dormir uma hora descançada! dizia. Era impossivel restabelecer-se com a creada a entrar-lhe no quarto a cada instante, para que désse de mamar á creança!

D. Maria Francisca tinha creado os filhos. A sadia animalidade da sua robustez comprazia-se nas suavissimas caricias da amamentação; o calor das creanças junto aos seios em que pousavam as pequeninas mãos, comprimindo-os ligeiramente, fôra sempre para ella um instinctivo prazer, desprendido de quaesquer razões moraes. Para a filha, porém, era differente. A filha fôra e continuava a ser um objecto de luxo que queria conservar em todo o seu brilho e belleza. Por isso, ouvindo os queixumes de Laura, invariavelmente lhe dizia:

—Toma uma ama! Tu não queres crer que és muito fraca...

—Mas o Claudio tem dito sempre que não quer...

—Lá vens tu com o Claudio! O Claudio ha de fazer o que o medico lhe disser. Pensas que os maridos gostam muito de vêr as mulheres magras e velhas antes de tempo?

Interrogaram o medico, na presença de Claudio. O medico respondeu:

—Olhem, minhas senhoras, isto de crear os filhos é conforme a vontade de cada um. Quando se tem n'isso grande empenho, fazem-se das fraquezas forças, e elles criam-se. Agora quem quer ter descanso...

—O que eu não comprehendo, interrompeu Claudio que a conversação contrariava extremamente, é como uma mulher tem forças para crear um filho no ventre durante nove mezes e trazel-o a este mundo sadio e forte, e não não tem forças para em seguida o amamentar durante um anno. Muita gente devia morrer entre os pobres que não tivessem para pagar a quem lhe creasse os filhos!

—Sim, observou D. Maria Francisca, eu posso fallar porque creei os meus... Quem não tem outro remedio, ou seja forte ou fraca, cria os filhos; mas quem é fraca, tem meios e teima em os criar faz muito mal. Nem mesmo ás creanças é util. Pois se ellas podem ter um leite bom para que hão de estar a mamar um leite fraco? Não é verdade, doutor?

—Até certo ponto... respondeu o medico. Mas lá isso, diga-se com franqueza, não sei o que é o cuidado das mães! As creanças parece que medram só com o calôr da cama. Por melhores que sejam as amas, sempre são madrastas.

Claudio applaudia, mas D. Maria Francisca instava pela vinda d'uma ama. Era uma necessidade. Só se Claudio tinha muito gosto em vêr a mulher tisica!...

Ao fim de pouco tempo, estava contractada a ama. Não houve razões, nem instancias, nem um confessado desgosto e pezar que pozessem barreiras ao egoismo de Laura e a levassem a ceder aos desejos do marido. E Claudio via com espanto, que em breve se transformaria em aversão, o filho entregue a braços estranhos.

Seguiu-se o baptisado. Como de costume, D. Maria Francisca veiu discutil-o com a filha e por deferencia que ella julgava um requinte de delicadeza, quiz ouvir tambem Claudio. Já tinha combinado com Laura o caracter da festa e o numero dos convidados, baptisado ás cinco horas da tarde, jantar em seguida e depois uma pequena reunião dos intimos. Preferiria um grande baile, mas a casa não o comportava e a disposição dos moveis não era adequada á dança. Fica assim uma reunião mais escolhida, concluia ella, como teu pae gosta. Com o pretexto da casa, escusamos de convidar os gebos que não sabem vestir uma casaca e não vêm ahi senão para comer.

Claudio não concordava; não queria festa alguma. O baptisado, dizia, é um sacramento e deve ser dado com a placidez e o recolhimento de quem tem consciencia do que faz. Não foi instituido para patuscadas.

—Ora que idéas!... respondia a sogra. Haviam de julgar que cairam em miseria ou que tem muito pouco gosto em ter um filho. Nada, nada, deixemo-nos de excentricidades, vamos andando assim, que foi sempre o costume cá de casa. Que diria o Claudio se visse o baptisado do José?!... Durante oito dias tivemos em casa vinte e sete hospedes! O conde de Palhares, que veiu cá de propósito, disse-me que os bailes do Farrobo não tinham mais grandeza.

