VI
Villalva! O silencio e a paz no contacto da natureza, a absorpção no seu caudaloso palpitar, o arrebatamento nas suas emanações purificantes! Perante a cintura de montanhas que lhe cerravam o horisonte, lançando os olhos pelo valle em que os casaes dormiam escondidos no arvoredo ou debruçados á beira dos campos vicejantes, Claudio sentia uma vaga aspiração, um desejo obscuro cortado de saudades traduzindo-se n'um pullular de interrogações que opprimiam. Onde estava? Por que agrestes caminhos tinha andado? Onde ia? O que queria?
Só, n'aquella sala que ouvira os seus primeiros risos e as suas primeiras lagrimas, perante o vulto sagrado da mãe, agora sempre presente aos seus olhos, resurgindo reanimado, para não mais morrer, na exaltação d'uma immarcessivel lembrança, reconstituia a sua existencia, recordando factos, buscando ainda, com uma tenacidade de naufrago, esperanças de salvação.
O desengano esmagava-o; já não podia ter duvidas sobre a situação a que chegára, a historia da sua vida era um livro aberto em que não ficava o mais breve enigma nem a mais passageira obscuridade. Recordava os annos da infancia e mocidade, o respeito pelo trabalho e pela humildade de que seus paes lhe haviam dado lição profunda no exemplo ininterrompido, via como depois surgira a tentação accendida pelas fascinações da sciencia materialista e pelas perversões da riqueza, e sentia ainda com angustia a tortura em que o lançára o tormentoso desvairamento do adulterio.
Casára-se para se salvar. Não desenganado ainda sobre a significação moral da vida elegante, confundindo o luxo e a arte, a delicadeza do espirito e os cuidados corporaes, procurava mulher n'uma familia fidalga sonhando a alliança d'uma simplicidade christã com os requintes artisticos e os gozos e as commodidades da gente fina.
Os curtos annos de casado tinham-n'o desiludido dolorosamente e profundamente. Encontrara um egoismo sem limites, occultando-se em palavras doces e sorrisos convencionaes, onde esperava uma alma aberta á sympathia, ao amor e ao sacrificio; encontrára uma inconsciente crueldade onde phantasiára uma perenne bondade e denguices sentimentaes no logar d'uma forte e sadia franqueza. Agora tudo estava perdido, sem remedio.
Quando fôra dos amores de Emilia, era livre, senhor de recomeçar a sua vida; ligado pelo casamento seria arrastado na sua desgraça sem remissão. Passava-lhe pela mente todo o seu viver com Laura, os continuados motivos de desgosto que ella lhe dava e que por constantes definiam a sua vida normal; os ralhos e a odienta brutalidade com os creados, a aversão aos pobres e aos mendigos, o horror da procreação e essa avidez feroz com que reclamava o marido só para os seus prazeres, para os seus vicios e para as suas futilidades fidalgas, não lhe permittindo um momento de liberdade, não lhe concedendo, n'uma hora de bondoso desprendimento, que vivesse para si, para os seus trabalhos, para o seu repouso, ou, mais singelamente ainda, para as suas meditações.
Na verdade, não tivera com Laura um só acto de violencia, não podia dizer quando começára esse sentimento indefinido que o fazia temer a sua presença e o levava a affastar-se de Coimbra. Nem por isso a dissolução era menos completa; infiltrára-se-lhe na alma, subtilmente, impregnando-a dia a dia mas envenenando-a de amargura, enchendo-a do fél que trasbordava jorrando um sombrio desespero.
Como supportára até então essa cruz, porque não fugira ha mais tempo do logar em que um tormento incessante o perseguia? Não tinham sido as esperanças de emenda da parte de Laura que o tinham contido. Essas perdera-as por completo quando o filho nascera; a mesquinhez da sua alma revelára-se então sem rebuço, deixando-lhe no espirito uma arreigada convicção que, de resto, os factos quotidianos confirmavam tenazmente.
Rememorando as mortificações que soffria, persuadia-se, n'um exame da propria consciencia, que só por amor de sua velha mãe occultára a sua desgraça tentando deixar-lhe sempre a impressão de que vivia feliz. Sim, só por ella bebera corajosamente esse calix sem trepidar, sem uma apparente contracção, para que a tristeza não perturbasse a sua velhice e podesse morrer, como morreu, na tranquillidade de quem louva a Deus por ter abençoado de felicidade a sua próle.
Tudo estava acabado, partira-se esse ultimo laço que o ligava á terra! Aquelles cyprestes que além oscilavam ao vento junto á egreja, tinham agora para Claudio uma fascinação estranha. Os seus olhos não se desprendiam d'esse pedaço de terra, interrogadores, fitando os tumulos, buscando a revelação do enigma da sua vida. Viver! Para que?! Para sua mãe, o seu grande affecto? Dormia já para sempre. Para Laura, sua esposa? Era alheia ao seu coração e, ámanhã, quando o tivessem lançado ali ao pé de sua mãe, havia de cobrir-se de crépes finos, e correria, em carruagem, a fazer mesuras lacrimosas por casa dos parentes fidalgos, e bateria nos creados quando errassem e em accessos de ira expulsaria os mendigos do jardim.
Passava-lhe nos labios um sorriso de desdem perante a imagem d'essa dôr mentirosa, ávida da vida, d'uma crueldade impenitente; e o desprezo do mundo crescia no seu coração. Viveria para o filho? Nada podia esperar d'elle. Havia de crescer ao sabor dos caprichos da mãe. Já uma atmosphera de louvores e constante lisonja começava a tornal-o enfadonho e falso; quando com a edade se lhe juntasse a sede de regalos, a perversão mostrar se-ia completa. Melhor seria livrar a tempo os seus olhos d'essa imagem em que veria incessantemente a miseria do seu destino. Viver para os estranhos, para os desconhecidos, para uma vida de caridade, enxugando lagrimas, agasalhando os indigentes, levando consolo aos desventurados? Era tarde! Toda a energia estava extincta, consumida na propria desventura. Viver para os prazeres do corpo, lançando para longe todas as preoccupações moraes, despindo-se affoitamente d'esse cilicio e libertando a carne? Muitas vezes, deixando a casa da estrada da Beira sob a impertinente insolencia da mulher, sentira os impetos d'uma reacção naturalista que o vigor dos annos atiçava mas de todas as tentações logo accordava pela lembrança dos tormentos passados em Albergaria da Serra nos tristes annos dos amores de Emilia e pela perseguição de invenciveis espectros da consciencia em que as aspirações de virtude se confundiam com a imagem da sua mãe, no intimo sempre presente.
Que podia pois essa alma dilacerada pelo desengano, privada de todas as alegrias que ambicionára, continuamente retalhada de dôres? Tivesse a coragem de anniquillar os restos inuteis do seu corpo. Para que servia n'este mundo? O pão que o alimentava queimava-lhe os labios como um roubo ao trabalho dos que eram sãos, vivendo no amor, e o suicidio não seria um crime nem uma deserção, era uma obra de caridade livrando a humanidade d'um ser enfermo e esteril, era um acto de justiça, reconhecendo e castigando o desvairamento da sua existencia perdida em sonhos vãos e agora sacrificada á frivolidade d'uma mulher. Uma pesada sombra lhe escurecia então o pensamento e olhava esse abysmo eternamente mysterioso como o mar calmo em que precisava lançar-se para seu repouso, para sua gloria, para sua redempção.
N'esta febre havia porém remissões. Pela manhã, desde que fallecera a mãe de Claudio, a casa de Villalva era invariavelmente visitada pelos devedores, pelos rendeiros, pelos muitos que a serviam ou d'ella dependiam.
Vinham regular as suas contas, pedir perdão das dividas em atrazo ou que lhes esperassem pelo pagamento das rendas caidas, saber se poderiam contar com as terras, o que seria de futuro, a quem pertenceriam.
Era gente rude, vestida de burel, mostrando no peito uma camisa grosseira, de grandes e toscas botifarras, muitas vezes descalça, tendo deixado á entrada os tamancos ferrados e o cajado. As mulheres vinham tambem; por homenagem ao novo senhor traziam-lhe aves que iam levar a cosinha, em pequenas cestas.
—Ai, Senhor! Está no ceu, era uma santa; diziam gemendo para que Claudio ouvisse e se compadecesse da sua pobreza.
Depois entravam, mansamente, e com longos rodeios, começavam a falar dos seus males, este dos gados que lhe morreram, aquelle das doenças que houvera em casa, est'outro das más colheitas e dos maus preços. Terminavam pedindo alguma cousa. Por alma da senhora sua mãe... rematavam.
Claudio, a essa invocação, que bem sabia ser banal, não tinha coragem de resistir. Era no seu espirito uma instantanea resurreição de qualquer cousa sagrada perante a qual ajoelhava submisso e humilde.
De resto, as horas que passava com os arrendatarios, com os devedores e com os creados que vinham receber ordens e dar contas das suas obrigações, eram para a sua alma um refrigerio. Ao escutal-os comprehendia quanto a vida e a virtude eram simples. As riquezas do mundo encerravam-se em algumas medidas de pão guardadas na arca, em meia duzia de varas de panno, fiado pelas encostas, emquanto o rebanho vae traçando o pasto, e tecido nos serões de inverno á minguada luz d'uma candeia.
Moral, problemas da alma não existem. «Tu comerás o pão com o suor do teu rosto», é tudo, um evangelho inteiro. Trabalha, tira da terra o sustento que ella nunca recusa ao teu suor, não contes os teus passos, nem as tuas fadigas, trabalha, trabalha sempre, para ti, para os filhos, para os visinhos, para os viandantes que passam no caminho; não penses para que nem para quem, os necessitados te virão buscar o pão, como nas horas de miseria tu irás tambem viver do trabalho alheio.
A suprema lição era-lhe dada por aquelles que esmolavam e nada pretendiam ensinar. De tanto estudo e ambição, de todas as suas cogitações e de todos os seus loucos anceios de perfeição, recebia alli correctivo.
Mas era tarde, era tarde! Considerava o que perdera n'essa noite em que, creança ainda, pela primeira vez deixára Villalva para ir buscar riqueza e saber que tão cedo se converteriam em infortunio, e a ideia da morte voltava como a unica redempção.
Laura escrevia-lhe longas cartas. Que não sabia que crimes eram os seus para que assim fosse abandonada, que todos a estimavam e adoravam, menos elle; que só á inconstancia dos homens podia attribuil-o pois ella, se por alguma cousa peccava, era pelo muito amor que lhe tinha. O que diriam, perguntava, todas aquellas pessoas com quem convivia ao saber que Claudio desertara a sua casa quasi completamente? Por certo haviam de o condemnar.
No fundo, essas cartas eram apenas a confirmação do que Claudio por demais conhecia, a vaidade da mulher, a crença nos seus merecimentos alimentada pela lisonja banal dos que a cercavam, e uma vontade insaciavel, absorvente, de ser senhora de todas as acções do marido.
Não mentia. Tinha-lhe muito amor, como a um objecto que era seu, para seu uso e regalo e não para viver para elle, sacrificando-se. Confirmando a sua infelicidade, lançavam-n'o em novos impetos de desespero, varrendo qualquer duvida que no tumultuar das suas cogitações podesse surgir.
Uma tarde, como estivesse só, desceu abaixo, ao campo em que empregára tantos cuidados quando habitava em Albergaria. Custava-lhe vêl-o; tinha caido em abandono e recordava-lhe os primeiros mezes dos amores de Emilia em que julgára ter alcançado a felicidade. Com que risonha esperança alli se sentára em mornos crepusculos do estio e em que desvairada agonia alli chorára as lagrimas da sua culpa!
Apezar d'isso, aquelle pedaço de terra atraia-o. No seu proprio abandono havia uma belleza consoladora; os jacinthos que brotavam entre a herva, as roseiras que se perdiam nos ramos das larangeiras, todo esse desalinho da natureza a que era estranha a mão do homem, cantava a vida ingenua e simples em emanações de viço e de frescura.
Estavamos em fins de fevereiro. Pela manhã chovêra e o campo brilhava todo aljofrado de gottas de agua.
Claudio abriu a cancella embaraçada nas trepadeiras que a enleiavam e olhou procurando um carreiro enxuto. Não havia; as hervas ruins cobriam todos os caminhos.
Quasi a seus pés, descobriu uma violeta. Abaixou-se para a colher. Reparou então que eram muitas estendendo-se pela beira do caminho, rompendo por meio das ortigas e das malvas, estioladas na sombra das acelgas.
