Scena III.
D. Affonso, Ignez, Elvira, e os meninos.
Ign. Chegai, filhos, chegai, vinde prostrar-vos Aos pés de vosso Avô; vinde beijar-lhe Pela primeira vez a Mão Augusta.(38) Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho, Que vem com tristes lagrimas rogar-te, Que desta triste Mãi te compadeças. Chorai, chorai comigo, tristes filhos, Intercedei por mim com vosso pranto, Pranto mais expressivo do que as vozes, Que a vossa tenra infancia não permitte: Ajudai meus lamentos, minhas preces, Impetrai meu perdão. Sim, Rei clemente, Eis a Mãi desgraçada de teus Netos, Que abraçada com elles te supplica, Que a misérrima vida lhe conserves. Sei que vai decretar-se o meu supplicio! Alvo da intriga, victima da Inveja, Temerosa, infeliz, desamparada, A morte já diviso, a injusta morte, Que raivosos, tyrannos Conselheiros, Illudindo a piedade de tua alma, Fulminão contra mim... Que atrocidade!.. Porque enormes delictos sou punida?.. Amar, Senhor, teu filho, ser amada, Crime acaso será digno de morte? Imploro, ouso attestar tua justiça. Ah! Consulta, Senhor, tua clemencia, Teu coração consulta, que elle mesmo Te ha de dizer, que a morte nao mereço.
(38) Prostra-se com os meninos aos pés de Affonso, e Elvira se retira.
Af. Levanta-te, infeliz...(39) Oh Natureza!(40) Oh de hum Monarcha rigidos deveres!.. Levanta-te, infeliz.(41) Funesta origem Das crueis afflicções que me consternão... Ao ver-te me enfureço,... e me commovo... O Pai quer perdoar-te... o Rei não pode.
(39) Enternecido.
(40) Vai abraçar os netos, volta o rosto afflicto e exclama.
(41) Levanta Ignez.
Ign. Ah Senhor! Perdoar aos desgraçados He dos Reis o poder mais doce, e augusto: Sim, do teu coração segue os impulsos; Triunfe a compaixão, e a natureza, Não te has de arrepender por ser piedoso; Antes porém, se á morte me condemnas, Hão de eternos remorsos flagellar-te, Incessantes angustias consumir-te: De Portugal a gloria, as esperanças Vão sobre a minha campa espedaçar-se. Verás por ti mandado á sepultura Comigo, a teu pezar, descer teu filho. Matando-me, Senhor, ah, vê que o matas! Os nossos corações, unidos ambos, Tão ligados estão, que o mesmo golpe Que retalhar o meu, tràspassa o delle; Existir hum sem outro não podemos... Por elle, e não por mim t'imploro a vida. Sim,(42) de rojo outra vez torno a abraçar-me Com tuas Regias Plantas. Tem piedade Da Esposa de teu filho. Ah, se não fossem Estas doces prizões, que me constrangem A viver infeliz, e amar a vida, Longe de instar por ella, sem queixar-me, Tranquilla recebêra o fatal golpe... Mas deixar para sempre o que mais amo!.. Sou Esposa, sou Mãi... Ceos! Desfalleço!(43) Queridos filhos... Desgraçados orphãos!.. E que será de vós quando vos falte. A mais terna das Mãis, o Pai mais terno!.. Ah Senhor! Se inflexivel ao meu pranto, A minha situação te não commove, Presta ouvidos á voz da Natureza: Mova-te a compaixão o desamparo Destas victimas tenras, e innocentes: Elles culpa não tem dos meus delictos. Não te lembres, Senhor, que são meus filhos; Ah, não: lembra-te só, que são teus netos... Mas tu choras? Que vejo! Os Ceos me ouvírão: Tuas lagrimas vem em meu soccorro, Ellas o meu perdão já me annuncião. Acaba de extinguir os meus temores, Dize, dize, Senhor, que me perdoas.
(42) Prostra-se outra vez aos pés de Affonso.
(43) Abraça os filhos com a maior ternura, e afflicção.
Af. Não posso resistir... Oh quem podéra Neste instante deixar de ser Monarcha!