—Coitado, murmurava, dirigindo-se á Laura, é muito bom rapaz mas ha de ressentir-se sempre d'aquella vida na aldeia.

—Se a mamã soubesse o desgosto que tenho com isso...

A vontade de Laura e de D. Maria Francisca prevaleceu.

Tomando por singela obediencia as complacencias com que até então Claudio se tinha sujeitado aos habitos e vicios da mulher, D. Maria Francisca, que as ausencias do marido e a docilidade do capellão tinham convencido de que todo o dominio lhe pertencia, começava agora a mandar em casa da filha como em sua propria. Por isso, passando de leve sobre as observações do genro, dispoz tudo para o baptisado conforme o desejava.

Claudio começava a viver sob uma impressão de pavor que crescia á maneira que via perderem-se todas as suas esperanças. A cada instante se refugiava no seu gabinete, procurando o silencio e o isolamento em que poderia encontrar-se só e bem de frente com a tristeza da sua vida.

Quando chegou o dia do baptisado, sentia-se mais do que nunca opprimido. Quasi não fallava; respondia por monosyllabos, se o interrogavam.

—O sr. dr. Claudio, dizia um velho lente de theologia para D. Maria Francisca, vê-se mesmo que está doido de felicidade! Não diz uma palavra, vae todo entregue ao pensamento no filho.

Na egreja, porém, a imagem do Christo e a magestade do templo, juntando-se á febre do seu espirito, produziram-lhe um momento de oração ardente. Com uma supplica instante, fervorosa, acompanhava as palavras do padre, dirigindo se a um deus desconhecido que não via com os olhos do rosto mas que sentia na alma dominando o mundo. Intimamente repetia com o sacerdote: Omnem coecitatem cordis ab eo expelle, varre-lhe do coração toda a cegueira, disrumpe omnes laqeos Satanae, quebra-lhe todos os laços com Satanaz, aperi ei Dominé januam pietatis tuae, abre-lhe, Senhor, a porta da tua piedade, accipe lampadam ardentem et irreprehensibilem, recebe a lampada ardente e irreprehensivel, custodi baptismum tuum, guarda o teu baptismo, serva dei mandata, obedece aos mandamentos de Deus, ud habeas vitam aeternam, para que tenhas a vida eterna. Vade in pace et Dominus sit tecum, vae em paz e o Senhor seja comtigo.

A estas ultimas palavras os olhos toldaram-se-lhe de lagrimas. Vae em paz e o Senhor seja comtigo! repetia interiormente.

A dôr das amarguras do passado e a ambição da felicidade do filho confundiam-se n'um mesmo anceio. A consagração a Deus era plena, irrompia-lhe do coração. Vae em paz e o Senhor seja comtigo!

—E fique-se por aqui, dizia-lhe D. Maria Francisca ao entrar em casa, emquanto atravessavam o jardim. A Laura é muito fraquinha. Depois não sei o que é... Por mais cuidados que se tenha, os partos envelhecem muito. Lembra-se de vêr minha prima Luiza? Casou ha cinco annos, como sabe, e tem tres filhos. Via-a outro dia em Cercosa. Está uma velha! Não faz ideia. Fique-se por aqui, fique-se por aqui, que está muito bem. Demais, um rapaz!...

Claudio ouvia sem responder, pasmado do despejo da sogra. Sabia que havia muito quem assim pensasse, nunca imaginára que alguem se atrevesse a aconselhar-lh'o.

A sua regra era a do Evangelho: Crescei e multiplicai-vos. Crescei e multiplicai-vos para o trabalho e para a virtude, para que a verdade se derrame no mundo, para que a caridade e o amor cresçam alargando-se as relações na humanidade.

O seu desejo era ter muitos filhos, julgava que essa seria uma das condições do resgate das suas faltas passadas; formando para o bem numerosas almas christãs, havia de compensar os seus erros. A intervenção da sogra surprehendera-o e por isso se calára; mas, passado esse primeiro momento de surpreza, revoltava-se.

