Scena I.

D. Affonso.

Que afflicção, que tumulto n'alma sinto! Vacillante, confuso, atribulado, Mal posso respirar. Ceos! que tormento! D'hum lado a compaixão, d'outro a Justiça... Formidavel Justiça! Em fim venceste. Satisfeito estarás, dever tyranno... O supplicio de Ignez... Oh Deos, e pude, Tremendo, subscrever da sua morte A rigida sentença!.. Eu me horroriso: Dentro em meu coração queixosas sinto Bradar a compaixão, e a natureza... Que! surdo á sua voz, consentir devo, Que á morte, a meu pezar, severamente Seja a Mãi de meus Netos condemnada? E por que crimes? Por amar meu Filho? Ah, não: he tempo ainda; revoguemos A sentença cruel... Porém que faço?.. O público socego, o bem do Estado, O popular clamor, o exemplo, tudo, Tudo em fim contra a triste me constrange, E me estorva o prazer de perdoar-lhe, Ah, dura condição! Pezado Sceptro, E haverá quem dos Reis inveje a sorte? Tormentoso lugar, terrivel Solio, Assento d'afflicções, e de amarguras; Desgraçados aquelles que te occupão!