NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Veja-se ao P. Azeved. no Trat. Ilias in nuce pag. 52.
[2] Lips. lib. 2. epist. 51.
[3] Diod. Sicul. l. 1. sect .2.
[4] Laertius in ejus vita.
[5] Ælian. l. 3. c. 28. apud Cellar. lib. 1. c. 1. Geograph. antiq.
[6] Ptolom. lib. 1. c. 24.
[7] Pimentel na Arte de Navegaçaõ part. 1. c. 3.
[8] Vallemont nos Elem. da Histor. l. 2. c. 3.
INDICE
DOS CAPITULOS DESTE
primeiro Tomo.
PARTE I.
| [Cap. I.] | Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino, [Pag. 1.] |
| [Cap. II.] | Memorias de algumas Povoações que existiraõ em Portugal, as quaes ou se mudaraõ em outras, ou totalmente se extinguiraõ, [5]. |
| [Cap. III.] | Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre, [29]. |
| [Cap. IV.] | Divisaõ antiga, [42]. |
| [Cap. V.] | Divisaõ moderna pelas Provincias, [45]. |
| [Cap. VI.] | Dos Montes, Promontorios, e serras de mayor nome, [81]. |
| [Cap. VII.] | Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais consideraveis, [99]. |
| [Cap. VIII.] | Das Fontes mais notaveis, [148]. |
| [Cap. IX.] | Das Caldas, [156]. |
| [Cap. X.] | Da Fertilidade do Reino em commum, [160]. |
| [Cap. XI.] | Dos Mineraes, [169]. |
| [Cap. XII.] | Das Moedas de ouro, prata, e cobre antigas, e modernas que se tem lavrado em Portugal até o presente, [177]. |
| [Cap.] | XIII. Da lingua Portugueza, [193]. |
| [Cap. XIV.] | Do genio, e costumes dos Portuguezes, [201]. |
PARTE II.
| [Cap. I.] | Memorias dos primeiros Povoadores da antiga Lusitania, [221]. |
| [Cap. II.] | Estado da Lusitania com a invasaõ dos Fenices, e Cartaginezes, [236]. |
| [Cap. III.] | Conducta dos Portuguezes no governo dos Romanos, [240]. |
| [Cap. IV.] | Entrada das Nações barbaras, e dominio dos Godos, [254]. |
| [Cap. V.] | Invasaõ, e dominio dos Mouros, [269]. |
| [Cap. VI.] | Erecção do Senhorio de Portugal separado dos mais dominios de Hespanha, e estabelecimento dos Soberanos Monarcas Portuguezes, [281]. |
| [Cap. VII.] | Catalogo das Serenissimas Rainhas de Portugal, [362]. |
| [Cap. VIII.] | Dos filhos legitimos, e illegitimos dos soberanos Reys de Portugal, [376]. |
| [Cap. IX.] | Do governo antigo, e moderno da Casa Real, [421]. |
| [Cap. X.] | Dos Officiaes, e ordem com que se assistia à mesa dos Reys, [428]. |
| [Cap. XI.] | Do acompanhamento com que os Reys sabiaõ pela Cidade, e caminhavaõ com a Corte, [433]. |
| [Cap. XII.] | Dos Officiaes destinados para a caça, e montaria, e das Coutadas do Reino, [437]. |
| [Cap. XIII.] | Do estylo com que os Principes, e Embaixadores estrangeiros eraõ recebidos pelos nossos Reys, e do modo com que estes assistem no acto de Cortes, [442]. |
| [Cap. XIV.] | Das ceremonias, e estylo que se praticava nas mortes dos Reys, [446]. |
Reyno de Portugal
MAPPA
DE
PORTUGAL.
CAPITULO I.
Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino.
Na parte mais occidental da Europa, como coroa de toda a Hespanha, sitio estabelecido da clemencia do Ceo para cabeça do mais dilatado Imperio, está collocado o famoso Reino de Portugal entre o parallelo de 37, e 42 gráos de latitude septentrional, e entre os 9, e 13 gráos de longitude,[9] cuja distancia intermedia reduzida a leguas, commensuradas pela margem maritima, vem a fazer 100 no seu justo comprimento, e 35 na sua mayor largura. De circumferencia tem 285 leguas: as 135 de ribeira maritima, respeitando alguns angulos; e as 150 de raya terrestre, conforme a Geografia Blaviana.[10]
2 Este calculo vay formado na hypotesi de que damos 18 leguas a cada gráo do Meridiano, e 14 a cada gráo do parallelo; e que o Reino tem de latitude 5 gráos com alguns minutos, e 3 de longitude.