Instinctivamente, começou a limpar o chão das plantas parasitas, primeiro devagarinho, com medo de se sujar e de se picar nas ortigas, depois affoitamente, sentindo um prazer estranho em afundar os dedos na terra. As violetas iam surgindo e, assim libertas, pareciam grandes e bastas.
Durante uma hora, esteve occupado n'isto. No fim não podia mais, todo o corpo mortificado pela posição em que estivéra, abaixado. Levantou-se, contemplou com alegria os poucos palmos de terra que tinha limpo, e, para repousar, seguiu pelos caminhos orvalhados, enlameando-se, sem receio, procurando as plantas que tinham resistido ao abandono.
No dia seguinte voltaria a proseguir no trabalho, á tarde, depois de ter recebido os clientes. Antes de sair, voltou a vêr as violetas. Abaixou-se novamente, teve tentações de continuar, mas não podia mais, os membros entorpecidos.
—Amanhã! amanhã! pensava subindo a encosta.
Aquelles momentos tinham sido porém uma revelação. Apetecia-os com frenesi.
Pela madrugada, ergueu-se. Desceu novamente ao campo. Trazia a ferramenta, o sacho, a thesoura e a navalha, para poder repousar d'um em outro trabalho. Voltou ás violetas. Não podia abaixar-se, o corpo dorido ainda do exercido da vespera. Começou a sachar um alegrete, mas o serviço ia mal feito, deixava escapar algumas hervas e a terra ficava aos montes, mal arrasada. Despiu o casaco; o sol começava a apertar pelos abrigos. Ia-se agora a limpar as roseiras, mas a mão tremia-lhe, o córte era incerto, mal rematado.
Sentou-se sobre o tronco d'uma arvore derrubada pelos vendavaes do inverno. Que infelicidade a sua! Quanto desejava, tudo lhe era vedado. Não poder trabalhar alli desde o romper do dia até á noite!... Seria a salvação. Affluiam as lembranças da mocidade, o prazer de cuidar das suas flores que a mãe vinha colher para pôr aos pés do crucifixo. Porque não tornaria esse tempo? Era persistir, estava novo ainda, as forças voltariam com o uso.
Cada dia começou então a ter para Claudio os seus momentos de prazer. As violetas expandiam-se agradecendo os carinhos de quem lhes déra espaço e sol, as roseiras mostravam purpureos e tumidos botões e já da cylindra se erguiam suavissimos perfumes. Era uma festa interminavel que recrudescia a cada instante em novas vibrações de vida, coroando e abençoando o esforço humano.
Claudio sentia-se alegre junto da nova companheira da sua vida, a natureza, e tenazmente procurava vencer e sujeitar o corpo debil ao seu grande amor.
No dia em que pela primeira vez lançou mão da enxada, passou-se na sua alma um grande drama, uma lucta gigante entre o destino e a esperança. Ergueu a enxada ao ar, deixou-a cair, guiando-a, e cravou-a no sólo. Depois, firmando-se, recuou o corpo e voltou a leiva cortada cerce, rompendo a terra de cuja escuridão se desprendia um alento de fertilidade, como uma promessa. Ergueu novamente a enxada, cravou-a, recuou e voltou uma outra leiva. Triumphava! De repente, porém, cairam os braços e um suor de fadiga se lhe derramou em todo o corpo. Não podia! O esforço era superior ás suas forças; uma reacção violenta quasi o prostrava. Encostou se á enxada e duas gottas de suor, rolando-lhe pela fronte, foram beijar a terra. Mysterioso hymeneu!
N'aquelle beijo consumava-se um eterno amor. A esperança, succedendo ao desalento, reanimaria o corpo enfermo e d'aquella união, fecunda e casta, sem peccado, brotariam fructos abundantes para matar a fome aos miseros famintos e para restituirem á vida a alma angustiada.
Dentro em breve, poderia trabalhar quatro a cinco horas no seu campo, vencendo pelo exercicio e pela perseverança a debilidade physica, affrontando as instancias dos servos, que se julgavam humilhados vendo regeitados os seus serviços, e desprezando risos equivocos dos visinhos que entre si discutiam se Claudio era um avaro, se um louco.
—É aquelle mesmo genio do pae, diziam uns. Muito agarrado!
—Qual genio! diziam outros. Foi uma mania que lhe deu. Elle não faz aquillo para poupar. Parece até que se importa pouco com o que é seu. Tem perdoado as dividas todas e traz as rendas de rastos.
Para preencher o muito tempo que lhe sobrava do trabalho n'aquella estreita lavoura, Claudio tomára á sua conta alguns serviços de casa mais ligeiros. Era elle que olhava pelo penso das aves e dos gados que breve aprenderam a conhecel-o e a festejal-o na sua caracteristica e descompassada alegria, abeirando-se do seu senhor com as caricias de gratidão que elle recebia com avidez, elle que era tão pobre d'essas dadivas.
Mas não podera banir ainda todas as horas de angustia; a fadiga e os novos prazeres d'esta existencia nas graças da natureza não tinham vencido inteiramente as tristezas da meditação. Ás vezes voltavam os zumbidos demoniacos do desespero e com elles a prostração do espirito. Não, não havia modo de se libertar e desprender do passado! A sua vida estava finda, precisava ter a coragem de comprehender e esperar com resignação o esphacelamento d'esse involucro que se lhe afigurava desprezivel e que era o seu corpo.
De longe em longe, vinha a Coimbra. Não tinha animo para um rompimento formal; a dissolução dos antigos vinculos ia lenta, com bastas interrupções, prendia-se em conveniencias que não conseguira combater victoriosamente, e com os estranhos mostrava cuidar da administração da casa e estar preso em Villalva por interesses temporaes.
Laura recebia-o com um azedume que não procurava encobrir, mitigado de contentamento por ter ensejo de mostrar quanto se sentia aggravada pelas ausencias e pelo viver do marido. Na sua impenitente vaidade, julgava se perfeita; attribuia o affastamento de Claudio a sentimentos brutaes e ruins.
Já a mãe deixava entrevêr nas suas conversações entre os intimos a infelicidade da filha e não perdia occasião de repetir:
—Coitadinha! Quasi sempre só... Meu genro tem aquelles gostos extravagantes. Só está bem entre brutinhos.
Claudio comprehendia o que se passava em volta de si; pouco fallava, cortando sempre abruptamente qualquer tentativa de explicação sobre o seu viver.
Antecipadamente sabia, por experiencia, que nem a mulher lograria fazel-o mudar de rumo nem elle conseguiria emendar o insubmisso caracter da mulher, formado para o egoismo e para a vaidade n'uma atmosphera de inconsciente perversão. Por isso se tornára taciturno. Quando por acaso se encontrava nos serões do palacio da estrada da Beira, apressava-se a tomar logar a uma meza de jogo onde o dispensassem de conversar e não o perseguissem com indiscretas e enfadonhas interrogações sobre os seus passos e os seus actos.
Logo que podia, ao minimo pretexto, corria a Villalva, lançando fóra com desprezo o casaco que o embaraçava de trabalhar e a gravata que tinha por um farrapo inutil e significativo; mal vestido e mal calçado, começava a visitar os gados e as plantas, retemperando-se no silencio d'aquellas montanhas; e este regresso ao ninho, como lhe chamava, deixava-lhe invariavelmente nas primeiras horas a impressão d'uma felicidade reconquistada e segura. Accordava-o uma vibração salutar, emanada d'esses milhões de vidas, mudas para o coração arido, eloquentes para os que palpitam na mesma onda.
Em frente da casa de Claudio morava um velho que fôra creado de seus paes. Juntara um escasso mealheiro á custa d'uma economia inflexivel, casára com a visinha que possuia aquelle albergue em que habitavam, e com isso e com as terras que o seu antigo senhor lhe déra de renda tinha prosperado em certa independencia.
Do seu casamento houvera muitos filhos, mas uns tinham ido para o Brazil, outros trabalhavam em Lisboa, outros tinham-se casado, outros morrido, e em casa, a este tempo, tinha só um rapaz de quatorze annos que o ajudava na lavoura e uma filha de vinte annos, e de nome Maria, que no labutar domestico auxiliava a mãe alquebrada pelos partos, pela creação dos filhos, por quarenta annos de ininterrompidas fadigas.
Claudio olhava aquelle casal como um templo em que se guardava pura a felicidade e a virtude. Era aquillo que elle hoje desejaria para si, se podesse recomeçar a sua vida;—ter tirado da terra com o suor do seu rosto o pão de cada dia e ter dado ao mundo uma numerosa próle de gente honesta e sã.
Muitas vezes, ao recolher, quedava-se longas horas a conversar com o visinho, interrogando-o com uma curiosidade insaciavel, como começára, d'onde viera para alli, como conseguira crear os filhos. O velho contava singelamente; parecia sentir prazer em rememorar o passado. Para comprar os primeiros gados ainda pedira dinheiro ao pae de Claudio, que o do mealheiro não chegava.
—Que o sr. seu pae, dizia interrompendo a narração, tinha aquelle genio... Para os desmazelados era todo imperioso, mas para quem lhe andasse direitinho era bom, gostava de os ajudar. A mim, era elle mesmo que ás vezes me dizia: Porque não compras mais uma junta de bezerros? Tens ahi tanto pasto... Eu empresto-te o dinheiro. E ia buscal-o alli, áquella arca da sala onde a sr.a sua mãe, Deus lhe perdoe, guardava as arrecadas e o cordão. Devo-lhe muito. E cá a minha serva de Deus tambem me ajudou... Deu-me nove filhos e todos se crearam. O Julio morreu mais cedo, era um rapagão! tinha já sete annos. Veio-lhe esta doença, aqui á garganta, não sei como lhe chamam, e ficou suffocado. Mettia dó. Mas emfim... Deus Nosso Senhor assim o quiz.
Entretanto a rapariga passava levando para a ceia a hortaliça lavada na ribeira; accendia a candeia, e começava a cortal-a num alguidar, sobre a meza. A mãe conchegava o lume á panella de barro, negra, em que a agua já fervia.
Claudio contemplava aquelle quadro, n'uma adoração em que se envolvia a tristeza da sua vida desbaratada.
Um dia, trabalhava no campo e, como o sol fosse já alto e a fadiga o prostrasse, procurando a sombra, sentou-se junto a uma oliveira, ao pé da cancella, enxugando o suor.
Momentos depois, passava Maria, de volta do mercado, descalça, o pé comprido e magro, erguendo os braços a amparar o açafate que trazia á cabeça, cruzado no peito o lenço branco de ramagens vermelhas.
—Dá Deus nozes a quem não tem dentes! disse ella avistando Claudio. Isso até é peccado andar assim a cançar-se sem precisão...
Claudio levantou os olhos. Emquanto respondia á rapariga, embaraçado, como desculpando-se, attentou na sua belleza.
Era alta, nervosa, olhos garços, cabellos louros, e assim de pé, sorrindo, os braços erguidos, lembrava uma estatua antiga, d'estas em que cristalisa o ideal feminino d'um povo inteiro.
—Que linda me pareces! exclamou depois de ter procurado justificar-se das suas fadigas que Maria tanto estranhava.
—Eu! Linda!...
E riu-se.
—Mal diria que havias de ser bonita quando estava em Albergaria e vinha aqui ás tardes. Ainda me lembro bem!... A maior parte das vezes encontrava-te a guardares as ovelhas com o cesto da meia no braço e o fio d'algodão preso no hombro. Agora estás uma moçoila que os rapazes hão-de cubiçar.
—Não, não se quer d'isso, respondeu ella lisongeada e ao mesmo tempo envergonhada com o elogio, contorcendo-se timidamente.
E seguiu ladeira acima.
D'ahi em deante, Claudio começou a prender-se á rapariga. Prolongava a conversa, á noite, com o pae d'ella para a vêr risonha e deligente a cuidar da casa, e nos dias de mercado era certo a esperal-a á cancella do seu campo. Não trocavam palavras de amor; elle interrogando-a sobre o seu viver, sobre as suas ambições e os seus prazeres, procurando penetrar a sua alma, ella respondendo laconica, com um inalteravel sorriso em que revelava meigamente a sua sympathia.
Claudio, reflectindo na attracção que sentia por Maria, tentava convencer-se, a poder de logica, de que não tinha tomado novos amores. Era um symbolo da vida simples, d'aquella que elle julgava a suprema sabedoria e a suprema virtude. Adorava-a com um fervor intimo, agradecendo-lhe a revelação d'esse mundo de paz e de felicidade. Não passaria d'alli. Repellia todo o pensamento de concupiscencia; queria coroar pela castidade esse novo culto.