D. Maria Francisca, porém, é que não desanimava, posto que pelo silencio do genro ficasse suspeitando de que elle não acceitava o conselho. Á noite, conversando n'um pequeno grupo em que se encontravam Laura e Claudio, julgou conveniente repetir a instancia mas d'esta vez levando-a por outra via.

—Hoje, dizia para a sua velha amiga D. Maria do Amaral, já não ha nem póde haver casas nobres. Vem as partilhas e não ha fortuna que lhes resista. A abolição dos morgados acabou com toda a fidalguia que fazia tanto bem. Desgraçado de quem tem mais do que um filho!

—Pois o meu desejo é ter vinte, apressou-se Claudio a responder bruscamente, não tentando dissimular a sua irritação Que trabalhem! Foi assim que fizeram meus paes. Deus me livre de gente vadia!

Laura córou e D. Maria Francisca respondeu:

—Crédo! Que ideias! Nem parecem d'um rapaz fino como Claudio!...

A conversação ia visivelmente azedar-se e D. Maria do Amaral, com o fino tacto que adquirira na sua vida de mundanismo fidalgo, accudiu a interrompel a:

—Olha que o sr. Soares não tira os olhos de nós, disse para D. Maria Francisca. Está á nossa espera para a manilha; lá entende que por ser dia de festa não ha-de ficar sem partida.

E todos se levantaram.

—O meu Claudio, veiu dizer Laura ao marido quando mais tarde se recolhiam aos seus aposentos, foi hoje muito mau. Não gosto de o vêr assim. Fico muito zangada.

—Porquê?

—Ora, porquê?!...

—Talvez tu tambem não queiras ter mais filhos?...

—Ai, decerto que não! Um vá. Mais do que um, Deus me livre! Só o que eu soffri!...

—É a boa educação religiosa que vos dão n'esses collegios de beatas.

—Tomara-me eu lá! São umas santas...

—Ninguem te prende.

—Bom. Deixemo-nos de discussões que não estou para me inquietar.

—É melhor, é. Mesmo a unica cousa de que deves cuidar é de não te inquietares. Fazes bem. Has-de tirar-lhe bom proveito! exclamou já ao cerrar a porta e dirigindo-se ao seu gabinete.

Essa noite foi tormentosa para Claudio. As quatro paredes da sua cella asphyxiavam-n'o. Desceu ao jardim e passeiou até á madrugada, meditando no drama da sua desventura. A realidade apparecia-lhe sem attenuantes, as phantasiosas esperanças que por alguns mezes alimentára com uma tristeza resignada voavam como arremessadas ao longe pelo rebentar da metralha. Não queria ter mais filhos! Este pensamento obececava-o. Era a extrema perversão, o repudio completo de todas as leis naturaes, a cobardia e o egoismo, calcando e reprimindo toda a expansão da vida ingenua, um misero e constante terror, substituindo a alegria intensa do peito que canta com a natureza, dos ninhos das aves que adejam nas manhãs d'abril. E todavia era a sua sorte!... A maternidade não transformára Laura; pelo contrario, revelava-lhe o caracter. O amor de sacrificio não viera, mas, em logar d'elle, o egoismo redobrava, tornando-se indomavel.

Durante dois dias, Claudio só trocou com a mulher as palavras indispensaveis; taciturno, nada fazia já para lhe occultar o seu desgosto que era profundo. Intimamente, mantinha talvez ainda uma derradeira esperança, que ella fizesse por amor d'elle, pela sua paz e alegria o que por instincto e instigação da consciencia não tinha podido alcançar. Laura porém conservava-se inteiramente estranha ao que se passava no espirito do marido; julgava-se offendida com o seu silencio. Pois não era uma santa, um anjo, como tantas vezes ouvira aos que a cercavam?!