3 As partes, ou limites confinantes saõ estes: Galiza fica-lhe ao Norte, ou Septentriaõ; a costa do Algarve ao Sul, ou Meyo dia; o mar Oceano, chamado de Portugal, pelo Occidente; e Castella a velha, Leaõ, e Andaluzia confinaõ pelo Oriente.
4 O primeiro nome, que teve este Reino, foy o de Lusitania, querendo os mais dos Geografos, e Historiadores que Luso, ou Lysias, filho de Baco, fosse o que pelos annos 800 do diluvio universal lhe conferisse o nome, deduzido com pouca differença do seu proprio.[11] Porém este systema taõ constantemente recebido, e patrocinado padece as contradições, que occasionaõ as fabulas, em que se funda.
5 Quem quizer dar credito ao doutissimo Samuel Bocharto,[12] a palavra Lusitania he vocabulo Fenicio, derivado da raiz Luz, que se interpreta Amydgdalum, isto he, Amendoa, dos quaes frutos foy sempre fertil Portugal:[13] e como os Fenices costumavaõ dar nome às terras, que habitavaõ, conforme os frutos, de que eraõ mais abundantes,[14] naõ parecia improvavel, nem incongruente esta conjectura, por ser estabelecida em historia verdadeira, se acaso naõ tivera tambem a objecçaõ de serem os Fenices os que só povoaraõ a costa do cabo de S. Vicente, que naquelle tempo naõ se chamava Lusitania, mas Celtica.
6 Mons. de La Clede[15] tem por etymologia mais certa deduzir a palavra Lusitania dos antigos povos chamados Lusos, que habitaraõ este nosso continente, a qual na lingua Celtica significava homem de alta, e robusta disposiçaõ, vocabulo conveniente ao valor, e esforço dos antigos Portuguezes.
7 Quanto ao nome de Portugal, por naõ darmos derivaçaõ antiga a hum vocabulo moderno, temos por mais certo que se deduzio da povoaçaõ chamada Cale, que antigamente houve na margem austral do rio Douro, fronteira à Cidade do Porto: a qual povoaçaõ pela frequencia das gentes, que alli concorriaõ, se foy fazendo affamada. Depois com o progresso do tempo se deu este mesmo nome à Cidade do Porto, que se fundou defronte; e como a fortuna tambem favorece aos lugares, desde o anno 1057 pouco mais, ou menos, como quer Estaço, ou 1069 como dizem outros, se extendeo a todo o Reino aquelle nome de Portugal, que era proprio de huma só Cidade.[16]
8 Naõ averiguamos se a palavra Cale, como quer Joaõ Salgado de Araujo,[17] foy imposta por aquelles Gregos, que fizeraõ transito a estas partes com o Principe Meneláo, e fundaraõ huma povoaçaõ na foz do Douro com o nome de Cale, que significa Porto ameno, e seguro; porque naõ sabemos que haja historia verdadeira, em que esta memoria se possa fundar. Da mesma fórma rejeitamos todas as mais etymologias, como improvaveis, e nugatorias.
9 Inclue-se Portugal no clima sexto, e principio do setimo, e por isso he o seu mayor dia de 15 horas: mostrando-se neste breve espaço de terra, taõ benigna a inclinaçaõ do Ceo, que em algumas das nossas Provincias tempera de sorte os extremos do frio, e do calor, que faz confundir os tempos com suavissima equivocaçaõ.[18] Com esta favoravel temperança influem Sagittario, Capricornio, e Piscis com taõ feliz aspecto, respirando neste Reino ares taõ benevolos, que o constituem patria de todos; pois vemos que as gentes das mais remotas partes do mundo attrahidas da benignidade deste clima, para aqui vem, e aqui vivem longo tempo satisfeitos, sem estranharem a mudança dos ares, nem com a saudade da patria, nem com a ausencia de seus patricios.
10 Deste influxo celeste nasce a fertilidade de terreno taõ fecundo em todo o genero de frutos, summamente encarecidos dos Escritores antigos:[19] e se agora naõ experimentamos taõ grande abundancia, he porque nas comarcas do Reino se poupaõ mais ao trabalho da cultura com a esperança da providencia alheya: e quando as terras estaõ vagas, e ociosas, naõ podem corresponder a seus donos com fertilidades sufficientes.[20]