Maria tinha um campo proximo áquelle em que Claudio trabalhava e onde elle, na impaciencia de a vêr, vinha algumas vezes procural-a. Uma tarde a conversa alongou-se e, já proximo da noite, passou na estrada um rapaz ligeiro e agil, com um vigor de mocidade que ao primeiro olhar se mostrava. Ella, vendo-o, disse para Claudio:
—São horas. Vou-me até casa.
E abaixou-se para levantar a cesta que tinha ao lado.
Claudio abaixou-se tambem para a ajudar.
—Oh, Maria! Isso é que são creados!... Muito boa noite, sr. doutor, gritou de longe o rapaz alegremente.
—Quem é este rapaz? disse Claudio com certa anciedade, parecendo-lhe na frouxa luz do crepusculo que um ligeiro rubor se derramava nas faces da rapariga.
—Então não sabe?... Elle conhece-o. Deu-lhe as boas noites.
—Mas não sei quem é. Não me lembra de o ter visto.
—Já lá tem ido a casa. É o filho do tio Antonio da Azinhaga. Móra lá mesmo.
Claudio estremeceu. Passava-lhe uma suspeita no espirito. Áquella hora... fazendo caminho por ali.. o modo como se dirigiu a Maria... Adivinhava! Era o seu namorado!
—Elle gosta de ti?! perguntou apressadamente.
—Creio que sim, respondeu Maria serenamente. Pelo menos assim o diz.
—E tu gostas d'elle?
—Não sei... Quando ouço essas coisas, parece-me que não são comigo. Nunca acredito no que me dizem.
A conversa não continuou. Claudio, confundido, despediu-se de Maria.
—Vou ainda dar um passeio, disse. O luar está tão lindo!...
Desceu a tomar a estrada que seguia á beira da varzea ladeada de oliveiras. A lua subia n'uma serenidade divina, espargindo docemente a sua luz, e do arvoredo quieto e dos prados onde a neblina pousava, erguia-se uma tranquillidade augusta em que se sentia a terra latejante de vida. Claudio parou, voltado para o nascente, ouvindo na contemplação as vozes mysteriosas que tantas vezes interrogava. Era certo, era certo! As aves que arrulhavam na rama dos pinheiros, o musgo que rastejava pelos troncos carcomidos, a pedra alva e fria que o regato polia, as aguas que desciam pressurosas, todos n'um côro unisono cantavam louvores ao seu destino. Só elle estava proscripto da alegria, pela propria loucura!
Sentou-se á beira do caminho, a cabeça pendida, amparada entre as mãos, n'uma agonia de tristeza.
D'onde lhe vinha essa dôr que tanto contradizia a natureza feliz? Bem o sabia; o seu coração já não se illudia. Uma oppressão de inveja e de ciume,—eis o segredo de tanta mágoa. Maria tinha o seu namorado. Corára quando o avistou e quiz logo voltar a casa. Amava-o, era indubitavel. Em poucos mezes estariam casados; os sinos da egreja haviam de celebrar na madrugada a sua união e elle havia de ouvil-os annunciando-lhe a sua desgraça. Que importava?! Não fizera voto de castidade? Não era Maria uma simples imagem perante a qual ajoelhava na adoração da simplicidade? Tivesse animo, desprendesse-se por uma vez das ambições terrenas, elevasse a sua alma ás regiões de eterna beatitude.
Embora! Repetia as palavras do Evangelho: «O espirito é prompto mas a carne é fraca», e não conseguia libertar-se da propria fraqueza, reconhecendo-a e condemnando-a na sua consciencia. Todos os raciocinios eram impotentes para dominar a dôr. A lembrança de que estavam terminadas as horas em que a voz de Maria, como um canto de feiticeira, lhe fazia esquecer toda a desgraça da sua vida, esmagava-o. Iam roubar-lhe todo o conforto da sua existencia.
A noite foi de agitação. Aos primeiros alvores da manhã, por que anciava, ergueu-se e de casa começou a espreitar a saida de Maria. Não tardou que ella apparecesse á porta, com um cesto de roupa á cabeça. Ia á ribeira lavar. A rapariga levantou os olhos para a casa de Claudio.
—Meu Deus! disse elle comsigo. Suspeitará o meu tormento?
E saiu ligeiro, pela porta do quintal, tomando por atalhos, a cortar-lhe o caminho. Chegou abaixo, proximo do rio, e começou a subir a encosta. Em breve a encontrava.
—Bom dia, minha rola!
—Que madrugada!... Quando saí, olhei lá para casa e vi tudo socegado. Pensei que ainda estivesse a dormir.
—Não, não dormi bem. Dize-me uma coisa, perguntou abruptamente: Quando é o teu casamento?
—Para a semana dos nove dias.
—Mas aquelle rapaz que hontem passou por nós, quer casar comtigo...
—Quer... mas eu por emquanto é que não quero casar-me. Já lh'o disse.
Para Claudio estas palavras foram um completo allivio.
Restituiam-lhe Maria, restituiam-lh'a pelo menos para a sua admiração, para na sua singeleza reanimar a alma enferma de cogitações e contrariedades. Agradeceu-lh'o com um olhar, sem se atrever a uma confissão em que temia manchar a candidez dos seus sentimentos, e voltou a casa alegre e repousado, cantando, a cuidar dos gados.
Continuava o idyllio, as palestras com Maria e o trabalho na lavoura. Sentia-se vigoroso e forte; nenhumas fadigas o alquebravam. Pela madrugada estava a pé, distribuindo o penso aos gados. Almoçava um pedaço de brôa com um ligeiro condimento e vinha para o campo. Não havia já serviço de que não fosse capaz; tudo estava em o saber distribuir e alternar. Prendia-se á terra com um amor febril, talvez n'uma vaga ambição de igualar Maria e por isso melhor a merecer. A rapariga estranhava todos os devaneios de Claudio, perguntava-lhe se não era melhor viver na riqueza, mas sorria perante as razões que elle lhe dava e que despertavam no seu coração um impulso de meiga sympathia.
Um dia, Claudio veiu para o trabalho sem ainda ter visto Maria. Algumas vezes isso lhe acontecia mas sempre o deixava aprehensivo e triste; então, o trabalho caminhava lento, os braços a custo podiam com a enxada. Era mal sem remedio; a mãe de Maria é que distribuia o serviço e nem sempre podia saber antecipadamente em que se consumiria a manhã.
Como era dia de mercado, suppoz que tivesse saido mais cedo e resignou-se com a lembrança de a vêr no regresso. Embalde porém a esperou. Maria não veiu, em todo o dia não poude encontral-a. Ficava inquieto. O que seria? Doença? Teria partido para fóra da aldeia? O espirito perdia-se-lhe em conjecturas. Pensava em parar á tarde a conversar com o pae, como fazia muitas vezes, mas o velho veiu a casa de Claudio para vêr umas vitellas que este mandára vir de Miranda e por ali se quedou, no pateo, até á hora da ceia.
Desfeita esta ultima esperança, a inquietação redobrou. Para a acalmar, saiu n'um longo passeio, subindo pelos atalhos da serra. Queria muito áquella aspera nudez dos montes, que infundia na sua alma sentimentos de força e tenacidade na vida ingrata, sujeita ao açoite de todas as intemperies, despida de todo o viço e de toda a doçura.
A noite ia adeantada, já ha muito tinham batido as dez horas. Desceu á aldeia.
Quando avistou a casa de Maria, pareceu-lhe descobrir um vulto debruçado no muro da eira que era junto á rua. Aproximando-se, a sua suspeita confirmava-se. Era ella. Que felicidade! Todas as inquietações iam cessar.
—Boa noite, Maria. Que fazes aqui?
—Ouvi meu pae dizer que o tinha visto sair, deixei-o adormecer e agora estava á sua espera. Quero muito fallar-lhe.
Na sua voz percebia-se a perturbação interior. Claudio sentiu um fremito de terror.
—O que foi?! perguntou confundido.
Maria contou-lhe então que tinham dito á mãe que elle a namorava, que todas as manhãs a esperava á porta do campo. A mãe reprehendera-a e prohibira-lhe que lhe tornasse a fallar, a não ser em casa ou quando outras pessoas estivessem presentes. Ameaçara-a de o dizer ao pae, que nada sabia ainda, e de a mandar servir para longe, se continuasse.
—Esqueça-se de mim, esqueça-se de mim, foi o singelo pedido com que respondeu a todos os rogos e protestos apaixonados de Claudio que a deixou assegurando-lhe que ia voltar a Coimbra e que havia de procurar esquecel-a. Bem sabia que não poderia fazel-o, que isso não dependia da sua vontade, mas queria deixal-a tranquilla, sentindo-se feliz pelo sacrificio.
Interiormente, quasi estava contente. Estes amores que terminavam sem macula engrandeciam-se aos seus olhos por este facto: a abdicação de todos os seus desejos em proveito da felicidade de Maria coroava d'uma maneira gloriosa o culto que lhe consagrára.
Enlevava-se em cristallinos sonhos de pureza, n'um amor sublimado. Iria a Coimbra, soffreria a tortura de viver ali durante um ou dois mezes e, quando voltasse a Villalva, saberia dominar-se, affastando-se de Maria. De longe, silenciosamente, faria sua a alegria da sua amada onde a encontrasse, ou cantando na romaria ao lado do namorado ou batendo a roupa sobre as lageas do rio, á sombra dos salgueiros.
Partiu pela manhã, recommendando repetidas vezes aos creados os gados, as aves e as plantas. Iam sentir a sua ausencia. Com um carinho em que a saudade e a tristeza transpareciam, indicava aquellas flores que careciam de regas mais frequentes, a hora a que convinha levar o gado ao pasto.
Deixava-os! pensava. Eram os melhores companheiros da sua vida. Aquelles sim, aquelles nunca lhe mentiam e sabiam agradecer as suas fadigas, prosperando e prodigalisando os fructos, derramando em torno a abundancia e a belleza.
Foi a pé, seguindo os caminhos menos frequentados. Procurava bastas vezes vencer pelo movimento e pelo cansaço a agitação do espirito; por experiencia sabia quanto o silencio e a contemplação da natureza lhe eram salutares. Captivavam-n'o, pareciam communicar-lhe uma parcella da sua serenidade.
Em Coimbra, o seu regresso inesperado foi visto com grande estranheza. Não que elle tivesse deixado completamente de lá ir mas, sempre que o fazia, a sua vinda era previamente conhecida pelo facto de mandar ir a carruagem a Villalva... D'ordinario, demorava-se um ou dois dias dando solução aos negocios da casa e entregando pontualmente á mulher todos os rendimentos. Ficára assente pelo simples uso, sem qualquer declaração formal, que os rendimentos de toda a casa pertenceriam a Laura, que d'elles dispunha como queria, e para elle só reservaria os bens de Villalva.
De resto, Claudio supportava este encargo de visitar e administrar a casa sem maior contrariedade apparente. Transpondo o portão da estrada da Beira era outro; envergava os trajos da gente da cidade e com elles rehavia antigos habitos de polidez e de delicadeza mundana. Ás vezes, parecia mesmo contente; a certeza de que dentro em pouco voltaria ao seu casal, perdido entre as montanhas permittia-lhe tolerar resignadamente, porventura bondosamente, os costumes que no intimo condemnava e aborrecia. Intencionalmente evitava fallar de Villalva; quando alguem tinha a indiscrição de lhe perguntar pelas suas lavouras, respondia com um laconismo que cortava todo o seguimento da conversa.
Na sua ausencia, porém, o seu viver era muito discutido. Em geral, julgavam-n'o um maniaco. Laura e D. Maria Francisca tinham-n'o por um homem brutal, destituido de todo o sentimento de bondade; o abandono da mulher e do filho, que aliás viviam na abundancia e no luxo, pareciam-lhes um crime. Só D. Pedro o desculpava; sempre respeitára muito a liberdade de pensar de cada um, dizia, para que lhe respeitassem a sua.
—Gosta de andar de tamancos e tratar dos bois. Está no seu direito! E tu, dizia para a mulher, não gostas de trazer plumas no chapéu e de jogar o whist? É a mesma cousa! Eu tenho-o encontrado sempre muito bom rapaz... Traz ahi a Laura com todas as commodidades e ainda fallam d'elle!
A vida desregrada e a estreiteza de espirito não tinham pervertido o coração do fidalgo. Incapaz de uma bondade activa, conservava um constante pendor á indulgencia e tinha, como homem enfastiado do mundanismo, certa attracção para os caracteres que se desviavam dos typos consagrados. Por isso estimava o genro e o defendia.
Levava o seu affecto até ao ponto de o visitar em Villalva, quando nas caçadas se encaminhava para esses lados.