A sua vaidade não lhe deixava um instante de hesitação. Claudio não podia ter d'ella o menor aggravo. Tudo o que elle fazia caia sob uma condemnação formal, completa. Demais, dera-lhe um filho, fizera por elle esse sacrificio. O filho não era para ella uma dadiva de Deus para melhor cumprir o seu destino no mundo; tinha sido uma tortura supportada por uma victima da sensualidade e do capricho d'um homem. A obliteração do senso moral consumara-se n'essa creatura a que a educação formalista, dando-lhe a apparencia externa, os modos, as palavras e os gestos da bondade, no intimo creára uma plena seccura de coração. Sem as luctas da vida em que se fórma e avigora a alma, repellia como uma offensa todo o esforço e toda a situação que não lhe lisongeasse sem reservas os seus desejos.

Entre Claudio e Laura começou uma verdadeira lucta, surda, sem explosões retumbantes, mas continuada e persistente, manifestando a cada momento uma divergencia de caracteres que, não logrando fundir-se, mutuamente tentavam dominar-se. Os creados, as visitas, o filho, os passeios, de tudo se tirava motivo para discussão que invariavelmente terminava por accentuar uma incompatibilidade de pensamento profunda.

Claudio queria os creados tratados como familiares, bondosamente, sempre propenso a excusar-lhes os erros e as faltas. Laura aborrecia-os e odiava-os cruelmente; batia-lhes por um prato que se partira, por uma fita que uma creada trazia mal posta, porque se demoravam em accudir ao seu chamado. Não havia mez em que algum não fosse substituido.

—Antes um pedaço de brôa, diziam, e o seu socego do que os regalos dos fidalgos. E iam-se embora, maldizendo da casa.

—São do nosso sangue, dizia Claudio á mulher admoestando a; tem as mesmas tentações de descanso e de folgar, os mesmos vicios, o mesmo afêrro aos seus habitos. É preciso tratal-os com caridade. São elles que nos servem, é sobre elles que lançamos todos os trabalhos pesados que não podemos ou nos repugna fazer.

—Pois governa-os tu! Eu é que não estou para isso. Se te incommoda ouvir os meus ralhos, tambem a mim me incommoda atural-os. O que elles são todos, concluia, enfurecendo-se, é uns demonios que não servem senão para me inquietar.

A primeira vez que Laura, depois de casada, tivera uma furia raivosa contra os creados, ficara de lembrança a Claudio.

Era sexta-feira da Paixão. Laura jejuára n'esse dia com todo o rigor que a egreja aconselha, tendo-se previamente informado com o confessor sobre as horas, quantidade e especie de refeição a que devia sujeitar-se, para alcançar todos os beneficios que d'ahi podessem provir-lhe.

Ás dez horas saiu para a sé, de carruagem, elegantemente vestida de negro, levando nas mãos um livro rico, presente do casamento que uma sua parente beata expressamente encommendára em Paris e onde vinha traduzido para francez o evangelho. Na egreja foi sentar-se proximo do pulpito, n'um banco que um conego, antigo frequentador do palacio do Albuquerque, se apressou a mandar-lhe offerecer pelo sachristão, mal a viu. Depois seguiu com grande recolhimento toda a cerimonia, lendo, a cabeça inclinada sobre o livro, erguendo-se apenas de longe em longe para olhar a cruz e o altar.

Á uma hora da tarde entrou em casa para tomar o magro alimento que lhe era permittido, mas ás quatro voltou a sair, sempre de carruagem, para ir vêr a procissão do enterro. Nova visita a casa ao anoitecer, logo seguida de immediato regresso á sé, para assistir ao officio de trevas e ao sermão da paixão. Tinha pressa, para não perder o logar que o conego promettera reservar-lhe.

Ouviu o officio, ouviu os córos e o orgão, pousando graciosamente o livro sobre os joelhos para se entregar a essa delicia, e ouviu por fim o sermão. Quando o pregador, um rapaz que tinha entrado havia pouco para a faculdade de theologia, terminando o discurso e procurando motivos de emoção, clamava no templo sombrio, pedindo um lençol para amortalhar o Christo morto na pobreza e no abandono, Laura, sentindo um fremito mais de temor que de piedade, bateu com a mão no rosto e enxugou duas lagrimas. Depois, deu o braço ao marido, saiu vagarosamente acompanhando a onda de povo que se dirigia á porta da egreja e entrou na carruagem.

