Scena IV.
D. Pedro, Ignez, e D. Sancho.
Sanc. ................... Senhor: ah! corre, Vem esperar teu Pai.
Ign. .............. Oh Ceos!
Ped. ...................... Que dizes?
Sanc. Dirigido a Coimbra em veloz marcha Partio da Corte Affonso, aqui não tarda.
Ign.(7) Agora sim, minha desgraça he certa.
(7) Fallando comsigo mesma.
Ped. (8) Meu Pai? oh Ceos!.. meo Pai?
(8) Pensativo, e admirado.
Sanc. ........................ Coelho, e Pacheco, Seus crueis Conselheiros, o acompanhão: Toda a Corte, Senhor, em sobresalto Ficou co'esta partida inesperada: Mendonça que ligeiro vem trazer-te A importante noticia, assim o affirma: Murmura o Povo já de recusares As nupcias de Beatriz, que applaudem todos.
Ped. Murmure muito embora, embora venha Armado de poder, ardendo em raiva, Da vingança, e das furias escoltado, Esse a quem por meu mal devo a existencia; Que, se intentar comigo ser tyranno, Ha de em seu filho achar hum inimigo Capaz dos mais tremendos attentados; Que em casos taes os crimes não são crimes, São forçoso dever das almas grandes. Espera-lo não vou.
Sanc. ........... Senhor, que fazes?
Ped. O que me apraz fazer.
Ign. .................... Oh Ceos! Nem posso Das tuas expressões horrorizada, Soltar do coração tremulas vozes: Fallem por mim as lagrimas que choro... Não me consternes mais. Ah! vai, não tardes; Vôa a encontrar teu Pai, se ver não queres Estalar de afflicção a tua Esposa.
Ped. (9) Eu vou satisfazer-te, sim eu parto; Vou rasgar do segredo a cauta venda: Saiba, sim, saiba Affonso antes que chegue Estes sitios a entrar, que Ignez habita, Que a deve respeitar como Princeza; Que inquebravel prizão a Ignez me liga.(10)
(9) Depois de ficar hum pouco pensativo, diz resoluto.
(10) Em acção de partir, e D. Sancho retendo-o.
Sanc. Oh Ceos! Não faças tal, melhor discorre; Para lhe revelar hum tal segredo Occasião mais opportuna espera: A cólera azedar não vás de Affonso; No transporte cruel das suas iras, Bem sabes que he capaz...
Ped. ................... De que? De nada: Mais de mim, do que eu delle, tremer deve... Se ousasse contra Ignez... Ah! nem pensa-lo. Para vingar o seu menor insulto Seria pouco todo o sangue humano.
Ign. Bem me dizia o coração presago... Meu mal he sem remedio; o proprio Esposo He quem vai despenhar-me no sepulchro. Meus crueis inimigos não me assustão: O popular tumulto, hum Rei severo Nada temo, ai de mim! a ti só temo. Ah! Lembra-te, Senhor, do que juraste Antes de conduzir-me ás sacras Aras, Onde eu te não seguira, se primeiro Tu me não prometesses guardar sempre O devido respeito ao teu Monarcha, E a paz não perturbar dos seus Dominios: Tu não has de faltar, o tempo he este, Que eu já prevía então: oh caro Esposo! Lança do coração fataes transportes; Não percas tempo, vai, corre a prostrar-te Aos pés do grande Affonso; mas submisso, Ao beijar de teu Pai a mão augusta, Sobre ella de teus olhos chova o pranto. Pondera que te perdes, que me perdes, Se com elle furioso praticares; Só nos pode salvar docil brandura: Se não queres matar-me, sê submisso.
Ped. O temor de affligir-te pode tudo. Respeitoso serei, terei brandura, Se elle brandura igual usar comigo. Nada temas, Princeza: Adeos. Eu juro Pelos Ceos outra vez, e por ti mesma, Que inda que o Mundo inteiro se me opponha, Castro ha de ser de Portugal Rainha.(11)
(11) Parte.
Ign. Não te apartes, D. Sancho, do seu lado: Moderem teus conselhos seus transportes.
Sanc. Dai forças, justos Ceos, ás minhas vozes, Lançai a Portugal piedosas vistas.