Entrava-lhe em casa com os seus lebreiros que se estiravam na sala, offegantes, a lingua pendente e humida, ostentando a dentadura recurva e eburnea.
Claudio recebia-o com sincero contentamento e affagava a matilha cujas proezas D. Pedro logo começava a narrar.
D. Maria Francisca escandalisava-se com essas visitas que destoavam da sua attitude reservada com Claudio. Se por acaso acontecia que o marido dormisse em Villalva, para alongar a caçada, ás vezes mesmo em companhia dos seus hospedes beirões, não deixava de o reprehender, escarnecendo.
—Bom gosto, dizia, levares os teus hospedes a esses palacios! Ha-de-se lá dormir muito bem e com muita limpeza!
—Olé se dorme! respondia o fiadalgo rindo dos assomos da mulher. O Manoel de Vasconcellos ainda agora me escreveu de Lisboa a chorar pela ceia que Claudio nos tinha dado. E tem razão! Aquelle lombo de porco, assado no espeto, alli á lareira, nunca mais esquece.
No mesmo dia em que Claudio chegou a Coimbra foi á noite a casa dos sogros.
A sua presença despertou grande curiosidade entre os convivas, que eram muitos. Todos o rodeavam, e muitos, estranhando a sua magreza, perguntavam se tinha passado mal ou soffrido qualquer doença.
—Não, tenho passado excellentemente, magnifico, mesmo muito vigoroso, respondia Claudio.
Na verdade, estava magro, os olhos encovados, as faces enrugadas. Illudia-se tomando por vigor a excitação em que o trabalho physico e a intensidade das impressões moraes o traziam. O organismo empobrecia-se.
—Deve ter cuidado, deve ter cuidado, repetiam insistindo os que o cercavam.
—Talvez uns ares e uns banhos do mar... aventou alguem. Que diz o doutor?
Este doutor era um medico que ha pouco tinha tomado capello em medicina e se preparava para lente da Universidade.
Muito vaidoso, tendo lido e decorado grossos volumes sobre doenças nervosas, escriptos em francez, julgava-se senhor de toda a sciencia e deixava perceber, sem abertamente o declarar, para não crear antipathias que lhe prejudicassem a entrada na Universidade, que os lentes nada sabiam. Elle é que estava ao par dos trabalhos modernos. Gostava que o consultassem, tomando a consulta como reconhecimento dos seus talentos, e fallava pausadamente, cathedraticamente.
—Eu lhe digo, respondeu emphatico ao seu interlocutor, hoje a sciencia tem feito grandes progressos que, digamos de passagem, são quasi completamente ignorados em Portugal. Infelizmente, entre nós, estuda-se muito pouco; com excepção de meia duzia de homens de verdadeiro talento e de saber, no geral cura-se por uns processos rotineiros de que a medicina estrangeira se ri. Principalmente de doenças nervosas conhece-se muito pouco... mesmo muito pouco! Quando ultimamente defendi theses, tive occasião de ouvir as criticas mais extravagantes. Convenci-me de que a materia era perfeita novidade para os meus collegas. N'um caso, por exemplo, como este do dr. Claudio, o que a sciencia aconselha é não só o exame de todo o organismo mas particularmente a observação das manifestações nervosas. É cousa que demanda um grande tacto... um grandis...simo tacto! Qualquer medico que o visse, naturalmente aconselhava-lhe os tonicos e os reconstituintes. Tem uma apparencia de fraqueza e guiava-se por ella. Seria um erro! O dr. Claudio diz-nos que se sente vigoroso e está ao mesmo tempo com apparencias de fraqueza? Evidentemente, ha um desequilibrio entre a força organica e a actividade nervosa, que é necessario combater. Uma vida tranquilla e particularmente o aspecto das montanhas, o espectaculo da quietação é o que hoje se recommenda n'estes casos. O mar em caso algum; a sua agitação é communicativa. Eu creio que o dr. Claudio ganharia muito em passar dois ou tres mezes na Suissa.
—Não digo que não, meu caro doutor, respondeu Claudio disfarçando mal um sorriso, mas nem sempre se pódem tomar remedios... tão energicos. São, ainda que mal lhe pareça, depauperantes em alto grau. Da algibeira, é claro.
—Sim... mas nas circunstancias de v. ex.a isso não é motivo.
—Eu não digo que rejeite por completo o tratamento, mas tomo-o em dóse mais moderada. Uma digressão pelo Minho será o bastante.
—Mas creia v. ex.a que isso não lhe dá resultado. O que tem desacreditado muitas vezes a therapeutica moderna é deixarem de a seguir com todo o rigor que a sciencia aconselha.
Claudio ria-se da presumpção do medico e ia aproveitando o conselho, porque lhe convinha. Já antes tinha pensado que a permanencia em Coimbra não podia fazer-lhe bem; as incorrigiveis exigencias de Laura, de que nem o abandono do marido a curara, os serões em casa dos Albuquerques, toda a rede de impostura, de mentira e de futilidade que é o caracter da vida elegante, contrariavam-n'o e irritavam-n'o. Precisava fugir d'alli.
Seguiria pelo Minho quasi até á fronteira e d'ahi, por Montalegre e Chaves, desceria ao Douro para o atravessar e passar á provincia da Beira Alta d'onde voltaria a Coimbra. Terras novas e novas paizagens haviam de o ajudar a vencer a inquietação em que o amor o trazia.
Ao fim d'um mez, talvez podesse regressar a Villalva inteiramente de posse da sua vontade que empregaria com firmeza em evitar quanto podesse levantar a mais ligeira duvida sobre a honra de Maria. Ia pôr-se a caminho.
Saiu de Coimbra por uma madrugada humida e fria. Vinha rompendo o dia. No rio a nevoa e as aguas confundiam-se envolvendo as sombras incertas dos salgueiraes e dos choupos que se banhavam e retemperavam como deuses pagãos, em ondas claras.
Claudio affastava d'ali os olhos. Era a paz no turbilhão da vida ingenua, era o fructo prohibido dos seus anceios, uma recordação amarga.
Do outro lado, subindo os montes, pelas cumiadas e pelos valles estendia-se a casaria da cidade. Illuminadas pela alvorada que se espraiava empallidecendo o ceu, surgiam as torres, os corucheus e as cupulas dominando e protegendo os tectos negros que, afundando-se pelas quebradas, rastejavam em torno d'aquelles vultos de linhas nobres, ora magestosos, ora audazes, ora suavemente graciosos. Quantas lagrimas, quanta tortura e miseria despertavam com a manhã d'aquella massa obscura! Um sentimento de piedade lhe apertou o coração, e logo o remorso começou a perseguil-o implacavelmente. Tambem elle era criminoso, tambem elle semeiara lagrimas, tambem elle ateiara com os seus desvarios o fogo das paixões que alimentam a miseria!
Porque saira de Villalva, porque não ficára ali como seus paes modesto e ignorado? Talvez... talvez... Uma suspeita lhe passava pelo espirito... Talvez então vivesse contente com Maria, no seu casal abençoado e fecundo. Ai, quanta saudade d'essa felicidade ignorada que só em sonhos sentira!
Sob esse sentimento deixava Coimbra e com elle ahi regressaria. Levava comsigo a saudade da vida que jámais o abandonaria e que agora se personificara poeticamente na lembrança de Maria.
Parou em Aveiro. Estivera ali, quando estudante. Ficára-lhe d'aquellas terras uma boa recordação. A belleza das mulheres, altas, d'um raro concerto de majestade e de graça nos seus trajos esguios, a payzagem viçosa e ampla, em que a luz se attenua e pulverisa sobre as aguas extensas e na atmosphera humida, os costumes, a liberdade sem altivez do povo trabalhador e independente, tudo isso o incitava a voltar a Aveiro.
Apenas chegou, percorreu vagarosamente a cidade. Dava-lhe agora uma impressão de silencio, de calma, de desolação que provocava a tristeza. O movimento nas ruas era pequeno; as officinas e as fabricas, com os seus ruidos caracteristos, muito poucas. Enganára-se; não era aquillo que tinha na memoria.
Pela manhã percorreu os caes. Saiam os barcos levando os pescadores para a ria e os marnotos para as salinas; a jarra da agua, o cesto com o almoço e o gabão era toda a sua bagagem. Deixavam a casita onde se abrigava o lar e o berço, e deixavam a guardal-a a companheira da sua vida; voltariam á tarde, a trazer-lhe generosos o pão que haviam ganho durante o dia, sujeitos aos azares da fortuna, aos perigos do mar e aos ardores d'um abrazado estio. Tambem assim era em Villalva, tambem áquella hora Maria desceria a encosta a mourejar pelos campos e pela serra aspera.
A saudade dominava-o. Não era a cidade que estava deserta, era o animo que faltava ao seu coração. Os olhos recusavam-se a vêr o que se passava em torno, constantemente voltados para uma imagem interior.
Estes dois dias desenganavam-n'o do resultado da viagem. Seria inutil. Ia proseguir, mas adivinhára já o que o esperava. Toda a terra lhe parecia arida e silenciosa; em toda ella só poderia prender-se ao que lhe recordasse a existencia de Maria.
Uma tarde, em Vizella, do crepusculo já adeantado, aos primeiros reverberos das estrellas, passeiava á beira do rio e, como se sentisse fatigado, encostou-se sobre um rochedo e adormeceu. Um vento agreste batia as cumiadas dos montes, açoitando as arvores que se curvavam desgrenhadas, mas no valle os amieiros apenas se balouçavam mollemente nas brizas humidas que corriam sobre as aguas. Claudio aproveitava o favôr da natureza e no torpor que precedia o somno fixava os olhos com gratidão n'este espectaculo de feliz remanso.
Sonhava, e no sonho a imagem de Maria associava-se ás palpitações da natureza. O rio transfomára-se em alvas nuvens que pousavam sobre o seu leito apertadas na cinta de salgueiros; entre ellas, como uma apparição, em meio d'um nimbo de claridade vermelha e candente, uma cosinha pobre e uma rapariga curvada sobre a lareira ateando o lume que se erguia em labaredas fugidias. Ao longe sentiam-se as lufadas do vento mordendo as cearas que ondulavam. N'essa lucta, o corpo humilde e fragil cubiçava o calor vivificante que irradiava do facho luminoso.
Por um estranho acaso repetia-se o que vira nos Casaes quando ha muitos annos vinha com Emilia de S. Braz. Estava ali a imagem da sua vida, das suas ambições, da sua felicidade, da tempestade que o cercava. Corre-se a aquecer-se ao fogo redemptor da simplicidade que a imaginação sobrexcitada lhe mostrava n'um quadro tentador.
O seu regresso a Villalva ficava resolvido. Para que ir mais longe? Em vão! em vão!... Mais uma vez repetia estas palavras com que tão dolorosamente terminara tanta illusão da sua vida.
Voltava a Villalva, depois de curtas semanas de ausencia, vencido pela saudade. Vinha na persuasão de que o trabalho na lavoura e a simples presença de Maria o curariam de todo o mal. Não precisava de fallar-lhe, não precisava d'essas arrastadas conversas á beira da estrada que os estranhos viram com suspeição. Não estava ella divinisada no culto que o seu coração lhe consagrava? Uma adoração muda e casta bastaria a satisfazel-o.
A jornada para Coimbra foi rapida. Ás pessoas de familia disse que se apressara a voltar porque se sentia bem de saude e n'aquelle tempo havia muito que fazer. Para evitar explicações que o contrariavam, seguiu immediatamente para Villalva onde chegou noite cerrada.
Os creados receberam-n'o surprehendidos e alegres, dando-lhe conta do estado dos gados, das sementeiras, de tudo o que succedera n'aquella pacifica solidão. Claudio ouviu-os sem impaciencia e visitou os estabulos acariciando os animaes que o reconheciam.
Dominando a impaciencia de tornar a vêr Maria, julgava-se victorioso e começava a sentir, penetrado de delicias, a realisação dos seus sonhos de castidade.
Já tarde, abeirou-se da janella e contemplou a aldeia recolhida no valle apertado. Tudo dormia. Olhava a casita que abrigava Maria e tremia em inquietações d'amor. Tambem ella dormiria? Porventura tel-o-ia esquecido?... Fixava os astros, escutava as auras da noite procurando o segredo da sua vida, mas a aldeia jazia silenciosa num somno de fadiga.
—Amanhã, amanhã!...
N'esta risonha esperança adormecia tambem.