—Está frio, disse para Claudio. E este cocheiro é tão descuidado... Nunca se lembra de trazer os escalfadores.

Quando passavam na estrada da Beira, batia a meia noite. Ao entrarem em casa, encontraram um silencio profundo e Laura dizia ao marido, já levemente irritada:

—Adormeceu tudo, pelo que vejo! Parece que ninguem sabia que eu tinha saido e jejuei todo o dia. Que desmaselo!

Ia entrando, desabotoava a capa ao transpor a porta do quarto, quando n'um movimento de surpreza, estacou.

A creada, fatigada de esperar, sentara-se n'uma cadeira e adormecera.

Laura approximou-se d'ella pé ante pé, para mais amargo lhe tornar o despertar, e n'um accesso de colera indiscriptivel começou a bater-lhe e a injurial-a.

—Canalha! Que porcaria! Quem ha de dormir agora aqui?! gritava. O meu regalo era pôl-a immediatamente no meio da rua.

Claudio não se atrevia a pronunciar uma unica palavra.

—E tu então calas-te?!... dizia-lhe a mulher. Que homem este!

Eram estes os fructos da lição que na egreja Laura acabava de receber? pensava Claudio. Era este o modo por que commemorava os soffrimentos de Christo? A surpreza turvava-o inteiramente e, como de costume, a imaginação espraiava-se buscando illusões, para retardar ainda por mais algum tempo a convicção de que a sua vida estava unida á mais cruel aridez do coração em que os seus sonhos de piedade christã tinham de se dissipar.

O filho era um acrescento ás vaidades de Laura. Entravam na sala as visitantes e logo a ama o preparava com rendas e fitas de seda para vir apresental-o. Choviam então as exclamações. Ai! Mas que belleza! Um mimo! Um apetite! E que gordinho!...

—É todo Albuquerque, diziam a meia voz as mais lisongeiras. É o retrato do avô.

Laura passava então momentos felizes. Não era o filho seu producto e propriedade, não vinham os elogios cair directamente sobre ella, juntando-se aos que em solteira ouvia sobre as suas graças e belleza?

A satisfação da vaidade continuava-se agora sob uma nova fórma e, despedidas as visitas, voltava risonha a contar a Claudio o que haviam dito a condessa dos Casaes e a prima Sarmento. Todos o acham um encanto, uma belleza!...

O marido ouvia; o contentamento da mulher despertava-lhe o desprezo que por ella começava a ter, lembrando-se da indifferença com que abandonára o filho a uma ama, da colera com que mandava affastal-o para que os seus chóros não a importunassem e principalmente do seu receio louco de ter novos filhos.

Comparava a mãe que idealisára, os olhos cavados e os braços doridos das longas vigilias a amamentar os filhos, com a imbecilidade risonha e paramentada que tinha deante de si; a convicção do naufragio das suas aspirações arreigava-se-lhe no espirito. Nem já o filho lhe podia reanimar esperanças O que seria d'elle creado n'aquelle ambiente?!..

Laura continuava sempre estranha ao que se passava no pensamento de Claudio.

A cada passo o contrariava, com a sêde de dominio e posse a que a tinham habituado os mimos dos paes, emquanto solteira, e que vira confirmados pela submissa obediencia com que o marido se curvára a todos os seus appetites durante os tempos de gravidez. Queria saber todos os seus passos, queria que nunca se separasse d'ella. Não tinha a liberdade de sair sem previamente lhe dizer onde ia e para que. Era um passeio em que procurava concentrar-se algumas horas na reflexão sobre a sua malograda existencia para o trabalho e para a virtude? Esperasse, que ella iria tambem. Eram negocios que tinha a tratar? Escusava de sair e de a deixar só, tudo se regularia por meio de cartas; e punham-se os creados em movimento. O amor em Laura não era o ardor de sacrificar-se á vida d'alguem, de viver para outrem, era a paixão de possuir e conservar só para si a vida d'um estranho que lhe trazia gozos e commodidades. Por isso dizia que tinha muito amor ao marido e ao filho, e tomou por ingratidão o descontentamento de Claudio, que percebia sem poder explical-o.

