INTRODUCÇAÕ Á OBRA.

Entrey na laboriosa empreza deste Mappa naõ só para instruir aos Nacionaes principiantes, mas especialmente para informar com individuaçaõ sincéra aos estrangeiros do estado verdadeiro do nosso Paiz; considerando, que só assim poderiamos atalhar os continuos erros, e descuidos, que se observaõ ainda nos Authores modernos, que sem conhecimento das nossas terras chegaõ a fallar de Portugal.

Elles attribuem esta ignorancia à falta de quem lhes communique huma exacta Geografia do nosso Continente, e ao menos hum epitome historico das mais importantes, e publicas acções. Atrevi-me a cultivar este meu projecto, naõ obstante verme suspenso com o embaraço de naõ ter cabedal sufficiente para desempenhar a idéa; porém como ha assumptos, cuja utilidade unida à boa intençaõ do Escritor costuma supprir os defeitos da Obra, cheguey a publicar cinco partes, que correndo pelo mundo, tiveraõ a felicidade do benigno acolhimento que experimentaraõ dos curiosos.[1]

Agora porém que se fez precisa esta nova, e segunda ediçaõ por falta de exemplares da primeira, achey conveniente augmentalla com opportunos retoques, e novas especies proprias do assumpto; entre as quaes me pareceo indispensavel fazer algumas observações sobre o Mappa.

Com razaõ disse Justo Lipsio[2] que o invento dos Mappas fora a mais engenhosa idéa em que os homens tinhaõ dado; pois em breve espaço, e a huma vista nos mostra todo o mundo, e por elle conhecemos o sitio, e grandeza de cada Reino, Provincia, ou Lugar. Attribue-se esta invençaõ aos Egypcios, e particularmente a ElRey Sesostris, como diz Diodoro Siculo[3] posto que Diogenes dê a primazia a Anaximandro[4] discipulo de Thales Milesio.

Porém ou fosse hum, ou outro, he infallivel que os Mappas naquelle tempo naõ eraõ delineados, como agora saõ as Cartas Geograficas, mas eraõ humas Taboas dispostas em columnas, em que se demarcava a altura das terras; assim como vemos nas de Ptolomeu, e nas chamadas Theodosianas.[5] Depois se foraõ expressando em globos, ou esferas, de que faz mençaõ o mesmo Ptolomeu,[6] e de Roma se divulgou este uso para todas as mais terras do Universo.

Costumaõ pois os Mappas ser ordinariamente delineados em dous circulos, que representaõ dous meyos globos com huma linha que os atravessa pelo meyo, que significa a Equinocial, e elles o globo terrestre expressado em plano. No alto está o Polo Arctico, a que tambem chamaõ Polo Septentrional, ou do Norte. Na parte mais infima está outro Polo chamado Antarctico, ou do Sul. Á maõ direita fica o Oriente, e à esquerda o Occidente.

Para cada huma das partes da Equinocial correm outras duas linhas, que significaõ os Tropicos. A que está para a parte do Norte he o Tropico de Cancro; e a que está para a parte do Sul he o de Capricornio. A linha que corre obliquamente de hum dos Tropicos para o outro, cortando a Equinocial, significa a Ecliptica; ainda que esta naõ se pinta em todos os Mappas.

As linhas, ou riscos que correm de Norte a Sul, denotaõ os gráos de longitude, e as que correm de Nascente a Poente, cortaõ, e mostraõ os gráos de latitude, os quaes começaõ da linha Equinocial, e acabaõ de huma parte do Norte, da outra no Sul. De modo, que da Equinocial para o Norte ficaõ oito linhas das sobreditas, as quaes estaõ distantes huma da outra 10. gráos; e assim denotaõ os 90. gráos, que ha da linha Equinocial ao Norte. Na mesma fórma se contaõ outras tantas linhas da Equinocial para o Sul.

Estas linhas, em que se mostraõ os gráos, tambem costumaõ escreverse pela orla dos Mappas; e advirta-se que as linhas de Norte-Sul, ou Meridianos, sempre se vaõ chegando humas a outras cada vez mais, quanto mais se vaõ chegando para algum dos Polos: e assim desde que passaõ da Equinocial, nunca os gráos tem a mesma quantidade; donde he certo, que as terras, que estaõ v. g. debaixo do circulo Arctico, naõ podem estar entre si taõ remotas, como as que estaõ debaixo da Equinocial, ou de cada num dos Tropicos.

O mais util dos Mappas he a intelligencia da sua graduaçaõ; para o que se ha de saber, que o gráo he o espaço de 18. leguas.[7] E foy necessario inventar a conta dos gráos, para declarar a parte onde está arrumada a Cidade, ou Lugar que queremos saber, e onde o havemos buscar no Mappa; e para isto he preciso naõ só o gráo de altura, ou latitude, mas o de Leste-Oeste, ou de longitude.