Pela madrugada desceu ao campo. Não tardou que Maria apparecesse tangendo o burro que conduzia a moenda. Ao vêl-a sentiu como uma vertigem em que o sangue lhe corria ao coração. Ella sorria de alegria. Em poucas palavras ajustaram encontrar-se á noite, muito tarde, junto ao muro da eira, quando ninguem os visse.
Em todo o dia Claudio trabalhou com um contentamento e um vigor desusados. Estranhava as suas forças. Como acontecia que, depois de tanto tempo de repouso, não sentisse a menor fadiga? Na excitação em que o deixava a certeza do amor de Maria, illudia-se; tomava como um triumpho do seu corpo o que era apenas uma passageira febre.
Depois da ceia, saiu. Ninguem o estranhava em casa; fazia-o frequentes vezes para acalmar a inquietação do espirito.
Ao bater das onze horas esperava Maria junto ao muro. Sentiu-se um ligeiro bulicio de folhas seccas. Era ella que se aproximava pisando descalça a caruma que cobria a eira.
Claudio começou então a contar o que soffrera na jornada, como os dias lhe pareciam longos, como em toda a parte via a imagem de Maria.
—Não sei viver sem ti. Sou tão infeliz que preciso da tua voz para me dar animo.
Como ella ouvisse silenciosa, a noite estivesse escura e não podesse avaliar na physionomia a impressão das suas palavras, perguntou-lhe:
—E tu? tambem tinhas saudades minhas?
—Cada um sabe de si, respondeu Maria timidamente.
O incendio estava lançado. Vieram as confissões d'affecto em serões prolongados pela noite calma, as caricias, as tentações e os impetos d'amor. Essa castidade no contacto da natureza e na adoração das cousas simples que Claudio sonhára, doente do affastamento e da saudade de Maria, voava desfeita como todas as bastas illusões da sua vida.
A simplicidade é vigorosa e sadia, e o vigor é naturalista. A luz do sol e toda a terra cantam o amor fecundo.
Esse mesmo frenesi com que Claudio revolvia o solo lançando-lhe a semente, era uma forma de fecundação, a anciedade de crear e multiplicar as formas e a vida, um agitar de seiva que se confundia com o desejo da sua amada.
Uma noite adormeceu no regaço da sua amada; ella, cariciosamente, consentiu-o. Dormiu um somno breve, povoado de enlevos amorosos e acordou n'um arrebatamento de paixão em que toda a pureza angelica cedeu ao sangue encandecido.
Não se passou muito tempo sem que Maria apparecesse com o rosto desbotado, os olhos cavados, toda alquebrada d'uma desconhecida molleza. Adoecia das primeiras perturbações de gravidez.
Chorando, confessou á mãe a sua desgraça.
—Que fizeste, que fizeste?! exclamava a mãe chorando tambem. Que vergonha a nossa!
Claudio sentia-se contente, realisada toda a sua ambição. Estava finalmente livre de todas as convenções com que tinha rompido, inconscientemente, levado pelo amor de Maria, e d'esse amor ia ter filhos que elle saberia guardar das tentações mundanas, guiando-os a uma existencia de simplicidade. D'esta vez a felicidade era segura e certa.
Uma cousa, porém, preoccupava os amantes. A gravidez de Maria adeantava-se, já na aldeia todos a suspeitavam com ditos e remoques que a rapariga presentia e soffria resignadamente porque era a vontade d'elle, de Claudio. Tarde ou cedo, o pae teria de o saber tambem, mais cedo do que tarde, que o tempo urgia.
Combinou-se que a mãe lh'o annunciaria e assim se fez.
Elle ouviu em silencio, suffocado pela colera, e, nas primeiras palavras que poude articular, disse apenas:
—Tira-me já de casa esse esterco! Se a torno a vêr, esmago-a!
E saiu tremulo, afogueado em ira.
—Claudio, Claudio!... pensava no doido caminhar em que a dôr o levava. Se fosse outro... matava-o! Matava-o, sim! Mas elle, o filho do meu protector...
Vinham-lhe á lembrança todas as esmolas que tinha recebido da casa de Claudio; não ousava revoltar-se.
Sentou-se sobre um muro baixo, ao lado da estrada. Sentia não sei quê a cravar-se-lhe na cabeça, do lado esquerdo.
Os labios humedeciam-se de espuma. Pouco e pouco o corpo inclinou-se para a frente, e caiu, perdidos os sentidos, ferindo o rosto nas pedras agudas do chão.
Trouxeram-n'o para casa em braços, semi-morto, e foram á villa chamar o dr. Carvalho. O velho tinha sido acommettido d'uma congestão cerebral.
—Muito mal, muito mal, por milagre escaparia, dissera o medico meneando a cabeça.
Por acaso, Claudio estava no jardim, olhando o pôr do sol, quando os visinhos trouxeram o corpo do pae de Maria. Sabia que n'aquelle dia elle havia de ter conhecimento da gravidez da filha e, adivinhando immediatamente o que se passava, correu a esconder-se em casa antes que se aproximassem e o vissem.
Os braços pendidos, o olhar desvairado, deixou-se cair sobre o escabello da sala, immovel de assombro. D'esta vez era certo o crime! Fôra elle, fôra elle que o assassinára levando-lhe a deshonra ao lar! E não morria tambem!... Pasmava da propria frieza e indifferença. Olhava o seu corpo, os seus braços, as suas mãos, o seu peito como duvidando da sua existencia. Respirava, vivia, era o mesmo, elle, agora assassino, que n'aquelle logar, n'aquella sala ajoelhára erguendo a Deus as suas primeiras orações e se prostrára perante o cadaver da mãe pedindo á sua alma inspiração e conselho! Não, não podia ser! Era outro, era outro!...
O assombro crescia e a repugnancia por esse novo homem redobrava.
Levantou-se, pé ante pé, e foi á porta espreitar se havia alguem no pateo. Ninguem! Provavelmente tinham corrido todos a casa do velho. Aproveitou o ensejo e fugiu a perder-se nos montes, pelos caminhos desertos, escondido, ao abrigo dos muros que vedavam os campos.
Esperou a noite que caiu serena, sem luar, estrellada e profunda. Ia descer á aldeia. Para quê? Não era melhor seguir errante, em penitencia, expirando o seu crime, a esmolar por terras ignoradas e a servir desconhecidos, descalço, miseravel, rojando-se humildemente?
Maria, Maria!...
O amor vencia todas as dôres e ainda n'aquella angustia os braços estendiam-se a procural-a.
Desceu, e começou a vaguear em volta da eira de Maria. Tudo dormia n'um grande silencio e apenas por uma fresta se percebia um reflexo de luz.
Tinha fome. Voltou a casa a pedir a ceia.
—Ai que desgraça aquella do pobre tio Manoel! exclamou a velha creada ao vêl-o.
—Já sei, já sei, apressou-se Claudio a interromper com firmeza. Venho agora de lá. Muitos annos, muitos annos... Coitado!
—Deus Nosso Senhor o salve que ainda faz falta áquella pobre gente...
—Hoje sim, hoje já me deixa mais contente, dizia a creada alguns momentos depois levantando da meza os pratos vasios e estranhando a voracidade com que Claudio tinha comido.
—O passeio foi larguito, replicou elle como que explicando.
Levantou-se e tornou a sair. Queria vêr Maria. O que seria d'ella?
Dirigiu-se ao logar em que costumava fallar-lhe e no ponto em que o muro era mais baixo saltou para dentro da eira. Esperou. Não vinha ninguem. Não se lembrava ella de que Claudio estava alli ou não queria tornar a vêl-o? Um suor de afflicção lhe cobria o corpo e o receio da condemnação de Maria vencia o remorso do crime.
Impaciente, atravessou a eira e foi collar o ouvido a uma pequena fresta que dava luz á cosinha. Silencio! Ninguem se movia.
Recuou. Reflectia agora na sua imprudencia. Podia ter apparecido alguem e aquelles passos occultos seriam a confissão do seu crime. Coragem! Porque não iria antes francamente saber do seu visinho? Era natural. Demais, já dissera á creada que tinha lá ido e precisava que não o encontrassem em mentira.
Saltou novamente o muro. Sem hesitar, como possuido d'uma resolução serena e inabalavel, subiu os degraus da casa de Maria, lançou a mão á aldraba da porta e, cauteloso, abriu-a suavemente.
Foi Maria que veio vêr quem entrava, assomando á porta que communicava a sala com o interior. Parou um instante surprehendida. Na escuridão só cortada pela languida claridade que vinha da pequena lampada ardendo aos pés d'um crucifixo, a sua physionomia mostrava a mais profunda mortificação. Ia queixar-se, ia perguntar a Claudio porque só agora vinha e a abandonára. Mas elle, adeantando-se, apertou-lhe freneticamente as mãos e o peito agitado pelos soluços, sem proferir uma só palavra, fitou-a, deixando correr as lagrimas.
Com um instincto seguro, Maria comprehendeu o que se passava na alma de Claudio e transformando em piedade os queixumes que trasbordavam do seu coração:
—Não chore, não chore, disse consolando-o. Foi a minha sorte, foi a minha sorte! Foi Deus que assim o quiz.
As lagrimas de Claudio redobravam, mas agora de gratidão pelo amor de Maria. Era ella, a victima, que vinha consolar o criminoso! Dominava-o uma impressão de espanto.
Encontrava ali, n'aquelle pobre tugurio, o que fora a maior ambição da sua vida, o amor. N'um lampejo, em meio da vertigem de sentimentos que lhe dilacerava o peito, lembrou-se de Laura e comprehendeu toda a grandeza de Maria. Para Laura, amar era possuir, era guardar zelosamente uma fonte de gosos; para Maria, amar era servir, era sacrificar-se e consumir se protegendo uma vida estranha e abdicando de toda a dôr e de todo o prazer da propria existencia. Não podia furtar-se a um secreto contentamento descobrindo em plena consciencia o thesouro de que estava senhor. Negra aberração! pensava, sentindo-se aviltado. Tambem á hora do crime tinha alegrias! Oh, ainda uma vez, mysterio amargo!...
O medico voltou de manhã e achou que o doente estava melhor. Já ouvia e já se lhe divisavam ligeiros movimentos.
—Temos homem! disse voltando-se para a familia, quando o examinava, curvado sobre o leito. Com setenta e sete annos! É preciso ser rijo.
Claudio, ancioso por se informar do estado do pae de Maria, espreitára desde o alvorecer a vinda do dr. Carvalho. Vira-o entrar em casa d'ella e veiu para o jardim, a limpar as hervas d'uns vasos de flores que estavam pousados sobre o muro sobranceiro á rua.
O dr. Carvalho, ao sair, immediatamente deu com os olhos n'elle.
—Ora isso é que é madrugar, disse chamando a attenção de Claudio.
—Suba, suba, respondeu Claudio, mostrando-se risonho e despreoceupado. Então já não quer nada com esta casa?
O dr. subiu.
—Como encontrou o doente? perguntou Claudio.
O dr. Carvalho explicou então em termos da sua arte, para mostrar saber, que o velho tinha grandes melhoras. Recuperára os sentidos, percebiam-se já alguns movimentos, e quando em tão poucas horas se apresentavam symptomas d'aquella importancia, d'ordinario a salvação era certa. Não dizia que tornasse a ser homem para o trabalho, mas esperava pól-o a pé. Ainda ha pouco tivera, em Aradas, o Gusmão n'aquelle mesmo estado. A mesma cousa, exactamente a mesma cousa! Viera o dr. Madail, que é lá muito de casa de seus sogros e que se tem por um chavão, dizia, e foi de parecer que não merecia a pena tratal-o.
—Pois, meu amigo, tomei conta do homem e já corre a casa toda, encostado a uma bengala!
—Deus queira que o mesmo lhe aconteça aqui, respondeu Claudio.
Interiormente sentindo grande allivio com as palavras do medico, para não revelar uma insistencia que poderia tornar-se suspeita, mudando rapidamente de conversa, perguntou:
—E por Albergaria que ha de novo?
—A mesma paz podre. O dr. não quer nada comnosco. Tem razão e... bom gosto. Está por aqui muito entretido, respondeu o Carvalho atrevida e maliciosamente, batendo com a mão no hombro de Claudio e sorrindo-se.
Claudio percebeu a allusão. Tremendo da conversa, apressou-se a cortal-a.
—Venha cá, quero mostrar-lhe em que me entretenho. Venha vêr os meus mirandezes. Estou contentissimo. Comem admiravelmente, são rijos no trabalho e conservam a carne d'uma fórma espantosa.