—Ah! a inconstancia dos homens! exclamava. O que eu lhe ouvi e o que agora vejo!...

Succederam-se longos mezes sem que a situação se modificasse apparentemente, porque no fundo ia-se cavando a extincção de todo o affecto conjugal. Era uma lucta surda, sem expansão ruidosa, mas constante, inevitavel, entre dois caracteres oppostos e entre duas maneiras de conceber a vida, o egoismo que se occulta em convenções de religião e de bondade, e a virtude que rudemente, por um trabalho assiduo, procura servir o proximo.

Ao fim de dois annos de casamento, Claudio não tinha uma hora sua, para os seus prazeres, para os seus estudos ou para o seu trabalho; a sua existencia estava completamente absorvida pelas exigencias de Laura, pelas suas recepções, pelas suas visitas, pelos cuidados e deligencias que lhe impunha, continuadamente a caminho da pharmacia ou do consultorio, se a mulher sentia o mais ligeiro cansaço ou se o filho se mostrava impertinente.

O gabinete em que reunira os seus livros, sonhando uma vida de benedictino, affagada pelos carinhos vigilantes da esposa, essa cella em que, lendo e pensando, havia de alcançar o conhecimento da verdade, que toda a vida fôra a sua ambição, para lhe conformar a existencia, estava hoje convertido n'uma simples sala onde cada dia, em trajes bem talhados por alfaiates de fama, ou aguardava a chegada dos convidados que vinham festejar os annos das pessoas de familia—os pretextos de festas multiplicavam-se,—ou pacientemente esperava Laura que, sem se dar pressa, rematava a toilette para passeiar de carruagem, ou se consumia em qualquer outro frivolo mistér.

Perdia-se o tempo e a fortuna soffria. Os tres a quatro contos de réis de renda que Claudio possuía e que em Albergaria lhe permittiam uma vida lauta, sob o governo burguez de sua mãe, nas mãos de Laura eram insufficientes para os seus habitos e costumes fidalgos. Era preciso um cocheiro e um trintanario, um jardineiro, um escudeiro, um hortelão, uma creada para o serviço de Laura, uma outra para a cosinha, uma outra para ajudante da cosinheira, mais outra para o serviço das roupas, mais outra para o filho, fóra o pessoal incerto de lavadeiras, de recoveiros, de engommadeiras e as innumeras gentes que frequentavam a cosinha da pequena casa da estrada da Beira.

Claudio calculava. Em dois annos tinha consumido quatro contos de réis além dos seus rendimentos. Era a ruina. Queixava-se a Laura.

—Tu bem sabes que não se póde viver com menos! respondia ella com vivacidade. Só se queres que eu lave a roupa e faça a cosinha...

—Não, mas tudo tem limites.

—Tem muita graça essas economias! Quem não quer gastar, não se casa. Ou então casasses em Villalva, com alguma rapariga de pé descalço. Não viesses procurar uma pessoa fina.

—Talvez não tivesse sido infeliz...

—Pois eu ainda mais feliz seria! Estava em casa de meus paes muito bem, não me faltava lá nada. Escusava de me vir metter n'este inferno.

Claudio calava-se perante os modos irritados da mulher. Por triste experiencia sabia que não lograria convencel-a, e fugia de violencias inuteis. Interiormente, porém, o desengano consumava-se e o desprezo crescia, illuminado de rapidos clarões de revolta.

Começava agora a manifestar-se d'uma maneira bem patente a sêde de libertar-se do jugo. Entrava n'um periodo de desespero. Os momentos de tranquillidade em que o espirito se lhe desanuviava e a alegria parecia voltar, e que d'ordinario eram os que passava conversando com antigos companheiros, já não significavam esperança; eram apenas o natural repouso das cogitações em que a sua infelicidade se revolvia, reacção do pensamento fatigado de tristeza e buscando espontaneamente uma atmosphera sã.