Chama-se gráo de latitude, porque ainda que o Mundo seja redondo, e nos globos naõ haja mais largura que comprimento, com tudo como estes gráos se contém da linha para cada hum dos Polos, a este respeito se diz esta a largura, ou latitude do mundo; e contém sómente a quarta parte do comprimento. Desorte que tendo o mundo 360. gráos de comprimento, ou de Leste-Oeste, tem só da linha para o Norte 90., e outros tantos da linha para o Sul.

Os gráos de altura começaõ da linha; desorte que se estivermos 18. leguas affastados da linha para o Norte, diremos que estamos em hum gráo de altura do Polo da parte do Norte: e se estivermos 36. leguas, diremos que estamos em dous gráos de altura do Polo; e daqui por diante até 90. gráos: e do mesmo modo da parte do Sul. Chamaõ-se gráos de altura do Polo, porque assim como elles vaõ crescendo, assim se vay levantando para nós o Polo sobre o Horizonte.

Saõ os gráos de longitude, ou comprimento 360., e porque de Oriente para Occidente, ou vice versa, naõ ha final algum fixo, a respeito do qual se podessem assentar os gráos, e começar a conta delles, de consentimento de homens sabios, huns assentaraõ o principio, e fim desses gráos na Ilha do Corvo, outros na de Tenarife; porém modernamente o estabeleceraõ na Ilha do Ferro, que he a mais Occidental das Canarias, e corre do Occidente para o Oriente.[8]

Para assentar estas distancias, e gráos, foy necessario o conhecimento dos eclipses da Lua; porque como sejaõ no mesmo ponto em toda a parte, Ptolomeu, e outros companheiros desejosos de alcançar quantos gráos huma terra ficava mais oriental que outra, nos tempos em que haviaõ succeder os eclipses se hiaõ àquelles lugares, e observavaõ a hora da noite, que nelles era o eclipse, e sabida ella, ficavaõ entendendo quanto huma terra estava mais oriental que outra; porque aquelles lugares onde o eclipse apparecia mais tarde, he certo que ficavaõ mais orientaes, pois nelles mais cedo anoitece, que nos outros mais occidentaes.

Todavia parece que nestes gráos, e no assento dos lugares, e terras a respeito delles naõ póde haver muita certeza; porque ella naõ podia acharse senaõ pela dita experiencia, que naõ seria possivel fazerse em todos os lugares; e menos naquelles que depois se descobriraõ. Assim advertimos que nos Mappas se acha entre huns, e outros diversidade nos gráos de longitude, porque huns principiando por differente Meridiano poem os lugares em mais, outros em menos gráos. Vê-se isto nesta observaçaõ que fiz sobre a longitude de Lisboa, segundo as Cartas Geograficas de varios Authores.

Altura de Polo de Lisboa conforme diversos Geografos nas Cartas de Portugal.

Latitud.Longit.Carta Geografica de
gr. m.gr. m.
38. 58.7. 12.Fernando Alvares Seco.
38. 26.9. 54.Mons. Sanson.
38. 33.......P. Du-Val.
38. 53.10. 5.Pedro Mortier.
38. 55.5. 15.Francisco Halma.
38. 40.7. 45.Carlos Allard.
38. 40.10. 14.Joaõ de Ram.
38. 48.7. 42.Nicoláo Vischer.
38. 35.7. 37.P. Placido Agostinho.
38. 40.12. Joaõ Bautista Lavanha.
38. 35.9. 52.Joaõ Bautista Nolim.
38. 48.8. 6.Mons. Tailot.
38. 50.9. 45.Jacome Canteli.
38. 40.12. Gaspar Baillieu.
38. 48.9. 12.Joaõ Bautista Homannu.
38. 40.7. Pedro Teixeira.
38. 48.9. 15.Manoel Pimentel.
38. 45.......P. Capassi.
38. 39.......P. Dechales.
38. 40.......P. Ricciolo, e Tosca.
39. 38.5. 10.Petavio.

Desorte que em todas as Cartas Geograficas se encontra differença nas longitudes. Advirto que para a formatura d’este Mappa me vali da Carta de Joaõ Bautista Homannu impressa no anno de 1736, por ser a que mais se ajusta às computações da Arte de navegar do nosso insigne Cosmografo Manoel Pimentel, tidas pelas mais exactas.

Da intelligencia do gráo de longitude em que estiver algum lugar, segue-se o effeito de se saber quanto está oriental, ou occidental a respeito de outros, e quantas leguas ha de hum a outro, estando na mesma altura de Polo, contando 18. leguas por cada gráo nas terras que ficaõ perto da linha. Segue-se tambem saberse quanto nasce, ou se poem o Sol mais cedo em huma terra, que em outra; pois naquella que está mais oriental hum gráo que outra, nasce, e se poem o Sol primeiro quatro minutos de hora: e na que está mais oriental 15. gráos, nasce, e se poem o Sol huma hora primeiro. Isto se entende em iguaes alturas do Polo; por quanto póde huma terra ser mais occidental que outra, e nascer-lhe muito mais cedo o Sol no Veraõ, por causa da sua mayor altura do Polo.