Proseguiu alguns instantes a fallar dos bois, n'uma apertada continuidade, para que o medico não podesse rehaver a palavra e reatar a conversa que tinha tentado encetar. Sabia até que ponto ia n'essa materia a ousadia do dr. Carvalho, temia que elle viesse perguntar-lhe pelos amores de Maria, que eram já sabidos na villa, e não queria profanal-os com os commentarios de concupiscencia que por certo não faltariam. Por isso foi d'uma rara loquacidade emquanto não viu sair o seu terrivel hospede.
As previsões do medico realisavam-se. O velho continuou a melhorar; ao fim d'um mez, embora d'uma extraordinaria irritabilidade e com perrices infantis que revelavam a debilidade cerebral de que jámais se curaria, parecia ter rehavido a razão. Não podia porém mover-se; a perna e o braço esquerdos estavam inteiramente paralyticos, e por tal motivo se conservava no leito.
Do passado devia ter boa memoria. Havia um manifesto proposito em nunca proferir o nome da filha. Maria deixou de lhe apparecer mal elle recuperou a vista, por se conhecer que a sua presença o impacientava, e elle rehavendo a sua antiga firmeza de caracter, nem uma só vez perguntou mais por ella.
N'estas circumstancias, passados os dias de desvairamento em que o desastre o lançou, Claudio, reflectindo, resolveu trazer Maria para casa. Já que a tinha privado, por sua culpa, da protecção paterna, devia-lhe o amparo que a sua desgraça exigia.
Demais, o seu amor não affrouxára, antes se radicára, n'essas horas tragicas. A sorridente resignação de Maria, o piedoso carinho com que reprimira as proprias lagrimas para enxugar as de Claudio, elevaram-n'a na sua adoração e circumdavam a sua figura d'uma auréola de bondade simples que perpetuamente havia de a illuminar. A inteira posse d'essa creatura angelica compensava-o de muita amargura. Apesar de tão recentes motivos de profunda dôr, não podia furtar-se a uma intima alegria.
Em breve, tinha mais um filho. Quando elle nasceu, pareceu-lhe que a sua vida e a sua felicidade d'esta vez se completavam na realisação de todas as suas ambições. Olhava o berço encanastrado, coberto com um grosseiro retalho da manta que Maria fiára emquanto no monte guardava as ovelhas. Comparava-o com o outro que deixára na estrada da Beira, a espumar de rendas finas, compradas caras e vindas de longe, urdidas por mãos desconhecidas.
Sentia ali duas almas differentes: via n'uma a sensualidade estreme, uma caricia dos olhos e de todo o corpo, via na outra uma historia de singeleza e de trabalho, os placidos dias guiando o gado pelas serras, as mãos tisnadas ao sol, lançando o fuso e distendendo a lã.
Atravez de mil angustias, que fortuna lhe concedia o destino, que horas de paz e de poesia lhe promettia aquelle berço emballado pelos mesmos cantares que ouvira na sua infancia! Era feliz. Um sentimento de gratidão lhe penetrava docemente o peito.
Assim terminava o primeiro acto d'este idyllio dramatico.
Em Coimbra, todos estes factos foram sabidos e commentados com rancor por D. Maria Francisca e pela filha, com simples curiosidade pelos frequentadores habituaes do palacio da estrada da Beira que, emquanto esperavam o chá, debatiam o caso em voz discreta agrupando-se nos cantos mais afastados da sala.
Interiormente indifferentes, no seu egoismo satisfeito com os ordenados pagos em dia e as digestões abundantes e tranquillas que os encaminhavam á obesidade, procuravam gestos de mágoa para successivamente exclamarem:
—Que pena! que pena! Um rapaz tão intelligente e que podia viver tão bem... casado com uma menina de tão boa educação...
Os de melhor consciencia, alguns lentes que porventura se lembravam das suas concupiscentes ousadias com as creadas, accrescentavam indulgentemente:
—Fraquezas! Todos as têm... Afinal tudo isso lhe ha-de passar e elle hade voltar á mulher e aos filhos.
Laura ficou apopletica de colera quando soube pela mãe as circumstancias em que o marido se encontrava. A sua inflexivel vaidade soffria um profundissimo golpe com a demonstração quasi publica de ficar preterida por uma mulher do povo.
—Não quero ser d'esse homem nem mais um instante! Vou mandar chamar o dr. Moraes para me tratar da separação. É demais!... Com uma mulher de pé descalço! Até me mette nojo! Que me ponha para cá o que é meu...
Ao ouvir estas palavras, D. Maria Francisca pensou que Laura tinha casado com separação de bens, e, reflectindo em que o divorcio poderia trazer-lhe grande prejuizo, apressou-se a aconselhar com insistencia:
—Oh, filhinha, isso não, isso não! Que escandalo! Deus nos livre. O que diria esta gente? Eram capazes de inventar que tu tinhas feito algum mal. Não te impacientes, não te impacientes! Até te faz mal. Já estás com umas rosetas na cara que são de fraqueza. Vae tomar alguma cousa. Anda, anda minha filhinha!
—Ai, Senhor!... exclamáva já no corredor dando o braço a Laura e encaminhando-se á sala de jantar.
Depois de muito discutir, venceu a opinião e a astucia de D. Maria Francisca; poz-se inteiramente de parte a ideia de uma separação judicial. Esperavam que por bons conselhos levariam Claudio a abandonar Villalva e a voltar á companhia de Laura. Para isso iam dizer a José d'Albuquerque que escrevesse ao cunhado pedindo-lhe que não désse mais desgostos á mulher, que tão virtuosa tinha sido, e mostrando-lhe como a sua vida era censurada até pelos proprios amigos, segundo diziam.
Procuraram-n'o e, como de costume, foram encontral-o entre os seus alfarrabios.
Ficou muito contrariado com a presença da mãe e da irmã que iam interromper-lhe a leitura d'uns documentos do tempo de el-rei D. Diniz, em que um erudito julgára ter feito descobertas preciosas, das quaes a mais importante consistia em se provar que o motivo principal que determinou a sementeira do pinhal de Leiria foram os amores do rei com uma mulher do Porto de Móz, de baixa estirpe, mas com quem o rei vivia em intimidade e, dizia o cartapacio, «eram os jogos e fallas entre elles tão a miude, misturados com beijos e abraços e outros desenfadamentos de similhante preço, que fazia a alguem ter deshonesta suspeita da sua virgindade ser por elle minguada.»
Sobre este ponto trazia José d'Albuquerque grande correspondencia, estando prestes a demonstrar triumphantemente que os documentos eram de nenhum valor e que o texto citado não passava d'uma calumniosa e malevola interposição d'um compilador sem escrupulo do seculo XVI, cujo nome e naturalidade já tinha descoberto. Faltava-lhe saber ao certo a data do nascimento, mas tambem para isso levava adiantado o trabalho.
Apesar de ser perturbado nas suas cogitações, unica cousa que no mundo amava com afferro, ouviu pacientemente a catilinaria da mãe contra o cunhado. Queria ella que o filho lhe escrevesse ameaçando-o de cortar com elle todas as relações, se não voltasse immediatamente á casa de Coimbra.
—Tens obrigação de olhar pela honra de tua irmã, já que teu pae não trata senão de se divertir, dizia ella dogmaticamente. Não deves consentir que o marido a deixe para ahi como um trapo sujo e ande por lá mettido com um reles estafermo que o que quer é viver á custa d'elle. Eu já conheço bem o que é essa gente!... Tudo uma canalha! Uma canalha!...
—Escusam de estar para ahi com todo esse aranzel que eu não me metto n'isso, respondeu pachorrentamente José d'Albuquerque. O Claudio é de maior edade ha muitos annos, não me deve favores nenhuns, e eu não tenho o minimo direito a reprehendel-o. Demais, eu sei lá como essas cousas são?!... Muito mexerico, muita intriga... Quem as armou que as desarme!
Não obstante esta primeira attitude de resistencia, D. Maria Francisca que conhecia a fraqueza do filho, lamentou-se com voz lacrimoniosa de que tinha creado tres filhos e ninguem a ajudava, insistiu, e conseguiu por fim que elle lhe promettesse escrever a Jorge de Castro para que este por sua vez escrevesse a Claudio e procurasse trazel-o á companhia da esposa legitima.
De facto, escreveu, mas em termos inteiramente despreoccupados «O Claudio», dizia a Jorge, «com aquelle genio romantico que nós sempre lhe conhecemos, metteu-se em Villalva a cuidar dos rouxinoes e das flores e parece, segundo dizem, que arranjou lá uma amante de que já tem um pequenito. Minha mãe e Laura andam em braza com a noticia e querem muito que tu lhe escrevas, aconselhando-o a deixar aquella vida. Duvido muito que o leves a mudar, que elle com apparencia de indifferente é muito teimoso, mas, se lhes quizeres fazer a vontade, e tambem para me livrares d'esta continua cegarrega, dize-lhe d'ahi alguma cousa.» Depois, passava a fallar longamente das suas investigações. «Tem-me dado bom trabalho», continuava, «o tal sr. Castanheira d'Almeida que, com uma petulancia sem precedentes, se lembrou de fazer sobre a vida d'el-rei D. Diniz as mais estupidas affirmações. É claro que não era cousa que se sustentasse cinco minutos, mas é preciso não deixar correr estes erros, convém destruil-os pela raiz, e por isso... etc.» N'este tom escreveu duas folhas de papel.
Jorge, porém, que, por inclinação natural e pelas circumstancias particulares d'uma vida feliz, se habituára a considerar a familia uma cousa sagrada, ficou muito impressionado com a noticia, parecendo-lhe que Claudio praticára a maior das loucuras e renunciára para sempre a toda a felicidade, lançando-se n'um mar de inquietações infinitas.
Sem mais tardar e com grande anciedade pela situação do amigo, que se lhe afigurava cruel, escreveu-lhe palavras de conselho paternal todas impregnadas de carinho, de mágoa e de esperança. Procurava convencel-o, mostrando-lhe que a familia era o verdadeiro fundamento de toda a ordem moral na sociedade e relembrando-lhe as ideias com que a organisara; invocava os seus sentimentos de rectidão e de lealdade para exigir a fidelidade conjugal, ponderando a gravidade da offensa feita á esposa que a fraqueza propria do seu sexo e a impossibilidade de se desaggravar dignamente collocava em condições de obrigar todo o caracter nobre a respeital-a; e finalmente, n'uma curta confrontação da paz d'uma união legitima com os continuados vexames e a mentira d'uma ligação irregular, em que nem sequer os filhos lhe podiam dar o nome de pae sem recordarem a falta e a vergonha da mãe, pedia a Claudio que no proprio interesse da sua tranquillidade pozesse termo áquella vida tão contraria a uma salutar moralidade.
Claudio leu esta carta n'uma oppressão de magoa e compungimento. A condemnação do seu viver pelo maior dos seus amigos parecia-lhe quebrar um dos laços mais fortes que o prendiam ao mundo; alargava a devastação que ha muito se vinha alastrando em volta do seu coração. Mas, passada essa primeira dôr, sempre presente aos seus olhos a humildade simples de Maria, recobrou animo n'essa imagem e escreveu:
Meu querido Jorge:
Um mau fado presidiu ao meu destino e affastou de mim toda a alegria. A tua carta é o ultimo grito d'essa correria de dôres que ha muitos annos me persegue e que quasi me tem vencido.
Esperava-a, antecipadamente sabia que havias de condemnar o meu viver presente; por isso mesmo tenho addiado até hoje uma confissão que só novas magoas me podia trazer. Mas faça-se a tua vontade. Aqui me tens a ouvir-te submisso, d'essa submissão que será o derradeiro estado da minha alma, que não sei bem se é desengano de toda a ventura, indifferença pelas causas da terra ou consciencia e reconhecimento da propria fraqueza, abandono de toda a energia aos impulsos d'uma fatalidade cega.
Ouve-me, porém, ainda algumas palavras antes de me excluires da tua estima. Não é defeza, é confissão; não é a voz do orgulho que repelle a condemnação, é o queixume do culpado que a acceita sem revolta.
Sim! é verdade. Deixei uma mulher que tinha tomado por esposa legitima, segundo todas as convenções sociaes, deixei-a, deixei o filho que ella me tinha dado e a casa que com ella habitava, e vim esconder-me nas serras em que vi a luz, entre gente inculta, ligado pelo amor a uma rapariga do campo, tentando partilhar a sua humildade e a rudeza que tomei pela maior virtude e pela felicidade suprema. Abandonei a familia que tinha estabelecido, abandonando-lhe quasi todos os meus bens e riquezas, deixando-a n'uma vida de ociosidade, de abundancia e de prazeres, abandonei o luxo e uma existencia que me era odiosa, e fugi a acoitar-me nas caricias silenciosas da natureza e na protecção carinhosa d'uma mulher que me ama servindo-me.