Intimamente, a desillusão era perfeita. Sabia que não podia esperar de Laura outra cousa que não fosse a futil existencia que até alli tinha levado; a educação, a estreiteza de espirito e uma vaidade sem limites venciam todas as tentativas de conversão que o marido tinha tentado, emquanto o habito de mandar e satisfazer todos os caprichos a tornava insolente e colerica perante a mais pequena contrariedade.

—Onde vaes? perguntava ao marido, vendo-o pegar na bengala e pôr o chapéu na cabeça.

—Passeiar e tratar umas cousas na baixa.

—Mas eu preciso sair tambem...

—Sae com o pequeno. Fica-te ahi a carruagem.

—Bons costumes! E muito delicados...

Claudio não respondia; continuava o seu caminho. Não tinha negocios alguns a tratar; o que queria era libertar-se d'aquelle ambiente que o suffocava, distrair-se em extensos passeios á beira do rio, na contemplação das aguas espelhadas e dos vergeis mimosos ou encontrando quem lhe fallasse de coisas ociosas que eram para o coração dorido um rapido refrigerio.

Bem sabia que por cada vez que desobedecia a Laura teria alguns dias de despeitado mutismo, mas a frequencia e a injustiça dos repetidos amuos haviam-n'o tornado indifferente a essa arma que a mulher usára com proveito nos tempos em que elle esperava vencel-a e conquistal-a pela doçura e pela paciencia. Agora penetrava-o o desengano e abandonava Laura ao proprio desespero, que era apenas o castigo da ruindade dos seus sentimentos.

Foi n'esta situação que uma manhã o vieram encontrar as peiores noticias de Villalva. A mãe mandava-o chamar; tivéra um novo ataque de paralysia e queria vêl-o. Claudio não se surprehendeu; ha muito esperava essa má nova. Via o declinar da sua velhinha, como lhe chamava, que já por duas vezes fôra acommettida de ligeiros insultos apopleticos; o proprio medico não lhe tinha occultado que era provavel que se repetissem e que constituiam, uma ameaça grave.

Claudio partiu na convicção de que ia vêr a mãe pela derradeira vez. Laura quiz acompanhal-o, não porque sentisse o menor respeito pela sogra, de cuja rudeza se envergonhava, ignorando o que n'ella havia de santo e de grande, mas porque julgava ser proprio de gente fina acompanhar o marido em occasião tão difficil. Elle, porém, instou e foi só; talvez exaggerassem o estado da mãe, de lá lhe mandaria noticias e depois se resolveria como fosse melhor. A verdade era que queria vêr-se sósinho com a mãe e affastar de si, nos seus ultimos momentos, tudo aquillo que podesse perturbar-lhe a concentração na saudade d'aquella que fôra a maior affeição da sua vida.

Em Villalva, esperava-o o dr. Carvalho. Não saira d'alli toda a noite, dizia, nem sairia emquanto Claudio não viesse. Escusava dizer-lhe, acrescentava, que o estado da doente era muito grave.

—Os annos são muitos, meu amigo, e isto não póde ir longe. É a sorte que a todos nos espera, e o dr. Claudio, como homem intelligente que é, deve ter coragem para se conformar com o destino.

Claudio apressou-se a cortar o enfadonho discurso do doutor.

—Posso fallar-lhe, não posso?

—Póde... Ella por emquanto está ainda bem. Mas não convém conversar muito. Sempre excita...

Claudio entrou no quarto da mãe. Estava deitada, os olhos semi-cerrados, unicamente acompanhada pela filha, que se sentava á cabeceira da cama.

A filha, quando viu o irmão, levou rapidamente o lenço ao rosto a occultar as lagrimas que lhe rebentaram n'uma contracção afflictiva. Depois, dominando-se, chamou baixinho:

—Minha mãe, minha mãe?

—O que é? respondeu a velhinha abrindo os olhos.

—Está aqui o Claudio.