Mayores effeitos resultaõ do conhecimento dos gráos de latitude; porque se sabe se o lugar está muito chegado à linha, ou pelo contrario ao Norte; se a terra será quente, temperada, ou fria: se a gente será alva, negra, ou morena, segundo a observaçaõ ordinaria fundada na mayor visinhança, ou distancia do Sol. Tambem fica manifesta a quantidade dos dias do anno; porque quanto menos saõ os gráos de altura, tanto mais saõ iguaes os dias com as noites.

Finalmente do conhecimento do gráo de longitude, e latitude juntamente resulta numa apta noticia para buscar no Mappa a terra que sabemos está em tal gráo, e as leguas que dista huma da outra. Mas porque he util saber a diversidade que ha de medidas itinerarias, conforme as varias accepções das Provincias, informarey dellas com a melhor exacçaõ que me foy possivel extrahir dos Authores.

Braça Portugueza.10. palmos de craveira, ou 6. pés, ou 80. polegadas.
Covado Portuguez.3. palmos, ou 2. pés Portuguezes
Dedo.4. grãos de cevada lateralmente unidos.
Gráo em Portugal.18. leguas.
Em Alemanha10. leguas das grandes: 12. das medianas: 15. das pequenas, conforme diz Briecio; porém segundo Cluverio em Alemanha hum gráo da Esfera corresponde na terra a 5. leguas das grandes, ou a 10. das medianas, ou a 15. das pequenas.
Em Italia.60. milhas.
Em França.20. leguas das grandes, e 25. das commuas.
Em Inglaterra.27. leguas das grandes: 50. das medianas: 60. das pequenas.
Legua Portugueza.28168. palmos craveiros, ou 2818. braças de 10. palmos cada huma, ou 3000. milhas Italicas.
Alemã grande.6000. passos geometricos.
Mediana.5000. passos.
Pequena. 4000. passos, segundo Briecio.
Italica. 1000. passos.
Franceza. 3000. passos.
Ingleza. 2181. passos geometricos.
Castelhana. O mesmo que a Portugueza.
Milha. 1000. passos.
Palmo craveiro 8. polegadas.
Passo commum 4. palmos e meyo, ou 3. pés.
Andante. 3. palmos, ou dous pés.
Geometrico7. palmos e meyo de craveira escassos, ou 5. pés geometricos.
Pé Portuguez.12. polegadas, ou palmo e meyo de craveira.
Francez. O mesmo.
Polegada. 10. pontos, ou linhas.
Toeza.6. pés Regios. He propriamente medida Franceza.
Vara Portugueza.5. palmos.
Valenciana. 4. palmos.
Verga. 10. pés geometricos.

Entendida a configuraçaõ dos Mappas, ou Cartas Geograficas universaes, facilmente se entendem as particulares; as quaes se forem de hum Reino, se chamaõ Corograficas; e se representarem huma só Provincia, ou Cidade, se chamaõ Topograficas. Nestas, para se saber a distancia que ha de hum lugar a outro, o modo mais facil he applicar no Mappa hum pé do campasso ao centro da cifrasinha, que em todos os lugares costuma vir expressada na sua verdadeira situaçaõ local, e o outro pé à outra terra; e depois transferindo assim o compasso aberto ao petipé, ou escala das leguas, que se poem na parte mais desembaraçada da Carta, este lhe mostrará a distancia.

Porém se a distancia dos lugares achados for mayor na abertura do compasso, que a graduaçaõ do petipé, entaõ se tomará neste huma distancia arbitraria de 10. ou 20. leguas, e transferindo o compasso ao corpo do Mappa, irá regulando por linha recta de hum a outro lugar, até fazer justa a mediçaõ.

Ha outros modos de achar a distancia de hum lugar a outro, sabidas as suas latitudes, e longitudes verdadeiras, os quaes modos ensina a Trignometria por via das Taboadas dos senos, e tangentes. Tambem pelo quarto de circulo de reduçaõ, sabidas as differenças das latitudes, e longitudes, he muito facil, e exacto, cujo uso se póde ver na Arte de navegar do famoso Manoel Pimentel.

Pelo exame, e calculo destes modos formey as Taboas Topograficas, e itinerarias das principaes terras de Portugal, advertindo que as distancias das leguas de hum lugar a outro em as ditas Taboas saõ tiradas por linha recta, conformando-me com as Cartas Geograficas de Pedro Teixeira, e Joaõ Bautista Homannu, como já disse.

No mais estou certo, que assim como descubro defeitos nas Obras dos outros, naõ ficarey tambem isento da censura, e reparos que os doutos me fizerem, a cujo racionavel juizo me submeto; esperando que as suas advertencias me sirvaõ de instrucçaõ para a emenda. Sobre tudo protesto naõ haver escrito nesta Obra palavra, ou clausula que naõ seja totalmente sujeita à correcçaõ da Santa Igreja Catholica Romana, a cujo infallivel dictame rendo de boa vontade o meu entendimento.