Este é o meu crime, que por certo aos teus olhos parecerá uma vileza sem nome, imperdoavel.
Talvez não tão grande como a tua imaginação a representa! Talvez aos errores da minha desventura correspondam as alucinações da tua felicidade!...
Queres que o respeito da familia seja o alicerce de toda a ordem moral na sociedade e tambem eu outra cousa não pretendo. Se a familia é a união de dois seres ligados por sentimentos congeneres de trabalho, de consagração das suas forças á educação d'uma nova geração, de auxilio mutuo e mutua submissão, de renuncia aos prazeres da carne, de caridade e amparo para todos os desvalidos, não ha por certo melhor força para manter a ordem e a belleza moral na humanidade. Se a familia é a união de dois seres ligados pelas mesmas aspirações de riqueza, de tranquillidade e de socego egoistas, de comodidade e de luxo, de meza lauta e de ninho tepido e macio, com os filhos entregues a mãos mercenarias desde o berço até que a escola os entrega á sociedade, poderá ser uma inutilidade para os estranhos, mas, quando se tem a fortuna de possuir todas essas cousas apetecidas, é, para os seus favorecidos, um manso e ininterrompido regabofe. Se a familia é porém o encarceramento, sob o mesmo tecto e em volta do mesmo lar, de dois seres guiados por aspirações oppostas e nenhum d'elles disposto a ceder das suas ambições, em permanente conflicto, consumindo n'esses dissentimentos toda a energia que deveriam consagrar ao cumprimento da sua missão social, então não sei o que a familia signifique, além d'uma enorme e torpe mentira quando esta discordia se abriga sob formulas e exterioridades d'um falso respeito.
O que eu ainda não pude saber ao certo é o que venha a ser, como principio de moralidade, essa tão famosa fidelidade conjugal. É o concubinato legal em que a mulher gravida e a mulher que amamenta se prostituem e aviltam, ás mãos do que tem o nome de esposo, confundindo no mesmo leito a mãe e a amante? Mas isso é sem duvida a maior aberração das leis naturaes, uma especie de immoralidade desconhecida dos animaes inferiores que todos, sem evangelhos doutrinados, respeitam a femêa prenhe e são repellidos raivosamente pela que guarda e aquece os filhos. É essa outra especie de concubinato em que cautelosamente se evita a procreação para que os prazeres e a belleza do corpo não soffram quebra ou interrupção e para fugir aos encargos sociaes que do matrimonio resultam? N'este caso, significa a degradação pela cobardia moral e pelos desregramentos da concupiscencia que se arvora em virtude e que a sociedade acceita como joia de bom quilate.
Só como inicio de perfeita castidade poderei julgar a fidelidade conjugal um valor moral; só como principio de abstinencia e de completa annulação das tentações da carne poderá aos meus olhos tornar-se digna de ser considerada por aquelles que um anceio de vida superior domina. D'outro modo, confunde-se nas labaredas da luxuria que todas fascinam e matam igualmente. Que a prostituição se dê dentro ou fóra dos limites do codigo civil, pouco importa; será sempre a sujeição deprimente da alma aos incitamentos impuros da sensualidade.
Pensa um momento; porventura convencer-te-ás de que os meus erros não são tão grandes como pretende mostrar-t'os a tua felicidade que não é, como toda a felicidade, o resultado do teu esforço mas a concorrencia de elementos fortuitos.
O meu crime foi procurar soffregamente a virtude e tentar a sujeição da minha vida á realisação d'um destino consciente, em logar de acceitar humildemente os azares da propria fortuna. Nas minhas aspirações de santidade houve talvez um orgulho sem medida de que a providencia me castigou transformando-as em corôa de espinhos.
Que sonho mau, que instigação satanica me levou um dia a descer estas escarpas para ir procurar na riqueza e na sciencia a felicidade que deixava na vida simples? Porque não fiquei aqui, como meus paes, na paz laboriosa d'uma existencia ignorada e singela?
Quiz rehaver essa ventura perdida, magoado das infinitas asperezas do longo caminho por que me trouxeram a sensualidade e a curiosidade de saber, mas, ai de mim! era tarde, e chego ao porto tão ensanguentado que jámais as minhas feridas poderão cicatrizar, jámais poderão estancar as chagas em que o animo se me esvae.
Não póde a razão e a vontade resgatar o que uma vez ao coração foi roubado. Debalde o pensamento, em rodeios sem fim, tentára restituir-me a tranquilidade.
Não penses pois em ressuscitar o Lazaro; deixa que elle espere no abandono a hora abençoada de voltar á terra, a esse pó em que todos os crimes e todas as virtudes se dissolvem e apagam para brotarem resgatados n'uma fecundidade infinita.
Teu
Claudio.
Apezar da serenidade apparente que Claudio revelava, era certo que a carta de Jorge lhe deixára uma profunda impressão de mágoa. Todo o passado se dissolvia. Mulher, filho, amigos, tudo se transformava em sombras de que se affastára a vida que só no coração residia; desligados do seu affecto, morriam para os seus olhos perante os quaes passavam como espectros d'uma apagada existencia. Não fôra elle que errára? Não significava esse isolamento que elle tinha deixado o bom caminho, aquelle em que as almas cantam uma alegria sem peccado? Voltavam suspeitas, duvidas cruciantes.
Todavia, exteriormente, a vida de Claudio parecia ter caido na mais absoluta calma. Na aldeia já ia esquecido o escandalo e o povo acceitava sem murmurio os amores de Maria; a caridade, a modestia e a singeleza que continuavam a ser os espiritos bons do casal de Claudio varreram rapidamente a repugnancia que ao maior numero inspirava a sua desregrada paixão, substituindo essa passageira aversão pelo mais carinhoso respeito.
O pae de Maria ficára entrevado, mal se arrastava da cama para o quintal, a aquecer-se ao sol ou a visitar os gados, tentando ainda relembrar a antiga vigilancia e uma febre de trabalho que a doença não pudera anniquilar inteiramente; mas a familia, com a peculiar resignação que a gente rude põe na acceitação das cousas sem remedio, perdoára a Maria a sua falta e frequentava-lhe a casa e as relações como a do visinho a que mais queria.
A vida ainda tinha alegrias para Claudio. Brotavam, como flores silvestres disseminadas pelas montanhas aridas, das aguas que se escoavam espumantes na azenha ou se perdiam mudas beijando as tumidas raizes do arvoredo, dos cantares das lavadeiras que erguiam os braços robustos batendo turgidos linhos sobre as pedras da ribeira, dos zumbidos das abelhas fartando-se na madresilva dos comoros, do sol espargindo-se nos orvalhos com que a noite mansamente cobrira os campos; brotavam do palpitar da natureza em que todo o movimento é sem peccado, e brotavam ainda do coração de Maria em que a simplicidade e o amor fulguravam, protegendo em um nimbo de pureza sadia o espirito decrepito e enfermo de Claudio.
Muitas vezes, quando o trabalho apertava ou quando o calor era muito, Claudio descia de manhã ao campo e só voltava a casa ao pôr de sol. Maria trazia-lhe o jantar ao meio dia, o caldo, a broa e o conducto.
Procuravam uma sombra a que se acolhessem; a refeição fazia-se n'um recolhido silencio que era como uma prece perante a magestade olympica da natureza.
Depois vinham as sestas, cerrando os olhos na contemplação das flores que se abriam ao sol exalando aromas n'uma mysteriosa fecundidade.
Uma tarde, por um dia de julho, Maria veio, como de costume, trazer o jantar a Claudio, o cesto á cabeça coberto d'uma toalha alva e grosseira; nos braços o pequenito, repousada a fronte sobre o hombro da mãe, no abandono em que o somno o vencia.
Chegando ao campo, foi poisar a creança sobre o chale, debaixo d'uma oliveira, proximo d'um muro, abrigando-a do vento e do sol que abrazava, caindo das serras.
Claudio sentou-se ao lado, sobre uma pedra, e Maria sentou-se tambem, em frente d'elle, no chão, desapertando o lenço e mostrando o cólo, agora exuberante no primeiro despertar da maternidade.
Estavam calados, n'um d'aquelles silencios que eram frequentes e em que perpassava uma palpitação d'amor e de ventura.
A creança tinha uma belleza angelica, os olhos cerrados, os finos cabellos loiros desalinhados, o sangue agitado pelo calor da atmosphera e os labios humidos, levemente entreabertos, como segredando palavras ignoradas d'uma doçura divina.
O pae attentou na mãe e no filho. Sentindo desprender-se d'aquelles peitos impenetraveis á corrupção um refrigerio que instantaneamente corria as feridas do seu coração, libertando-o de dôres perguntou a Maria:
—Gostavas de ter muitos filhos?
—Filhos!... respondeu ella rindo surprehendia da estranheza da pergunta. Cada um tem os que Deus dá!...
Claudio calou-se novamente, dominado de respeito. Era a voz da virtude ingenua que chegára aos seus ouvidos, da coragem na acceitação da condição humana, da religião no amor sem limites, na conformidade do destino.
N'aquella rapariga humilde, pobre e rude, encontrava o que nem o saber nem a razão tinham podido conceder-lhe.
Ai! Era bem certo!... A felicidade havia de nascer do coração em jorros cristalinos como a agua que rebenta entre os rochedos.
Tentar subjugal-a sob os impulsos da intelligencia era profanal-a. A candura maculada jámais recupera a alvura.
N'este labor continuado, em que o amor da terra o absorvia, havia ainda para Claudio horas de repouso e de ocio, já por simples fadiga, já porque o trabalho tinha tambem as suas pausas naturaes.
Vinham então a leitura, a meditação e as longas caminhadas pelas veredas desertas, pelas cristas despidas dos montes ou pelos valles apertados, entre o arvoredo cerrado.
Procurava, avidamente, em interrogações infinitas, conquistar para si um retalho d'essa paz augusta em que toda a natureza se envolvia. Escutava, na doce luz do crepusculo, o brandir compassado da Ave Maria em que sentia murmurios de orações, supplicas e louvores de gratidão erguendo-se da aldeia e confundindo se n'uma só prece, em mystica união, com o repouso que a noite vinha derramando.
Queria lançar a sua alma n'essa fornalha ardente d'amor e de fé, purifical-a no contacto das almas simples, mas sempre sentia o tumultuar d'um passado que o despertava dos sonhos bons para o torturar nas angustias da consciencia.
Temia as noites tenebrosas do inverno e os dias pesados e humidos que o obrigavam a enclausurar-se na estreita sala de Villalva. Renasciam phantasmas que julgára dissipados, visões sombrias que a luz do sol e os carinhos humildes de Maria pareciam ter varrido para sempre.
Começava a desfiar esse rosario das suas amarguras; um infinito desalento se apossava do seu espirito, prostando-o de desesperança, convencendo-o da infelicidade sem remedio.
Porque não casára com a Conceição e passára de animo leve sobre as suas lagrimas? Porque abandonára Emilia á miseria que elle mesmo por suas mãos tinha aggravado? Porque deixára Laura que elle espontaneamente fôra buscar tal qual era, com todos os seus prejuizos? E Maria,—pobre Maria!—para que a juntára á sua desgraça, roubando-a ao amor sadio do seu namorado? Egoismo, ciumes, aspirações impuras que tinham perdido a sua alma, lançando-a nas chammas do remorso.
Revoltava-se contra a miseria do corpo que com seus doidos anceios o tinham transviado do caminho de caridade e de sacrificio em que, imolando as suas ambições, teria encontrado a paz da consciencia.
Tentava desprender-se d'esse pesado involucro carnal com frequentes jejuns e esforçando-se por ser casto. Por momentos, quando as minguadas forças physicas pareciam dar ao espirito uma liberdade que o enlevava em delicias, tinha a illusão de que chegára a hora de renascer n'uma vida de pureza e resgatar o passado, santificando-se pelo offerecimento a Deus de toda a sua existencia, calcando como reptis venenosos os ardores dos sentidos.
Essa illusão pouco durava. Rebrilhava o sol, punha a enxada ao hombro e, revolvendo a terra, communicava-se-lhe essa gigantesca vibração de fecundidade que é a propria vida de todo o universo. Crear, reproduzir a sua força e o seu sangue nos seus filhos, nas flôres e nos fructos que regára com o suor do seu rosto, era nas horas de culto naturalista o novo deus a que sacrificava. E, abandonando-se a esse movimento, outras bençãos, as bençãos do amor terreno triumphante, se lhe espargiam sobre a fronte e lhe infiltravam um vigor desconhecido.
