Scena I.
Coelho, e Pacheco.
Coel. Vão decidir-se em fim nossos destinos: Este o dia arriscado, em que a Fortuna Segura mão nos dá, ou nos despenha: Ou morre Ignez de Castro, ou nos perdemos. Resolutos a tudo, he necessario Os p'rigos affrontar; deve hum Valído, No cume da grandeza vigilante, Aos Adversarios seus tramando a ruina, Primeiro que o derrubem, derruba-los; O futuro prever, prever a itriga, E destro em conhece-la, e maneja-la, A vida antes perder que o valimento. Nosso plano atéqui tem produzido O desejado effeito. Affonso irado, O Principe em prizão, tudo parece Prometter-nos hum exito ditoso. Tens tu já prevenido, alliciado Os poucos Conselheiros, que nos restão? Constantes votarão de Ignez a morte?
Pach. Apenas lho propuz, m'o assegurárão; Dependentes de nós em gráo mais baixo, A hum leve aceno autómatos flexiveis, Eccos da nossa voz, a nosso grado Amoldando-se a tudo, a tudo prestes, Servir nossos caprichos tem por gloria. Entre todos D. Sancho unicamente Velho estoico, singelo em demasia, Que as honras, e os empregos menoscaba, Poderá combater nossos designios; Mas Alvaro Gonçalves, que se int'ressa Igualmente que nós d'Ignez na morte, Se incumbio de sonda-lo, e persuadi-lo.
Coel. Desnecessario he, que, encarregado Da guarda de D. Pedro, elle não pode Ao Conselho assistir. Nada mais resta Do que azedar a cólera de Affonso, Dar-lhe a beber na taça da Justiça Adoçado veneno, que o perturbe, E a voz da compaixão d'alma lhe affaste. Convém não perder tempo: aproveitemos Propicia occasião, que fugir pode: Vamos...
Pach.(35) Espera...
(35) Pensativo.
Coel. ............ Que! tu desfalleces!
Pach. Confesso que algum tanto perturbado O coração não sei que me annuncia... Calculemos melhor sobre o futuro. Inda mesmo suppondo inevitavel, Suscitada por nós, de Castro a morte, He de temer que o Principe ferido Na parte mais sensivel da sua alma, Raivando inexoravel, desesp'rado, Sobre nós descarregue atroz vingança. Quem poderá suster?..
Coel. .............. Tarde receias: Nas bordas já do aberto precipicio, He preciso transpo-lo, ou cahir nelle: Retroceder o passo não podemos. Assaz já sabe o Principe quaes sejão As nossas intenções, nossos conselhos; Seu odio contra nós he já sobejo. Que lucraremos pois, se ora cobardes Da começada empreza desistirmos?.. Apressar nossa ruina, exacerba-la? Se foi razão bastante a conspirar-nos Contra a vida de Ignez, justo receio De ver hum dia alçada sobre o Throno A Irmã de nossos feros inimigos, Que em nosso damno então fartar podessem A perpetua aversão que nos jurárão; Se a nossa ruina assim era infallivel; Quanto mais o será tendo attrahido Do Principe o rancor!.. Proseguir firmes He somente o recurso que nos resta. Morta Ignez, com o tempo talvez possa O Principe, esquecendo-a, sujeitar-se Ao Consorcio, que Affonso lhe prescreve, E, apagada a paixão, ver-nos sem odio. Ou victima talvez d'amor infausto, De saudades mirrado, não podendo Sobreviver a Ignez idolatrada, D'Ignez á sepultura a dor o arraste. Affonso ha de entretanto defender-nos, E se acaso abortarem finalmente Nossos designios todos, então mesmo Não me hei de arrepender de os ter forjado: Antes quero morrer, inda o repito, Do que ser por meus émulos calcado, Contemplados Irmãos d'huma Rainha.
Pach. Sentimentos iguaes me fervem n'alma; Eia, tudo se arrisque; prosigamos: Descarregue-se o golpe derradeiro, Inda que, errando-o, sobre nós desfeche. Eu parto a congregar os Conselheiros, Segurar inda mais todos os votos; E tu no emtanto ao Rei procura, e move; Sua colera atiça; que eu não tardo, Juntos os do Conselho, a vir chama-lo.
Coel. Bem: não poupes promessas, nem t'esqueça Desculpar ante o Rei sempre a D. Pedro, Fazendo recahir de seus arrojos Sobre Ignez tão somente a culpa toda. Affonso para aqui dirige os passos... Não percas tempo, vai.