—Ai, meu filho, respondeu ella procurando-o com a mão esquerda, que o braço direito estava completamente paralytico. Estou muito mal... É tempo de dar contas a Deus Nosso Senhor... E foi bom que cá viesses hoje...

Calou-se e fechou novamente os olhos. As palavras tardavam e a voz embaraçava-se.

—Está assim, disse a irmã de Claudio. Falla quando a chamam, diz meia duzia de palavras e depois fica outra vez n'esta somnolencia. Já não se lembra de que foi ella que te mandou chamar.

Por pouco tempo se prolongou esta agonia. Proximo da meia noite, a velhinha moveu-se no leito. Claudio perguntou:

—O que tem? Quer alguma cousa?

—Quero... quero... um caldo, respondeu confusamente.

A filha saiu para ir buscar o caldo e Claudio aproximou-se da mãe, a observal-a. Pareceu-lhe alterada a face; para vêr melhor, desvendou a luz que estava sobre a commoda, occulta por detraz d'um pequeno bahú de coiro, antiga herança da casa em que o pae guardava os titulos das suas propriedades.

—Luiza, Luiza! gritou chamando a irmã.

O rosto da velhinha moribunda congestionava-se e Claudio, ancioso, sem articular uma palavra, apenas poude apontar para elle.

Os dois filhos cahiram de joelhos chorando; em breves momentos, jazia inerte aquelle corpo que os animára com o seu alento e que lhes legava a eterna luz d'uma vida immaculada na caridade e no trabalho.

Houve certo rumor em toda a casa, dos creados que saiam a levar ordens para o enterro, a prevenir o parocho e os armadores. Depois, pelas duas horas, tudo caiu em silencio. Só Claudio e Luiza velavam o corpo da mãe, pallida e serena, vestida de negro, coroada de cabellos brancos, sobre o leito, mal illuminada pela luz dos castiçaes que ladeavam o crucifixo, em cima da commoda, convertida em altar.

Ás oito horas, começaram a chegar os visinhos que vinham com palavras de sentimento, e muitos com lagrimas, offerecer os seus serviços. Dirigiam-se a Claudio que os recebia na sala e a maior parte, ao sair, entrava no quarto e ajoelhava, rezando, junto do cadaver.

Laura chegou com o filho, proximo ao meio dia. Claudio abraçou-os, soluçando n'uma crise de lagrimas.

—Vae vel-a, disse para a mulher.

Na confusão do seu espirito perpassou a esperança d'um milagre. A mãe havia de converter a esposa; dos tristes despojos d'aquella que fôra uma santa emanaria, a transformar a alma ingrata, a humildade e o amor.

Todo o dia se passou recebendo as visitas da gente de Albergaria que correu a Villalva. O enterro foi á tarde. Quando chegou a noite, voltou a paz. Tudo parecia dormir.

No dia seguinte Claudio regressou a Coimbra. Tinha pressa de restituir a mulher á sua casa e ás suas commodidades. Sabia que ella não podia estar contente ali, servida por creados rusticos, e a sua presença perturbava-o.

Porquê? Não o sabia ao certo. A confusão do seu espirito era completa, tudo o que conscientemente sentia era uma fadiga extrema. Voltava a Coimbra, lá pensaria o que tinha a fazer. Entregou a casa á irmã e partiu.

Em Coimbra, sentiu-se ainda peior. Desde que lá tinha chegado, succediam-se sem interrupção as visitas de gente fina que vinha trazer-lhe consolações banaes, em palavras que no correr do dia ouvia innumeras vezes.

Breve voltou a Villalva. A Laura disse que precisava tratar de partilhas e regular os seus negocios, mas a verdade é que queria estar só com as suas saudades, as suas máguas e os seus degostos. Queria concentrar-se na meditação, tentar descobrir e vêr claro o estado da sua alma. Contrariedades, esperanças, desillusões e uma infinita saudade batiam-n'o sem cessar como o lebreiro persegue a caça. Fugiria? Resistiria? No seu pensamento ia pelejar-se mais uma temerosa batalha.