N'esta lucta, porém, consumia-se; as suas forças decaiam rapidamente. Ás vezes dominava-o um abatimento, uma prostração em que sentia proximo o seu fim. Então convencia-se que aquillo que tomára por um rejuvenescimento não era mais do que uma desesperada excitação em que inteiramente e para sempre ia anniquilar-se.
Em um d'esses dias, pouco tempo depois de Maria lhe ter dado o segundo filho, recolheu tarde. Maria já por mais d'uma vez viera á porta, olhando o caminho a vêr se o descobria, quando elle entrou.
Vinha contente, risonho, como que alliviado das suas preoccupações sombrias.
—Vim tarde. Estavas com cuidado?... Tem paciencia. Foi-me preciso...
—Não, logo me lembrei que andasse a passeiar ou tivesse tido alguma coisa que fazer, mas nunca se fica em descanço. Ás vezes, onde menos se espera estão trabalhos.
—Tive de ir a Albergaria. Toma, guarda isto bem guardado. É o teu pão e dos nossos filhos, se eu faltar, disse elle, entregando-lhe um papel azulado com grandes manchas de lacre.
Era o seu testamento em que lhe entregava, por sua morte, os bens de Villalva.
—Para que é isso? respondeu ella recuando com uma anciedade triste. Deus Nosso Senhor hade levar-me primeiro.
—Não, não... guarda, replicou Claudio com firmeza.
A rapariga então, obedecendo, recebeu o papel e, os olhos rasos de lagrimas, beijou as mãos de Claudio.
Quizéra insistir na recusa, sentia uma commoção que a turvava, mas era a sua vontade, a vontade d'elle, e amal-o era obedecer-lhe, era servil-o.
Sentaram-se á mesa. Não se ouviu nem mais uma palavra sobre o testamento, e a ceia começou. Claudio estava alegre, perguntando pelos filhos, pelos gados, pelo que em casa se fizera n'aquella tarde, fallando dos trigaes que vira na varzea e que promettiam uma boa colheita.
No dia seguinte, voltou ao trabalho, continuando na sua pacifica faina. O trabalho era a sua alegria, não ficavam horas nem para recriminações nem para idyllios.
Em todo o tempo que Claudio viveu com Maria, só houve um momento que lembrasse as horas de paixão que antigamente o crucificavam.
Uma manhã, Claudio veio a casa almoçar. Como o orvalho no campo fosse muito e trouxesse os tamancos enlameados, deixou-os á porta e entrou descalço. Maria estava em pé, no meio da sala. Parecia procurar vêr, atravez a janella, qualquer coisa que se passava fóra, mas occultando-se ao mesmo tempo para não ser vista. Era o pae d'ella que em frente, encostado ás muletas, se arrastava no estreito carreiro do seu quintal, vendo as ervilhas que se prendiam na sêbe grosseira.
Claudio poude aproximar-se sem ella o sentir. Comprehendeu rapidamente toda a amargura que lançára n'aquelle coração, dilacerado de remorsos.
—Perdoa-me, perdoa-me, disse-lhe apertando-a nos braços e beijando-a na fronte.
E fugiu, sem voltar o rosto, deixando-a a soluçar, banhada em pranto.
Durante quatro annos, viveu assim; apparentemente tranquillo na paz da vida do campo, interiormente minado de duvidas que por vezes a consciencia lhe apresentava como espectros. Maria era sempre a mesma que fôra na hora em que a conhecera, humilde, laboriosa, singelamente amoravel. Mas Claudio, possuindo-a, via n'ella, repassado de contricção, a imagem da felicidade perdida. Era tarde para a merecer; as lembranças do passado perseguiam-n'o implacaveis, já não havia alegria que não fosse cortada d'um travor de arrependimento.
As forças decaiam sempre. Não tinha doença alguma; sentia uma depressão de vigor que todos os dias se accentuava, uma velhice precoce que caminhava incessantemente.
Em maio, um dia tardou a erguer-se. Foram procural-o. Parecia dormir, mas, como o somno se prolongasse excessivamente, accordaram-n'o.
—O que tem? perguntou-lhe Maria. Não quer hoje levantar-se?
—Não é nada, respondeu elle, fitando-a mansamente e procurando saccudir a somnolencia que o dominava. Estou muito constipado, tenho o peito muito opprimido. Creio que foi do vento que hontem apanhei lá em baixo. Isto com agasalho cura-se.
—Mas é melhor chamar o medico. Quer?
—Para mim não era preciso. Mas se tu ficas assim mais descansada, manda-lhe dizer que venha cá.
Maria saiu e Claudio immediatamente caiu n'um somno pesado, a respiração frequente e anciada.
O dr. Carvalho veiu cerca do meio dia. O doente até então não cessára de dormir. Apenas accordava quando o chamavam, e logo cerrava os olhos, continuando em torpor.
—Está muito doente! disse o dr. para Maria. Eu vou á villa e volto já para lhe pôr um caustico. Tenho medo que não lhe façam isso em termos.
E saiu a entrar na carruagem que o levou á pharmacia.
—Oh! disse o boticario, vendo-o apear-se ligeiro, vem hoje muito atarefado!
—Quero um caustico para o dr. Claudio que está muito mal.
—Sim!?... Então com quê? perguntou o boticario abrindo um armario envidraçado e tirando um grande frasco com um rotulo em lettras d'oiro.
—Tem uma pneumonia. E o pulso... Que desconcerto!...
—Se aquelle organismo não estivesse tão depauperado, continuou o dr., sangrava-o, mas assim... não me atrevo.
—Não sei o que será... não sei o que será, repetia inquieto. Olhe, deixe-me vêr uma folha de papel que sempre quero avisar a familia. Que elles não se importam mas, se não vierem, não ha de ser por minha culpa.
E sentou-se a escrever, pedindo ao boticario que mandasse a carta para Coimbra, no correio da tarde.
A applicação dos medicamentos não deu resultado. A pneumonia seguiu os seus tramites.
Claudio conhecia mal o seu estado. Ás vezes chamava as pessoas de casa, levado por uma vaga saudade, procurando combater o somno que o ia dominando e luctando por despertar a consciencia! Tinha então palavras carinhosas, principalmente para Maria.
—Estou a dar-te tanto trabalho... Tem paciencia, tem paciencia, sim?
Esses momentos eram, porém, cada vez mais raros.
Ao terceiro dia, já noite adeantada, perguntou por um velho creado que fôra de sua mãe e se chamava Luiz.
O creado veiu sem demora, mas entretanto Claudio adormecia novamente.
—Está aqui o Luiz, está aqui o Luiz, disse Maria tentando despertal-o.
O creado tinha ajoelhado junto da cabeceira da cama e inclinava sobre o doente o craneo calvo, orlado de raros e longos cabellos brancos. Claudio entreabriu os olhos, quiz afagal-o, levantou ligeiramente o braço, e a mão rolou pela cabeça do velho, caindo novamente, quasi inerte, sobre o leito.
Foi o seu ultimo movimento consciente. Depois não se sentiu mais que um estertoroso arfar.
Pela manhã, abriram a janella, cuidando que a frescura do ar alliviaria a agonia. A luz do sol foi bater no leito e cercou o moribundo d'um esplendor de gloria entre o perfume da madresilva e o canto das aves que alegremente cantavam a eterna alleluia dos seus amores. Distante, ouvia o balido do rebanho que o pastor levava a beber no regato. Era uma festa de canticos angelicos.
De repente, a respiração pareceu baixar docemente. Houve no quarto um murmurio de lagrimas e de soluços; instinctivamente todos ajoelharam, e alguem disse:
—Acabou.
Maria levantou-se, inclinou-se sobre o cadaver, cerrou-lhe os olhos e, soluçando, abraçou-o.
Algumas horas depois chegava Jorge.
No alvoroço que em casa de Laura produzira a carta do dr. Carvalho, tinha resolvido D. Maria Francisca, porque o marido estava para a Beira, pedir a Jorge que viesse vêr o amigo.
Ainda se lembrou de aconselhar á filha que fosse a Villalva. Parecia-lhe elegante, de bom effeito no publico, esta reconciliação á hora da morte. Mas a filha revoltou-se.
—Isso nunca!... Não é pelas offensas que elle me fez, é porque a minha dignidade não me permitte entrar ali n'aquella casa e pôr-me a par com uma mulher réles...
—Bem, bem, não te exaltes, filhinha. Eu cuidarei de tudo, rematou D. Maria Francisca.
Foi então que telegraphou a Jorge.
Este veiu immediatamente, por Coimbra, para saber os desejos dos Albuquerques.
Laura desmaiou mal o viu, e a mãe levou-a em braços para o quarto, voltando á sala alguns minutos depois.
—Coitadinha! Muito tem soffrido! Eu nem sei como ella póde...
Mas logo, sem poder conter-se, continuou:
—Eu o que receio é que haja algum testamento e elle tenha passado tudo para as mãos d'essa mulher que lá tem!... O meu querido Jorge verá. Se não houver nada, peço-lhe que tome conta de tudo e, se houver, faça então como entender. Elle está muito mal, segundo o que o dr. Carvalho me diz, até talvez a estas horas tenha morrido... O que lhe peço tambem é que me mande um proprio, a cavallo, para se tratar do enterro logo que elle falleça.
Com estas instrucções partiu para Villalva onde foi encontrar o amigo, morto, sobre o leito, já lavado e vestido pelas mãos de Maria e do creado Luiz.
Não se atreveu a entrar sem pedir que o annunciassem a Maria. Ella veiu recebel-o á sala.
Jorge não teve coragem de articular uma palavra, tão grande era a commoção em que todo este drama o lançava.
Foi Maria que singelamente resolveu a situação, dizendo-lhe magoadamente e reprimindo as lagrimas:
—Então o senhor era o amigo d'elle?!... Ai! Que pena não ter vindo mais cedo!... Fallava tanto no Jorge quando delirava... Parecia que lhe queria dizer alguma cousa...
Immediatamente, como prescrutando n'um breve esforço o que significava ali a presença de Jorge, entre as lagrimas que já não podia mais conter, perguntou:
—Vem buscal-o, não é verdade?... E elle que tanto queria ficar ali ao pé da mãe!...
Pela manhã veiu um carro funerario, com penachos negros, a balouçarem-se no macadam, sobre o qual pozeram o caixão que continha o cadaver de Claudio. Maria viu-o affastar-se, de joelhos, orando ao pé da janella e pedindo, não a Deus que o tivesse junto de si porque no seu espirito não podia haver duvida sobre a salvação de Claudio, mas a Claudio que junto de Deus a protegesse e amparasse com o seu auxilio. O carro desappareceu entre as ramagens dos choupos que orlavam a estrada; ella voltou os olhos para os cyprestes do cemiterio, como querendo instinctivamente prender-lhes qualquer cousa que lhes roubavam, e ergueu-se a dar o peito ao filho que se movia no berço.
Levaram o corpo de Claudio para a egreja de Santa Cruz e pozeram-n'o sobre um catafalco rodeado de tochas accesas e muitas velas em serpentinas de prata. Cobriram-n'o de corôas feitas de pannos tingidos, em fórma de flores, e aos pés do caixão, do meio d'esse montão informe de enfeites, pendia uma fita preta com grandes lettras douradas, dizendo:
Eterna saudade da sua Laura.
Em seguida aos responsos, pôz-se tudo a caminho do cemiterio. Um lente da Universidade dizia na carruagem para o juiz que o acompanhava:
—Vão mais de quarenta trens! Este Albuquerque tem ainda uma grande influencia!...
—Pois não tem! respondia o juiz. O genro, se não fosse tolo, podia ter feito uma linda figura. Ainda nas ultimas eleições se lembraram de o eleger deputado por Vizeu. Quem sabe?... Talvez ainda agora vivesse!...
Passados tres dias, n'aquelle campo em que Claudio costumava trabalhar, uma creança brincava á sombra das oliveiras. Ao lado, uma mulher, vestida de negro, ceifava o azevem. Era Maria.
Á mesma hora, em Coimbra, rodavam as carruagens a caminho do palacio dos Albuquerques. Ali, trocavam-se palavras doces em meio das paredes despidas dos seus adornos. Laura e a mãe discutiram longamente, maduramente, quantos vestidos havia a fazer, e resolveram mandar vir da capital uma modista em voga.
—Porque, dizia D. Maria Francisca, sempre é lucto de mais d'um anno!... Aqui fazem-te lá alguma cousa em termos?! Não has-de andar todo esse tempo com vestidos desageitados. Depois, vem a Figueira e precisas ter com que te apresentes. Tu bem sabes como aquella gente de Lisboa repara...
FIM